08 maio 2021

OS «PENETRAS» DA CONVENÇÃO DA DIREITA PORTUGUESA

Porque o panorama noticioso devia andar um pouco saturado de tanta pandemia, fomos brindados com uma semana de controvérsia à volta da questão da propriedade de pessoas como Sérgio Sousa Pinto ou Rui Rio participarem na próxima convenção de uma organização denominada Movimento Europa e Liberdade. Uma organização que procura confederar as direitas (ou, mais prosaicamente, pô-las a ir dizer coisas ao mesmo sítio) e isso parece ter sido pedra de toque para que, pelo menos entre os socialistas, Sérgio Sousa Pinto fosse criticado por comparecer, assim como o foi Rui Rio no PSD por ter feito o mesmo, depois de duas edições do mesmo evento em que declinara o convite. Pareceu grave mas, em minha opinião, não é. Nem importante.

Tanto não o é, que já ninguém se lembra do elenco de convidados das duas edições anteriores, de há um e dois anos, que eu aproveito para relembrar mais abaixo. O único nome repetido das duas notícias que recuperei é, aliás, Pedro Santana Lopes, o que, se o propósito da convenção é mostrar novas ideias para a direita portuguesa, é confrangedor e nada abona em favor da qualidade do certame... Mas sobretudo, eu tenho muita confiança nas capacidades de «partir a loiça», tanto de Sérgio Sousa Pinto como de Rui Rio, embora em registos diferentes - e escrevo isto como um cumprimento. Se aceitaram, espero que não vão para lá proferir banalidades expectáveis, ao jeito de muitos dos nomes que sublinhei abaixo. Em suma, o significativo não é ser convidado uma vez, é ser convidado duas: se daqui a um ano virmos repetidos os convites aos dois para o mesmo evento, aí compartilharei as críticas de Paulo Pedroso ou de José Pacheco Pereira.

07 maio 2021

EU GOSTO DE DEBATES, MAS NÃO TENHO A CERTEZA QUE ISTO SEJA UM DEBATE...

Ontem, o jornal Público publicou um artigo de opinião que a autora, Raquel Varela, pretendia ser o início de um debate refutando opiniões que haviam anteriormente sido produzidas por Susana Peralta e José Miguel Júdice sobre a questão de «quem deveria pagar esta crise». Hoje - e felicitemos desde logo Susana Peralta pela celeridade da sua resposta - a economista produz um texto seu em que responde à historiadora. E o jornal Público exulta, por ser o palco de um debate, intelectual, à boa maneira dos bons velhos tempos. Será mesmo um debate? A equiparação é do jornal, não é minha: embora conotando-as a uma mesma área política, tenho um respeito intelectual por Susana Peralta que não tenho por Raquel Varela. Uma é uma mais valia para o debate de ideias em Portugal, a outra é um embaraço. Nem sempre concordo com as conclusões a que a primeira chega nos artigos que escreve, sobretudo aqueles que são mais de opinião, mas isso não se compara com o que a segunda escreve, onde, como método, acha umas coisas, e os dados estatísticos que as desmintam são descartados como irrelevantes (já uma vez perdi tempo a denunciá-lo aqui no Herdeiro de Aécio). Na essência, a resposta de Susana Peralta consubstancia-se nisso: em explicar as fontes em que se apoiou para obter um retrato da distribuição da riqueza e dos rendimentos da população portuguesa, retrato esse que é distinto daquele (intuitivo?) que Raquel Varela traçou. Nos dois últimos parágrafos (que se podem ler abaixo), a economista ainda aproveita para demonstrar que a historiadora nem sequer compreende a distinção - essencial para efeitos de tributação - entre património e rendimento, contrapõe com os dados a que chegou para estabelecer onde se situa a média e acaba com uma estocada final, em que sugere que Raquel Varela se terá olhado ao espelho e assim mesmo se crismou a si própria de «classe média». Não é lá muito científico mas o Público não irá perder decerto este filet-mignon jornalístico, tanto mais que Raquel Varela é petulante demais para se ficar, e obtusa demais para se aperceber quando está a ser gozada pela audiência. Mas, apesar de o designarem assim, não tenho a certeza que isto esteja a ser um debate...

DOIS SÉCULOS DE ERROS DE UM JORNAL DE DUZENTOS ANOS

No mesmo dia em que morria Napoleão, a 5 de Maio de 1821, começava a publicar-se na florescente cidade inglesa de Manchester o jornal acima, prometido para 200 anos de publicação. Hoje chama-se simplesmente The Guardian, e, com uma audiência cada vez mais alargada, desde 1964 que os seus serviços se mudaram para Londres. Ora entre os artigos celebratórios publicados pelo jornal a pretexto destes 200 anos, aquele que eu gostaria de destacar pela auto-critica, é aquele cuja ilustração publico mais abaixo em que se passa em revista as grandes asneiras que ali se publicaram ao longo de todos aqueles anos. O exercício é bastante engraçado e é acompanhado de uma explicação da evolução do posicionamento político do jornal. (Esclareça-se que, quando o The Manchester Guardian surgiu em 1821, a publicação se revestia de um carácter político radical, já que a cidade, que era um dos pólos da Revolução Industrial em Inglaterra, não era sequer representada no Parlamento. Quando o passou a ser, com a Reforma de 1832, passou a sê-lo logo por dois deputados. Seriam seis no final do século XIX, tal o desenvolvimento de Manchester.) Mas a história das inflexões políticas posteriores do jornal, logo a começar pelas do próprio século XIX, dão origem a opiniões que hoje apreciamos ironicamente. Como a postura apaixonadamente em prol da superioridade da raça branca aquando da Revolta dos Sipaios de 1857 na Índia Britânica. Ou as simpatias pela causa dos Confederados durante a Guerra de Secessão na América em 1861. Outros são erros de previsão que se vêm a revelar descomunais: como o que minora as consequências do atentado de Junho de 1914 que vitimou o herdeiro austro-húngaro e que afinal deu origem à Primeira Guerra Mundial; ou então o que tenta elaborar um cenário político em função de uma especulação dos resultados eleitorais das primeiras eleições britânicas depois da Segunda Guerra Mundial - sugerindo uma coligação entre trabalhistas e liberais, quando os verdadeiros resultados irão dar uma maioria parlamentar esmagadora aos primeiros. Uma terceira categoria é composta de erros factuais, que são a consequência da evolução científica. A imagem abaixo destaca duas: um cenário elaborado por um meteorologista qualquer que antecipa, em meados do século passado, que as temperaturas iriam globalmente baixar no século XXI (note-se que a ousadia de antecipar uma nova era glaciar já será cabeçalho de jornalista...); ou o deslumbramento com novos materiais, no caso o amianto (asbestos), antes de se conhecerem os seus impactos secundários, neste caso o facto de ser cancerígeno. Claro que os erros se tornam muito mais apelativos quando ocorrem mais próximos do nosso tempo: o artigo dedica uma especial atenção ao comportamento do jornal a propósito do que nele se escreveu por ocasião do referendo do Brexit em Junho de 2016. Mas, insisto, vale a pena ler o artigo todo. Sobretudo porque neste meio jornalístico não é muito frequente ter-se a oportunidade de cumprimentar a imaginação de quem tornou interessantes estes erros profissionais.

