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13 junho 2024

AS ELEIÇÕES EM TRIESTE (MAS SÓ NA ZONA A)

(Republicação)
13 de Junho de 1949. Realizam-se eleições municipais no território livre de Trieste, região encravada entre a Itália e a Jugoslávia, mas na zona que era administrada pelos Aliados (Zona A). Trieste, cuja história do Século XX já aqui foi contada neste blogue. Na notícia do jornal, a vitória dos partidos italianos é apresentada como se eles se tivessem apresentado conjuntamente, o que não é verdade: os 63% que se mencionam resultam da adição da votação da Democracia Cristã (39%), Socialistas (6%), Neo-Fascistas (6%), Republicanos (5%), Liberais (5%), etc. De qualquer maneira, a maioria que exprimira a sua opção por uma futura reunião com a Itália era significativa, ainda que a eleição em si fosse meramente simbólica: a maioria das decisões administrativas pertenciam ao governo militar. Mas para os países ocidentais, a organização de eleições era um imperativo, na esperança que isso forçasse o padrão do comportamento dos ocupantes soviéticos, que nos países do Leste da Europa se actuasse da mesma forma. Mas não: é verdade que havia eleições, mas não livres. Quanto ao caso particular de Trieste, a situação veio a ficar resolvida em 1954 com a anexação da Zona A pela Itália e da Zona B pela Jugoslávia. Actualmente, os territórios que haviam pertencido a esta última Zona estão divididos, por sua vez, entre a Eslovénia e a Croácia.

12 junho 2024

O JURAMENTO DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

«Não acredito, não sou membro, nem sou apoiante de qualquer partido ou organização que acredite, advogue ou promova o derrube do Governo dos Estados Unidos pela força ou por quaisquer métodos inconstitucionais ilegais»

Conforme se podia ler na primeira página do New York Times de 12 de Junho de 1949, a Universidade da Califórnia passaria a partir de então a adoptar um juramento para os 4.000 membros do seu corpo docente e funcionários administrativos. A explicação para aquele gesto também constava do artigo: para fazer face àquilo que o porta-voz da Universidade, assistente do reitor, denominava por «histeria da guerra-fria». Embora o texto do juramento se refira abstractamente a organizações que promovessem e advogassem o derrube das instituições por meios ilegais, e não mencione qualquer organização em particular, o título da notícia é inequívoco em identificar o alvo: os comunistas, filiados ou apenas simpatizantes. Por isso os jornalistas o baptizam naquela altura por juramento anti-vermelho.
Quer a ironia da História que, nestes 75 anos entretanto decorridos, a ocasião em que «o Governo dos Estados Unidos» esteve mais próximo de ser «derrubado pela força ou por quaisquer métodos inconstitucionais ilegais» (a 6 de Janeiro de 2021, fotografia acima), o vermelho empunhado por quem assim agiu nada tinha a ver com os comunistas, antes pelo contrário...

09 junho 2024

A ALEMANHA SERÁ NEUTRALIZADA OU INCLUÍDA NO PACTO DO ATLÂNTICO?

(Republicação)
A edição de há setenta e cinco anos do Diário de Lisboa continha um importante artigo de Maurice Duverger (então jovem estrela em ascensão com 32 anos) que colocava a questão em título: qual o papel da Alemanha no futuro da Europa? Tinha uma chamada de primeira página. Não asseguro que o leitor comum do jornal da época se apercebesse da importância do tema, mas vale a pena ter a oportunidade de o reler com a presciência de conhecermos o futuro e sabermos as consequências das opções então tomadas.
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Todas as questões de pormenor que podem surgir na Conferência de Paris estão subordinadas á solução de um problema fundamental: a posição futura da Alemanha e o seu papel na rivalidade latente entre a Rússia e o Ocidente. A situação em Berlim, a fiscalização aliada, o regime de ocupação, a orientação da economia, tudo isso só será duradouramente resolvido se precisamente se esclarecer o fundo do debate em curso há quatro anos. E o debate consiste em saber se a Alemanha vai entrar na esfera de influência soviética, ingressar no Pacto do Atlântico ou ser neutralizada.
A escolha entre estas três soluções pode ser adiada. Mas impor-se-á mais cedo ou mais tarde. Todo o jogo diplomático a que assistimos não tem outro objectivo.


