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15 outubro 2019

A EXECUÇÃO DE LÁZLÓ RAJK

15 de Outubro de 1949. Lázló Rajk (1909-1949), um dirigente comunista húngaro do após-guerra e um dos principais rivais à disputa do poder dentro do partido é enforcado depois de um breve julgamento de uma semana. A acusação era de "titismo", numa alusão às influências autonomistas (em relação à tutela soviética) que emanariam do comportamento inspirador de Josip Broz "Tito" (1892-1980), o dirigente comunista supremo da vizinha Jugoslávia. Emulando o que acontecera dez anos antes na União Soviética, quando Estaline patrocinara a sangrenta Yezhovshchina, os dirigentes comunistas dos países do Leste da Europa que se haviam instalado no poder desde 1945, também selavam as suas disputas políticas realizando espectaculares julgamentos que produziam sentenças à medida. O irónico é que era muito difícil simpatizar para além dos princípios com as vítimas destes processos sumários. Lázló Rajk, que então contava apenas 40 anos, fora o ministro do Interior desde a instalação dos comunistas no poder na Hungria, o responsável pelas polícias e pela repressão (1945-49). Houvesse sido ele o vencedor da disputa política e ninguém tem dúvidas que teria sido Mátyás Rákosi (1892-1971), o seu rival, conjuntamente com os seus apoiantes, a balançar(em)-se da ponta de uma corda. Há 70 anos, aprecie-se a discrição como o assunto é noticiado pelo Diário de Lisboa de então, onde nem sequer se nota qualquer esforço para aproveitar a crueldade do acontecimento como propaganda anti-comunista. Nem era preciso... Mas porque o assunto raramente é abordado nessa perspectiva, convém recordar que, em muitos países onde foram poder, os comunistas mataram-se também uns aos outros.

01 agosto 2019

«PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS.»

1 de Agosto de 1919. Diante da invasão romena, o governo soviético húngaro colapsa. Foi uma das cópias do regime russo que alcançara o poder nos países derrotados logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial e que também não durou muito. Hoje ninguém se lembra dele, assim como não sabe, por exemplo, do governo soviético da Baviera. A maioria dos membros desse governo (acima), a começar pelo seu líder (informal), Béla Kun (1886-1938, o que aparece assinalado), exila-se. A experiência comunista durara precisamente 133 dias, sempre em condições periclitantes, mas atribui-se ao mesmo Béla Kun, uma pessoa pujante, com os seus cento e vinte quilos, e inegáveis dotes oratórios, a descrição mais cega e despropositada a respeito da solidez do regime: «A minha influência pessoal no governo revolucionário é tal que a ditadura do proletariado está firmemente estabelecida, já que as massas me apoiam». Basófias que a História comprovou. Muitas declarações, interessantes umas, ridículas outras, foram proferidas e escritas pelos dirigentes comunistas nesta época em que eles se concebiam a si próprios como estando ungidos pela predestinação da História. Há é que atribui-las correctamente: a frase do título, por exemplo, não foi escrita por Lenine, já tinha mais de 70 anos em 1919...

12 março 2019

AS VOLTAS QUE A EUROPA LEVOU EM VINTE ANOS

12 de Março de 1999. No Museu Harry S. Truman, no Missouri, tem lugar a cerimónia da adesão da Hungria, Polónia e República Checa à NATO. Na imagem acima, vemos a anfitriã, a então secretária de Estado Madeleine Albright (por sinal, nascida em Praga), a discursar perante os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três países recém-admitidos, num momento que parecia de consagração para a ampliação da esfera de influência dos Estados Unidos na Europa. Vinte anos depois, aqueles mesmos três países estão considerados entre os mais mal comportados da Europa (veja-se o vídeo abaixo), sendo votados a um semi-ostracismo por causa do autoritarismo dos seus regimes e a mesma Madeleine Albright que lhes terá servido de madrinha escreve, não apenas a seu respeito, mas também por causa do que está a acontecer na Europa de Leste, um livro intitulado «Fascismo - Um Alerta». São só precisos vinte anos para que na Europa se tenha dado uma grande volta...

03 novembro 2018

O ARMISTÍCIO DE VILLA GIUSTI

3 de Novembro de 1918. Se a Itália foi a última das grandes potências europeias a entrar na Grande Guerra, também se vai destacar por ser a primeira delas a sair dela. Há precisamente cem anos, numa Vila dos arredores de Pádua, os italianos, devidamente acompanhados dos seus aliados, assinaram um armistício contra o adversário que verdadeiramente lhes interessava, o Império Austro-Húngaro, a passar então por um processo acelerado de desagregação nas suas entidades nacionais constitutivas. O armistício foi assinado um pouco depois das três da tarde embora o quadro abaixo, evocativo da cerimónia, mostra o acto a ter lugar ao redor de uma mesa muito maior do que a verdadeira e sob a artificialidade da luz eléctrica, sugestivo de complicadas e prolongadas negociações que, na verdade, não ocorreram - bastou aos italianos a ameaça de romperem as negociações para que a aristocracia austro-húngara se precipitasse a assinar, na esperança de ainda salvar o que pudessem do seu império.

28 outubro 2018

NEM SÓ COM CRAVOS SE FAZEM REVOLUÇÕES, HOUVE QUEM AS FIZESSE COM CRISÂNTEMOS

28 de Outubro de 1918. Se o 25 de Abril de 1974 de Lisboa ficou recordado pelos seus cravos, vale a pena evocar como, há cem anos e nas ruas de Budapeste, se iniciou um outro pronunciamento militar que também se iria caracterizar pelas flores ostentadas pelos soldados que nele participaram. Só que, como se estava no Outono, as flores escolhidas foram os crisântemos. O pronunciamento militar ocorre no quadro de uma cada vez mais previsível derrota das Potências Centrais na Primeira Guerra Mundial. E nas várias capitais e entre as nacionalidades do Império Austro-Húngaro começa o posicionamento político antecipando a desagregação daquela entidade prevista pelos quatorze pontos do presidente Wilson (nesse mesmo dia, em Praga, os checos proclamam a independência de um novo país chamado Checoslováquia).
Os húngaros haviam sido uma das nacionalidades privilegiadas sob o Império mas agora procuravam dissociar-se dele aquando da derrota. Organizações com designações bastante abrangentes, mas com escassa representatividade popular (em Budapeste era o Conselho Nacional Húngaro, em Praga chamava-se Conselho Nacional Checoslovaco), emitiam proclamações assumindo as rédeas de uma situação política fluída. Mas, mais importante para a imposição dessas vontades ditas revolucionárias era a sensação de saturação que grassava nas fileiras depois de quatro anos de guerra. Em Budapeste e em Praga em 1918, em Lisboa em 1974 ou em Petrogrado em 1917, não havia praticamente ninguém que defendesse o status quo e é por isso que, em alguns desses sítios, os revoltosos puderam embelezar-se, tal como as suas armas, com flores.

