Praga, 16 de Abril de 1949. Como dá conta a notícia do New York Times, Antonin Zapotocky pela Checoslováquia (à esquerda) e Istvan Dobi pela Hungria (à direita) assinavam naquela cidade um daqueles tradicionais tratados de amizade e cooperação que os países comunistas costumavam assinar entre si durante o período da Guerra Fria. Como o jornal americano fazia questão de frisar, este era o vigésimo primeiro e último tratado de uma rede de tratados do mesmo género que interligavam entre si a União Soviética e os seis países - o jornal empregava a expressão "democracias populares" entre aspas - do Leste da Europa. De fora, ficara apenas a Albânia e a Finlândia, concluía-se no jornal. Na Primavera de 1949 e ao mesmo tempo da constituição da NATO, aquele que costuma ser denominado por Bloco Leste - a esfera de influência russa até ao centro da Europa - estava tão formalmente definido quanto o seu rival ocidental. O exercício argumentativo a que os comunistas muito tempo se dedicaram a invocar depois disso, que o Pacto de Varsóvia só havia surgido seis anos depois da NATO, é apenas isso: um exercício argumentativo. Como se percebe aqui, os blocos já estavam claramente formados em 1949: a constituição do Pacto de Varsóvia em Maio de 1955 é apenas a criação de uma organização militar simétrica à NATO.
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16 abril 2024
28 março 2024
É SÓ UMA QUESTÃO DE (EXPLORAR A) OPORTUNIDADE...
O que é notícia nesta notícia não é o conteúdo da dita, mas a ressonância que lhe é dada por um canal (Euronews) enfeudado à comissão europeia e a Bruxelas. Estes denominados escândalos de corrupção ocorrem com costumeira regularidade por todos os países membros da União. (Vale a pena referir entre parêntesis que aquela organização misteriosa e pouco transparente, ela própria, denominada Transparência Internacional, publicou no princípio deste ano um relatório a que deu o nome de Índice das Percepções de Corrupção 2023, abrangendo os países da União Europeia. A Hungria ficou em último lugar, mas a pouca distância da Bulgária, Roménia e Grécia. Nós não demos pelo relatório porque nele Portugal aparece a meio da tabela. Se estivéssemos no fim, tínhamos dado por isso com certeza e o Paulo Morais tinha-se fartado de aparecer na televisão...) Mas, regressando ao último escândalo de corrupção na Hungria, este merece o destaque que acima se pode apreciar especialmente por ter ocorrido na Hungria, um país europeu que é dirigido pelo pária de extrema-direita Viktor Orbán. E como Orbán é detestado por Bruxelas, tudo aquilo que o embarace politicamente é bom para propagandear. Parafraseando: para quem dirige a União «Pimenta no cu do Orbán é refresco». E, já agora e falando agora do nosso caso, se lhes dermos oportunidade à malta do Ventura que acabou de chegar, também havemos de os encontrar com as mãos sujas, não se armem eles por agora em ingénuos a falar da corrupção apenas dos outros...
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07 março 2024
É COM EXEMPLOS CONCRETOS COMO ESTE QUE SE PERCEBE A «CONFIANÇA» QUE PODEMOS DEPOSITAR NOS CONTEÚDOS DO GOOGLE NOTÍCIAS PARA ESTARMOS INFORMADOS
No princípio desta tarde, a imprensa britânica começou a dar conta da intenção do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán jogar por fora em relação aos seus parceiros da União Europeia, prestando-se a ir fazer uma visita ao candidato Donald Trump. É interessante, sem ser surpreendente: não se costuma comentar tais encontros com plebeismos, mas apetece antecipar que será um encontro de chibos cheios de chibança. A esse respeito, só espero que os húngaros não esperem que gostemos deles por eles gostarem daquela personagem... que eles elegem. Mas não é nada disso que interessa agora. O que eu quero é mostrar aquilo que obtive como resultado da pesquisa que efectuei quatro horas depois da notícia acima, ao consultar o nome de Viktor Orbán no Google Notícias em português. É isto que se pode apreciar abaixo: uma notícia de uma referência que Rui Tavares fez ao húngaro vai para quatro dias; uma outra, de hoje, mas de um outro Orbán (que não faço a mínima ideia quem seja...) que levou um empurrão num jogo de futebol. E é (era) isto... O Google Notícias parece não encontrar mais nada com o nome Orbán escrito pela imprensa em português. E depois deparamo-nos nos jornais portugueses com colunistas às mãos-cheias, lamentando-se que «a política externa (...) não aparece na campanha eleitoral» ou que «os nossos políticos (...) não sabem o que é a política externa». Este é um exemplo muito concreto que, quanto a política externa, os jornais que publicam tais lamentos são tão negligentes quanto os políticos que os seus colunistas criticam.
