31 outubro 2017

«BOHEMIAN RHAPSODY»


31 de Outubro de 1975. Lançamento de «Bohemian Rhapsody», que é aqui evocado no vídeo original e, para comparação, numa paródia dos Marretas 34 nos depois. Ainda andei à procura de uma paródia mais antiga, feita, salvo erro, pela Rádio Comercial em 2003 ou 2004, em que a música se denominava Rapsódia Laranja e o protagonista era Pedro Santana Lopes e o leitmotiv as suas irrequietas ambições políticas, «a primeiro-ministro, a presidente, pouco o importava desde que houvesse santanetes», assim rematava a letra do arranjo musical. Alguém se lembra dessa outra rapsódia? Alguém sabe de alguém que a possa tornar outra vez acessível na rede? Garanto que se vai tornar outra vez popular...

O EFEITO DUNNING-KRUGER

Considerando a boa recepção como foi acolhida a metáfora do pombo xadrezista, permitam-me mais esta descrição, mais analítica mas igualmente cáustica, de um outro fenómeno que costuma também perturbar os protocolos comunicacionais da modernidade em rede. Em que consiste esse tal de Efeito Dunning-Kruger? Diz-nos a wikipedia (que é, paradoxalmente, um dos maiores promotores indirectos desse Efeito...) que é «o fenómeno (psicológico) pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros». Como se deduz do gráfico acima (em ordenadas, para além do conhecimento objectivo, valoriza-se também a perspectiva subjectiva desse conhecimento), o grau de confiança de um iniciado (Beginner) tende a crescer exponencialmente (curva dourada) nas fases iniciais da aprendizagem até uma fase intermédia (Hazard) quando ele começa a vislumbrar até onde pode ir o desenvolvimento do tema ou da disciplina. Paradoxalmente, costuma ser entre aqueles que entendem muito mais sobre o assunto (Expert) que se encontram os mais precavidos quanto à qualidade dos seus conhecimentos. Comprovado por trabalhos de campo realizados pelos dois senhores que lhe deram o nome, David Dunning e Justin Kruger, as conclusões foram apresentadas num trabalho que ficou concluído em 1999 e que teve a duvidosa honra de receber o Prémio IgNobel de Psicologia no ano seguinte (2000).

É caso para evocar o velho ditado «Ri melhor quem ri por último», pois o século XXI que despontava assistiu à proliferação mediática dos Tudólogos, comprovando a substância das conclusões do estudo. É o efeito Dunning-Kruger que permite à classe dos que são sempre convidados a opinar sobre os temas que constam da actualidade, têm aquela atitude auto-satisfeita consigo mesmo, dizendo coisas «hoje sobre a crise financeira, amanhã sobre o desaparecimento de Michael Jackson ou a urgente necessidade de economizar água da torneira, e ainda, depois de amanhã, sobre a guerra do Afeganistão» (citação retirada do livro Les éditocrates). Tanta dispersão de temas, que lhes é imposta pela agenda mediática, tem como consequência que, regressando ao gráfico acima, sobre a maioria daquilo que comentam, os conhecimentos dos Tudólogos sejam apenas os de um Beginner em fase de transição para Hazard (e isso só para os que preparam previamente as suas intervenções...). Mas o frenesim como os temas se encadeiam na agenda mediática, impede, até mesmo os mais conscienciosos, de atingirem o tal patamar a partir do qual o conhecimento faria que a petulância se desfizesse. O resultado de anos encadeados de tudologismo, tende a tornar-se cómico. A imodéstia intelectual é um traço comum. Haverá dezenas de exemplos a que recorrer, mas fiquemo-nos por este caso crasso, abaixo, um José Manuel Fernandes que a biografia dá como um lisboeta típico, mas cujos sentidos estão tão embotados por anos a fio das distorções do Efeito Dunning-Kruger, que ele se sente com autoridade para perorar «do país que Lisboa não sabe que existe». O provérbio dizia que a ignorância era atrevida. Actualmente, a ignorância tornou-se insolente.