O Reich na esfera de influência russa
Se a Alemanha se comunizar, a segunda guerra mundial terminará por uma derrota esmagadora das democracias ocidentais. Para estas a situação será pior do que em Setembro de 1939. Hitler era menos perigoso do que Estaline, precisamente porque na retaguarda do primeiro estava o segundo e na retaguarda do segundo não está ninguém. Até Hong-Kong, até Singapura, não há contrapeso para o poder da URSS.
Nessa hipótese, a terceira guerra mundial será inevitável. Trata-se apenas de aguardar a data da sua eclosão.
Esta solução está, naturalmente, afastada, não em nome de um anti-comunismo obtuso e sistemático, mas por uma preocupação compreensível de salvaguardar a paz. Evitar que a Alemanha ingresse na esfera de influência soviética é um imperativo da diplomacia ocidental.
Praticamente, restam portanto, duas soluções possíveis: a neutralização ou a “atlantização” dos vencidos.
Por muito dolorosa que a segunda pareça aos olhos dos povos da Europa, sobretudo daqueles que ainda recentemente suportaram os horrores da ocupação, é inútil dissimular a sua importância, pois, ninguém certamente terá dúvidas de que vão para ela as boas graças da poderosa América.


Os perigos da “atlantização”
Não falta quem, com certo fundamento, evoque sempre que se põe o problema da “atlantização” da Alemanha, o risco de um renascimento do militarismo e do expansionismo germânicos. A assinatura do Reich ao Pacto do Atlântico implica automaticamente o seu rearmamento.
“A Alemanha no Pacto do Atlântico? Nunca!” Tal era a expressão empregada ainda não há muitos dias por uma personalidade respeitável da política francesa.
Mas, se há quem pense assim, vamos nós, que já fizemos a guerra de 1939 com a estratégia de 1914, fazer a paz de 1949 com a diplomacia de 1919?
A entrada da Alemanha na comunidade atlântica podia ser o epílogo da rivalidade franco-alemã. A ideia de guerra e de invasão entre a França e a Alemanha tornar-se-ia anacrónica. Franceses e alemães tornar-se-iam aliados amanhã, como hoje já o são franceses e ingleses.
Para os franceses esta transformação não seria mais profunda do que aquela que se registou em 1815, no Congresso de Viena. Há apenas a objectar que uma tal aliança teria que ser cuidadosamente vigiada. A Alemanha apoiada pela América tornar-se-ia rapidamente a nação preponderante na Europa.
Se a Alemanha, depois do rearmamento, quisesse um dia retirar-se do pacto, a França poderia continuar a contar com a protecção americana? O problema da “atlantização” da Alemanha deve por isso considerar-se pelo prisma das sua possíveis repercussões no equilíbrio europeu, na paz do Mundo e não pelo prisma da luta secular entre franceses e alemães, a qual pertence a uma época já ultrapassada.


O ponto de vista anti-comunista
Do ponto de vista da defesa armada da Europa contra a propagação do comunismo, a adesão da Alemanha ao sistema atlântico oferece incontestáveis garantias.
É certo que a eficácia militar do pacto é por enquanto limitada e que continuará a sê-lo enquanto a Europa não começar a receber as armas de procedência americana. Mas a inclusão permitirá precisamente encurtar esse prazo de espera, graças á contribuição que a indústria alemã pode prestar para o rearmamento dos países ocidentais.
Assim, a retirada das forças de ocupação ocidentais ficaria ligada ao restabelecimento de uma força militar alemã, pois as tropas anglo-saxónicas e francesas que estacionam naquele país passariam automaticamente a ser aliadas do exército alemão reconstituído.
A missão dessas forças não consistiria em vigiar para que a ordem fosse mantida no interior da Alemanha, mas para que a sua fronteira continuasse inviolada. Completar-se-ia assim uma evolução iniciada com o bloqueio de Berlim. A pressão russa não encontraria na sua frente o vácuo, mas uma resistência organizada.


