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27 maio 2024

O DESCONTENTAMENTO ESLOVACO DENTRO DA CHECOSLOVÁQUIA

27 de Maio de 1964. O New York Times publicava um artigo sobre aqueles temas que eram raramente abordados no Ocidente - os nacionalismos subordinados dos países da Europa de Leste. A simplicidade da propaganda tendia a descrever estes países como meros satélites da União Soviética sem mais. Mas, para além das especificidades, havia aspectos associados a alguns deles que lhes davam características únicas. A Jugoslávia e, neste caso, a Checoslováquia eram países recentes (1918) e que resultavam da agregação de mais do que uma nacionalidade. Neste caso, a notícia era oriunda de Bratislava, capital da Eslováquia, e instruía o leitor sobre o desconforto dos «quatro milhões de eslovacos» que «constituíam cerca de 20% da população» total da Checoslováquia (um número mais realista seria 28%). As causas para tal desconforto assentavam no facto de que, na condução da política nacional da Checoslováquia, predominava a maioria checa. E, quanto a relações de proximidade, o artigo não deixava passar algumas evidências da geografia, como o facto de que a distância de Bratislava a Praga, a capital da Checoslováquia, é de 330 km, enquanto a capital da Hungria, Budapeste, está a 200 km e, mais importante para a argumentação subjacente ao artigo, Viena, a capital da Áustria, está apenas a 80km! Mas até 1989, aqueles países eram ditaduras e estes assuntos eram encarados no Ocidente como preciosismos que não interessavam para a rivalidade Leste-Oeste. Só que não eram preciosismos, mas assuntos muito sérios para os directamente envolvidos: tanto assim que os dois países se dissociaram um do outro escassos anos depois do fim da Guerra Fria.

16 abril 2024

O ÚLTIMO RETOQUE NA «TEIA» DE TRATADOS DE AMIZADE E COOPERAÇÃO DO LESTE EUROPEU

Praga, 16 de Abril de 1949. Como dá conta a notícia do New York Times, Antonin Zapotocky pela Checoslováquia (à esquerda) e Istvan Dobi pela Hungria (à direita) assinavam naquela cidade um daqueles tradicionais tratados de amizade e cooperação que os países comunistas costumavam assinar entre si durante o período da Guerra Fria. Como o jornal americano fazia questão de frisar, este era o vigésimo primeiro e último tratado de uma rede de tratados do mesmo género que interligavam entre si a União Soviética e os seis países - o jornal empregava a expressão "democracias populares" entre aspas - do Leste da Europa. De fora, ficara apenas a Albânia e a Finlândia, concluía-se no jornal. Na Primavera de 1949 e ao mesmo tempo da constituição da NATO, aquele que costuma ser denominado por Bloco Leste - a esfera de influência russa até ao centro da Europa - estava tão formalmente definido quanto o seu rival ocidental. O exercício argumentativo a que os comunistas muito tempo se dedicaram a invocar depois disso, que o Pacto de Varsóvia só havia surgido seis anos depois da NATO, é apenas isso: um exercício argumentativo. Como se percebe aqui, os blocos já estavam claramente formados em 1949: a constituição do Pacto de Varsóvia em Maio de 1955 é apenas a criação de uma organização militar simétrica à NATO.

