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26 julho 2012

A NÃO-BATALHA DE VALMY

Rendendo-me incondicionalmente ao meu modismo favorito da colecção de dichotes em voga neste Verão de 2012, permitam-me evocar a Batalha de Valmy (Setembro de 1792) tal qual ela costuma ser apresentada canonicamente: tratou-se da primeira grande vitória dos exércitos revolucionários franceses na defesa do seu país após a Revolução de 1789 e perante a ameaça dos exércitos das monarquias europeias que queriam derrubar o governo revolucionário e reinstalar Luís XVI como monarca absoluto. Foi, acima de tudo, uma vitória da nova classe de soldados-cidadãos que, com uma outra motivação, lutavam em liberdade pela sua pátria e não por profissão pelos interesses do rei.
 As consequências políticas do Recontro de Valmy foram como se tudo aquilo tivesse acontecido… mas a verdade é que Valmy não aconteceu assim. Valmy é uma aldeia ignorada de um planalto ventoso (daí a presença do moinho que se tornou num ex-libris da batalha, como se aprecia no quadro inicial) situado a cerca de uns 50 km. a Oeste da cidade-fortaleza de Verdun (mapa acima). No mês anterior (Agosto), os invasores prussianos haviam dali desalojado os franceses. O comando francês terá escolhido a posição de Valmy por dar uma vantagem táctica à sua artilharia na sua disposição de ameaçar as linhas de reabastecimento do inimigo e assim forçar um embate com o exército prussiano.

Apesar de haver estimativas muito díspares, provavelmente os exércitos equivaler-se-iam em efectivos quando do embate. Mais importante é que, entre os franceses, as unidades de cidadãos voluntários que viriam a entrar na lenda pela sua interpretação de canções revolucionárias (como a de cima) durante a batalha, eram uma pequena minoria. Aliás, nem foi preciso que a infantaria mostrasse outras virtudes que não as vocais, porque o recontro se tranformou num duelo de artilharias, comprovado pela percentagem ínfima de baixas dos dois lados: menos de 1% dos efectivos engajados. Os prussianos, considerados o melhor exército da época, retiraram e só isso veio logo a tornar-se na Vitória francesa!
Donde se conclui que, na Guerra, é mais importante a perspectiva colectiva do que terá acontecido do que aquilo que de facto aconteceu...

Nota: o quadro inicial intitula-se A Batalha de Valmy, data de 1826 e foi pintado por Horace Vernet (1789-1863).

06 janeiro 2012

A CABEÇA REVOLUCIONÁRIA E A BARRIGA CONSERVADORA

Que eu saiba, terá sido Lenine o primeiro a atribuir um posicionamento político a uma das diferentes partes do corpo quando empregou aquela sua famosa metáfora de que os soldados russos em 1917 haviam votado pela Paz com os seus pés… A fotografia acima pode ser considerada uma elaboração mais sofisticada desse estilo de metáfora. Podemos ver um garboso marinheiro da II República Espanhola (1931-1939). Essa identificação torna-se possível por causa do nome do navio do marinheiro que, como é tradicional, aparece no seu chapéu: Libertad.

O Liberdade era um cruzador (abaixo) que fora baptizado originalmente por Príncipe Alfonso mas que, com o advento da República, mudara de nome. Sinal de que a sua tripulação justificará os seus pergaminhos, insubordinar-se-á contra os seus oficiais que se haviam pronunciado por Franco, para regressar ao lado republicano em 1936. Na fotografia contudo, comprovando que as revoluções, começando pelo chapéu e pela cabeça, demoram a consolidar-se pelo resto do corpo, nota-se que a fivela do cinto do marinheiro ainda possuía a coroa da monarquia…

17 agosto 2008

AS AUTO-CARAVANAS SOVIÉTICAS

O T-54/55 da fotografia acima, é capaz de ter sido uma das melhores realizações da saudosa engenharia soviética. Entre os países do Bloco Socialista de pós-guerra, e embora isso não acontecesse todos os anos, de quando em vez criava-se uma bela oportunidade para que um grande grupo de cidadãos soviéticos saísse em excursão para visitar um dos países estrangeiros irmãos, viajando naquelas impressionantes e robustas auto-caravanas de cima…
Estão quase a perfazer-se 40 anos que, aproveitando os calores de Agosto, o destino turístico escolhido pelos excursionistas foi a lindíssima cidade de Praga (acima). O amor à verdade manda referir que nem tudo correu bem: os condutores das auto-caravanas, em vez de estacionarem nos parques dos arredores, ficaram tão deslumbrados com a beleza da cidade que trouxeram as auto-caravanas para o centro, onde provocaram alguns problemas de trânsito…
Mas, no saldo global, a excursão acabou por se revelar um enorme triunfo do campo socialista, ao demonstrar assim toda a superioridade da actividade turística quanto ela obedece a um planeamento central. Em contrapartida, no Ocidente, os exércitos de turistas ingleses e alemães que todos os Verões vinham para o Sul, muitos deles nas suas auto-caravanas frágeis (como a VW Combi da fotografia abaixo), nada conseguiam em relação às duas ditaduras ibéricas…
Claro que terá sido só por inveja e despeito daquele enorme sucesso socialista que os operadores turísticos ocidentais criaram depois o famoso cartaz turístico como os dizeres: Visite a União Soviética antes que a União Soviética o visite a si. Há pela blogosfera alguns blogues que são dados a efemérides. Desses, estou a pensar num ou dois que, incompreensivelmente e quase apostaria, vão deixar passar em claro a comemoração dos 40 anos de sucesso daquela grande excursão socialista…

02 outubro 2007

CHATEIA-ME SER SEQUESTRADO, PÁ!