14 maio 2018

A CRIAÇÃO DO PACTO DE VARSÓVIA

14 de Maio de 1955. Assinatura da acta de fundação do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua que teve lugar em Varsóvia (acima) e de onde a organização recolheu o nome pelo qual ficou mais conhecida no Ocidente: Pacto de Varsóvia. Foram oito os países signatários: Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e União Soviética. Nesta altura a NATO, fundada em Abril de 1949, já tinha cinco anos e fora muito recentemente reforçada (9 de Maio de 1955) com a adesão da Alemanha Federal, acontecimento que servia, aliás, de pretexto para a constituição do Pacto de Varsóvia. O Tratado era composto por um preâmbulo e 11 artigos e entrará em vigor a 4 de Junho seguinte, depois de rapidamente ratificado pelos oito países signatários. A União Soviética hegemoniza o conjunto mas não deixa de ser significativo da importância distinta dos países constituintes que as versões oficiais do Tratado sejam redigidas em quatro idiomas: russo, polaco, checo e alemão. Como quase todos os documentos formais dos países comunistas (a começar pelas Constituições...), também este era imaculado quanto à redacção dos princípios - a começar pela não interferência nos assuntos internos dos países aliados - princípios esses que eram tranquilamente pisoteados quando a realidade os punha em teste.
Neste caso concreto do Pacto de Varsóvia foi só preciso esperar um ano. Em 1956 o governo húngaro anunciou a sua intenção de querer sair do Pacto e adquirir um estatuto de neutralidade à semelhança do que acontecia com a Áustria: a Hungria foi invadida pela União Soviética. Em 1961 foi a Albânia que, na sequência da cisão sino-soviética e tendo alinhado com os primeiros, abandonou na prática a organização: ter-lhe-á valido que, ao invés do que acontecera com a Hungria e do que acontecerá com a Checoslováquia, a Albânia não tivesse quaisquer fronteiras terrestres com os seus «aliados» por onde estes poderiam fazer-lhe uma visita. Em 1968, a invasão foi contra a Checoslováquia e, dessa vez, para que a União Soviética não ficasse isolada com as culpas, as suas tropas vieram acompanhadas de contingentes alemães orientais, búlgaros, húngaros e polacos para enfeitar. A Albânia aproveitou a pouca vergonha para abandonar formalmente o tal Tratado de Amizade em que a amizade tinha estas formas bem estranhas de se exprimir e cuja formatação teórica acabou por se ver expressa na Doutrina Brejnev: a autorização para que a União Soviética interviesse militarmente nos países sob a sua alçada que ela considerasse em riscos de a desertar.
De 1955 a 1968, o Pacto de Varsóvia tomou assim cerca de uma dúzia de anos para que finalmente se assumisse, em vez de uma pretensa aliança formal para a defesa de uma eventual ameaça militar do Ocidente capitalista, como uma aliança de cariz policial (uma polícia de intervenção) para disciplinar os países membros em caso de deriva indisciplinada. Mais outra dúzia de anos transcorridos e, no caso polaco de 1980/81, o padrão já se estabelecera e a seriedade da ameaça já terá sido suficiente para que os próprios polacos se auto-reprimissem. O Pacto de Varsóvia veio a durar 36 anos (1955-1991) e, nesse último terço da sua existência, ao longo da década de 1980, revelou-se mais perturbador a existência de um Mikhail Gorbachev em Moscovo do que a aparição de reformadores nas capitais das periferias a que valesse a pena exprimir a amizade, a cooperação e a assistência mútua através do envio de carros de combate para passear nas avenidas dessas capitais do Leste da Europa. Se não tivesse sido extinto a 1 de Julho de 1991, o Pacto de Varsóvia completaria hoje 63 anos. O que dela resta são expressões de Ostalgie e aparentados, como esta caixa de soldadinhos para pintar.

12 maio 2018

A CONFERÊNCIA DE SPA

12 de Maio de 1918. Spa é uma aprazível vila termal do Leste da Bélgica onde, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães instalaram o seu quartel-general para as operações na Frente Ocidental. Foi aí que teve lugar há precisamente cem anos a conferência que reuniu os dois imperadores dos impérios centrais - acima, numa fotografia desse dia, Guilherme II, com o identificativo pickelhaube prussiano à esquerda e Carlos I, também facilmente identificável pelo característico feldkappe austro-húngaro. Infelizmente para o segundo, o equilíbrio aparente que era granjeado pela exuberância dos ornamentos das cabeças (coroadas), não tinha qualquer correspondência com as realidades políticas e militares. Depois de quase quatro anos de conflito, o império austro-húngaro do imperador Carlos estava nas vascas da agonia e a prioridade passara a ser a de preservar a coesão do império por sobre a vitória. Em contraste, o império alemão de Guilherme II, que inicialmente quase dera um boi para não entrar na briga, agora via-se na situação do mineiro que dava uma manada para não sair dela. Com perspectivas divergentes, imperava a desconfiança entre os dois aliados, a que se somou aquela etiqueta tipicamente germânica - nunca nos esqueçamos dos exemplos bem recentes de Wolfgang Schäuble! - de nem sequer dissimular a animosidade durante a conferência. Considerada a desproporção do poder e, sobretudo, do ânimo para prosseguir com a Guerra, os alemães impuseram todos os seus pontos de vista políticos e militares, reduzindo a Áustria-Hungria à condição de um satélite contrariado até ao fim da Guerra. Outras três conferências, já sem imperadores, realizar-se-ão posterirmente no mesmo local em Julho, Agosto e Setembro de 1918, mas a cenografia do que se seguiria fora estabelecida por esta primeira: os alemães diziam como é que se havia de fazer, os austro-húngaros sabotavam as decisões alemãs com que não concordavam como podiam.

