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29 novembro 2019

O DIA DA «LIBERTAÇÃO» DA ALBÂNIA

29 de Novembro de 1944. Foi a data escolhida pela Resistência albanesa para considerar o seu país definitivamente liberto da ocupação das tropas alemãs, data essa que posteriormente veio a ser comemorada como o Dia da Libertação (Dita e Çlirimit em albanês). Assemelhando-se em muitos aspectos aos outros movimentos de Resistência balcânicos, casos do jugoslavo ou do grego, também o albanês aparecia totalmente tutelado pelo partido comunista local. Alcançado o poder, os comunistas albaneses iriam construir um estado que se tornaria célebre por ser, simultaneamente, e durante os 45 anos que se seguiriam, o país mais isolado da Europa e também o mais pobre. E no entanto... Sempre me intrigou como a proclamada pureza ideológica - e que tanto encantou tantas luminárias da UDP durante os tempos do PREC, mas essa é toda uma outra história... - do regime albanês tivesse à sua frente uma pessoa com a aparência castiçamente jovial do seu grande líder Enver Hoxha (1908-1985). Ao contrário da forma tipicamente façanhuda como os dirigentes dos partidos comunistas aparecem fotografados, nestas fotografias: a de cima datada dessa época, onde podemos apreciar um Enver Hodxa que se distingue dos demais pela expressão, por não assumir uma pose marcial, por ter a túnica aberta, por ser o único a fumar; e na de baixo, de tanta descontracção no cerro do punho, até parece ser um marxista-leninista menos compenetrado. E era esta pessoa, que tomaríamos à primeira vista por um bacano, a face de um dos regimes comunistas mais herméticos e repressivos de sempre!

23 novembro 2019

«VAMOS PENDURAR A NOSSA ROUPA A SECAR NA LINHA SIEGFRIED»

Por uma associação de ideias, que me levou a ir a um daqueles estabelecimentos com máquinas de lavar e secar roupa, lembrei-me que em Novembro de 1939, o hit musical daquela época dos dois lados da Mancha era esta canção de encorajamento que, concebida em Inglaterra, fora rapidamente traduzida para benefício e regozijo conjunto com os aliados franceses. A canção tinha um título como só o clássico humor britânico pode conceber: «Vamos pendurar a nossa roupa a secar na Linha Siegfried», uma espécie de promessa de vitória que virá a ser cumprida, mas somente uns anos depois ao que os cantores de há oitenta anos poderiam estar à espera...

12 novembro 2019

O AFUNDAMENTO DO TIRPITZ

12 de Novembro de 1944. Afundamento do couraçado Tirpitz num fiorde norueguês. Irmão-gémeo do Bismarck, mas muito menos famoso do que ele, o grande navio representou, como alvo, um grande entretém da Royal Navy, que não descansou enquanto não o afundou. Quando o conseguiu, neste dia de há 75 anos, já a questão da supremacia naval no Atlântico deixara de ser tema e os combates (terrestres e decisivos) na Frente Ocidental já se desenrolavam há uns bons cinco meses (desde o dia D) e já se haviam deslocado para bem perto da fronteira alemã. Feita uma apreciação distanciada, o Tirpitz terá representado mais, afundado, para a moral dos britânicos, do que como máquina de guerra para os alemães.

31 outubro 2019

A REMODELAÇÃO DO GOVERNO FASCISTA ITALIANO

31 de Outubro de 1939. O Mundo continuava em guerra, embora não se desse muito por isso. Esta edição acima do Diário de Lisboa de há oitenta anos esclarecia os seus leitores, em primeira página, sobre o que acontecera a respeito de operações militares terrestres: «Não se registaram quaisquer acontecimentos de importância». O que não impedia que uma coluna ocupando um quarto da página contivesse muitos outros acontecimentos relacionados com a guerra. Um deles era esta remodelação governamental ocorrida em Itália, uma Itália que, por aquela altura, ainda permanecia neutral. Não interessará ao leitor moderno saber quem entrara e quem saíra, mas surpreenderá porventura esse nosso leitor, saber que as mudanças eram interpretadas como contrárias à facção pró-alemã dentro do regime. A verdadeira história das relações entre o fascismo e o nazismo mostra que, para além das aproximações óbvias, também houve afastamentos subtis. No caso, ao demarcar-se de um dos lados em guerra, Benito Mussolini estaria provavelmente a pensar apresentar-se como mediador das facções beligerantes.

