Este Século XXI produziu muitas transformações nos usos e costumes. E uma dessas transformações é que os golpes de estado em África já não se revestem daquela simplicidade de há uns quarenta ou cinquenta anos. Desde quando é que o presidente acabado de depor - que tantas vezes era um ditador encartado como acontece no caso acima com Robert Mugabe do Zimbabué - tinha o topete de achar que não colabora?... O que os vencidos canónicos de outrora tinham garantido era um pelotão de fuzilamento, com ou sem um simulacro de julgamento sumário. Mesmo os julgamentos ordinários, menos apressados, costumavam caracterizar-se por não se distinguirem dos sumários no teor das sentenças. O verdadeiro bónus para o vencido de um desse golpes de estado era a permissão concedida pelos vencedores para a sua partida para um exílio muitas vezes dourado onde, ainda assim, os mais venais poderiam usufruir de um confortável pé de meia entretanto posto a bom recato na Suíça. O que mudou no entretanto que leva os militares zimbabueanos a manifestarem esta paciência de Job com os caprichos de Mugabe? A moda das relações internacionais, que entretanto deixou de achar bem a interferência dos militares nos processos políticos como acontecia durante o período da Guerra-Fria. Descarte-se a opinião pública, que neste caso não se imagina a sair em defesa de um ditador que ocupa o poder há 37 anos. E descartem-se as dificuldades operacionais para eliminar fisicamente Mugabe, que o mais fácil seria arranjar-lhe uma oportuna crise cardíaca ou então uma queda fatal nas escadas, coisa natural num velho de 93 anos (a idade de Mugabe).
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17 novembro 2017
20 outubro 2015
O POVOAMENTO DA FEDERAÇÃO DA RODÉSIA E DA NIASSALÂNDIA
A Federação foi um projecto político britânico criado após a Segunda Guerra Mundial e que se destinava a conceder um certo modelo de autonomia política a alguns territórios britânicos em África contornando as pressões para que as descolonizações se processassem da maneira mais convencional onde o poder fosse transferido para as elites africanas indígenas maioritárias. A ideia era criar condições para replicar o modelo da África do Sul, onde a população de ascendência europeia, ainda que minoritária (20%), o era substantivamente e atingia uma dimensão crítica (eram 2,5 milhões de sul-africanos brancos em 1950) para conferir estabilidade a um regime de supremacia branca.
A Federação foi constituída no centro da África meridional, entre Angola e Moçambique (ver mapa acima), reunindo as regiões que são hoje a Zâmbia, o Zimbabué e o Malawi (e que na época eram conhecidas por Rodésia do Norte e do Sul e Niassalândia). Quando foi fundada, em 1953, possuiria uns 6.850.0000 habitantes, dos quais apenas 2,5% (170.000) eram de origem europeia, e cerca de ⅔ destes últimos concentravam-se na Rodésia do Sul, que era, naturalmente, o cérebro e a locomotiva do projecto. E a ideia não era copiar exactamente o modelo sul-africano, onde os africanderes haviam acabado de institucionalizar o apartheid, mas implementar um modelo de inspiração britânica, mais benigno.
É no quadro desse ambicioso projecto que se pode compreender a notícia de jornal dessa época que insiro abaixo, onde se antecipava que nos 25 anos seguintes a Federação esperava receber um milhão de imigrantes europeus para a equilibrar demograficamente. Esse milhão de emigrantes europeus transplantados para o meio de África foi um projecto exuberantemente falhado e esquecido e que se chega a tornar cómico quando conhecido a 60 anos de distância, agora que se conhece a continuação dos acontecimentos. Nunca os territórios africanos conseguiram despertar um interesse da imigração europeia à escala antevista pelos visionários do projecto da Federação. Os europeus emigrados preferiram outros destinos, sobretudo na própria Europa. A Federação durou dez anos (1953-1963), até que cada um dos seus membros seguiu o seu percurso distinto.