A ideia da neutralização
É certo que a ideia da neutralização, com uma garantia conjunta dos Estados Unidos e da URSS nos termos da qual a neutralidade alemã não poderia ser violada por aquelas potências ou por qualquer outra pode conduzir ao mesmo resultado. Mas não devemos esquecer que nessa garantia o factor russo seria muito mais importante do que o americano, dada a proximidade da URSS e o afastamento dos Estados Unidos. É, portanto, legítimo perguntar se a exclusão da Alemanha do Pacto do Atlântico o não enfraquece e se a defesa efectiva da Europa não está de antemão comprometida se for organizada no Reno em vez de ser organizada no Elba.
Tendo apenas em conta os dados militares da situação não há dúvida de que assim é.
Mas a experiência destes últimos anos demonstra que a infiltração política é mais frequente do que a invasão armada é tão perigosa quanto ela. É, portanto, em função da primeira e não da segunda que devem considerar-se as vantagens relativas das duas soluções propostas: a neutralização e a “atlantização”. De momento, julgamos impossível dizer qual delas é preferível.
Quer se trate do Pacto do Atlântico, quer de um tratado garantindo a neutralidade da Alemanha, não será possível definir, com suficiente rigor, uma fórmula que permita fechar completamente a porta a todas as tentativas de infiltração. Haverá sempre maneira para aqueles que não quiserem cumprir lealmente os seus compromissos, de as iludir ou ladear.
Esta realidade é demasiado complexa e movediça para ser condicionada.
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08 junho 2024

MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO

(Republicação)
8 de Junho de 1949. Data da edição original de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Como se vê acima, o título é para ser escrito por extenso e George Orwell é o pseudónimo de Eric Blair (1903-1950), dois pormenores que se sabem lendo o livro e não apenas tendo sabido que o livro existe e do que trata. É que quem não lê... chapéu.
Mesmo 75 anos depois do seu aparecimento, o livro continua a representar um caso sem paralelo de um romance que criou um verdadeiro anti-modelo de uma sociedade que toda a gente quererá a todo o custo evitar. Um romance que intervém politicamente pela negativa, porque a cada momento a realidade o recupera para a actualidade do debate: tivesse sido em 2013, com as denúncias de Snowden a respeito da actividade da NSA e da sua intromissão na privacidade dos cidadãos norte-americanos (e mesmo no telemóvel pessoal de Angela Merkel!); seja depois em 2016, depois das eleições presidenciais americanas com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, com a aceitação oficial da mentira sistemática, da falsificação das notícias e mesmo a criação da expressão «factos alternativos», atitudes e título tão tipicamente orwellianos.

12 maio 2024

O FIM DO BLOQUEIO DE BERLIM OCIDENTAL

12 de Maio de 1949. Depois de assinalarmos no Herdeiro de Aécio os 75 anos do estabelecimento do bloqueio de Berlim ocidental pelos soviéticos, assinalamos agora os 75 anos do fim desse bloqueio. Socorrendo-nos das contas do New York Times, o cerco («siege») a Berlim ocidental durara 328 dias. A fotografia do jornal mostra que a propaganda não estava desatenta e o cartaz que as crianças empunham - Blockadefrei - traduzir-se-á por «livre do bloqueio», mas uma boa parte da alegria demonstrada pelos pequenos berlinenses é até capaz de ser genuína e dever-se-á ao facto de não ter havido aulas como celebração do acontecimento...

06 maio 2024

QUEM É QUE MORREU, MESMO?

Uma reflexão que podemos transpor para a actualidade e para os obituários que actualmente se vão publicando, a respeito da verdadeira importância daqueles que morrem. Em 6 de Maio de 1949 o Diário de Lisboa concede o destaque que a imagem acima documenta à morte de Maeterlinck. Um dramaturgo belga que escrevera as suas obras mais importantes ainda no século XIX e que recebera o prémio Nobel da Literatura em 1911, É um exemplo acabado daquelas personalidades que em 1949 já haviam desaparecido de circulação há muito, e que 75 anos depois de morrerem só existem mesmo na wikipedia. (sinal de que o jornalismo não tem piorado com os tempos: a idade do falecido está enganada: tinha 86 e não 88 anos...)

Exemplo concreto de um outro Maeterlinck deste próprio dia 6 de Maio de 2024: Bernard Pivot, crítico literário e anfitrião durante décadas de programas de difusão literária na televisão francesa. Será por causa disso que todos os afrancesados sofisticados cá do burgo se sentem na obrigação de assinalar nas suas páginas pessoais o seu falecimento. Em contraste, e porque quem costuma alimentar as páginas da wikipedia em português são brasileiros, não existe (ainda) página dedicada a Pivot no nosso idioma.  