30 outubro 2017

A POMBA

Espantoso país este quando dois anos depois dos acontecimentos se insiste ainda na fábula do «homem que ganhou essas legislativas». Teve o seu curso na altura, por entre os que têm digestões políticas mais difíceis, mas, mesmo como argumento despeitado para arremesso, já passou do prazo. O tal homem teve a sua oportunidade de formar governo, governo esse que foi rejeitado pela câmara de deputados, câmara essa que foi eleita precisamente nessas mesmas legislativas que ele havia «ganho». Para quem já não se lembre dessa rejeição, aí está abaixo o anúncio do resultado da votação. As eleições legislativas ganham-se quando se alcançam maiorias parlamentares absolutas. Quando não, fica-se em primeiro lugar - o que não é bem a mesma coisa (anos antes, José Sócrates descobriu a diferença - significativa - entre uma coisa e outra de 2005 para 2009). A democracia parlamentar não tem as mesmas regras que um campeonato de futebol: neste sagra-se campeão aquele que no fim tiver mais pontos. Embora haja muito por aí quem discuta os dois assuntos com os mesmos argumentos, nas eleições é preciso alcançar um número preciso de pontos (50%+1) para garantir a vitória. Isto não só já foi repetido milhentas vezes, como é mais fácil de perceber que o teste t de student. A insistência de pessoas como Helena Matos na fábula torna a discussão sobre o assunto cada vez mais naquilo que se popularizou designar ironicamente por jogo de xadrez com pombos: não só eles não sabem as regras, como se passeiam pelo tabuleiro e derrubam as peças, cagando-o, como no fim, enchendo o papo com a sua razão, batem asas e saem a voar mantendo que Pedro Passos Coelho ganhou as legislativas.

QUANDO A VITÓRIA GLORIOSA DE EL ALAMEIN NÃO PARECIA NADA GLORIOSA

Lançada desde 23 de Outubro de 1942, uma semana depois, a batalha de El Alamein não parecia estar a correr nada bem para os Aliados. O ataque sobre as linhas inimigas prosseguia, mas a esperada ruptura da frente teimava em não se concretizar. Tanto assim que a 27 de Outubro Montgomery havia decidido remontar a manobra inicial. Para isso, algumas das divisões envolvidas (algumas destinadas a tornarem-se míticas como a 7ª Blindada ou a 2ª Neozelandesa) tiveram que ser reposicionadas, provocando o afrouxamento do ritmo dos combates e a impressão nas retaguardas que a ofensiva nas quais tantos olhares se concentravam se arriscaria a fracassar. Em Londres, o primeiro-ministro Churchill explodiu furioso: «Nunca conseguiremos descobrir um general que seja capaz de ganhar uma batalha?» No balanço, redige ali mesmo um telegrama pedindo ao general Alexander (o superior de Montgomery) a substituição de um general que já lhe parecia destinado ao fracasso.

Há precisamente 75 anos portanto, a carreira militar de Montgomery não se afigurava propriamente destinada aos grandes sucessos que veio a alcançar. Na ocasião, foi o general Alan Brooke, o Chefe de Estado Maior, que era seu amigo, que o defendeu diante de Churchill, conseguindo-lhe um novo prazo para apresentar resultados. Na página da Wikipedia (em inglês) dedicada à batalha, os sucessos aliados só se começam a consolidar a partir daquilo que se designa por Fase Quatro, a 2 de Novembro. Depois, veio a confirmação da vitória e o esquecimento de tudo o que aconteceu nos momentos difíceis como o demonstra o vídeo acima. Muito melhor prosador do que Comandante em Chefe, Churchill acaba por sair-se de todo o episódio com a reputação de ter guardado para si as palavras históricas que a ocasião mereceria: «Isto não é o fim. Isto nem é sequer o princípio do fim. Mas será talvez o fim do princípio

29 outubro 2017

«HAIL TO THE CHIEF»

Instantâneo deste fim de semana, mostrando a caravana automóvel do presidente Trump a ultrapassar uma ciclista que aproveita a ocasião para o saudar, demonstrando-lhe a sua simpatia com o dedo médio ostensivamente espetado. A história vem contada no diário britânico The Guardian. Hail to the Chief, o título que é dado ao artigo e copiado para este poste, é o hino oficial do presidente americano que costuma ser tocado nas suas aparições oficiais em público. A ironia do titulo reforça-se quando se conhece a letra - raramente cantada - do dito hino:
Hail to the Chief we have chosen for the nation,
Hail to the Chief! We salute him, one and all.
Hail to the Chief, as we pledge cooperation
In proud fulfillment of a great, noble call.

Yours is the aim to make this grand country grander,
This you will do, that is our strong, firm belief.
Hail to the one we selected as commander,
Hail to the President! Hail to the Chief!

Já agora: cá em Portugal, não há dedos, não há coragem para mostrar os dedos, não há oportunidade para fotografar os dedos ou não há apenas interesse e/ou coragem para exibir essas fotografias de dedos assestados?

«YOU ARE ALL WEIRDOS!!»

Ocorreu-me hoje especular sobre o que é que poderia pensar Sam the Eagle, que sempre considerei a quintessência do americanismo, de Donald Trump. Evidentemente, alguém já se havia antecipado. E este presidente ainda parece mais weirdo do que os concidadãos que o elegeram...

