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13 outubro 2018

A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA

13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
 
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
 
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.

20 junho 2016

1991 - O ANO DE TODOS OS REFERENDOS

Porque já se passaram 25 anos é natural o esquecimento, mas, a propósito do desta semana no Reino Unido, lembre-se que 1991 foi o ano de todos os referendos. Houve-os para todos os gostos em terras que a eles não estariam habituados. As três repúblicas do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, que faziam então parte da União Soviética, organizaram em Fevereiro e Março desse ano referendos em que se questionava a continuação desse estatuto versus a independência. A ideia fora anteciparem-se a um outro referendo, realizado na própria União Soviética em prol da sua preservação. Este último foi boicotado não apenas nas três repúblicas bálticas acima mencionadas, como também na Geórgia, na Arménia e na Moldávia. Onde se organizaram posteriormente os seus referendos que apuraram precisamente o contrário daquilo que o da União pretendia. Precipitada pela tentativa de golpe de Estado de Agosto, a dinâmica de decomposição da União Soviética parecia imparável, que veio a ser complementada por mais referendos em outras repúblicas, casos do Azerbaijão, do Uzbequistão ou da Ucrânia. A URSS desapareceria ainda antes do fim do ano.

Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, para voltar ao tema por onde havia começado o parágrafo anterior, não me recordo de ter ouvido muitas Cassandras económicas em 1991. Havia efectivamente muitas vozes agoirentas - há-as sempre - mas sempre no quadro do problema político e estratégico. Porque de um problema político se tratava, embora com enormes repercussões económicas. Neste caso do referendo britânico o que eu tenho estado a assistir é à subversão do que é a causa e do que é a consequência, do que é primordial e do que é acessório. Os britânicos, tal como outrora os lituanos e os restantes povos soviéticos o fizeram, decidirão da sua continuação na União Europeia por variadíssimas razões. Algumas até erradas; outras insignificantes; a económica será uma delas, mas não sei aquilatar da sua importância no computo global. Sei que no caso da dissolução da União Soviética não pesou grandemente, pois o impacto negativo nas economias das republicas era antecipável e não foi determinante. Mas, por causa do que me parece um expediente argumentativo, confesso que me tenho dedicado a um exercício que me tem divertido imenso e que aqui quero compartilhar com o leitor: quando se depararem com alertas quanto à evolução económica desfavorável no caso do Reino Unido abandonar a União Europeia, perguntem-se - e normalmente é fácil adivinhar a resposta... - se aquela mesma pessoa seria capaz de apresentar o mesmo género de argumentos - os prejuízos económicos - se ele fosse para ser utilizado como argumento em prol da continuação da União Soviética...

28 abril 2016

«OBER OST»