06 maio 2021

OS FRANCESES CHUMBAM A CONSTITUIÇÃO QUE OS SEUS DEPUTADOS HAVIAM ELABORADO

Segunda Feira, 6 de Maio de 1946. Nestes outros tempos de outros ritmos, mesmo num país avançado como França, só no dia seguinte ao da votação é que se começava a perceber a configuração dos resultados eleitorais no caso da disputa ter sido cerrada. Neste caso, o desfecho era inesperado. Submetido à aprovação do eleitorado francês, o projecto de constituição elaborado pelos deputados constituintes para o funcionamento da nova IV República, preconizava um regime parlamentar composto por uma só câmara (em vez das duas da III República) e com os poderes presidenciais reduzidos quase a um papel decorativo. Este chumbo do eleitorado podia ser interpretado como uma espécie de desforra do general de Gaulle, que pugnara por um regime presidencialista até à sua demissão em Janeiro daquele ano. Também entre os partidos, os da direita e os radicais se pronunciaram contra o projecto constitucional elaborado pela constituinte que, em contrapartida, era endossado pelos comunistas e pelos socialistas. Não deixa de ser engraçado constatar que, se a aprovação tivesse sido entregue à própria assembleia que a redigira - como aconteceu em 1976 com a constituição portuguesa - o projecto teria sido aprovado, já que os comunistas e socialistas reuniam uma maioria de 282 lugares entre os 522. Mas na votação popular o resultado foi outro: 10 584 359 contra 9 454 034 franceses mandaram os deputados elaborar uma nova constituição. Já agora, e porque ainda há um mês o presidente Marcelo fez para aí um grande frufru auto-elogioso a propósito do 45º aniversário da constituição portuguesa, constrange-me que em Portugal não houvesse havido coragem de fazer o mesmo em 1976, como, por exemplo, o fez em 1978 a Espanha.

05 maio 2021

BOBBY SANDS E AS GREVES DA FOME DO IRA

Em 5 de Maio de 1981 morria, após ter permanecido 66 dias em greve da fome, o militante do IRA Robert Bobby Sands (1954-1981) então a cumprir uma pena de prisão. A razão para o protesto fora, aparentemente, a abolição de um estatuto especial concedido aos presos que equiparara os militantes apanhados de armas na mão a um tratamento melhorado, assimilável aos prisioneiros de guerra. O estatuto – que permitia aos prisioneiros poder envergar roupa própria, não ter de trabalhar e possuir um regime bonificado de visitas e de encomendas – era um reconhecimento implícito – quase legitimizador... - dos objectivos políticos das acções terroristas dos grupos paramilitares irlandeses (o IRA, mas também o INLA católico ou a UDA e a UVF protestantes), que o governo conservador de Margaret Thatcher lhes pretendeu retirar mal chegados ao poder em Maio de 1979. O braço-de-ferro entre o IRA (e o INLA – mais de 90% dos presos eram católicos) e Londres tornara-se mais do que previsível. Competia aos primeiros dar-lhe publicidade e fizeram-no recorrendo a um expediente que adquirira tradição durante as lutas que haviam conduzido à independência da Irlanda: a greve da fome. Sands foi o primeiro de uma série de presos que, faseadamente, iriam entrar em greve de fome.
Muitas fotografias de um sorridente grevista de 27 anos foram lançadas para a comunicação social enquanto, do outro lado, os britânicos proibiam as que o exibissem no seu estado real, à medida que perdia peso. Por isso, são raras as fotografias de Sands como a acima, com uma expressão neutra. Um acaso veio em auxílio do IRA: um deputado republicano católico morreu e houve que proceder a uma eleição intercalar para o substituir num círculo eleitoral onde a concentração de católicos tornava possível a eleição de um nacionalista irlandês. Foi o que aconteceu e Bobby Sands, apesar de concorrer preso, foi eleito como deputado, animando ainda mais um processo que, por essa altura, já alcançara uma notoriedade internacional, lesiva da imagem do Reino Unido. Seria que o governo britânico iria libertar Sands quando ele alcançou o seu novo estatuto de MP¹? Não. Como disse Margaret Thatcher numa nova movimentação de uma prolongada guerra de propaganda: Um crime é sempre um crime, o que não tem nada de político. Mais do que isso, preventivamente, a Câmara dos Comuns apressou-se a aprovar uma lei em se passavam a rejeitar as candidaturas a quem estivesse detido condenado a sentenças de uma duração superior a um ano, o que excluiria todos os camaradas de Sands no caso deste vir a falecer.
O que veio a acontecer há precisamente 40 anos. Igual a si própria, implacável, a primeira-ministra emitiu a propósito um comentário que se percebia ter sido preparado para aquela eventualidade: O Sr. Sands era um criminoso condenado. Foi ele que escolheu dispor da sua própria vida. Foi o género de escolha que a sua organização não permitiu que muitas das suas vítimas fizessem². Não se percebeu então, mas atingira-se o zénite da crise e a determinação do governo britânico vencera-a. Nesse mês de Maio de 1981 mais três presos em greve de fome morreram, mas Margaret Thatcher realizou uma visita a Belfast, onde voltou a reafirmar a sua intenção de não ceder. Caídos na armadilha da lógica mediática, as mortes dos grevistas, mais do que a acumularem-se, começaram a banalizar-se. Em princípios de Agosto de 1981 já se contavam dez mortos entre os grevistas da fome (abaixo), e, visivelmente, o tempo não estava a correr a seu favor. Só perdiam militantes com um grau de notoriedade marginalmente cada vez menor. Mas foi só três dias depois do anúncio público do fim das greves da fome, em Outubro, que os britânicos anunciaram que concediam aos presos algumas das condições que eles haviam vindo a reclamar desde o princípio.
¹ Membro do Parlamento.
² Mr. Sands was a convicted criminal. He chose to take his own life. It was a choice that his organisation did not allow to many of its victims.

A MORTE DE NAPOLEÃO BONAPARTE

5 de Maio de 1821. Há duzentos anos Napoleão morria desterrado em Santa Helena. É engraçado que, tendo lido alguns - aquilo que considero um número razoável... - livros a respeito do período napoleónico, foi só muito recentemente que me dispus a ler uma biografia sua - porventura um dos temas mais petulantemente emblemáticos de uma certa erudição histórica... e gostei bastante desta versão do anglo-polaco Adam Zamoyski, de quem eu já lera outras obras do mesmo período - «Moscow 1812: Napoleon's Fatal March» e «Rites of Peace, The fall of Napoleon & the Congress of Vienna». Não restam dúvidas que Napoleão Bonaparte foi uma personagem fascinante. A narrativa de Zamoyski corta cerce a reputação que se construiu a respeito do seu génio militar, mostrando que a superioridade do exército francês era táctica e de toda a organização: houve muitas vitórias francesas obtidas sob o comando de muitos outros generais. O que notabilizava as obtidas por Napoleão (pelo menos, ao início) era a promoção que lhes era dada junto das populações que lhe granjearam a popularidade. Daí os ciúmes e o despeito daqueles seus pares que haviam alcançado o seu estatuto ainda sem ser sob o comando e que se consideravam seus iguais (Bernadotte veio a tornar-se rei da Suécia). Além disso (e Zamoyski afirma-o taxativamente) Napoleão era um estratega medíocre. É por o ser que se enreda no problema da invasão da Rússia em 1812. Caiu porque se conduziu de uma forma que agregou uma coligação contra si que era impossível de vencer. As potências tentaram afastá-lo uma primeira vez de uma maneira soft, exilando-o na ilha de Elba, com uma vida aceitavelmente pacata (1814). Furou o esquema. Traiu a palavra. Os britânicos exilaram-no segunda vez no Sul do Atlântico, mas aí deram-lhe uma vida de merda. Morreu há precisamente duzentos anos com 51 de idade - uma vida cheia.

