Anteontem lembrei-me da orquestra de bordo do Titanic, que alegadamente se manteve no seu posto até ao desaparecimento do navio para animar os espíritos. Jogaram-se os quartos-de-final da Taça das Nações Africanas de futebol e a selecção do Mali cometeu a proeza de eliminar os anfitriões sul-africanos (acima). Porém, não tivesse havido a intervenção francesa e o país em nome do qual aquele seleccionado foi constituído poderia já ter desaparecido, incapaz de se auto-defender… Mas, pelos vistos, enquanto houver selecções de futebol finge-se que os países africanos não têm problemas de coesão interna.
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04 fevereiro 2013
19 janeiro 2013
MALICK SIDIBÉ
Provando que o Mali pode ser assunto de interesse sem a intervenção da França, eis um par de fotografias que celebrizaram Malick Sidibé (1935- ). Os seus primórdios são prosaicos: Malick Sidibé foi aprendiz do fotógrafo (branco) local (conhecido afectuosamente por Gégé la pellicule) e só veio a abrir o seu próprio estabelecimento em Bamako, a capital, em 1958, dois anos antes da independência do Mali. O Studio Malick prosperou comercialmente ao longo das décadas que se seguiram, com um portfolio invejável de fotografias de clientes de uma classe média jovem ocidentalizada, ostentando os seus sinais exteriores de riqueza (acima, note-se o pormenor do cigarro) ou recreando-se segundo os gostos importados pela globalização (abaixo, a dança parece um twist adaptado...), mas com imagens onde se capta uma certa ingenuidade que as torna únicas. Desde sempre castiça, foi só na década de 1990 que a obra de Malick Sidibé veio a receber o reconhecimento mundial de que hoje goza. Já aqui havia utilizado uma fotografia sua a propósito dos ministros com pasta e sem ela…
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18 janeiro 2013
AINDA O MALI, AINDA A MEDIOCRIDADE DO JORNALISMO
Há que reconhecer que, quando a intervenção externa é de origem francesa não se costumam desencadear noticiários enfeitados com bandeiras francesas a arder e com bandos encenando para as câmaras de televisão sovas virtuais de chinelo em imagens do governante francês em exercício. Contudo, há jornalistas perspicazes que, obcecadas pelas questões do espectro político, não concebem outras explicações possíveis para o fenómeno que não as estritamente políticas. Ora, se os franceses se incomodam com as intervenções militares norte-americanas no exterior e por isso tentam manobrar as opiniões públicas para condicionar a liberdade de actuação dos aliados, essa atitude não é recíproca porque os norte-americanos, com o seu poder, condicionam de facto a liberdade de actuação dos franceses quando das suas intervenções externas e não precisam de tentar manipular opiniões públicas para exercer essa tutela. Tradicionalmente, Washington costuma endossar as decisões de intervir decididas por Paris. Em declarações, não substantivamente…
Desde há muito que os Estados Unidos têm tolerado aquilo que se assemelha a uma espécie de direito de pernada medieval que a França guardou para si na África francófona – os franceses usam a expressão Françáfrica – mesmo depois de a ter descolonizado já há mais de 50 anos. Esta intervenção militar no Mali é apenas mais uma de uma extensa lista, que é quase tão comprida quanto a equivalente norte-americana no mesmo período de tempo. Entre nós, as duas assemelham-se na disponibilidade acrítica como a informação portuguesa as segue, publicando os recados dessa facção sem que eles sejam contraditos pelos da facção contrária. Por exemplo: são os mesmos órgãos de comunicação da superficialidade imbecil dos títulos corpo a corpo de ontem que voltam hoje à carga, endossando sem mais os lamentos de uma França que avançou para a intervenção sem se assegurar do apoio dos parceiros europeus e que agora se lamenta do seu isolamento: Escasso apoio militar europeu no Mali causa mal-estar em França (RTP) e A França está sozinha? (Público).