Em Janeiro de 1984, Margaret Thatcher, então primeira-ministra britânica e que se confessava uma grande fã da série de TV Yes, Minister, escreveu um pequeno sketch teatral para a série em que interveio (no papel daquilo que ela verdadeiramente era - Primeira-ministra) conjuntamente com os dois protagonistas da série, Paul Eddington (no centro da fotografia abaixo, que fazia de James Hacker, o Ministro dos Assuntos Administrativos) e Nigel Hawthorne (Sir Humphrey Appleby, o Secretário Permanente desse Ministério).
O conteúdo do sketch (pode ser lido aqui) andava à volta da decisão de Thatcher de libertar a administração da praga dos economistas (no fim descobria-se que Sir Humphrey, como não podia deixar de ser, até tinha formação económica…), mas não tem grande graça e o que nele há de melhor é a curiosidade da sua autora e actora. Sem qualquer modéstia, há que reconhecer que mais de oito anos antes, em Novembro de 1975, já um primeiro-ministro português (abaixo), encenara e protagonizara um sketch daqueles de teatro livre onde, com a ajuda espontânea dos jornalistas, tinha tido muito mais piada:
PM: Primeiro-ministro português, Almirante Pinheiro de Azevedo (acima); J1,J2,J3,J4, …, Jn: Vários jornalistas presentes no local

PM (enquanto caminha) – … farto de brincadeiras, OK?! Brincadeiras, hã?!
J1 – …
PM (detendo-se) – Estou. Fui sequestrado. Já duas vezes… Já chega, não gosto de ser sequestrado! É uma coisa que me chateia, pá!...
J2 (de voz solene e arrastada) – Está convocada uma manifestação de trabalhadores agora para as quinze horas, aqui em frente ao palácio de Belém…
PM (interrompendo-o) – Pelo que o senhor presidente da república me falou nisso, dizendo que estava feita… ou convocada uma manifestação… Eu julgo que é de apoio ao senhor presidente da república para… contra o sexto governo que é o costume deles! (recomeça a caminhar)
J3 – Senhor almirante, podia-me dizer alguma coisa sobre a situação militar no país neste momento? Tem algumas informações?
PM (detendo-se novamente) – Está… Está… Tanto quanto eu sei, continua… na mesma: primeiro fazem-se plenários e depois é que se cumprem as ordens… (pausa) É a situação militar! Primeiro plenários, depois é que se cumprem as ordens.
J4 – O conselho de ministros não voltará a reunir-se portanto enquanto não houver uma decisão do presidente da república?
PM – Pois não… Pois não…
J5 – E o senhor primeiro-ministro está solidário inteiramente com o plenário do conselho de ministros?
PM – Eu? Estou.
J6 – Isto passa pela manutenção do senhor general Otelo de Carvalho
PM tem nada que ver com o general Otelo de Carvalho! O general Otelo de Carvalho não me interessa coisa nenhuma!... O senhor general Otelo de Carvalho, pessoalmente, não me interessa nada…
J7 – Então como comandante do COPCON, senhor almirante?
PM – Também não! Não me interessa nada…
J8 – Mas a resolução…
PM (tentando emendar o desabafo) – Acho que é uma pessoa que tem o seu lugar na revolução, uma pessoa a quem eu devo muito, sou amigo dele, mas não me resolve coisa nenhuma… O general Saraiva de Carvalho não me resolve coisa nenhuma…
J9 – Quem poderá resolver, senhor primeiro-ministro?
PM – O senhor presidente da república!
J10 (em surdina) – Senhor primeiro-ministro, esta reunião terá continuidade esta tarde, ou foram dados por findos, portanto, os contactos do primeiro-ministro com o presidente da república?
PM (coçando-se, franzindo-se, inclinando a cabeça para tentar ouvir a pergunta) – Hã?!
J10 – Se os contactos iniciados esta manhã se prolongarão pela tarde?
PM – Com o general Costa Gomes*? Ah, pois é natural que sim! E até depois de amanhã e mais depois de amanhã… (sorrindo ironicamente) isto não é fácil de resolver, é difícil. Vocês já viram agora o governo a suspender a sua actividade**? Realmente, é assim fora do normal…
J11 – Houve algum facto particular que ontem à tarde os levasse a tomar esta posição?
PM – Ontem à tarde?
J11 – Sim! Que depois o levou à noite a tomar esta decisão...
PM – Eu sou muito franco, como sabem, vocês podem fazer as perguntas todas. Ontem à tarde? (olhando para cima) Não, não me recordo de nada assim que me irritasse…
J11 – Seria a manifestação dos padeiros?...
PM – Nããão!... Essa dos padeiros concerteza… Sim, talvez, e daí talvez! Talvez a frequência das manifestações tivesse… no subconsciente dos ministros levantado esse problema. Tem razão! Olha, não me lembrava da dos padeiros…
Vários – …
PM – (recomeçando a caminhada) E eu agora… É pá, vou almoçar pá!

Ao contrário da participação de Margaret Thatcher, a de Pinheiro de Azevedo ficou felizmente preservada e está disponível no You Tube. Infelizmente para a reputação que a comédia portuguesa poderia ter tido no Mundo, e ao contrário de Yes, Minister e Yes, Prime Minister, a série Chateia-me ser sequestrado, Pá! só teve um episódio…

* Presidente da República.
** O governo estava, por assim dizer, em greve...