20 outubro 2019

OS SAPATOS MOLHADOS DE DOUGLAS MCARTHUR

20 de Outubro de 1944. Há 75 anos os norte-americanos desembarcavam nas Filipinas mas isso é apenas o aspecto acessório da evocação que pretendo fazer. Essa centra-se nesta fotografia desse dia,  a do desembarque do general MacArthur que comandava as as forças atacantes. Nela se vê o general, exibindo uma expressão cerrada, acompanhado pelo seu séquito, acabado de sair de uma lancha de desembarque, a caminhar com água pelo joelho em direcção à praia. O fotógrafo, que também era do exército (o major Gaetano Faillace), também estava dentro de água. A fotografia foi um sucesso junto da opinião pública(da) nos Estados Unidos (embora muito menos na Europa, que esses não estavam particularmente interessados na altura naquilo que acontecia do outro lado do Mundo...), e gerou uma controvérsia desde então. De tudo o que se escreveu a respeito da foto desde aí, parece consensual que as circunstâncias que a ocasionaram foram mesmo acidentais: as lanchas de desembarque não tinham calado para se aproximarem mais da praia e ninguém se lembrou de arranjar um barco mais maneirinho para pôr o general a seco em terra. A expressão de MacArthur, que veio a ser interpretada de outro modo, resultava verdadeiramente da sua irritação. Naquele momento, o general estava verdadeiramente possesso com a contrariedade. Não ficou registado para a história o que aconteceu ao beachmaster quando MacArthur chegou a terra. Em contrapartida, ficou registada a sua reacção quando, algum tempo mais tarde, viu a fotografia - que estava magnífica! Naquela espécie de guerra civil que nos Estados Unidos se travava para concitar as atenções entre os Teatros de Operações rivais da Europa e do Pacífico, a fotografia, se devidamente explorada, podia transformar-se numa grande vitória mediática. É que ninguém estaria a imaginar o rival Eisenhower a molhar os pés em pleno dia de desembarque da Normandia! Douglas MacArthur tanto gostou da cena que passou a reeditá-la, em desembarques futuros, como se se tratasse de uma sua imagem de marca.

19 outubro 2019

O «IMPRESSIONANTE» EXÉRCITO AMERICANO DE 1939

19 de Outubro de 1939. Uma notícia interior do jornal dava conta dos rumores (...consta...) sobre as intenções do presidente americano (...Roosevelt tencionaria...) de solicitar uma dotação orçamental extra ao Congresso para a expansão dos efectivos militares... até aos 280.000 homens. Mas, quem percebesse alguma coisa sobre o assunto, apercebia-se do embuste. Tratava-se de uma medida política mais simbólica que consequente, destinada a tranquilizar a população doméstica, ignorante, já que os protagonistas da Guerra Mundial então em curso a avaliariam pelo seu verdadeiro valor facial - que era ridículo. O exército alemão, por exemplo, contaria nessa época com dez vezes mais efectivos, os franceses apenas com um pouco menos e mesmo o Krasnaya Armiya (Exército Vermelho), apesar de não ser beligerante, contaria com sete vezes mais efectivos do que este US Army que se anunciava ir ser reforçado. Aliás, o futuro iria mostrar que, quando as realidades se impõem, estas aldrabices de propaganda (agora denominadas por spins) transformam-se naquilo que são: aldrabices e muitas vezes caricatas. É que, neste caso, depois dos Estados Unidos entrarem na Segunda Guerra Mundial em Dezembro de 1941, os efectivos militares cresceram adequados a um exército que tinha mesmo que combater os inimigos: e no final do conflito, em 1945, o US Army tinha 8.268.000 soldados(!).