No final da década de 1970, ao fim dos tais 25 anos míticos da notícia acima, a população de origem europeia total dos três países separados cifrava-se em cerca de 350.000 pessoas, das quais mais de 80% se concentrava na então Rodésia do Sul, o único deles que ainda prosseguia em versão reduzida o projecto de supremacia branca. Também esse terminou em 1980. O número de brancos actualmente na região outrora concebida para receber um milhão deles cifrar-se-á à volta dos 75.000. Convém remexer de quando em vez nestes projectos neocoloniais britânicos fracassados para não se ficar com a opinião que as ambições coloniais anacrónicas só aconteceram connosco...
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07 fevereiro 2015
OS «ESPALHANÇOS» DOS PODEROSOS
Imagens de presidentes a cair sempre interessaram as audiências, recorde-se acima Gerald Ford, presidente norte-americano de 1974 a 1977, que ficou com a reputação de manter uma relação complexa com os degraus das escadas dos aviões. Mas, naqueles regimes onde se perpetuam os dirigentes no poder e as figuras que o detêm alcançam provectas idades exercendo-o, ao entretenimento das massas populares, sempre dispostas a rir com os tombos, soma-se a preocupação dos membros do círculo próximo do poder com as suas sequelas naqueles de quem depende, afinal, o seu ganha-pão.
Ninguém fotografou, muito menos filmou, António Salazar a estampar-se na famosa cadeira de lona aos 79 anos no forte do Estoril em Agosto de 1968, mas há dez anos, em Outubro de 2004, foi notícia (acima) em todo o Mundo um espectacular espalhanço de Fidel Castro, então com 78 anos, episódio de onde ele saiu com um joelho fracturado. Anteontem aconteceu outro, desta vez com um Robert Mugabe que já conta 90 anos, com o bónus adicional do governo zimbabueano se ter esmerado em desmentir que a queda houvesse sequer acontecido – o que apenas confere mais valor aos vídeos que a registam (abaixo).
31 março 2014
OS RETORNADOS E OS QUE NÃO RETORNARAM
Mesmo tendo-se iniciado por um processo impecavelmente democrático, a História posterior do Zimbabwe independente sob o poder político da ZANU e de Robert Mugabe mostrou como parece ser impossível manter-se o estatuto económico privilegiado de uma minoria branca sem a protecção do poder político: de um máximo de 275.000 nas décadas de 1960 e 70, a minoria de zimbabweanos de ascendência europeia reduziu-se actualmente a umas 30.000 pessoas. São números semelhantes, senão mesmo inferiores, às dos moçambicanos e angolanos da mesma ascendência, apesar dos processos de independência destes últimos países terem sido muito mais atribulados, tendo provocando inclusive um êxodo brusco de muitas centenas de milhares de pessoas (abaixo). Durante anos, esses que vieram quiseram acreditar na ficção que só o fizeram por causa do fracasso na forma como decorrera a descolonização portuguesa. Mas manda a honestidade intelectual reconhecer, consideradas as analogias entre o exemplo posterior do Zimbabwe com o de Angola e Moçambique, o quanto essa crença estava errada. As circunstâncias e o ritmo poderiam ter sido diferentes mas o desfecho final não. (A fotografia inicial foi tirada no Zimbabwe em 2000, 20 anos depois da independência)
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30 março 2014
AS PRIMEIRAS E ÚLTIMAS ELEIÇÕES LIVRES DO ZIMBABWE
Costuma dizer-se e escrever-se que Portugal foi a última potência europeia a abandonar as suas colónias em África. Não é verdade, nem factual, nem formalmente. Foi só em Junho de 1977, por exemplo, que a França concedeu a independência a Djibuti, 19 meses depois da de Angola e, por quatro meses, entre Dezembro de 1979 e Abril de 1980, a Rodésia voltou a ser uma colónia britânica, para reganhar uma nova independência sob um governo de maioria negra. De acordo com os Acordos de Lancaster House, durante esses quatro meses a Rodésia voltou a ser uma colónia britânica com o Reino Unido a responsabilizar-se pela administração do processo de transição do país que viria a ser conhecido por Zimbabwe.