09 maio 2023

A INUTILIDADE DE UMA CONSTITUIÇÃO

Republicação
9 de Maio de 1948. Há precisamente 75 anos entrava em vigor uma nova Constituição da República da Checoslováquia. O país tornara-se uma ditadura: os comunistas haviam procedido a um Golpe de Estado dois meses e meio antes (21 a 25 de Fevereiro de 1948), mas este novo documento, que viera a ser redigido compassadamente desde o final da Segunda Guerra Mundial para substituir a anterior Constituição (redigida em 1920), ainda não incorporara a nova correlação de forças e o novo poder incontestado dos comunistas. Mas também, aparentemente, não interessava nada: no final desse mês (30 de Maio), uma daquelas milagrosas listas unitárias totalmente controlada pelos comunistas (aqui chamava-se Frente Nacional) arrebanhava 89,2% dos votos e a unanimidade da representação parlamentar. 214 dos 300 eleitos eram comunistas enquanto nas eleições anteriores de 1946, eles haviam conseguido 114, sem maioria absoluta. Por uma questão de decoro, durante os próximos doze anos (1948-1960), o regime comunista checoslovaco conseguiu conviver com uma Constituição de consensos mas anacrónica para a realidade do regime, até a substituir por uma outra (abaixo) que consagrava finalmente a Checoslováquia como a República Socialista em que se tornara. Uma constituição compatível não é algo de verdadeiramente indispensável para o verdadeiro revolucionário empenhado na construção de uma sociedade socialista (...ou uma ditadura comunista, depende da semântica). A Checoslováquia fica muito longe de Portugal, mas este exemplo checoslovaco não deve ter andado longe das cogitações de um pequeno punhado selecto de pessoas verdadeiramente instruídas que lideravam o nosso PREC, quando por cá se discutiu depois do 11 de Março de 1975 o âmbito das competências da Assembleia Constituinte que se elegeria em 25 de Abril daquele ano, cujos eleitos poderiam redigir a constituição que lhe aprouvesse, desde que assegurando que o poder executivo continuaria firmemente nas mãos do MFA (e da respectiva facção gonçalvista)...

14 março 2023

A MORTE DE KLEMENT GOTTWALD

14 de Março de 1953. Morte aos 56 anos de Klement Gottwald, que fora o presidente da Checoslováquia nos últimos cinco anos, desde o Golpe de Praga, o golpe que terminara com a Democracia e instalara uma ditadura comunista naquele país. A notícia não o esclarece mas Klement Gottwald tinha vários problemas de saúde: era cirrótico e fora sifilítico, o que lhe causava problemas cardíacos. Mas a ironia dialéctica do falecimento, de merecer este destaque, é que ele terá ocorrido em consequência de uma pneumonia que o presidente checoslovaco apanhara em Moscovo quando ali se deslocara para o funeral de Staline. A consequência torna-se tanto mais consentânea quando se sabe que, ainda hoje, Klement Gottwald é a pessoa da História da hoje desaparecida Checoslováquia que mais personalizará a completa submissão dos checos e dos eslovacos aos interesses russos e à cópia do seu modelo político-social. Abaixo são algumas imagens do funeral, de acordo com esse cânone comunista, que ainda há tão pouco tempo tivera lugar em Moscovo, por causa de Staline. (Repare-se, numa nota final, o que significava viver numa Europa dividida em dois blocos: as notícias eram oriundas de Viena, na Áustria, e não de Praga onde se passavam os acontecimentos; contudo, geográfica e ironicamente, Praga até é uma cidade mais ocidental do que Viena...)

17 fevereiro 2023

A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»

A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos  países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.

29 março 2020

A GUERRA DO HÍFEN

29 de Março de 1990. Nos trabalhos de revisão constitucional, os grupos parlamentares dos partidos checos e eslovacos não conseguem chegar a um entendimento quanto à designação do seu próprio país: Checoslováquia ou Checo-Eslováquia? Do desacordo, que subsistia latente desde a queda do regime comunista, irá nascer aquilo que virá a ser designado ironicamente pela Guerra do Hífen (Pomlčková válka em checo, Pomlčková vojna em eslovaco), uma guerra felizmente não muito sangrenta, mas intensa e pouco fraterna, entre as duas nacionalidades constituintes de um país em que até havia celeuma quanto à forma como se havia de auto designar - um muito mau sinal quanto às perspectivas da sua coabitação. No curto prazo, o problema foi solucionado com a adopção da designação República Federativa Checa e Eslovaca. Era uma solução que tinha a vantagem de ser um pontapé democrático na gramática de qualquer das duas línguas. No longo prazo, a questão do hífen era apenas uma dos detalhes - apreciado até com algum humor pela comunidade internacional - das dificuldades das duas nacionalidades em construírem um projecto comum. Tudo viria a culminar com o divórcio de veludo em 1 de Janeiro de 1993.

29 fevereiro 2020

CEM ANOS QUE SE PASSARAM E NÃO RESTA NADA

29 de Fevereiro de 1920. A Assembleia Nacional checoslovaca aprova a Constituição do novo país. A Checoslováquia irá ter uma história acidentada. Desaparecerá como país uma primeira vez em 1939, invadido, dividido e transformado num satélite alemão. Reaparecerá (aparentemente) autónomo em 1945. Tornar-se-á um país comunista e, submetido a essa realidade, adoptará depois mais duas constituições, uma em 1948 e outra em 1960. Em 1968, o país esteve nas bocas do mundo e por más razões, invadido pela Rússia. Com a queda do comunismo, o país dividiu-se em 1993. Uma lição da fragilidade da História: passaram-se cem anos e das esperanças que adivinhamos a estes senhores da fotografia acima, não resta nada.