28 abril 2018

A MORTE DO «CAUSADOR» DE TANTAS MORTES

28 de Abril de 1918. Foi também há cem anos que, neste dia, morreu Gravilo Princip, o sérvio da Bósnia que se celebrizara por ter assassinado o arquiduque Francisco Fernando e a esposa a 28 de Junho de 1914 em Saravejo, acontecimento que estivera, pelo menos formalmente, na origem da Grande Guerra que então ainda se travava. Contrariamente ao que se esperaria, Princip não fora executado, tinha apenas 19 anos e uma idade inferior a uma tal pena, de acordo com o que dispunha o código imperial, e acabara sendo condenado à pena de prisão máxima aceitável nessas circunstâncias: 20 anos. Cumpria a sua pena em Theresienstadt (mais tarde famosa por albergar um campo de concentração), mas nos três anos e dez meses decorridos desde o assassinato, as condições deliberadamente adversas da detenção, terão feito com que ele contraísse tuberculose óssea. Quando morreu, o recluso Gravilo Princip, apesar dos seus 23 anos, pesava apenas uns 40 kg e já sofrera a amputação do braço direito. Morrera aos poucos. Mas não deixa de ser surpreendente saber que ele sobrevivera a tantos milhões que já haviam perecido naquela guerra que ele contribuíra, como mais ninguém, para desencadear.

09 abril 2018

O PRINCÍPIO DA SOBERANIA POPULAR ou O POVO SÓ DEVE SER SOBERANO QUANDO VOTA COMO «NÓS GOSTAMOS»?

Como eu aqui antecipei, se há poucos a pronunciarem-se sobre os terríveis danos causados ao organismo humano pelo estrôncio-90, quase todos se julgam com direito de mandar palpites sobre a política húngara, nem que seja para manifestar a sua antipatia por Viktor Orban e pelos caminhos que a Hungria tem singrado. Associo-me àqueles, poucos, que cingem as suas opiniões a um desagrado resignado pelos resultados das eleições de ontem - onde se registou uma terceira vitória (vitória no sentido verdadeiro...) do Fidesz que recolheu mais de 48% dos votos. Ou seja, se nós não gostamos do Fidesz e de Orban, há uma maioria de húngaros que gosta, já que, depois de os elegerem em 2010, os têm reconduzido depois disso em 2014 e agora em 2018. A não ser que se coloque a dúvida se essas eleições que se têm desenrolado na Hungria não tenham sido razoavelmente livres. É verdade que a Hungria teve a sua conta de farçoladas à laia de eleições, aqueles anos felizes em que János Kádár e os seus comunistas eram reconduzidos com 99% dos votos. Contudo, tenho a confiança que, houvesse ali qualquer vaga suspeita sobre a recuperação dessa mesma prática de viciação, e a União Europeia - onde não se gosta, visivelmente, de Orban - interviria, sancionando e ostracizando o país. O que não tem acontecido. Não o fazendo, só me resta aceitar que a popularidade de Viktor Orban é legitima, assim como a é a de Isaltino Morais, o presidente aqui do concelho de Oeiras, apesar da estadia deste último na famosa pousada da Carregueira. Vale a pena recordar que - por ordem alfabética e histórica - o comunismo, o fascismo e o nazismo nunca se conseguiram posteriormente legitimar através de eleições livres. Também, se calhar nem o tentaram com um mínimo de seriedade: havia eventos em que os regimes eram aprovados por 99% dos eleitores, resultados tão unânimes quanto inverosímeis e ridículos. O que está a acontecer nos países da Europa de Leste, a Hungria, mas também na Áustria, na Polónia ou ainda na República Checa, por muito que haja quem queira forçar a analogia com os fascismos de entre guerras (curiosamente, há muito menos alusões aos comunismos do pós guerra), são populismos que exibem uma legitimidade popular completamente diferente, em que os seus mandatos renovados regularmente (de quatro em quatro anos na Hungria), conformes as regras da Democracia parlamentar. O que se tem observado para aí, na análise das eleições húngaras é rancor por mau perder, mas isso é atitude que, para conferir seriedade à política, seria melhor guardar para o futebol e para as avaliações das arbitragens do dia seguinte. Vale a pena recordar o que Lincoln disse no discurso de Gettysburg: que a Democracia era o governo do povo, pelo povo e para o povo. E se o povo - neste caso o húngaro - prefere Orban, deve-se tentar perceber porquê, não criticar indiscriminada e não muito inteligentemente eleitores e/ou eleitos, só porque o resultado nos desagrada.

05 abril 2018

O QUE É QUE O ESTRÔNCIO-90 TEM A VER COM AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES HÚNGARAS?

O estrôncio-90 é um dos isótopos radioactivos desse elemento químico. Tem uma meia vida de 29 anos, estabilizando-se quando se torna em zircónio-90 (o mais comum). Existente em quantidades ínfimas até à era nuclear (1945), a sua presença no ambiente multiplicou-se exponencialmente depois disso, pois é um dos subprodutos da fissão nuclear, que ocorreu tanto quando das detonações do armamento nuclear à superfície, quanto ainda hoje acontece com as centrais de energia nuclear. Em geral, o estrôncio (e este isótopo não foge à regra) tende a mimetizar o comportamento do cálcio (que lhe fica imediatamente acima na tabela periódica) e pode ser por isso absorvido pelo nosso organismo como seu substituto, depositando-se nos ossos ou na medula óssea. Um dos locais onde ele pode mais facilmente ser detectado é na dentição. É por isso um dos elementos mais perigosos quando libertado incontroladamente, tal qual aconteceu com os acidentes nucleares em Chernobyl (1986) e Fukushima (2011). Finalmente, e apenas a título de curiosidade, acrescente-se que a medição da concentração de isótopos com estas características, que apareceram em profusão distinta depois do início da era nuclear há mais de 70 anos, têm servido de instrumento de despistagem quando da validação de antigas obras de pintura: detectar concentrações modernas de estrôncio-90 em pigmentações das tintas empregues num quadro que estivesse a ser atribuído a algum reputado pintor dos séculos anteriores, tornam-se demonstrações inequívocas de que a obra havia sido forjada no século XX.
 