Sob o nome de Ober Ost, formou-se a partir de 1915, uma estrutura administrativa dos territórios que haviam sido conquistados e estavam ocupados pelo exército alemão na frente oriental. Ocupando as terras imediatamente adjacentes à Prússia e ocupando também as costas do Báltico, o Ober Ost, conforme os mapas que se exibem, tinha uma extensão total de 108.800 km² (20% da Alemanha) e, de acordo com o último recenseamento que fora efectuado pelo poder imperial russo em 1897, uma população cifrada em 2.900.000 habitantes. Mas muito heterogénea, tanto na composição como também na forma como se distribuía: havia uma área central onde predominavam os lituanos (34% da população), outra onde predominavam os bielorrussos (21%) a sul e noutra ainda os letões (10,5%) a norte, mas os judeus (13,5%), os polacos (12%) e os russos (6%) estavam disseminados por toda a parte, sobretudo nas cidades. A sua capital, que era a localização do Quartel-General alemão para a Frente Leste era a cidade de Kaunas. De acordo com as leis internacionais e as práticas da época, os territórios conquistados seriam para ser administrados pelas autoridades civis pré-existentes durante o período que durasse a ocupação militar. O status quo político só poderia ser alterado depois da guerra. Porém, naquele caso, as autoridades imperiais russas também haviam fugido à frente dos exércitos alemães, cumprindo as instruções de Petrogrado de criar aos invasores a tradicional política russa de terra queimada diante de um invasor. Os militares alemães foram assim sugados para aquele vácuo administrativo e tiveram que assegurar muitos aspectos triviais do quotidiano para o prosseguimento das suas operações. Não sendo assim uma criação deliberada dos alemães – o regime em vigor na mesma época na Bélgica também ocupada era diferente deste, por exemplo – o Ober Ost tornou-se, apesar disso, no mais famoso sistema de ocupação militar a que se assistiu durante a Primeira Guerra Mundial. E isso porque, como veremos adiante, configurou um claro antecedente aos métodos brutais que os mesmos alemães viriam a assumir no Leste da Europa na Segunda Guerra Mundial.
A figura dominante desse estado militar de Ober Ost foi Erich Ludendorff (acima), a sua pessoa mas também o seu pensamento político-militar, que depois se viria a impor em toda a Alemanha nos dois anos finais do conflito (de 1916 a 1918). Como se fosse uma adaptação ao século XX do trabalho dos cavaleiros teutónicos que haviam colonizado a Prússia, Ludendorff descrevia esta sua tarefa como uma obra de civilização que iria beneficiar o exército, a Alemanha mas também o próprio país e os seus habitantes – atente-se à ordem como os factores são nomeados... Os oficiais de Ludendorff tornaram-se vítimas da sua própria propaganda e concebiam-se como paladinos da civilização e da cultura. Ober Ost estava destinada a ser uma colónia adjacente ao Reich, um estado tampão onde se fixariam os alemães vindos da Rússia depois da vitória. A engenharia militar, por exemplo, não só reerguera as diversas pontes destruídas pelos russos à retirada como até construíra outras, 434 no total, incluindo uma extensíssima cruzando o rio Bug na província meridional de Bialystok. Outros investimentos foram feitos directamente nos sectores produtivos, conservas, lacticínios, serrações, carpintarias para aproveitar a rica cobertura florestal do sul do país. Também a educação, pelo menos a dos níveis mais elementares, não foi descurada: sob o regime militar o número de escolas primárias duplicou para mais de 1.350. O problema era o que esta utopia custava, e não apenas em custos materiais, aos habitantes locais, para quem tudo aquilo não estava a ser construído. Naquilo que seria um híbrido entre uma Constituição local e uma Ordem de Serviço de uma unidade militar, deixava-se isso claro a 7 de Junho de 1916 quandos e escrevia que os interesses do exército e do Reich alemão se sobreporão sempre aos do território ocupado. Como uma qualquer colónia de África, a menor preocupação dos militares alemães era captar a simpatia das populações submetidas...
Considerações várias, algumas delas pertinentes, levaram as autoridades a restringir completamente a circulação das pessoas. Havia barreiras para o exterior mas também as havia internas, separando as várias províncias, tornando os passes obrigatórios para a mais ínfima deslocação. Com uma meticulosidade alemã, todo o país foi submetido a um registo de pessoas – um cartão de identificação para os maiores de 10 anos – e de propriedades – um cadastro como as autoridades russas nunca haviam elaborado. O regime tributário tornou-se opressivo, não apenas através dos impostos directos sobre as pessoas, os imóveis ou os lucros, mas sobretudo via impostos indirectos, cobrados através de monopólios estatais em produtos como os cigarros, bebidas alcoólicas, cerveja, sal, açúcar, sacarina e fósforos. E o rigor alemão dava uma outra eficácia fiscal a documentos como licenças de pesca ou a autorizações - muito contestadas - para a posse de cães. Mas a exigência das autoridades militares de Ober Ost que era pior suportada pelas populações locais fora m as corveias que lhes começaram a ser impostas a partir de Janeiro de 1916. Muitos milhares foram assim recrutados para trabalhar nos projectos alemães de construção de novas estradas, vias férreas e linhas telegráficas, em que os empreendimentos saíam a um preço de saldo – os trabalhadores não eram remunerados... Os judeus, como grupo predominantemente urbano, sem trabalhar nas áreas que os alemães reputavam de sensíveis (como a agricultura), foram desproporcionadamente afectados por essa mobilização para os Z.A.B. – Zivil Arbeiter Batallionen (batalhões de trabalhadores civis). Só na província da Lituânia, estima-se que 130.000 homens e mulheres foram recrutados dessa maneira. Não se sabe o número de mortes mas sabe-se o de execuções: 1.000 - mais uma vez: apenas nessa província. As condições eram horríveis, a alimentação má e escassa (250 gramas de pão/dia), os alojamentos estavam rodeados por arame farpado, as sanções por mau comportamento eram frequentes e envolviam agressões físicas, e os prisioneiros – pois não passavam disso – raramente conseguiam contactar com as suas famílias. As taxas de deserções e, sobretudo, de mortalidade eram impressionantes.
Em Agosto de 1916, porque a dupla Hindenburg/Ludendorff foi chamada a Berlim para assumir a direcção estratégica do esforço de guerra alemão, o Ober Ost passou a ser dirigido por uma figura decorativa e mais amena do que o fora o austero Ludendorff, o príncipe Leopoldo da Baviera (acima), um velhote de 70 anos (acima). Ainda bem para os alemães porque um dos efeitos colaterais da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, e da consequente capacidade de atracção que ela produziu entre as populações locais, foi que obrigou os alemães a terminar com as práticas mais criticáveis, dissolvendo, por exemplo, embora apenas na teoria, os ZAB em Setembro de 1917. Claro que sob outro nome acabou por quase nada mudar, porque o investimento nas infra-estruturas do Ober Ost, agora numa perspectiva de vitória, parecia ser cada vez mais importante para os alemães para poder ser cancelado. O problema é que as duas revoluções russas de 1917 - a de Fevereiro, derrubando o czar, e a de Outubro que levou os bolcheviques ao poder - haviam criado uma dinâmica independentista entre as várias nacionalidades que anteriormente haviam estado submetidas ao poder imperial russo – polacos, finlandeses, lituanos, letões, estónios, ucranianos – dinâmica essa que os alemães já não conseguiam controlar por causa da forma como haviam malbaratado a boa vontade dessas nacionalidades nos primeiros anos da guerra. Tipicamente, quando num gesto de leniência os alemães permitiram que em Setembro de 1917 se reunisse a Taryba, uma assembleia de notáveis lituanos, esta rapidamente extravasou as suas competências e em Fevereiro de 1918, em antecipação às concessões que os alemães haviam obtido dos russos no Tratado de Brest-Litovsk, proclamou a independência da Lituânia. Relativamente pouco conhecida, como de resto o é toda a História da Frente Leste da Primeira Guerra Mundial (1914-17), esta proto-colónia chamada Ober Ost demonstra a superioridade implícita como os alemães sempre se apresentaram diante dos seus vizinhos europeus e de como se trata de um fenómeno social independente (que até precedeu historicamente a ascensão) do nazismo.

