Este é um anúncio da cadeia McDonalds na Malásia. Trata-se da promoção de um novo hamburguer de frango e, pelos vistos, naquelas paragens do Mundo a marca Portugal® tem um significado de especiarias e de exotismo, quiçá por causa da comunidade kristang de Malaca. O facto é lisonjeiro e uma perspectiva diferente da que recordo do livro abaixo, em que a versão que nos é contada é que toda aquela região até era originalmente uma sociedade muito pacífica, os malaios convertiam-se em massa do bramanismo e do budismo ao islão sem que houvesse incidentes sociais, até à chegada dos portugueses que, esses sim, mais o seu cristianismo proselitista, esses é que desestabilizaram a região.
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03 julho 2019
20 dezembro 2018
A OPERAÇÃO CORVO
20 de Dezembro de 1948. Dá-se por concluída a primeira fase da Operação Corvo (Operatie Kraai, no holandês original) com a captura da cidade de Jogjacarta, que fora até aí a capital dos nacionalistas indonésios. Contudo, convirá explicar que circunstâncias haviam conduzido os holandeses a confrontarem-se com uma típica guerra colonial (koloniale oorlog) na sua colónia das Ilhas Orientais nesses anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Como os franceses na Indochina e como os britânicos na Malásia, os holandeses haviam também recuperado o seu estatuto de potência colonial a partir do Outono de 1945, embora com uma situação política substancialmente modificada por quatro anos de ocupação japonesa. Durante esse período, os japoneses haviam feito o possível por exacerbar as ambições nacionalistas locais, embora em seu proveito. No seu regresso, os europeus depararam-se com uma infraestrutura administrativa, política e militar instalada que lhes disputava a legitimidade colonial.
As situações descambaram repetidas vezes para a confrontação aberta, embora outras vezes fosse dissimulada. O caso concreto das Índias Orientais holandesas pode ser apreciado pelo mapa de situação reportado a 1 de Dezembro de 1948, onde se percebe coexistirem regiões que eram controladas pelos nacionalistas (assinaladas a vermelho) com outras controladas - a títulos diversos - pelas autoridades coloniais holandesas (diversos tons de azul). Na ilha de Java, a mais importante do arquipélago e onde viviam 48 dos seus 75 milhões de habitantes (64% do total), essa coabitação era ainda mais complexa, com as áreas sob as duas tutelas a serem separadas por uma designada Linha Van Mook, uma linha de cessar fogo que fora estabelecida em Janeiro de 1948 na sequência de um acordo que fora firmado para substituir um outro assinado em Novembro de 1946... Ou seja, os acordos encadeavam-se mas a situação política não estabilizava porque aquilo que as duas partes procuravam era fundamentalmente contraditório.
Em Dezembro de 1948 os holandeses consideravam que se estava novamente numa situação de impasse e foi para o romper que decidiram desencadear esta Operação Corvo. Do ponto de vista militar a sua superioridade era flagrante. Esta primeira fase da operação consistiu num lançamento surpresa de paraquedistas sobre Jogjacarta, a capital nacionalista, capturando o seu aeródromo. Foi um completo sucesso táctico. Mas, se os militares dos dois lados reagiram como previsto (i.e., os holandeses ocupando os locais estratégicos da cidade e os indonésios dispersando pela áreas rurais depois de uma defesa honrada, mas fundamentalmente simbólica), os membros do governo nacionalista (na fotografia mais abaixo e da esquerda para a direita, o vice-presidente Hatta, o presidente Sukarno e o primeiro-ministro Sjahrir), trouxeram uma perspectiva política ao conflito com o gesto de se deixarem capturar pelos soldados holandeses. Contavam com o efeito perverso que a ofensiva militar teria junto dos norte-americanos. E tiveram razão!
Recorde-se que em 1948, através do Plano Marshall, os Estados Unidos eram o financiador da recuperação económica de todos os países da Europa ocidental. Bastava que ameaçassem a suspensão das ajudas para que os países europeus vergassem e os Países Baixos não foram neste caso excepção. Às vitórias tácticas dos holandeses no campo militar sobrepôs-se a vitória estratégica dos indonésios no campo político. Assinou-se mais um acordo(!) em Maio de 1949 e a verdadeira independência da Indonésia ocorreu no final desse ano, mas só depois de uma conferência em Haia que durou mais de dois meses. Uma última herança possível de toda esta operação é que ela terá despertado algum interesse entre os militares indonésios por operações aerotransportadas: quando foi a sua vez de desencadearem uma operação muito similar - a Operação Seroja em 1975 - também os seus paraquedistas se lançaram sobre o aeroporto de Dili, para conquistar a cidade...
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06 novembro 2018
A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue há poucos dias). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.
