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28 maio 2024

A REVOLUÇÃO DE 28 de MAIO (uma outra...)

(Republicação)
Esta (outra) Revolução de 28 de Maio ocorreu em 1944 e no Equador. Os equatorianos crismaram-na de La Gloriosa, mas a sua notoriedade, na época e depois, permanece pequena fora do país - terá sido mais uma daquelas exuberantes mudanças de regime em que a América Latina era tão pródiga e, ainda por cima, ocorrida num país que não é dos mais destacados do subcontinente. Sintomático disso, e porque as atenções à situação internacional se dispersavam pelos vários teatros da grande guerra em curso, a notícia só apareceu nos nossos jornais daí por dois dias, tendo feito um percurso estranhamente sinuoso, dada como oriunda de Amesterdão (na Holanda ocupada), dando como fonte o "serviço britânico de informações" e no fim assinada pela agência noticiosa alemã D.N.B. O local da inserção da notícia, adequado à irrelevância que La Gloriosa mereceria aos portugueses, era o canto inferior direito da última página do jornal de dia 30 de Maio.

23 agosto 2022

OS GOLPES DE ESTADO NAS REPÚBLICAS DAS BANANAS

23 de Agosto de 1947. No Equador regista-se um golpe de Estado encabeçado pelo coronel Carlos Mancheno Cajas, antigo ministro da Defesa, que leva à deposição e à partida para o exílio no Chile do presidente José Maria Velasco Ibarra. Esta é a notícia da United Press. E no entanto, comprovando a percepção que na América Latina ocorriam golpes de Estado com uma frequência inusitada, dez dias depois dos acontecimentos o novo regime do presidente Mancheno vem a ser derrubado por outro golpe de Estado, promovido por outros militares que devolveram o poder ao anterior vice-presidente Mariano Suárez. A paródia abaixo, um golpe de Estado que vinga mas depois deixa de vingar, e todos aderem com igual entusiasmo tanto a um lado quanto ao outro, consta de uma página de uma aventura de Tintin (A Orelha Quebrada, de 1937). E refira-se também, por curiosidade e a propósito do epíteto que estes países receberam (repúblicas das bananas), que, nos anos imediatamente seguintes ao acontecimento, mais precisamente entre 1948 e 1952 as exportações equatorianas de bananas para os Estados Unidos irão decuplicar, passando de 2 para 20 milhões de dólares.

26 julho 2022

A CONFERÊNCIA DE GUAYAQUIL

26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da  América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.

31 julho 2021

UM CONFLITO SUL AMERICANO COMPLETAMENTE OFUSCADO PELA OPERAÇÃO BARBARROSSA

31 de Julho de 1941. A assinatura de um armistício suspende o conflito fronteiriço entre o Peru e o Equador que eclodira no princípio desse mês, por questões do traçado das fronteiras entre aqueles dois países sul-americanos. Do ponto de vista militar, o desfecho foi claramente favorável ao exército peruano, do qual alguns oficiais aparecem na fotografia acima, impantes, sob a sua bandeira. O conflito terminou com uma centena de mortos do lado peruano e um pouco mais de um milhar do lado equatoriano, o que, pela sua gravidade, teria merecido toda uma outra atenção do resto do mundo, não estivesse o Mundo mergulhado simultaneamente em plena Segunda Guerra Mundial, especialmente quando a Alemanha acabara de invadir a Rússia a 22 de Junho de 1941. Nessas outras paragens, o número de mortos cifrava-se pelos milhares, mas a cada dia que passava. Assim, por uma questão de prioridades jornalísticas, e tendo ainda que atender às outras frentes da guerra mundial, a atenção que o Diário de Lisboa dedicou ao conflito sul-americano ao longo do (quase um) mês que durou cingiu-se àquela notícia acima, do lado esquerdo, dedicada ao apelo que a Argentina endereçara aos dois beligerantes para a cessão das hostilidades, notícia que foi publicada no dia 25 de Julho de 1941. Os leitores do jornal nem souberam da assinatura do armistício de que hoje se cumpre o 80º aniversário.

