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07 junho 2024

CENAS TRISTES QUE SE FAZEM À PORTA DE UM TRIBUNAL

Começo por explicar que as imagens de um pouco mais de minuto e meio de declarações de Manuel Pinho ontem, à saída do tribunal, onde havia sido condenado a dez anos de prisão, estão disponíveis na página da TVI player. Mas o momento é bom demais para apenas ser apreciado televisivamente e por isso merece a sua transcrição. Para que se saboreie de outra maneira a evolução da atitude de Manuel Pinho que começa por tentar dissertar sobre a injustiça que acabara de ser cometida contra a sua mulher, se mostra depois arrogante para com os jornalistas que o interrompiam com perguntas sobre o essencial (a sua condenação e a de Ricardo Salgado), se vê a braços depois com uma ameaça de insurreição dos microfones se ele não mudasse de assunto para aquilo que verdadeiramente lhes interessava, até à fase em que passa aos elogios bajuladores para com aqueles que, ainda um minuto antes, tratara com tanta sobranceria («Vamos combinar uma coisa: se quer falar... comigo não fala! Eu não respondo»).

Manuel Pinho - «...em que se dizia que a colecção que a minha mulher criou é a jóia da coroa e uma das melhores do Mundo. No entanto...»
Confusão de vozes. Voz do jornalista da SIC a sobrepor-se: - «...foi condenado a dez anos de prisão. Era o que esperava?»
Manuel Pinho - «Eu agradeci... Eu agradecia que não me interrompessem, está bom?... Aaah... Ora bem, e foi condenada por ser casada comigo. Imaginem que era ao contrário. Que era um homem que arranjava um emprego por causa da mulher.»
Nova confusão de vozes de onde acaba a sobressair a voz da jornalista da RTP: - «Foi condenada, segundo o tribunal, porque ocultou o dinheiro...»
Manuel Pinho - «Eu agradecia que não me interrompesse. Vamos combinar uma coisa: se quer falar... comigo não fala! Eu não respondo. Muito bem.»
Ainda uma terceira confusão de vozes, com mais participantes, onde se ouve novamente o jornalista da SIC: «...vamos fazer perguntas...»
Manuel Pinho resigna-se e deixa cair o assunto da mulher - «Ora bem. Nós vamos recorrer porque a sentença não tem nada a ver com o que se passou no tribunal. Vocês cobriram o que se passou no tribunal... e não tem nada a ver. Nós tínhamos uma estratégia para este julgamento. Em primeiro lugar era fazer o possível que ele fosse rápido. Demorou sete meses e se não demorou quatro, não foi por razões que nos fossem imputadas... (a notícia abaixo é eloquente quanto a essa estratégia)
Manuel Pinho (continuação): - «É possível fazer um julgamento rapidamente. E depois uma grande aposta na transparência. E na transparência vocês foram fundamentais. Porque vocês relataram de uma forma precisa, honesta e fidedigna tudo o que se passou aqui. E portanto toda a gente sabe o que se passou aqui. E o que se passou aqui não tem nada a ver com a sentença. Portanto eu não estou agradecido à imprensa porque vocês cumpriram o vosso dever, mas quero aqui prestar a minha homenagem porque vocês são vítimas de muitas críticas...»

Saúdam-se as condenações. Deseja-se que seja apenas a primeira de outras que tardam, destacando a de José Sócrates. Quanto à cena que acima se reproduz, tal é a mediocridade demonstrada por Manuel Pinho que, fossem as circunstâncias outras, até seria de se manifestar alguma pena por este pateta que nem sabe engraxar com um decoro de sofisticação. Mas a verdade é que a corrupção foi de demasiados milhões para o destinatário que percebemos que ele é. Cinicamente, até se pode considerar que houve aqui um desperdício de recursos por parte de Ricardo Salgado, que pagou demais pelo que Pinho vale. Quanto ao comportamento dos microfones, eu vivo para o dia em que eles, por causa da indigência do que está a ser dito, espontaneamente os retirem da frente do entrevistado, como parece ter estado quase a acontecer ontem com Manuel Pinho.