11 dezembro 2019

O COLAPSO DO COMUNISMO POR TODA A EUROPA DE LESTE... E OS PINHEIROS DE NATAL

11 de Dezembro de 1989. As notícias internacionais de há precisamente trinta anos deviam ser um completo desconsolo especialmente quando publicadas num jornal de indisfarçáveis simpatias pró-comunistas, como era o caso acima do Diário de Lisboa. Na página dedicada à política internacional (p.11), o panorama noticioso da Europa de Leste apresentava-se deprimente para o leitor habitual: ele era a formação do primeiro governo não-comunista da Checoslováquia, acompanhada da demissão do seu presidente, um dos mais fiéis dos moscovitas; da Bulgária noticiava-se uma espécie de purga, em que a liderança comunista de topo era afastada; e na Alemanha Oriental, dita Democrática, a notícia era que o PC ia mudar de nome, uma notícia de um rigor assim-assim, já que o Partido Comunista local também nunca se denominara comunista: fora socialista e unificado, agora os tempos de mudança impunham-lhe que se denominasse uma outra coisa qualquer. De uma página que exemplificava o colapso do marxismo-leninismo em que o leitor mais comum do Diário de Lisboa fervorosamente acreditara, só se salvava mesmo o anúncio da Câmara Municipal de Lisboa e a venda dos pinheiros de Natal... Podemos acrescentar ainda um retoque de ironia adicional a todo o momento histórico. Se recuperarmos uma página daquele mesmo jornal, datada de precisamente dez anos anos antes (dia por dia: 11 de Dezembro de 1979), nela  podemos ver que, com um destaque superior (p.3), se dava voz a uma opinião que o sistema capitalista atingira o ponto de ruptura. Terminava assim: «A História é irreversível. Os acidentes de percurso não possuem significado especial». Ámen. Os comunistas, que tão intectualmente arrogantes se haviam mostrado por décadas, agora contemplavam o desmoronar do que se revelava uma grande fraude.

24 novembro 2019

A REVOLUÇÃO DE VELUDO ACOMPANHADA POR UM JORNAL COMUNISTA PORTUGUÊS

24 de Novembro de 1989. Em Praga, falho de qualquer simpatia popular mas também do tradicional apoio de Moscovo, o presidium do partido comunista checoslovaco, que era encabeçado desde há 2 anos por Miloš Jakeš, demite-se. Está em curso na Checoslováquia aquela que virá a ser denominada por Revolução de Veludo (sametová revoluce). Mas isso são acontecimentos razoavelmente conhecidos. O que me parece interessante recordar, porque o é bastante menos, é a forma como esses acontecimentos era acompanhados pelos jornais comunistas de então. Na edição desse mesmo dia 24 de Novembro de 1989 o Diário de Lisboa ainda guardava para a primeira página a ameaça velada da intervenção dos militares checos: «Oficiais superiores do Exército checoslovaco fizeram sentir a sua voz, lançando um aviso ameaçador contra as manifestações favoráveis à liberalização do regime.» O espantoso é que o jornal, sempre tão pronto a condenar putschs militares por todo esse Mundo fora, neste caso nada dizia de condenatório a respeito da voz dos militares e desta maneira um pouco cardada demais de eles - os generais - quererem fazer ouvir a voz da classe operária... Mas a edição do dia seguinte do mesmo jornal (abaixo) fazia uma inflexão de 180º no que publicara, e aderia de forma entusiástica ao facto de haver «um moderado na liderança de Praga», um moderado que ontem ninguém fazia a mínima ideia quem era... e que iria durar cinco dias no cargo. Era a propriedade do poder pelos comunistas que estava em causa naquelas paragens por aqueles dias. E  porque por cá os seus camaradas ainda não o haviam compreendido, chegava a ser ridículo argumentar em prol destes vários regimes comunistas no Outono de 1989.

