23 julho 2021

¡TRANQUILOS!

Cena da Espanha andaluza: um grupo de três clientes com sacos de compras sai de uma loja da Springfield (precisamente a acima fotografada) e a sua passagem desencadeia uma polvorosa do alarme. Continuam pela rua conversando entre si como nada se tivesse passado, os passantes não reagem, nem sequer em olhares, e também ninguém sai da loja procurando inquirir o que desencadeara o disparo do alarme. Nunca assistira a uma cena que me transmitisse de forma tão abrangente e imediata o conceito andaluz de ¡tranquilidad!

UMA INUSITADA «CONVERSA EM FAMÍLIA» NO ESTIO DE 1971

23 de Julho de 1971. Ao serão de há 50 anos tinha lugar na RTP uma singular, talvez a mais atípica, conversa em família de Marcello Caetano. Como se percebe escutando-a, o processo de revisão constitucional atrasara-se, obrigara a uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional que se iniciara a partir de meados de Junho de 1971 entrando pelo mês seguinte, o que tornara o Verão de 1971 anormalmente tépido para o que era costume num regime já muito habituado a certos rituais, a suscitar a presença do presidente do Conselho nos ecrãs quase a meio de um Estio tradicionalmente plácido. Recomenda-se a quem não o conheça, a assistir a um pouco da conversa em família para lhe apreciar o estilo, de uma outra época, de um outro século. Com a duração de uma meia hora e preenchida completamente por um monólogo de Marcello Caetano a fazer valer os seus dotes didáticos de professor académico, o conteúdo da conversa que se pretendia íntima com o espectador, a complexidade de algumas passagens do que é explicado, ao nível de uma aula de faculdade de Direito, justificaria muito mais as explicações ulteriores dos Paulos Baldaia ou dos Ricardos Costa da actualidade. Mas nesse tempo não havia tais explicações mesmo quando pertinentes, já que não se pressupunha que a audiência fosse estúpida por defeito, muito menos havia estrelas do comentário televisivo. Mas, mais do que proceder a uma análise comparativa sumária dos procedimentos regimentais entre alguns parlamentos da Europa ocidental, o que terá tornado memorável esta conversa em família em particular, para além da altura do ano em que foi emitida, foi o seu alvo político: a denominada ala liberal. É que, para além do projecto canónico com o patrocínio governamental, houvera mais dois outros projectos de revisão da Constituição em discussão, de origens das franjas reformistas do regime. E, por essa vez, um parlamento que era conhecido pelo seu monolitismo e pelo carácter rígido da coreografia das suas sessões ter-se-á animado com os underdogs a granjearem as simpatias decorrentes do capital de queixa de quem joga as regras do jogo e o perde porque elas estavam viciadas desde o começo. A condescendência e menorização de que Marcello Caetano dá mostras nesta conversa em família em relação àquilo que seria a oposição possível no quadro da abertura do regime (a denominada a Primavera Marcelista), acabou por lhe assentar muito mal. Marcello Caetano não estava a ser gracioso na forma como vencera um desafio que as elites de uma outra geração (hoje octogenários) não concebera para ser assumido pessoalmente pelo chefe do governo. Para muitos daqueles que acompanharam e perceberam aquela pequena meia hora de conversa do presidente do Conselho, a Primavera terminara naquela noite quente de Verão...

22 julho 2021

A BATALHA DE ANNUAL

22 de Julho de 1921. O exército espanhol sofre uma catastrófica derrota militar no Norte de Marrocos. Foi uma derrota tão sangrenta (deixou muitos milhares de mortos), quanto politicamente humilhante, tanto mais que sofrida diante de combatentes irregulares e sem estatuto na ordem internacional. Contudo, ao contrário do que acontecera 343 anos por aquelas mesmas paragens aos portugueses em Alcácer Quibir, e apesar da severidade das perdas, os espanhóis ainda dispunham de reservas militares para mobilizar e reequilibrar tacticamente a situação militar, mas sem meios para atingir o objectivo estratégico da submissão dos marroquinos.

20 julho 2021

PARCIALMENTE PERDIDO NA TRADUÇÃO

Seguia eu por la calle, quando escorreguei e protagonizei um !porretazo¡ Isto de ir ao serviço de urgência de um hospital no estrangeiro, pode não se revestir das incompreensões radicais que acontecem no famoso filme de Sofia Coppola (acima), numa situação vagamente semelhante (raio X e tudo...), mas, mesmo não se tratando do Japão, tenho que reconhecer que ao longo do processo alguma coisa se perdeu na tradução. Felizmente, também dispus de alguém que mostrou a mesma disponibilidade de Bill Murray, e mesmo ainda mais (menos o oferecimento final do boneco...), só que ela não se terá prestado àquelas cenas na sala de espera, enquanto esperava por mim... (reparem nas duas senhoras lá atrás)

A CRISE DE BIZERTA

20 de Julho de 1961: a crise de Bizerta, entre a França e a Tunísia, atinge o seu apogeu. A Tunísia fora um protectorado francês desde 1881 até 1956. Quando a França lhe concedeu a independência, a 20 de Março de 1956, reservou para si o usufruto da base naval de Bizerta. A cidade de Bizerta era um daqueles portos naturais de fundação fenícia que ganharam depois relevância comercial durante o apogeu dos cartagineses e cuja localização se pode apreciar no mapa acima, dispensando as explicações sobre a sua importância no Mediterrâneo central.
Essa concessão da independência à Tunísia por parte da França também deve ser relacionada com a Argélia vizinha e com a guerra subversiva que lá se começara a travar para a sua independência desde há ano e meio. A França aliviara-se das suas duas outras possessões no Magrebe, Marrocos e Tunísia (acima), para se concentrar na Argélia, onde existia uma comunidade de um milhão de europeus que coabitava com uma maioria muçulmana de oito milhões.
Porém, a causa da solidariedade árabe depressa povoou as regiões fronteiriças da Tunísia com locais de treino e refúgio dos insurrectos argelinos da FLN (os triângulos do mapa acima) com a base naval à ilharga a incomodar a sua logística. Mas em 1961, quando se desencadeou a crise de Bizerta, quase tudo mudara. A França, agora dirigida por de Gaulle, desistira de se manter na Argélia e ela parecia enfraquecida, houvera até um pronunciamento militar em Argel para derrubar o governo.
Pelo menos fora esta a leitura do presidente tunisino, Habib Bourguiba, aos acontecimentos de Abril de 1961 em Argel, quando agora pretendia forçar a nota em proveito do seu país através de um pretexto: os franceses haviam procedido a obras de ampliação da pista de aviação sem o participar. A escalada que se seguiu atingiu o seu clímax a 20 de Julho de 1961 com três dias de violentos combates entre os militares franceses e a mistura político-militar tunisina¹ que se lhes opunha.
O desfecho – a captura da cidade propriamente dita pelos franceses – pode ser constatada no vídeo acima. Mas, como já acontecera em 1956 no Egipto com a Crise do Suez e estava em vias de acontecer com a Argélia vizinha, a superioridade táctica francesa não se conseguia concretizar numa superioridade política equivalente. O que ali se conseguiu foi o privilégio de determinar a data de abandono da base, em 15 de Outubro de 1963, só depois da independência da Argélia.
¹ No final desses combates os franceses tinham aprisionado 780 tunisinos, dos quais apenas 419 eram militares, 361 eram civis capturados com armas.