14 outubro 2019

A LIBERTAÇÃO DE ATENAS

14 de Outubro de 1944. Os soldados britânicos sob o comando do general Ronald Scobie entram em  Atenas, que havia sido evacuada apenas dois dias antes pelos alemães. As cenas da libertação que tanto se assemelham neste documentário às das outras capitais europeias escondem que se espera que os libertadores funcionem como uma força de interposição entre dois exércitos irregulares ansiosos por se confrontarem de armas na mão: o ELAS, militarmente mais forte, pró-comunista e o EDES, pró-republicano, que apesar de mais fraco gozava das simpatias britânicas. Estes últimos, falhos de uma leitura perspicaz da situação e de discernir o que era importante do que não o era, insistiam em adicionar o rei Jorge II à questão política, complicando-a. Estas celebrações que assinalavam a libertação de Atenas e as tréguas que se lhe seguiram duraram cerca de um mês e meio. Em 3 de Dezembro um ELAS cada vez mais desconfiado da parcialidade dos britânicos, desencadeava uma insurreição pelo controle de Atenas (Dekemvriana), onde o seu exército se viu obrigado a intervir para a suprimir. Ainda não terminara a Segunda Guerra Mundial, mas houve sítios onde a transição para a Guerra Fria foi abrupta.

11 outubro 2019

A ANEXAÇÃO DE TUVA

11 de Outubro de 1944. A União Soviética anexa a pequena república de Tuva. Foi um pequeno país de que ninguém deu por ele enquanto existiu (1921-1944), por isso também ninguém deu por ele quando desapareceu, nem depois disso. Isto é, excluindo os mais fiéis leitores do blogue Herdeiro de Aécio... Se Tuva era insignificante, o gesto da sua anexação foi-o nitidamente menos, quando é apreciado no contexto daquela que era a actualidade de há 75 anos, confrontemos a primeira página daquele dia do Diário de Lisboa. Na notícia acima, anunciava-se que «se estava a decidir» qual seria «a sorte dos três países bálticos» (Estónia, Letónia e Lituânia) «que haviam conhecido a independência durante vinte anos» (os três foram também anexados pela União Soviética). E, mais abaixo, anunciava-se que «o primeiro-ministro do governo polaco no exílio fora chamado de Londres para ir a Moscovo conferenciar com Churchill e Estaline». (A Polónia iria perder os territórios de Leste para lá da linha Curzon) As políticas fronteiriças da União Soviética anunciavam-se amplamente revisionistas quanto aos seus traçados para o pós-guerra, e a anexação do pequeno Tuva fora apenas o oportuno símbolo dessa disposição.

26 setembro 2019

A DISSOLUÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA FRANCÊS

26 de Setembro de 1939. Face à aliança objectiva e subjectiva entre nazis e comunistas que estava a ter lugar na Polónia, o governo francês decidiu proceder à dissolução do partido comunista francês. O secretário-geral do PCF, Maurice Thorez, obedecendo a ordens superiores, deserta da unidade militar para onde fora mobilizado por causa da guerra e vai instalar-se em Moscovo. Se, a atender ao título do livro abaixo, o comunismo tiver sido mesmo uma paixão francesa, então foi uma paixão com muitos altos e baixos.

21 setembro 2019

O ASSASSINATO DO PRIMEIRO MINISTRO ROMENO ARMAND CǍLINESCU

21 de Setembro de 1939. Os «Guardas de Ferro», organização fascista romena promove um atentado em que morre o primeiro-ministro da Roménia, Armand Călinescu. A iniciativa parece ter tido o aval encorajador dos alemães e a anuência passiva dos russos. Se bem que o panorama noticioso esteja então dominado pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, nomeadamente o vergonhoso conluio entre nazis e comunistas para a ocupação e desmembramento da Polónia vencida (acima, a azul), mesmo assim as páginas centrais do Diário de Lisboa dão amplo desenvolvimento ao assunto (a amarelo), mormente as proclamações que se fazem nestas circunstâncias, de que o assassinato de um homem não irá afectar a política externa do país que dirigia. Era só conversa. Fruto da situação militar mas também consequência intimidatória do assassinato, a parceria que a Roménia formara com a Polónia e as suas simpatias para com os aliados ocidentais desapareceram, como se constatava facilmente nas páginas do próprio jornal: bastava comparar aquilo que se escrevera a respeito da Roménia no dia imediatamente antes ao do assassinato de Călinescu (abaixo, à esquerda) e no dia imediatamente depois.