Um dos elementos basilares dessa transição era a organização das eleições de onde sairia a nova assembleia legislativa do país. Como o futuro executivo precisaria de uma maioria nessa câmara de 100 deputados, os resultados e a transparência dos mesmos seriam cruciais para o sucesso do processo de transição. Um dos resultados das negociações em Lancaster House fora que a minoria branca, que detivera o poder até então, havia conseguido cativar para si 20 lugares numa sobrerrepresentação do seu peso demográfico (equivalente a 6 a 7%). Estes 20 lugares eram círculos uninominais seguindo a tradição eleitoral britânica. Os outros 80 lugares seriam ocupados pelos eleitores da maioria negra.
Considerada a celeridade imposta ao processo, esses outros 80 deputados seriam eleitos proporcionalmente em sistema de listas apresentadas a oito círculos eleitorais correspondentes à divisão administrativa do país (um processo muito semelhante ao empregue em Portugal). O problema que incomodava a administração colonial britânica dirigida por Lord Soames era, não apenas o acantonamento e controle dos guerrilheiros da ZANU e da ZAPU que haviam até aí lutado contra o governo (acima), mas uma forma desburocratizada de assegurar a justiça eleitoral, em que todos votavam, mas que o faziam apenas uma vez. E foi assim que apareceu a tinta indelével a marcar os eleitores que já haviam votado¹!
Num último vestígio nostálgico do Império, a administração de Lord Soames recorreu à mobilização de 570 polícias britânicos que, com os seus reconhecíveis uniformes tradicionais (abaixo), acompanharam as eleições durante os três últimos dias de Fevereiro de 1980 em que elas tiveram lugar. Entre o eleitorado branco, as eleições não tiveram história: só 6 dos seus 20 lugares foram disputados, e mesmo assim, todos os 20 foram ganhos pela Frente Rodesiana que apoiara o governo anterior. Como é óbvio, a verdadeira disputa travava-se pelos 80 deputados e pelos votos dos 2,7 milhões de eleitores da maioria negra. E aí havia três grandes partidos que as ambicionavam vencer: a ZANU, a ZAPU e a UANC.
A ZANU (União Nacional Africana do Zimbabwe) e a ZAPU (UniãoPopular Africana do Zimbabwe) eram as duas organizações que haviam combatido militarmente o governo da minoria branca. Estavam separadas pela etnia predominante nas suas bases (shona vs. ndebele), pelos apoios materiais e ideológicos externos que recebiam (chinês vs. soviético), pelos países de onde as suas guerrilhas operavam (Moçambique vs. Zâmbia) e, claro, pela personalidade dos seus dirigentes (abaixo: Robert Mugabe vs. Joshua Nkomo). Contudo, ambas capitalizavam o prestígio de terem sido organizações combatentes. Depois, havia a organização moderada, a UANC (Congresso Nacional Africano Unido).
A UANC, dirigida pelo bispo (metodista) Abel Muzorewa, que sempre se opusera à luta armada assim como nunca aceitara um regime de supremacia branca, via-se agora acarinhada com meios inauditos de propaganda eleitoral financiados por ela, incluindo mesmo uma frota de helicópteros. A esperança era fazer com que a UANC conseguisse alcançar um mínimo de 30 lugares que, adicionados aos 20 da minoria branca, formassem uma maioria parlamentar e um governo moderado para o futuro Zimbabwe independente. Os rodesianos (e os sul-africanos) acreditavam que isso seria possível mas estavam redondamente enganados. No encerramento do escrutínio, a UANC elegera só 3 deputados, menos do que os helicópteros da frota…
A ZANU de Mugabe, com 63% dos votos e 57 lugares, obtivera sozinha a maioria absoluta no parlamento. A ZAPU de Nkomo ficara-se pelos 24% e pelos 20 deputados. Os 3 deputados da UANC correspondiam a 8% dos votos. Foi a primeira vez que em África um partido marxista-leninista chegara ao poder pela via eleitoral, em eleições livres monitoradas e avalizadas pelo Reino Unido. Nas eleições seguintes disputadas em 1985 já havia os 80 círculos uninominais e os candidatos governamentais foram reeleitos com mais de 90% dos votos. Já se realizaram meia dúzia de eleições depois disso, mas 34 anos depois (virtudes científicas do marxismo-leninismo), Robert Mugabe e a ZANU ainda continuam a ocupar o poder no Zimbabwe…
¹ Um método hoje recorrentemente empregue em todas as eleições mundo fora onde possa haver dificuldades com a existência de documentos de identificação.