VOCÊ AINDA SE LEMBRA DA CONSTITUIÇÃO (dita) EUROPEIA?

29 de Outubro de 2004. Há treze anos os chefes de Estado e de governo dos 25 países que então compunham a União Europeia assinavam em Roma um projecto de tratado Constitucional que nos era apresentado como a «Constituição para a Europa». Já havia blogues na altura, elogiosos do que acontecera. Seguir-se-ia o processo de ratificação de cada um dos países, mas foi aí é que entrou areia para uma engrenagem que se pressupunha oleada: a falta de um verdadeiro debate na opinião publicada por toda a Europa era tal que, foi com genuína surpresa que, em dois referendos quase encadeados, o projecto se viu recusado tanto em França (29 de Maio de 2005), como na Holanda (1 de Junho de 2005).
Vale a pena recordar que nessa altura ainda havia a pretensão que o aprofundamento da integração europeia se processava com a anuência popular. Até mesmo por cá, José Sócrates prometia em Março de 2005 algo inédito: um referendo sobre o assunto conjuntamente com as eleições autárquicas do final do ano (abaixo). Na Europa, as duas rejeições foram a primeira grande manifestação de sublevação dos eleitorados quanto a processos integracionistas que não responderiam aos problemas económicos e sociais dos europeus, mas também foi um alerta para evitar que, por efeito de contágio, a rejeição se transformasse num encadeado de humilhações: os referendos programados para outros países (incluindo Portugal) foram suspensos (para nunca mais serem retomados...).

Hoje estamos em condições de compreender que a lição que os dirigentes europeus tiraram do fracasso da aprovação do tratado Constitucional não teve nada a ver com o recado que os eleitorados daqueles dois países fundadores da CEE lhes haviam transmitido na Primavera de 2005. O que mudou foi a táctica de impingir a mesma coisa, agora travestida como Tratado de Lisboa, aprovada quase três anos depois (19 de Outubro de 2007), pontificado por uma cena, na altura cómica, mas hoje tornada embaraçosa em que dois políticos portugueses se abraçavam como se da conclusão das negociações tivesse resultado algo de importante para os portugueses: - Porreiro, pá! Porreiro! O que já ficara combinado a nível europeu - e a segunda parte do vídeo acima é uma entrevista feita a Sócrates em data anterior (Julho de 2007) à aprovação do tal Tratado porreiro - é que desta vez não haveria referendos para ninguém*.

* Em rigor houve um: na Irlanda. Mas como houve um voto negativo no primeiro referendo, teve que haver outro referendo. Todos os países da União são teoricamente iguais mas há uns que são mais iguais que outros: a Irlanda, ao contrário da França, é descartável.

28 outubro 2017

A GERINGONÇA NO BRASIL

Acabadinho de chegar do outro lado do Atlântico, este instantâneo de um Quem Quer Ser Milionário? brasileiro, comprova que a projecção de Portugal pelo Mundo já não se fica apenas por Cristiano Ronaldo, por Salvador Sobral ou pelo professor Marcelo. Agora até já se estende a um certo modelo de governação. Para aqueles que são mais curiosos, informe-se que o concorrente errou na resposta, chutou D: Traquitana e perdeu (merecidamente) R$ 30.000 reais.

TANTO SORRISO PARA NADA... («MUCH SIMPER ABOUT NOTHING»*)

Uma das fotografias com que mais engracei na campanha destas últimas autárquicas foi este esgar esforçado, mas pouco conseguido, de José Eduardo Martins ao lado de uma Teresa Leal Coelho que já ali se adivinhava fadada para o opróbrio. Nem sequer se poderá falar de noblesse oblige porque o ambiente de uma campanha política acompanhando uma protagonista de recurso nem sequer será ambiente de noblesse... Apesar de tudo, ainda o vi, estoico até ao fim, na noite das eleições a participar no lavar dos cestos junto a uma Teresa Leal Coelho ainda mais solitária, se possível. E tudo isso foi para nada.
Numa jogada de bastidores, um seu companheiro videirinho de seu nome Luís Newton, especialista em relações luso-chinesas (assinalado na foto acima), apresenta-se alternativamente como candidato a dirigir a bancada do PSD na assembleia municipal de Lisboa. Havendo 12 deputados municipais, haverá poderosas razões bíblicas para que haja um que destoe... Não havendo melhores nacos de poder para repartir, neste PSD há agora disputas internas para ver quem dirige quem em assembleias municipais. Por esta vez, não reconheço José Eduardo Martins na sua atitude de auto-comiseração: há certas coisas que só mesmo à porrada...