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17 janeiro 2013
A LUTA CORPO A CORPO E A INFORMAÇÃO SEM CÉREBRO
Bem nos podemos ter esforçado para fazer um relato o mais sucinto possível, enquadrando as causas para a situação que se vive no Mali mas é de nos sentirmos derrotados quando nos apercebemos que aquilo que despertou a verdadeira atenção de toda a imprensa nacional - e por arrastamento, da imagem projectada do público português - foi uma pequena passagem de um despacho da France-Press, em que uma fonte da segurança maliana explicava que se lutava corpo a corpo em Diabali. Ao Diário Económico, ao Público ou à RTP não interessou nada explicar a localização de Diabali - nem ao menos escrever o nome correcto da cidade, que é Diabaly… O que prevaleceu foi a imagem poderosa do corpo a corpo entre os combatentes, como se se tratasse de um daqueles combate de sumo (acima), logo remetido para os cabeçalhos!
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O SAHEL, AS FRONTEIRAS POLÍTICAS DE ÁFRICA E O MALI
Dividindo o continente do Atlântico ao Mar Vermelho ao longo de 5.400 km e com uma largura variável de algumas centenas de quilómetros, o Sahel constitui uma região de transição entre o deserto do Sahara e a região das savanas a Sul, que rasga completamente África. A Sul vivem tradicionalmente as populações sedentárias de pele normalmente mais escura; a Norte, as populações são tradicionalmente nómadas e têm a pele mais clara. A configuração das fronteiras políticas que foi desenhada pelas potências europeias na Conferência de Berlim (1885) reuniu-as em entidades políticas que posteriormente vieram a constituir países africanos independentes: de Oeste para Leste, a Mauritânia, o Mali, o Níger e o Chade, todos saídos da esfera da francofonia, mais o Sudão, de ascendência britânica (abaixo). Muito antes deles (desde o Século XV), o Islão tem convertido a população e a maioria, senão mesmo a esmagadora maioria dela em qualquer dos países mencionados é actualmente muçulmana.
O que pode conferir um carácter heterogéneo à população local é o contraste histórico entre os povos sedentários mais escuros do Sul e os nómadas mais claros do Norte – sobretudo a sobranceria que, em geral, estes últimos manifestam em relação aos primeiros. Os sedentários são maioritários na Mauritânia, no Mali e no Níger. No Chade a composição é equilibrada e no Sudão os povos do Norte estão em franca maioria. Terá sido por isso que tanto no Chade como no Sudão desde o Século XIX os meridionais abraçaram o cristianismo como religião identitária. A verdade é que nos últimos 50 anos de independência qualquer daqueles países – com a notável excepção do Níger – passou por graves momentos de confrontação interna: já duas guerras civis no Chade (1965-1979/2005-2010), chegam a existir umas Forças de Libertação Africanas da Mauritânia, do Mali falar-se-á mais adiante e no Sudão ainda não se percebeu se a tensão terá terminado com a independência do Sudão do Sul em Julho de 2011.
O aparecimento do Sudão do Sul criou um precedente que fora cuidadosamente interditado pelos próprios países africanos logo na fundação da OUA: a criação/revisão de fronteiras para além das herdadas do colonialismo (da Conferência de Berlim). Antevia-se que seria uma Caixa de Pandora de conflitos. E é: só foi preciso esperar nove meses após a independência do Sudão do Sul para que os rebeldes malianos proclamassem a do Azawad em Abril de 2012. E, se compararmos o traçado das fronteiras do putativo Azawad independente (acima) com a imagem compósita por satélite do Mali (abaixo), apercebemo-nos de como elas seguem um traçado tão natural quanto a que foi escolhida no Sudão. Este será uma descrição sucinta do enquadramento geral da situação política na região do Sahel que ajudará à compreensão do problema maliano, no qual a França acabou de se intrometer, após ter esperado debalde nove meses por uma intervenção dos países da CEDEAO, o organismo regional de integração económica e política.