24 setembro 2013

GUERRILHAS, LUTAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL E PROCLAMAÇÕES POLÍTICAS

Hoje, quando se completam 40 anos sobre a proclamação unilateral da independência da Guiné Bissau vale a pena falar de outras guerrilhas, de outras lutas de libertação nacional e de outras proclamações políticas a elas associadas que, não apenas por terem sido de certa forma menos bem sucedidas que a da Guiné-Bissau, nem sequer se ouve falar delas. Um excelente exemplo disso são as guerrilhas que se travaram ao longo do decénio que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial em qualquer dos três estados do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, especialmente nesta última (exemplificado pela declaração acima). Contribuiu para o desconhecimento generalizado dessas outras lutas de libertação nacional o facto da potência colonial ser, naquele caso, a União Soviética e dos seus rivais norte-americanos se terem decidido a não investir estrategicamente nessas guerrilhas¹.
Apesar de uma cobertura vegetal (acima) favorável à manutenção de pequenas secções de guerrilheiros habilitados a perturbar o exercício da autoridade soviética, os restantes factores, a opacidade informativa que um regime totalitário como o soviético podia manter conjugada com a ausência de apoios logísticos vindos do exterior condenaram a expressão militar dos três nacionalismos bálticos a um fracasso a longo prazo. Mesmo assim, ainda se registaram episódios esporádicos – permanentemente abafados – de resistência armada durante as décadas de 1960 e 1970. E o desaparecimento da luta armada não foi acompanhada do desaparecimento do nacionalismo em qualquer daqueles países, lembrando aliás um outro exemplo do universo dos países de língua oficial portuguesa: Timor-Leste. Em 1991, os três países foram os primeiros a separarem-se da União Soviética, precedendo a implosão desta última.
¹ Possivelmente para evitar que a União Soviética retaliasse simetricamente, promovendo empenhadamente os movimentos separatistas nos estados dos Estados Unidos...