05 maio 2024

A ASSINATURA DO TRATADO DE FUNDAÇÃO DO CONSELHO DA EUROPA

Londres, 5 de Maio de 1949. Representantes de dez países europeus - Bélgica, Dinamarca, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia - assinam naquela cidade um tratado que é também o acto fundador da organização conhecida por Conselho da Europa. Como se pode ler no subtítulo da notícia do New York Times, no acto a Grécia e a Turquia foram convidados a aderir à organização. Aparecem assim associados ao acontecimento quase todos os países europeus situados fora da esfera de influência soviética. As excepções são os dois países ibéricos, um gesto de marginalização que tem um evidente significado político, tanto mais que se segue à assinatura do Tratado da Nato, realizada no mês anterior. Depois da adesão à NATO, esta proscrição é uma desfeita para o país, para o regime e para a diplomacia portuguesa. Por isso não é de estranhar o silêncio da nossa imprensa a não noticiar aquilo que acontecera em Londres. Como se comprova, a omissão não se devera à dificuldade em seleccionar os assuntos em destaque: a primeira página do Diário de Lisboa dedicava quase uma coluna inteira ao óbito aos 88 anos do dramaturgo belga Maeterlinck - quem?!...

18 abril 2024

O NASCIMENTO DA REPÚBLICA DA IRLANDA

18 de Abril de 1949. À meia noite do Domingo de Páscoa (que calhou a 17 de Abril), mas com a pompa e a circunstância que as imagens acima e abaixo exibem, a Irlanda torna-se uma república e, ao fazê-lo, corta os últimos laços que ainda a ligavam à Commonwealth. Os estatutos de então atribuíam ao monarca britânico - então Jorge VI - as funções de chefe de Estado de todos os países membros da comunidade e esse mostrara-se um aspecto nevrálgico para o nacionalismo irlandês, que sempre se mostrara relutante em o aceitar desde Dezembro de 1921. Quis a ironia da História que o Reino Unido tivesse que, posteriormente, vir a abrir mão da cláusula e aceitasse repúblicas na Commonwealth. Elas agora são uma ampla maioria (36) entre os 56 membros actuais da Commonwealth. Mas a Irlanda não voltou a reingressar na organização.

16 abril 2024

O ÚLTIMO RETOQUE NA «TEIA» DE TRATADOS DE AMIZADE E COOPERAÇÃO DO LESTE EUROPEU

Praga, 16 de Abril de 1949. Como dá conta a notícia do New York Times, Antonin Zapotocky pela Checoslováquia (à esquerda) e Istvan Dobi pela Hungria (à direita) assinavam naquela cidade um daqueles tradicionais tratados de amizade e cooperação que os países comunistas costumavam assinar entre si durante o período da Guerra Fria. Como o jornal americano fazia questão de frisar, este era o vigésimo primeiro e último tratado de uma rede de tratados do mesmo género que interligavam entre si a União Soviética e os seis países - o jornal empregava a expressão "democracias populares" entre aspas - do Leste da Europa. De fora, ficara apenas a Albânia e a Finlândia, concluía-se no jornal. Na Primavera de 1949 e ao mesmo tempo da constituição da NATO, aquele que costuma ser denominado por Bloco Leste - a esfera de influência russa até ao centro da Europa - estava tão formalmente definido quanto o seu rival ocidental. O exercício argumentativo a que os comunistas muito tempo se dedicaram a invocar depois disso, que o Pacto de Varsóvia só havia surgido seis anos depois da NATO, é apenas isso: um exercício argumentativo. Como se percebe aqui, os blocos já estavam claramente formados em 1949: a constituição do Pacto de Varsóvia em Maio de 1955 é apenas a criação de uma organização militar simétrica à NATO.

13 abril 2024

271 VOTOS A FAVOR E 1 CONTRA

13 de Abril de 1949. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprova uma Lei de Defesa com um montante de despesas que, na altura, era astronómico: quase 16 mil milhões de dólares! A NATO acabara de ser criada, as preocupações com a defesa eram de rigor e o montante que fora aprovado era até mesmo superior àquilo que fora originalmente orçamentado pela administração Truman. Mas o que se tornava mais bizarro no que acontecera seria claramente o resultado da votação: 271 votos a favor e 1 contra. Quem se opusera à lei fora o único representante pertencente ao partido trabalhista americano, que veio a perder o seu lugar nas eleições seguintes em 1950. Hoje a América está diferente, mais plural...