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27 dezembro 2023
A PRISÃO DO ARCEBISPO PRIMAZ DA HUNGRIA
27 de Dezembro de 1948. O cardeal Mindszenty, a mais proeminente figura da hierarquia católica da Hungria é preso e acusado de traição, conspiração e incumprimento das leis do regime. Foi submetido a interrogatórios e a tortura: é-lhe injectada uma mistura de drogas, para que ele fosse apresentado num julgamento público ao estilo estalinista, com o objectivo de o exibir alquebrado perante a comunidade católica húngara. No processo, foi forçado, por vezes, a ficar de pé por mais de 82 horas e interrogado sem interrupção, dias e noites a fio. Quando praticado em Portugal e pela PIDE por esta mesma altura, os militantes do PCP designam condenatoriamente esta prática por estátua. Mas não lhes perguntem o que eles acham do mesmo processo quando praticado na Hungria pela ÁVH: aí não sabem, não estão bem informados, etc. - a hipocrisia do costume.
Com esta prisão acaba a fase de transição, depois de 1945, em que a igreja Católica andou de luvas postas, tacteando diplomaticamente a melhor forma de se relacionar com as autoridades comunistas dos países da esfera soviética da Europa oriental. Nomeadamente porque essas autoridades comunistas ainda se estavam a instalar. Mas este caso do cardeal Mindszenty foi tratado de forma ostensiva pelas autoridades de Budapeste para que Roma pudesse contemporizar (abaixo, a reacção do papa Pio XII), muito embora, nessa reacção, a influência da igreja Católica no Leste fosse muito desigual de país para país. Mas, nos países em que essa influência social era forte, como era o caso da Polónia, a instituição católica tirou as luvas, e, daí para a frente, até à queda do Muro, tornou-se uma das forças da oposição possível ao(s) regime(s) comunista(s).
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25 novembro 2023
"THE MATCH OF THE CENTURY" (poucos meses tinham estes "séculos"...)
Há precisamente 70 anos a Hungria derrotava a Inglaterra por uns claros 6-3 no estádio de Wembley, diante de 105 mil espectadores. Qualificado de "Match of the Century" pela imprensa local, atribuía-se grande expectativa ao jogo antes de se realizar, porque a Hungria era então considerada a melhor selecção de futebol do continente europeu, e grande significado depois dele, porque a Inglaterra fora derrotada pela primeira vez em casa por uma equipa continental. O tempo encarregou-se sozinho de comprovar que a qualificação da imprensa londrina era um disparate: como em tantas vezes que eles se empregaram, estes séculos (century) dos cabeçalhos duravam meses e poucos. Mais irritante ainda para quem não fosse inglês, estava a pretensão - falsa - de que a selecção inglesa de futebol era uma referência a abater. Ora os ingleses estavam cheios de manias, mas no relvado jogavam muito pouco: tinham ido ao Mundial de 1950 no Brasil e sido eliminados logo na fase inicial. Mas terem apanhado 6-3 ainda não lhes tirou as peneiras: pediram desforra, que se disputou dali por seis meses em Budapeste, quando apanharam 7-1. E no campeonato do Mundo de 1954, que se disputou no mês seguinte (Maio) na Suíça, a Inglaterra acabou eliminada nos quartos de final pelo Uruguai. Por seu lado, a Hungria foi derrotada na final pela Alemanha.
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17 fevereiro 2023
A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»
A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.