20 maio 2024

UM «CAVALHEIRO» DE UMA SÓ PALAVRA, CUJA REELEIÇÃO NÃO FOI PROBLEMÁTICA

A curiosidade é a notícia ter precisamente dez anos e a constatação é que, roubando os dizeres do anúncio do famoso dentífrico se poderia escrever: «Palavras para quê? É um artista russo e não usa pasta medicinal Couto!»

Por outro lado, falando de um outro assunto correlacionado, hoje termina - tecnicamente - o mandato de cinco anos de Volodymyr Zelensky. A situação apresenta-se muito confusa. Há um artigo da Constituição ucraniana que estabelece que o presidente é eleito para um mandato de cinco anos; mas há outro artigo que diz que o presidente em exercício exercerá o poder até que o novo presidente seja empossado. Uma terceira lei (embora essa não tenha valor constitucional) condiciona a que as eleições não podem ser realizadas enquanto a lei marcial estiver em vigor, que é o que tem acontecido na Ucrânia desde que a Rússia iniciou a sua invasão em grande escala em Fevereiro de 2022.

Aprecie-se finalmente o contraste deste problema ucraniano com as ditas eleições presidenciais russas de Março de 2024, que foram ganhas magnanimamente por Vladimir Putin com 88,5% dos votos!  

19 maio 2024

DEZ ANOS DE UM ÓRGÃO CENTRAL DE UM PARTIDO QUE NÃO CONCORRE A ELEIÇÕES

Há dez anos apareceu o Observador. Funciona como o órgão central de uma formação política... só que não há formação política. Do lado direito do espectro político e substituindo neste caso o fundamentalismo liberal pelo fundamentalismo marxista-leninista de antanho, o Observador é assim como uma espécie de Luta Popular do veterano MRPP... só que não há MRPP por detrás. Nem mesmo a Iniciativa Liberal. E, não havendo MRPP, aquilo que o Grande Educador daquele jornal proclama não é avaliado pelos votos dos portugueses. O Grande Educador do Observador é José Manuel Fernandes e, para quem não saiba, o seu antepassado do Luta Popular do século passado, chamava-se Arnaldo Matos.
Arnaldo Matos, quando se apresentou a eleições pela primeira vez em Abril de 1976, recebeu 36.200 votos e, depois disso, nunca mais ninguém o considerou Grande e tornou-se evidente que eram poucos, tanto da classe operária como doutras, aqueles que estavam os dispostos a receber a sua educação... O jovem José Manuel aprendeu na época a lição de que, para se ter a reputação de Grande Educador - apreciemo-lo acima, ainda há dois meses, a tentar educar o então potencial primeiro-ministro Luís Montenegro - o melhor é não se submeter a votos. O que é importante é o prodígio de continuar a estar sempre presente no circuito do comentário televisivo. É uma maneira espertalhona, mas não muito digna, de se estar na política.
Há dez anos fingia-se que se tratava de um jornal. Mas como se trata realmente de um projeto político, a realidade é que não interessa verdadeiramente o formato. Dez anos entretanto passados e paulatinamente está transformar-se numa rádio... As pessoas lêem cada vez menos e há que doutriná-las de outra maneira. Mas sempre sem ir a votos, que é para não haver necessidade de mostrar QUANTOS é que eles são (ou representam)...

10 maio 2024

UM PAÍS CONTROLADO PELOS BARÕES DA DROGA

A escolha da sofisticada expressão narco-estado para classificar a Guiné-Bissau acaba por disfarçar, de alguma forma, aquilo que é a realidade de um país que é dominado pelos interesses dos barões da droga. Desta vez quem foi apanhado no aeroporto de Lisboa a traficar cocaína foi um deputado desse país. A dimensão da apreensão - 13 quilos! - e o facto de o traficante ter reclamado imunidade diplomática corrobora que os barões da droga se mostram aparentemente capazes de comprar quase tudo e todos naquele país. Mas a questão só será incomodativa e confrangedora se encararmos estes episódios com aquela atitude de responsabilidade retroactiva por causa do nosso passado colonial, que é atitude de que nos deveríamos desligar. Com excepção de Timor, todos estes países da CPLP gozam há quase cinquenta anos da liberdade de terem escolhido ser aquilo que são hoje.