17 setembro 2019

OPERAÇÃO «MARKET-GARDEN»

17 de Setembro de 1944. Início da Operação Market-Garden. Já aqui falei dela e sobre o que se pode ler a seu respeito. Para hoje fica apenas guardada a evocação. Foram acontecimentos espectaculares de guerras passadas que actualmente já não fazem sentido.

OUTRO DIA QUE FOI MUITO RICO DO PONTO DE VISTA NOTICIOSO

17 de Setembro de 1939. Depois de, no primeiro dia do mês, a Alemanha ter invadido a Polónia pelo Ocidente, desencadeando a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética tomava a iniciativa de invadir a Polónia por Oriente. Apesar de ser um Domingo, foi outro dia também muito rico do ponto de vista noticioso, com o Diário de Lisboa a produzir três edições, cada qual com primeiras páginas distintas. Se dúvidas houvesse, estas dissipavam-se quanto ao teor das combinações que haviam sido feitas entre nazis e comunistas. A reacção que perpassava pela nossa opinião pública e pelas que nos eram próximas era que, se os nazis alemães eram os maus e o lado errado daquela guerra, o comportamento dos comunistas russos mostrava-se infame. Entre os seguidores mais fiéis destes últimos, a narrativa completamente deturpada como os acontecimentos daquela época são evocados ainda agora (abaixo) continua a ser infame, mesmo abjecta, acusando as «potências capitalistas» da cumplicidade com os nazis que foi efectivamente protagonizada pela potência comunista.

12 setembro 2019

A JUNÇÃO DAS DUAS INVASÕES

12 de Setembro de 1944. Tem lugar numa aldeia borgonhesa chamada Nod-sur-Seine (veja-se a sua localização no mapa abaixo) a junção entre as duas invasões que os Aliados haviam desencadeado em terras francesas: a muito mais famosa invasão desencadeada pelo desembarque da Normandia em 6 de Junho e a desencadeada pelo desembarque da Provença em 15 de Agosto. Teoricamente, aquelas unidades alemãs de ocupação que não se haviam apressado a retirar das posições que ocupavam em território francês estavam agora cercadas.
Não por acaso, as duas unidades que se encontram naquele local são francesas, pertencentes à 1ª Divisão da França Livre e à 2ª Divisão Blindada, assim como é francês o documentário acima que celebra o acontecimento. 75 anos depois, existe o monumento a assinalar o encontro, à borda da estrada nacional 71, para quem conheça o significado do que ali aconteceu e se dê ao incómodo de lá ir. Eu bem sei de quem acabou demonstrando predilecção por pilaretes do género daquele que se exibe acima, assim como por outros fenómenos que desabrocham em França à borda das estradas.

10 setembro 2019

FOGO «AMIGO»

10 de Setembro de 1939. Uma semana depois do início da guerra, a Royal Navy perde o seu primeiro submarino, o HMS Oxley (o primeiro da fotografia acima). Foi afundado... pelo HMS Triton, (abaixo) também da Royal Navy, que durante uma patrulha nocturna em alto mar o tomou por um U-Boot da Kriegsmarine, torpedeando-o. Morreram todos menos dois homens da tripulação (de 54) do Oxley. Estas primeiras semanas da guerra vão encontrar combatentes tão ansiosos quanto impreparados e, por causa disso, predispostos a disparar em qualquer circunstância. Quatro dias antes fora a RAF que registara as suas primeiras baixas num incidente semelhante, quando formações de Hurricanes (o primeiro da fotografia abaixo) e Spitfires se enfrentaram por engano sobre os céus de Inglaterra, e onde os segundos abateram dois Hurricanes, causando a morte de um piloto. Para completar o ridículo, a artilharia anti-aérea conseguiu abater um dos Spitfires... Quando de uma guerra em curso (seria o caso da guerra a decorrer no Leste, onde alemães e polacos se enfrentavam a sério), estes episódios embaraçosos conseguem ser disfarçados no quadro complexo das operações. Mas no caso do Ocidente, as hostilidades praticamente não existiam, e a justificação para tanto nervoso no gatilho era muito menos compreensível. Em Inglaterra, a batalha aérea de 6 de Setembro havia sido baptizada ironicamente de batalha de Barking Creek. Mas o afundamento do Oxley, atendendo ao elevado número de vítimas, foi completamente abafado quanto às verdadeiras causas. Só cerca de dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial é que se soube que fora afundado por um torpedo «amigo».