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09 março 2012
A LINHA «DA FRENTE»
A fotografia acima data dos princípios dos anos 80 e nela identificam-se (da esquerda para a direita): Sam Nujoma da Namíbia (1929- ), o único dos presentes que, à data da fotografia, ainda não era chefe de estado nem de governo, Kenneth Kaunda (1924- ), que era então o Presidente da Zâmbia, Samora Machel (1933-1986), o Presidente moçambicano, Julius Nyerere (1922-1999), o Presidente da Tanzânia, Robert Mugabe (1924- ), então ainda 1º Ministro do Zimbabwe e finalmente o Presidente angolano José Eduardo dos Santos (1942- ).O bloco representado por aqueles cinco países (mais a SWAPO namibiana) designava-se por Estados da Linha da Frente – assinalados a vermelho no mapa abaixo. O inimigo comum era a África do Sul (a azul), que era então dirigida pelo regime dos africânderes. Assinale-se a cor amarela dos países que estavam geograficamente mesmo à frente, como o Botswana, a Suazilândia ou o Lesoto que, por causa das represálias do poder militar e económico dos sul-africanos, não se podiam dar ao luxo de ser tão radicais quanto os vizinhos da frente mais resguardados…

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04 abril 2010
ZIMBABUÉ: «IT´S NOT JUST BUSINESS, IT´S PERSONAL»*
A forma como a informação ocidental, especialmente a anglo-saxónica costuma acompanhar os acontecimentos no Zimbabué contém um travo de indignação adicional, tanto pela conduta ditatorial de Robert Mugabe (que não se distinguirá assim tanto da de muitos outros Chefes de Estado daquele continente), como pelo processo degenerativo que aquele país tem vindo a sofrer. Essa indignação, quando comparada com as situações doutros países, só consigo explicar pela história recente daquele país.
Já aqui escrevi sobre vários aspectos dessa história, desde o período da supremacia da minoria branca, quando o país ainda se chamava Rodésia, e das negociações falhadas entre esses representantes locais e a metrópole britânica que acabaram depois por levar à declaração unilateral de independência do Zimbabué (normalmente conhecida pelo acrónimo UDI) em Novembro de 1965 (acima) sob o governo da comunidade de origem europeia - 265.000 pessoas, cerca de 5% da população total.
A concretização da independência unilateral (que foi apoiada pela África do Sul e por Portugal), apesar dos boicotes da comunidade internacional mobilizados pelo Reino Unido, foi uma das últimas humilhações do poder imperial britânico já na fase de se esvanecer. É que, numa perspectiva eurocêntrica, as comunidades europeias nas colónias eram para ser entendidas como extensões da vontade da metrópole, não serviam para atrapalhar os objectivos definidos pelos governos metropolitanos, como esta fez...
É assim que os catorze anos decorridos entre 1965 e 1979, ano da assinatura dos Acordos de Lancaster House, em que o Reino Unido recuperou formalmente e por uns meses a tutela da colónia rebelde e o domínio do processo de condução do Zimbabué à independência sob um governo eleito pela maioria, acabaram por ser vistos como um desvio de um filho pródigo que más companhias fizeram trilhar maus caminhos – como a Guerra da Savana (acima), já referida neste blogue.