* Uma variação sobre o título da peça de Shakespeare Muito Barulho Para Nada (Much Adoo About Nothing)

A MARCHA SOBRE ROMA

28 de Outubro de 1922. Início da Marcha sobre Roma. Na época, foi considerada uma exibição de força dos fascistas italianos. 95 anos passados e pelos padrões actuais, assemelhar-se-á mais a um desfile coreografado com requintes a lembrar o carnavalesco (vídeo abaixo), aprecie-se acima Benito Mussolini desfilando à cabeça (à civil!) acompanhado dos quadrúnviros, heróis de guerra, com os peitos ornados de medalhas: Italo Balbo, Emílio De Bono, Cesare De Vecchi e Michele Bianchi. Mas a grande contribuição para a Ciência Política naquele momento histórico, em que um regime parlamentar aparentemente sólido não pôde ou não se quis defender, foi a frase produzida pelo general Emanuele Pugliese, quando questionado sobre a lealdade das tropas sob o seu comando, encarregues de defender Roma: «Posso assegurar a V. Ex.ª que as unidades sob o meu comando permanecem leais ao regime mas será de toda a conveniência política que não se teste essa lealdade...» Benito Mussolini foi encarregado pelo rei Vítor Emanuel III de formar governo. Para o apoio parlamentar, havia apenas 37 deputados fascistas numa Câmara de 535 (7%), mas isso deixara de interessar na política italiana.

27 outubro 2017

O TRATADO DE FONTAINEBLEAU (1807)

Há uns dias tornou a circular pela Net, a propósito da Catalunha, um complicado mapa da Europa em que apareciam evidenciados todos os separatismos do continente. Curioso é que, se o analisássemos em detalhe, ver-se-ia que poucos países escapariam a esse desmembramento virtual provocado pelos particularismos dos povos: a Grécia, a Irlanda (que até se reuniria com o Ulster) e... Portugal. É contra esse pano de fundo que se torna irónico afixar aqui este mapa de um Portugal desmembrado para ilustrar a assinatura do Tratado de Fontainebleu que teve lugar há precisamente 210 anos: 27 de Outubro de 1807. Assinaram-no (secretamente) França e Espanha. Previa a repartição do Portugal continental em três partes: a) o Reino da Lusitânia Setentrional com 750.000 habitantes em 8.000 km² (a verde); b) o Principado dos Algarves com uns 350.000 habitantes e 35.000 km² (a rosa); c) uma terceira parcela (a maior) de 46.000 km² e 1.900.000 habitantes cujo destino era para ser decidido posteriormente. Nesses tempos não se invocava nem se praticava ainda essas modernices dos direitos de autodeterminação dos povos. Os soberanos prometidos, o rei da Lusitânia e o príncipe dos Algarves, eram obviamente espanhóis. Mas, como aconteceu com tantas outras combinações da diplomacia nesses anos frenéticos da supremacia napoleónica sobre a Europa, acabou por não ser assim. No futuro, aquilo que ficara acordado no papel nunca chegará a sair do papel, mas em termos daquilo que realmente interessaria a Napoleão, a imposição do Bloqueio Continental, a assinatura do Tratado foi apenas a percursora da que seria a primeira Invasão Francesa. Pouco mais de um mês depois, a 30 de Novembro, o general Junot entrava em Lisboa e, com a Corte fugida para o Rio de Janeiro, estabelecia a sua lei.

O(S) «BEATLE(S)» RECEBE(M) UMA CONDECORAÇÃO (2)

Apercebi-me que, ao postar ontem a evocação da condecoração dos Beatles de há 52 anos, se me cingisse à cerimónia se perderia o melhor da história das condecorações dos Beatles, porque houve gestos significativos que só vieram a ocorrer muitos anos depois daquele dia. Assim, John Lennon e a sua muito publicitada devolução da condecoração recebida da rainha só veio a ocorrer quatro anos depois, em Novembro de 1969. A carta que acompanhou o gesto, demonstrando mais atitude que consistência, era um misto de chalaça forçada e de superficialidade involuntária, dando como razões para a devolução da condecoração o «envolvimento britânico naquela coisa da Nigéria e do Biafra», «o nosso apoio à América no Vietname» (quando o governo trabalhista britânico de Harold Wilson fazia tudo o que lhe era possível para se distanciar do conflito...) e «a queda de Cold Turkey (o primeiro disco a solo de Lennon) nas tabelas de vendas».