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

02 abril 2024

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL 1939-49

2 de Abril de 1949. Foi só neste dia que se recuperou a prática de iluminar as cidades britânicas como se fizera até à eclosão da Segunda Guerra Mundial no Outono de 1939. Para as crianças britânicas era uma verdadeira novidade os anúncios luminosos nas fachadas dos edifícios das zonas centrais das cidades; para os adultos - que, como se vê acima, se concentraram para os rever - aqueles anúncios eram uma saudade. É por isso que, do ponto de vista da iluminação pública, se pode dizer que o Reino Unido esteve em guerra de 1939 a 1949.

31 março 2024

TERRANOVA: A INDEPENDÊNCIA QUE DESCAMBOU NUM FIASCO…

(Republicação por ocasião do 75º aniversário da adesão da Terranova ao Canadá)
A Terranova, que é actualmente designada por Terranova e Lavrador (Newfoundland and Labrador, no original) é a décima província do Canadá. No entanto, poucos serão os que saberão que, embora o núcleo inicial de colónias canadianas se haja formado em 1867, a adesão da Terranova ao Canadá só ocorreu em 1949, ou seja, já depois do fim da Segunda Guerra Mundial e que, antes disso, o Canadá e a Terranova haviam trilhado percursos históricos distintos.

Depois das tentativas de colonização dos vikings no Século XI, no Século XV houve vários navegadores portugueses envolvidos na exploração daquelas terras. Mas estes mostraram-se mais interessados na exploração da riqueza dos bancos piscícolas adjacentes (especialmente na pesca do bacalhau) do que propriamente no assentamento em regiões meteorologicamente muito adversas, ainda para mais para quem estava habituado aos climas mediterrânicos.

Embora os portugueses tivessem acabado rapidamente por abdicar da disputa da posse daquelas costas da América, a sua participação inicial manteve-se viva na toponímia de Terranova (de que Newfoundland é uma tradução directa) e Labrador (por causa do descobridor, João Fernandes Lavrador). E, durante séculos, a região foi local de visita de pescadores vindos do outro lado do Atlântico: ingleses, franceses, irlandeses, escoceses, portugueses, bascos, castelhanos, bretões, etc.

Os britânicos acabaram por impor a sua hegemonia embora entre a população local se contasse uma contribuição importantíssima das minorias célticas britânicas(*), em comparação com os ingleses propriamente ditos. Não tendo feito parte inicialmente do Canadá, nem aderido posteriormente (em 1892, isso esteve quase a acontecer), em 1907, a Terranova recebeu, conjuntamente com a Nova Zelândia, um estatuto de quase completa autonomia, que se designava por Dominion.

Com uma população rondando os 175.000 habitantes e com uma próspera economia de exportação, assente na pesca e na indústria do papel e mineira, o país viveu então nas duas décadas seguintes a sua época de ouro. Para tudo entrar em descalabro com a Crise de 1929… Completamente dependente do exterior por causa da dimensão diminuta da sua procura interna, não só a economia de Terranova entrou em colapso(**), como também o mesmo aconteceu com as finanças do Dominion

Para entrar com os meios para as reequilibrar, a metrópole britânica colocou a condição de reinstalar o seu domínio sob o aspecto de uma Comissão Governamental que seria responsável perante o Governo de Londres. Em 1934, em tudo, excepto na forma, havia-se extinguido a independência da Terranova… Mas a questão voltou a colocar-se logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido entrou por sua vez em dificuldades financeiras e se quis ver livre destes fardos

As opções que se colocavam para a decisão do futuro da Terranova eram: a continuação da administração britânica; a recuperação do estatuto de Dominion; a adesão ao Canadá; a adesão aos Estados Unidos. Na primeira nem Londres estava interessada e a última nem apareceu nos boletins de voto… Depois de um primeiro referendo inconclusivo, em que a hipótese de Dominion obteve uma vantagem de 44,5% a 41,1% sobre a adesão ao Canadá, num segundo, esta última ganhou com 52% dos votos.