21 março 2024

UMA REFLEXÃO SOBRE OS CICLOS DOS ESCÂNDALOS

Para uma reflexão sobre como se processam os ciclos dos escândalos na nossa comunicação social, convido o leitor deste blogue a começar por visitar duas páginas da edição do Público de 12 de Dezembro de 2017, vai para mais de seis anos (acima). Estava então ao rubro o escândalo de uma associação de beneficência denominada Raríssimas, vocacionada para o tratamento de crianças com deficiências raras, que fora fundada e até então dirigida por uma senhora muito dinâmica chamada Paula Brito e Costa. A senhora era mesmo dinâmica - os artigos faziam-se acompanhar de fotografias dela acompanhada pela Cavaca, pela Letícia, pelo Marcelo - mas fazer-se-ia cobrar por isso e, parecia, nem sempre das formas mais legítimas e/ou legais. Para a transformar no ogre deste escândalo com crianças, os artigos dos jornais apareciam repletos de descrições de facturas de consumos requintados suportados pela organização, detalhes que alguém com acesso à investigação lhes facultaria para que a opinião publicada compusesse devidamente a imagem da senhora: uma escroque.
Mudemo-nos agora para a edição de hoje do mesmo Público e para outras duas páginas de escândalos, onde, do lado direito, se anuncia a conclusão do julgamento da dita Paula Brito e Costa que se saldou pela sua condenação a dois anos de prisão e ao pagamento de € 12.800 à organização. Como é tradição, houve não sei quantas acusações do MP que caíram... Por uma feliz coincidência, este episódio ocorre quando está ao rubro um novíssimo escândalo, envolvendo fundos comunitários e potenciado pela circunstância de ter dois implicados que dão na TV: Manuel Serrão e Júlio Magalhães. Onde antes eram as depilações e os vestidos de Paula Brito e Costa, agora os jornais mostram-se informadíssimos sobre os luxos das contas de hotel e também o uso das contas bancárias da mãe de Manuel Serrão (acima). O público já está devidamente indignado: um (outro) escroque. Não sei se a associação foi propositada ou apenas um acaso de paginação da edição de hoje, mas o precedente do caso Raríssimas não me parece augurar nada de bom para o desfecho desta Operação Maestro.

Se hipoteticamente os prazos se repetirem - no caso da Raríssimas foram seis anos e três meses entre a eclosão do escândalo nos jornais e a conclusão do (primeiro) julgamento - deito-me a imaginar qual será a pesada sentença que o tribunal atribuirá a Manuel Serrão em Junho de 2030. Como o próprio Manuel Serrão se celebrizou televisivamente: - Diga um!!!!!»

20 março 2024

E DEPOIS QUEM É QUE QUER QUE SE TENHA SIMPATIA POR ESTES TRASTES?...(3)

Há coisa de dois meses escrevi aqui um poste a propósito deste figurão acima (Peter Navarro), que desobedecera a uma convocatória da comissão do Congresso que investigava o assalto de 6 de Janeiro de 2021. Apanhou quatro meses de prisão. Recorreu. Perdeu o recurso e, felizmente, a resposta foi rápida. E ontem foi para a prisão cumprir a pena. Com a coreografia que as imagens documentam, mas é sempre salutar mostrar estas pessoas a entrar para os estabelecimentos prisionais para cumprirem as penas a que foram condenados. Aliás, quando se mostram coriáceos e sem sombra de arrependimento, como parece ser este o caso, até merecem que lhes dediquemos os nossos votos irónicos e sinceros para que não deixem cair o sabonete ao chão quando estiverem no duche.

05 fevereiro 2024

AS SAUDADES QUE ELE JÁ TINHA DA SUA ALEGRE CASINHA TÃO "MODESTA" QUANTO ELE...