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20 novembro 2021
A CHEGADA À MADEIRA DO EX-IMPERADOR CARLOS DE HABSBURGO
20 de Novembro de 1921. Chegada ao Funchal de Carlos e Zita, que haviam sido os últimos imperadores do Império Austro-Húngaro de 1916 a 1918. Depois do fim da Grande Guerra em Novembro de 1918 e da dissolução do Império, o antigo monarca ainda realizara duas tentativas (em Março e Outubro de 1921) de se reentronizar como Carlos IV, rei da Hungria (este país permanecera uma monarquia, embora desprovida de monarca). Considerado incorrigível e perigoso para o status quo que se formara na Europa Central em consequência dos vários acordos firmados depois do fim da Grande Guerra, as potências - reencenando vagamente aquilo que acontecera mais de cem anos antes com Napoleão - decidiram também exilar este antigo imperador. Só que foram mais benignos desta vez e, em vez de uma longínqua ilha de Santa Helena no Atlântico Sul, contentaram-se em destiná-los, Carlos e a esposa Zita que o acompanhava, à nossa aprazível ilha da Madeira no Atlântico Norte. Faço notar que, apesar do protagonismo assumido, ainda que involuntariamente, por Portugal na questão do exílio do imperador, a cobertura noticiosa dos jornais nacionais é escassa. Tudo o que se pode ler nas edições de uma semana do Diário de Lisboa é a pequena nota que acima se insere, oriunda de Gibraltar, por onde passara o navio que transportava os monarcas. Refira-se aliás, coisa que a notícia não faz, que o navio que os transporta, o HMS Cardiff é um austero cruzador da Royal Navy. Aliás, é a sua imagem que abre o filme que abaixo insiro, cobrindo a chegada e algumas cerimónias protocolares com a chegada dos monarcas à Madeira, há precisamente cem anos. Percebe-se que, apesar de não noticiado cá pelo continente, aquilo foi um acontecimento memorável no Funchal. Carlos haveria de morrer com uma pneumonia no seu exílio madeirense apenas quatro meses depois, aos 34 anos.
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15 outubro 2021
A DETENÇÃO DO HOMEM QUE FAZIA DESCARRILAR OS COMBOIOS
15 de Outubro de 1931. Embora a data permaneça controversa (7, 10 ou 15 de Outubro) esta é uma das datas possíveis em que se realizou finalmente a prisão de Szilveszter Matuska. Matuska era um húngaro (embora nascido em território que hoje faz parte da Sérvia), que se celebrizou por, num determinado período de apenas dois meses (Agosto-Setembro) de 1931, ter sido o autor de dois descarrilamentos de importantes comboios que ligavam capitais da Europa central (Basileia-Berlim e Budapeste-Viena). As repercussões dos actos tornaram-se mais importantes que as consequências dos próprios e um prémio de 100 mil marcos foi atribuído à captura do homem que fazia descarrilar os comboios. A investigação revelou-se até rápida. Matuska foi capturado em Viena de Áustria (onde vivia), confessou os atentados, e aí foi condenado a seis anos de prisão, dos quais cumpriu quatro, tendo sido depois transferido para a Hungria, onde ocorrera o atentado mais grave (22 mortos), país que o condenou por sua vez a prisão perpétua. No entanto, em Dezembro de 1944, a prisão onde Matuska estava preso libertou todos os seus prisioneiros diante do avanço do Exército Vermelho. Matuska desapareceu a partir daí, dando uma nova vida à lenda da sua pessoa, para a qual nunca se arranjou uma explicação razoável para ter feito o que fez. Tão forte era esse mito que cerca de 40 anos depois, ainda se fazia uma BD contando a sua história (abaixo) e, mais de 50 anos depois (1983), um filme.
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01 agosto 2019
«PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS.»
1 de Agosto de 1919. Diante da invasão romena, o governo soviético húngaro colapsa. Foi uma das cópias do regime russo que alcançara o poder nos países derrotados logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial e que também não durou muito. Hoje ninguém se lembra dele, assim como não sabe, por exemplo, do governo soviético da Baviera. A maioria dos membros desse governo (acima), a começar pelo seu líder (informal), Béla Kun (1886-1938, o que aparece assinalado), exila-se. A experiência comunista durara precisamente 133 dias, sempre em condições periclitantes, mas atribui-se ao mesmo Béla Kun, uma pessoa pujante, com os seus cento e vinte quilos, e inegáveis dotes oratórios, a descrição mais cega e despropositada a respeito da solidez do regime: «A minha influência pessoal no governo revolucionário é tal que a ditadura do proletariado está firmemente estabelecida, já que as massas me apoiam». Basófias que a História comprovou. Muitas declarações, interessantes umas, ridículas outras, foram proferidas e escritas pelos dirigentes comunistas nesta época em que eles se concebiam a si próprios como estando ungidos pela predestinação da História. Há é que atribui-las correctamente: a frase do título, por exemplo, não foi escrita por Lenine, já tinha mais de 70 anos em 1919...