17 julho 2021

O 25º ANIVERSÁRIO DA CPLP

17 de Julho de 1996. Data da fundação da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Hoje tem 9 países membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Assim, à primeira vista, parecia uma ideia engraçada. À segunda vista e com 25 anos de existência, não tenho ideias, porque não tenho noção da actividade desenvolvida. Nem da identidade ou sequer da nacionalidade de quem a dirige, que descubro ser português. Mas descubro que deve ser giro pertencer-lhe como membro associado, atentando à profusão e disparidade de países que se mostram «oficialmente interessados» nesse estatuto, uma lista que começa alfabeticamente pela Albânia(!) e acaba em Taiwan, do outro lado do Mundo.

15 julho 2021

A ALEMANHA, ESSE PAÍS ONDE OS DESASTRES NATURAIS SE TORNAM «EUROPEUS»

Hoje, no barbeiro, fui confrontado várias vezes - por causa do sistema de repetição... - com esta notícia da Euronews que me despertou a atenção pelo formato peculiar como está redigida, a começar pelo título: Tempestades assolam parte da Europa.

« - É um Verão atípico numa parte da Europa, com tempestades a causarem graves inundações nas partes ocidental e central do velho continente. Em Schuld, na Alemanha, estão desaparecidas mais de 50 pessoas devido ao colapso de 6 casas e às inundações. Um bombeiro morreu afogado noutra cidade durante operações de salvamento de condutores presos por baixo de um viaduto inundado. Há outro desaparecido, levado pelas águas de uma ribeira. Chuvas torrenciais contínuas atingiram a região das Ardenas na Bélgica. A lama inundou casas nesta e noutras regiões contíguas. Prevê-se que a chuva se mantenha até Sexta-Feira, o que poderá levar vários rios a transbordarem. Países Baixos, França, Chéquia e Suíça estão também a braços com fortes chuvadas que provocam enchentes. Por terras helvéticas, as autoridades elevaram o aviso de cheias para o lago Lucerna ao nível mais alto e proibiram o transporte marítimo. Já as terras gaulesas têm assistido a um Verão invulgarmente fresco e húmido

Na realidade, como se percebe facilmente quando se esmiúça o teor da notícia, as consequências graves das inundações concentraram-se quase todas na Alemanha, onde se registaram as dezenas de mortos e de desaparecidos (como se pode ler, de resto, em outros órgãos de comunicação social). Pergunte-se então o porquê desta preocupação em disseminar as consequências do mau tempo, convocando o maior número possível de países para o tornar europeu? Será que a Alemanha pretende projectar-se como um país tão excelentemente governado que, neste canal de notícias, não admite sofrer (praticamente) sozinho as consequências do mau tempo veranil?

A CURIOSA COINCIDÊNCIA DAS NOTÍCIAS ENVOLVENDO 22 MÁRTIRES NO AFEGANISTÃO

Depois da concretização da retirada americana do Afeganistão, a concretizar-se até 11 de Setembro, ainda se trava uma última batalha mediática em solo americano, procurando reverter a decisão. Não vale a pena aduzir razões. Não as desenvolvo aqui porque as opiniões estão formadas e ninguém está interessado em ler opiniões contrárias. Eu também não: eu não leio argumentos de quem ainda defende a manutenção da presença dos Estados Unidos por aquelas paragens depois de vinte anos. Mas agora, parece que entrámos numa fase de argumentação instintiva... Em que, por uma coincidência oportuna, a CNN e as restantes cadeias de informação publicam um vídeo em que se vê que os talibans terão executado 22 comandos governamentais que se tentavam render...
O problema é que havia uns dois ou três detalhes nesta notícia recente que me despertam a sensação de dejá vu... O local onde acontecera - Afeganistão - as circunstâncias - a execução pelos talibans - e o número de vítimas - 22. Afinal, após uma rápida consulta, apercebi-me que circulava por aí uma história (veja-se abaixo um desmentido da France Press) que, em 2019, já era considerada uma «velha aldrabice» (an old hoax), contando a execução de 22 missionários cristãos. Como prometi no parágrafo mais acima, nem argumento. Limito-me a registar a(s) coincidência(s) e o facto dos talibans cometerem aquilo que os jornalistas da CNN descrevem como «estes verdadeiros desastres de relações públicas» precisamente nas ocasiões mais convenientes para quem se lhes opõe...

14 julho 2021

GRANADEIRO, «CIDADÃO DE BEM»

Henrique Granadeiro depõe como testemunha, depois de ter sido ilibado de corrupção e peculato. Assume ter recebido oito milhões de euros em francos suíços de Ricardo Salgado, que haviam sido sacados de um saco azul e sem qualquer documentação contabilística correspondente, mas será aquilo que, na Porta dos Fundos, designaram, a gozar, por Cidadão de Bem. Como o cidadão Fabio Porchat abaixo, Henrique Granadeiro é apresentado como alguém tão impoluto, que só suscita desconfianças...
Numa outra perspectiva, a pragmática, estes julgamentos começam a assemelhar-se aos dos dirigentes da Alemanha aquando da desnazificação. É melhor concentrarmo-nos apenas nos SS (criminosos e criminalizáveis, como Salgado, Berardo ou Vieira) porque, se nos pusermos com moralidades, não sobra quase ninguém entre banqueiros e CEOs daquele tempo...

13 julho 2021

O HOTEL EVA É DOS TRABALHADORES! OS CLIENTES SÓ LÁ VÃO ATRAPALHAR!