Quanto às notícias da casinha modesta de Miguel Albuquerque, ou elas se desmentem logo, explicam-se os factos e repõe-se a verdade (se verdade houver a repor...), ou então as notícias tornam-se imediatamente no pelourinho da carreira política do visado. Ora a notícia da «mansão de luxo de Miguel Albuquerque» já foi publicada há mais de uma semana e não se deu por que tenha havido uma explicação da parte do proprietário da casinha, Miguel Albuquerque, como a havia adquirido*. Pior do que isso, ontem adicionaram à da casinha a notícia do valor da colecta anual do IMI daquela mesma casinha, notícia que, também ainda por desmentir, constituirá a corda do enforcado no pelourinho da carreira política já referida acima. Mas a melhor maneira de parodiarmos esta paródia é acabarmos a cantar com os Xutos...
* Houve quem tentasse, só que tentou com uma mentira adicional: a certa altura correu que a mãe de José Sócrates era muito rica...

01 fevereiro 2024

JÁ ARRANCARAM OS TEMPOS DE ANTENA PARA AS ELEIÇÕES DO FUTEBOL CLUBE DO PORTO

Da última vez que prestei atenção, as eleições internas para o Futebol Clube do Porto ainda não tinham data marcada, só se sabia que se iriam realizar em Abril deste ano. Portanto, as eleições deles realizar-se-ão depois das nossas eleições legislativas de 10 de Março. Isso não invalida que, entretanto, os candidatos à presidência do clube não se tenham já posicionado. (1) (2) (3) E arrancado ontem com os seus tempos de antena. Por um lado, a RTP parece estar a colocar-se em apoio à recondução de Jorge Nuno Pinto da Costa, concedendo-lhe oportunidade para uma extensa entrevista de Fátima Campos Ferreira, logo ele que, desde há mais de quarenta anos, se tornou numa pessoa desconhecida do grande público... Em contraste, a CMTV parece estar a patrocinar a oposição, ao conduzir uma diligente e metódica cobertura às operações policiais da detenção e arresto de bens de Fernando Madureira, o mais conhecido dirigente da claque do clube, o mais escuso organismo da sua estrutura. E claro que é provável que as duas estações de televisão possam vir a dizer que as circunstâncias apontadas das respectivas progamações não passaram de coincidências...

26 janeiro 2024

E DEPOIS QUEM É QUE QUER QUE SE TENHA SIMPATIA POR ESTES TRASTES?...(2)

A próxima vez que me quiser condoer de José Sócrates por ele andar há mais de nove anos para ser julgado, tenho que me recordar que uma apreciável parte desses nove anos de atraso se deverão ao próprio e aos expedientes judiciais dos seus advogados. O homem é daqueles que não só quer sol na eira e chuva no nabal, como, ainda por cima, tem uma comunicação social lhe dá palco para ele se mostrar indignado por não haver uma meteorologia especial só para si. A diferença para um traste como Peter Navarro é que este já deu com os costados numa cela... Não serve de correctivo aos trastes, mas consola-nos a alma...

25 janeiro 2024

E DEPOIS QUEM É QUE QUER QUE SE TENHA SIMPATIA POR ESTES TRASTES?...(1)

A história que levou este senhor hoje a tribunal conta-se em algumas frases. Chama-se Peter Navarro. Foi um dos conselheiros mais vociferantes da administração Trump. Um dos defensores mais apaixonados dos seus gestos. Dos seus gestos mais disparatados. Foi convocado para depor pela comissão do Congresso que investigava o assalto de 6 de Janeiro de 2021. Cagou ostensivamente de alto, alegando publicamente que não tinha nada que lá ir, porque era conselheiro de Trump. Foi levado a tribunal por desobediência à Justiça. Foi condenado. Hoje era dia da leitura da sentença e, à entrada (acima), ainda o ouvimos a ter o descaramento de usar os microfones para tentar cravar mais umas massas que lhe financiem as despesas com os advogados. Apanhou quatro meses de prisão. Espero que sejam efectivamente cumpridos. E já. Espero que a este (ao contrário do que aconteceu com outro caso semelhante, o de Steve Bannon) não lhe suspendam a execução da sentença enquanto decorre o apelo. Estes gajos são tão bons a explorar a leniência da Justiça como qualquer mafioso.