O desinteresse manifestado por John Lennon em relação a tais formas de reconhecimento não era acompanhado pelos restantes membros da banda. Em Março de 1997, Paul McCartney (mas só ele) foi elevado à categoria de cavaleiro (vídeo acima). Quando, em 1999, George Harrison foi sondado para receber uma outra condecoração, este recusou-a, alegadamente ao aperceber-se que seria de uma categoria inferior à que havia sido atribuída ao seu antigo companheiro. O facto só veio a ser conhecido muito anos depois da morte de George Harrison. Contudo, pelo panorama da atribuição de condecorações britânicas nas últimas décadas e apesar da discrição do visado, especula-se que a mesma recusa terá sido manifestada pelo último membro da banda, Ringo Starr. Quanto a Paul McCartney ninguém o pára, até mesmo no estrangeiro, a França concedeu-lhe em 2012 a Legião de Honra (abaixo) e já em Junho deste ano foi elevado ao estatuto de Companheiro de Honra.

26 outubro 2017

OS «BEATLES» RECEBEM UMA CONDECORAÇÃO

26 de Outubro de 1965. Os Beatles ainda estão no princípio da sua carreira mas já se tornaram muito populares e os assessores da rainha lembraram-se de aproveitar essa popularidade para a associar à Coroa. Não que o establishment britânico investisse simbolicamente muito com aquele gesto. A condecoração que foi então atribuída aos jovens músicos não era propriamente das mais exclusivas entre as que podem ser conferidas pela monarca - a acreditar na wikipedia há 100.000 recipientes vivos com aquela mesma distinção da MBE - mas era a primeira vez que isso acontecia com estrelas de Rock & Roll. A histeria que se levantou na ocasião à volta de palácio de Buckingham, conforme se pode ver no vídeo abaixo, foram realmente únicos, muito superiores ao que a monarca ou quaisquer outros dos seus convidados mais convencionais conseguiria alguma vez mobilizar.

VOCÊ AINDA SE LEMBRA DE QUANDO O CRESCIMENTO DO TURISMO PARECIA DEVER-SE A PAULO PORTAS?...

Há uns três anos as coisas apresentavam-se como se vê acima. O crescimento do turismo parecia ter o alto patrocínio do vice-primeiro-ministro e este parecia até travar uma batalha contra «os que andam aí a dizer que há turistas a mais». Nunca dei por esses inimigos, mas estes dois últimos anos da geringonça no poder, depois da sua saída, comprovaram que o turismo bem podia ter prescindido dos meritórios serviços daquele seu paladino, Paulo Portas, porque os números do sector continuaram a evoluir muito favoravelmente sem a sua presença. A sua pessoa era, afinal, irrelevante para o sector. Só que, sem ela, desapareceram as farândolas a pretexto dos sucessivos records registados no sector que eram protagonizadas pelo vice-primeiro-ministro e os sucessos que têm sido registados no sector são agora confiados à secundária figura da secretária de Estado do Turismo. É isto que parece normal. O que era anormal era o leque alargado de órgãos de informação - (1) (2), (3), (4), (5) - que fez uma ressonância acrítica à venda do «elixir» do doutor Portas.

O BRASIL ENTRA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

26 de Outubro de 1917. Há precisamente cem anos o Brasil declarava guerra à Alemanha, entrando naquela que era então conhecida como a Grande Guerra. Mas, como também se passaria 25 anos depois por ocasião da outra declaração de guerra na Guerra Mundial seguinte, trata-se mais de uma atitude do que de uma iniciativa. Como se assinalou recentemente aqui no Herdeiro de Aécio, no caso dos Estados Unidos passaram-se mais de seis meses entre esta mesma declaração e a chegada dos seus primeiros soldados às frentes (estáticas) de batalha. Pelo mesmo ritmo, no final da Primavera de 1918, teríamos os primeiros contingentes brasileiros a combater em França. Mas não. No caso do Brasil não terá havido mesmo grande empenho em ir combater o inimigo. Há quem, maliciosamente, compare esta participação do Brasil num dos grandes conflitos mundiais do século XX ao que se costuma dizer do papel dos testículos durante o coito: participaram, mas não chegaram a entrar...

25 outubro 2017

O BIFE (NÃO É) À VONTADE DO FREGUÊS

Como se pode apreciar acima, existirão seis graus distintos de cozinhar um bife embora normalmente num restaurante, quando nos perguntam como queremos o bife, toda esta sofisticação acima acabe reduzida a apenas três graus: mal, médio ou bem passado. Mas, mesmo nessa forma simplificada, essa parte do serviço é excelente, o empregado raramente se esquece de fazer a pergunta quando do pedido. O problema é o que acontece depois, porque tradicionalmente quem decide do grau da carne que vai para o prato é o cozinheiro e o que acontece na maioria das vezes é que o cliente acaba por aceitar o que lhe prepararam, azar o de quem se puser com esquisitices de especificar médio/mal passado...