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12 março 2019
AS VOLTAS QUE A EUROPA LEVOU EM VINTE ANOS
12 de Março de 1999. No Museu Harry S. Truman, no Missouri, tem lugar a cerimónia da adesão da Hungria, Polónia e República Checa à NATO. Na imagem acima, vemos a anfitriã, a então secretária de Estado Madeleine Albright (por sinal, nascida em Praga), a discursar perante os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três países recém-admitidos, num momento que parecia de consagração para a ampliação da esfera de influência dos Estados Unidos na Europa. Vinte anos depois, aqueles mesmos três países estão considerados entre os mais mal comportados da Europa (veja-se o vídeo abaixo), sendo votados a um semi-ostracismo por causa do autoritarismo dos seus regimes e a mesma Madeleine Albright que lhes terá servido de madrinha escreve, não apenas a seu respeito, mas também por causa do que está a acontecer na Europa de Leste, um livro intitulado «Fascismo - Um Alerta». São só precisos vinte anos para que na Europa se tenha dado uma grande volta...
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03 novembro 2018
O ARMISTÍCIO DE VILLA GIUSTI
3 de Novembro de 1918. Se a Itália foi a última das grandes potências europeias a entrar na Grande Guerra, também se vai destacar por ser a primeira delas a sair dela. Há precisamente cem anos, numa Vila dos arredores de Pádua, os italianos, devidamente acompanhados dos seus aliados, assinaram um armistício contra o adversário que verdadeiramente lhes interessava, o Império Austro-Húngaro, a passar então por um processo acelerado de desagregação nas suas entidades nacionais constitutivas. O armistício foi assinado um pouco depois das três da tarde embora o quadro abaixo, evocativo da cerimónia, mostra o acto a ter lugar ao redor de uma mesa muito maior do que a verdadeira e sob a artificialidade da luz eléctrica, sugestivo de complicadas e prolongadas negociações que, na verdade, não ocorreram - bastou aos italianos a ameaça de romperem as negociações para que a aristocracia austro-húngara se precipitasse a assinar, na esperança de ainda salvar o que pudessem do seu império.
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28 outubro 2018
NEM SÓ COM CRAVOS SE FAZEM REVOLUÇÕES, HOUVE QUEM AS FIZESSE COM CRISÂNTEMOS
28 de Outubro de 1918. Se o 25 de Abril de 1974 de Lisboa ficou recordado pelos seus cravos, vale a pena evocar como, há cem anos e nas ruas de Budapeste, se iniciou um outro pronunciamento militar que também se iria caracterizar pelas flores ostentadas pelos soldados que nele participaram. Só que, como se estava no Outono, as flores escolhidas foram os crisântemos. O pronunciamento militar ocorre no quadro de uma cada vez mais previsível derrota das Potências Centrais na Primeira Guerra Mundial. E nas várias capitais e entre as nacionalidades do Império Austro-Húngaro começa o posicionamento político antecipando a desagregação daquela entidade prevista pelos quatorze pontos do presidente Wilson (nesse mesmo dia, em Praga, os checos proclamam a independência de um novo país chamado Checoslováquia).
Os húngaros haviam sido uma das nacionalidades privilegiadas sob o Império mas agora procuravam dissociar-se dele aquando da derrota. Organizações com designações bastante abrangentes, mas com escassa representatividade popular (em Budapeste era o Conselho Nacional Húngaro, em Praga chamava-se Conselho Nacional Checoslovaco), emitiam proclamações assumindo as rédeas de uma situação política fluída. Mas, mais importante para a imposição dessas vontades ditas revolucionárias era a sensação de saturação que grassava nas fileiras depois de quatro anos de guerra. Em Budapeste e em Praga em 1918, em Lisboa em 1974 ou em Petrogrado em 1917, não havia praticamente ninguém que defendesse o status quo e é por isso que, em alguns desses sítios, os revoltosos puderam embelezar-se, tal como as suas armas, com flores.