17 dezembro 2019

A INDEPENDÊNCIA DA (GRANDE) COLÔMBIA

17 de Dezembro de 1819. Simón Bolívar proclama-se presidente da Colômbia. Contudo, a Colômbia de que Bolívar se proclamou presidente - veja-se o mapa acima - era muito mais extensa - quase o dobro da área - do país que hoje mantêm o mesmo nome. Para os distinguir aqueloutro país costuma ser designado por Grande Colômbia e incluía, para além da Colômbia actual, também a Venezuela, o Equador e o Panamá. Essa Colômbia foi um projecto quimérico que subsistiu apenas por uma dúzia de anos (1819-1831) e que veio depois a fragmentar-se nas unidades constitutivas que já existiam no traçado da administração colonial espanhola. Tivesse subsistido, esse hipotético país contaria hoje com quase 100 milhões de habitantes (aproximadamente o dobro da população colombiana) e estaria entre os quinze maiores países do Mundo em termos demográficos (o segundo hispânico, depois do México). Pelo paralelo entre a evolução da América colonial espanhola e a da América colonial portuguesa, este exemplo demonstra que pugnar pela sua unidade foi um dos feitos mais importantes (e, por sinal, dos menos valorizados) da história do Brasil do século XIX.

08 março 2008

TORTILLAS PARA OS DALTON

Que as relações fronteiriças latino-americanas são tradicionalmente assuntos bastante delicados já se sabia. No álbum Tortillas Para os Dalton, e precisamente por causa deles, o México esteve em vias de declarar guerra aos Estados Unidos e, no entanto, por essa vez, a culpa que os famosos bandidos estivessem em território mexicano nem tinha sido dos culpados tradicionais destes enredos - os Dalton ou, mais genericamente, o governo dos Estados Unidos.
O culpado fora um bandido mexicano chamado Emílio Espuelas (abaixo) que se especializara em raptos e resgates e que, ao avistar do outro lado da fronteira uma carruagem guardada (que levava os Dalton), julgou que ela transportava algo de precioso e resolveu fazer um raide ao outro lado da fronteira para a roubar. E foi assim que os famosos primos Dalton tiveram direito à sua primeira verdadeira experiência turística intercultural!
Gastronomicamente, a experiência parece ter-se revelado estimulante, especialmente para Averell Dalton (abaixo), que aprendeu a fazer a sua pergunta canónica (Quando é que se come?) no idioma espanhol (Cuacu mé kiki?), além de ter descoberto novos pitéus insuspeitados da culinária mexicana (P: Como é que se chama esta crosta deliciosa que está à volta dos frijoles? R: Chama-se tacho de barro, amigo...). Mas não nos desviemos do assunto…
Porque o assunto original girava à volta de relações fronteiriças delicadas, de incursões transfronteiriças, de raptos e de resgates, o que nos conduz directamente à Colômbia, à sua fronteira com o Equador, às FARC e à notícia, da semana passada, que o exército colombiano conduziu uma operação em território equatoriano* contra um acampamento das FARC donde resultou a morte de dezenas de guerrilheiros e de um dos seus dirigentes, Raul Reyes.
Mas o meu poste é dedicado ao tratamento informativo dado ao episódio pelo PCP que é digno, pela imaginação, de um René Goscinny. Assim, do ataque colombiano ao acampamento dos guerrilheiros, quais escuteiros travessos, resultou aquilo que é classificado como o assassinato de Raul Reyes, que devia andar por aquelas paragens de violão, feito animador cultural para cantar à noite junto à fogueira. E, claro, concluí-se que a culpa foi toda dos norte-americanos!
As FARC já são hoje mundialmente conhecidas: trata-se de uma organização criminosa que se rodeia de um papel celofane de ideologia revolucionária, e que demonstra ter um enorme poder, daqueles que só se conseguem adquirir num país que está tão desestruturado como a Colômbia. Para essa desestruturação contribuem os norte-americanos consumindo cocaína, mas não propriamente o seu governo, por muito que isso custe aos redactores do PCP
Depois de acabarem presos na primeira história em que aparecem, os Dalton são quase sempre representados em todas as aventuras seguintes envergando uma farda prisional às riscas amarelas e negras, frequentemente amarrados a grilhetas, obcecados pela evasão e unidos pelo seu ódio rábico a Lucky Luke. René Goscinny morreu em 1977, mas os seus Dalton parecem ser uma paródia cómica da malta do PCP que é encarregada de escrever aqueles textos…