17 abril 2019

A REMOÇÃO DE DUBČEK

17 de Abril de 1969. Com a substituição de Alexandre Dubček à frente do Partido Comunista Checoslovaco concluíam-se finalmente os objectivos de Moscovo da remoção da ala reformista da direcção do PCC, processo que se iniciara de forma espectacular oito meses antes, com a invasão do país pelas unidades militares soviéticas e dos seus aliados mais fiéis. O desfecho demonstrava a um Mundo (que nunca tivera ilusões) e a um grupo muito selecto e compenetrado de comunistas (que as perdera), que a contemporização com o Kremlin não apaziguara Moscovo, que o jogo da colaboração estivera viciado desde a invasão, e que o que aí vinha apenas seria pior - a notícia anunciava cento e onze prisões mas isso, percebia-se, era apenas o começo de uma repressão agora descaradamente assumida. Recorde-se com alguma ironia que Dubček fora escolhido precisamente por ser o homem que oferecia mais confiança aos soviéticos...

10 março 2019

O CONFLITO CHECO ESLOVACO

10 de Março de 1939. A notícia que abalava a Europa há oitenta anos era a demissão do chefe de governo eslovaco, monsenhor Jozef Tiso (1887-1947), por parte do presidente checoslovaco Emil Hácha (1872-1945). O conflito civil checoslovaco, que viera a ser fomentado pela Alemanha, vai ser aproveitado por ela dali por uma semana, para estender a sua ocupação militar ao resto das províncias checas da Checoslováquia (Boémia e Morávia), enquanto a Eslováquia proclamava por seu lado a sua «independência».
Adolf Hitler ganhou esta jogada mas, a má fé de que deu mostras na forma como conduzira a questão, fez com que perdesse qualquer credibilidade diplomática com qualquer parceiro. Foi só em Março de 1939 que até os políticos mais crentes tiveram que se render à evidência que Adolf Hitler não era parceiro de se fiar. O pacto Germano Soviético que virá a ser assinado em Agosto de 1939 (para que a Alemanha possa atacar a Polónia à vontade) é tanto mais sórdido quando é assinado de má fé pelas duas partes: nem Stalin confia em Hitler, nem Hitler confia em Stalin; estão ambos a ganhar tempo: só que o calendário de Hitler se veio a revelar mais premente do que o de Stalin.

28 outubro 2018

CHECOSLOVÁQUIA 1988: UMA DEMOCRACIA POPULAR QUE NÃO ERA NEM DEMOCRÁTICA NEM POPULAR

Há precisamente cem anos, um Conselho Nacional Checoslovaco proclamou, em Praga, a independência de um novo país a que chamou Checoslováquia. Esse país hoje já não existe, mas esta evocação destina-se sobretudo a uma outra data, a de 28 de Outubro de 1988, há trinta anos, quando a Checoslováquia existia ainda, mas era proibido celebrar a data da sua proclamação. Como se pode ler no artigo acima (publicado no insuspeito Diário de Lisboa, já em rota de dissociação do comunismo mais ortodoxo), os comunistas checoslovacos, que haviam ocupavam o poder desde 1945, haviam tentado substituir a data do dia nacional pelo 9 de Maio, que fora o dia da libertação do país pelos soviéticos e a fonte de legitimidade do seu regime. Como acontece em todas as ditaduras, isso deu às comemorações do 28 de Outubro um carácter subversivo, que a oposição se apressou a explorar. Para as comemorações dos setenta anos do país, e como se pode ler também acima, as autoridades comunistas haviam detido preventivamente as figuras de maior relevo da oposição, incluindo Vaclav Havel (que se irá notabilizar tornando-se o primeiro presidente da Checoslováquia pós-comunista). Claro que isso não impediu que uma manifestação se realizasse no centro de Praga e que a mesma fosse dispersada à bastonada, seguida de uma data de detenções. Enfim, um clássico das ditaduras, de todas as ditaduras, que, não fosse a cegueira ideológica dos comunistas domésticos, mimetizava aquilo que por cá se passara até ao 25 de Abril de 1974, em datas como o 5 de Outubro ou o 1º de Maio. Mas, para esses quadrantes da esquerda totalitária e à semelhança do que hoje acontece com os simpatizantes de Trump, havia para eles uma verdade alternativa, que designava, por exemplo, aquelas ditaduras do Leste da Europa por democracias populares, que se notabilizavam pelo facto de não serem democráticas nem gozarem de qualquer popularidade junto do povo.