Fosse outra a história antecedente, mesmo assim os trinta anos que já decorreram depois da independência (1980) não fariam da história do Zimbabué independente uma história de sucesso. A hiperinflação que vigorava no país desde há uma dúzia de anos (abaixo) tornou-se uma daquelas curiosidades que escapa à compreensão comum: em 2007 foi de 11.200.000%, segundo os próprios dados oficiais! Há cerca de um ano que a moeda (se lhe puder ser dado esse nome...) foi retirada de circulação…
Como boa demagogia, os relatos condenatórios que incluem este e outros episódios, apenas deixam a sugestão, não afirmam, que tudo isto poderia ter acontecido doutra forma diferente, ou que a entrega descontrolada do poder à maioria negra tende a degenerar em situações como aquela que se vive no Zimbabué… Resta provar que isso é verdade, mas há que reconhecer que uma fotografia de um enxame de zimbabueanos com fome à volta da carcaça de um elefante tem um impacto poderoso!
* Zimbabué: não se trata apenas de negócios, é pessoal. Trata-se de um trocadilho como uma famosa frase do filme O Padrinho que diz precisamente o contrário: it's not personal, it's just business.
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19 fevereiro 2009
A GUERRA DA SAVANA RODESIANA (RHODESIAN BUSH WAR)
Os britânicos tiveram a sua Malásia e os norte-americanos o seu Vietname, ambas em regiões tropicais, os franceses a sua Argélia e os soviéticos o seu Afeganistão, ambas em regiões áridas, houve ainda outras, mas a guerra subversiva que mais se terá assemelhado em todos os aspectos a qualquer das três que foram travadas pelos portugueses em África terá sido a Guerra da Savana Rodesiana (Rhodesian Bush War).
Há muitas mais coisas a torná-las semelhantes do que apenas uma questão de todas elas se terem travado no mesmo continente, em regiões de proximidade (no caso de Angola) ou mesmo de contiguidade geográfica (no caso de Moçambique). Também é mais do que a circunstância de haver uma quase sobreposição temporal entre os três casos envolvendo os portugueses (Angola, Guiné e Moçambique, 1961-74) e o rodesiano (1965-80).
É o caso das fotografias de propaganda do regime se assemelharem, como a de cima, com mulheres e crianças de fazendeiros brancos assassinados pelos guerrilheiros da ZAPU em 1975, a lembrar as que haviam sido tiradas em 1961 no Norte de Angola, na sequência das acções da UPA. Como os portugueses haviam conseguido em Angola, também na Rodésia conseguiram dividir a oposição armada em mais do que um movimento: ZAPU e ZANU.Por um período de cerca de meia hora, uma esquadrilha de 6 Hunters, acompanhada de outra de 4 bombardeiros Canberra, tomou conta do espaço aéreo zambiano, enquanto bombardeavam a principla base da ZAPU, que se situava perto da capital da Zâmbia, Lusaka. O vídeo acima reproduz parte das instruções então dadas pelo líder da esquadrilha atacante à torre de controlo do aeroporto de Lusaka…
Que contraste com a (tentativa de) discricionariedade da Operação Mar Verde em Conacri em 22 de Novembro de 1970! Nestes momentos, que o tempo transcorrido acabava por tornar propenso ao revisionismo histórico, vale a pena perguntar qual terá sido a contribuição destas operações especiais, tão ousadas quanto ilegais, para o desfecho das guerras… Muito pouca! Afinal, tanto os rodesianos como os portugueses perderam as suas Guerras…21 maio 2008
UMA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
Não se pode dizer que me tenha surpreendido a existência de motins xenófobos nos bairros da lata dos arredores de Joanesburgo. Sempre foi assim em momentos de crise, embora não esteja a ver uma crise económica próxima na África do Sul que os justifique. O que me surpreendeu deveras foi a rapidez e o grau de importância com que despontaram as notícias sobre os motins. Ainda ontem, o Público dedicava-lhe uma fotografia enorme que ocupava metade da primeira página e outra de dimensão idêntica nas páginas interiores acompanhando a notícia. A terceira surpresa foi a sensação de como aquela notícia parecia estar algo empolada.