31 outubro 2012

A BASQUETEBOLISTA QUE PERMANECEU NO FRIO

Ao contrário do protagonista da famosa novela de espionagem de John Le Carré, a atleta da ex-União Soviética Uljana Semjonova nasceu e desenvolveu toda a carreira desportiva no frio. Medindo 2,13 metros quando adulta – o que já seria uma altura imponente para um homem – a gigante soviética nasceu fadada para se tornar basquetebolista e rapidamente se tornou numa referência mundial da modalidade por causa da diferença da sua altura para com as suas adversárias e colegas (acima). Não se movimentando em campo com especial dinamismo, nem sequer com graciosidade, a sua contribuição para os consecutivos sucessos das equipas que integrava não deixavam por isso de ser extremamente efectivas. E irritantes, por causa da ausência de emoção.
Na fotografia acima, que foi tirada durante os Jogos Olímpicos de Montreal (1976), Semjonova aparece a lançar rodeada por toda uma frustrada equipa de cinco(!) japonesas que tentam em vão impedi-la de o fazer, num jogo que a equipa soviética (que se viria a sagrar campeã em duas olimpíadas consecutivas) ganharia tranquilamente por 98-75. Mas se Semjonova se tornou num activo importante para a máquina de propaganda desportiva soviética nesses anos de rivalidades da Guerra Fria, do outro lado, o contra-ataque centrou-se na sua imagem disforme, na faceta assustadora do seu gigantismo. Não tardou que a comparassem a Jaws (o actor Richard Kiel), apropriadamente um dos vilões bizarros (com dentes de aço...) dos filmes de 007 James Bond… 

18 agosto 2012

AS DIVAS MODERNAS

Ainda sujeito ao mote das complicadas relações russo-letãs do poste anterior mas agora para algo completamente diferente, apresento-vos o dueto acima envolvendo duas sopranos* e composto precisamente por uma russa e uma letã, que interpretam a conhecida Barcarola dos Contos de Hoffman de Offenbach. Anna Netrebko é a morena russa  e Elīna Garanča* é a loura letã. Há que reconhecer que, mantendo o mesmo virtuosismo musical, a imagem das sopranos evoluiu muito desde que Hergé criou Bianca Castafiore em 1938, essa soprano ficcional que terá estabelecido as referências estéticas e comportamentais da classe para várias gerações de apreciadores de BD.
Apenas para os saudosos da BD que sejam mais curiosos e que nunca tenham tido oportunidade de a ouvir, deixo este vídeo adicional onde a mesma Anna Netrebko de cima interpreta a Ária das Jóias do Fausto de Gounod, a tal ária pela qual a Castafiore era tão aclamada e que a punha, segundo se recordam, a rir-se por se ver tão bela naquele espelho
* Em rigor, Elīna Garanča é uma mezzosoprano mas suponho que os leitores deste blogue me desculparão a simplificação.

17 agosto 2012

A PECULARIEDADE DA LETÓNIA

Quando, há uns dois meses atrás, ainda fazia sentido disputar as consequências do impacto e o sucesso dos resultados dos programas de austeridade preconizados para os países resgatados, o exemplo precoce e supranumerário da Letónia materializou-se de súbito na comunicação social, usado por responsáveis como a titular do FMI, Christine Lagarde, para querer mostrar, presume-se, o carácter remunerador da adopção de tais políticas – veja-se abaixo o gráfico com a evolução recente do PIB da Letónia. Houve quem respondesse em género, i.e., esgrimindo argumentos de cariz económico e financeiro sobre a especificidade letã, mas a reacção que mais apreciei foi a que Dani Rodrik – por sinal um economista de renome – publicou no seu blogue, qualificando a questão de política: tomei a liberdade de traduzir os dois parágrafos finais dessa sua opinião.
A principal lição que retirei de tudo (da visita à Letónia) é a necessidade de evitar criar generalizações fáceis que não respeitem as peculiaridades de cada país. Os missionários de austeridade fiscal estão certamente enganados quando dizem que a experiência da Letónia constitui a prova decisiva que os keynesianos e os defensores da desvalorização monetária estão errados. É muito cedo para considerar a experiência da Letónia um sucesso. Todavia, também é muito cedo para considerá-la um fracasso. O ritmo de crescimento actual pode continuar, caso em que a economia se mostrará progressivamente cada vez melhor.