Em 31 de Março de 1949 a Terranova juntou-se ao Canadá, tornando-se na sua décima província. Actualmente, com um pouco mais de 500.000 habitantes e uma área de 405.000 km², a província representa apenas 1,6% da população canadiana, 4% da sua área total e 1,3% da sua economia (em 2006). Contudo, a descoberta recente de novas jazidas de petróleo na plataforma continental, faz prever que a província poderá vir a gozar de um novo período dourado, um século depois do primeiro…

(*) – Irlandeses, escoceses e galeses.
(**) – Um cenário com bastantes semelhanças com o que aconteceu quase 80 anos depois à Islândia.

25 março 2024

A PRISÃO DE ÁLVARO CUNHAL

Álvaro Cunhal foi preso pela PIDE na madrugada de 25 de Março de 1949 num palacete do Luso. Esta notícia do Diário de Lisboa data, porém, de 31 de Março, seis dias depois. Como se depreende pela leitura do artigo (que recomendo), o anúncio público da prisão foi precipitado por uma iniciativa dos próprios comunistas, que fizeram publicar um anúncio críptico num jornal portuense (O Primeiro de Janeiro), anunciando que Álvaro Cunhal Duarte se mudara para a rua do Heroísmo (a sede da PIDE no Porto, onde ele estava preso). Vale a pena ler o artigo no original, porque, ao contrário das versões que apareceram depois do 25 de Abril, a redacção do artigo é bastante parcimoniosa quanto à simpatia pelos protagonistas. Por exemplo, de um lado temos «o distinto Inspector Superior da PIDE, sr. capitão José Catela» que, por outro lado, «teve ensejo (...) de lamentar que se perdesse por tão ínvios caminhos um rapaz que poderia ser cidadão prestimoso» (Cunhal). Sintomático de quem seria o vencedor do momento, a inclusão do último trecho do artigo, em que se faz referência a um «comentário» de um «colega»: - «Como é que o general três pontinhos se meteu com esta gente?!» (os comunistas) O «general três pontinhos» era o general Norton de Matos que fora o candidato às eleições presidenciais de 13 de Fevereiro daquele mesmo ano e que desistira no dia anterior ao escrutínio, invocando falta de condições. Não era difícil perceber para onde, na circunstância, penderiam as simpatias do redactor em 1949. E imaginar aquilo em que se transformou este mesmo jornal dali por 25 anos!

14 março 2024

OS PRIMÓRDIOS DA NATO E A IMPORTÂNCIA RELATIVA DE QUEM A VIRIA A INTEGRAR

(Republicação)
14 de Março de 1949. Tendo-se os Estados Unidos decidido a criar uma Organização político-militar em parceria com os seus aliados europeus, e estando em pleno curso as negociações para a constituição daquilo que viria a ser a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), eram notórias, porém encapotadas, as intenções da diplomacia portuguesa, expressas, de resto, nas notícias que ela soprava para os jornais da época e que só a distância histórica nos permite hoje ler com uma outra transparência.
Assim, a primeira página do Diário de Lisboa de há 75 anos dava destaque em primeira página ao facto da «Islândia não aceitar que fossem instaladas bases militares no seu território». Na última página, mencionava-se que «a adesão da Dinamarca ao Pacto do Atlântico estava a ser negociada». A edição do dia seguinte referia-se, com igual destaque, a que «a melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Espanha depende da medida em que Franco tornar mais liberal o seu regime.» De uma penada, varriam-se os outros países com presença insular a meio do Atlântico Norte.
As preocupações e intenções portuguesas percebiam-se nitidamente na passagem sublinhada: «Na hipótese da Dinamarca e Islândia aderirem ao Pacto do Atlântico, o único país fora desse Pacto com ilhas importantes no Atlântico será Portugal que possui o arquipélago dos Açores. Não são ainda conhecidas as intenções do governo de Portugal, embora em Washington conste não haver informações substanciais de que Portugal não deseje, eventualmente, alinhar com as outras potências ocidentais.» Lido assim, até parece que Portugal estava a fazer um favorzinho aos outros...