01 julho 2007

O 11 de MARÇO de 1975 e o MINI BALEADO

Começo por explicar como este poste surge por acidente. A ideia original era falar de perseverança – aí hei-de voltar noutro poste posterior – mas essa história começava pelas consequências de um episódio ocorrido durante a tentativa de golpe de estado de 11 de Março de 1975 que, pelos vistos, anda completamente desaparecido da blogosfera e da internet, em cronologias como esta feita por Daniel Oliveira há mais de três anos, ou em páginas institucionais como a do site histórico da RTP especialmente dedicado à cobertura televisiva daquele acontecimento, assim como outras páginas.
O episódio omisso a que me refiro é daqueles indesmentíveis na sua substância, porque foi filmado por uma equipa de televisão a trabalhar para uma cadeia estrangeira (salvo erro, francesa) que estava nas proximidades da porta de armas do então RAL 1* durante os acontecimentos. O que recordo do filme, que só anos depois passou em Portugal, mostra um Mini com dois ocupantes (um condutor e uma acompanhante) que abranda e pára perante uma barricada montada por militares diante do quartel. Não se percebe o que se terá passado enquanto o carro esteve parado, há várias versões sobre a troca de palavras…

As imagens de maior impacto surgem depois de fazerem sinal ao Mini para prosseguir, quando, à medida que o carro se afastava se começam a ouvir tiros esparsos até que o Mini acaba por parar. As câmaras aproximam-se dele e vê-se os dois ocupantes cobertos de sangue enquanto ainda se consegue ouvir da assistência um desagradabilíssimo Estes já não fazem mal a ninguém… Essas imagens, de origem estrangeira mas referentes a um importante acontecimento passado em Portugal, permaneceram por anos desconhecidas dos portugueses, num Portugal que se orgulhava do fim da censura e da liberdade da informação…
Em contraste, essas mesmas imagens foram transmitidas na altura por quase todas as televisões da Europa ocidental, causando ao PREC um verdadeiro desastre de relações públicas: o condutor morrera e a acompanhante ficara gravemente ferida. Numa tentativa de golpe que, apesar do espectáculo, provocara apenas, feliz e oficialmente um morto (o reverenciado soldado Luís, a última vítima do fascismo…) a omissão de 50% dos mortos resultantes dos acontecimentos, na pessoa de um transeunte civil morto à frente de quase todos os telespectadores europeus, foi uma decisão ridícula.

Torna-se penosamente ainda mais ridícula 32 anos depois. Já aqui me referi a como, não reconhecendo de maneira nenhuma o mérito, reconheço o esforço de Adelino Gomes em permanecer o guardião de uma certa verdade de certos episódios jornalísticos que ele cobriu de maneira particularmente facciosa, como é este caso do acontecimentos à volta do RAL 1 em 11 de Março de 1975. Ler-se o site da RTP a eles dedicado – com a inevitável fotografia e depoimento de Adelino Gomes – é extremamente instrutivo sobre uma forma de preservação de uma certa maneira de contar toda aquela história...
Escrito mais de 25 anos depois dos acontecimentos, mas preservado à época nas partes principais (como que cheirando a naftalina), todo o texto não esconde as suas simpatias pelo lado vencedor (que a menção a um assassinato de um civil por um destacamento de soldados demasiado nervosos do lado vencedor iria estragar…) e termina referindo-se a um irónico encontro entre Diniz de Almeida e o capitão dos pára-quedistas, como tudo se tratasse de um enredo de um western, com cow-boys e índios, onde nem vale a pena perder tempo a fixar o nome dos maus – no caso, o capitão dos pára-quedistas

Do Mini baleado, como de resto acontece nas outras referências que visitei, nem sombra… Foram omissões como esta que transformaram depois todo este assunto numa bandeira da direita (do jornal O Diabo) e seguidamente numa vitória sua, quando os responsáveis pelos disparos acabaram por ser levados a tribunal e julgados. Mas parece que há pessoas a quem nem mesmo a via experimental - deixem para lá o rigor histórico... - parece ensinar alguma coisa…

* A unidade só passou a designar-se por RALIS no seguimento dos acontecimentos do 11 de Março de 1975. Aliás, uma das anedotas imediatas dos acontecimentos foi a do seu resultado: RAL 1 Spínola 0.

Quero agradecer a fotografia central – retirada do blogue A Catedral.

04 março 2007

O REVISIONISMO NO PREC?

É de saudar a edição de Os Dias Loucos do PREC, um conjunto de crónicas que acompanham através da imprensa diária da época os oito meses e meio de Processo Revolucionário Em Curso que medeiam entre o 11 de Março de 1975 e o 25 de Novembro de 1975. Se bem me lembro, as crónicas foram publicadas quotidianamente no Público ao longo de 2005, foram compiladas e editadas em livro em Abril de 2006, mas só recentemente o comprei.

Mas a intenção deste modesto poste é a de assinalar um pormenor que, embora possa ser de somenos importância, parece indiciar um descarado processo de revisionismo histórico no PREC, associado ao real significado das siglas do partido na altura designado por PRP-BR. Pelos vistos, de acordo com a menção no referido livro, suportada pelo actual site da organização, o significado do acrónimo quer dizer Partido Revolucionário do Proletariado – Bases pela Revolução.
Eu posso aceitar, e até saúdo, que Isabel do Carmo tenha deixado de prescrever processos violentos de apropriação do poder para se dedicar a prescrever processos mais suaves para a perda de peso. Não compreendo é que se queira renegar o passado da organização dando um significado à sigla BR que ela nunca teve: BR sempre correspondeu a Brigadas Revolucionárias, em concordância total com a metralhadora empunhada que constituía o símbolo do partido, reputado na época pelo seu desprezo pelas eleições burguesas.