04 maio 2021

COMENTÁRIOS E COMENTADORES

Estes comentários do sr. Joaquim Rodrigues que encontrei na caixa dos ditos de um artigo publicado esta Segunda Feira no Público, artigo esse onde se noticia a reacção de Rui Rio à entrevista dada este fim de semana por António Costa, servem aqui apenas de exemplo para me questionar sobre os méritos implícitos das opiniões nos mecanismos que os órgãos de comunicação social aplicam depois na sua promoção. Em rigor, e apesar de eu não concordar em quase nada com o que ele escreve, a opinião do Experiente Joaquim Rodrigues deveria valer um mínimo, sobretudo quando em comparação com toda aquela catrefa de comentadores e opinadores que enxameia e chega mesmo a saturar o nosso espaço mediático. A haver um critério, deveria ser o da qualidade, a profundidade da análise, o rigor das previsões. Sabemos que não é nada disso que acontece. O(s) comentador(es) do jornal/rádio/canal é(são) bom(s) porque é(são) bom(s). É secreto o processo que os promove até aquele estatuto; é misterioso o critério que os faz subsistir apesar da qualidade (quantas vezes medíocre!) do comentário que produzem; e só é transparente a inércia com que os consagrados se perpetuam em palco (já nem é preciso ler sequer o título da crónica de António Barreto para saber o que ele vai escrever, por exemplo...). Em suma, fica-me a impressão que o processo, de uma certa maneira, reproduz a Natureza: terá tudo a ver com a cor da passarada, não com o pio.

«MEDIUM RARE»

A pessoa que eu quero aqui homenagear é bastante mais clara que a Miranda Bailey mas também muito mais morena do que a Bonemine, embora, em temperamento, reúna características de personalidade de qualquer dessas duas estupendas personagens. Mas, quanto ao tom, ela é mais «medium rare», na escala inglesa da confecção da carne. «Rare» é mesmo o adjectivo a propósito.

03 maio 2021

A CHEGADA DE ERICH HONECKER AO PODER CIMEIRO NA ALEMANHA ORIENTAL


3 de Maio de 1971. Numa sessão plenária, Walter Ulbricht, o primeiro secretário do partido, resignava às suas funções, para ser substituído por Erich Honecker. O partido era o comunista embora naquele caso não se chamasse assim (Partido Socialista Unificado). O país era a República Democrática Alemã, que também se notabilizava por nada ter de democrático (só os comunistas mandavam). E, para não destoar, Ulbricht abandonava o cargo invocando razões de saúde, mas hoje está comprovado que os dirigentes soviéticos haviam tido uma participação importante em sensibilizá-lo para que se preocupasse com a sua própria saúde, assim como na escolha do sucessor. Este último, Honecker, como o explicava o Diário de Lisboa do dia seguinte, «é um elemento que inspira confiança aos seus correlegionários, mas parece não ser um figura de grande popularidade». Podia não ser popular, mas iria durar 18 anos no poder, porque a popularidade era uma irrelevância sob os regimes comunistas...

A DIVISÃO DA IRLANDA

3 de Maio de 1921. Com a entrada em vigor da Lei sobre o Governo da Irlanda, que fora aprovado pelo parlamento britânico em Dezembro de 1920, a administração da Irlanda passa a ter definitivamente dois centros de decisão: a cidade de Dublin, que supervisiona a grande maioria da ilha (assinalada no mapa acima a verde escuro) onde predomina a população católica e que pretendia a separação do Reino Unido (os nacionalistas) e a cidade de Belfast, no nordeste da ilha, onde residia uma concentração de população protestante, ali maioritária, e que pretendia manter os vínculos com o Reino Unido e por isso conhecidos por unionistas. Essa partição da Irlanda manter-se-á até à actualidade. Na época, na Irlanda vivia-se um clima de completa guerra civil entre as autoridades britânicas e os nacionalistas irlandeses, um assunto já por mim aqui aflorado (para um maior desenvolvimento veja-se a publicação abaixo).

02 maio 2021

DESCODIFICANDO ALGUMAS NOTÍCIAS DE GUERRA HÁ OITENTA ANOS

2 de Maio de 1941. O exemplo acima de uma edição daquele dia mostra como a página de um jornal pode ser informativa sem ser explicativa e muito menos reflexiva. Informar o leitor que desembarcara no Iraque mais um contingente de tropas britânicas contornava as explicações das razões que levavam o Reino Unido a tomar tal iniciativa, quando tanto precisavam de tropas nas frentes de combate contra alemães e italianos. Na realidade a tensão viera a acumular-se tanto entre as forças militares britânicas estacionadas no Iraque e as autoridades do país que, nesse mesmo dia, começara uma guerra declarada entre as duas partes. Duraria cerca de um mês e terminaria com a vitória inglesa e com o derrube do regime iraquiano, que fora apoiado pelos alemães. Já aqui me referi ao assunto como um daqueles (pouco conhecidos) «sideshows» da Segunda Guerra Mundial. Duas colunas ao lado, uma outra notícia assegurava ao leitor que 80% das tropas britânicas presentes na Grécia haviam sido evacuadas o que prefigurava mais um sucesso das armas britânicas, ao jeito do que acontecera no ano anterior em Dunquerque. Aqui ficava a faltar a reflexão de questionar como é que os britânicos estariam a contar vencer a Guerra, se o que eles apenas conseguiam fazer era retirar do continente cada vez que ali desembarcavam, por muito que depois viessem propagandear que as suas evacuações de tropas eram magnificamente bem sucedidas.

01 maio 2021

A INAUGURAÇÃO DO EMPIRE STATE BUILDING

1 de Maio de 1931. Inauguração em Nova Iorque do Empire State Building, o edifício mais elevado do mundo de então com os seus 378 metros. Estava-se em plena depressão e muitos dos seus apartamentos nos seus 102 andares irão permanecer por arrendar nos anos que se seguirão. Foi um grande projecto de arquitectura mas também um projecto económico com um «timing» péssimo. Em 1945 o edifício apanhou com um bombardeiro transviado. Posteriormente, acrescentou-se-lhe uma torre de televisão que o levou a atingir os 448 metros e guardar o título de edifício mais elevado do mundo até 1972. Hoje, as competições para construir os edifícios mais elevados do mundo abandonaram os Estados Unidos e mudaram-se para outras paragens: países árabes (ricos) e extremo oriente.

A SUSPENSÃO, POR RAZÕES DE SAÚDE, DAS FESTAS DE SAN FERMIN

Quando se anuncia acima que, por razões de saúde dos potenciais participantes (evidentemente a covid!...), se suspende a realização das festas de San Fermin em Pamplona, festas essas que se tornaram mundialmente famosas precisamente pelas imagens dos estragos que costumam causar à saúde dos que nela participam (abaixo), fica-se com uma ideia do ambiente algo paranóico que rodeia os cuidados com a saúde nos dias que vivemos. (nota amenizadora: os ferimentos das colhidas, a grande maioria deles ligeiros, costumam ser às centenas cada ano, mas não morre ninguém nas festas de San Fermin desde 2009...)