27 fevereiro 2024

O RACISMO NO SEU ESTADO MAIS PRIMITIVO NA EUROPA MAIS CIVILIZADA

Esta notícia tem precisamente 75 anos e, pelo racismo que lhe está subjacente, é uma demonstração de como evoluíram as sociedades nesse período. Neste caso a britânica. Repare-se como o problema se coloca somente no caso dos «filhos ilegítimos» «abandonados» pelos «soldados de côr» (este último eufemismo num texto com este conteúdo é completamente ridículo), soldados que haviam estado estacionados no Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. Não existe nenhuma referência nem (aparentemente) nenhuma preocupação com o destino a dar aos muito mais «filhos» também «ilegítimos» de soldados americanos brancos. Ou de outras nacionalidades, desde que fossem brancos. Esses não colocariam problemas quanto à adopção, de acordo com esta narrativa, o que nem sempre foi verdade, veja-se em concreto o exemplo do guitarrista Eric Clapton...

26 fevereiro 2024

OUTRA DAS SETE VIDAS DO GENERAL PHIBUN

26 de Fevereiro de 1949. Durante um período de Estado de Emergência que teria sido causado pela actividade das guerrilhas comunistas da vizinha Malásia junto à sua fronteira com a Tailândia, unidades do exército e da marinha tailandesas estacionadas em Banguecoque entraram em conflito aberto umas com as outras acusando-se reciprocamente de quererem derrubar o governo de Phibun Songkhram. Este general tailandês é uma das figuras injustamente esquecidas da História mundial do século XX, a quem dediquei já dois postes sobre as suas sete vidas (1) (2) e a sua capacidade de sobreviver a golpes de estado e outras tentativas de assassinato. A notícia, como se percebe acima, chegou com dois dias de atraso e, ainda por cima, mal explicada.

24 fevereiro 2024

A ASSINATURA DO PRIMEIRO ACORDO QUE CESSAVA AS HOSTILIDADES ENTRE O EGIPTO E ISRAEL

24 de Fevereiro de 1949. Dava-se conta da assinatura de um acordo que fazia cessar as hostilidades entre o Egipto e Israel, hostilidades que haviam eclodido entre árabes e judeus com o abandono da Palestina pelos britânicos em Maio de 1948, sem que houvesse qualquer acordo formal quanto ao destino a dar à região. Seguiu-se a primeira guerra israelo-árabe. E este era o acordo, assinado nove meses depois na ilha grega de Rodes, entre o jovem estado de Israel e o mais importante dos quatro beligerantes árabes, o Egipto. Seguir-se-ão acordos equivalentes assinados com os outros países árabes, o Líbano (a 23 de Março), a Jordânia (3 de Abril) e Síria (20 de Julho). O importante é recordar que, já há 75 anos, ficava a impressão para quem lesse a notícia (onde os termos do acordo são detalhados) que os israelitas haviam alcançado um acordo muito favorável. Notoriamente e visto a esta distância, percebe-se que lhes falta assinar um acordo com mais alguém.

12 fevereiro 2024

QUASE UMA TRADIÇÃO DO ESTADO NOVO...

Sábado, 12 de Fevereiro de 1949. Na véspera das eleições presidenciais, que iriam reeleger por uma última vez o marechal Óscar Carmona, o seu concorrente por parte da oposição, o general Norton de Matos, desiste. Era quase uma tradição, e quando as hostes governamentais não se apresentaram sem concorrência, raras foram as ocasiões em que, após o período de campanha, a oposição se chegou a apresentar efectivamente ao acto eleitoral.

05 fevereiro 2024

UMA HISTÓRIA MUITO BEM EXPLICADA, MAS ONDE FALTAVA A INCLUSÃO DE UM DETALHE IMPORTANTE

5 de Fevereiro de 1949. Esta notícia de há precisamente 75 anos é de um detalhe impressionante. A única coisa que se esqueceram de explicar foi a motivação para que o ministro dos Estrangeiros se dispusesse a visitar inesperadamente Washington mesmo sem qualquer convite feito. AS razões só se perceberão na edição do dia seguinte: a União Soviética, que então ainda era dirigida por Estaline, na perspectiva da formação de uma aliança militar de países europeus com os Estados Unidos (que virá a ser a NATO), aliança essa para que a Noruega fora convidada, começara a enviar insistentemente notas diplomáticas convidando este país - que faz fronteira com a União Soviética no Ártico - assinasse um pacto de não agressão. Daí a urgência do ministro norueguês em visitar os Estados Unidos: é que havia - e continua a haver - toda uma eloquência implícita quando a União Soviética - e agora a Rússia - insistem em ser não agressivas...