23 de Fevereiro de 1982. Tem lugar na terça-feira de Carnaval um referendo na Gronelândia para decidir se aquela (grande!) região autónoma da Dinamarca continuaria ou não fazer parte da então Comunidade Económica Europeia (CEE). Não consta que haja grandes celebrações de Carnaval por aquelas paragens (frias!) e venceu a rejeição, embora o número de votos contados (12.615 contra 11.180) mostre o limitado impacto demográfico da decisão. Apesar disso, politicamente, a decisão seria demonstrativa que a CEE não era o El Dorado apregoado pela propaganda de Bruxelas, a organização a que todos desejavam pertencer. Havia quem não o quisesse. A decisão viria a entrar em vigor dali por três anos, a partir de 1 de Fevereiro de 1985. Até ao Brexit (2016), por 34 anos, seria o único episódio de abandono da União Europeia. Um pequeno episódio, que a propaganda de Bruxelas se mostrava hábil em tornar ainda mais pequenino.
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23 fevereiro 2022
26 junho 2017
INFORMAÇÕES QUE NÃO PÕEM AS REDES SOCIAIS "AO RUBRO": A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO DA GRONELÂNDIA
A Gronelândia tem uma área de 2.166.000 km² (24 X a área de Portugal) mas é povoada apenas por uns 56.000 habitantes (menos de ¼ da população da Madeira), o que a torna o território menos densamente povoado do Mundo. Esta informação estatística perfeitamente supérflua é complementada com a da sua distribuição, que se concentra predominantemente na costa ocidental, a costa que está orientada para o continente americano, conforme se pode perceber pelo mapa acima. É uma informação que, não inflamando as redes sociais, não deixa de ser surpreendente, já que a quase totalidade das referências históricas à Gronelândia a conectam com a sua descoberta e tentativa de colonização pelos povos nórdicos entre os séculos X e XV, uma história trágica, já que a colonização veio a fracassar ao fim de 500 anos por causas ainda hoje discutidas, só vindo a ser retomada num outro fôlego e com melhores meios materiais a partir do século XVIII. Na actualidade, ao contrário do que aconteceu na Islândia (que era deserta e onde a população moderna é de ascendência nórdica) e apesar do território continuar a ser uma dependência da Dinamarca, cerca de ⅞ da população da Gronelândia é de ascendência inuíte.
05 agosto 2015
O ACIDENTE DE THULE
A Força Aérea norte-americana (USAF) tem uma base em Thule. Thule fica na Gronelândia e a Gronelândia é muito fria. Como Thule fica no Norte da Gronelândia as temperaturas na base serão ainda mais baixas que no resto da ilha. E como o episódio se desenrolou em 21 de Janeiro de 1968 (no pico do Inverno, portanto) é mesmo sob uma sensação gélida que a história tem de ser compreendida. Nesse dia permanentemente escuro de Janeiro de 1968 (naquelas latitudes naqueles meses o Sol mal se levanta acima do horizonte), um bombardeiro B-52 da USAF (abaixo, à esquerda) cumpria a sua missão de alerta voando interminavelmente durante horas uma rota em forma de infinito a 35.000 pés de altitude. E, porque o desconforto era grande, o co-piloto havia arranjado umas almofadinhas de espuma de borracha para colocar sobre o assento. Haviam-se passado já umas cinco horas de voo quando a tripulação tiritando achou que o aquecimento da cabine não estava a funcionar adequadamente. O mesmo co-piloto, o major Alfred d’Amario Jr. – o friorento do grupo, provavelmente... – accionou um dispositivo adicional para aquecer a cabine que sugava ar de exaustão dos reactores. Só que o ar estava muito quente (220ºC) e, porque os ventiladores se situavam precisamente sob os assentos(!), pegaram fogo às almofadinhas.
O operador de radar, o major Frank F. Hopkins, deu pelo cheiro a borracha queimada, identificou a origem dele, a tripulação ainda tentou apagá-lo com os extintores mas o fogo e o fumo propagaram-se, declarando-se o fogo a bordo, provavelmente o pior perigo para um avião voando em altitude de cruzeiro. O piloto, o capitão John Haug pediu a Thule autorização para proceder a uma aterragem de emergência. Não a chegou a realizar porque, passado algum tempo, o fogo deve ter atingido e destruído alguma cablagem vital e o B-52 perdeu a energia eléctrica. A tripulação iria ter que saltar de pára-quedas. Naquele dia a temperatura ambiente era de -30º C. O vento e o consequente efeito de windchill tornavam-na equivalente a -42º C. Naquelas condições, qualquer parte exposta do corpo arriscar-se-ia a uma severa queimadura pelo frio em cerca de dois minutos. Por isso, para aumentar as hipóteses de sobrevivência da sua tripulação, o piloto tentou aproximar o mais possível o avião de Thule antes de o abandonar por último, a cerca de 5 km do início das pistas. Já sem ninguém, o B-52 sobrevoou totalmente Thule antes de posteriormente descrever uma bizarra volta de 180º e vir despenhar-se sobre o mar gelado.