A BATALHA DE AZINCOURT

25 de Outubro de 1415. Trava-se, no norte de França e ainda no quadro da Guerra dos Cem Anos, a Batalha de Azincourt. O resultado foi uma vitória clamorosa para os ingleses que foram comandados no terreno pelo seu rei Henrique V de Lencastre (1386-1422). Para além do desfecho, que se tornou um dos grandes feitos das armas inglesas, o que esta batalha possui de distintivo é a data em que ocorreu, já entrados em pleno Outono, com o Estio e a época tradicional das campanhas militares medievais há muito ultrapassada. Henrique V iniciara a sua campanha em 13 de Agosto, quando desembarcara o seu corpo expedicionário em França e pusera cerco ao porto francês de Harfleur. Quase simultaneamente e em Portugal, o rei João I de Avis (que até era casado com a sua tia Filipa), fazia precisamente o mesmo com Ceuta, no norte de Marrocos. Só que o desfecho em Ceuta foi rápido: caiu logo em 21 de Agosto de 1415. Pelo contrário, Harfleur resistiu e só se veio a render a Henrique um mês depois (22 de Setembro). O resto da campanha do corpo expedicionário inglês é um exercício de perseverança do monarca, quando todas as boas práticas lhe recomendariam que evacuasse as suas tropas antes que, com o fim do Verão, se levantassem problemas logísticos insuperáveis de as reabastecer. De uma certa maneira, o gesto francês de oferecer batalha aos ingleses tão tarde quanto 25 de Outubro, veio salvar a intransigência de Henrique V, salvando-lhe a face e proporcionando-lhe ainda por cima uma jornada militar gloriosa. Apesar disso, os ingleses terão sido ingratos: um dos episódios mais controversos da batalha de Azincourt foi a decisão inglesa de matar os prisioneiros, o que era contrário às convenções da guerra de então (os prisioneiros costumavam ser resgatados). É um episódio que ainda hoje se revela controverso, veja-se a forma distinta como é narrado na wikipedia em inglês e em francês.

24 outubro 2017

O CENTENÁRIO DO INÍCIO DA BATALHA DE CAPORETTO

24 de Outubro de 1917. Durante os quase dois anos e meio precedentes, desde que a Itália entrara na Guerra, o traçado das trincheiras como os exércitos italianos e austro-húngaros se confrontavam no Nordeste de Itália pouco se modificara: seguia ao longo do Rio Isonzo, rio que dava também o nome às batalhas que ali se vinham travando. Em Outubro de 1917 já se haviam travado 11 batalhas com o nome de Isonzo e todas elas tinham tido o mesmo desfecho: um empate. Mas esta 12ª batalha do Isonzo ia ser diferente. Iniciada às 02H00 da madrugada e precedida de uma barragem de artilharia de duas horas sobre as posições italianas, o núcleo central da ofensiva era composto por unidades alemãs (as setas a verde no mapa acima) deslocadas para esta Frente e que ali aplicavam uma nova táctica de progressão da infantaria recorrendo à sua infiltração em pequenas unidades dispersas. Foi um sucesso tremendo para as armas alemãs, onde se distinguiu particularmente um jovem capitão prestes a fazer 26 anos, destinado a uma projecção ainda superior no próximo conflito mundial: Erwin Rommel (na fotografia abaixo). O ferrolho cuja captura contribuiu para a desagregação do dispositivo defensivo italiano foi a pequena vila de Caporetto, na altura quase completamente arrasada, mas que, mesmo assim, serviu para dar o nome à batalha: Karfreit em alemão, Caporetto em italiano.
A Batalha de Caporetto durou um pouco mais de um mês, mas os acontecimentos decisivos tiveram lugar nos três primeiros dias. O que aconteceu depois é perfeitamente legível no mapa acima: os exércitos alemães e austro-húngaros (as setas cinzentas) desencadearam um avanço que os italianos não conseguiram estancar a não ser nas margens do Rio Piave. Ao longo desse mês o exército italiano perdeu a impressionante quantidade de 300.000 efectivos, porém a esmagadora maioria deles (⅞) como prisioneiros. Caporetto foi uma tremenda derrota italiana e teve implicações tanto na condução política como militar da Guerra: o comandante-chefe (Luigi Cadorna) foi substituído (Armando Diaz) e formou-se um governo de unidade nacional, trocando o velho primeiro-ministro Paolo Boselli de 79 anos pelo mais jovem Vittorio Orlando de 57. Uma última ironia, essa a respeito da vila de Caporetto, que acabou sendo anexada pela Itália vencedora no fim da Primeira Guerra Mundial... mas acabou perdida pela mesma Itália vencida no final da Segunda Guerra Mundial - hoje a vila é eslovena e chama-se Kobarid.