13 de Julho de 1981. A situação do Hotel EVA, no centro de Faro, era um dos anacronismos mais visíveis do processo das nacionalizações de 1975. Embora os governos revolucionários de Vasco Gonçalves não quisessem interferir de forma alguma na actividade hoteleira, o hotel acabara na posse do Estado porque fazia parte de uma empresa rodoviária (EVA - Empresa de Viação do Algarve, Lda.) que, essa sim, fora nacionalizada em 1975 conjuntamente com todas as grandes empresas de transporte rodoviário de passageiros. E fora assim que a Rodoviária Nacional EP, que resultara do amalgamento de todas essas transportadoras distribuídas por todo o país, recebera de bónus, um hotel para gerir, conjuntamente com empresas de táxis e de automóveis de aluguer e até uma famosa florista(!) na Rua da Prata em Lisboa... Meia dúzia de anos depois, como se pode ler pela notícia, procurava-se rectificar essas aberrações, no caso cedendo a exploração do hotel EVA a uma empresa privada vocacionada para o fazer. A questão é que os «trabalhadores (estavam) dispostos a lutar contra o desmembramento da empresa». A verdade é que a empresa não estava a ser «desmembrada». Pelo contrário, o hotel é que representava uma excrescência numa estrutura gigante vocacionada exclusivamente para a gestão do transporte rodoviário. Mas a comissão de trabalhadores, completamente dominada pelos comunistas, não queria saber dessa evidência para nada. A iniciativa era para ser bloqueada e começava por ser bom pretexto para os sindicalistas convocar dois plenários de trabalhadores, um em Faro (naturalmente...) e o outro... em Lisboa (que a questão do hotel de Faro poderia preocupar os motoristas, cobradores, mecânicos e restante pessoal sediado na capital...). Quando se lê esta notícia do Diário de Lisboa, que descreve o bloqueio dos sindicatos em termos medonhamente benignos, até parece que a razão da existência do hotel era possuir trabalhadores, e que os eventuais clientes só lá iam para atrapalhar os direitos dos trabalhadores! Ai do hóspede que reclamasse porque o bife estava mal passado!... Aliás, por alguma razão, se forjara a reputação que toda a hotelaria para lá da Cortina de Ferro possuía os empregados mais ineficientes e antipáticos de todo o Mundo! Uma daquelas conquistas de Abril que, felizmente, Portugal não chegou a conquistar...

ESCUSAVA DE SER ASSIM TÃO OSTENSIVO...

Não que eu atribua grande importância ao assunto, mas agradecia-se algum recato no lavar de roupa suja lá pelas bandas do CDS. Ainda anteontem, quando do anúncio das suas jornadas parlamentares, Telmo Correia (que supostamente dirige o grupo parlamentar), descartava a possibilidade de que se debatessem questões internas do partido. Citando-o: «o debate é sobre oposição no país, é isso que preocupa o grupo parlamentar do CDS». Mais adiante, explicava que convidara pessoalmente o eurodeputado Nuno Melo «numa lógica de integração e de colaboração entre os vários representantes políticos do CDS». Hoje a notícia que se pode ler (do lado direito) a respeito da prestação desse mesmo convidado Nuno Melo é que ele aproveitara o discurso que proferira no primeiro dia das jornadas (ontem) para atacar a liderança do CDS e criticar os cristãos novos do partido. Pelos vistos, o convidado partiu logo a loiça toda... e o aspecto é que não há pai para toda aquela malta. Nem os veteranos como Telmo Correia e muito menos o Chicão.

12 julho 2021

«...IR AO ESPAÇO NÃO É UMA PRIORIDADE. (...) A MINHA PRIORIDADE É IR LIVREMENTE A UM RESTAURANTE»

A notícia da viagem espacial de Richard Branson encheu os cabeçalhos da comunicação social como se fosse um meteorito vindo do espaço, sem pré-aviso e sem explicações quanto ao seu verdadeiro significado. Cumprissem os jornalistas a sua função e os seus leitores aperceber-se-iam que a viagem não foi «histórica» (como a classifica abaixo o Público) e que não «despontou» nenhuma «nova era espacial» (como se escreve no Observador). A organização de Branson anda nisto para ganhar dinheiro - levar turistas endinheirados para o espaço, como se lê naquela notícia de 2017 - e o que os palhaços dos jornalistas andam a fazer-lhes é a conceder publicidade gratuita por eles terem realizado uma banalidade técnica*. Publicidade que, por ser de borla, pode ser desperdiçada na esmagadora maioria de destinatários, que não tem e nunca virá a ter os 250 mil dólares necessários para pagar uma passagem. Agora, aquilo que preocupará essa esmagadora maioria é, em vez das idas ao espaço e no caso português presente, é o problema das idas ao restaurante. Não sei quem é a Sandra Cachide que twittou as verdadeiras palavras históricas de uma nova era impaciental, mas reconheço que ela mostra ali um verdadeiro faro jornalístico para denunciar e fazer-se eco das verdadeiras preocupações sociais, e não aquilo que se percebe ter sido plantado por agências de comunicação. A prioridade das pessoas comuns não é o espaço, a prioridade das pessoas comuns é ir livremente a um restaurante.
*O primeiro voo suborbital tripulado realizou-se em 5 de Maio de 1961

O FIM DAS HOSTILIDADES NA CAMPANHA SÍRIO-LIBANESA

12 de Julho de 1941. Os franceses aceitavam pôr fim às hostilidades provocadas pela invasão britânica dos seus dois mandatos da Síria e do Líbano. A campanha durara um pouco mais de um mês - de 8 de Junho a 12 de Julho de 1941 - e, porque colocara forças britânicas e francesas a combaterem-se frontalmente, é um daqueles episódios propositadamente esquecidos do conflito magno que constituiu a Segunda Guerra Mundial. Já aqui me referi a ele neste blogue numa série dedicada precisamente a esses sideshows mais ou menos desconhecidos da Segunda Guerra Mundial.

11 julho 2021

«...que inquieta a Europa?» A EUROPA NÃO FAZ A MÍNIMA IDEIA DE QUEM SE TRATA!