Dos sete tripulantes, seis chegaram vivos ao solo. O último a saltar, o capitão Haug, veio a pousar são e salvo e ajudado pelo vento no meio do complexo de pistas da própria base aérea. O primeiro a saltar ainda a 10 km de distância das pistas, o navegador, o capitão Curtis Criss, foi o último a ser encontrado quase 24 horas depois e teve que amputar os dois pés. Mesmo assim, e consideradas as circunstâncias, é consolador pensar que, na altura com 43 anos, o capitão conseguiu continuar a jogar golfe e que veio a sobreviver mais 40 anos ao desastre. Desastre esse que nada teria de notável não se desse o caso do B-52 transportar 4 bombas termonucleares (acima). O local do despenhamento (abaixo) ficou totalmente contaminado – a sua (custosa) limpeza foi um evento de interesse mediático – e a existência de um B-52 em espaço aéreo dinamarquês transportando armamento nuclear tornou-se um problema de política interna dinamarquesa, já que o desastre indiciava que uma política assumida de ausência de armamento nuclear em solo dinamarquês estaria a ser violada. Investigações posteriores, mais de 25 anos depois, concluíram que, a haver hipocrisia e dissimulação, ela seria mais da responsabilidade do lado dinamarquês do que do norte-americano...
Retrospectivamente, já se imaginou se algo semelhante se tivesse passado nas Lajes?
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27 junho 2009
O IMPÉRIO COLONIAL DINAMARQUÊS
Talvez por causa da correcção política que se costuma associar aos povos escandinavos, o povo colonizador mais esquecido de todos os que a Europa conta será, com muita probabilidade, o dinamarquês. A verdade é que, ao longo da sua História, a Dinamarca chegou a possuir colónias em quatro continentes (Europa, África, Ásia e América) e ainda hoje a Gronelândia e as Ilhas Faroe, embora gozando de uma ampla autonomia interna, são dependências da Dinamarca.
Como acontece também com as duas regiões autónomas portuguesas no Atlântico, Açores e Madeira, as Ilhas Faroe e a Gronelândia foram, conjuntamente com a Islândia, as primeiras regiões de colonização, ainda durante a Idade Média, e também as que permaneceram ligadas à metrópole depois do fim do Império. Contudo, a comparação não é linear, porque a colonização nas terras do Norte do Atlântico foi realizada também por noruegueses, escoceses e irlandeses.
As relações entre metrópole e dependências não têm assim as características de proximidade e, sobretudo, de exclusividade, como aquelas que vigoram entre Portugal, a Madeira e os Açores. Ainda recentemente, a Rainha da Dinamarca, quando em visita à Gronelândia, apareceu vestida com o fato tradicional daquela região (acima). Apesar do teor dos discursos de Alberto João Jardim, ainda não parece necessário que o casal Cavaco Silva faça o mesmo com o trajo madeirense…
Mas os dinamarqueses foram muito mais longe do que o Atlântico. O local mais distante onde se instalaram foi a Índia, onde fundaram uma feitoria em 1620 em Tranquebar, na Costa do Coromandel, no actual estado indiano de Tamil Nadu. Em 1675 fundaram uma outra no estado de Bengala, próxima de Calcutá. Em 1755 reivindicaram as insalubres Ilhas Nicobar, no Golfo de Bengala. Em 1845, o conjunto foi vendido aos britânicos, já hegemónicos no subcontinente.
Outro dos locais em que os dinamarqueses se instalaram foram as costas do Golfo da Guiné, nas paragens correspondentes ao Gana actual, onde os dinamarqueses conquistaram e reforçaram, ou edificaram de raiz, vários fortes e feitorias desde 1658 até se retirarem da região em 1850. O propósito das feitorias era, principalmente, o comércio de escravos para as Américas e, com a abolição da escravatura e a extinção do tráfico, os dinamarqueses venderam-nas aos britânicos.
Nas Caraíbas, os dinamarqueses ocuparam em 1673 algumas das Ilhas Virgens que ficaram a ser conhecidas pelas Ilhas Virgens Dinamarquesas. As ilhas eram o destino principal dos escravos que eram comprados no Golfo da Guiné, para trabalharem nas plantações de açúcar. A abolição da escravatura (1848) tornou-as economicamente desinteressantes. Também foram vendidas em 1917 mas, sinal dos tempos, os compradores dessa vez foram os Estados Unidos (*).
Quanto às possessões europeias, em 1874 a Dinamarca concedeu a autonomia à Islândia e em 1918, através da Assinatura de um Acto de União, a Islândia ascendeu à soberania plena em que compartilhava o monarca com a Dinamarca. Ao tornar-se uma República em 1944, a Islândia rompeu os últimos vínculos que a ligavam à Dinamarca. Depois da Guerra, as autonomias concedidas às Ilhas Faroe e à Gronelândia parecem encaminhá-las num percurso semelhante.
(*) Actualmente são conhecidas pelas Ilhas Virgens americanas para as distinguir das vizinhas Ilhas Virgens britânicas.
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