20 janeiro 2024

O EX-DEPUTADO QUE MERECE QUE LHE CUSPAM

No meu mundo ideal, esta pessoa merecia que as pessoas com quem ele se cruzasse a partir de agora lhe cuspissem ou fingissem cuspir para os pés. Não por ter mudado de partido. Por o ter feito como o fez. Ele nunca foi obrigado a dar qualquer satisfação pública quanto às suas intenções. Se nos mentiu a todos com uma semi-verdade foi porque quis. E é isso que lhe confere o estatuto de escroque e o direito à escarreta. E, já agora, e como os jornalistas têm a pretensão de fazerem as perguntas que as pessoas gostariam de fazer, eu gostaria de saber o que é que Rui Rio tem a dizer do comportamento recente deste seu vice-presidente. Gostaria de saber o que Rui Rio tem a dizer, mesmo que não tenha nada a dizer. Caramba: com o mesmo fundo moral, gestos destes - mentiras descaradas! - beatificam retrospectivamente um Miguel Relvas! Ou, de tanto detestado, o Maló ainda acabará comentador de televisão como o Pedro Guerra.

17 novembro 2023

OS ESCROQUES QUE NÓS ADORAMOS DETESTAR

Depois de Richard Nixon, este outro poste é também dedicado a um outro escroque, de seu nome Nuno Ribeiro (acima), que foi notícia no princípio deste mês, quando foi sancionado com uma suspensão de 25 anos, por causa das acusações que sobre incidem de «tráfico, administração e posse de substâncias proibidas e métodos proibidos». A sanção é a mais elevada que pode ser aplicada administrativamente pela Autoridade Antidopagem de Portugal e é independente de outras sanções que lhe possam vir a ser aplicadas num julgamento que virá a decorrer em Penafiel por aquelas mesmas acusações e mais outras, de que ele será um dos principais réus entre 26 acusados. Conhecendo-lhe a biografia, Nuno Ribeiro é um corrécio incorrigível quanto à prática da dopagem no ciclismo desde há 20 anos, quando ainda era atleta e o seu percurso na modalidade, desde aquela fase de ciclista até posteriormente à de treinador, está manchada de desqualificações, sempre por causa do uso de substâncias não autorizadas. É difícil ter-se pena dele por aquilo que lhe possa vir a acontecer em consequência desta sanção e das que o tribunal decidir aplicar-lhe. E contudo, mesmo um completo desqualificado como Nuno Ribeiro, parece precisar de ser apresentado aos leitores com um outro escroque ao lado, daqueles que as pessoas - pelo menos algumas... - gostam de detestar: Jorge Nuno Pinto da Costa, cuja aparição na foto acima, se justificará pelo facto de que a equipa treinada por Nuno Ribeiro e onde a prática da dopagem era endémica, ser o FC Porto. Fica a nota que os escroques não são apenas aqueles que nós adoramos detestar.

«I AM NOT A CROOK»


17 de Novembro de 1973. Em Orlando, Florida, na presença de uma plateia de 400 quadros da Associated Press, mas dirigindo-se ao auditório televisivo de muitos milhões, o presidente Richard Nixon assume um discurso estranhamente auto-confessional que, de tão deslocado, acaba apenas por aumentar as suspeitas que incidem sobre si: «...Quero dizer isto à audiência televisiva. Cometi os meus erros, mas em todos os meus anos na vida pública nunca beneficiei dos meus cargos, mereci o que ganhei, até ao último tostão. E em todos os meus anos na vida pública nunca coloquei entraves à justiça. E penso, também, que posso dizer que nos meus anos de vida pública sempre acolhi bem este género de escrutínio, porque as pessoas têm de saber se o seu presidente é ou não é um escroque. Bom, eu não sou um escroque! Tudo o que tenho ganhei-o com o suor do meu rosto.» Dali por nove meses, perante indícios cada vez mais comprometedores da sua interferência pessoal no curso das investigações sobre o Escândalo Watergate, Richard Nixon ver-se-ia obrigado a demitir da presidência dos Estados Unidos.