28 janeiro 2014
A EXPANSÃO AUSTRONÉSIA
Este mapa-mundo, que abrange cerca de ¾ da superfície do nosso planeta, mostra-nos a extensão daquela que é uma das mais desconhecidas expansões da Humanidade: a dos povos austronésios. Tratou-se, como aconteceu com os povos indo-europeus que vieram a povoar a Europa, o Próximo Oriente e o Subcontinente Indiano, de processos desencadeados pelo crescimento demográfico das populações, mas um crescimento muito lento, que se processou paulatinamente e se arrastou por milénios. Fazendo parte da pré-História, tudo o que neste momento se pensa saber sobre esses processos resulta dos trabalhos da arqueologia, das investigações da linguística e, mais recentemente, das da genética.
Uma das maiores surpresas da expansão austronésia é a localização do seu berço. Embora haja outras teorias – há-as sempre nestas circunstâncias – a predominante coloca a origem dos povos austronésios nas costas orientais da Formosa. Não há como iludir a ironia: a ilha é hoje maioritariamente povoada por chineses (98%) e constitui, como República da China e como expressão da recusa da aceitação da supremacia comunista no continente (a República Popular da China), uma das últimas expressões da Guerra-Fria. Mas é a sua praticamente ignorada população aborígene (2%) que é a depositária de uma saga que, iniciada há cerca de 5.000 anos, hoje abrange cerca de 400 milhões de pessoas.
Em contraste com a dos indo-europeus do mapa acima, a expansão dos povos austronésios foi predominantemente marítima e veio a prolongar-se até períodos que já eram históricos noutras partes do Mundo: a sua chegada a Madagáscar já será contemporânea com o Império Romano e a chegada à Nova Zelândia coincidirá com a nossa época das Cruzadas. A expansão fez-se inicialmente para os arquipélagos das Filipinas e da Indonésia que já se encontraram povoadas por imigrantes anteriores, povos de tez mais escura, que seriam aparentados com os actuais aborígenes da Austrália e os papuas da Nova Guiné. Só depois a expansão prosseguiu com a colonização de ilhas até então despovoadas.
Só os especialistas é que conseguem dar uma aparência de lógica de parentesco (veja-se o quadro acima, clicar para o ampliar) a um conjunto de quase um milhar de línguas actualmente faladas, exercício esse que comprovará uma raiz comum a elas todas. Ali aparecem idiomas falados na Indonésia, na Malásia, nas Filipinas, o tétum, que é o idioma coloquial de Timor-Leste, e ainda o maori neozelandês, idiomas falados em Madagáscar e outros falados quase do outro lado do Mundo, nos vários arquipélagos do Pacífico, tão longe quanto o estado norte-americano do Hawaii. O único lapso desta gesta é que não existe nenhuma potência – a Indonésia prefere o Islão... – que pretenda explorar os efeitos propagandísticos deste feito (pré)-histórico.
Já em jeito de aditamento e aproveitando para republicar o mapa inicial, valerá a pena chamar a atenção para algumas peculiaridades dos contornos geográficos da expansão. Uma delas é o facto dos austronésios nunca se terem conseguido implantar na Nova Guiné, um fracasso que Jared Diamond terá explicado satisfatoriamente num capítulo (17) de um livro que recomendo a leitura a interessados: Armas, Germes e Aço. Outra peculiaridade, essa por explicar satisfatoriamente, são as condições em que os austronésios terão conseguido colonizar Madagáscar vindos de Bornéu, percorrendo uma distância marítima superior de 7.000 km sem, como se pode acima verificar, quaisquer possibilidades de escalas para reabastecimentos.
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10 janeiro 2012
OS FAMOSOS DEDOS DOS NÃO TÃO FAMOSOS
Percebe-se quanto a qualidade do jornalismo tem evoluído em prol das verdadeiras preocupações e gostos dos leitores quando encontramos ⅛ da primeira página do Correio da Manhã de hoje ocupado pela fotografia do dedo que Alexandre Lencastre resolvera dedicar aos repórteres daquele jornal no dia anterior, durante (mais) uma mundanidade qualquer que a actriz abrilhantara com a sua presença. Se bem me lembro, destaque equivalente dado a um dedo e àquele dedo em particular, apenas o de Ali Alatas quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia e foi surpreendido a saudar efusivamente um grupo de manifestantes pró-timorense que o esperava. Mas aí a promoção justificava-se, porque havia um contraste enorme entre a espontaneidade daquele gesto e a atitude constantemente cordata e preocupada que o ministro indonésio procurava transmitir para a comunicação social.