* Facto que a Colômbia assumiu e pelo qual já pediu desculpa. Aliás, pelas notícias mais recentes, as divergências entre o Equador e a Colômbia parecem ter sido sanadas.

12 janeiro 2007

OUTRAS HISTÓRIAS RECENTES DA AMÉRICA LATINA


Muito mais discreta do que a sempre exuberante cobertura mediática da actuação de Hugo Chavez na Venezuela, vale a pena contar a história recente do Equador, onde no próximo dia 15 de Janeiro tomará posse um novo presidente, Rafael Correa, eleito na segunda volta das eleições presidenciais que tiveram lugar no passado mês de Novembro, geralmente colocado no centro esquerda do espectro político.

As vicissitudes da vida política equatoriana dos últimos anos, podem ser recuperadas a partir da deposição há sete anos, em Janeiro de 2000, do presidente democraticamente eleito dois anos antes, Jamil Mahuad, através de uma ampla coligação civil e militar, onde o braço civil era a organização representante das populações índias que promovia a agitação social nas ruas e o militar era a que se recusava a reprimi-la.

Num processo um pouco tumultuoso, apoiado pelos insurrectos e também pelo presidente cessante, numa sessão do Congresso (órgão legislativo) um pouco improvisada, assumiu a presidência o vice-presidente então em exercício, Gustavo Noboa, com o apoio discreto mas decisivo de um directório militar. Os Estados Unidos, ao não endossar a solução de uma tradicional Junta Militar latino-americana, forçaram a solução escolhida...

Claro que uma das funções primordiais do novo presidente foi a de organizar novas eleições presidenciais, que vieram a ser ganhas por Lúcio Gutiérrez, um ex-coronel e também um ex-membro da Junta Militar que não se veio a formar por ocasião da deposição de Mahuad. Ganhou com 55% dos votos, à esquerda, contra Álvaro Noboa, que é geralmente considerado como o homem mais rico do Equador.

O presidente Gutiérrez tomou posse em Janeiro de 2003 e a coligação que o elegera rapidamente se dissolveu, com acusações de corrupção envolvendo tanto o próprio presidente como sobretudo o seu antecessor, Gustavo Noboa. Em resposta, Gutierrez procedeu a uma substituição, que não é permitida constitucionalmente (como seria de esperar), dos Juizes do Supremo Tribunal…

Em Abril de 2005, tocou a vez de Gutiérrez ser deposto, naquela que ficou conhecida como a Rebelião dos Foragidos (uma designação depreciativa usada por Gutiérrez entretanto recuperada como bandeira pelos revoltosos). Assumiu o seu vice-presidente Alfredo Palácio. Foram reatados os processos de acusação contra Gustavo Noboa e contra Lúcio Gutiérrez, que entretanto haviam sido anulados.

Foi sob Alfredo Palácio que se organizaram as eleições que deram a vitória a Rafael Correa, com 57% dos votos, sobre, mais uma vez, Álvaro Noboa, o homem mais rico do país. Esta é uma história simplificada, sem análises, dos acontecimentos dos últimos anos no Equador. Nenhum presidente democraticamente eleito consegue terminar o seu mandato... Em animação, creio que não perde muito para a da Venezuela do mesmo período, embora o Equador produza muito menos petróleo…

Será essa a causa para que as menções ao Equador, e as preocupações demonstradas com a evolução da situação política no Equador, sejam em número muito inferior ao que acontece com a Venezuela na imprensa internacional? Ficará assim mais compreensível a tese que apresentei no poste anterior? Ou valerá a pena adicionar um outro exemplo doutro país em que haja um general Tapioca chapado?