Este é apenas uma pequena referência ao estrôncio-90. Nas redes sociais não se costuma vê-lo muito referido, nem as opiniões que aparecem são muito assertivas. E não as imagino, às redes sociais, ao rubro (como tantas vezes estão), envolvidas numa discussão sobre a perigosidade comparativa do estrôncio-90 (meia vida de 29 anos) versus a do césio-137 (meia-vida de 30 anos). Ainda bem. Há algum segredo misterioso - ou não tanto - que preserva estes assuntos de serem maltratados por quem nem sabe que não percebe nada deles (por outras palavras, estão protegidos do efeito Dunning-Kruger). Provera que outros assuntos, como as eleições húngaras deste próximo fim de semana, estivessem protegidos assim. Mas desconfio que não estarão.

31 março 2018

A OFENSIVA DIPLOMÁTICA DO III REICH NA PRIMAVERA DE 1943

31 de Março de 1943. Adolf Hitler recebe o rei Bóris III da Bulgária (acima). Essa vai ser a primeira visita de um dos seus aliados europeus, na ofensiva diplomática que o III Reich irá desencadear na Primavera de há 75 anos, exibindo um bloco coeso de parceiros. Os ventos da Guerra mostravam-se agora potencialmente adversos para as armas alemãs e, para além de Bóris, ao longo do mês que se seguirá, Hitler ir-se-á encontrar com o duce Benito Mussolini de Itália (7 de Abril), com o conducator Ion Antonescu da Roménia (14 de Abril), com o regente Miklós Horthy da Hungria (16 de Abril), com monsenhor Jozef Tiso da Eslováquia (23 de Abril), com o poglavnik Ante Pavelić da Croácia (27 de Abril) e, finalmente, com o chefe do governo do Estado francês, Pierre Laval (29 de Abril). Os resultados podiam parecer ressonantes, se se acreditasse naquilo que as máquinas de propaganda então produziam (abaixo), mas a intuição geral da esmagadora maioria dos observadores apontava para que as vantagens iam agora todas para o lado dos Aliados.

30 dezembro 2016

A COROAÇÃO DE CARLOS IV da HUNGRIA

Há precisamente 100 anos, 30 de Dezembro de 1916, tinha lugar em Budapeste a cerimónia da coroação de Carlos IV de Habsburgo (1887-1922) como rei da Hungria. Foi a primeira e única vez que tal cerimónia foi filmada (a cerimónia anterior tivera lugar 49 anos antes). A coroa da Hungria é uma das mais facilmente reconhecíveis coroas europeias por causa da cruz torta que a encima. Talvez por causa desse seu carisma estético, a sua imagem encima actualmente o próprio brasão de armas da Hungria. Quanto à coroa propriamente dita ela é de dimensões maiores do que um chapéu normal, o que obriga o rei, na cerimónia que se vê abaixo, a afivelá-la à cabeça, como se se tratasse de um capacete de guerra. Aprecie-se também a cenografia e os figurantes. É uma cerimónia que parece concebida para ter muita gente a assistir, mas destinada a uma certa elite, a monarquia húngara de há cem anos não parece propriamente destinada às massas - em termos lisboetas modernos, o cerimonial parece concebido à dimensão (talvez) de um Meo Arena e não de um Estádio da Luz. Por detrás de tanta magnificência (de fazer ter pena que as imagens não sejam coloridas), dificilmente se percebe que a Primeira Guerra Mundial já decorre há quase dois anos e meio (29 meses), esgotando os recursos de uma Hungria que, como uma das potências centrais, estava militarmente cercada. O fim - da guerra e da monarquia húngara - estava a menos de dois anos de distância.

21 abril 2016

BILHETE POSTAL PRÉ IMPRESSO: O «SKYPE» DE HÁ CEM ANOS

Se há cinquenta anos a forma consagrada para os soldados destacados se corresponderem para casa eram os aerogramas, cinquenta anos antes disso, durante a Primeira Guerra Mundial, o instrumento mais comummente posto à disposição dos soldados eram estes bilhetes postais com as novidades pré impressas que a alfabetização era mais gabada que efectiva. Este bilhete-postal, distribuído às tropas do Império Austro-Húngaro nesses anos, contém a curiosidade adicional de estar escrito em várias línguas, dado o carácter multinacional daquele império. Nove idiomas, para ser exacto, e a ordem como elas estão dispostas no bilhete corresponderá, não por acaso, à hierarquia da sua importância no xadrez político e não ao seu peso demográfico: alemão, húngaro, checo, polaco, ucraniano, italiano, esloveno, croata e romeno. Mesmo sem se ser um poliglota compreende-se que o conteúdo da mensagem em qualquer dos idiomas é monotonamente apaziguador: estou bem e de boa saúde. Com uma pitada de humor poder-se-ia acrescentar: E se me acontecer qualquer coisa vão receber outro postal pré-impresso, mas com uns dizeres diferentes...