Porém, o dedo mais dramaticamente fotografado pertencerá aos tripulantes do navio espião norte-americano USS Pueblo, quando estiveram em cativeiro na Coreia do Norte em 1968. A captura do navio em Janeiro de 1968 foi mais um daqueles episódios hoje esquecidos da Guerra-Fria. E a sua tripulação de 83 homens tornou-se um joguete das manobras diplomáticas que se seguiram. Sujeitos a todo o tipo de coacção física e psíquica, os marinheiros norte-americanos confessaram tudo o que lhes era exigido: que eram espiões (o que até era verdade!), que tinham desertado voluntariamente (o que já é mais duvidoso…), que estavam a adorar aquele período de cativeiro socialista (numa atitude que se veio depois a designar por bernardismo), etc. Foi por acaso que repararam que os seus captores não percebiam o significado do dedo. E foi por isso que o adoptaram como sinal dos seus verdadeiros sentimentos durante o cativeiro:
A história não tem final feliz porque os norte-coreanos aperceberam-se do real siginificado do dedo espetado ainda com os prisioneiros em cativeiro, o que não foi nada agradável para eles. Depois de muitas negociações e da satisfação das várias exigências norte coreanas, incluindo declarações e compromissos por parte dos Estados Unidos, os prisioneiros (menos um, entretanto falecido) vieram a ser libertados onze meses depois da captura, em Dezembro de 1968. Os Estados Unidos renegaram todos os seus compromissos, alegando que os fizera sob coacção e apenas tendo como fito a libertação dos prisioneiros.
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16 dezembro 2011
GUERRAS ESQUECIDAS (8): A CONFRONTAÇÃO «MALAIO»-INDONÉSIA (1962-1966)
Anteriormente, já aqui chamara a atenção para a localização estratégica da Malásia entre os dois colossos asiáticos: a China, a Oriente e a Índia, a Ocidente. Entenda-se por Malásia neste caso, não o país com esse nome, mas as regiões meridionais da Ásia onde predominam os malaios – as ilhas de Java e Sumatra e a península malaia. As duas primeiras, onde reside sensivelmente 90% da população malaia, foram colónias holandesas enquanto a última esteve sob hegemonia britânica. Para complicar o xadrez étnico (e político) local, existem apreciáveis (e influentes) minorias representativas de cada um dos colossos asiáticos: chinesas e indianas. O mapa abaixo, com cidades identificadas por quatro alfabetos distintos, dá-nos uma boa ideia da encruzilhada que é a região.
Ao prepararem-se para abandonar os seus antigos domínios no final da década de 1950, os britânicos quiseram preservar para a sua Malásia as fronteiras políticas que haviam sido traçadas na época colonial. Em oposição a isso, Sukarno, o presidente da Indonésia, passava por ser um visionário impulsionando os promotores da ideia de uma grande federação dos povos malaios que se denominaria Maphilindo (Ma – Malásia, Phi – Filipinas, Indo – Indonésia). Convém esclarecer que a contraproposta britânica, embora não tão lírica, era igualmente forçada, ao reunir num mesmo país as várias colónias da península com as outras três colónias britânicas – leia-se a curiosa história de Sarawak – situadas na ilha de Bornéu, onde os malaios nem sequer se encontravam em maioria.
Os projectos de Londres e Jacarta entraram em conflito aberto em finais de 1962, a pretexto da criação dessa federação, juntando a Malásia ocidental peninsular a essa outra Malásia no Bornéu Setentrional (acima). Desencadearam-se insurreições armadas nestas últimas colónias, embora os objectivos políticos dos insurrectos pudessem divergir dos da Indonésia que os apoiava militarmente: o Partido Popular do Brunei, por exemplo, pronunciava-se a favor de uma independência autónoma das três colónias do Bornéu – nem a federação com a Malásia, nem a reunião com a Indonésia. Mas o conflito armado acabou por pôr fim à viabilidade política dessas terceiras vias. Tratou-se de uma guerra subversiva clássica, deliberadamente limitada na sua dimensão pelos dois contendores.
Reino Unido e Indonésia defrontaram-se assim por cerca de quatro anos, num Teatro de Operações selvagem compartilhando 1.780 km de fronteiras mais ou menos indefinidas, traçadas pelo meio de uma selva tropical e impossíveis de patrulhar eficazmente. Do ponto de vista táctico, o conflito veio a tornar-se uma sucessão de incursões no território inimigo, com choques ocasionais e ferozes entre pequenas unidades de infantaria. A narrativa das operações do livro acima é uma sucessão de episódios desse género, que aumentaram de frequência a partir do momento em que os britânicos decidiram assumir também a iniciativa de penetrar em território indonésio sem o assumirem (Operação Clarete)… Constata-se que o número de efectivos envolvidos foi surpreendente baixo.