Esta notícia é um disparate. A verdadeira Europa não faz a mínima ideia quem é o primeiro ministro da Eslovénia. Para o explicar ao pequeno número de portugueses que se interessam por assuntos europeus, a melhor maneira é ir recuperar e recordar aquele famoso vídeo de Outubro de 2007, em que José Sócrates começa por deixar Luís Amado, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, de mão no ar, para depois ir cumprimentar efusivamente algumas das grandes figuras mediáticas europeias da época, como Javier Solana, Angela Merkel ou Nicolas Sarkozy (abaixo). Pois bem, este Janez Jansa é o senhor que cumprimenta Sócrates aos 0:35 segundos de vídeo, que ninguém então sabia de quem se tratava e de que país era, e que Sócrates trata até condescendentemente com alguns calduços no pescoço (ele que experimentasse fazer o mesmo a Sarkozy que até é baixinho e tem o perscoço muito mais a jeito...). Duas conclusões se extraem das imagens: em primeiro lugar que Janez Jansa já anda nestas coisas há muitos, muitos anos: todos os que aparecem nas imagens já se reformaram com excepção de Angela Merkel; e em segundo lugar, e confiando no instinto político demonstrado pela efusividade como aceitava os parabéns alheios, José Sócrates não tomava Janez Jansa em grande conta. E nesses assuntos europeus, José Sócrates sempre foi um bimbo, seguindo as opiniões prevalecentes e preocupado em impressionar o directório. Vir agora plantar uma notícia destas, com a intenção de tentar transformar o esloveno numa segunda edição do húngaro Viktor Orbán só pode ser um exagero disparatado...
Recorde-se que até os calduços que se pregam ao Viktor Orbán são de outro género!...

COMO SE NOTICIAVAM OS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS HÁ CEM ANOS

A 10 de Julho de 1921 houvera eleições legislativas em Portugal. Elegiam-se os 163 deputados e os 74 senadores que compunham o parlamento bicameral. Os jornais do dia seguinte - de há precisamente 100 anos - publicavam uma primeira panorâmica do que teria sido o desfecho. Em contraste com o que hoje acontece, as notícias do escrutínio atribuem o ênfase à identidade dos eleitos, descartando os números de votos, que eram irrisórios por sinal, considerando o que acontece na actualidade. Exemplo: Afonso Costa recebera no círculo de Lisboa Oriental 4089 votos, menos 336 dos que recebera nas eleições de 1919; por seu lado e ainda nesse mesmo círculo, Tomé de Barros Queiroz, o então primeiro ministro em exercício, recebera 2186 votos, uma subida de 1643 votos. Mas na maioria dos círculos eleitorais, a informação prestada era a identificação dos eleitos. Exemplo: em Guimarães haviam sido eleitos António de Carvalho Mourão, liberal; dr. Domingos Soares, liberal; Miguel Ferreira, dissidente; e Oliveira Salazar, católico (...). O que faria um beirão, a leccionar na universidade de Coimbra, a apresentar-se por um círculo minhoto? Mais do que uma pergunta pertinente, é uma pista sobre a falta de consistência dos candidatos em relação aos locais pelos quais se apresentavam. No computo global, o jornal já antecipava qual teria sido o desfecho das eleições: uma maioria «muito débil» dos governamentais (liberais). Mesmo assim, havia a expectativa que a direita republicana poderia ocupar o poder alternando com o partido democrático, pondo assim fim à hegemonia deste. Uma expectativa que não se iria concretizar.

10 julho 2021

RECORDANDO CRIMES DE ABUSO DA LIBERDADE DE IMPRENSA DE HÁ CINQUENTA ANOS

Entre algumas coisas importantes que a difusão da internet veio estabelecer nas sociedades do século XXI, conta-se o convívio com a pornografia. Como se pode ler acima, para além de a palavra sexo ser a mais pesquisada, existem 4,2 milhões de sites com pornografia, a cada segundo que passa gasta-se €75 em pornografia on-line. Contudo, transportada para dentro de casa, o tópico parece ter perdido o cunho de clandestinidade que anteriormente o caracterizava. E, apreciada pelos padrões actuais, a repressão que incidiu sobre a pornografia reveste-se agora de um cunho absurdo.
Como acontece com esta notícia de 10 de Julho de 1971 - há 50 anos, quando supostamente vigorava a «primavera marcelista» - que dá conta do «julgamento de um caso de execução e venda de impressos pornográficos». Lendo-a, percebe-se que o caso era mais sofisticado do que «impressos»: julgado em Tribunal Plenário Criminal (apresentados pela PIDE) tratava-se antes de uma editora clandestina de livros de literatura pornográfica (aprecie-se o exemplar abaixo), o que, perante o quadro penal então vigente, configurava «um crime de abuso de liberdade de imprensa».
Tem piada ler a expressão «Abuso de liberdade de imprensa» quando hoje as pessoas, exercendo a sua liberdade de consumir pornografia, dedicam-lhe 25% das suas pesquisas.... Porém, apreciada a situação de uma certa maneira estrita, formal e irónica, pode considerar-se que, para o Estado Novo e a repressão que este então exercia sobre a vida pública, os pénis e as vaginas andariam de par em par com as foices e os martelos... É uma associação tanto mais engraçada, quando os nostálgicos de qualquer dos dois lados totalitários da política não devem, ainda hoje, achar piada nenhuma à analogia.

UMA PITORESCA TENTATIVA DE ASSASSINATO/GOLPE DE ESTADO EM MARROCOS

10 de Julho de 1971. A propósito do recente assassinato do presidente do Haiti, vem mesmo a propósito evocar uma tentativa de golpe de estado que teve lugar há precisamente 50 anos em Marrocos e que envolvia também o assassinato do monarca daquele país, o rei Hassan II (1929-1999, acima).
O cabecilha da intentona, vir-se-ia depois a descobrir, era o general Medbouh (1927-1971), um ajudante de campo do rei, que contava com várias cumplicidades do exterior, nomeadamente os comandos e cerca de 1.000 cadetes de uma escola de formação de sargentos do exército marroquino.
O local e a ocasião foram, verdadeiramente, das Arábias: o palácio real de Skhirat, por ocasião das celebrações do 42º aniversário do rei, quando o palácio se encontrava cheio de centenas de convidados ilustres. Os rebeldes irromperam pelo palácio aos tiros, conforme se percebe pelo desenho supra.
O assalto durou umas duas horas, mas o rei conseguiu esconder-se, fugir e depois retomar o controlo da situação, com a convocação de tropas leais. As notícias do dia seguinte ainda não haviam conseguido explicar o que acontecera. Alegando «apoio estrangeiro» aos rebeldes, eram apenas peças de propaganda do regime ameaçado. 

Como acontece, de resto, agora, no caso haitiano, com a invocação da condição de estrangeiros dos assassinos do presidente. Como se o interesse pela liquidação do presidente haitiano fosse uma questão colombiana... Adenda: Nem de propósito, a versão colombiana começa a ser posta em causa...