De acordo com a BBC on-line (continuo a seguir a notícia do Público), haveria 6 mil pessoas em fuga e o resultado dos confrontos desde há uma semana era de 22 mortos e 217 detenções. Poder-nos-á impressionar que a violência se concentre agora nos imigrantes, mas, racionalmente, aquele número de homicídios parece ser trivial para uma cidade que conta com quase 4 milhões de habitantes e se situa num país que é um dos líderes mundiais na taxa de homicídios*. Só que o resto da notícia, ao procurar atribuir as causas desta súbita xenofobia à saturação de imigrantes do Zimbabué, dá-nos uma pista de quem pode estar a promover a notícia e a manobra.
Depois da embaraçosa cena das últimas eleições no Zimbabué, já se tornou evidente que, por acção ou omissão, Thabo Mbeki, o presidente sul-africano, é o último apoio internacional importante que resta a Robert Mugabe. E é evidente que, apanhado de surpresa à primeira, na próxima segunda volta das eleições presidenciais, o regime zimbabueano vai-se aplicar em não ser surpreendido uma segunda vez: nessas próximas eleições, Mugabe vai ser tão bem tratado como Américo Tomás o foi em 1958 em Portugal, e a oposição a Mugabe já percebeu que a mudança política no Zimbabué muito remotamente se fará pela via das urnas…
Ora, aqueles que estão interessados em manobrar para vir a depor Robert Mugabe e o seu regime, têm que condicionar entretanto a liberdade de movimentos de Thabo Mbeki na própria África do Sul, nomeadamente aproveitando (ou desencadeando…) e dando grande publicidade mediática a estes motins xenófobos enquanto põem nos ombros do presidente sul-africano a responsabilidade dele ter importado a crise por causa da forma errada como tem estado a abordar os problemas zimbabueanos. Como deixei claro no título deste poste, é uma história que faz todo o sentido, mas tudo isto não passa de uma saborosa Teoria da Conspiração…* Em 1998 a África do Sul era a líder mundial com uma taxa de 59 homicídios por 100.000 habitantes. Aplicando esse coeficiente apenas à cidade de Joanesburgo (o que é uma subestimação, dado que a taxa de incidência de homicídios é, desde sempre, muito mais alta nos meios urbanos do que rurais), mesmo assim haveria uma média de 45 homicídios por semana na cidade, um valor que é o dobro do que valeu aquelas parangonas…
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08 abril 2008
A ESTÁTUA
Sou um adepto de que a prática política tem de se adaptar às realidades e às regras de jogo que estão disponíveis em cada regime. Em Portugal, felizmente, o regime é tão transparente que ninguém ousa avançar com a teoria cabalística de que terá sido o líder do governo a manipular a selecção do seu rival para o principal partido da oposição… No Zimbabué, pelo contrário, os acontecimentos recentes já demonstraram como é impossível que, pelas regras tradicionais da democracia eleitoral, possa haver rotatividade nos partidos que ocupam o poder.