Melhor que isso, é importante dar o relevo que compete ao blogue TóColante, que neste caso representa um verdadeiro serviço público de uma outra maneira de dizer Não apaguem a memória…, e de onde retirei os autocolantes de época que afixei neste poste e que comprovam, para além de qualquer dúvida, a farsa revisionista que se pretendeu montar. Porque, pior do que ter pretendido no passado endireitar a sociedade à metralhadora, é pretender agora que isso nunca aconteceu…
E é incompreensível que tanto José Pedro Castanheira (n. 1952) como, sobretudo, um veterano do jornalismo como Adelino Gomes (n. 1944), que têm, de certeza, memórias próprias de todo o período, se deixem embalar por uma tentativa tão canhestra de reescrever um pequeno episódio do passado próximo de que muitos milhares ainda se devem lembrar. É sobretudo para isso que o livro que lançaram devia existir…

Não são demais os meus agradecimentos ao TóColante e à Sofia Loureiro dos Santos.

07 fevereiro 2007

O XII FESTIVAL RTP DA CANÇÃO

O título deste poste deve ser lido com a mesma ênfase com que se diz XII Congresso de um Partido Comunista Qualquer, porque militância revolucionária foi do que mais houve nesse hoje injustamente esquecido Festival da Canção de 1975, a começar pela apresentação, a cargo de José Nuno Martins e Maria Elisa, conforme documenta a fotografia abaixo (a Maria Elisa é a mesma que hoje apresenta os Grandes Portugueses – está um bocadinho mudada de estilo, não está? Os anos não perdoam…)
Com canções com nomes tão castiços como O Pecado Capital, Alerta!, A Boca do Lobo, Com uma arma, com uma flor ou Batalha-Povo, ainda não foi daquela vez que o dito povo participou nas escolhas das canções mas antes – num verdadeiro assomo do leninismo tão na moda na altura - uma vanguarda esclarecida da classe dos espectadores, composta pelos autores da música e letra das canções concorrentes que votaram entre si democraticamente a escolha da canção vencedora.

E tiveram bom gosto, porque escolheram uma canção, Madrugada, cantada por Duarte Mendes (na gravura (*) do início do poste), que considero a canção mais bonita de entre todas as que ganharam os festivais da canção enquanto prestei atenção ao evento. Contudo, a canção que eu pretendo evocar é uma outra, Alerta!, cantada por José Mário Branco (abaixo), com um ritmo típico de PREC, que, quem dela se lembra, com certeza já esqueceu do risco que se correu que essa mesma canção representasse Portugal no Festival da Eurovisão, porque foi neste festival que ela foi lançada…
É que Alerta! ficou em 5º Lugar e, retrospectivamente, julgo que talvez tivesse representado na Eurovisão de forma muito mais fiel, Portugal, os portugueses e o ambiente de manicómio colectivo que por cá grassava (**)… Para quem não conheça a música, aqui deixo a letra (invoca a paz mas inclui ao todo 50 pontos de exclamação(!), que aquela época não se prestava a hesitações ou a terceiras vias... – Vasco Gonçalves dixit!) Fica um pedido final: alguém pode pôr este magnífico Alerta! do José Mário Branco no YouTube?

Adenda de 4 de Julho de 2009: Cá está ele!

ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
PELO PÃO E PELA PAZ
E PELA NOSSA TERRA
PELA INDEPENDÊNCIA
E PELA LIBERDADE
ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
PELO PÃO QUE LHES ROUBA A BURGUESIA
QUE OS EXPLORA NOS CAMPOS E NAS FÁBRICAS
OPERÁRIOS, CAMPONESES HÃO-DE UM DIA
ARREBATAR O PODER À BURGUESIA
ABAIXO A EXPLORAÇÃO!
PELO PÃO DE CADA DIA!
POIS CLARO!
PELO PÃO E PELA PAZ
E PELA NOSSA TERRA
PELA INDEPENDÊNCIA
E PELA LIBERDADE
ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
SÓ TEREMOS A PAZ DEFINITIVA
QUANDO ACABAR A EXPLORAÇÃO CAPITALISTA
CAMARADA SOLDADO E MARINHEIRO
LUTEMOS JUNTOS PELA PAZ NO MUNDO INTEIRO
SOLDADOS AO LADO DO POVO!
PELA PAZ NUM MUNDO NOVO!
POIS CLARO!
PELO PÃO E PELA PAZ
E PELA NOSSA TERRA
PELA INDEPENDÊNCIA
E PELA LIBERDADE
ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
PELA TERRA QUE LHES ROUBA ESSA CANALHA
DOS MONOPÓLIOS E GRANDES PROPRIETÁRIOS
CAMPONESES, LUTAM P'LA REFORMA AGRÁRIA
P'RA DAR A TERRA ÀQUELES QUE A TRABALHAM
REFORMA AGRÁRIA FAREMOS!
A TERRA A QUEM A TRABALHA!
POIS CLARO!
PELO PÃO E PELA PAZ
E PELA NOSSA TERRA
PELA INDEPENDÊNCIA
E PELA LIBERDADE
ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
PELA INDEPENDÊNCIA NACIONAL
CONTRA O DOMÍNIO DAS GRANDES POTÊNCIAS
FORA O IMPERIALISMO INTERNACIONAL
QUE TEM NAS MÃOS METADE DE PORTUGAL
ABAIXO O IMPERIALISMO!
INDEPENDÊNCIA NACIONAL!
POIS CLARO!
PELO PÃO E PELA PAZ
E PELA NOSSA TERRA
PELA INDEPENDÊNCIA
E PELA LIBERDADE
ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
NÃO HÁ POVO QUE TENHA LIBERDADE
ENQUANTO HOUVER NA SUA TERRA EXPLORAÇÃO
LIBERDADE NÃO SE DÁ SÓ SE CONQUISTA
NÃO HÁ REFORMA BURGUESA QUE RESISTA
DEMOCRACIA POPULAR!
E DITADURA PROLETÁRIA!
POIS CLARO!
PELO PÃO E PELA PAZ
E PELA NOSSA TERRA
PELA INDEPENDÊNCIA
E PELA LIBERDADE
ALERTA! ALERTA!
ÀS ARMAS! ÀS ARMAS!
ALERTA!
(*) As fotografias são todas a preto e branco para não haver cedências à superficialidade da estética burguesa...
(**) E ficar igualmente num daqueles três lugares do fim, como de costume...