07 setembro 2019

A «OFENSIVA» DO SARRE

7 de Setembro de 1939. Grupos de reconhecimento pertencentes aos III, IV e V exércitos franceses atravessam a fronteira alemã a oeste dos Vosgos, em frente de Sarrelouis, de Sarrebrück e de Deux-Ponts. O objectivo da ofensiva é aliviar a Polónia, obrigando o exército alemão a voltar-se para a frente ocidental. Tudo não passa de uma magnífica encenação, destinada a alimentar a frente política interna francesa (e não só, leiam-se acima as notícias do dia em Portugal) e sem qualquer impacto nas operações a sério, a decorrer simultaneamente na Polónia. A farsa percebe-se pela comparação dos dois mapas, o de cima e o de baixo (detalhando e avaliando as operações), com a imprecisão e a escala do mapa do jornal a esconder a exiguidade do avanço pomposamente anunciado pela notícia que o acompanha. A resistência alemã destacou-se pela falta de empenho na defesa do solo pátrio, e a ofensiva francesa pela falta de empenho na dinâmica ofensiva para objectivos mais importantes.
Manda a verdade reconhecer que, pelos ritmos da Guerra de 1914, esta ofensiva ao quinto dia de mobilização é uma atitude respeitável dos franceses. Os exércitos concentravam-se por detrás das trincheiras e é só depois dessa concentração ter lugar é que, sob a indispensável cobertura da artilharia, se desencadeia a ofensiva. O ritmo da progressão também é o mesmo dos ritmos da guerra anterior: uma meia dúzia de quilómetros conquistados em território alemão (assinalados no mapa acima pela mancha às riscas). Tudo isto é ridiculamente pouco quando se justapõe à ferocidade como, ao mesmo tempo, se combate na Polónia. Em 1939 tudo mudara e muita gente ainda não percebera. E a caricatura bem se pode sintetizar nesta fotografia abaixo, de uns soldados franceses que se passeiam de mãos nos bolsos diante de uma pensão (entaipada) situada algures num vilarejo de fronteira do lado alemão, que eles acabaram, aguerridamente, de conquistar.
Quando por ali passei, aquela que viria a ser denominada (não apenas por esta ofensiva, mas por toda a atitude adoptada pelo alto comando franco-britânico) por «Paródia de Guerra», foi por mim celebrada com um «chocotat chaud aux menthe», tomado em Sarreguemines (ver mapa acima), em jeito de reforço de meio da manhã e que me soube como mais nenhum outro. Pensando ainda na Gasthaus da foto acima e no meu «deambular sem fronteiras», não poderia deixar de a associar à incrível banheira - um prodígio da tecnologia do banho! - que vim (viemos) a encontrar num estabelecimento equivalente num outro vilarejo mas da Alsácia, do lado francês da fronteira.   

