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18 março 2024

A ERUPÇÃO DO VESÚVIO EM PLENA GUERRA

(Republicação)
18 de Março de 1944. Em Itália e em plena Segunda Guerra Mundial, apesar da destruição da frente de batalha passar apenas a 90 km dali, em Monte Cassino, a Natureza, na sua suprema indiferença, resolve exibir-se, accionando o Vesúvio, que entra em erupção. Aos beligerantes resta-lhes contemplar impotentes os tremendos poderes destrutivos - mas neutrais - da Natureza.

01 março 2024

O TESTE «CASTLE BRAVO»

(Republicação)
1 de Março de 1954. Os Estados Unidos procediam a um teste de um novo dispositivo nuclear no atol de Bikini, no Pacífico. Baptizaram-no de Castle Bravo. O engenho era um dispositivo de quatro metros e meio de comprimento e com mais de dez toneladas de peso. Mas os aspectos técnicos e as consequências do ensaio já foram por mim aqui descritos, ainda que sucintamente, no Herdeiro de Aécio. O que nos importa acompanhar desta vez, em jeito de efeméride pelos seus 70 anos, foi a perspectiva daqueles que activaram e acompanharam o ensaio no bunker de detonação, que fora construído na ilha de Enyu a mais de 30 km do local da explosão. Foi a equipa que para ali fora destacada para monitorizar a explosão que primeiro se apercebeu que algo não estava a correr conforme o previsto. Enquanto esperava pelo impacto, o cientista que dirigia a equipa, Bernard O'Keefe, ficou gradualmente mais apreensivo. O'Keefe era, não apenas um veterano, como também o género de veterano difícil de impressionar. Na noite da véspera de Nagasaki fora ele que, violando as regras de segurança, substituíra a tomada do cabo de detonação do engenho que iria tornar-se célebre no dia seguinte com o nome de Fat Man. Em 1953, na Área de Testes do Nevada e depois de um dispositivo de implosão ter misteriosamente falhado, fora ele que se dispusera a subir até ao topo da torre onde o dispositivo estava instalado, para arrancar os fios de detonação.
Mas, desta vez, parecia diferente. Dez segundos depois da detonação, o bunker enterrado onde estavam pareceu começar a mover-se, o que não fazia sentido: o bunker estava agarrado ao solo e tinha paredes de um metro de espessura...
- É isto que se está a mexer ou sou eu que estou tonto? - perguntou um outro cientista
- Meu Deus, é verdade. - respondeu O'Keefe - Está-se mesmo a mexer.
O'Keefe começou a sentir-se enjoado como se estivesse num navio em alto mar e agarrou-se a alguma coisa enquanto os objectos à sua volta caiam das bancadas. O bunker comportava-se, como ele depois veio a descrever, «como se estivesse assente em gelatina». A onda de choque da explosão que viajara através do solo havia-os alcançado antes da que viajava pelo ar. Com o equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT, a potência do engenho acabado de detonar viera a revelar-se duas vezes e meia superior às previsões. Mesmo considerando todas as margens de segurança antevistas para estas operações, os cientistas haviam tido a sua dose de sorte. E iriam precisar de continuar a tê-la...
A bola de fogo da detonação inicial alcançara um diâmetro de 6,5 km e a característica nuvem em forma de cogumelo das explosões atómicas estendeu-se até aos 40 km de altitude em menos de dez minutos. Quinze minutos depois da explosão, O'Keefe e mais oito homens da sua equipa saíram para observar o que acontecera à superfície. Enyu estava rodeada de um nevoeiro opaco e cinzento. As árvores haviam sido todas derrubadas, havia ramos de palmeiras espalhados por todo o lado, os pássaros haviam desaparecido completamente. E aquela era a paisagem a mais de 30 km do centro da explosão... Começara a cair uma estranha cinza branca, a fazer lembrar neve e os contadores Geiger estavam a registar cada vez mais radioactividade. Voltaram para o bunker e encerraram-se, não sem antes se decidirem a desligar o ar condicionado, que já começara a trazer a radioactividade para dentro do próprio bunker. Os cientistas ali permaneceram por horas, sob um calor cada vez mais opressivo e só saíram dali completamente cobertos por lençóis (a que recorreram para se protegerem da queda do material radioactivo) para correrem para helicópteros enviados de urgência para os evacuar. Apesar de tudo, Bernard O'Keefe só veio a falecer em 1989 com 69 anos de idade, o detalhe da narrativa acima deve-se a um dos seus livros de memórias. A cratera lá continua, numa evocação (para quem a saiba interpretar) do que pode ser o poder da teoria: afinal, fora apenas alguém que se enganara nos cálculos...