27 novembro 2006

OS MILITANTES MELÓMANOS

Dois acontecimentos recentes levaram-me a questionar qual seria a causa para que eu associasse a militância comunista a uma completa falta de ouvido. Eu até conheço e gosto de algumas das bonitas canções de Lopes Graça, o hino da União Soviética (agora da Rússia) é um dos mais bonitos do mundo e não descortinava, assim à primeira vista, as razões para que atribuísse ao comunismo uma banda sonora de tão baixa qualidade.

E depois fez-se luz! Com o centenário do nascimento de António Gedeão, voltou-se a ouvir a Pedra Filosofal cantada por Manuel Freire. Ora a Pedra Filosofal, apesar de se ter inserido no espírito radiofónico progressista do PREC, é uma música anterior a ele (1970), doce e em ritmo de balada, desajustada das cantigas de intervenção que depois ficaram em voga.

Com ela, lembrei-me de um episódio de há 30 anos em que um colega meu, simpatizante comunista, quando me falava das suas canções favoritas, mencionou a Pedra Filosofal, que eu na altura não conhecia pelo título, o que o fez trautear a melodia. Os dois primeiros versos ainda saíram de acordo com as harmonizações originais de Manuel Freire:

Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida

Mas à terceira estrofe (Tão concreta e definida) o cantor, melhor militante que melómano, já a cantava de acordo com o ritmo compassado e grave de uma boa cantiga de intervenção, a que se juntava a veemência de um Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha d´aço… ou então Fora com a pança doutoral! Igualdade e justiça social!...

Para que conste, apesar de tudo, percebi de que música se tratava… Mas aí ficou fixada a ideia, o preconceito cá ficou, nunca mais discuti música com comunistas ou se calhar discuti mas música e comunismo são tópicos independentes, até recentemente ter lido algures aqui pela blogosfera que, a respeito da polémica associada à extinção da Festa da Música, também Manuel Carvalho da Silva da CGTP se manifestava contra essa extinção.

Fiquei sobressaltado. Não por Carvalho da Silva estar contra, há 20 anos que, naquele mesmo cargo, ele está sempre contra e a rotina disso já não deve sobressaltar ninguém, mas porque a sua opinião pressupõe a existência de um gosto musical, muito afastada da sua imagem pública do interveniente nas sempre justas lutas dos trabalhadores. Fica desfeito o preconceito e feita a confissão: os comunistas podem ter ouvido musical!

O NOSSO GRANDE TIMONEIRO

É visível como as grandes diferenças culturais podem transformar gestos significativos para uma cultura em caricaturas noutra. Slogans políticos como o movimento das Cem Flores que farão todo o sentido na gramática da disputa política na China serão uma espécie de mariquice incompreensível pelos códigos usados no Ocidente. E distribuir livrinhos para brandir em manifestações colossais também não parece fazer sentido.

Ás vezes, embora o alcance do gesto fosse perfeitamente compreensível, como quando houve o anúncio que Mao tinha nadado não sei quantos quilómetros no rio Yangtzé como prova do seu vigor físico e em antecipação ao golpe que iria desencadear com a Revolução Cultural (1966), a escolha da forma de expressão não deixava, por isso, de ser positivamente bizarra para observadores ocidentais.

Mas isto não devia ser percebido pelos nossos movimentos maoistas da década de 70, nomeadamente entre os dirigentes do famosíssimo MRPP, que importavam os slogans do outro lado do mundo em formato pronto-a-vestir. Como resultado ainda hoje não consigo deixar de sorrir quando vejo Arnaldo Matos e me lembro que ele era tratado como o Grande Educador da Classe Operária

Muito mais discretas quanto à fonte de inspiração foram no entanto as cópias feitas por um outro político de um partido completamente diferente (embora vocacionado para reciclar ex-MRPPs...) que se lançou numa campanha autárquica começando por, imitando Mao, nadar no Tejo e dando como cor dominante à sua campanha o vermelho - que não é a cor identificativa do seu partido – mas que era a cor de referência da Revolução Cultural.

Embora a campanha fosse imaginativa – sobretudo exótica! – é bem possível que estivesse demasiado avançada para o seu tempo – arriscaria dizer que se fosse um movimento cultural teria sido um acontecimento! – e não lhe permitiu vencer as eleições. Mas – qual vocação! - continuamos a vê-lo regularmente todas as semanas feliz e, reutilizando a nomenclatura maoista, considerado como um Grande Timoneiro da opinião pública portuguesa…

25 agosto 2006

AS SIGLAS DO 25 DE ABRIL

Uma das causas porque o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) me deixa tantas saudades é por causa das siglas. Os documentos militares, provavelmente por serem feitos por militares que são homens de acção e não estão para perder tempo a escrever palavras completas, estão cheios de siglas* em que normalmente as NT (nossas tropas) se confrontam com o IN (inimigo). Depois do 25 de Abril e por causa do MFA (Movimento das Forças Armadas) a sociedade em geral começou a importar alguns desses aspectos da terminologia castrense e as siglas foram um deles.