25 outubro 2023

O JULGAMENTO DE MANUEL PINHO

O julgamento de Manuel Pinho começou há duas semanas e tudo aquilo que lá tem sido revelado até agora está a ser muito interessante. O triste é que, e como de costume, a comunicação social, na sofreguidão de obter declarações (simbolizado, na fotografia acima, no(s) microfone(s) pespegado(s) à frente de Pinho), descura tudo o resto: o rigor (voltando à fotografia acima, Pinho, mais do que um arguido, agora tornou-se num réu) e a análise das revelações que se têm vindo a fazer. Felizmente nem todos são tontos e medíocres. Há quem faça o seu trabalho de análise da informação, o jornal Público, que hoje publica um editorial da autoria de David Pontes que abaixo parcialmente transcrevo:
«
(...) O julgamento do ex-ministro da Economia, Manuel Pinho, (...) é importante que algumas das coisas que temos sabido neste caso, que esperou 12 anos para chegar à barra do tribunal, não passem sem um sublinhado. (...)

Sabemos hoje, por palavras do próprio que era uma prática corrente do Banco Espírito Santo (BES) que os seus quadros superiores recebessem complementos de salários e prémios sem o declarar ao fisco. Uma “imposição”, disse o antigo ministro, que quando foi para o Governo ocultou o seu património numa offshore para fugir ao escrutínio devido a que estão obrigados os governantes com a declaração que têm de entregar ao Tribunal Constitucional.

Note-se que isto não é só que está na acusação, é mesmo o que o próprio já admitiu em tribunal. Como admitiu que enquanto era membro do executivo de José Sócrates recebia mensalmente do segundo maior banco do país 15 mil euros que eram enviados para uma offshore. Manuel Pinho diz que tudo não passa de um ilícito fiscal, que esse dinheiro, ao contrário do que diz a acusação, não era um pagamento de favores ao BES, mas só dinheiro que lhe era devido.

Alguém que tem com o dinheiro e com as exigências de um cargo público este tipo de atitude, terá sido convidado para o lugar de governador do Banco de Portugal por José Sócrates. Alguém que, segundo José Maria Ricciardi, antigo elemento da Comissão Executiva do BES, integrou o Governo por Ricardo Salgado ter “exercido influência” junto de José Sócrates, de quem “era muito íntimo”.

Mas o espanto não deve parar aqui. Graças ao Público e à SIC soube-se que uma das juízas que integram o colectivo deste julgamento foi casada com um alto quadro do BES que terá recebido um milhão através do “saco azul do GES”. Algo que, num primeiro momento, a juíza não terá achado que comprometia a sua idoneidade. É mesmo preciso continuar atento a este julgamento.
»
Eu concordo com David Pontes. Aquilo que se está a saber até agora é um retrato devastador das elites económicas e políticas portuguesas (e as judiciais também não se saem lá muito bem...). Com elites mostrando princípios éticos como estes (e outros...), como é que a ascensão de escroques como José Sócrates poderia ter sido sentida por elas como o aparecimento de um «corpo estranho»?...

(Nota: David Pontes não o especifica, mas quem questiona a questão da imparcialidade da juíza são os advogados de defesa dos réus, o que é no mínimo bizarro, já que, a uma primeira vista, as hipotéticas simpatias da juíza, por esta não considerar nada de comprometedor no comportamento do ex-marido, tenderiam a ser a favor de Manuel Pinho...)