03 janeiro 2024

O INÍCIO DA COMERCIALIZAÇÃO DA METADONA

3 de Janeiro de 1949. Esta discreta notícia acima dá conta do início da comercialização no Reino Unido de «um novo analgésico seis vezes mas eficaz do que a morfina» sob a designação comercial de «Heptalgine». A Glaxo era uma farmacêutica britânica. Contudo, o segundo parágrafo do texto dá-nos a perceber que a nova «fórmula» era o resultado de desenvolvimentos de pesquisas prévias que haviam sido já realizadas pela indústria farmacêutica alemã durante a guerra. «Amidone» é afinal a designação britânica para «methadone», a metadona que posteriormente se veio a popularizar como droga de tratamento dos toxicodependentes em heroína e outros opiáceos. Tratava-se de uma grande descoberta, mas os autores eram outros e esta é mais uma daquelas pequenas notícias cuja importância só virá a ser percebida com o tempo.

14 novembro 2023

SURTSEY – A MAIS JOVEM ILHA DO ATLÂNTICO

(Republicação)
Em 14 de Novembro de 1963, um navio pesqueiro que navegava a algumas milhas ao largo da Costa sudoeste da Islândia (mapa acima) deparou-se com uma enorme coluna de fumo que resultava da erupção de um vulcão submarino.
Com o cume do vulcão situado originalmente a uma profundidade de 130 metros, dada a potência da erupção, veio-se a assistir então, pela primeira vez depois do aparecimento da vulcanologia, ao nascimento de uma ilha em pleno Oceano.
Mais do que uma explicação geológica sumária do fenómeno, este poste pretende ser uma pequena compilação de fotografias sempre espectaculares da gigantesca luta ali travada entre os elementos primitivos da água e do fogo.
A erupção prolongou-se por cerca de três anos e meio até cessar. Nessa altura, Junho de 1967, a nova ilha, que havia sido baptizada Surtsey, atingira uma área de 270 hectares e uma altitude máxima de 173 metros (abaixo).
De então para cá, apenas a água e o ar têm permanecido activos e a ilha, enquanto é colonizada por flora e fauna (focas, aves e insectos), tem também vindo a diminuir por causa da abrasão: a sua área actual já está reduzida a metade da original.
Esclareça-se ainda que esta última referência à inexorabilidade das forças abrasivas da Natureza não é uma alusão indirecta a outros desgastes em episódios vulcânicos ocorridos noutras ilhas Atlânticas…

06 outubro 2023

O GRANDE PREDADOR DA SAVANA SUL AFRICANA

Um estudo, cujos resultados foram muito recentemente publicados na revista Current Biology, parece demonstrar, a partir dos padrões comportamentais, que o grande predador da savana sul africana é... o Homem. Conforme se comprova pelas imagens abaixo, vários animais de porte - girafas, elefantes, rinocerontes - foram experimentalmente sujeitos a sons emitidos por animais predadores, nomeadamente o do apex daquela região, o leão. A reacção varia, conforme a espécie: as girafas fogem, enquanto os rinocerontes permanecem indiferentes e os elefantes até reagem confrontativos. Em contrapartida, aquilo que os afugenta a todos, sem distinção, parece ser o som de conversas humanas, seja em que língua for. Eis uma conclusão que explicará de um outro modo aquele tradicional pedido de silêncio aos turistas, quando eles vão ver os animais nas reservas: não será tanto para segurança dos turistas, será sobretudo porque o som das suas vozes assustaria os animais...