No frenesim que se seguiu ao 25 de Abril o português médio foi submetido a uma doutrinação acelerada sobre siglas, a começar pelas dos partidos existentes, o PCP (Partido Comunista Português), o MDP/CDE (Ena! Logo seis letras! Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral), o PS (Partido Socialista, muitas vezes designado ao princípio por PSP, engano que devia irritar sobremaneira os socialistas) ou o MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado).

A aprendizagem também teve de se estender às colónias, porque os movimentos de libertação dos territórios africanos, até aí designados genericamente por terroristas ou turras, também tinham as suas siglas próprias: na Guiné, o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), em Moçambique, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e em Angola, que estava servida logo por três movimentos diferentes, FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

Depois, a partir de Maio de 74 com a Primavera, foi uma espécie do desabrochar das siglas, de organizações que se fundavam a sério e viriam a vingar como o PPD (Partido Popular Democrático) ou o CDS (Centro Democrático Social), outras que também pareciam também sérias mas não destinadas a vingar como o PCSD (Partido Cristão Social Democrata), outras que só se davam a conhecer pelas paredes, em cartazes como o PSDI (Partido Social Democrático Independente) ou só em pinturas como o PTDP (Partido Trabalhista Democrático Português).

Mas aquelas eram siglas que, apesar do uso do termo Social Democrático, se dirigiam à direita sociológica, coisa que continuava a existir mas que andava acanhada. Siglas modernas como deve ser eram as da esquerda como o MES (Movimento da Esquerda Socialista), a FSP (Frente Socialista Popular), o PUP (Partido de Unidade Popular), a LCI (Liga Comunista Internacionalista), o PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias) ou a LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária).

Mas o que era mesmo o último grito eram siglas com ML (Marxista-Leninista). Ele era o PCP-ML (Partido Comunista de Portugal – Marxista Leninista), o CARP-ML (Comité de Apoio à Reconstrução do Partido – Marxista Leninista), o CMLP (Comité Marxista Leninista Português), a OCMLP (Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa) ou a ORPC-ML (Organização Revolucionária Portuguesa Comunista – Marxista Leninista). Enfim, não será um exagero total considerar que cada grupo de amigos deu em politizar-se e arranjar uma sigla para o seu grupo…

E partido que quisesse mostrar que tinha organização (seguindo os comunistas…) tinha que ter também uma organização para a juventude e outra para as mulheres, com as siglas respectivas: UJC, UEC, MDJ, MDM, JS, JSD, JC, FEML, etc. A multiplicação de siglas nas mensagens a que os portugueses estavam sujeitos atingiu tais proporções que lhes era impossível compreender o significado político de tantas siglas.

O PCP foi o primeiro a aperceber-se disso e, logo no Verão de 74, quaisquer dos seus cartazes apelando à participação em manifestações apareciam assinados por mais de uma meia dúzia de siglas. Evidentemente que mais não eram do que extensões do próprio partido. Mas o que lhes interessava era dar a impressão que, por detrás de um extenso elenco de siglas, estava um enorme movimento popular.

Citando de memória uma convocatória para um comício nessa época teria uma meia dúzia de siglas: PCP, MDP/CDE, UJC (União da Juventude Comunista), UEC (União dos Estudantes Comunistas), MJT (Movimento da Juventude Trabalhadora), MDM (Movimento Democrático das Mulheres), MDJ (Movimento Democrático da Juventude) e CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses).

O PS, ainda incipiente e ingénuo, volta e meio era enrolado e lá emprestava o nome para a convocatória porque concordava com as razões expressas no cartaz para a realização do comício. O PCP ainda se podia permitir sonhar com a unidade da esquerda. Estava-se em Agosto de 1974. Spínola ainda era Presidente da República. Ainda faltavam oito meses para que a contabilidade dos votos (e dos deputados eleitos) substituísse a contabilidade das siglas…

* Na verdade, uma boa parte dessas siglas foram importadas da nomenclatura NATO (norte-americana).

29 maio 2006

OPERARIOS, CAMPONESES, SOLDADOS E MARINHEIROS!

É com um certo saudosismo onde se mistura o nostálgico e também o escarninho que se lêem estas proclamações grandiloquentes de Maio e Junho de 1974 onde, antes do PREC arrancar, todos estavam a fazer um curso intensivo de cultura e vocabulário político - revolucionário, de preferência.

Esta aqui, mais exaltada e estilizada do que o habitual, tresandava a MRPP*, e onde se nota que os redactores conheciam muito bem - possivelmente das suas leituras - as vicissitudes da revolução russa de Outubro de 1917, mas não sabiam observar a realidade social que os rodeava.

Mesmo atrasado, a força de trabalho do Portugal de 1974, já se distribuía quase na mesma proporção pelo sector primário (agricultura), secundário (indústria) e terciário (serviços). O mesmo para as Forças Armadas, onde para além do Exército e da Marinha, já havia sido criado o ramo da Força Aérea…

Enfim, nem tudo mudou… Continua a haver um Portugal político e um Portugal real, que segue o primeiro a uma distância respeitável. Que, por exemplo, está à espera da legislação regulamentadora que possa tornar concreta a aplicação das reformas à lei das rendas, anunciadas há tanto tempo, que o Portugal político já se esqueceu do assunto…

* Tenho de vos confessar a minha deficiência olfactiva: aquilo que tresandava a MRPP..., não era MRPP.Veja-se a caixa de comentários.