16 outubro 2023

MANEIRAS PECULIARES COMO SE DÁ UMA NOTÍCIA

Quando este caso surgiu, em finais de Abril de 2014, João Alberto Correia, que era à época o director-geral da direcção-geral de Infraestruturas e Equipamentos (DGIE), um organismo pertencente ao Ministério da Administração Interna, foi detido por suspeitas de corrupção. E, como se lê na notícia mais abaixo, Miguel Macedo, o ministro da pasta, saiu em defesa da instituição: o seu prestígio não estava em causa. Não estaria, mas dois meses e meio depois, em Julho de 2014 e aproveitando quiçá a folga das atenções do Verão, a direcção foi extinta e o seu pessoal disperso... Para quem se mostre desconfiado quanto às intenções do ministro, acrescente-se que a história não acabou aqui porque, soube-se bastante mais tarde, a rede de corrupção envolveria conexões maçónicas e dali por quatro meses, em Novembro de 2014, o próprio ministro, que também teria os seus telhados de vidro, via-se atascado num outro escândalo paralelo, o dos vistos gold, e por isso forçado a pedir a demissão. Em comunicado de 16 de Novembro de 2014,  o PSD elogiou a dignidade de Miguel Macedo, recusando a comparação com outros ministros. Mas em termos de notoriedade mediática, nunca mais o caso se conseguiu separar do ministro da tutela de então: Miguel Macedo. Concordo o quão pode ser injusto, mas é mesmo assim: recorde-se o caso mais recente de contornos semelhantes, que envolve uma outra direcção-geral, agora do ministério da Defesa, caso esse que não se despega do titular da pasta na época dos acontecimentos: João Gomes Cravinho. Em contraste, Miguel Macedo já se conseguiu despegar do seu caso: lê-se a notícia da condenação - ao fim de nove anos e meio! - do director-geral e em lado nenhum se lê o nome do ministro a quem pertenceu a responsabilidade política de tudo aquilo que hoje foi dado como provado em tribunal. Condenem os escroques mas, ao mesmo tempo, chamem incompetentes aos incompetentes.

12 setembro 2023

DESMENTINDO AINDA OUTRA VEZ O MITO DOS GENERAIS IMPOLUTOS QUE DERRUBAM OS POLÍTICOS CORRUPTOS

Ainda na dinâmica da evocação de ontem do golpe militar no Chile de há cinquenta anos, vem a propósito reafirmar com o exemplo de Augusto Pinochet, a completa falsidade dos habituais discursos da extrema direita populista, que costuma justificar estas revoltas militares por detrás de uma ética que normalmente os factos depois vêm desmentir. Pinochet morreu rico em 2006 e não há explicações legais para 90% da fortuna que acumulara. E, para adoptar uma terminologia que a extrema direita populista adora empregar, está muito longe de ser o único caso de general que deu um golpe de Estado e tomou o poder para se encher.

04 agosto 2023

O QUE SEPARA DONALD TRUMP DE TODOS OS SEUS ANTECESSORES

É preciso perceber inglês e também conhecer um pouco da história recente dos Estados Unidos, para reconhecer as pessoas, mas esta montagem mostra à evidência o que torna Donald Trump num marginal, na ampla acepção da palavra. Um marginal que não sabe viver em sociedade, porque só aceita as regras sociais que o favorecem, e que, por isso, merece confrontar-se com o outro lado do colectivo: o das sanções para com quem não aceita as regras que lhe desagradam.

01 agosto 2023

PIZARRO, PINTO DA COSTA E O «TWIST» DO JORNALISTA

Retornando ao tema do apoio de Manuel Pizarro a Jorge Nuno Pinto da Costa, que reencena uma situação promíscua entre política e futebol que correu mal com António Costa e Fernando Medina e Luís Filipe Vieira há três anos, veja-se a abordagem distorcida como o jornalista Henrique Pinto de Mesquita apresenta a questão no jornal Público, protegendo uns membros do governo e envolvendo outros que, como rematava o poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, não tinham entrado na história (do apoio de Pizarro a Pinto da Costa).

O protegido é Fernando Medina, que, como presidente da Câmara de Lisboa de então, esteve envolvido na história do apoio a Luís Filipe Vieira tanto como António Costa, mas que é tratado ao longo da notícia como um apêndice de Costa. Em contraste, quem é convocado extemporaneamente é Pedro Adão e Silva, que, à época (2020), não tinha nenhum cargo oficial, e do qual que nos é recordado que, como apoiante da lista concorrente, se mostrou crítico da atitude adoptada pelos outros dois. Mas, o mais protegido pelo twist dado ao artigo, será indubitavelmente Luís Filipe Vieira, já que o jornalista se esqueceu de mencionar que dez meses depois da polémica, o presidente do Benfica foi detido por suspeitas de crimes de burla e de fraude fiscal e compelido a renunciar ao cargo.