«NO COUNTRY FOR WIDOWS»

O título é uma alusão a um famoso filme dos irmãos Cohen, mas os filmes que quero evocar são os da série policial cómica The Naked Gun, onde a personagem do tenente Frank Drebin (interpretada pelo actor Leslie Nilson) se notabilizava pela forma completamente insensível como interrogava as viúvas das vítimas dos homicídios em investigação. Destroçava-as com uns comentários tão cruéis, que a cena se tornava cómica, de um humor negro (abaixo). O triste é que, nesta analogia, Donald Trump, parecendo-se estranhamente com ele, não é um Frank Drebin, nem as viúvas dos militares são, no seu caso, de ficção. E é muito difícil aceitar razões rebuscadas para que esta viúva, em particular, tenha dito o que disse a respeito do resultado do telefonema presidencial, a não ser pelo facto tão elementar de ser chocante e verdadeiro. Apesar do esperado desmentido, creio que já nem se põe o problema sobre quem estará a dizer a verdade a respeito do que aconteceu. Porque é até essa profundidade que neste momento desceu a respeitabilidade do titular da Casa Branca. Pareceu-me particularmente significativo um parágrafo como se remata uma das notícias a respeito do incidente:


John Kelly, recorde-se, é o general que, assumindo o cargo de chefe de gabinete de Donald Trump desde há três meses, era o prometido para «pôr ordem na casa» (Branca). Reconheça-se que muita coisa já se nota em consequência do seu trabalho, embora a medição do seu sucesso se faça sentir, paradoxalmente, pela redução do barulho à volta da actividade presidencial. Naquela sua citação acima e sem estar a mentir descaradamente como Trump faz, John Kelly contorna a questão explicando aquilo que Donald Trump fora incumbido de transmitir à viúva... mas não conseguiu. Se ao menos o homem possuísse outras virtudes, ser um hiperactivo como o nosso... Mas assim é confrangedor ter um presidente executivo que, abaixo do que se exige a um monarca, nem serve para apresentar pêsames decentemente.

23 outubro 2017

IR VER AS MENSAGENS DEPOIS DO TRABALHO

Haverá imensas profissões em que as pessoas estão indisponíveis para atender o telemóvel quando no local de trabalho. E, por maioria de razão, uma dessas profissões será a de ceguinho-que-pede-no-metropolitano, que aqui apanhámos a consultar os sms que entretanto recebera, depois da sua jornada de trabalho, já de volta a casa...