03 outubro 2015

OS ÚLTIMOS CEM DIAS – E A QUEDA DO REGIME DE HORTHY

Os Últimos Cem Dias de John Toland foi outra releitura recente. Publicado originalmente em 1966, o livro apareceu no mesmo ano e acabou por ficar na sombra – por causa da semelhança do tema – de A Última Batalha escrito por um Cornelius Ryan que se popularizara imenso depois da autoria de O Dia Mais Longo. Enquanto, fazendo jus ao título, o livro de Ryan se preocupa mais com a conquista de Berlim, este fornecerá uma melhor imagem do que foi a desagregação do III Reich – e também o que se passou nalguns dos restantes países do Eixo. Descreve minuciosamente os passos que acabaram com o fuzilamento de Mussolini. Mas é sobre a Hungria e o desmoronamento do regime do almirante Horthy que não resisto a condensar os parágrafos que o descrevem (pp. 149-150):
No dia 15 de Outubro de 1944, Miki Horthy (o filho do almirante, passou a viver exilado em Portugal depois do fim da guerra, morreu em 1993) foi capturado pelos homens de Skorzeny e da Gestapo, embrulhado numa carpete e transportado secretamente para o aeroporto. Quando o almirante foi informado de que o seu filho acabava de ser transportado para a Alemanha, denunciou os nazis e ordenou ao Conselho da Coroa que desse instruções aos negociadores de Moscovo para se renderem aos russos em quaisquer condições.
Nessa tarde (...) uma gravação de voz do almirante repetia pela rádio a informação de que a Hungria havia concluído uma paz separada com os russos. (...) nada disto havia sucedido (...) os russos estavam aborrecidos (...) mandaram uma mensagem a Horthy dizendo-lhe que não haveria armistício a menos que ele aceitasse as condições impostas. O almirante e os ministros discutiram pela noite fora sem chegarem a acordo e, por fim, Horthy foi-se deitar, muito desgostoso. Finalmente os ministros concordaram entre si que se deviam demitir e procurar asilo na Alemanha e enviaram um mensageiro informar Horthy da decisão. Qualquer pessoa que conhecesse a Hungria teria previsto o resultado: Horthy enfureceu-se, recusou a abdicação implícita no gesto dos ministros e voltou para a cama. O que se seguiu pode considerar-se também tipicamente húngaro: para não ser portador de más notícias, o mensageiro disse aos ministros que Horthy aceitara o plano deles “na totalidade”.

Consequentemente, o ministro presidente enviou uma nota ao embaixador alemão informando-o que o Conselho da Coroa se demitia e que Horthy abdicava do seu estatuto de regente. No dia seguinte muito cedinho (antes das 6H00 da manhã), e depois de uma troca frenética de telegramas durante toda a noite entre Budapeste e Berlim, Horthy foi acordado pelo embaixador alemão irrompendo pela Cidadela para descobrir estremunhado que abdicara. Para rematar à confusão, alguém se esquecera de avisar um comando alemão, dirigido pelo mesmo Skorzeny acima, que se preparava àquela mesma hora para atacar a mesma Cidadela e obter pela força das armas aquilo que fora já obtido de forma equivocamente pacífica. Uma meia hora depois, e à custa de sete mortos desnecessários, Skorzeny concluía a sua operação com sucesso...

Enfim, são estas pequenas histórias que nos fazem consumir com alguma moderação tudo aquilo de que agora se quer acusar os húngaros a propósito dos refugiados. Um bom livro de se ler, uma releitura sobre a Segunda Guerra Mundial, uma releitura também sobre o ambiente de Guerra Fria, detectável na forma como está redigido.

26 julho 2015

OS ALIADOS

Ao contrário do que possa ser a imagem predominante nos dias que correm, nem toda a colaboração que a Alemanha e Adolf Hitler obtiveram durante a Segunda Guerra Mundial resultou de coacção. Houve países onde se apostou deliberadamente no sucesso do Eixo. Da esquerda para a direita, Ion Antonescu (1882-1946) da Roménia, Miklós Horthy (1868-1957) da Hungria, Carl Gustaf Mannerheim (1867-1951) da Finlândia e Ante Pavelic (1889-1959) da Croácia. Não é por coincidência que todos aparecem uniformizados como também não será por coincidência que, à excepção de Antonescu, que foi fuzilado no seu país natal em 1946, todos os outros morreram no exílio em países que haviam permanecido neutrais durante a Guerra: Horthy em Portugal, Mannerheim na Suíça e Pavelic em Espanha.

19 julho 2015

FENÓMENOS DE OUTRAS ÉPOCAS – 2


Tanto quanto o grego Aléxis Tsípras, também o húngaro Viktor Orbán é outro dos primeiros-ministros detestados pelo aparelho europeu que dirige a Europa. Embora o seja por razões completamente distintas: a Hungria não aderiu ao Euro e o partido Fidesz pertence ao outro extremo do espectro político. Não possui o mesmo género de simpatias nas redes sociais que o Syriza recolhe mas a sua legitimidade política nacional, assente em duas maiorias eleitorais (2010 e 2014), é até superior. O que pôs a Hungria nas bocas da Europa foi a sua decisão recente de construir um muro na fronteira com a Sérvia, para travar a imigração de refugiados vindos do Próximo Oriente e de África. Reconheça-se que, como dispositivo, há-de ter uma eficácia muito duvidosa. Mas é uma decisão legítima para tentar estancar um fluxo que, como se vê sobretudo em Itália mas também em outros países do flanco sul da União Europeia (Espanha, Grécia, só não somos nós porque a geografia nos separa de Marrocos), está muito longe de ter solução e/ou de movimentar a tão propalada solidariedade europeia. Que se revela muito mais verbal do que efectiva. É por isso que eu vejo com alguma perplexidade algumas manifestações dos últimos dias, condenando a decisão dos húngaros com um enfâse inesperado – veja-se, apenas para exemplo, o caso de António Vitorino aos microfones da RR. O passado próximo (+ 25 anos) mostra porém quanto o húngaro médio dominará o assunto muito melhor do que aqueles prestigiados opinadores, já que conviveram intimamente com fronteiras assinaladas por muros e cercas - abaixo, lembre-se a fotografia assinalando o corte da que protegia a Hungria da Áustria em 27 de Junho de 1989. Claro que havia a substancial diferença de, em vez da imigração de estrangeiros, esses muros se destinarem a conter a emigração de húngaros... Mas o que verdadeiramente lamento é faltar-me a memória para recordar se Vitorino e outros tantos destes indignados recentes exibiam naquela época nos media idêntica veemência na condenação desses outros muros desses outros regimes.