Porém, o que podemos dizer com toda a certeza é que o tipo de austeridade fiscal drástica que se mostrou viável na Letónia não seria possível em muitos outros países. Rimševičs e a sua equipa bem podem realçar que a política da Letónia foi um sucesso porque se encararam de frente os problemas e se implementaram as medidas fiscais com velocidade e determinação. Talvez. Mas também é verdade que se safaram à justa das consequências de terem subestimado o impacto das suas medidas. Anunciaram esperar uma queda de 10% do PIB em 2009, e em vez disso registou-se uma que era quase duas vezes maior. O verdadeiro segredo de seu sucesso é eles não terem apanhado com uma revolução.

Cautelosamente, Dani Rodrik preferiu não se pronunciar sobre as causas para que não tenha havido nenhuma revolução num país onde as previsões de 2009 apontavam para uma queda do PIB de 10% e onde se registou uma de 18%! Ali houve um erro de previsão capaz de banalizar os mais recentes desvios em linha de Vítor Gaspar – para os quais a paciência dos portugueses se terá vindo a esgotar (ou pelo menos o comportamento recente do primeiro-ministro assim o indicia). Contudo, com a mesma cautela de que Rodrik deu mostras, gostaria de realçar um aspecto importante da realidade letã que não vi referido até agora, aspecto esse que é capaz de contribuir para identificar um aspecto importante da especificidade letã e que até se explica com a ajuda de um ou dois gráficos, tão ao gosto dos economistas: a Letónia está a implodir demograficamente!
Como se pode observar, desde 1991, o ano do desaparecimento da União Soviética, a Letónia já diminuiu a sua população em 22%. Trata-se porém de um fenómeno que só parece preocupar parcialmente as autoridades letãs pelo aspecto do envelhecimento da população. Numa outra perspectiva, a diminuição tem incidido sobretudo sobre a população russa que vivia na Letónia, o que permitiu que os letões, mesmo não aumentando em número (veja-se abaixo), tenham passado nos 20 anos entretanto decorridos, de uns preocupantes 52% para uns mais robustos 62% da população total do país. Aliás, a questão linguística é levada a um tal extremo na Letónia que apenas o letão é considerado idioma oficial do país, embora o russo seja a língua materna de 37,5% da população da Letónia (de acordo com o censo de 2000). Contudo, de 1995 para 2006, e só para exemplo, a percentagem de alunos a estudar em letão passou dos 60 para os 73%. Estes, com muitos outros, adivinham-se ser indicadores de uma reengenharia social deliberada para anular os efeitos dos anos de sovietização. Para os letões étnicos poder-se-á tratar de um desígnio estratégico. Onde, possivelmente, uma austeridade extrema não parecerá ser tão anómala quanto noutras paragens da Europa...

24 novembro 2011

O ÚNICO CENSO RUSSO DA ERA IMPERIAL


A música para ir acompanhando a leitura é do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881): Quadros duma Exposição (1874)