30 abril 2021

A AUTO-APENDICECTOMIA DO DOUTOR ROGOZOV

30 de Abril de 1961. Na Antártida, na base soviética Novolazarevskaya instalara-se desde Janeiro daquele ano (quando era Verão) uma equipa de treze especialistas que iriam desenvolver, isolados do exterior, um prolongado programa de pesquisas no quadro de 6ª Expedição Expedição Antárctica Soviética. Um deles era o médico da equipa, um médico jovem de 27 anos chamado Leonid Rogozov. E há 60 anos, deu-se a inconveniência de ter sido precisamente na pessoa do médico da expedição que se deu um ataque de apendicite. De acordo com a história que se conta do incidente, Rogozov não terá tido grandes dificuldades em se auto-diagnosticar. O problema era o tratamento... A evacuação estava fora de questão: a base tinha uma localização tão remota e os meios disponíveis eram tão escassos que não podiam assegurar que não se desenvolvesse uma peritonite fatal no paciente antes de ele chegar a um local onde pudesse ser operado. Portanto, a única solução que restava - realizada com a devida autorização de Moscovo, que o respeito pela autoridade é o estado mais elevado do socialismo soviético! - era que Leonid Rogozov realizasse a cirurgia em si próprio, auxiliado pelos seus camaradas de expedição. O cirurgião realizou uma anestesia local (obviamente!) em si próprio e, enquanto um dos elementos servia de instrumentista, um outro segurava num espelho para que o cirurgião visse o campo operatório, delineado na sua própria barriga. Apesar das vicissitudes - havia um procedimento de emergência para reanimar o cirurgião no caso de ele desfalecer em consequência do efeito da anestesia! - a cirurgia lá se concluiu, sutura e tudo, depois de 1H45 de duração. O pós operatório durou cerca de uma semana e passadas outras duas semanas Rogozov voltara às suas funções (na fotografia abaixo vêmo-lo, do lado direito, a cumprimentar um pinguim). O episódio, que podia ter-se saldado por um fiasco, tornou-se afinal uma peça de propaganda russa/soviética. Contudo, Rogozov só veio a contactar directamente com a popularidade de que gozava quando terminou a sua missão, em 1962.

29 abril 2021

A CONTÍNUA QUESTÃO ACADÉMICA

29 de Abril de 1921... e de 1931. Quem consultar as duas edições desse dia do Diário de Lisboa nem dá por estarem separados por dez anos. A primeira página da edição de 1921 dedica-se à «Greve Académica»; a última página da edição de 1931 ao «Conflito Académico». Cada um destes episódios conterá as suas especificidades - o que os desencadeou, quem participou, como vieram a ser solucionados - mas ambos fazem parte de uma longa lista de conflitos entre estudantes e as autoridades do momento. Parecem fazer parte de uma questão geracional, mais profunda do que a política e os regimes, já que nos exemplos acima e no primeiro caso vigorava a (primeira) República, enquanto no segundo estava-se na Ditadura que precederia o Estado Novo. São episódios que parecem ser muito importantes no momento e depois permanecem vivos, mas apenas na memória de quem os viveu. Hoje já não há ninguém vivo para recordar estas duas crises académicas e o mesmo acontecerá inexoravelmente com as outras de que ainda ouvimos falar.

28 abril 2021

«RAQUEL ESPARRELA»

Quase todos os dias Joana Marques entretêm-nos exibindo o ridículo de alguém que se leva a sério e não devia. O bónus do episódio de hoje, com Raquel Varela, é que além da própria Raquel se levar a sério (...e não devia), há mais quem a leve a sério, no campo académico e no campo do entretenimento mediático. Levam-na a sério, ela leva-se a sério e, como o mostra à saciedade Joana Marques, é tão ridículo que não deviam. A crónica começa por um russo que a Raquel Varela havia ido «ver» à Gulbenkian mas a que troca o nome e que era «pintor», mas que afinal era pianista... mas o melhor mesmo é ouvir o resto!

O INÍCIO DO TURISMO ESPACIAL

28 de Abril de 2001. Pela primeira vez, a missão Soyuz TM 32 que descola do cosmódromo de Baikonur inclui na sua tripulação um membro que nela participa por razões lúdicas, um verdadeiro turista espacial. Chamava-se Dennis Tito, tinha então 60 anos, era um multimilionário norte-americano que pagara vinte milhões de dólares à agência espacial russa (Roskosmos) pelo privilégio de participar naquela missão que, para ele, duraria uma semana no espaço, cinco dias dos quais na Estação Espacial Internacional (ISS). E, considerado o historial da competição espacial entre o socialismo soviético e o capitalismo americano, era impossível não registar a ironia de que este passo pioneiro do capitalismo espacial era protagonizado pelos russos, herdeiros dos soviéticos, e não pelos norte-americanos. Dennis Tito tivera que comprar o bilhete na concorrência...

27 abril 2021

CESSAR FOGO NA OPERAÇÃO «VINHAS DA IRA»

27 de Abril de 1996. Terminava com a assinatura de um cessar-fogo mais uma incursão - a quarta desde 1978 - das tropas israelitas no Sul do Líbano. Como de costume, a iniciativa fora provocada por uma escalada de agressões e provocações de parte a parte entre os militares israelitas e as milícias xiitas do Hezbollah, com a conivência do exército sírio, também presente no Líbano. Outro exército ali presente são os capacetes azuis da ONU (UNIFIL), estacionados em posições de interposição para apartar os beligerantes, mas que são militarmente impotentes nestas circunstâncias (não dispõem de poder de fogo para intervir). A ofensiva israelita começara a 11 de Abril, a intenção proclamada dos israelitas era pressionar o governo libanês para que este pressionasse por sua vez o Hezbollah. Como era tradicional, os inimigos de Israel não resistiram encarniçadamente no terreno, mas ficaram à espera que as suas tropas cometessem erros que pudessem ser explorados mediaticamente, o que veio a acontecer em 18 de Abril com o denominado «massacre de Qana». Qana é uma aldeia no sul do Líbano onde se localizava um dos aquartelamentos da UNIFIL, aquartelamento esse que estava cheio de refugiados civis quando as tropas israelitas o bombardearam: morreram uma centena de civis libaneses e outra centena ficou ferida para além de quatro funcionários fijianos ao serviço da ONU. Com isso, os árabes haviam conseguido a sua «arma» mediática para o contra-ataque. Os funerais das vítimas (fotografia acima) foram realizados em conjunto e foram uma grande operação mediática, com os caixões todos cobertos por bandeiras nacionais e cartazes negros. Repare-se em três ao fundo da foto; o do centro está redigido em inglês (e não em arábico), para que pudesse ser lido pelas opiniões públicas ocidentais... Do ponto de vista estritamente militar, a operação «Vinhas da Ira» veio a revelar-se irrelevante. O cessar-fogo - que implicava, mais uma vez, a retirada dos israelitas do Líbano - entrou em vigor há precisamente 25 anos. Uma nota final, para o nome escolhido pelos israelitas para a operação, uma expressão empregue no Apocalipse de São João. Não deixava de ter uma certa ironia ver o Estado Judeu a ir recuperar uma expressão bíblica (mas do Novo Testamento! - cristã portanto) para baptizar uma operação militar sua. E no entanto, para a opinião pública americana a expressão é razoavelmente conhecida, mas noutro contexto, como o título de um romance de John Steinbeck de 1939 sobre a grande depressão, transposto para o cinema em 1940. Mas o assunto não parece ter sido explorado, nem os responsáveis israelitas questionados sobre a razão da escolha daquele nome.