28 junho 2014

O ARQUIDUQUE POR QUEM A EUROPA ENTROU EM GUERRA (Evocação do centenário)

Por causa de hoje ser o centenário do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, assassinato esse que esteve na origem da Primeira Guerra Mundial e porque – como já é motivo de troça por o evocar recorrentemente – neste blogue já se escreveram postes sobre muitos assuntos importantes, tomei a liberdade de republicar o abaixo que foi escrito já há quatro anos, não apenas sobre o assassinato mas sobretudo sobre o casal assassinado.
A história do arquiduque austríaco Francisco Fernando a que, ao ser assassinado em Sarajevo em 28 de Junho de 1914, se atribui o começo da Primeiro Guerra Mundial encerra alguns pormenores interessantes que vale a pena contar. Começando por o conhecer em fotografia, vemos nela um homem de olhos muito claros, vestido, como seria de esperar, de uma forma distinta (isso incluiria naquela época uns enormes bigodes armados) mas não muito bonito, de uma fisionomia quase porcina.  
Aos 12 anos tornou-se anormalmente rico, mesmo para um arquiduque austríaco, ao acumular a sua própria fortuna com a de um primo, Francisco, duque de Modena (Itália), que o fizera seu herdeiro universal. Foram também circunstâncias inesperadas (o suicídio do seu primo Rudolfo) que o fizeram herdeiro do trono aos 25 anos (1889). Mas, por outro lado, era também um homem invulgarmente determinado, que quis casar por amor, muito abaixo do que se considerava ser a sua classe social, apesar das descomunais pressões em contrário.
Contra as pressões do seu tio, o imperador Francisco José, Francisco Fernando pediu a intercessão do papa Leão XIII ou a do imperador alemão Guilherme II (acompanhando-o acima), mas foi só após quatro anos de impasse, que a grande paixão da sua vida se veio a concretizar (1900), quanto o noivo já contava 35 anos e a noiva 31 (Sophie Chotek, oriunda da baixa nobreza checa – mas germanófona), e mesmo assim, a autorização estava cheia de ressalvas: tratava-se de um casamento morganático, o que queria dizer que a esposa não adquiria por casamento o mesmo estatuto do marido.
Também os filhos que resultassem do matrimónio não adquiriam os respectivos direitos sucessórios. A praxe infligida ao casal começou na própria cerimónia do casamento, a que quase ninguém da família imperial austríaca assistiu, e continuou a prolongar-se em todos aquelas cerimónias da Corte vienense em que os dois eram obrigados a apresentarem-se separados, por causa dos pesados protocolos. Mas havia uma excepção a esse ritual: no protocolo militar, Sophie era reconhecida simplesmente como a esposa do general comandante-chefe e autorizada a figurar ao lado do marido…
Esse terá sido um dos factores tomados em conta por Sophie ao decidir-se a acompanhar o marido naquela sua visita de carácter militar a Sarajevo. A possibilidade de poder deslocarem-se e aparecerem juntos nas cerimónias devia ter para eles um valor tal que os levou a assumir o risco. O resto da História é conhecida, mas não deixa de ser uma das pequenas ironias que Sophie tenha morrido pela felicidade de aparecer numa fotografia como a de cima. A enorme ironia foi a Áustria-Hungria ter partido para a guerra para vingar a morte de um príncipe de certa forma subversivo e tão pouco apreciado na própria corte de Viena…
Foi por acaso, que Gavrilo Princip (o assassino) deu com os arquiduques e apenas porque o motorista destes se enganou no caminho. E este apenas se enganara no percurso porque o arquiduque teimara em alterá-lo e passar pelo hospital para ver o estado dos feridos do verdadeiro atentado original – que fora cometido com uma bomba mas que acertara no carro errado. Ao contrário do que acontecera em Portugal em Fevereiro de 1908, Gavrilo não foi morto no local, nem sequer foi depois executado judicialmente. Foi condenado a 20 anos de prisão. Mas talvez a maior ironia foi a que ele quase sobrevivia à Guerra que desencadeou: morreu em Abril de 1918, de tuberculose ou foi mais uma vítima da famosa gripe espanhola. Tinha 23 anos.

08 abril 2014

HUNGRIA: UM RESULTADO ELEITORAL INCONVENIENTE

Comprovando que a nossa percepção de fazer parte da União Europeia é ténue e que quase nada sabemos sobre ela, a não ser aquilo que os aparelhos informativos decidem destacar, aposto que 99 em 100 leitores deste blogue não reconhecerão o senhor da fotografia acima. Chama-se Viktor Orbán e é, desde Maio de 2010, o chefe do governo da Hungria. Daquelas paragens longínquas, reconhecer-se-ia Antónis Samarás, o chefe do governo grego, mas isso será porque a Grécia, esse outro parceiro europeu, se porta mal e sabe-se como é canónico quanto nós não queremos ser como a Grécia. Porém, quem quiser investigar, descobre que Viktor Orbán também governa um país que teve de se submeter às condições de uma intervenção de emergência (25 mil milhões de dólares) do FMI, Banco Mundial e União Europeia e também se tem portado bastante mal: as relações entre o governo de Viktor Orbán e a comissão de Durão Barroso têm sido, para colocar o assunto de uma forma benigna, algo complicadas. Há mesmo fotografias de manifestantes pró-europeístas húngaros que ostentam cartazes (em inglês) pedindo desculpa pelo seu primeiro-ministro.
Porém, a maioria dos húngaros não pensa assim. As eleições que tiveram lugar na semana que findou na Hungria – e que, por acaso, quase não se deu informativamente por elas – produziram a recondução da coligação no poder recolhendo 44,5% dos votos. Pelos vistos, o autoritarismo nacionalista de Viktor Orbán terá o beneplácito dos húngaros, um fenómeno tanto mais de realçar nesta época em que os governos europeus de todos os países afectados pela crise financeira têm sido derrubados consecutivamente, quais pinos de bowling. Mas há pior, para quem analise os resultados eleitorais duma perspectiva europeísta: a coligação vencedora de Orbán ocupa agora o centro de uma geografia eleitoral que apresenta, para além dos 26% de uma esquerda clássica mais conforme as directivas de Bruxelas, uma extrema-direita que recolheu 20,5% dos votos e que quer ir mais além do autoritarismo nacionalista de Orbán. Sempre é interessante apercebermo-nos pelo que se passa nas redondezas, de como pode haver outras direitas reformistas que não são subservientes ao exterior. E com um sucesso eleitoral de fazer a inveja da nossa coligação no poder. 