O primeiro e único censo demográfico realizado no Império Russo teve lugar em Janeiro de 1897. Aquele que se lhe seguiria, em 1915, não chegou a acontecer por causa da eclosão da Primeira Guerra Mundial, e aquele que efectivamente se veio a realizar só teve lugar dali por mais 29 anos, em 1926, quando o Império Russo já se chamava uma outra coisa… Ao atingir-se o final do Século XIX, contaram-se então 125,6 milhões de súbditos do Czar. Tratava-se, como seria de prever, considerada a escala, de uma população muito heterogénea (85 grupos linguísticos distintos) embora os critérios de classificação dos resultados estivessem politicamente orientados para não o evidenciar. Assim, o núcleo central da população era composto por russos, embora o conceito de russos – ou melhor, de falantes da língua russa, porque a classificação era feita pelo idioma, não pela nacionalidade de origem – era bastante elástico. Assim, ao lado dos russos tradicionais, reclassificados para propósitos de contagem como grandes russos, que eram 55,7 milhões e representavam 44,3% da população total, havia os pequenos russos, que hoje são conhecidos por ucranianos (22,4 milhões e 17,8% da população), e os russos brancos, hoje conhecidos por bielorrussos (5,9 milhões e 4,7%). A adição era plausível mas obviamente forçada: actualmente são três países distintos…
Apenas através deste artifício o Império Russo podia apresentar a imagem de um núcleo central maioritário eslavo de religião ortodoxa constituído por ⅔ da população. Com o resto da população eslava não se podia contar: havia 7,9 milhões de polacos (6,3%) de confissão católica romana concentrados num Reino da Polónia de que o Czar era o monarca e que fora criado em 1815 (ver mapa acima). Mas a história dessa Polónia dual ao longo do Século XIX era a de um sucesso económico (Varsóvia era a terceira cidade do Império depois de São Petersburgo e de Moscovo) mas de uma contínua instabilidade política onde as revoltas polacas (1830, 1863) eram seguidas por ferozes repressões russas. Um outro grupo importante na Polónia e também nas regiões ocidentais do Império era o dos judeus: havia 5,1 milhões de falantes de ídiche (4,0%), um idioma germânico que se escreve em alfabeto hebreu. A importância da comunidade era acrescida pela sua sobre-representação entre a população urbana. Por exemplo, numa cidade como Brest, hoje localizada na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os judeus constituíam ⅔ da população de 45.000 habitantes. Seria, a par dos polacos, finlandeses ou alemães, uma das nacionalidades mais evoluídas mas também uma das que mostraria uma maior resistência àquilo que as autoridades imperiais qualificariam como assimilação
Contudo, havia outros grupos nacionais a Ocidente com histórias de sucesso na sua integração sem assimilação no quadro imperial: a Finlândia, que era um Grão-Ducado que gozava de uma ampla autonomia, era um desses casos (os finlandeses eram 2,5 milhões – 2,0%). E embora com muito menos autonomia, algo de semelhante acontecia na região do Báltico, onde as populações estónias (1,0 milhão), letãs (1,4 milhão) e lituanas (1,6 milhão), ou seja cerca de 3,2% da população total, eram controladas por uma elite de ascendência alemã (que constituíam 1,8 milhão em todo o Império – 1,4%), uma das mais fiéis a São Petersburgo, uma ironia dada a história futura da relação entre alemães e russos. Essas eram as fronteiras pacíficas do Império Russo. As outras eram regiões de expansão, turbulentas como as populações que nelas habitavam. Na que confinava com os Balcãs, onde as potências rivais haviam incentivado a criação da Roménia de língua latina (1878) para obstar à expansão dos russos para as regiões dos eslavos no Sul da Europa, existia, apesar disso, uma minoria (1,1 milhão – 0,9%) que falava o romeno. Outras fronteiras meridionais da Rússia eram povoadas por uma confederação de nacionalidades que o Censo classificou demasiado genericamente de Turco-Tártara, que se estendia do Mar Negro ao Pacífico, composta por 13, 4 milhões de pessoas (10,6%).
Uma apreciável parte deles eram descendentes de tribos nómadas que, sob a bandeira mongol, haviam conquistado a Rússia no Século XIII e muitos continuavam os hábitos nómadas de outrora (acima), embora houvesse outros que haviam assentado (abaixo). Porém, quase todos professavam o Islão, que era a religião de 13,9 milhões dos súbditos do czar (11,1%). A maior concentração de muçulmanos localizava-se na Ásia Central (7,7 milhões), onde a administração russa funcionava segundo um modelo colonial clássico. Os soviéticos reorganizaram depois a região nas cinco repúblicas que são as que hoje perduram: Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Quirguízia. Uma segunda região muçulmana, que começara a ser integrada no Império já a partir de meados do Século XVII, estendia-se desde a Península da Crimeia até ao curso inferior do Rio Volga. Ao contrário da Ásia Central, neste caso a imigração dos russos alterara o panorama demográfico, fazendo com que a população muçulmana fosse significativa mas não predominante. Exemplo: ainda hoje há quase tantos russos quanto tártaros no Tartaristão. Finalmente havia uma terceira região de predomínio muçulmano: o Cáucaso. A região é célebre pela complexidade do seu relevo que interfere na distribuição e classificação das suas etnias que desafia as descrições simplificadas que se tentem conceber...
Contornando isso, há que referir que, apesar do carácter tradicionalmente combativo dos povos do Cáucaso que muitos problemas militares causara, o Império Russo contava ali com dois aliados sólidos, tanto os georgianos (1,4 milhões – 1,1%) como os arménios (1,2 milhões – 1,0%) eram povos de confissão cristã numa região que lhes era francamente hostil: já houvera príncipes georgianos a comandar exércitos russos contra Napoleão e, quanto ao futuro, Stalin, quase todos o saberão, era georgiano. O Censo de 1897, mau grado a manipulação a que foi sujeito, foi um instrumento único na identificação das minorias relevantes dentro do Império Russo. Dá para perceber que, como regra geral, o tratamento dado por São Petersburgo a cada minoria variava em função, não apenas da cumplicidade recíproca entre minoria e poder central, mas também na razão inversa da sua sofisticação cultural: quando maior esta, também maior era a hostilidade imperial. Mas, com essa notável excepção dos polacos, cuja direcção política clandestina nunca se terá disposto a reivindicar nada menos que a independência total, há que reconhecer que em 1897 a questão das nacionalidades ainda não seria um problema sério para a subsistência do Império. A Revolução de 1905, que irá ter lugar dali por oito anos, abanando o regime, deverá ser analisada sobretudo – senão exclusivamente – pela sua componente social.