17 abril 2006

A ICONOGRAFIA DOS NOVOS TEMPOS

Todas as épocas precisaram dos seus ícones, dos seus mártires, gente normal que a morte catapulta para lugares de um destaque que a sobriedade depois percebe ser apenas fruto das circunstâncias.

Depois das consecutivas cerimónias dos Dezes de Junho da praça do império, das inúmeras cruzes de guerra a título póstumo, os dois rapazes deste cartaz representam do que mais aproximado disso se produziu, mas no quadrante contrário, depois do 25 de Abril de 74.

Aos martirologistas do PCP, com a sua Catarina Eufémia, o seu Dias Coelho, mais os episódios dos mortos do Tarrafal, só havia o MRPP para conseguir dar uma resposta satisfatória, com as figuras de Ribeiro Santos e de Alexandrino de Sousa, em que cada um deles foi vítima da violência de cada um dos extremos do espectro partidário.

Todos são episódios em que há que lamentar a perda de uma vida, normalmente jovem. E é também de lamentar o intenso aproveitamento político do ocorrido por parte dos organismos a que pertenciam os que morreram. No entanto, mau grado a distância temporal, as condições em que faleceram confere-lhes, a todos eles, algo de nobreza dos seus propósitos.

Levanta-se uma inquietação pela forma como estará a evoluir a nossa sociedade quando, em comparação e a par deles, alguns média populares querem fazer mártires modernos de episódios como aquele onde faleceu o futebolista Miklós Féher ou o actor Francisco Adam.

03 abril 2006

O JORNALISTA QUE COSTUMAVA ESTAR ALI POR ACASO

Hoje, entre os obituários por ocasião da morte do coronel Carlos Fabião, aparece um, a justo título, assinado pelo jornalista Adelino Gomes. Gomes, enquanto jornalista de televisão, saltou, de microfone em punho, das bancadas para o relvado onde se disputava a revolução.

A sua reportagem mais conhecida foi a de 11 de Março de 75, quando ele ia a passar – com uma equipa de reportagem completa, presume-se - junto ao aeroporto, por acaso, e se tornou repórter do ataque desencadeado pela unidade de pára-quedistas ao RAL 1.

As filmagens feitas, do diálogo travado entre os comandantes das duas forças, entre a autoconfiança demonstrada por Diniz de Almeida (do RAL 1) e os murmúrios titubeantes do oficial pára-quedista podem servir, ainda hoje, de resumo da história visível de todo o golpe. E puderam, na altura, servir de argumento psicológico demonstrativo de que lado estaria a razão.

Uma outra reportagem sua, menos conhecida, foi enviada de Luanda, em pleno Verão de 75, quando os três movimentos nacionalistas disputavam à bala a posse da cidade. A reportagem começa subitamente (Adelino Gomes começa por explicar que ia a passar por ali por acaso…) com um Unimog* com tropas portuguesas a imobilizar-se à frente de um edifício que estas começam a atacar a tiro e à bazucada enquanto nos explicam que naquele prédio está uma das sedes do MPLA.

Segue-se a retirada das tropas portuguesas e a evacuação dos feridos do lado do MPLA, com um comportamento pacífico destes, enaltecido pelo comentador, enquanto ficamos com a sensação que há no exército português um esquadrão de facínoras (as tropas eram dos comandos, esclarece Adelino Gomes) que, facciosos, embirram com o MPLA.

A história completa do incidente soube-a depois, muitos anos passados, num livro chamado A Vertigem da Descolonização, do General Gonçalves Ribeiro. Os comandos estavam a cumprir ordens superiores e o incidente começara pela morte de um militar português, abatido a tiro por um militante oriundo daquela sede do MPLA, numa das barreiras que eles haviam montado por Luanda.

As autoridades portuguesas haviam feito um ultimato e exigido ao MPLA a entrega do responsável pela morte do militar português. A motivação dos militares portugueses também é compreensível: embora não estivessem dispostos a envolver-se numa outra guerra (esta civil), também queriam punir severamente quem os ousasse enfrentar, para sua própria salvaguarda.

A hora a que expirava o ultimato dos portugueses havia passado há pouco quando as tropas apareceram e desencadearam os acontecimentos da reportagem. Também aqui, Adelino Gomes estava lá por acaso.

A última reportagem por acaso de Adelino Gomes para a RTP data do Outono de 75 e passa-se em Timor. É preciosa porque capta os instantes em que as forças indonésias (nomeadamente navais) irrompem decididamente pelo território e águas territoriais de Timor-Leste.

Os comentários de Adelino Gomes ao longo da reportagem, condenatórios da Indonésia e abonatórios da Fretilin, parecem orientar a descrição da situação para o esquecimento de que esta havia, previamente, proclamado a independência unilateral de Portugal – um episódio, hoje, convenientemente esquecido por todos.

Já se passaram mais de trinta anos sobre estes três episódios. Entretanto, Adelino Gomes teve outros cargos, certamente por mérito seu, nomeadamente o de dirigente do sindicato dos jornalistas.

Recentemente ouviu-o filosófico, num programa “Prós e Contras” da RTP1, sobre um tema que não me ficou. Noutras oportunidades, qual Fénix, reaparece como redactor dos in memoriam das figuras gradas da esquerda revolucionária do PREC.

Só que, ainda recentemente, num programa de televisão, Adelino Gomes continuou a manter a versão da casualidade do seu aparecimento em cena – no caso a do 11 de Março - perante os sorrisos irónicos dos outros convidados do programa.

O distanciamento temporal, a sabedoria e a filosofia podiam levá-lo a reconhecer sem demérito seu que, pelo menos nestes três casos, nunca esteve lá por acaso nem aquilo eram reportagens de jornalismo.