26 abril 2021

REFLEXÕES PROVOCADAS POR UM MAPA MUNDO COM AS COMPETÊNCIAS DOS POVOS EM INGLÊS

A primeira nota é para chamar a atenção que os países que têm o inglês como língua coloquial - Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália - estão assinalados com uma cor azul neutra própria. Contudo e infelizmente, a cor escolhida não é suficientemente distinta da paleta de cores que servem para escalonar a competência dos restantes países, paleta essa que aparece abaixo do mapa. Para tornar a apreciação mais confusa, aqueles países para os quais não se possuem dados aparecem pintados precisamente dessa mesma cor supostamente neutra. Conclusão, se olharem para o canto superior esquerdo do mapa, aparece o Canadá ao lado da Gronelândia representados pela mesma cor, embora por razões completamente distintas: fala-se inglês correntemente no Canadá, e não existem dados para avaliar as competências em inglês dos habitantes da Gronelândia. Um outro aspecto que confunde o mapa é que há países que têm o inglês como idioma oficial, em que ele é empregue em circunstâncias oficiais muito precisas, como serão os casos da Índia, Nigéria ou África do Sul e que também aparecem avaliados no mapa acima. É que, nesses casos, o inglês não é uma língua estrangeira de comunicação, antes uma língua doméstica que sedimenta a coesão nacional. E há ainda outros países em que acontece precisamente esse mesmo fenómeno, como o Gana, a Tanzânia ou a Zâmbia e para esses não há dados. Mesmo feitas todas estas ressalvas, percebe-se que existe uma «mancha de competência» no idioma na Europa, especialmente no centro e norte do continente e... em Portugal. A comparação com o resto da Europa Latina é-nos favorável. É uma boa notícia e, por isso, não tem qualquer interesse jornalístico em Portugal (a notícia original é da revista The Economist). Quanto à panorâmica geral, as competências alcançadas por cada país dependem não apenas de uma vontade política em se internacionalizarem, como também da qualidade dos respectivos sistemas de ensino. Mas por detrás disso estará sempre e naturalmente, o carácter mais ou menos cosmopolita das sociedades. Só este último pode explicar, por exemplo, que um país como o Japão, aliado dos Estados Unidos desde 1945, tenha obtido nesta classificação uma classificação inferior à da Rússia e da China, que foram e continuam a ser rivais dos americanos desde essa mesma altura.

25 abril 2021

RECORDE-SE QUE TAMBÉM ERAM 89 OS PIDES QUE FUGIRAM DE ALCOENTRE...

Em dia de comemoração de Abril, e olhando para a primeira página da edição do dia do Correio da Manhã, convém recordar que, por coincidência, também foram 89 os Pides que fugiram de Alcoentre, num famoso episódio, também de Abril, de falta de vigilância revolucionária. Mudam-se os tempos e o teor das lutas, e agora é a PSP que se encarrega de travar «as orgias», que agora são sexuais e que outrora haviam sido reaccionárias. «Que se passa? Então isto não é uma ameaça?...»
Remate-se, em jeito de distinção, que a festa de 2021 era de «swing», e que aos Pides de 1974 não lhes foi permitido o «swing» - ao contrário do que aconteceu com tantos outros...

OS PRÍNCIPES BRITÂNICOS EM LISBOA

25 de Abril de 1931. O Diário de Lisboa reservava toda a sua primeira página para dar a notícia da chegada a Lisboa dos dois príncipes britânicos, Eduardo (futuro Eduardo VIII) e Jorge (futuro Jorge VI). Os dois regressavam à Europa no RMS Arlanza, vindos do Rio de Janeiro, depois de uma prolongada digressão a vários países da América do Sul que começara em Janeiro. O acolhimento foi encabeçado pelo chefe de governo, general Domingos Oliveira, acompanhado dos ministros e por uma data de outras «individualidades». Era indubitavelmente chique ter ido à cerimónia. Mas o desenvolvimento da notícia (duas páginas) só se consegue explicar pela riqueza dos detalhes que satisfaziam sobretudo a curiosidade dos leitores, numa época que precede o aparecimento da rádio e da televisão. Registe-se o pormenor da reprodução da mensagem manuscrita do príncipe de Gales: «My broher & I are delighted to visit Portugal, our old friend & ally & are very pleased with the welcome we have received. - Edward P. 25 April 1931». Depois de falar com os jornalistas os príncipes iam para o Estoril, jogar golfe. Como se percebe, nada havia para noticiar, era tudo muito simples, muito chão, quase infantil. Faltava lá o repórter do Correio da Manhã para lhe perguntar, com a brutalidade do jornalismo tablóide, se estava com saudades de Thelma Furness, a sua última namorada...

A APRESSADA EXECUÇÃO DA OPERAÇÃO «GERBOISE» VERDE


25 de Abril de 1961. O primeiro ensaio nuclear francês realizara-se na Argélia meridional, em pleno deserto do Sahara, a 13 de Fevereiro de 1960. Outros ensaios se seguiram, a que se deram o nome de operações «Gerboise» (jerboa, em português), um pequeno roedor nocturno do deserto, de patas compridas e grandes orelhas, assaz comum na fauna do local dos testes. Cada ensaio recebia um nome de código ligeiramente diferente, a operação «Gerboise» Azul fora o ensaio original (acima), a que se seguiram a «Gerboise» Branca e a «Gerboise» Vermelha (as outras cores da bandeira francesa), todas elas antes desta operação «Gerboise» Verde de há precisamente 60 anos. Contudo, esta última diferenciou-se de todas as anteriores pela circunstância de ter sido executada à pressa. Poucos dias antes, alguns generais franceses haviam realizado um pronunciamento militar em Argel em rebelião contra as decisões de Paris e da metrópole (veja-se abaixo a notícia da época). O momento era tenso. Sem uma garantia de controle e considerada a localização do centro de ensaios na própria Argélia semi-insurrecta, as autoridades francesas legítimas decidiram detonar preventivamente a próxima arma nuclear a ensaiar, acautelando a remota hipótese (catastrófica!) de que ela pudesse vir a cair sob o controle dos generais revoltados.
E foi assim, que em português designaríamos por às três pancadas, que a operação «Gerboise» Verde arrancou. Sabe-se hoje, por exemplo, que a pilha de combustível (plutónio) que era destinada a formar a massa crítica do engenho foi transportada na noite anterior ao ensaio num prosaico Citroën 2 CV por 50 km de pistas no deserto... Não surpreenderá o leitor saber que, com tanta preparação, o ensaio se revelou tecnicamente um fiasco: a potência do engenho, que os cálculos teóricos prévios estimavam alcançar entre as 6 e as 18 mil toneladas de TNT equivalente, ficou-se por um décimo da potência esperada. Mas o mais importante fora feito: como nessa época as armas nucleares francesas se fabricavam a um ritmo artesanal, desaparecera a hipótese dos generais de Argel se apropriarem de um desses engenhos. A edição de há 60 anos do Diário de Lisboa transmitia devidamente o recado tranquilizador que o general de Gaulle pretendia dar aos seus homólogos (abaixo), comprovando, em paralelo, um dos mais sólidos princípios do jornalismo de massas: nenhum rumor é para ser levado a sério até ele ser devidamente desmentido, como acontecia com aquela sugestão (absurda!) que os acontecimentos de Argel haviam influenciado o calendário dos ensaios nucleares... Eu creio que há certas circunstâncias em que, quem produz originalmente a informação, se sente inferiorizado se não a produzir mentindo desnecessária e descaradamente, insultando no processo a inteligência daqueles a quem a informação é dirigida. 