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12 maio 2018
A CONFERÊNCIA DE SPA
12 de Maio de 1918. Spa é uma aprazível vila termal do Leste da Bélgica onde, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães instalaram o seu quartel-general para as operações na Frente Ocidental. Foi aí que teve lugar há precisamente cem anos a conferência que reuniu os dois imperadores dos impérios centrais - acima, numa fotografia desse dia, Guilherme II, com o identificativo pickelhaube prussiano à esquerda e Carlos I, também facilmente identificável pelo característico feldkappe austro-húngaro. Infelizmente para o segundo, o equilíbrio aparente que era granjeado pela exuberância dos ornamentos das cabeças (coroadas), não tinha qualquer correspondência com as realidades políticas e militares. Depois de quase quatro anos de conflito, o império austro-húngaro do imperador Carlos estava nas vascas da agonia e a prioridade passara a ser a de preservar a coesão do império por sobre a vitória. Em contraste, o império alemão de Guilherme II, que inicialmente quase dera um boi para não entrar na briga, agora via-se na situação do mineiro que dava uma manada para não sair dela. Com perspectivas divergentes, imperava a desconfiança entre os dois aliados, a que se somou aquela etiqueta tipicamente germânica - nunca nos esqueçamos dos exemplos bem recentes de Wolfgang Schäuble! - de nem sequer dissimular a animosidade durante a conferência. Considerada a desproporção do poder e, sobretudo, do ânimo para prosseguir com a Guerra, os alemães impuseram todos os seus pontos de vista políticos e militares, reduzindo a Áustria-Hungria à condição de um satélite contrariado até ao fim da Guerra. Outras três conferências, já sem imperadores, realizar-se-ão posterirmente no mesmo local em Julho, Agosto e Setembro de 1918, mas a cenografia do que se seguiria fora estabelecida por esta primeira: os alemães diziam como é que se havia de fazer, os austro-húngaros sabotavam as decisões alemãs com que não concordavam como podiam.
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28 abril 2018
A MORTE DO «CAUSADOR» DE TANTAS MORTES
28 de Abril de 1918. Foi também há cem anos que, neste dia, morreu Gravilo Princip, o sérvio da Bósnia que se celebrizara por ter assassinado o arquiduque Francisco Fernando e a esposa a 28 de Junho de 1914 em Saravejo, acontecimento que estivera, pelo menos formalmente, na origem da Grande Guerra que então ainda se travava. Contrariamente ao que se esperaria, Princip não fora executado, tinha apenas 19 anos e uma idade inferior a uma tal pena, de acordo com o que dispunha o código imperial, e acabara sendo condenado à pena de prisão máxima aceitável nessas circunstâncias: 20 anos. Cumpria a sua pena em Theresienstadt (mais tarde famosa por albergar um campo de concentração), mas nos três anos e dez meses decorridos desde o assassinato, as condições deliberadamente adversas da detenção, terão feito com que ele contraísse tuberculose óssea. Quando morreu, o recluso Gravilo Princip, apesar dos seus 23 anos, pesava apenas uns 40 kg e já sofrera a amputação do braço direito. Morrera aos poucos. Mas não deixa de ser surpreendente saber que ele sobrevivera a tantos milhões que já haviam perecido naquela guerra que ele contribuíra, como mais ninguém, para desencadear.
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09 abril 2018
O PRINCÍPIO DA SOBERANIA POPULAR ou O POVO SÓ DEVE SER SOBERANO QUANDO VOTA COMO «NÓS GOSTAMOS»?