As teorias de Basil Liddell Hart (acima) sobre a abordagem indirecta do inimigo encaixam na perfeição na solução arranjada pelos britânicos para esta confrontação: para eles, a causa do conflito era a política expansionista desenvolvida por Sukarno e pelos que o rodeavam. Portanto, como acontecera no Irão a propósito de Mossadegh em 1951, houve que espicaçar os Estados Unidos (e a CIA) para se sensibilizarem com os problemas estratégicos regionais que estavam a ser agudizados pela conduta de Sukarno – algo que os norte-americanos tenderam a levar a sério considerando o seu envolvimento progressivo na questão vietnamita. Com o apoio da CIA e do MI6, o General Suharto derrubou Sukarno em Outubro de 1965. E em Agosto de 1966, a Confrontação estava terminada…
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11 março 2007
QUANDO AS SONDAGENS ENGANARAM OS MILITARES E O EPISÓDIO DA SECESSÃO DO BANGLADESH
Pela sua própria natureza, compreende-se porque os regimes militares não são grandes adeptos de eleições. Se as eleições forem livres, ainda que o sejam apenas muito relativamente, instala-se sempre um certo elemento de incerteza na condução política do país, desagradável para quem o detém. E isso é sempre muito incómodo para o regime. Só que, por outro lado, as pressões internas e internacionais são grandes para que o regime militar comece a promover gestos para o retorno a um regime regular civil.Aliás, a esmagadora maioria dos pronunciamentos militares são acompanhados de proclamações dos seus chefes onde, para além de justificarem o acto, se tranquilizam os cidadãos quanto à transitoriedade da atitude adoptada. Às vezes o transitório é um transitório de Santa Engrácia, como na Birmânia, onde o regime militar vigora há quase 45 anos (! - lá voltaremos...), mas a ideia que importa a reter é que umas eleições organizadas por um regime militar dão sempre bom aspecto para o exterior…
É claro que umas eleições devidamente organizadas são muito melhores do que aquelas que contêm elementos de incerteza. Durante anos a fio (1964-85), os brasileiros tiveram essa figura única da coexistência de uma ditadura militar com eleições onde havia um partido do governo (Arena) e um da oposição (MDB), que podiam ser assim legitimamente classificados porque ao primeiro não era permitido perder as eleições e, consequentemente, o segundo estava proibido de as ganhar.
Mas nem sempre as operações de controlo que os militares montaram sobre os aparelhos eleitorais tiveram este sucesso. Como as eleições se ganham na fase do escrutínio, fosse por inépcia do dispositivo montado para as acompanhar, à atenção e proximidade com que esse escrutínio por observadores independentes ou ainda pela ingenuidade de acreditar nos relatórios dos seus serviços de informações, vezes houve (raras) em que o regime perdeu as eleições que havia convocado. Eis algumas.
Segundo conta Mário Soares em memórias, antes da realização das eleições para a Assembleia Constituinte a 25 de Abril de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, se calhar para o incentivar a assumir uma postura mais de esquerda, lhe havia comunicado que, de acordo com as informações de que dispunha, o seu partido (PS) iria ficar em terceiro lugar, atrás do MDP/CDE e do PCP… Se tiverem feito fé nesses dados, a (longa) noite do escrutínio deve ter sido uma desagradável surpresa para a ala militar comunista*…Na Birmânia, ao fim de 28 anos de ditadura militar, em 27 de Maio de 1990 as autoridades militares promoveram eleições gerais de acordo com planos de reconciliação nacional estabelecidos um ano antes. A Liga Nacional para a Democracia (NLD), dirigida pela agora famosa Aung San Suu Kyi, ganhou 392 dos 489 lugares em disputa na Assembleia Popular, que nunca reuniu. Contrariamente ao que aconteceu em Timor, o Prémio Nobel da Paz (1991) a ela atribuído não teve aqui qualquer impacto político na evolução da situação.
A bem da verdade, a decisão do presidente indonésio Jusuf Habibie de promover um referendo sobre o futuro de Timor-Leste em Janeiro de 1999, não foi recebida lá muito bem entre o comando das suas forças armadas (ABRI). Mas também é verdade que a Indonésia estava numa situação de fragilidade política extrema e que a ABRI ainda dispôs de 6 meses para organizar as coisas de forma a evitar a derrota fragorosa que se veio a registar no referendo realizado em Agosto desse ano em Timor-Leste: 80% dos votos foram favoráveis à independência…
Mas, se os militares indonésios perderam uma pequena fracção do seu país, que, de resto, haviam anexado 24 anos antes, o recorde da ingenuidade vai para os militares paquistaneses que em 1971 acabaram por perder 15% do seu território e mais de metade da sua população… Uma asneira tão grossa precisa de uma explicação mais extensa: o Paquistão que nasceu em 1947, constituído a partir das regiões da Índia onde predominavam os muçulmanos, estava dividido em duas partes afastadas 1.500 Km entre si: o Paquistão Ocidental e o Oriental.