13 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: UMA ÚLTIMA REUNIÃO ENTRE DUBČEK E ULBRICHT

Em contraste com o que acontecera três dias antes com a visita de Tito da Jugoslávia, o encontro de Alexander Dubček com Walter Ulbricht caracterizou-se pela discrição. Os checoslovacos estavam interessados em promover encontros com os socialismos desalinhados (das directivas de Moscovo) da Jugoslávia e da Roménia. Mas o alemão, incomodado - quiçá ciumento - com as aproximações mais recentes da Checoslováquia à Alemanha Ocidental, fizera-se convidado, para passar um último recado. Como se lê na notícia abaixo, o encontro teve lugar em Karlovy Vary, uma «sossegada estância termal, situada a 160 quilómetros de Praga», que tinha a vantagem (para o visitante) de se localizar a uns escassos 25 quilómetros da fronteira com a Alemanha. A impopularidade de Ulbricht - considerado a face da linha mais dura anti-reformista do Bloco Leste - era evidente entre checos e eslovacos, e aquele novo formato de socialismo de rosto humano até permitia que o exprimissem: da última vez que Ulbricht estivera na Checoslováquia, em Bratislava, em vez das entusiasmadas bandeirinhas que acolhiam obrigatoriamente os estadistas dos países socialistas, o líder alemão fora vaiado! Com uma curta viagem de 25 quilómetros em território hostil permitir-se-ia assim reduzir as hipóteses que essa desagradável cena se repetisse. Do lado dos checoslovacos e em contraste com a discrição dos soviéticos e dos seus títeres, registe-se o interesse a publicitar as enormes pressões a que estavam a ser submetidos. Terminada há cinquenta anos, nada de construtivo sairá da reunião e aquilo que hoje se sabe ser a contagem decrescente para a invasão continuará até ao dia 21 de Agosto. Uma nota curiosa a respeito da notícia abaixo: o jornalista consegue-a redigir sem por uma vez utilizar aquela que era a designação oficial da Alemanha Oriental, República Democrática Alemã, talvez por imposição da Censura.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

27 junho 2018

O MANIFESTO DAS DUAS MIL PALAVRAS

27 de Junho de 1968. Publicação na Gazeta Literária (Literární Listy, acima) e em outros três jornais checos de um manifesto intitulado Duas Mil Palavras (Dva Tisíce Slov), comentando o processo de transformação por que estava a passar a Checoslováquia desde o princípio daquele ano de 1968, após a eleição de Alexander Dubček para a direcção do partido comunista checoslovaco. O autor do manifesto chamava-se Ludvík Vaculík (1926-2015). Pelos padrões de hoje, o conteúdo do manifesto revela-se contido, consagrando, por exemplo, o axioma comunista da manutenção do papel dirigente do partido na condução dos destinos do país, apelando apenas para que houvesse um mais amplo e mais transparente escrutínio à actividade dos seus quadros, escrutínio para o qual se tornaria indispensável a existência de uma imprensa livre (aqui pode consultar-se uma versão condensada do manifesto - em inglês!). Mas o que se publicara era apenas ilusão e teoria. Na prática, para os sectores conservadores dos comunistas checos, assim como para os seus aliados soviéticos, a publicação do manifesto foi interpretada convenientemente como uma indicação de que o processo de liberalização da Checoslováquia, a denominada Primavera de Praga, estava a escapar ao controle dos quadros que haviam assumido o KSČ com Dubček. Hoje, e apesar da moderação que o tempo lhe veio conferir, o Manifesto das Suas Mil Palavras é considerado como um dos estopins da invasão da Checoslováquia de Agosto de 1968. É que quando a vontade de prevaricar está enraizada - e aqui a prevaricação é invadir o país vizinho! - os pretextos para o fazer nem precisam de ser consistentes.

06 abril 2018

O PROSSEGUIMENTO DA «DEMOCRATIZAÇÃO» CHECOSLOVACA

6 de Abril de 1968. Num jornal português de há 50 anos, uma notícia local oriunda de Praga dava conta das resoluções da Comissão Central do Partido Comunista da Checoslováquia. As decisões eram pouco usuais para o que era costume naquelas organizações e naquelas ocasiões. Descobria-se a decisão de cancelar a expulsão do Partido de alguns escritores: Ivan Klima, Antonín Liehm e Ludvík Vaculík. Além deles, mais dois colegas, que haviam recebido sentenças mais benignas («repreensões e medidas disciplinares»), foram também amnistiados: Pavel Kohout e aquele que actualmente será o mais popular deles todos, Milan Kundera, ali tratado por Milan Kuderna. Mas não fazia mal, era pela causa da Primavera de Praga Em Curso, e afinal, se repararmos bem, três dos cinco escritores têm os nomes mal escritos...