07 agosto 2023

REPUBLICAÇÃO EM SINTONIA COM A MODA DESTE VERÃO MUITO «NUCLEARIZADO»

(Também conjugada com a passagem do 78º aniversário da bomba de Hiroxima)
The Making of the Atomic Bomb foi publicado originalmente em 1987, é um livro com quase 800 páginas que foi distinguido com vários prémios (incluindo o Pulitzer para obras de não-ficção) e que descreve o processo ao longo da primeira metade do Século XX que levou às descobertas científicas e à posterior construção das primeiras bombas atómicas nos Estados Unidos, bombas essas que destruíram no final da Segunda Guerra Mundial as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. The Dark Sun, também de Richard Rhodes, é uma sequela ligeiramente mais curta (600 páginas) do livro anterior, publicada em 1995, e que cobre o período seguinte, o da evolução do armamento nuclear para o termonuclear (1945-1952), e o aumento exponencial da potência de destruição desta nova arma atómica. Não são livros que ache que se possam recomendar. Exigem concentração na leitura e conhecimentos de base. Não se tenha a pretensão que a sua leitura, só por si, qualifique alguém no tema das armas nucleares. E, por outro lado, poder-se-á falar das questões da segurança e proliferação nuclear sem a necessidade de dominar os aspectos técnicos da configuração de Teller-Ulam. Embora ajude saber quem foi Edward Teller nesta época em que, por causa do filme homónimo, estamos rodeados por opiniões de quem se convenceu que o desenvolvimento da bomba atómica se deveu quase todo a Robert Oppenheimer.
No caso do último livro exibido, Command and Control, que data de 2013 (500 páginas) e onde se escreve sobre o período subsequente, é-se menos técnico, começa com o fim da fase do pioneirismo e o armamento nuclear e termonuclear sai de uma espécie de elaboração pioneira e artesanal de alguns exemplares para passar a ser produzido e armazenado em série, quando os incidentes e acidentes ocorridos durante o transporte das bombas são capazes de nos pôr, retrospectivamente, os cabelos em pé. Não nos qualificando, a leitura destes livros dá-nos pelo menos a segurança de sabermos onde estão as fronteiras da nossa ignorância sobre a feitura, o emprego e as consequências da utilização de armamento nuclear, questões complexas que nada têm daquelas simplicidades cristalinas que nas redes sociais se publicam anualmente a todos os 6 de Agosto por ocasião do aniversário da bomba de Hiroxima. Ontem lá foi nova ocasião para se publicarem mais uns megadisparates. Creio que a frase terá mais de 100 anos, mas nunca como no nosso tempo. e porque os campos do conhecimento se estenderam enormemente, houve a possibilidade de constatar o quanto a ignorância é atrevida.

27 junho 2023

« - I'M SORRY DAVE, I'M AFRAID I CAN'T DO THAT»

Suponho que o mais difícil, quando se lê o título do artigo acima, é não fazer a associação entre os objectivos anunciados pela NASA (a conversa estre nave e astronauta) com a famosa conversa entre o astronauta Dave Bowman e o computador HAL 9000 no filme 2001, Odisseia no Espaço. Pois bem, a jornalista que escreveu o artigo consegue! Lendo-o na totalidade, percebe-se que a jornalista Renata Turbiani está apenas a fazer uma condensação traduzida em 300 palavras de um artigo mais desenvolvido que fora publicado dois dias antes no jornal britânico The Guardian... que começa precisamente por essa alusão ao filme 2001! Este é um exemplo acabado do impacto da ignorância na qualidade da informação produzida. Como a jornalista parece não fazer a mínima ideia do significado daquele filme, ignora a alusão na condensação que a incumbiram de fazer, perdendo-se com isso as dúvidas inerentes ao desenvolvimento deste género de tecnologias. Esta é a mediocridade de quem passa ao lado do que é interessante e importante, sem sequer dar por eles. Mais uma vez, e como escrevi no poste anterior, suponho que, mais do que as preocupações futuras com a inteligência artificial, temos que nos desdobrar em preocupações presentes com a estupidez natural. No caso, não da Renata Turbiani, de que temos apenas a certeza da ignorância, não da estupidez, mas da estupidez comprovada de quem contratou a Renata para escrever a página da Tecnologia, sem que ela perceba um mínimo do assunto.