O primeiro, que mantém o nome do país, era quase seis vezes maior que o segundo (hoje o Bangladesh), embora fosse ligeiramente menos povoado. Era também a Ocidente que ficava a sede do poder político, e era daí que eram originários a esmagadora maioria dos membros topo da administração civil e das chefias militares. Os habitantes bengalis do Paquistão Oriental mostravam em relação ao estado paquistanês muito dos ressentimentos característicos de um regime de dominação colonial.
O regime militar paquistanês, que durava desde 1958, já dava mostras de desgaste, tendo o general Ayub Khan, que o dirigira desde o início, transferido os seus poderes para o general Yahya Khan em 1969, no seguimento de uma grande contestação social e política que, no Paquistão Oriental, se acumulava ainda com exigências de autonomia e mesmo de independência. O general acalmara parte dessa contestação com a promessa de eleições a realizar em Dezembro de 1970.
Era dado por adquirido que o regime conseguiria obter uma maioria de apoios da nova Assembleia a eleger. Por força da demografia, mais de metade (162) dos deputados da futura Assembleia de 300 membros era eleita em circunscrições do Paquistão Oriental. Num dos mais surpreendentes golpes de teatro eleitoral, o partido que se batia pelos interesses dos bengalis orientais (Liga Awami) passou de partido marginal do sistema político paquistanês a indigitado para o governo de todo o Paquistão, ao conquistar a maioria da Assembleia, com 160 dos 162 lugares do Paquistão Oriental…
Desnecessário será dizer que dos resultados políticos daquelas eleições (que os serviços de informações militares nunca anteciparam) havia que ceder o poder à, até então, marginal Liga Awami, o que nem a classe política civil do Paquistão Ocidental estava disposta a aceitar. Em consequência, a secessão do Bangladesh tornou-se politicamente mais do que legitimizada e quando a Índia a apoiou militarmente, a partir de Dezembro de 1971, forçando a rendição das forças armadas paquistanesas, o gesto acabou por ser aceite pelas duas superpotências.
Curiosamente, nesta terceira guerra indo-paquistanesa, um conflito onde sempre foram fortes as conotações religiosas de hostilidade entre hindus e muçulmanos, o Chefe de Estado-Maior das forças armadas indianas era parsi - Sam Manekshaw - e o comandante das forças no terreno (que se vê de turbante a assinar na fotografia da cerimónia da rendição das forças paquistanesas) era sikh - Jagjit Singh Aurora – e nascido no Paquistão… Para completar, o Chefe de Estado Maior deste último, J.F.R. Jacob era… judeu.
* Para os mais novos e os mais esquecidos o PS ganhou as eleições com 37,9% dos votos, seguindo-se o PPD com 26,4%, o PCP com 12,5%, o CDS com 7,6% e só então o MDP/CDE, com 4,1%.
27 novembro 2006
A ÁSIA ENTRE OS DOIS COLOSSOS DO FUTURO – 5
Há ocasiões onde as divisões da geografia política, não ajudam e até se tornam mesmo um obstáculo à definição de um espaço geográfico preciso. Nas grandes regiões asiáticas onde, no passado, China e Índia alternaram na sua influência cultural – indicativo que poderão ser áreas de disputa futura – conta-se a grande região onde predominam os malaios, que engloba a península da Malásia e a Indonésia Ocidental, com as suas ilhas principais de Java e Sumatra. Estas duas ilhas concentram cerca de 80% da população da Indonésia (222,8 milhões de habitantes em 2005), enquanto na península malaia habitam também cerca de 80% da população do estado malaio (26,8 milhões de habitantes em 2006). No extremo Sul da península, como uma evocação das cidades estado da Grécia clássica e da Itália renascentista, situa-se a cidade estado moderna de Singapura, com 4,3 milhões de habitantes (2005).
Procurando por todo o globo é difícil encontrar uma península que seja mais ínsula (ilha) do que a península malaia. O seu ponto mais estreito, o istmo de Kra, ainda em território tailandês, tem apenas 44 Km. de extensão. Desde há muito que existem ideias para ali abrir um canal de navegação, à semelhança dos que se construíram no Suez ou no Panamá, embora os ganhos em tempo que ali se obteriam sejam visivelmente menores aos verificados nos outros locais mencionados. E se a península malaia é uma quase ilha maciça de 132.000 Km2 (só na parte malaia), Sumatra é uma verdadeira ilha maciça de 473.000 Km2 (5 vezes a extensão de Portugal) e Java, outra grande ilha, com 132.000 Km2. O clima é tropical e equatorial com duas monções por ano, que alimentam uma flora tropical exuberante (70% da península malaia e a grande maioria de Sumatra estão cobertas de uma imponente floresta tropical) e uma agricultura de arroz com altos rendimentos: a densidade populacional na ilha de Java aproxima-se dos 940 habitantes por Km2, a segunda mais elevada de todo o mundo.