16 fevereiro 2014

OS CENSOS DO IMPÉRIO AUSTRO-HUNGARO

Uma descrição global, ainda que sucinta, do Império Austro-Húngaro será complexa e terá uma extensão um pouco superior aos textos a que venho habituando os leitores deste blogue. Por isso, e como fiz também num caso semelhante de um texto apresentando a composição étnica do Império Russo, também sugiro ao leitor que ponha a tocar o vídeo abaixo, onde pode ouvir a que creio ser a apropriada Marcha de Radetzky de Johann Strauss (não apenas interpretada por ocasião de um Concerto de Ano Novo, mas regida por esse expoente do germanismo musical que foi Herbert von Karajan), enquanto prossegue a leitura.

Formado por um processo de séculos de agregação de regiões através de casamentos oportunos, vitórias militares e negociações diplomáticas intensas cuja explicação iria superar várias vezes o texto que introduz, os contornos do que era então o Império Austríaco ganharam uma configuração mais estável em 1815, em consequência dos acordos do Congresso de Viena, que puseram fim a 20 anos de fronteiras europeias voláteis à conta dos caprichos de Napoleão Bonaparte.
Nos 99 anos que se seguiriam até ao dealbar da Primeira Guerra Mundial (que o viria a matar), o Império iria sofrer apenas pequenas alterações nas suas regiões constituintes, sem que isso reduzisse ou aumentasse significativamente a heterogeneidade física e étnica que o caracterizava. Em 1846 a cidade polaca de Cracóvia foi anexada. Em contrapartida, a Lombardia italiana (com a excepção de 4 cidades fortaleza que ficaram conhecidas por a Quadrilateral) foram cedidas em 1859; seguiu-se a cessão dessas cidades e do Véneto em 1866 para a Itália recém-unificada. Por sua vez em 1878, no Congresso de Berlim, aquele que passara a ser conhecido depois de 1867 por Império Austro-Húngaro, recebeu a administração da Bósnia-Herzegovina além dos direitos de ocupar militarmente uma outra região a sudeste dessa que era conhecida por Sandjak de Novi Pazar. Em 1908, a Bósnia e a Herzegovina, que haviam pertencido formalmente até aí aos otomanos foram anexadas enquanto os austro-húngaros abdicavam dos seus direitos de guarnição num Sandjak cobiçado e prestes a ser atacado por sérvios e montenegrinos.
Como se pode observar pelos dois mapas da Europa de 1815 e 1914, e comparando-os mentalmente com o da actualidade, a existência do Império simplificava sobremaneira a configuração das fronteiras políticas do velho continente. Basear-se nisso para o considerar como se fosse uma unidade natural constituída por regiões que se complementavam seria contudo um artifício, verdadeiro apenas no aspecto que se tratava de uma construção política gradual que evoluíra ajustando-se às circunstâncias de cada época. Por exemplo, a complementaridade, que mais se realçava ao nível económico entre as diversas regiões imperiais, fora mais uma consequência natural da fiscalidade aduaneira de um mercado comum, do que um impulso facilitado pelos ditames da geografia humana e/ou física. A unidade geográfica era coisa que não existia de todo nas terras atribuídas à Coroa imperial austríaca, a começar pelas que ainda restam na própria Áustria actual. A província de Vorarlberg faz naturalmente parte da Suíça e a do Tirol da Baviera; há mesmo algumas regiões do Tirol que são mais facilmente acessíveis pela Alemanha do que pelo resto da Áustria. A Caríntia e a maioria da Estíria estão separadas do vale do Danúbio por uma cadeia montanhosa e constituem, com a moderna Eslovénia uma região geográfica natural virada para o Mar Adriático e para Sul. Ainda às bordas do Adriático, a Dalmácia (que hoje faz parte da Croácia) não tinha qualquer ligação geográfica ou sequer económica com o resto das possessões dos Habsburgos, a não ser pelo facto de constituir, pelo clima e pela localização, o destino de férias veranis predilecto das suas elites.
Nesse núcleo geográfico, económico e cultural mais desenvolvido, definido grosseiramente pelo triângulo que une as cidades de Viena, Praga e Budapeste, descobre-se que a Boémia está separada da Morávia (ambas ainda hoje constituintes da República Checa) por uma cadeia montanhosa e que a via natural de relacionamento dessas duas regiões para o exterior deveria ser o curso do Elba e não o Danúbio e que o seu porto de comércio marítimo inerente seria, por causa disso, o de Hamburgo no Mar do Norte e não o de Trieste no Adriático. A ligação desse núcleo com a província conhecida por Galícia passava por uma pequena região, uma portela conhecida por Silésia austríaca. A Galícia caracterizava-se também por ter uma fronteira interna – com a Eslováquia húngara – vincadamente definida pela natureza – a crista dos Cárpatos – e uma fronteira internacional – com a Polónia russa – deambulando a sentimento pelo meio da planície do Vístula. Quanto à Bukovina, no extremo oriental, essa encontrava-se naturalmente isolada das regiões ocidentais e meridionais que a deveriam ligar ao resto do Império, um mistério dos humores dos negociadores dos Tratados de Viena. Ao menos as terras que faziam parte do Reino da Hungria eram geograficamente muito mais homogéneas, sobretudo se atendermos à grande planície que rodeava o médio Danúbio e os seus grandes afluentes. A excepção mais significativa a essa homogeneidade era a Croácia, contudo indispensável para que a Hungria possuísse uma saída autónoma para o mar.
As preocupações com o amor-próprio dos húngaros constituem aliás uma explicação para que, à medida que o Século XIX progredia e se investia em infra-estruturas de transporte, as que se construíam pelo Império mostrassem importantes anacronismos: não havia ligações ferroviárias entre a Morávia e o norte da Hungria (que hoje constitui a Eslováquia); também não havia uma ligação ferroviária directa entre Viena na Áustria e Zagreb na Croácia, tinha que se passar primeiro por Liubliana na Eslovénia e mesmo até por Budapeste na Hungria, se o tráfego fosse de mercadorias; não havia ligações ferroviárias entre a Dalmácia e a Croácia (actualmente as duas regiões fazem parte da Croácia) e também não havia praticamente nenhumas entre a Dalmácia e a Bósnia. À medida que o Século XIX evoluía e que o processo de industrialização acentuava as vantagens da estandartização, o Império Austro-Húngaro dissociava-se dessa tendência, cultivando os seus particularismos regionais e elevando a burocracia daí decorrente a um patamar que se pretendia ser de excelência. Recorrendo a um outro exemplo, enquanto as restantes potências europeias se encaminhavam para uma homogeneidade progressiva dos seus equipamentos e armamentos militares, fardando-se por igual e empregando o mesmo armamento, um traço identificativo cultivado pelos austro-húngaros continuava a ser a variedade dos seus uniformes militares…
Ao contrário do Império russo, de que apenas um censo (o de 1897) chegou a ter lugar, no Império Austro-Húngaro realizaram-se vários e as variações de uns para outros alertam-nos para os critérios tendenciosos como eram efectuados, favorecendo umas nacionalidades em detrimento de outras. O critério que servia de base à classificação era o idioma, um conceito que, excluída a hipótese do uso de mais de um, se prestava, como se imagina, a classificações criativas. O correspondente britânico do jornal The Times em Viena, muito provavelmente neutro quanto às disputas nacionais do Império Austro-Húngaro viu-se classificado nesse censo como alemão, por ser essa a língua que usava quando ia às compras… Mas, exceptuando alguns casos mais bizarros, especialmente na Hungria, onde a contagem das aldeias eslovacas tinha tendência a minimizá-las, os resultados dos censos nas regiões rurais, que constituíam uma substancial maioria da população e onde essa população tendia a exprimir-se num só idioma, são consideradas aceitáveis. O mesmo já não acontecia com os das cidades, onde a população era multilingue e tendia a responder em função da valia social dos idiomas que empregava. Os censos reportavam maiorias germânicas em cidades como Praga e Budapeste que, como os factos posteriores a 1918 comprovaram, rapidamente desapareceram porque muitos dos que as constituíam não passavam de checos e húngaros que reassumiram o seu idioma materno mal o alemão perdeu a sua valia social. Outros assimilados a alemães eram os judeus cuja língua materna era, na esmagadora maioria das vezes, o iídiche, foneticamente aparentada com o alemão, mas que não aparecia identificada separadamente nos censos, apesar do judaísmo ser a religião de cerca de 4,5% da população do Império.
Talvez o mais aborrecido de tudo aquilo que se escreveu até aqui sejam mesmo os resultados dos censos. No de 1910, o último que teve lugar antes do desmembramento do Império, numa população de 51,4 milhões de habitantes com que ele então já contava (praticamente dobrou a população que havia um século antes: 27 milhões), 12 milhões foram classificados como alemães (na realidade, e como se viu acima, declararam falar predominantemente o alemão em contactos sociais), 10 milhões como húngaros, 6,4 como checos, 5,0 como polacos, 4,4 servo-croatas, 4,0 ucranianos, 3,2 romenos, 2,0 eslovacos, 1,3 eslovenos e 0,8 italianos. A completar, uma maioria substancial confessava-se católica (39,4 milhões – 76,6%), mas havia minorias significativas de protestantes e ortodoxos (4,6 e 4,5 milhões), além de 2,3 milhões de judeus espalhados por todo o Império e ainda 700 mil muçulmanos no Sul. Claro que estes censos são genuinamente democráticos no sentido em que contam pessoas, não distinguindo o seu estrato económico cultural e social que influencia normalmente a sua consciência política e que na Austro-Hungria se tornava num sinónimo de consciência nacional. Havia nacionalidades que possuíam as suas próprias elites (alemãs, húngaras, polacas, até mesmo checas e italianas), outras não, as elites que existiam eram forçadas a exprimir-se - e assim contabilizadas - num outro idioma; as eslovacas, por exemplo, em húngaro; as romenas, em alemão. Mas, mesmo ficando-me por aqui, suponho que deixei algumas pistas que podem explicar porque a Europa Oriental evoluiu como evoluiu, não só no período entre as duas guerras (1919-1939), como nos anos que se seguiram (1945-1989), quando uma nova potência imperial, dessa vez a Rússia, a veio de novo hegemonizar.