18 junho 2023

ANGÚSTIAS DE LUXO - AQUELES QUE VIVEM DE ASSUSTAR O PRÓXIMO

Durante praticamente toda a sua existência, a Humanidade viveu com as catástrofes que lhe podiam vir a acontecer, algumas aconteciam (terramotos, inundações, epidemias), mas viveu na ignorância feliz de que um dia talvez um asteróide lhe pudesse cair em cima. A disciplina da astronomia é milenar, a astronáutica tem 66 anos, mas os meteoritos eram coisas que aconteciam. Foi só no século XXI que se atingiram as capacidades técnicas para detectar muito pequenos pedaços de matéria a vogar no espaço próximo. Detectá-los e calcular as suas trajectórias é uma tarefa ingrata e cheia de incertezas. E aqui acaba a ciência, e começa o trabalho estúpido de quem vive de assustar os outros, a pretexto de seja do que for...

08 junho 2023

HÁ SESSENTA ANOS JÁ SE FALAVA DE «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL»

«O cérebro electrónico mais perfeito foi apresentado agora na Feira de Hanover, considerado o maior certame industrial em todo o mundo. O engenho prodigioso, chamado Ramac 305, fornecia, em breves segundos, ao visitante quaisquer informações solicitadas em inglês, francês, espanhol e alemão. Assim, qualquer pessoa, sem ter de se embrenhar na consulta exaustiva de guias e catálogos, sabia logo onde se situavam os stands e onde encontrar os produtos que lhe interessavam e respectivas firmas fabricantes.
Nada menos que cinco mil produtos haviam sido encaixados pelo cérebro electrónico, que revela assim uma capacidade de retentiva (sic) muito mais poderosa do que a memória do homem. E o prodígio mecânico sugere a interrogativa: - Poderá o cérebro electrónico substituir a capacidade de raciocínio do homem?»

As diferenças das capacidades técnicas dos equipamentos são abissais, mas, há sessenta anos como agora, a resposta para a pergunta sobre a capacidade das máquinas virem a substituir os humanos é de índole filosófica, não técnica, e concretiza-se em haver uma definição clara do que é o «raciocínio humano». Só se houver essa definição clara - não havia em 1963 e continua a não haver em 2023 - é que se tornará possível responder à questão. Dando um exemplo concreto, e partindo do pressuposto que aqueles programas de paineleiros de futebol da CMTV sejam verdadeiros exercícios de «capacidade de raciocínio do homem», para se perceber se a «inteligência artificial» será já possível nos dias que correm, será que um dia destes poderemos ver um chatbot Pedro Guerra que se pegue à conversa com o original?...

28 maio 2023

O PRIMEIRO ENSAIO NUCLEAR PAQUISTANÊS

28 de Maio de 1998. O Paquistão realiza o seu primeiro ensaio nuclear. A detonação (subterrânea) tem lugar numa remota montanha da província do Baluchistão. Seguir-se-á um segundo ensaio, dois dias depois, noutro sítio de testes, em local desértico, mas ainda no Baluchistão. O primeiro teste fora feito utilizando bombas com urânio enriquecido, o segundo teste será com uma bomba de plutónio. Percebe-se hoje que este conjunto de ensaios era uma demonstração política da aquisição da capacidade nuclear parte do Paquistão, uma aquisição que já tivera lugar anos antes, mas que só agora em exposta, em resposta a dois ensaios nucleares que a Índia acabara de realizar entre 11 e 13 de Maio.

21 abril 2023

O QUE SE «SABIA» HÁ SESSENTA ANOS SOBRE OS MARCIANOS...

Em dois dias consecutivos, 20 e 21 de Abril de 1963, e de origens distintas e até mesmo concorrentes (Moscovo e Washington), os leitores do Diário de Lisboa podiam acompanhar o que os sábios sabiam sobre os marcianos, que eram seres racionais e que o seu desenvolvimento biológico era mais avançado do que o terrestre. O convívio entre o jornalismo e a ciência sempre foi esta tristeza. O primeiro só está interessado em extrair da segunda aquilo que tiver mais impacto para prender a atenção dos leitores. E é o curso da história que depois selecciona o que é relevante - que, porque normalmente complexo, raramente aparece publicado e explicado - de tudo o resto como estes marcianos.