Outra das características da geografia física daquela região é a sua enorme instabilidade geológica. Numa lista de vulcões assinalam-se 35 localizados em Sumatra e mais 44 em Java e nos seus arredores. Outra consequência dessa enorme instabilidade geológica são os terramotos e maremotos como o de 26 de Dezembro de 2004 que se estima tenha causado a morte a 230.000 pessoas, 168.000 das quais na Indonésia e destas, a esmagadora maioria na ilha de Sumatra, o local mais próximo do epicentro do fenómeno. Em resultado da acção vulcânica sobre as ilhas, os locais mais elevados também impressionam pela sua altitude: se na Malásia o pico dominante atinge apenas os 2.187 mts. (200 mts. acima da torre da Serra da Estrela), em Java o monte Semeru tem 3.676 mts. e em Sumatra o monte Kerinci 3.805 mts. – são quase duas Serras da Estrela (1.991 mts.) sobrepostas!
Sensivelmente 2/3 da população de Java (rondando os 130 milhões) pertencem à etnia javanesa. Correspondendo a cerca de 45% do total da população indonésia, os javaneses constituem uma espécie de núcleo duro do Estado Indonésio. Outro grande grupo étnico e linguístico de Java são os sundaneses, que se estima serem uns 30 milhões. Outros grupos étnicos e linguísticos mais pequenos são os do madureses (de Madura, uma ilha de 4.000 Km2, adjacente a Java), com 8 a 10 milhões de falantes e os balineses (de Bali, outra ilha de 6.000 Km2, nas mesmas circunstâncias da anterior). Note-se que o idioma oficial da Indonésia (o bahasa indonésia), embora aparentado com qualquer dos idiomas acima citados, é distinto de qualquer um deles, e empregue normalmente como segunda língua de comunicação. Mais de 90% da população de Java é muçulmana, mas existem vestígios espalhados pela ilha de comunidades cristãs (católicas e protestantes), budistas e especialmente hindus, que, no caso das duas últimas, outrora predominaram na ilha. Os hindus, provavelmente a maior das minorias religiosas de Java, concentram-se sobretudo no Leste, junto à ilha de Bali, onde constituem a esmagadora maioria da população da ilha.
Se a descrição étnica, linguística e religiosa de Java já foi extensa, apesar dos esforços para a simplificar, a de Sumatra teria de ser maior… Embora muito menos habitada do que Java (cerca de 47 milhões de habitantes), a sua maior extensão e a cobertura luxuriante tornam a sua população muito mais heterogénea: ao todo existem 52 línguas diferentes, mas todas pertencentes ao grande grupo malaio. Os muçulmanos também são a esmagadora maioria (mais de 90%), com as mesmas minorias (cristãs, budistas e hindus) e com a curiosidade da existência dum grupo do interior (os Batak – que são na realidade uma designação genérica de grupos étnicos distintos) que são predominantemente protestantes.
Em contrapartida, na Malásia, a identificação de grupos étnicos torna-se muito mais fácil: esquecendo as especificidades distintivas entre malaios – que constituem 60% da população – há ainda que contar com os chineses (30%) e com os indianos (8%). A chegada destes dois últimos grupos é, contudo, um fenómeno relativamente recente, do Século XIX, quando o Império Britânico precisou de mão-de-obra para as suas plantações de borracha e a começou a importar das possessões próximas que possuía na Ásia: a Índia e Hong-Kong. É a mesma razão que explica a composição étnica da cidade estado de Singapura: 77% de chineses, 14% de malaios e 8% de indianos. Em termos religiosos, a esmagadora maioria dos malaios, como na Indonésia, são muçulmanos, os chineses repartem-se entre as religiões tradicionais da China (Budismo, Taoismo e Confucionismo) e os indianos, como acontece no subcontinente, são maioritariamente hindus, embora com uma significativa minoria (1/3) muçulmana. De notar como a presença colonial britânica se faz sentir no número de cristãos: são 9% na Malásia e mais de 12% em Singapura.
Esta descrição complexa da actualidade tem todavia uma evolução histórica muito semelhante a que já foi traçada para as outras regiões. Pouco dela se sabe até ao Século VII da nossa era, mas já lá existiam reinos indianizados. Curiosamente, não se sabendo qual foi a religião que iniciou o processo de evangelização, se terá sido o hinduísmo ou o budismo, a verdade é que os divulgadores tanto duma quanto doutra, vindos todos originalmente da mesma região geográfica (Índia), por séculos disputaram os favores das elites locais nos seus esforços de conversão.