24 abril 2021

QUANDO SE ROUBA O QUE SE PODE...

Esta fotografia, de um autor que infelizmente não pude identificar, deve-nos servir de reflexão e ensinamento para que até os melhores dispositivos de segurança nem sempre conseguem obstar ao propósito de quem quer roubar. Tudo dependerá daquilo que o ladrão tenha oportunidade de roubar e, como se constata, pode revelar-se mais importante compreender as intenções de quem rouba do que confiar na robustez do dispositivo anti-roubo.

23 abril 2021

AINDA SE LEMBRAM QUANDO ABRARACOURCIX FOI CONVIDADO PARA SENADOR ROMANO?...

O INÍCIO DA SEGUNDA GUERRA DA MAFIA

23 de Abril de 1981. Assassinato em Palermo de Stefano Bontate, o capo local da Mafia, no dia em que fazia 42 anos. Filho de um outro capo mafioso, Francesco Paolo Bontate, dito «Don Paolino Bontà», o assassinado representava uma segunda geração de mafiosos que, como a personagem de Michael Corleone em «O Padrinho», recebera uma educação de qualidade e se esmerava em adquirir respeitabilidade social. Casara-se na alta burguesia siciliana. Falava inglês e francês. Filiara-se numa loja maçónica. Jogava ténis e criava cavalos. Mas a esmagadora maioria dos seus rendimentos provinham de actividades clandestinas, como o contrabando de cigarros e de armas, actividades cada vez mais marginalizadas pelo contrabando de opiáceos e processamento de heroína. Esta era revendida para os mercados francês e norte-americano e dessa operação resultavam lucros tão elevados que a cobiça associada irá provocar a sua morte. O mandante do assassinato é Salvatore «Totò» Riina, tem 50 anos, pertence ao clã dos Corleone (o legítimo, não o do filme...) e,  não tem nada da sofisticação de Bontate, mas mostrar-se-á muito mais implacável do que ele. Este assassinato é apenas o primeiro de uma longa série deles, estimados na ordem das quatro centenas ao longo dos anos seguintes, aquilo que virá a ser conhecida como a Segunda Guerra da Mafia. Para além do ajuste de contas interno entre clãs, aqueles a que estamos habituados a ver nos filmes, esta guerra da Mafia a sério irá envolver também o assassinato de muitas figuras representando a autoridade do estado: deputados, generais das forças policiais, magistrados e juízes. Durante a primeira metade da década de 1980 a autoridade do estado italiano por aquelas paragens esteve muito por baixo. A RAI, por sua vez, resolveu rentabilizar esse sentimento de impotência da Itália perante o crime organizado, produzindo uma série televisiva de sucesso intitulada La Piovra. Abaixo, uma reconstituição do assassinato.

22 abril 2021

DE PAI PARA FILHO

22 de Abril de 1971. No Haiti, no dia seguinte à morte do pai, o presidente François «Papa Doc» Duvalier, o seu filho com quase 20 anos, Jean-Claude Duvalier (e que virá a ficar conhecido para a História com a alcunha - previsível - de «Baby Doc»), toma posse desse mesmo cargo presidencial, perante as críticas unânimes de uma comunidade internacional que se mostrava ainda pouco habituada a gestos tão despropositados de sucessão monárquica, pelo menos quando em regimes que se reclamavam dos princípios republicanos. Quase 50 anos contados dia a dia se passaram, e a 21 de Abril de 2021, aconteceu precisamente o mesmo no Chade, com a morte do presidente Idriss Déby, que foi substituído de imediato no cargo pelo seu filho Mahamat Déby Itno, que, com os seus 37 anos, até faz figura de veterano quando em comparação com Baby Doc. A diferença é que agora já não há quem se indigne por aí além com estas sucessões dinásticas como acontecia outrora... até já as houve - e por duas vezes - em países socialistas avançados como a Coreia do Norte!

21 abril 2021

A MORTE DE JOHN MAYNARD KEYNES

21 de Abril de 1946. Morte súbita, de ataque cardíaco, do economista britânico John Maynard Keynes. Tinha 62 anos. Embora a fase mais conhecida e comentada do seu pensamento e obra abranja o período entre as guerras (1919-1939), Keynes mantivera-se extremamente activo tanto durante a Segunda Guerra Mundial como imediatamente após o seu término. Neste último caso, tentando encontrar as melhores soluções - empréstimos bonificados... - para resolver os problemas de pagamentos do seu país, que terminara o grande conflito (1939-45) financeiramente exangue. Mas foi ainda durante a Segunda Guerra Mundial, em Julho de 1944, que teve lugar a conferência de Bretton Woods (já por mim evocada aqui no Herdeiro de Aécio), onde teve lugar um dos desempenhos mais importantes - e menos conhecidos - de Maynard Keynes, nomeadamente na configuração antecipada do que viria a ser o sistema financeiro mundial do após Guerra (recomenda-se o livro abaixo). Keynes e os britânicos fizeram o que puderam para defender os seus interesses, mas a realidade é que as relações de poder faziam com que tivessem sido os americanos - Harry Dexter White e a sua equipa - a deter as cartas decisivas. O sistema de Bretton Woods, que o livro abaixo mostra a ser disputado palmo a palmo na sua configuração entre Keynes e White - veio a sobreviver 25 anos ao primeiro e 23 ao segundo: terminou, nos seus aspectos mais importantes, em 1971. E, como é costume os intelectuais ingleses fazerem nestas circunstâncias em que as suas opiniões foram historicamente vencidas, a sua avaliação é que o Mundo teria sido muito melhor se as suas teses (as de Keynes) tivessem sido adoptadas em vez das americanas. É o caso, por exemplo, da adopção de uma moeda supranacional (bancor) que fosse utilizada para regular os excessos (défices, mas também superavites) que as economias nacionais registassem nas suas contas externas. Como é natural, não se sabe se esse sistema teria funcionado melhor do que o sistema de câmbios fixos preferido pelos americanos. Mas é também com estas especulações sem contraditório que se forjam os mitos...
A terminar, e num registo que talvez possa interessar o leitor, refira-se que John Maynard Keynes tinha apenas 62 anos quando faleceu. Ora os Keynes ficaram conhecidos pela sua longevidade: o seu pai (que ainda era vivo em 1946) morreu com 97 anos; a sua mãe (que também era viva quando da morte do filho mais velho) morreu com 96; o seu irmão morreu com 95 anos e apenas a sua irmã destoa desta galeria de nonagenários, tendo falecido aos 85 anos. Do ponto de vista estatístico, esta morte precoce de John Maynard terá sido uma espécie de anomalia numa série estatística e Deus sabe quanto uma certa escola de economistas leva as estatísticas muito a sério... Se o modelo econométrico estivesse bem deduzido, John Maynard Keynes não devia ter morrido tão cedo...