14 abril 2023

O ANÚNCIO DA SEQUENCIAÇÃO DO GENOMA HUMANO

(Republicação)
14 de Abril de 2003. Através de um comunicado conjunto de todas as entidades envolvidas no projecto, (projecto esse que havia demorado 13 anos e custado cerca de 3.000 milhões de dólares), é anunciada a conclusão - a 99% - do processo de sequenciação do genoma humano. É aquele género de notícia em que haverá uma percentagem semelhante de leitores - uns 99% - que se apercebe que ela deve ser importante mas, se não lhe explicarem na hora e mesmo com os novos meios de aprendizagem à sua disposição, também não vai ao Google pesquisar porquê...

15 fevereiro 2023

O METEORO DE CHELIABINSK


15 de Fevereiro de 2013. Vantagem constatada do avanço científico do socialismo soviético, a Rússia só bem tarde, a partir do último decénio do século XX, é que entrou na fase de popularização dos automóveis particulares. A condução na Rússia, com a profusão de acidentes de trânsito do mais bizarro possível, a que não falta o requinte exótico das estradas cobertas de neve*, tornaram-se assim numa imagem de marca da Rússia pós-soviética, popularizadas pelas imagens das câmaras de filmagem que as companhias de seguro passaram a incluir nas viaturas russas, com a finalidade de resolverem com mais celeridade os litígios em casos de acidente. É sobretudo a essas câmaras que se deve uma cobertura vídeo impar do fenómeno do meteoro de Cheliabinsk, que ocorreu há dez anos. Tivesse o fenómeno ocorrido num outro país e a inexistência de câmaras nos automóveis teria reduzido as imagens do acontecimento a uma fracção dos dez minutos de imagens que estão disponíveis acima. Embora de forma indirecta, quiçá involuntária, a Ciência deve aqui ainda alguma coisa à sociedade socialista construída por Lenine, Estaline e os seus sucessores.

* Em países com as mesmas condições meteorológicas, casos da Suécia ou da Finlândia, em vez dos acidentes espectaculares, as estradas cobertas de neve parecem responsáveis pela produção de uma série infindável de grandes condutores de competição.

04 fevereiro 2023

O ANÚNCIO DA DESCOBERTA DO CORPO DE RICARDO III

4 de Fevereiro de 2013. Em conferência de imprensa, os cientistas da Universidade de Leicester do Reino Unido, anunciam que os restos mortais, que haviam sido desenterrados cinco meses e meio antes de uma vala medieval, situada debaixo de um parque de estacionamento moderno, eram, para lá de qualquer dúvida, os restos mortais de Ricardo III, um rei inglês que reinara entre 1483 e 1485 e que morrera numa batalha (Bosworth) que se travara não muito longe dali. Para obter essa certeza, várias ciências haviam-se coligado com a arqueologia: a datação por radiocarbono (para datar com a maior precisão a data de enterro do corpo e a antiguidade dos artefactos que o acompanhavam), a osteologia (já que se sabia que Ricardo III possuía uma deformação óssea), a ciência forense (para enquadrar as lesões que o esqueleto exibia, indicativos de uma morte violenta) e, finalmente, a genealogia e a genética (que permitiu efectuar comparações do DNA mitocondrial com pessoas vivas com quem Ricardo III possuiria uma correspondência perfeita). Foi só depois da confirmação conjugada de todas estas disciplinas que se procedeu ao anúncio mundial. A identificação dos restos mortais do rei Ricardo III - cujo paradeiro se ignorara por cerca de 440 anos - é um dos grandes feitos da arqueologia do século XXI. Apesar de Ricardo III continuar a ser uma personagem historicamente antipática, os restos mortais do rei vieram a ser devidamente enterrados na catedral de Leicester numa cerimónia em Março de 2015.