Fontes escritas chinesas mencionam no Século VII o porto de Srivijaya (Palembang no Sul de Sumatra), um centro religioso budista e também o centro das conexões de um império comercial, que assegurava as ligações marítimas com a China e a Índia, mas o seu feito mais espectacular foi o de projectar a sua influência até à ilha de Madagáscar! Enquanto a Malásia e Java ocidental dependiam deste império, no centro de Java, muito mais fértil, aparecia um reino budista no Século VIII que se viu suplantado no século seguinte por dinastias hindus oriundas do Leste da ilha. Até aos finais do Século XIII, com oscilações, é esse o mapa político que prevalece, embora o império comercial tenha vindo a enfraquecer progressivamente – chegou a ser atacado a Ocidente pelo potentado indiano tamil (do Sul da Índia) no Século XI – e com a infiltração progressiva do Islão (vindo também da Índia como as outra religiões) a partir do fim do Século XIII.
O Islão está na génese de um novo império comercial, lançado em bases renovadas – uma rede que abrange a China, a Índia, mas também todas as ilhas importantes do arquipélago indonésio, incluindo as Filipinas - e sedeado em Malaca, a partir do Século XV. Considerando todos os seus efeitos, a conquista de Malaca em 1511 por Afonso de Albuquerque é capaz de ter sido a sua proeza mais importante, superando todas as suas outras conquistas. Mais do que a localização estratégica do porto, controlando o Estreito com o seu nome, Albuquerque apropriou-se do local onde se concentravam quase todas as rotas comerciais para Oriente e Ocidente. Circunstancialmente, o Islão tornou-se o catalisador da oposição ao monopólio que os portugueses quiseram impor: a maioria dos estados que se lhes opunham eram ou tornaram-se sultanatos.
A substituição dos portugueses pelos holandeses a partir do Século XVI obedece à lógica das vantagens comparativas que permitiram às potências protestantes do Atlântico substituírem-se com vantagem às duas potências ibéricas católicas: concentração na rentabilidade das actividades económicas, abandono de qualquer veleidade de proselitismo religioso e controle discreto dos detentores do poder formal. Como aconteceu com os britânicos na Índia, apenas por inércia, por volta de 1790 já os holandeses se haviam apoderado de vastas parcelas das ilhas da Indonésia e da península da Malásia. As Guerras Napoleónicas na Europa permitiram aos britânicos atribuírem-se (a Holanda tinha sido ocupada por Napoleão) alguns territórios que consideravam importantes para o seu império mundial.
Foi assim com Ceilão, foi assim com a África do Sul e foi assim com a Malásia onde fundaram em 1815, no extremo Sul da península, uma cidade - Singapura – destinada a substituir Malaca como entreposto central do comércio sino-indiano. Recorde-se que em 1842 os britânicos vieram a adquirir Hong-Kong à China, no seguimento de uma Guerra do Ópio, que os britânicos queriam exportar da Índia para a China, mas que estes, compreensivelmente, não queriam importar. Singapura é uma cidade verdadeiramente moderna porque, ao contrário de Malaca, está rodeada de pântanos o que a impede de dispor dos recursos agrícolas que possam alimentar uma população numerosa: desde o princípio, praticamente tudo o que Singapura consome tem de ser importado.
Já houve oportunidade de descrever como a importação de mão-de-obra deu lugar a uma alteração substancial do panorama étnico na Malásia, com uma importante minoria chinesa (30%) que até é maioritária em Singapura (77%). Na Indonésia, especialmente em Java, também existe uma importante comunidade mercantil urbana chinesa, parte da qual já está enraizada no país desde há séculos mas cuja dimensão é difícil de estimar devido a perseguições políticas no passado recente. Oficialmente, um número que se considera normalmente estar subestimado os chineses étnicos serão um pouco mais de 2 milhões.
A conquista da região pelos japoneses em 1941-42 afundou o prestígio dos europeus e tornou a sua manutenção enquanto potências coloniais praticamente impossível. A Indonésia tornou-se independente da Holanda em 1949 e a Malásia do Reino Unido em 1960, não sem antes a China Popular ter ensaiado uma das suas primeiras projecções de poder no exterior, fomentando entre os seus na Malásia um movimento de subversão cujo auge durou de 1948 a 1954. Também o predomínio dos chineses entre os quadros do Partido Comunista Indonésio (PKI) levou a uma associação entre ideologia e nacionalidade que teve o efeito perverso de, durante um Golpe de Estado militar na Indonésia, em 1965, a perseguição ao PKI se ter transformado numa gigantesca perseguição sangrenta contra a comunidade chinesa.