04 fevereiro 2013

O ORGULHO DA MARINHA REAL HÚNGARA

A Hungria actual situa-se bem no centro da Europa, longe de qualquer costa (acima). Há cem anos atrás porém, o Reino da Hungria, um dos dois constituintes principais do Império Austro-Húngaro, tinha aspirações e responsabilidades no jogo estratégico que então se jogava no Mediterrâneo, em concorrência com italianos, franceses, britânicos e turcos. E em aliança com os austríacos, que a relação entre as partes constituintes do Império era tudo menos simples…
O couraçado Szent István (Santo Estêvão, primeiro rei da Hungria, responsável pela sua conversão ao cristianismo), a que nos referimos neste poste, sendo um dos quatro principais navios da Armada austro-húngara durante a Primeira Guerra Mundial¹, era um navio húngaro, construído entre 1912 e 1914 num estaleiro húngaro (acima), financiado pelo orçamento húngaro e, depois de entrado ao serviço em 1915, guarnecido sobretudo por marinheiros húngaros…
A história operacional do Szent István é que não foi brilhante. Acabou afundado por dois torpedos lançados por uma lancha rápida italiana no Adriático em 10 de Junho de 1918. O que o tornou memorável foi o facto de ter sido o primeiro couraçado cujo afundamento foi filmado. Refira-se que apenas terão morrido 89 homens da sua guarnição de 1.094, um número reduzido, que se atribuiu ao facto de, naquela marinha, ser obrigatório que os recrutas aprendessem a nadar…

¹ Os outros três couraçados austriacos tinham os nomes de Tegetthoff, Viribus Unitis e Prinz Eugen.