O INÍCIO DAS CONVERSAÇÕES PARA PÔR FIM À GUERRA DA COREIA

10 de Julho de 1951. Começavam, numa área neutralizada adjacente a Kaesong, no centro da Coreia, as negociações que o Diário de Lisboa descrevia como «uma conferência» que estabelecesse o cessar-fogo na guerra que começara naquela península no ano anterior. Mais do que o exagero, já que o âmbito das negociações seria apenas militar e protagonizado por militares, perpassa pela notícia um certo tom de optimismo que o futuro se iria rapidamente encarregar de desmentir. Quatro meses depois ainda as negociações se arrastavam por minudências entravadas de incidentes como o demonstram as imagens abaixo. No computo global, esta nova fase estática da guerra da Coreia, entremeada de negociações, iria durar dois anos, o dobro do tempo que tomara a guerra de movimento inicial.

09 julho 2021

O QUE PODE REVELAR UM MICROFONE LIGADO

Normalmente estas apresentações não interessam nem ao menino jesus... Para que esta do Mourinho no Roma se tornasse interessante recorreu-se ao expediente de acenar à coscuvilhice do leitor para descobrir o que Mourinho dissera «depois de sair», quando «o microfone ainda estava ligado». São estas habilidades que me fazem reconhecer mérito a quem trabalha a imagem mediática do treinador, habilidades essas que nunca acontecem por acaso e que complementam espectacularmente as eventuais qualidades - no terreno de jogo mas também fora dele - do próprio José Mourinho. Aqui, é à conta da exploração dessa coscuvilhice congénita que o leitor (do Record, no caso acima) é engodado a estar uma hora(!) a ouvir uma conferência de imprensa (em italiano, legendada em inglês) repleta de lugares comuns, para, no fim da mesma e em alguns segundos, ouvir Mourinho a largar um - Caralho! - porque o microfone tinha caído ao chão... O expediente, apesar de concitar a atenção dos leitores, acaba por se revelar uma fraude, tanto mais quanto ele há outros espectaculares exemplos cinematográficos de microfones inconvenientemente ligados, como é o caso do do tenente Frank Drebin do filme «Aonde pára a Polícia?», que aqui abaixo recordo...

«YOU'RE THE FIRST, THE LAST, MY EVERYTHING»

Para mim esta canção só se me tornou familiar muitos anos depois de lançada, porque era dançada recorrentemente na casa de banho (unisexo!) do escritório de advogados onde trabalhava Ally McBeal na série homónima (acima). A letra é um contínuo superlativo e a voz de Barry White dá um cunho quase único à canção. Esta evocação é dedicada.
(Abaixo, uma versão bem mais completa para aqueles que quiserem matar saudades das cenas de casa de banho de Ally McBeal...)

08 julho 2021

RESISTÊNCIA DE APÓS-GUERRA

Retiradas de uma edição de um jornal lisboeta de 8 de Julho de 1946, estas duas notícias parecem ter perdido a importância que então se lhes conferia, pois a versão histórica prevalecente é de que não se registaram episódios sérios de resistência, nem na Alemanha nem no Japão, durante a ocupação a que os dois estiveram sujeitos. Vai-se à Wikipedia e não se encontra nada. Ora os episódios foram sérios: tanto num caso como noutro registaram-se cinco mortes e as notícias têm a chancela da United Press. Restam duas hipóteses: ou trataram-se de episódios de resistência a quem ninguém interessou e ainda hoje não interessa dar qualquer relevância; ou trataram-se de crimes de gangues do crime organizado (no Japão são famosos os yakuzas mas na Alemanha não há "crime organizado") a quem os serviços de informação das autoridades de ocupação pretenderam dar uma conotação política que eles não teriam.

07 julho 2021

PORQUE É QUE ESTA CONTRADIÇÃO FLAGRANTE NÃO PARECE INCOMODAR NINGUÉM?...

Recapitulemos, começando por usar duas notícias do mesmo jornal publicadas com quase precisamente dois anos de diferença - 5 e 6 de Julho de 2019 e 2021, respectivamente. Na mais antiga, é-nos dado conta que o antigo ministro da Defesa, Azeredo Lopes, fora constituído arguido no quadro das investigações que estavam a decorrer por causa do caso do roubo das armas em Tancos. Como escrevia no momento o novel arguido, num comunicado que tornou público: «Não escondo que esta situação me desgosta e constrange, pois a condição de arguido, sendo juridicamente garantística dos meus direitos, é socialmente destruidora.» Foi socialmente destruidora, e talvez um pouco mais do que isso, já que, quase um ano depois (26 de Junho de 2020) era notícia (abaixo e ainda no mesmo jornal) que o «juiz de instrução Carlos Alexandre» decidira «levar a julgamento todos os 23 arguidos do processo de Tancos, incluindo o ex-ministro da Defesa José Azeredo Lopes (...) pronunciá-los nos mesmos exactos termos em que foram - haviam sido - acusados» (...pelo Ministério Público). Na minha modesta opinião, tratava-se de uma decisão judicial que já não se poderia camuflar por detrás do garantismo jurídico propiciado pela condição de arguido, como Azeredo Lopes fizera no seu comunicado do ano anterior.
A situação aparentava ser cada vez mais delicada para o antigo ministro da Defesa quando - para voltar às duas notícias iniciais - o Ministério Público dá agora uma colossal pirueta no seu caso e aparece a pedir a sua absolvição das acusações que ele próprio (MP) anteriormente fizera, acusações essas que depois o juiz de instrução Carlos Alexandre avalizara! Eu não sei se isto é frequente em processos judiciais, este gesto do acusador - o Ministério Público - se contradizer frontalmente em duas fases distintas do mesmo processo. O que eu sei é que, se acontece e quando acontece, cada episódio precisaria de ser cuidadosamente explicado e escalpelizado. E sobretudo, quando a disparidade é deste calibre e desta visibilidade, saber quem se enganou, e o que é que se pretende fazer para que incidentes do género não se repitam. «O procurador Manuel Nunes Ferrão não seguiu, assim, numa parte central, a acusação proferida pelo Ministério Público (de que ele faz parte...), e apoiada em toda a linha pelo juiz de instrução criminal, Carlos Alexandre.» Na continuação o artigo embrulha-se em detalhes técnicos mas sem dar resposta à pergunta principal: que procurador é que se enganou? O que deduzira as acusações iniciais, ou este, que as ignorou?É que tenho que reconhecer que, se eu estivesse no lugar de Azeredo Lopes, em função do que aconteceu nestes dois anos e deste desfecho, estaria fodido como o caralho!!!