A coerência política parece ter sido uma das primeiras vítimas da intervenção
francesa. No Mali a França opõe-se a uma intenção de secessão que parece simétrica
à que se verificou no Sudão do Sul, à qual a França não se opôs. Por outro
lado, aparentemente para colher simpatias junto dos seus aliados, a França
procura aproveitar-se do extremismo religioso dos rebeldes para os associar mediaticamente à Al-Qaeda. Assim como o cristianismo no Sul do Sudão, poder-se-ia argumentar
que este extremismo religioso está a ser usado como elemento de unidade
das populações separatistas do Norte, já que aproximadamente 90% da população
maliana é muçulmana. Noutra perspectiva, poder-se-ia argumentar que à França
não incomodou apoiar outros extremistas religiosos – esses porventura já não seriam jihadistas... – quando, por exemplo, do derrube do regime líbio. Contradições à parte,
a França aparece aqui apostada na preservação de um status quo que, teoricamente,
deveria interessar mais aos países da própria região…
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07 abril 2012
ONDE É QUE FICA O MALI?
No passado dia 22 de Março, unidades militares malianas comandadas por oficiais de baixa patente (a face mais visível do movimento é um capitão) tomaram o poder em Bamaco, capital do Mali. Longe vão os anos em que episódios destes nos jovens países africanos eram uma rotina tolerada. Primeiro, porque os jovens países africanos deixaram de ser jovens – o Mali já é independente há mais de 50 anos. E depois, porque os modismos da ordem internacional atravessam tempos acentuadamente anti-militares e, quando de um golpe de estado contra um governo saído de eleições, está convencionado que os militares nunca têm razão para o derrubar, e que, mesmo em caso de dúvidas, se aplica esse dogma de fé.O novo regime militar maliano, que se baptizou com o nome de Comité Nacional para a Recuperação da Democracia e Restauração do Estado (CNRDRE), veio a ser acolhido com uma hostilidade manifesta por todos os agentes internacionais. Da França, antiga potência colonial, e pela voz do ministro dos negócios estrangeiros Alain Juppé, veio a condenação do golpe e a defesa do respeito das regras democráticas e constitucionais. O secretário-geral da ONU, Ban-Ki Moon, manifestou o apoio da organização que dirige à ordem constitucional no Mali. O problema é que a tal ordem constitucional se mostrava bastante desordenada e terá sido contra essa desordem que os golpistas agiram.
Não teria sido preciso um acompanhamento muito detalhado da situação política interna maliana – e por isso as declarações de Juppé e Ban-Ki Moon são indesculpáveis pela sua hipocrisia – para se saber como o regime deposto do presidente Amadou Touré se estava a mostrar impotente para enfrentar as revoltas secessionistas que, desde Janeiro deste ano, se desencadearam no Norte do país. Essa foi a causa invocada pelos militares do CNRDRE para o golpe e, nessa perspectiva, compreende-se melhor que eles tenham atropelado a ordem constitucional do Mali à procura de novas soluções que preservassem a integridade territorial do Mali, conforme os acontecimentos posteriores vieram demonstrar.
Nem de propósito, o movimento secessionista nortenho com o nome de Movimento Nacional de Libertação Azawad (MNLA) proclamou a 6 de Abril a independência do Norte do Mali baptizado com o nome de Azawad (acima¹). Embora, na guerra da informação, haja uns cromos que querem passar a ideia que as causas para isto só têm 15 dias e começaram apenas depois do golpe de estado², parece perceber-se agora que a situação interna no Mali seria muito mais grave do que pareceria e que não terá adiantado muito à comunidade internacional andar a descarregar as culpas nos militares golpistas porque, ao enfraquecerem-se as forças do governo central, apenas se incentivaram as do separatismo.Numa pirueta cuidadosamente encenada para não parecer pirueta, os representantes dos países da vizinhança (CEDEAO) assinaram rapidamente com os militares um acordo-quadro para a criação de um governo que terá a missão de conduzir a transição, gerir a crise no Norte do país e organizar eleições livres, transparentes e democráticas. Ou seja e decifrando (que isto de organizar eleições livres, transparentes e democráticas em países que estão divididos em dois poderes políticos antagónicos assemelha-se à quadratura do círculo): os regimes militares podem tornar-se afinal menos maus quando exista a ameaça que o próprio país se cinda internamente pelas suas fracturas étnicas…
¹ Apesar das aparências geográficas, em Azawad, por ser desértica, vive apenas 10 a 15% de toda a população maliana.
² Há também quem mostre não perceber patavina do assunto, confundindo tudo e todos.
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