O «PUTSCH» DE ARGEL

21 de Abril de 1961. Dá-se em Argel um pronunciamento militar dirigido por quatro generais franceses contra a eventualidade da concessão da independência à Argélia, então colónia francesa (da esquerda para a direita: Edmond Jouhaud, Raoul Salan, Maurice Challe e André Zeller). Sendo uma contagem de espingardas, estes generais africanos não estavam dispostos a levar a sua insubordinação contra a legalidade democrática até ao ponto de desencadear uma guerra civil, como o haviam feito 25 anos antes os seus homólogos espanhóis. O confronto travar-se-á realmente nas ondas hertzianas: a ORTF em Paris, contra a Radio Argel. Na capital, e porque o assunto se apresentava como uma coisa entre generais, Charles de Gaulle fardar-se-á também de general para comparecer diante das câmaras de televisão e ali desancar de uma forma desabusada os generais insurrectos, tratando-os por um «quarteto de generais reformados»*.
Em privado, e depois de se assegurar da neutralização das cumplicidades que os insurrectos disporiam na metrópole (como as unidades sob as ordens dos generais Faure e Vanuxem), o presidente comentava: «o que é grave em tudo isto é que não é para ser levado a sério»**. Mas, para além dos comentários sempre inspirados que são atribuídos a de Gaulle, o episódio arrastou-se por cinco dias (21-26 Abril), até à rendição dos insurrectos. A maior parte do contingente militar francês na Argélia, formado por quem cumpria o serviço militar obrigatório, havia-se recusado a seguir os generais. A arma secreta de de Gaulle fora o transistor. No final, 220 oficiais foram demitidos dos seus comandos, 114 foram levados a tribunal militar, 3 unidades históricas do exército francês foram dissolvidas. E, como veremos dentro de dias, mesmo o armamento nuclear que os franceses desenvolvia então no Sahara foi detonado precipitada e preventivamente para o retirar do alcance dos insurrectos.
* «Un quarteron de généraux en retraite» no original. A palavra francesa «quarteron" é bastante mais depreciativa do que a tradução recomendada de quarteto. ** «Ce qui est grave en cette affaire, c'est qu'elle n'est pas sérieuse».

20 abril 2021

O VOO SILENCIOSO DO PRIMEIRO HELICÓPTERO MARCIANO

As imagens espectaculares que nos chegam de Marte com o voo inaugural do mini helicóptero marciano da NASA, provocaram-me uma outra viagem, nostálgica, ao passado, e às descolagens exuberantes de som* das Eagles a descolar da base lunar Alfa, na série Espaço: 1999. Mas aqui, tudo se passa em silêncio. Contudo, por causa da rarefacção da atmosfera marciana, sabe-se que as pás giratórias do drone têm que girar a uma velocidade cinco vezes superior à de um seu equivalente terrestre. E assim poderia ser possível captar o som que produzem. Embora isso possa ser periférico para os propósitos da missão científica. Mas neste mundo em que predomina cada vez mais a forma sobre o conteúdo, desconfio que se acrescentassem esse som, o vídeo da NASA ia ter muito mais cliques...
* Sem atmosfera na superfície lunar, não devia haver som...

AS VOTAÇÕES DA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU

20 de Abril de 1961. Portugal sofre uma pesada derrota diplomática na Assembleia Geral da ONU, onde, aproveitando os acontecimentos que se estavam a desenrolar em Angola, é aprovada uma moção respeitante à administração de Portugal naquele território. A dimensão da derrota prendia-se menos com o teor da moção, desfavorável à conduta portuguesa mas de qualquer forma inconsequente, do que com o resultado da votação, em que Portugal (que não quisera participar no debate) recebeu apenas o apoio de 2 países: a Espanha e a África do Sul. Abstenções haviam sido 9, incluindo o Brasil e os principais países da Europa Ocidental, casos do Reino Unido, da França, da Bélgica e da Holanda. Mas assumia um significado substancial o facto dos Estados Unidos também terem votado favoravelmente a moção. Uma moção que se revestia de uma abrangência muito superior ao carácter «afro-asiático» como ela é descrita pelo cabeçalho do Diário de Lisboa - aprecie-se o mapa abaixo com o sentido do voto dos países europeus. A Europa de Leste votou a favor como previsível, o Norte da Europa também, mas também aparecem algumas surpresas de aliados da NATO, como a Itália ou a Grécia.

19 abril 2021

PORTUGAL É UM PAÍS DE POETAS, DE COMENTADORES E DE GRANDES INTRIGALHADAS

Que Portugal é um país de poetas é uma daquelas coisas que se insiste em repetir por aí. Que Portugal é um país de comentadores é outra daquelas coisas que também se insiste em repetir por aí, mas com menos veemência e, paradoxalmente, com muito mais substância do que a coisa dos poetas. Aprecie-se na imagem acima como, ao contrário dos poemas, que nunca ouvimos declamados, os comentários, por mais despropositados que sejam, são encaminhados para caixas de ressonância e viram notícias no dia seguinte, nos exemplos de Paulo Portas (tvi) e Marques Mendes (sic). Mais do que isso: comentador (não confundir com comendador...) é um estatuto que tanto se pode adquirir por inerência, como será o caso de qualquer dos dois mencionados acima, antigos dirigentes de partidos da direita, como também se pode trabalhar para cair na mercê de o alcançar, como parece ter sido o caso de Pedro Marques Lopes, pelo menos a fazer fé na desenvolvida reportagem que a revista Sábado lhe dedicou esta semana (abaixo). Pedro Marques Lopes esse que, nesta última dúzia de anos em que ele se afirmou no estrelato dos comentadores nacionais, se notabilizou por nunca ter tido uma ideia. Não que isso seja importante. Há muitos outros comentadores que, como ele, não têm ideias. E há até outros que seria melhor não as terem... Confesso, porém, que me intriga a oportunidade da publicação desta notícia, que remete para uma história que começa há mais de doze anos (2008) e envolve as mesuras de Pedro Marques Lopes (e o patrocínio recíproco...) a tudo o que pode ser de mais tóxico nestes dias que correm: José Sócrates, Pedro Passos Coelho e Fernanda Câncio. Uma de duas: ou isto se sabia - e eu não sabia - ou, não se sabendo, gostaria de saber quais as razões para a sua promoção precisamente agora. De qualquer das maneiras, e para recuperar a expressão empregue abaixo, eu não faço parte da «meia Lisboa» de quem Pedro Marques Lopes é amigo, e também não faço parte da «outra meia» que «o despreza». Pelos vistos, não existo nesta Lisboa que o jornalista Marco Alves abaixo descreve...