08 janeiro 2023

O BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALFRED RUSSEL WALLACE

A 8 de Janeiro de 1823 nascia, em Gales, Alfred Russel Wallace. Virá a ser reconhecido, conjuntamente com Charles Darwin, como um dos co-autores das modernas teorias da evolução. Em todos aquele relatos mais simplificados da génese da teoria evolucionista, a narrativa concentra-se em Darwin e Wallace, quando não é omitido, é relegado a um papel secundário, que terá sido um simples estímulo, para a formulação da teoria pelo próprio Darwin. Na realidade, Wallace desenvolveu as suas próprias concepções distintas sobre a evolução, antes e em paralelo com Darwin. Terá sido um ensaio de Wallace, que este enviou a Darwin para apreciação e comentário, que terá estimulado o segundo à redacção da Origem das Espécies em 1859, tinha Darwin 50 anos e Wallace apenas 36. A importância de ambos era a que parecia, não a que era. Concordantes nos aspectos globais, havia imensos aspectos sectoriais em que as suas opiniões divergiam. Lembro-me de ter lido algumas dessas divergências num dos capítulos do livro O Polegar do Panda de Stephen Jay Gould. Tinha o título de: A selecção natural e o cérebro humano: Darwin versus Wallace. É curto (14 páginas), estive a relê-lo e continuou a parecer-me minucioso demais e, aparentemente, o que provocou a subalternização de Wallace não foi nada do que lá está explicado, e sim apenas a tendência para que estas histórias tenham uma estrutura escorreita e simples, o que dá preferência a haja um herói em vez de dois.

07 janeiro 2023

OS PRODÍGIOS DE UMA MÁQUINA CALCULADORA

Se já demos conta aqui de uma notícia de uma descoberta científica dos princípios da década de 1930 que se veio a revelar uma completa aldrabice, é de toda a justiça destacar, para contraste, uma outra que não o é. Esta máquina calculadora que é tão gabada pela notícia acima de 7 de Janeiro de 1933 era uma realidade, embora as suas proezas, como a resolução da equação de Schrödinger (1926) e da equação de Thomas-Fermi (1927) estivessem certamente muito para além da compreensão dos leitores da época, dos leitores actuais, do próprio autor destas linhas e, já agora, do próprio jornalista que escreveu então o artigo, que nem faria a mínima ideia quem eram aqueles que referia, já que conseguiu a proeza de se enganar nos nomes dos autores das equações: Schrödinger e não Schodinger, Fermi e não Fermie... A fotografia da máquina (que não foi publicada no jornal) dá-nos uma pista de qual seria o óbice para uma máquina tão performante: por recorrer predominantemente a meios mecânicos, era extremamente complexo e moroso recalibrá-la para efectuar cada novo cálculo. O construtor, o professor Vannevar Bush (1890-1974), foi uma daquelas figuras históricas muito pouco conhecidas fora dos meios científicos, mas que poderia ter servido de inspiração para a personagem do professor Pardal da Disney.

18 dezembro 2022

À CONVERSA COM UM «ROBOT»

Foi uma revelação para mim a crónica deste fim de semana de José Pacheco Pereira no Público (acima). Contém duas passagens (realçadas a itálico e por mim transcritas abaixo) em que o autor transcreve as respostas que terá recebido, produzidas pela Inteligência Artificial de um site que indica. As respostas, como se pode comprovar, são assustadoramente impressionantes, parecem humanas. Tenho até um amigo que opina usando este mesmo género de banalidades, mas que, infelizmente, tem menos jeito para escrever do que esta máquina e que, na improbabilidade de ter lido esta crónica, é capaz de ficar complexado. Mesmo sem saber que parcela de mérito posso atribuir ao pensador e qual a atribuir ao tradutor, estes parágrafos equivalem-se, na sua capacidade de recapitular o óbvio que já se sabe, de não acrescentar nada de novo e de não responder ao que verdadeiramente queremos saber, a um bom comunicado da presidência do conselho de ministros...
Por sinal, foi ao lembrar-me dessa (in)utilidade política - a dos comunicados da presidência do conselho de ministros... - de juntar palavras sem qualquer conteúdo que interesse aos destinatários, que me lembrei do quanto estes parágrafos acima são parecidíssimos com as intervenções de Ana Catarina Mendes no programa televisivo O Princípio da Incerteza, um programa que é estrelado (desde o início, vai para 30 anos) pelo próprio José Pacheco Pereira. Ou será que a José Pacheco Pereira não lhe ocorreu a flagrante semelhança de estilos entre a máquina e a personificação da máquina (partidária), protagonizada pela sua antiga colega de programa? Só ele pode responder, mas a questão é interessante no sentido de diferenciar entre a Inteligência Artificial e a inteligência natural (esta última sem maiúsculas), quando a segunda, mais do que recapitulações metódicas do que é sabido, às vezes produz associações improváveis e inesperadas entre temas que não estavam originalmente em cima da mesa...