Este último troço das regiões da Ásia que se dispõem entre os dois colossos do futuro, contém, curiosamente, o único país, fora naturalmente a República Popular da China e a Formosa, onde existe uma maioria populacional chinesa: Singapura. Nessa perspectiva pode ser vista como mais um elo de uma cadeia de grandes cidades chinesas como Xangai e Hong-Kong. E, de facto, o actual fluxo do desenvolvimento económico sopra decididamente de Leste. É para aí que as economias tem de se virar. Mas, se a religião dos malaios servirá de indicação da sua neutralidade numa qualquer disputa ideológica entre o seu Leste e o seu Oeste, pelo menos os precedentes históricos – com o valor restrito que esse facto possa ter – apontam para que ali se estivesse estado sempre mais disposto a receber as ideias que vêm de Ocidente do que as do Oriente…
10 setembro 2006
NÃO HÁ RECEITAS PARA DESCOLONIZAÇÕES
Identificando-as, percebe-se que, em termos de descolonizações não parecem existir soluções ideais, pois qualquer dos casos e das regiões foram e têm continuado desde aí a ser presenças frequentes nos noticiários internacionais: a França concedeu a independência à Síria e ao Líbano em 1943, o Reino Unido fez o mesmo com a Índia e o Paquistão em 1947 e em 1949 os Países Baixos preferiram manter a Indonésia com a estrutura unificada que havia sido formada nos tempos coloniais.
O Líbano era um território onde, à data de independência, existia uma maioria cristã, distinta da da Síria onde predominava o islamismo, o Paquistão foi formado pelas regiões indianas onde existia uma maioria de população muçulmana, distinta da maioria da da União Indiana, que professava o hinduísmo, e o mesmo poderia ter sido feito na Indonésia, onde, da maioria muçulmana, se destacaria, por exemplo, o arquipélago ocidental das Molucas, onde existia uma maioria cristã.
Actualmente, sobre a Indonésia pende a espada de Dâmocles do separatismo, que se manifesta de diversas formas e em diversos locais, dispensando até a religião quando esta não serve de elemento diferenciador que o exprima. A mesma espada pende, mas por razões diferentes, sobre os países que se individualizaram (Líbano, Paquistão), através das relações contraditórias de atracção e repulsão que mantêm com os (proporcionalmente) grandes vizinhos de que se separaram.
São três casos engraçados que valerá a pena vir a desenvolver individualmente aqui em posts futuros. Mas que, quando comparados, nos ficam de alerta para os revisionismos de direita sobre as descolonizações que poderiam ter sido feitas se… e os revisionismos de esquerda sobre as culpas que os colonizadores carregarão até ao fim da história…
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03 julho 2006
OS PODERES CONSTITUCIONAIS DA STEYR
Visto que muitos dos problemas de Timor giram à volta de armas e, agora, que o problema se parece focar na distribuição das ditas, deixem-me apresentar-vos uma arma, acima representada, que tem a designação de Steyr-Mannlicher AUG, foi concebida na Áustria, onde começou a ser produzida a partir de 1978. Segundo as especificações técnicas da Jane´s Guns Recognition Guide, tem 790 mm de comprimento, 3,85 Kg. de peso e pode ser usada com carregadores opcionais para 30 ou 42 munições de calibre 5,56 mm.
Para além destes aspectos mais técnicos, como arma regulamentar das forças armadas australianas, onde tem a designação de F88, e considerando todas as evoluções políticas que se têm registado ultimamente em Timor-Leste, parece ter tido um papel muito relevante – ainda que indirecto - na definição de quais seriam os poderes constitucionais dos protagonistas da jovem República timorense.
Para além destes aspectos mais técnicos, como arma regulamentar das forças armadas australianas, onde tem a designação de F88, e considerando todas as evoluções políticas que se têm registado ultimamente em Timor-Leste, parece ter tido um papel muito relevante – ainda que indirecto - na definição de quais seriam os poderes constitucionais dos protagonistas da jovem República timorense.
Eu bem sei que os nossos constitucionalistas aqui em Portugal – de que se destaca o Dr. Jorge Miranda – normalmente serão um pouco obtusos quanto ao estudo das características do armamento em geral, mas a experiência mostra que quando a doutrina se divide sobre um determinado aspecto constitucional, nomeadamente as competências, como era o caso timorense, a presença de umas centenas dessas armas é capaz de suscitar mais facilmente entendimentos capazes de gerar jurisprudência...
Normalmente esse entendimento tende a processar-se em favor das teses que defende quem manda nas armas, independentemente de qual for a composição de quaisquer órgãos legislativos democraticamente eleitos. E até, pensando melhor, os timorenses até já deviam estar acostumados à capacidade de persuasão das Steyr-Mannlicher AUG: também era (e é) a arma regulamentar do exército indonésio…
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