Na Madeira, creio que ainda se está numa fase anterior à do Zimbabué, quando se acredita que aquele problema nunca se virá a colocar, pois o PSD-M (como a ZANU-PF zimbabueana) é um daqueles partidos intrinsecamente ganhadores e, como Abraracourcix antes dele, que apenas tinha medo que o céu lhe caísse em cima da cabeça, o Homem no Poder daquela ilha apenas receia que o ultrapassem nos domínios das graçolas pesadas… E, na pessoa de Baltasar Aguiar (abaixo), um deputado regional do PND, parece que tem agora um rival de qualidade…
É que entre os votos congratulatórios pelos 30 anos de cargo surgidos na Assembleia Regional, apareceu uma proposta deste último para uma estátua em bronze ou outro metal nobre, com cerca de 50 metros de altura, que represente o amado líder da Madeira Nova, Dr. Alberto João Jardim, a lembrar a de Kim Il Sung (mais acima). Depois de Teixeira dos Santos que lhe dá tampa aos cravanços de dinheiro, de Vicente Jorge Silva, que o manda organizar referendos quando ele ameaça com separatismos, esta é mais uma das vezes que adivinho Jardim a enfiar a viola no saco…
05 abril 2008
LIÇÕES AO ZIMBABUÉ
Havemos de concordar que o líder da oposição zimbabueana Morgan Tsvangirai (acima) não é propriamente nem bonito nem fotogénico mas a combinação das forças de segurança e dos serviços hospitalares do seu país arranjaram-lhe aqui há um ano atrás uma maquilhagem no seu visual que era tão radical que deu oportunidade a que se tirassem umas fotografias suas (abaixo) que vieram a ser quase tão disputadas como as da Gisele Bündchen…
Para a pergunta por mim aqui levantada há uma semana atrás – Será ainda possível (que no Zimbabué haja) uma transição política pacífica baseada nos resultados de um acto eleitoral? – é que não me parece que haja retoques de cosmética que escondam que o que se vai passar a seguir vai ser feio. Os últimos acontecimentos demonstram que, depois de uma semana de contagens, a credibilidade no voto popular anda muito por baixo…
Por falar em voto popular e da disputada necessidade de uma segunda volta para as eleições presidenciais (que é pretendida por Robert Mugabe e negada por Morgan Tsvangirai), haverá ainda por aí quem se lembre que o tal voto popular nunca legitimou devidamente o cargo de José Eduardo dos Santos hoje ocupa? Salve-se a constatação que José Eduardo dos Santos (acima) é bem mais fotogénico que os dois líderes zimbabueanos. 31 março 2008
LIÇÕES DO ZIMBABUÉ
Durante mais de uma década, o Zimbabué conseguiu ser um exemplo de que a propaganda britânica se utilizava para demonstrar como a sua diplomacia geria os conflitos africanos de uma forma diferente. Nem sempre com sucesso (os europeus da Rodésia, antecessora do Zimbabué, fugiram-lhes ao controlo e proclamaram em 1965 unilateralmente a sua independência…), mas de uma forma diferente, que impedia que se verificassem os êxodos maciços dos europeus, como aqueles que vitimaram os residentes de origem europeia das colónias francesas (Argélia) ou portuguesas (Angola e Moçambique).
A urbanidade do processo (Acordos de Lancaster House) que conduziu à independência do Zimbabué em 1980 convenceu-me do fundamento das razões apresentadas pela diplomacia britânica. Também houvera um prolongado conflito de guerrilha, mas a potência colonial regressara a tempo de pôr as coisas em ordem… Desde o principio, o Zimbabué independente não tinha nada que se assemelhasse à Argélia de 1962, à Angola ou a Moçambique de 1975, onde os serviços elementares de uma sociedade como a saúde, a educação, a água, a electricidade, o saneamento e até a prosaica recolha do lixo, quase desapareceram…
E contudo, progressivamente vim-me apercebendo como as transições suaves não são, só por si, a garantia de um fim feliz para a história. Num livro como Quando um Crocodilo come o Sol, do zimbabueano (branco) Peter Godwin podemos acompanhar, através da história da sua família, a desdita dos seus compatriotas da mesma etnia que, depois da independência se aferraram àquele país e que, por muito que tivessem contemporizado, acabaram quase todos na mesma situação dos proprietários dos caixotes da fotografia lá de cima*. De todo aquele edifício legislativo democrático de 1980, desmentido pelos factos, resta agora apenas uma dúvida:
Será ainda possível uma transição política pacífica baseada nos resultados de um acto eleitoral? * Apesar de manterem a nacionalidade zimbabueana, o autor vive nos Estados Unidos e a sua irmã no Reino Unido.
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07 fevereiro 2008
E DEPOIS DO ADEUS...