05 setembro 2019

OS PAÍSES MÉDIOS NÃO TÊM POLÍTICA EXTERNA AUTÓNOMA

5 de Setembro de 1944. A União Soviética declara guerra à Bulgária. Isso acontece apesar deste país, obrigado a orbitar na esfera da Alemanha durante o período de hegemonia germânica na Europa, ter tido o cuidado de nunca ter hostilizado a União Soviética, nem mesmo quando a Alemanha a invadiu em Junho de 1941. Outros aliados alemães, como a Roménia, a Hungria, a Finlândia, a Eslováquia, e até mesmo a Itália e a Espanha, chegaram a participar com contingentes militares seus combatendo na Frente Leste. A Bulgária, preventivamente e antecipando outros cenários que não apenas a vitória alemã, limitara-se a declarar guerra ao Reino Unido e aos Estados Unidos (e isso só em Dezembro de 1941), deixando um grande ponto de interrogação em cima da atitude para com a União Soviética e não enviara quaisquer tropas para combater na Rússia. Há 75 anos e ao contrário da sua vizinha Roménia a Bulgária sentia-se com direito a um tratamento diferenciado e mais leniente, agora que, no refluxo, ocorria a invasão da Europa de Leste pelos soviéticos. Descobria agora que não, que Moscovo se estava a marimbar para isso tudo. Os soviéticos não se iriam incomodar com subtilezas e agradecimentos e a declaração de guerra era tão somente o precedente legal justificador da invasão e ocupação militar da Bulgária que se seguiria. Na fotografia acima, búlgaros acolhem os libertadores russos - no cartaz lê-se "Glória Eterna ao Exército Vermelho". A glória não foi eterna mas durou uns bons 45 anos.

29 agosto 2019

O MASSACRE DO VALE DE SAULX

29 de Agosto de 1944. Eu tenho receio que a evocação repetida de massacres perpetrados pelos alemães em França de que agora se comemore o 75º aniversário acabe por os banalizar. Já aqui evoquei este ano o mais famoso (e sangrento) de todos, o de Oradour-sur-Glane, e ainda há três dias referi aqui, ainda que en passant, o de Maillé. Mas alguém mo incentivou a fazê-lo. Talvez por já ter partilhado comigo o interesse de ter visitado alguns dos locais onde eles ocorreram. Este massacre de 29 de Agosto de 1944 ocorreu em quatro aldeias do vale do rio Saulx. Na sua origem o mesmo que aqui se contou a respeito dos outros: acções de resistência contra as tropas ocupantes alemães que causaram baixas entre elas e que originaram uma reacção desproporcionada destas. Neste caso, elas vieram a custar a vida a 86 civis.  O episódio é conhecido só dos franceses e, mesmo desses, poucos. Há uns memoriais a assinalar o acontecimento nas aldeias em que ocorreram. Só que, como estamos sempre a aprender, há dois anos eu não sabia nada disso, quando estive(mos) lá por perto, percorrendo a via sacra (logística) que abastecia Verdun durante a Grande Guerra, partindo de Bar-le-Duc, onde nunca é demais recomendar um restaurante sobranceiro à cidade, onde se  tem  uma vista espectacular sobre a mesma e umas moscas com noções de etiqueta e boas maneiras. Podíamos lá ter ido (veja-se o mapa abaixo), mas tinha colocado o chip da outra Guerra Mundial e a ignorância tem o seu preço.

23 agosto 2019

A DEFECÇÃO DA ROMÉNIA

23 de Agosto de 1944. Numa típica manobra de camarilha de corte, o ditador romeno Ion Antonescu (1882-1946) é preso depois de ter sido convocado para uma audiência com o rei Miguel I (1921-2017). A intriga é uma repetição quase integral do que acontecera no Verão do ano anterior em Itália com Mussolini e o rei Vítor Manuel III. A grande diferença é o ritmo a que os acontecimentos se precipitaram depois da deposição de Antonescu, todas aquelas vénias e mesuras que perduraram por mais de um mês entre a Itália prestes a desertar e a sua aliada Alemanha, no caso da Roménia duraram... um dia. Do Verão de 1943 para o de 1944, a posição estratégica global da Alemanha degradara-se tanto que o menor dos problemas seria o de acautelar a provável reacção encrespada de Adolf Hitler.
Estas monarquias balcânicas e mediterrânicas haviam aceitado aquelas figuras ditatoriais enquanto elas haviam sido benéficas para o prestígio próprio e do país, mas agora constatavam que a aposta se viera a revelar a errada com a chegada dos reversos da guerra: como a Itália em 1943 o fora pelos Aliados, também a Roménia se via agora na contingência de ser invadida, pelos soviéticos. Como previsto, as irritações de Hitler, que mandou a Luftwaffe bombardear o palácio real em Bucareste, trouxeram a indignação popular e a consistência moral a uma manobra diplomática duvidosa. Na sua alocução radiofónica ao povo romeno, em que anunciava a assinatura de um armistício com os Aliados (na realidade, só os soviéticos é que tinham importância...), o rei Miguel I anunciava:

Romenos,
Na hora mais difícil de nossa história, considerei, em total concordância com o meu povo, que há apenas um caminho para salvar o país de uma catástrofe total: a nossa saída da aliança com as potências do Eixo e o fim imediato da guerra com as Nações Unidas.(...) O novo governo marca o início de uma nova era em que os direitos e liberdades de todos os cidadãos do país são garantidos e serão respeitados. (...)

Esta última parte, era aquilo que o rei Miguel até podia desejar, mas não podia prometer. Na verdade, o futuro virá a demonstrar que se tratava da troca de uma ditadura por outra. Durante os 45 anos que se seguirão, o dia 23 de Agosto vai ser o feriado nacional do regime comunista.
Na fotografia inicial o rei Miguel I é apresentado a generais soviéticos. Na seguinte, Miguel e Antonescu. A imagem de baixo é a notícia do acontecimento no Diário de Lisboa mas que foi publicada apenas do dia seguinte porque as atenções mediáticas estavam concentradas na libertação de Paris.

A GRANDE «CAMBALHOTA» DIPLOMÁTICA

23 de Agosto de 1939. A presença do ministro dos Estrangeiros von Ribbentrop em Moscovo tinha um significado evidente. Adolf Hitler conseguira - mais uma vez - adiantar-se àqueles que se queriam opor às suas ambições expansionistas. O preço a pagar por qualquer das partes naquilo que o Diário de Lisboa denomina por a aproximação germano-soviética, era ter de desdizer tudo aquilo que fora a propaganda política de comunistas e de nazis até então. Em Portugal não havia diários comunistas que mostrassem quão súbita era a cambalhota, mas o l'Humanité do comunistas franceses desse mesmo dia, era lesto em mostrá-la. Marx e, sobretudo, Lenine, que sempre tinham tentado dar uma aparência de racionalidade à análise e actuação política dos comunistas, eram nesse dia descartados dos valores pelos quais eles haviam dito bater-se, no altar do pragmatismo de Estaline. O marxismo-leninismo reverenciado tornava-se de uma penada numa designação oca, que até seria cómica não fosse a seriedade das circunstâncias em que a descoberta era feita, e o comunismo assumia-se - finalmente - como uma fé mais do que uma ideologia, onde as obras de Marx e de Lenine faziam o papel da bíblia para os católicos: uma catrefa de livros espessos e de encadernações bonitas que, mais do que não serem para ler, era preferível nem serem lidos.

21 agosto 2019

A ABERTURA DA CONFERÊNCIA DE DUMBARTON OAKS

21 de Agosto de 1944. Com os olhos de todos os que seguiam a guerra concentrados no que acontecia em Paris, na capital americana, Washington, abria a Conferência de Dumbarton Oaks, para se discutir a configuração da nova ordem Mundial que se seguiria ao fim do conflito em curso, nomeadamente a criação de uma nova organização sucessora da Liga das Nações (e que viria a ser a ONU). Depois de já aqui termos chamado a atenção para o encerramento (e a importância) da Conferência de Bretton Woods, na esfera económica e financeira, esta reunião é mais outro dos acontecimentos primordiais que, semi-escondidos dos holofotes da imprensa e normalmente desvalorizados por quem escreve a História da Segunda Guerra Mundial, permitiram aos Estados Unidos antecipadamente estruturar a sua hegemonia (neste caso, política e de âmbito internacional) antes que o conflito terminasse. Muito do que foi ali engendrado e negociado subsiste até hoje, embora adaptado aos 75 anos entretanto transcorridos.