A RETIRADA AMERICANA DO AFEGANISTÃO

No quadro da retirada total das forças norte-americanas destacadas no Afeganistão, a maior base aérea do país, a de Bagram, foi evacuada no princípio deste mês de Julho. Não correu bem: não houve qualquer coordenação entre os norte-americanos que partiam e as autoridades afegãs a quem competiria ocupar as instalações vagas. Estas só descobriram posteriormente o que acontecera. Isto pode descrever-se, mas há que reconhecer que o impacto das imagens (acima) confere um impacto muito mais pungente ao que está a acontecer lá por aquelas paragens, depois de vinte anos de investimentos e esforços na construção de um modelo de sociedade que fosse uma alternativa à dos «talibans». Vinte anos foi muito tempo. A avaliação dos resultados tem que ser prudente. Mas situações como esta, em que os americanos acabam por não mostrar o mínimo respeito por aqueles que foram até agora os seus aliados locais, tornam a analogia com aquilo que aconteceu no Vietname do Sul assaz pertinente. Sobretudo quando se recorda o desfecho...

06 julho 2021

QUANDO AINDA NÃO HÁ INCÊNDIOS, AGOIRENTAM-SE...

Chegou-se ao Verão, mas ainda não houve incêndios espectaculares - Incêndio em Odemira controlado ao fim de dez horas. A não ser para o Correio da Manhã, mas esse é um jornal onde tudo é espectacular - Mais de 140 bombeiros combatem incêndio de grandes dimensões em Odemira. Esses arrancam um cabeçalho trágico até de um caixote de lixo incendiado! O problema para os outros é que a tradicional falta de notícias no Verão não se compadece com a falta de incêndios! Não os havendo, o expediente parece estar a ser agoirentá-los (agoirentar: Fazer previsões, geralmente desgraças ou de coisas negativas). Exercício que se pode perceber nos dois exemplos acima, um do Público, outro do Expresso (mas originário da seminal agência Lusa, e portanto passível de aparecer reproduzido entre outros tantos órgãos de comunicação social). Os pormenores formais variam: a ameaça vem da serra de Monchique num caso, de São Brás de Alportel e de Tavira (também no Algarve) no outro; a fotografia do Público é mais discreta e sugestiva, já que a pilha de madeira pode vir a arder; já a do Expresso é descarada e não deixa nada à imaginação. Mas o propósito parece ser o mesmo, o de ir entretendo o leitor até à eclosão do incêndio para depois o jornal o noticiar com o apport de ter alertado publicamente as autoridades competentes (qual é mesmo a denominação das autoridades competentes?...) para o facto. Para não se dar a este fenómeno uma impressão totalmente negativa, convém dizer que este é um dos raros casos em que se vêem jornais a noticiar prospectivamente e em antecipação aquilo que possa vir a acontecer. Embora tenha que confessar também, que me parece que o fazem apenas porque a notícia de que estavam à espera se atrasou... Porque é que não põem ninguém a trabalhar numa reportagem a explicar-nos o que é que podemos esperar - modalidade por modalidade - dos próximos jogos olímpicos de Tóquio, programados para começarem no próximo dia 23 de Julho? Ou estão à espera de traduzir alguma coisa que lhes chegue já feita?

05 julho 2021

A PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DO BIQUÍNI

A 5 de Julho de 1946, o criador francês Louis Réard apresenta pela primeira vez, numa passagem de modelos de fatos de banho, o biquíni. Surpreendentemente, o nome fora uma inspiração de última hora, da ilha tropical da Micronésia onde os norte-americanos haviam acabado de realizar um ensaio nuclear. Como se percebe pelo documentário, e como é muito frequente, a história do momento histórico passa ao lado das que o testemunharam. Apesar de ter sido o mais memorável de todo o acontecimento, o biquíni nem chegou a vencer o concurso. Não é assim tão histórico, mas também é digno de menção, a identidade da modelo que teve a ousadia de desfilar com o biquíni: Micheline Bernardini, então com 19 anos.

O ABAIXAMENTO DA IDADE ELEITORAL PARA OS 18 ANOS

5 de Julho de 1971. Numa cerimónia na Casa Branca, o presidente Richard Nixon procede à certificação do 26º Aditamento à Constituição dos Estados Unidos (abaixo) que baixa a idade eleitoral dos 21 para os 18 anos*. Dada a enorme popularidade que se atribuía à medida (fora aprovada no Senado por 94-0 e nos Representantes por 401-19), a cerimónia foi devidamente coreografada e televisionada, com Nixon a aparecer rodeado de juventude. Contudo, não deixa de ser irónico comparar essa América de há cinquenta anos - a que vemos no vídeo acima - e a da actualidade no que diz respeito ao alargamento do universo e da participação eleitoral. Depois de nas últimas eleições presidenciais de 2020 se ter alcançado um record histórico de participação eleitoral (158 milhões de eleitores), os republicanos, derrotados, desencadearam uma ofensiva legislativa que visa dificultar e restringir o exercício do direito de voto.
* Tratava-se do terceiro aditamento a respeito do assunto: o 15º em 1870 estendera aos negros o direito de voto; o 19º em 1920 estendera-o às mulheres.

04 julho 2021

AS APLICAÇÕES STAY AWAY

Depois do ministério da Saúde nos ter proposto que descarregássemos a app Stay Away Covid (com o insucesso que se sabe), agora é a vez do ministério da Administração Interna propor-nos a app Stay Away Cabrita. Como se escreve na página promocional: Cuide de si. Cuide de todos. Fuja do caminho (que o homem dá azar...). Com piadas destas a seu respeito, Eduardo Cabrita já está remodelado, António Costa é que está a fazer-se de sonso. Pior para ele.

O REGRESSO DE Dom JOÃO VI

4 de Julho de 1821. Depois de quase catorze anos de ausência no Brasil, o rei D. João VI regressa a Portugal, desembarcando no Terreiro do Paço, como o desenho acima documenta. Recorde-se que a Revolução Liberal do Porto ocorrera quase um ano antes. Há duzentos anos, a actualidade fluía a um ritmo muito diferente do de agora.