Como eu aqui antecipei, se há poucos a pronunciarem-se sobre os terríveis danos causados ao organismo humano pelo estrôncio-90, quase todos se julgam com direito de mandar palpites sobre a política húngara, nem que seja para manifestar a sua antipatia por Viktor Orbán e pelos caminhos que a Hungria tem singrado. Associo-me àqueles, poucos, que cingem as suas opiniões a um desagrado resignado pelos resultados das eleições de ontem - onde se registou uma terceira vitória (vitória no sentido verdadeiro...) do Fidesz que recolheu mais de 48% dos votos. Ou seja, se nós não gostamos do Fidesz e de Orbán, há uma maioria de húngaros que gosta, já que, depois de os elegerem em 2010, os têm reconduzido depois disso em 2014 e agora em 2018. A não ser que se coloque a dúvida se essas eleições que se têm desenrolado na Hungria não tenham sido razoavelmente livres. É verdade que a Hungria teve a sua conta de farçoladas à laia de eleições, aqueles anos felizes em que János Kádár e os seus comunistas eram reconduzidos com 99% dos votos. Contudo, tenho a confiança que, houvesse ali qualquer vaga suspeita sobre a recuperação dessa mesma prática de viciação, e a União Europeia - onde não se gosta, visivelmente, de Orbán - interviria, sancionando e ostracizando o país. O que não tem acontecido. Não o fazendo, só me resta aceitar que a popularidade de Viktor Orbán é legitima, assim como a é a de Isaltino Morais, o presidente aqui do concelho de Oeiras, apesar da estadia deste último na famosa pousada da Carregueira. Vale a pena recordar que - por ordem alfabética e histórica - o comunismo, o fascismo e o nazismo nunca se conseguiram posteriormente legitimar através de eleições livres. Também, se calhar nem o tentaram com um mínimo de seriedade: havia eventos em que os regimes eram aprovados por 99% dos eleitores, resultados tão unânimes quanto inverosímeis e ridículos. O que está a acontecer nos países da Europa de Leste, a Hungria, mas também na Áustria, na Polónia ou ainda na República Checa, por muito que haja quem queira forçar a analogia com os fascismos de entre guerras (curiosamente, há muito menos alusões aos comunismos do pós guerra), são populismos que exibem uma legitimidade popular completamente diferente, em que os seus mandatos renovados regularmente (de quatro em quatro anos na Hungria), conformes as regras da Democracia parlamentar. O que se tem observado para aí, na análise das eleições húngaras é rancor por mau perder, mas isso é atitude que, para conferir seriedade à política, seria melhor guardar para o futebol e para as avaliações das arbitragens do dia seguinte. Vale a pena recordar o que Lincoln disse no discurso de Gettysburg: que a Democracia era o governo do povo, pelo povo e para o povo. E se o povo - neste caso o húngaro - prefere Órban, deve-se tentar perceber porquê, não criticar indiscriminada e não muito inteligentemente eleitores e/ou eleitos, só porque o resultado nos desagrada.
05 abril 2018
O QUE É QUE O ESTRÔNCIO-90 TEM A VER COM AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES HÚNGARAS?
O estrôncio-90 é um dos isótopos radioactivos desse elemento químico. Tem uma meia vida de 29 anos, estabilizando-se quando se torna em zircónio-90 (o mais comum). Existente em quantidades ínfimas até à era nuclear (1945), a sua presença no ambiente multiplicou-se exponencialmente depois disso, pois é um dos subprodutos da fissão nuclear, que ocorreu tanto quando das detonações do armamento nuclear à superfície, quanto ainda hoje acontece com as centrais de energia nuclear. Em geral, o estrôncio (e este isótopo não foge à regra) tende a mimetizar o comportamento do cálcio (que lhe fica imediatamente acima na tabela periódica) e pode ser por isso absorvido pelo nosso organismo como seu substituto, depositando-se nos ossos ou na medula óssea. Um dos locais onde ele pode mais facilmente ser detectado é na dentição. É por isso um dos elementos mais perigosos quando libertado incontroladamente, tal qual aconteceu com os acidentes nucleares em Chernobyl (1986) e Fukushima (2011). Finalmente, e apenas a título de curiosidade, acrescente-se que a medição da concentração de isótopos com estas características, que apareceram em profusão distinta depois do início da era nuclear há mais de 70 anos, têm servido de instrumento de despistagem quando da validação de antigas obras de pintura: detectar concentrações modernas de estrôncio-90 em pigmentações das tintas empregues num quadro que estivesse a ser atribuído a algum reputado pintor dos séculos anteriores, tornam-se demonstrações inequívocas de que a obra havia sido forjada no século XX.