09 abril 2008

A OCUPAÇÃO DOS PAÍSES BÁLTICOS E A GALA DA ÓPERA DE RIGA

Entre os inúmeros episódios da Segunda Guerra Mundial conta-se o da ocupação dos três países bálticos pela União Soviética, no seguimento da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, de 24 de Agosto de 1939, ou seja imediatamente antes do seu início (que aconteceu a 3 de Setembro). A História amalgamou depois os acontecimentos no Báltico, mas em primeiro lugar, os soviéticos persuadiram os três países a assinar Tratados de Assistência Mútua que foram firmados a 28 de Setembro pela Estónia, uma semana depois (5 de Outubro) pela Letónia e na semana seguinte (11 de Outubro) pela Lituânia...
Diga-se, entrementes, que este episódio não tem nada daquelas histórias morais que têm os bons e os maus. Pelo termos do Pacto, a União Soviética só assim procedeu porque os alemães haviam deixado os bálticos entregues à sua sorte e apenas haviam acautelado o destino da minoria germânica que neles habitava, que veio a ser evacuada para a Alemanha. Os regimes vigentes em qualquer dos três países eram de cariz autoritário e conservador, e haviam saído de golpes de estado na década de 30 que haviam derrubado as democracias parlamentares que haviam ali vigorado anteriormente.
Em Junho de 1940, aproveitando a circunstância de a atenção do Mundo estar virada para o outro lado da Europa com os episódios finais da vitória da Alemanha contra a França – como a ocupação de Paris, a rendição francesa – a União Soviética ocupou decisivamente os três países, onde já estavam aquarteladas várias unidades do Exército Vermelho, que ali tinham entrado ao abrigo dos Tratados assinados 8 meses antes. Em finais de Julho de 1940, os novos governos dos três novos países socialistas (Estónia, Letónia e Lituânia), pediram a sua adesão à União Soviética… Quem é que não gostaria de aderir à União Soviética?...
A História continuou o seu curso, e estes episódios são quase todos notas de rodapé, embora contenham elementos de pequena história que valem sempre a pena. A chegada das unidades do Exército Vermelho a cidades ocidentais onde vigorava uma sofisticação* há muito esquecida na pátria dos trabalhadores causou um certo choque cultural. Então não é que as damas dos oficiais russos estacionados em Riga (na Letónia na fotografia inicial), hospedadas em moradias burguesas propositadamente requisitadas** para tão altas patentes, foram a uma gala da Ópera envergando camisas de noite pensando tratar-se de vestidos compridos?...

* Os indicadores de nível de vida na Estónia, por exemplo, eram superiores aos da vizinha Finlândia.
** E os seus moradores obviamente despejados...