Depois do Adeus, além de ter acontecido o 25 de Abril, as antigas colónias africanas de Portugal tornaram-se independentes. Como havia acontecido anteriormente na maioria dos países da África que haviam alcançado a independência, quase todas as infra-estruturas administrativas e económicas, até aí dirigidas quase exclusivamente por membros da comunidade branca, entraram em colapso.Agravando o problema, a formação marxista-leninista das organizações nacionalistas que então vieram a ocupar o poder, enquanto as tornava sensíveis à importância dos quadros ideológicos tornava-as completamente obtusas em relação à dos quadros técnicos, cuja fuga estava a conduzir os países cujo poder viriam a herdar à quase completa paralisação. Aprenderam-no experimentalmente.
Depois disso, muitas histórias que foram contadas pelos estrangeiros, quando passadas num país africano depois da independência, incluíram pormenores onde as comodidades modernas (o fornecimento de electricidade ou de água, a recolha do lixo, a assistência sanitária, as redes de transportes) podiam ou não funcionar, dando um sentido mais propositado, quando funcionavam, à expressão comodidade…
Um dos países que mais sofreu com esse processo foi Moçambique, e só honra Samora Machel, o seu primeiro presidente, o conselho que endereçou ao seu homólogo Robert Mugabe em 1980, por ocasião da independência do Zimbabué, para que este não repetisse no seu país o erro que ele e a FRELIMO haviam cometido no seu em 1975, quando quase toda a comunidade branca abandonara o país.Durante quase 20 anos, o Zimbabué passou por ser o exemplo de uma transição bem sucedida de um regime colonial para a independência, onde o poder politico foi transferido para os representantes da maioria africana negra, sem que essa transferência tivesse perturbado significativamente a estrutura económica do país. A história dos últimos dez anos do Zimbabué desmente essa ilusão.
Como outrora acontecia com os soberanos medievais e com os judeus na Europa, o expediente político de culpar as minorias pelas crises económicos tornou-se demasiado apetecível para Robert Mugabe. As consequências dos acontecimentos que se seguiram podem ser sintetizadas na fotografia abaixo: a de uma nota de 100.000 dólares (!) do Zimbabué, resultado de uma hiper-inflação, que se mantém.
O fracasso da experiência zimbabueana tornou a levantar a questão se a transição de um regime de minoria branca para um de maioria negra estaria destinado a descambar fatalmente (seria apenas uma questão de tempo…) em situações semelhantes às que se verificaram em Angola, Moçambique ou no Zimbabué. Da resposta poder-se-ia antecipar aquilo que virá a acontecer na África do Sul…Embora a África do Sul não se enquadre no modelo colonial tradicional (a minoria branca é tão africana quanto a maioria negra), tem-se seguido atentamente como se têm processado os necessários reequilíbrios de poder depois da abolição do apartheid. E, por causa disso, há incidentes que noutros países teriam repercussões mais triviais, mas ali são possíveis de todo um outro aproveitamento político.
Um desses incidentes tem sido a manifesta incapacidade demonstrada pela Eskom, a Empresa Nacional de Energia Eléctrica desde 1923, em manter o regular funcionamento do fornecimento de energia eléctrica. A África do Sul, que sempre se considerou um país desenvolvido, sofre agora daqueles mesmos apagões rotineiros que tornam tão típica a estadia de um forasteiro em qualquer cidade africana…

O problema é que, contrariamente aos espectaculares colapsos na distribuição de energia ocorridos no passado naqueles sítios onde se deixa o mercado funcionar, a causa maior para este fiasco na África do Sul, e como o próprio presidente Thabo Mbeki já veio reconhecer, parece ter sido um excesso de regulação, ao restringirem-se os investimentos de substituição para valorizar mais a Eskom na fase da sua privatização… Mas há outras explicações...
Não deixa de ser irónico que seja a mesma Eskom, representando os interesses sul-africanos que, durante décadas a fio, e por interpostos agentes, bloquearam os circuitos de distribuição da electricidade de Cahora Bassa, que se veja agora na contingência de concluir que a capacidade instalada de produção de energia eléctrica disponível em toda a África austral não chega para satisfazer as suas necessidades…

(Um agradecimento especial ao Miguel Lopes pelo envio dos cartoons que serviram de inspiração ao poste)
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