O «POGROM» DE KIELCE

4 de Julho de 1946. Há exactamente 75 anos tinha lugar um pogrom (palavra de origem russa que designa um ataque colectivo e maciço aos indivíduos e propriedades de uma minoria segregada, normalmente judeus) em Kielce, uma média cidade do centro-sul da Polónia (205.000 habitantes na actualidade). Nos anos precedentes, a Polónia assistira a milhares de outras ocorrências como aquela: sob ocupação alemã, a comunidade judaica polaca reduzira-se de 3,3 milhões em 1939 para 0,5 em 1945. A particularidade desta efeméride está no ano: 1946. A Segunda Guerra Mundial já acabara há catorze meses, os alemães (especialmente os residentes a oeste da nova Polónia) passaram de algozes a vítimas, expulsos desta vez pelos polacos que lhes ficavam com propriedades e bens, mas a ocorrência deste pogrom demonstrava que a sorte dos judeus só evoluíra no sentido de deixarem de ser exterminados industrialmente. Podia ser verdade que a morte de 42 judeus (e tantos outros feridos) perseguidos pela multidão seriam comparativamente um detalhe numa comunidade que se reduzira a 15% do que fora, mas o episódio representava um clímax que chocava todos aqueles que dele tiveram conhecimento. Depois do incidente, confrontaram-se duas máquinas de propaganda com interesses diferentes: a) a do regime comunista polaco quis abafá-lo, pois ele perturbava seriamente a legitimidade que o regime desejava e que os Aliados Ocidentais não lhe queriam conferir; o referendo que o regime havia organizado no Domingo anterior (30 de Junho de 1946) fora uma gigantesca fraude; b) a dos sionistas judeus quis empolá-lo o mais possível, posto que transmitir a imagem de insegurança (mesmo após a guerra) das comunidades judaicas da Europa de Leste era uma forma de estimular essas comunidades a emigrar e condicionar as opiniões públicas ocidentais a aceitar a emigração de todos esses judeus para a Palestina. Dali por 21 anos (1967), já a comunidade judaica na Polónia estaria reduzida a umas 25 a 30.000 pessoas, a esmagadora maioria delas sem ser sequer praticantes mas isso não impediu que houvesse uma última campanha anti-sionista na Polónia.
Só se surpreende com algumas características ultra-conservadoras e xenófobas da direita polaca quem desconhecer a história daquele país. A xenofobia foi característica transversal da sociedade. E quanto ao aspecto da memória, repare-se ainda que quem descerrou a placa evocativa acima foi Lech Wałęsa em 1990 - 44 anos depois dos acontecimentos...

03 julho 2021

A NOTÍCIA DO QUE SE VIRIA A REVELAR UM MAU NEGÓCIO

3 de Julho de 1981. A primeira página da edição desse dia o Diário de Lisboa dava conta da intenção da Força Aérea Portuguesa de comprar aviões de combate A7 Corsair aos Estados Unidos. A clarividência dos vinte anos que se seguiriam irá demonstrar que se tratara de um muito mau negócio. Convém explicar que, como tradicional, o dinheiro que Portugal possuía à época para comprar novo equipamento militar eram as verbas que os Estados Unidos pagavam pela utilização da base das Lajes, e que os americanos estavam prestimosamente disponíveis para trocar por equipamento militar. A escolha do equipamento cingia-se por isso, a material daquela origem. O avião desejado pelos portugueses para substituir o venerável F-86 era o F-5E Tiger II, porém, como eram os americanos os donos do jogo, o dinheiro era deles e eram também eles a fixarem os preços dos produtos, assistiu-se a uma espécie de jogo da vermelhinha em que os americanos acabaram por nos impingir aquilo que, como se percebeu depois, nos queriam impingir desde o princípio*. Sem entrar em explicações muito detalhadas quanto às diferenças entre o F-5E Tiger II desejado pelos portugueses e o A7 Corsair que os americanos lhes venderam, vale a pena esclarecer que, enquanto o primeiro esteve em utilização em mais de 30 países para além dos Estados Unidos, o segundo só foi exportado para mais 3. A cerimónia oficial da entrega do primeiro lote de aparelhos teve lugar em 18 de Agosto de 1981 nos Estados Unidos. Os primeiros aparelhos só chegaram a Portugal em Dezembro desse ano. Por muito que as publicações oficiais da Força Aérea o tentem disfarçar, por muito interessantes que sejam as fotografias promocionais (abaixo), impõe-se concluir que a prestação operacional do A7 Corsair foi um fiasco. Um primeiro indício disso é o facto de, numa instituição (FAP) reputada de, por escassez de meios, fazer render ao máximo os que dispõe, os A7 só estiveram ao serviço por 18 anos (1981-1999). Os problemas de substituições de peças começaram a multiplicar-se, aviões começaram a ser sacrificados para fornecerem peças para os outros, uma operação conhecida por canibalização. Mas, mais objectiva é a taxa de acidentes ocorridos nesses 18 anos de serviço: 16 em 50 aviões, ou seja 32%, foram destruídos. (Assinale-se, para comparação, que na Luftwaffe os F-104 Starfighter tiveram uma taxa idêntica e, por causa disso, foram crismados de «fazedores de viúvas») Mas de todo o episódio ganhou-se contudo, entre os militares portugueses, a percepção que os americanos também podem ser uns perfeitos vigaristas quando se trata de impingir o seu armamento. Ele há negócios que parecem umas pechinchas e que vêm a revelar-se caríssimos.     
* A primeira proposta era para a aquisição de 20 F-5E Tiger II, por um preço total de 120 milhões de dólares. Porém, como o saldo a favor de Portugal por conta da utilização das Lajes era apenas de 72 milhões, isso implicaria a contracção de um empréstimo de 48 milhões. Outra proposta, mais moderada, era a da aquisição de um mínimo de 12 F-5E Tiger II mas, ainda assim, o preço - 79 milhões - ainda ultrapassaria o saldo. Mais em conta, adiantavam os americanos, havia uma terceira proposta, a dos portugueses comprarem 30 A7 Corsair por apenas 49 milhões. É verdade que os A7 não possuíam as capacidades de intercepção e as características originalmente desejadas pelos portugueses, mas estavam a um preço tão interessante que lhes ainda sobravam verbas para reconfigurar tecnologicamente os aparelhos... No final, os portugueses acabaram por ficar com 50 A7 Corsair.

02 julho 2021

UMA DAS SETE VIDAS DO GENERAL PHIBUN

Há umas três semanas publiquei no Herdeiro de Aécio uma história dando relevo à dinâmica muito própria da vida política tailandesa, exemplificada por um texto dando conta das peripécias de um dos seus expoentes dos meados do século passado, num texto a que dei o título de «As Sete Vidas do General Phibun». Quem se lembrar desse texto, ou quem o quiser reler, compreenderá a familiaridade com que torno a recuperar tal personagem para agora dar conta, em jeito de efeméride, a mais uma das suas sete vidas, completam-se hoje setenta anos da ocasião em que o nosso conhecido general Phibun (agora promovido a marechal) sobreviveu a mais um golpe de Estado, daquela vez, e como explica a notícia, perpetrado pela marinha tailandesa, mais um episódio daquilo que é descrito como «a tradicional luta pelos poderes políticos entre o Exército e a Armada».