MORTE DE ÓSCAR CARMONA

18 de Abril de 1951. Morte em funções do presidente da República, Óscar Carmona, que contava 81 anos. Na verdade, e considerada a idade do presidente, não se trataria de um cenário imprevisto. Uma possibilidade que fora decerto tida em conta em quando pouco mais de dois anos antes (Fevereiro de 1949), se haviam realizado as últimas eleições presidenciais e a permanência de Óscar Carmona no cargo fora renovada, apesar de já então contar 79 anos e contando que o mandato seria por mais 7(!) anos... (Note-se que os octogenários eram então muitíssimo mais raros do que actualmente) A opção de Salazar e do seu regime fora a de, em vez de proceder às necessárias mudanças na magistratura suprema do país, deixar morrer o chefe de Estado em exercício no cargo, como se se tratasse de um monarca e só tratar do problema da sua sucessão quando a ocasião o tornasse forçoso. Como se vê, de Salazar a António Costa, «empurrar os problemas com a barriga», sempre que tal for possível, é uma marca identifica da condução da actividade política em Portugal. Mas a ocasião apresentava-se agora (em Abril de 1951) e, embora ainda não o sabendo, o presidente do Conselho, tão gabado pela argúcia política, iria fazer afinal uma má escolha (na sua perspectiva...) na pessoa do general Craveiro Lopes.

18 abril 2021

QUANDO AS NOTÍCIAS GIRAVAM À VOLTA DO QUE HAVIA PARA COMER...

18 de Abril de 1946. A Segunda Guerra Mundial já terminara há quase um ano mas, por toda a Europa, subsistiam os problemas de alimentação como se percebe pela leitura da coluna acima da esquerda, com os países do Novo Mundo (no caso, a Argentina) a funcionarem como um celeiro do velho Continente. A Checoslováquia trocava açúcar (de beterraba) pelo detestado - mas hipervitaminado - óleo de fígado de bacalhau oriundo da Noruega. E até a Suíça, que havia dois meses havíamos aqui visto a ser qualificado como «um paraíso», reduzia em 10% a ração quotidiana de pão. Portugal não escapava a este panorama e há uma escola de historiadores doméstica que tem uma explicação simplificada para a escassez de alimentos: Salazar era o culpado de tudo. Agora a sério, uma outra forma de compreender a seriedade então atribuída a tudo o que fosse comida, era acompanhar os dramas gerados pelo assunto, como aquele que aparece na coluna da direita, provocado pelo roubo de três galinhas(!) em Pedrógão Grande e cuja solução policial se veio a concluir em Lisboa com a prisão do gatuno. Como se deduz, ser-se um pilha-galinhas há 75 anos era coisa grave! 

17 abril 2021

O DESEMBARQUE NA BAÍA DOS PORCOS

17 de Abril de 1961. Um pequeno contingente de 1.500 soldados cubanos treinados pela CIA desembarca em Cuba com o intuito de derrubar o governo de Fidel Castro. As avaliações feitas posteriormente são unânimes em considerar que, considerados a escassez dos  meios mobilizados pelos invasores para o desembarque, a operação teria sempre muito poucas hipóteses de vingar. A expectativa dos autores do projecto seria que o regime cubano entrasse em colapso ou, alternativamente, que o engajamento viesse a colocar a administração americana numa situação tão complicada, que forçasse a sua intervenção directa e aí a capacidade militar norte-americana seria decisiva. Mas nenhuma dos dois cenários aconteceu por razões que não virão ao caso desenvolver, e o episódio saldou-se por um fracasso total, que veio a reforçar interna e internacionalmente a posição do regime castrista. Nos dias que correm, não tem ninguém que o defenda, e parece que nem teve autores. Mas, tal é a unanimidade à volta da impossibilidade de sucesso deste projecto da CIA, que me apetece apreciá-lo invertendo a lógica que, certo dia, o marechal Joffre estabeleceu a respeito da Batalha do Marne. Ele, que dela saíra como o general vencedor, comentava-a depois numa ironia ácida: «Eu não sei quem venceu a Batalha do Marne. Agora, se tivesse sido uma derrota, aí sei quem a teria perdido.» Aqui, no caso da Baía dos Porcos, tal é a unanimidade, o determinismo e a assertividade em criticar os planos de invasão, que nem imagino o que se poderia dizer se, por acaso, o desfecho tivesse sido outro... É que, historicamente, há que reconhecer que já houve regimes que colapsaram perante ameaças muito inferiores.

16 abril 2021

AS COMPLICADAS FRONTEIRAS DE BENGALA

Foi a província de Bengala que serviu de núcleo para a agregação do Império Britânico das Índias. A sua capital, Calcutá (actualmente designada por Kolkata), foi também a capital do Império até 1911. Dentro do Raj, os bengalis concebiam-se e assumiam-se como uma vanguarda entre as várias culturas indianas: em 1913 foi um dos seus, o poeta Rabindranath Tagore, a receber o primeiro Prémio Nobel da Literatura atribuído a um não-europeu. Também representavam exemplarmente o que era a sociedade indiana na forma como, debaixo da identidade cultural, as confissões religiosas se misturavam. De acordo com o censo de 1931, 54,4% da população da província era muçulmana – nos dois mapas acima estão assinaladas a cinzento as regiões onde os muçulmanos estavam em maioria. Trata-se porém de uma representação que não mostrará toda a realidade: é que 25% da população de Calcutá também era muçulmana. Esses detalhes tornaram-se muito importantes em 1947, quando do fim do domínio britânico e da Partição do Império entre a Índia e o Paquistão. Separada geograficamente do resto dos territórios de maioria muçulmana da Índia (abaixo), também se traçaram fronteiras em Bengala (acima). As fronteiras então traçadas sob pressão, separando a Índia do que então se tornou o Paquistão Oriental, tornaram-se não só nas mais extensas como também nas mais complexas fronteiras do subcontinente. Na actualidade e como se vê acima, a Índia tem 3.400 km de fronteiras com a China, 2.900 com o Paquistão, 1.700 com o Nepal, 1.500 com a Birmânia e ainda 600 com o Butão. Porém, apesar das aparências geográficas, a fronteira mais extensa da Índia, por causa do seu formato sinuoso (mais de 4.000 km) é com o Bangladesh, o país que resultou da secessão do Paquistão Oriental em 1971.
O senso comum indicar-nos-ia que o traçado de fronteira tenderia a separar as regiões de maioria muçulmana das regiões onde a maioria da população pertencesse a outra confissão – predominantemente os hindus. As realidades do terreno obrigaram a que o traçado da fronteira tivesse que se ajustar e a realidade, bem diferente, pode ser apreciada no mapa acima. Metade da extensão da fronteira (51%) atravessa regiões onde há uma mesma maioria religiosa dos dois lados: 20% muçulmana, 16% hindu e 15% outras confissões¹. E em 120 km há até uma maioria hindu do lado do Bangladesh e muçulmana do da Índia!
À esta questão do traçado da fronteira junta-se ainda a existência de 197 enclaves – são 74 bangladeshis em território indiano e 123 indianos no do Bangladesh!… Numa fronteira tão complexa e, por isso, propensa a incidentes, o que será de surpreender é a ausência deles. Hoje completam-se vinte anos sobre o início do único grande incidente fronteiriço envolvendo a Índia e o Bangladesh (acima e abaixo: um soldado, respectivamente, indiano e bangladeshi, de sentinela numa atitude quase idêntica), e que custou a vida a 81 guardas indianos e a 2 soldados bangladeshis. Tendo em conta as rivalidades do subcontinente, sobretudo as entre a Índia e o Paquistão, este registo quase parece ser um verdadeiro milagre considerando a complexidade do traçado...
¹ Budistas, cristãs ou animistas.