* Viatura todo o terreno usada pelo exército português.

29 março 2006

É SÓ FUMAÇA!

Os historiadores não destacam nem, penso, irão destacar Pinheiro de Azevedo para um lugar de grande relevo na história de Portugal do século XX. No entanto, considero haver facetas marginais do PREC(*) em que ele representa, como mais ninguém, o esplendor da época.

Refiro-me, evidentemente, à descontracção de linguagem, nunca vista antes e também nunca mais vista na boca de um primeiro-ministro português.

Não ficou registado para a posterioridade o alegado bardamerda para o fascista, dirigido a alguém que classificava o primeiro-ministro de fascista, no espírito muito revolucionário mas pouco argumentativo daquela época. Mas o comentário, curto e grosso, inserido no espírito da época, soa como a expressão de uma certa saturação com tanto debate ideológico inconsequente.

O famoso bardamerda valeu a pena, nem que fosse para ver a figura ridícula dos comunistas e da malta da extrema-esquerda a mostrarem-se depois ofendidos e indignados, quais tias velhas solteironas, pelos excessos de linguagem – estes sim, verdadeiramente revolucionários – do primeiro-ministro.

Mas, mesmo assim, a televisão salvou monólogos preciosos de Pinheiro de Azevedo, que fluíam aproximadamente assim:
- Então senhor primeiro-ministro o que é que aconteceu?
- Eh pá, o que aconteceu foi que fui sequestrado e eu não gosto… Já é a segunda vez esta semana que sou sequestrado e é uma coisa que me chateia, pá! Não gosto de ser sequestrado!
Pode ver-se aqui.

Contudo, o momento de glória de Pinheiro de Azevedo ocorreu durante a manifestação de apoio ao VI Governo Provisório no Terreiro do Paço, promovida pelas forças moderadas (do PS para a direita…), a 9 de Novembro de 1975.

Só em Portugal é que alguém se iria lembrar de encarregar do policiamento da dita manifestação destacamentos de uma das unidades militares de Lisboa mais conotadas politicamente com a extrema-esquerda: a Polícia Militar, que se tornaria num dos últimos redutos revolucionários a resistir a 25 de Novembro de 1975

A manifestação e o discurso de Pinheiro de Azevedo, televisionados para todo o país, foram interrompidos por tiros seguidos do lançamento de granadas de gás lacrimogéneo por parte das forças de segurança, enquanto aquele tentava acalmar os ânimos:
- O Povo é sereno! É só fumaça!
Ao mesmo tempo, saltava linhas do discurso:
- Não quero deixar de terminar… É só fumaça!
Tentou-se apelar mesmo às palavras de ordem, muito motivadoras na época:
- Ninguém arreda pé! Ninguém arreda pé!
Os que gritavam com mais força eram os que estavam a aproveitar para se ir escapulindo pela Rua Augusta acima…
- É só fumaça!
Pinheiro de Azevedo acabou o discurso à pressa porque a fumaça, só, já invadia o balcão de onde discursava. Mário Soares e Sá Carneiro, a seu lado, já estavam de lenços no nariz…
Pode ver-se aqui.

Este episódio, entre o trágico e o cómico, ocorreu-me quando um sucessor longínquo de Pinheiro de Azevedo, ocupou uma boa parte da tarde a apresentar 333 medidas de simplificação administrativa de uma coisa chamada simplex.

Ora, não sendo sportinguista, a minha credibilidade em números cabalísticos acabou com as 5 garras para o leão, apresentadas já há muitos anos por Jorge Gonçalves…
Para não recorrer à outra expressão que deu notoriedade a Pinheiro de Azevedo: É só fumaça!
(*) Para os mais novos: Processo Revolucionário Em Curso.

20 março 2006

OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER… USAR O PC

É notório que o período do PREC (processo revolucionário em curso, para os mais novos) foi época de experimentações ousadas, de militâncias empenhadas, em que suspeito que até o absurdo foi mobilizado para as barricadas da revolução.

Assim, os tradicionais dilemas dos jovens a quem os pais proibiam a presença na rua para além de determinadas horas, eram considerados em organizações de vanguarda da classe operária como o MRPP*, como faltas de empenho revolucionário para além de serem rapidamente descartadas com o comentário: “se os teus pais não te deixam ir, promoves a luta de classes lá em casa…

Este último slogan sobre a promoção da luta de classes doméstica – um terreno onde, suponho, Mao não deva ter doutrina publicada - veio-me à memória quando um amigo meu se lamentou que as suas duas filhas lhe bloqueiam o acesso ao PC, impedindo-o de publicar os seus posts, ou de responder à sua correspondência.

Ora este meu amigo, dirigente estudantil daquelas épocas, embora de uma organização menos castiça, também não foi pessoa para se deixar ficar por situações intermédias: lembro-me de me ter contado que, a certa altura, se chegou a levantar a hipótese da sua passagem à clandestinidade…

Ora, pergunto eu, de que está ele à espera para recuperar o fervor revolucionário de outras épocas e promover uma luta de classes seguida de uma ditadura do parentado? E daí, não sei, como é que se compatibilizará o pensamento de Mao Zedong com o de Santa Teresa de Ávila?

Com um grande abraço ao Ricardo e votos de muitas felicidades ao Nada te turbe.

* MRPP acabou por se tornar num substantivo. Acessoriamente pode funcionar por acrónimo de Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado ou Meninos Rabinos que Pintam Paredes. Entre os rabinos que pintavam as paredes contam-se uma profusão de colunáveis da actualidade, incluindo aquele senhor que esteve aqui em trânsito, a fazer o tirocínio para a sua carreira europeia e, quiçá, internacional.