O CENTENÁRIO DE «A PRIMEIRA REPORTAGEM RADIOFÓNICA»

2 de Julho de 1921. Do ponto de vista formal, a ocasião resume-se a um match de boxe entre o campeão americano Jack Dempsey, e o campeão europeu, o francês Georges Carpentier. Mas, para além do boxe ser naquela época um desporto muito popular nos Estados Unidos, do ponto de vista simbólico está em disputa a primazia entre os dois continentes, numa ocasião em que ainda era difícil eles encontrarem-se (uma viagem transatlântica durava, pelo menos, uns cinco dias). Considerado o Combate do Século, o século, ingrato, rapidamente se esqueceu dele. Porém, associado ao combate, houve algo que aconteceu de verdadeiramente histórico, e aproveite-se para contar como, por causa dele, aconteceu a primeira reportagem radiofónica.
Note-se esta aparição do futuro presidente Franklin D. Roosevelt na história. Ao vê-lo afastar-se caminhando normalmente o argumentista (Lux) está a ser rigoroso: a doença que o deixou paralisado da cintura para baixo só o veio a atacar no Verão de 1921, já depois do combate ter tido lugar. Em contrapartida, é provável que ele fosse mais conhecido por ter sido o candidato à vice-presidência que perdera as eleições do ano anterior do que por ter sido um antigo sub-secretário da Marinha.

01 julho 2021

A PERGUNTA DE MARCELO, A RESPOSTA DA DGS E A MINHA SENSAÇÃO QUE «ISTO» É UM BOCADO «À VONTADE DO FREGUÊS»

Por esta vez, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa abriu a boca para fazer uma pergunta que considero bem pertinente: o porquê do anúncio do isolamento do 1º ministro António Costa, se ele já foi vacinado? O que me pareceu insatisfatório foi a redacção muito flexível da resposta da DGS, sobretudo se combinada com aquilo que temos acompanhado a ser decidido noutras paragens. Será o caso, por exemplo, do CDC norte-americano (abaixo) que, desde Fevereiro deste ano, «orientava» que as pessoas já vacinadas «não precisavam» de «ficar de quarentena». Ora perante tais contradições, convinha que os da DGS, explicassem mas substantivamente porque é que é assim como eles dizem que é, especialmente porque sabemos que noutros sítios não é... O que é que os faz, a eles, ter mais razões que os outros? É que assim criam a impressão que ele há normas que, mais do que científicas, parecem ser de interpretação livre, assim «à vontade do freguês» - «a norma (...) pode (...) ser alterada, se a evolução da pandemia permitir». Em que condições, especificamente, é que a norma pode ser alterada, se a CDC já a alterou? Porque, se o «princípio» for o vagamente invocado «da precaução», suponho que precavidos podemos ser todos, mas a esse acolho-o meramente como uma sugestão, não como uma imposição.

30 junho 2021

A TRAGÉDIA DA SOYUZ 11

Durante a corrida espacial, os Estados Unidos tiveram o seu acidente espacial com o voo da Apollo 13. Um interruptor não se desligou como previsto, ocasionando uma explosão que danificou irremediavelmente um dos dois tanques de oxigénio da nave (como se pode observar acima). Apesar dos danos e dos objectivos do voo terem sido cancelados, tudo acabou bem quando os três astronautas norte-americanos (Lovell, Haise e Swigert) regressaram sãos e salvos à Terra a 17 de Abril de 1970. Vinte e cinco anos depois, Hollywood fez do episódio um filme em estilo de epopeia dramática. O voo da Soyuz 11 soviética não foi uma epopeia, mas uma tragédia. Realizado entre 6 e 30 de Junho de 1971, pouco mais de um ano depois do da Apollo 13, e ao contrário desse, o dos soviéticos foi um voo em que tudo estaria a correr sem incidentes graves até ao dia do regresso à Terra, em que tudo acabou por correr muito mal. Quem viu o filme sobre a Apollo 13, pode encontrar semelhanças em alguns aspectos associados ao voo da Soyuz 11. Nos dois casos, houve questões médicas – rubéola entre os americanos, tuberculose entre os soviéticos – que levaram a alterações nas equipas de voo.
Assim como na equipa americana houve o impacto da substituição à última da hora de Mattingly por Swigert, na soviética, o processo de constituição da equipa de reserva agora promovida para a missão¹ também poderia ter sido mais reflectido, ao escolherem um Comandante (Dobrovolski, acima ao centro) que era novato a ser coadjuvado por um cosmonauta experiente (Volkov, à direita, que já voara na Soyuz 7), num meio onde a questão da antiguidade é muito valorizada. O terceiro membro da tripulação e engenheiro de voo (Patsayev, à esquerda) também seria um estreante no espaço.
Mas, mais uma vez como na Apollo 13, não foi o factor humano mas sim o material o responsável pelo desencadear dos acontecimentos que conduziram ao desastre. Durante as manobras de reentrada na atmosfera, ainda a 168 km de altitude, abriu-se prematuramente uma válvula que se destinava a equilibrar a pressão atmosférica da cabine quando ela se encontrasse próxima da superfície. Os cosmonautas teriam tido 20 a 30 segundos de lucidez para reagir antes que a pressão na cabine descesse para níveis que os fizeram desmaiar e depois morrer. Em menos de dois minutos a pressão desceu para zero.
As equipas em terra não se terão apercebido do que acontecera. Estranharam o súbito silêncio rádio mas a operação de reentrada – que se processa automaticamente – já se iniciara e a manobra em si inclui um período de silêncio rádio. Veio a ser a equipa de recuperação que encontrou os três cosmonautas já definitivamente mortos apesar das tentativas de reanimação que encetaram (abaixo). Deduziu-se depois, pelos hematomas que apresentava na mão, que Patsayev ainda havia tentado selar manualmente a válvula defeituosa antes de desmaiar. Ao contrário da outra, esta história não teve um final feliz.
¹ Ao contrário das norte-americanas, as equipas soviéticas funcionavam em bloco. No caso, as suspeitas de tuberculose que incidiam sobre Kubasov fizeram com que a sua equipa (Leonov, Kubasov e Kolodin) fosse integralmente substituída pela equipa de reserva (Dobrovolski, Volkov e Patsayev).