31 março 2018

A OFENSIVA DIPLOMÁTICA DO III REICH NA PRIMAVERA DE 1943

31 de Março de 1943. Adolf Hitler recebe o rei Bóris III da Bulgária (acima). Essa vai ser a primeira visita de um dos seus aliados europeus, na ofensiva diplomática que o III Reich irá desencadear na Primavera de há 75 anos, exibindo um bloco coeso de parceiros. Os ventos da Guerra mostravam-se agora potencialmente adversos para as armas alemãs e, para além de Bóris, ao longo do mês que se seguirá, Hitler ir-se-á encontrar com o duce Benito Mussolini de Itália (7 de Abril), com o conducator Ion Antonescu da Roménia (14 de Abril), com o regente Miklós Horthy da Hungria (16 de Abril), com monsenhor Jozef Tiso da Eslováquia (23 de Abril), com o poglavnik Ante Pavelić da Croácia (27 de Abril) e, finalmente, com o chefe do governo do Estado francês, Pierre Laval (29 de Abril). Os resultados podiam parecer ressonantes, se se acreditasse naquilo que as máquinas de propaganda então produziam (abaixo), mas a intuição geral da esmagadora maioria dos observadores apontava para que as vantagens iam agora todas para o lado dos Aliados.

25 fevereiro 2018

O GOLPE DE PRAGA - UMA EXCELENTE EFEMÉRIDE PARA EXPLICAR EM QUE CONSISTE A FUTEBOLIZAÇÃO DA POLÍTICA

25 de Fevereiro de 1948. Há setenta anos os comunistas apoderavam-se da exclusividade do poder na Checoslováquia. Não interessa neste momento reevocar como o processo aconteceu, apenas recordar que os comunistas haviam ganho as eleições de Maio de 1946, onde haviam recolhido 38% dos votos e conquistado 114 dos 300 lugares do parlamento checoslovaco - uma maioria relativa, portanto. O Golpe de Estado não consistiu apenas nem sobretudo na demissão dos ministros dos outros partidos da coligação que sustentara até aí o governo no parlamento (acima), consistiu na dispensa que foi concedida a partir desta data ao governo (depois formado quase exclusivamente por comunistas e aparentados) para que continuasse a governar, mas dispensando o escrutínio parlamentar. Todo este episódio é muito engraçado de comparar com o que aconteceu entre nós no Outono de 2015, depois das eleições de 4 de Outubro daquele ano, sobretudo com os argumentos que então foram brandidos de cada um dos lados do espectro partidário. É que aqui eles funcionariam precisamente ao contrário... Os mais indefectíveis votantes da coligação de Direita (Portugal à Frente), que nessa altura achavam apenas natural que a coligação assumisse as rédeas da governação, mesmo que ela não contasse com o apoio de uma maioria parlamentar qualificada, achariam decerto neste caso checoslovaco que a mesma lógica, porque envolvia os comunistas, já não se aplicaria. E vale a pena imaginar o que diria a Esquerda, mormente os comunistas do PCP, se Pedro Passos Coelho recorresse ao apoio de Bruxelas para pressionar o presidente Cavaco Silva a mantê-lo no poder em qualquer circunstância, como o fez Klement Gottwald em 1948, recorrendo à influência de Moscovo para pressionar o presidente Beneš a fazer isso mesmo (abaixo, notícia da época). É mais que certo que se iria encontrar as mesmas pessoas a defenderem posições diametralmente opostas num caso e noutro. Eu aprecio a discussão política quando ela tem lógica, coerência e consistência. Quando a não tem, e os argumentos são aduzidos ou escamoteados conforme as circunstâncias e conveniências, então nada distingue a discussão política da futebolística. E a discussão futebolística nem é um exercício menor, é ainda menos do que um exercício gratuito, é um exercício apenas estúpido, por muito que ele se tenha ultimamente banalizado, por muita benevolência como se tem assistido a uma futebolização progressiva da discussão política.