São episódios como este, em que os envolvimentos de Pinto da Costa não serão aparentemente muito diferentes dos de Luís Filipe Vieira, que explicam as razões para que, depois do episódio entre Costa, Medina e Vieira, se extraiu a lição que será recomendável que haja uma enorme prudência nas relações entre política e futebol. Lição e prudência a que Pizarro não dá atenção nenhuma na breve entrevista que concede ao jornalista. Para este último, a atender ao título que escolheu para o artigo que escreveu, o problema não reside em Pizarro, mas antes em Adão e Silva que se mostra incoerente por não criticar agora, como o havia feito antes, a conduta de quem se envolve com o mundo do futebol. («Pizarro reproduz a fórmula, mas agora Adão e Silva não comenta») A distorção final (que, sendo final, por acaso até aparece no início do artigo...) é que o artigo é classificado na categoria do futebol, quando o tópico é descaradamente político.

Ao contrário do twist do Público, se Pizarro mostra aqui não ter aprendido nada com as asneiras que os socialistas no poder têm cometido, espero ao menos que Adão e Silva, depois do que aconteceu com o que disse sobre a comissão de inquérito da TAP, tenha aprendido que não pode emitir comentários à sua vontade sobre o que lhe apetece e que agora continue discreta e decentemente calado. Quanto ao twist do Público, transferir as culpas de Pizarro para Adão e Silva, ele é tão rebuscado e tão funcional em deflectir as culpas de um responsável para outro, que me suscita grandes dúvidas se o jornalista Henrique Pinto de Mesquita o conseguiu conceber sozinho. Porque, quanto a reputações estragadas, não é só o futebol, nem a política: assim vai a reputação do jornalismo também.

15 julho 2023

A NOVA ESTRELA DO BOAVISTA E A VERDADEIRA "ESTRELA" DO BOAVISTA

15 de Julho de 1983. O destaque da página desportiva dos jornais ia para a transferência do centro campista internacional João Alves do Benfica para o Boavista. O jogador já estava em fim de carreira (à época terminava por volta dos 31/32 anos, muito mais cedo do que actualmente). Mas a transferência era promovida como «a mais cara (...) do futebol português». Mas, quanto à pergunta sobre qual o valor que teria sido pago pelo Boavista, sobre isso o presidente dos axadrezados, Valentim Loureiro, evadia a resposta e não mencionava um valor preciso, para que se pudesse comprovar aquilo de que se gabava. Era o seu "estilo" (aldrabão), um "estilo" que se mostrava muito eficaz em dar ao jornalismo futebolístico aquilo que eles mais queriam: conversa (e não factos). Na notícia abaixo, Valentim Loureiro e as suas declarações aparecem mais destacadas do que as do próprio craque, que é, mesmo que esteja no término da sua carreira, o objecto da notícia. Quanto ao presidente do Benfica (Fernando Martins), esse não dissera nada.

13 julho 2023

O VERDADEIRO JORNALISMO DE EXCELÊNCIA - OU O VERDADEIRO POLÍTICO MENTIROSO SEM VERGONHA

Em mais um episódio da saga que tem estado a desencantar os britânicos, soube-se hoje ao princípio da tarde, que Boris Jonhson não concedeu o acesso às suas conversas no WhatsApps aos membros da comissão de inquérito sobre o covid-19, porque, alegou ele, «se esqueceu do código» do antigo IPhone. Depois de muita relutância do próprio, o IPhone já devia ter sido entregue (por imposição judicial) até às 14H00 da passada Segunda-Feira. Só que a reputação do antigo primeiro-ministro é tal, que houve um comentador de uma rádio local - James O'Brien, veja-se mais abaixo - que antecipou, com antecedência, qual seria a desculpa de BoJo para evitar ceder o conteúdo das mensagens que o comprometerão durante a pandemia. Isto é mais do que bom jornalismo, é jornalismo de antecipação, aquele que dá as notícias antes de elas acontecerem! Gostava de ter disto por cá: tenho inveja, já que primeiro-ministro completamente desacreditado já temos, na pessoa de José Sócrates.