Este é apenas uma pequena referência ao estrôncio-90. Nas redes sociais não se costuma vê-lo muito referido, nem as opiniões que aparecem são muito assertivas. E não as imagino, às redes sociais, ao rubro (como tantas vezes estão), envolvidas numa discussão sobre a perigosidade comparativa do estrôncio-90 (meia vida de 29 anos) versus a do césio-137 (meia-vida de 30 anos). Ainda bem. Há algum segredo misterioso - ou não tanto - que preserva estes assuntos de serem maltratados por quem nem sabe que não percebe nada deles (por outras palavras, estão protegidos do efeito Dunning-Kruger). Provera que outros assuntos, como as eleições húngaras deste próximo fim de semana, estivessem protegidos assim. Mas desconfio que não estarão.
31 março 2018
A OFENSIVA DIPLOMÁTICA DO III REICH NA PRIMAVERA DE 1943
31 de Março de 1943. Adolf Hitler recebe o rei Bóris III da Bulgária (acima). Essa vai ser a primeira visita de um dos seus aliados europeus, na ofensiva diplomática que o III Reich irá desencadear na Primavera de há 75 anos, exibindo um bloco coeso de parceiros. Os ventos da Guerra mostravam-se agora potencialmente adversos para as armas alemãs e, para além de Bóris, ao longo do mês que se seguirá, Hitler ir-se-á encontrar com o duce Benito Mussolini de Itália (7 de Abril), com o conducator Ion Antonescu da Roménia (14 de Abril), com o regente Miklós Horthy da Hungria (16 de Abril), com monsenhor Jozef Tiso da Eslováquia (23 de Abril), com o poglavnik Ante Pavelić da Croácia (27 de Abril) e, finalmente, com o chefe do governo do Estado francês, Pierre Laval (29 de Abril). Os resultados podiam parecer ressonantes, se se acreditasse naquilo que as máquinas de propaganda então produziam (abaixo), mas a intuição geral da esmagadora maioria dos observadores apontava para que as vantagens iam agora todas para o lado dos Aliados.
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30 dezembro 2016
A COROAÇÃO DE CARLOS IV da HUNGRIA
Há precisamente 100 anos, 30 de Dezembro de 1916, tinha lugar em Budapeste a cerimónia da coroação de Carlos IV de Habsburgo (1887-1922) como rei da Hungria. Foi a primeira e única vez que tal cerimónia foi filmada (a cerimónia anterior tivera lugar 49 anos antes). A coroa da Hungria é uma das mais facilmente reconhecíveis coroas europeias por causa da cruz torta que a encima. Talvez por causa desse seu carisma estético, a sua imagem encima actualmente o próprio brasão de armas da Hungria. Quanto à coroa propriamente dita ela é de dimensões maiores do que um chapéu normal, o que obriga o rei, na cerimónia que se vê abaixo, a afivelá-la à cabeça, como se se tratasse de um capacete de guerra. Aprecie-se também a cenografia e os figurantes. É uma cerimónia que parece concebida para ter muita gente a assistir, mas destinada a uma certa elite, a monarquia húngara de há cem anos não parece propriamente destinada às massas - em termos lisboetas modernos, o cerimonial parece concebido à dimensão (talvez) de um Meo Arena e não de um Estádio da Luz. Por detrás de tanta magnificência (de fazer ter pena que as imagens não sejam coloridas), dificilmente se percebe que a Primeira Guerra Mundial já decorre há quase dois anos e meio (29 meses), esgotando os recursos de uma Hungria que, como uma das potências centrais, estava militarmente cercada. O fim - da guerra e da monarquia húngara - estava a menos de dois anos de distância.
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21 abril 2016
BILHETE POSTAL PRÉ IMPRESSO: O «SKYPE» DE HÁ CEM ANOS
Se há cinquenta anos a forma consagrada para os soldados destacados se corresponderem para casa eram os aerogramas, cinquenta anos antes disso, durante a Primeira Guerra Mundial, o instrumento mais comummente posto à disposição dos soldados eram estes bilhetes postais com as novidades pré impressas que a alfabetização era mais gabada que efectiva. Este bilhete-postal, distribuído às tropas do Império Austro-Húngaro nesses anos, contém a curiosidade adicional de estar escrito em várias línguas, dado o carácter multinacional daquele império. Nove idiomas, para ser exacto, e a ordem como elas estão dispostas no bilhete corresponderá, não por acaso, à hierarquia da sua importância no xadrez político e não ao seu peso demográfico: alemão, húngaro, checo, polaco, ucraniano, italiano, esloveno, croata e romeno. Mesmo sem se ser um poliglota compreende-se que o conteúdo da mensagem em qualquer dos idiomas é monotonamente apaziguador: estou bem e de boa saúde. Com uma pitada de humor poder-se-ia acrescentar: E se me acontecer qualquer coisa vão receber outro postal pré-impresso, mas com uns dizeres diferentes...