14 dezembro 2022

A FUSÃO NUCLEAR

Quem presta atenção àquilo que foi anunciado a propósito da mais recente descoberta a respeito da fusão nuclear, arrisca-se a ficar perplexo pela ressonância como o anúncio foi acolhido pela comunicação social mundial (acima, o exemplo em língua portuguesa da CNN Brasil). A revista The Economist (abaixo) foi recolher exemplos da exuberância à BBC no Reino Unido, ao Wall Street Journal (WSJ) americano, aos diários Dagbladet (sueco) ou La Repubblica (italiano). Na conferência de imprensa foi a própria secretária da Energia da administração norte-americana, Jennifer Granholm, que pospõe a concretização prática e comercial da produção de energia por fusão para daqui a (pelo menos) uma década, mesmo contando com a injecção de capitais privados nas pesquisas. Este parece-me um exemplo límpido de uma parte da corporação mediática a querer transformar uma notícia na sua faceta que é mais vendável para o interesse do auditório, atropelando sem vergonha os detalhes do que é mais comedido mas também mais verdadeiro.

10 dezembro 2022

LIÇÕES VALIOSAS DE UM ESTUDO CIENTÍFICO: PORQUE É QUE É CONTRAPRODUCENTE ASSISTIR AOS «DIRECTOS»...

Depois de ver este interessante estudo da Universidade do Colorado e, sobretudo, depois de olhar para as imagens realçadas a laser verde daquilo que acontece quando se puxa a água da sanita, percebi quanto vale a pena alterar os meus procedimentos, tapar conscensiosamente a dita sanita e não ficar a inspeccionar em directo se aquilo que é para ir para baixo vai mesmo para baixo... Tapa-se e vai-se lá ver depois. No fundo, isto é uma metáfora das coberturas televisivas dos canais noticiosos - SIC Notícias ou RTP 3, CNN ou CMTV - porque, também ali, acompanhar aquelas coberturas televisivas em directo é o processo mais fácil de estarmos em contacto com merda noticiosa...

02 dezembro 2022

A PRIMEIRA REACÇÃO NUCLEAR CONTROLADA

2 de Dezembro de 1942. Escondida da atenção mediática que então se concentrava nos vários teatros de guerra da Segunda Guerra Mundial (África, Pacífico, Rússia), tinha lugar a primeira experiência em que se conseguia proceder a uma reacção nuclear controlada. A proeza teve lugar nas instalações vagas de um estádio desportivo desactivado em Chicago. A documentação que comprova o feito tem a falta de espetacularidade da imagem acima, o crescimento exponencial da intensidade dos neutrões na folha de registo, que consta da página 441 do livro abaixo. Em retrospectiva, conhecendo-se os problemas posteriores que se vieram a colocar sobre a questão da segurança nuclear e considerando que se tratava de uma experiência pioneira, em que muito poderia ter corrido mal, não deixa de ser tremendamente irónico que o feito tivesse tido lugar num sítio tão povoado quanto a cidade de Chicago. Mas, mais do que a preocupação com a produção de energia, o que era importante no processo ali concretizado há 80 anos, era um subproduto resultante da reacção, o plutónio-239. Dali por dois anos e meio(Verão de 1945), o conjunto de reactores entretanto activados já havia conseguido produzir a quantidade suficiente de plutónio para construir (e detonar) duas armas nucleares: a experimental de Alamogordo e também a utilizada sobre Nagasáqui.