05 janeiro 2018

COMO ALEXANDER DUBČEK FOI ESCOLHIDO PARA DIRIGIR O PARTIDO COMUNISTA DA CHECOSLOVÁQUIA

5 de Janeiro de 1968. Numa reunião prévia de todo o Comité Central do Partido Comunista da Checoslováquia (KSČ) fora decidido afastar Antonín Novotný do cargo supremo de primeiro secretário; para atenuar o impacto político da decisão fora-lhe permitido manter o cargo simbólico de Presidente da Checoslováquia (cargo de que viria a ser também afastado daí a dois meses e meio). Nestes anos de Guerra Fria, estas mudanças das figuras de topo das hierarquias dos partidos comunistas no poder nos países da Europa de Leste, não sendo inéditas, eram raras e sintomas de profundo mau estar social nos países onde ocorriam. Para suceder a Novotný, o Comité Central decidira delegar num Grupo restrito de 21 membros, nomeados pelos comités dos dois ramos do partido (o checo e o eslovaco), a decisão sobre quem seria o próximo primeiro secretário do KSČ. Durante um primeiro escrutínio, houvera quatro nomes a serem votados: sete votos foram para Alexander Dubček, o líder do ramo eslovaco do partido, seis votos para Jozef Lenárt, o primeiro-ministro (que também era eslovaco), e quatro votos quer para o vice-primeiro-ministro Oldřich Černík, quer para o presidente do parlamento, Bohuslav Laštovička (os dois checos). Há precisamente cinquenta anos, o Grupo tornou-se a reunir com a escolha agora restrita aos dois eslovacos (Dubček ou Lenárt) que tinham sido os mais votados na eleição anterior. Mas terá havido uma sondagem prévia quanto ao sentido da votação (e quanto ao seu desfecho provável) porque quando ela se verificou o resultado consubstanciou-se nuns unânimes 21 votos por Dubček, um resultado que o comunicado que acompanhava o anúncio da nomeação de Alexander Dubček veio a qualificar, muito modestamente, por "maioria decisiva" (era impossível sê-lo mais...). Nesta fase o endosso dado por Leonid Brejnev, o secretário-geral do PCUS (acima à esquerda), terá sido crucial para a eleição. Dubček, que vivera parte da infância (entre os 3 e os 16 anos) na União Soviética, era considerado um homem de confiança por Moscovo. Não se adivinhava mesmo o que estava para acontecer...

31 dezembro 2017

O FIM DA CHECOSLOVÁQUIA

31 de Dezembro de 1992 foi o último dia da existência da Checoslováquia. Dos países da Europa de Leste surgidos em 1918, se as animosidades entre as nacionalidades da Jugoslávia eram conhecidas perfeitamente pelo resto do Mundo, as da Checoslováquia surgiram com alguma surpresa logo depois do fim da Guerra Fria. O civismo recíproco como decorreu o processo serviu de base para que a partir dele se cunhasse uma expressão, «Divórcio de Veludo», para descrever o desmembramento de forma cordata de um país nas suas nacionalidades constitutivas. Como também já expliquei aqui neste mesmo blogue, a expressão pecará, como elogio, pelo excesso, porque realçado pelo contraste com o carácter sangrento como o desmembramento da antiga Jugoslávia se estava a processar nessa mesma época. O que se torna interessante, passados estes 25 anos, é como esses vários processos de desmembramento do Leste da Europa criaram uma dinâmica de novas fronteiras que acabou por chegar à Europa Ocidental. Entre os casos recentes mais relevantes apareceram os da Escócia, da Catalunha ou da Córsega (a que tenho visto ser dado muito pouca atenção). E, quando os problemas lhes batem à porta, a imaginação e o fair-play dos europeus cá deste lado parece desaparecer como por encanto, pois aquilo que se tem visto a Mariano Rajoy a respeito da Catalunha (e o que se antecipa como reacção de Emmanuel Macron a respeito da Córsega) é um comportamento tudo menos aveludado... De como todos estes assuntos não passam de uma questão de força política e de política de força e que os legalismos constitucionais só são evocados quando convêm, aqui fica a demonstração com a evocação do Art.º 107 (original em cima, tradução inglesa em baixo) da antiga constituição checoslovaca, que há 25 anos foi tão sumariamente deitada para o lixo.