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03 outubro 2015
OS ÚLTIMOS CEM DIAS – E A QUEDA DO REGIME DE HORTHY
Os Últimos Cem Dias de John Toland foi outra releitura recente. Publicado originalmente em 1966, o livro apareceu no mesmo ano e acabou por ficar na sombra – por causa da semelhança do tema – de A Última Batalha escrito por um Cornelius Ryan que se popularizara imenso depois da autoria de O Dia Mais Longo. Enquanto, fazendo jus ao título, o livro de Ryan se preocupa mais com a conquista de Berlim, este fornecerá uma melhor imagem do que foi a desagregação do III Reich – e também o que se passou nalguns dos restantes países do Eixo. Descreve minuciosamente os passos que acabaram com o fuzilamento de Mussolini. Mas é sobre a Hungria e o desmoronamento do regime do almirante Horthy que não resisto a condensar os parágrafos que o descrevem (pp. 149-150):
No dia 15 de Outubro de 1944, Miki Horthy (o filho do almirante, passou a viver exilado em Portugal depois do fim da guerra, morreu em 1993) foi capturado pelos homens de Skorzeny e da Gestapo, embrulhado numa carpete e transportado secretamente para o aeroporto. Quando o almirante foi informado de que o seu filho acabava de ser transportado para a Alemanha, denunciou os nazis e ordenou ao Conselho da Coroa que desse instruções aos negociadores de Moscovo para se renderem aos russos em quaisquer condições.
Nessa tarde (...) uma gravação de voz do almirante repetia pela rádio a informação de que a Hungria havia concluído uma paz separada com os russos. (...) nada disto havia sucedido (...) os russos estavam aborrecidos (...) mandaram uma mensagem a Horthy dizendo-lhe que não haveria armistício a menos que ele aceitasse as condições impostas. O almirante e os ministros discutiram pela noite fora sem chegarem a acordo e, por fim, Horthy foi-se deitar, muito desgostoso. Finalmente os ministros concordaram entre si que se deviam demitir e procurar asilo na Alemanha e enviaram um mensageiro informar Horthy da decisão. Qualquer pessoa que conhecesse a Hungria teria previsto o resultado: Horthy enfureceu-se, recusou a abdicação implícita no gesto dos ministros e voltou para a cama. O que se seguiu pode considerar-se também tipicamente húngaro: para não ser portador de más notícias, o mensageiro disse aos ministros que Horthy aceitara o plano deles “na totalidade”.
Consequentemente, o ministro presidente enviou uma nota ao embaixador alemão informando-o que o Conselho da Coroa se demitia e que Horthy abdicava do seu estatuto de regente. No dia seguinte muito cedinho (antes das 6H00 da manhã), e depois de uma troca frenética de telegramas durante toda a noite entre Budapeste e Berlim, Horthy foi acordado pelo embaixador alemão irrompendo pela Cidadela para descobrir estremunhado que abdicara. Para rematar à confusão, alguém se esquecera de avisar um comando alemão, dirigido pelo mesmo Skorzeny acima, que se preparava àquela mesma hora para atacar a mesma Cidadela e obter pela força das armas aquilo que fora já obtido de forma equivocamente pacífica. Uma meia hora depois, e à custa de sete mortos desnecessários, Skorzeny concluía a sua operação com sucesso...
Enfim, são estas pequenas histórias que nos fazem consumir com alguma moderação tudo aquilo de que agora se quer acusar os húngaros a propósito dos refugiados. Um bom livro de se ler, uma releitura sobre a Segunda Guerra Mundial, uma releitura também sobre o ambiente de Guerra Fria, detectável na forma como está redigido.
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