AS BRIGADAS REVOLUCIONÁRIAS PASSAM À CLANDESTINIDADE

23 de Outubro de 1975. Em toda a comunicação social (estatizada) que permanecia empenhada no Processo Revolucionário em Curso a notícia mais em destaque naquele dia era o anúncio que as Brigadas Revolucionárias passariam à clandestinidade. Como uma das notícias abaixo explica, ainda que sumariamente, a culpa fora da lei do desarmamento que interditaria a existência de organizações civis armadas... Ora isso não, isso era acabar com o ganha pão de várias organizações revolucionárias respeitáveis para além do próprio PRP-BR, caso da LUAR de Palma Inácio e Camilo Mortágua que tanto gostava de captar fundos assaltando bancos. E para acrescentar exotismo à conferência de imprensa de tal anúncio, quatro dos seis membros da mesa apareciam mascarados. Mas, à distância de quarenta e dois anos, é sempre preferível recorrer à citação de uma das notícias da época (Diário de Lisboa), porque ao observador moderno confesso faltar o compungimento para levar o delirante episódio com a seriedade que os protagonistas manifestavam.
As Brigadas Revolucionárias separam-se «organicamente» do PRP. A partir deste momento aquela estrutura revolucionária que travou uma dura batalha contra o fascismo através de meios de acção directos e armados mergulhará de nova na clandestinidade. «A Situação política, marcada por uma nítida viragem à direita, assim o obriga».
Esta decisão foi divulgada hoje numa conferência de imprensa em que estavam presentes alguns elementos das brigadas que, tomando as devidas precauções, apareceram de rosto tapado com lenços vermelhos. Participaram também no encontro com os órgãos de informação Carlos Antunes e Isabel do Carmo, dirigentes do Partido Revolucionário do Proletariado. A atitude das Brigadas surgiu na sequência da lei que diz não poder consentir na existência de grupos civis armados.
«A primeira vez que se falou da lei foi no PAP (Plano de Acção Política), um documento de características reformistas e nessa altura já o PRP pensou numa estratégia a seguir que seria posta em prática logo que a lei saísse. Em 11 de Maio de 1974 ficou decidido que não havia razão para as brigadas continuarem separadas do partido. No entanto não se dissolveram no seu interior. Consideramos que hoje é o dia de as Brigadas passarem outra vez à clandestinidade. Esperamos que seja por pouco tempo.»
Estas palavras são de Carlos Antunes que acrescentou: «Não há qualquer divergência ideológica, nem política, nem de programa.»
Em seguida, um dos embuçados focou alguns aspectos significativos da acção das brigadas após o 25 de Abril «pois a sua anterior actuação já é sobejamente conhecida». Salientou a actividade concreta das brigadas quer no treino de armamento de trabalhadores quer na luta contra a reacção. Aqui desenvolveu um papel fundamental, sobretudo na desarticulação de uma parte do ELP e outras organizações fascistas paramilitares. Como enquadramento nesta acção o elemento das brigadas salientou o caso de Colares.
Os outros revolucionários de rosto coberto referiram-se ao trabalho das Brigadas nos quartéis com vista à formação de um Exército revolucionário «tentando detectar os comandos reaccionários nas diversas unidades com o fim de os neutralizar». E ainda a actividade de vigilância desenvolvida junto da fronteira onde os reaccionários espreitam.
No decorrer do encontro Isabel do Carmo informou que tinha sido colocado junto à sede do PRP, precisamente na porta da garagem um engenho explosivo com 5 quilos de plástico. A bomba era de fabrico caseiro.
Nem de propósito, e talvez nem seja coincidência, ainda ontem me deparei numa livraria com o livro acima, acabado de ser editado, da autoria de uma das caras descobertas da conferência de imprensa de há quarenta e dois anos, Isabel do Carmo. Reconheço o esforço continuado dela e de vários outros que seguiram o mesmo percurso, em tentar pasteurizar, à posteriori, as suas opções pela violência política (abaixo). Têm-lhes sido concedidas tantas oportunidades para essa desculpabilização que o assunto, confesso, deixou de me interessar. Mas do folhear do livro uma nota irónica recolhi: tendo sido dirigente de um partido que se reivindicava revolucionário e do proletariado, com um preço de capa de 28,90 € não serão decididamente as massas proletárias que o vão comprar... Talvez antes aquela esquerda caviar (já para lá de) grisalha, sempre ansiosa em reler revisões do passado que amenizem os seus pecadilhos de juventude, quando brincava às revoluções.

22 outubro 2017

ENCONTRO DE CIVILIZAÇÕES


Se a obra de Samuel Huntington se designa por Choque de Civilizações o que aqui pretendo fazer é uma Associação de civilizações. A Orquestra é a Filarmónica de Berlim, o maestro é japonês (Seiji Ozawa) e o compositor é outro russo: Aleksandr Borodin. A peça intitula-se Danças Polovetsianas e os Polovets (actualmente prefere empregar-se a expressão Kipchaks) são a designação medieval que os eslavos orientais (russos e ucranianos) davam aos povos turcos que habitavam (e ainda habitam) as estepes da Ásia Central.

O EMBARAÇOSO RESULTADO DAS ELEIÇÕES CHECAS

Os resultados das eleições checas realizadas este fim de semana vêm mais uma vez comprovar quanto as consultas populares se tornam rotineiramente num susto para os poderes europeus estabelecidos. Como se previa, o partido do milionário Andrej Babiš (aquela mistura entre Berlusconi e Trump) venceu. O parlamento de 200 lugares, que albergava deputados de 7 formações diferentes, ainda está mais disperso, porque as formações agora representadas agora são 9 (e isso apesar da regra eleitoral dos 5% mínimos, que em tantas outras circunstâncias e também noutros países impediu os exotismos parlamentares). Pelos vistos, foi expediente que já deu provas, mas que actualmente já não chega para deixar de fora do parlamento formações como o partido pirata que elegeu 22 deputados. O SPD da extrema-direita também se estreou com 22 deputados, assim como o STAN centrista com 6 deputados, perfazendo um total de 50 deputados (¼ da câmara) pertencentes a formações que anteriormente não estavam representadas. Os dois partidos da esquerda, quer os social-democratas do ČSSD, quer os comunistas do KSČM foram severamente castigados, perdendo em conjunto 20% dos votos e um pouco mais do que isso em representação parlamentar. Mas o problema maior é o que se pode fazer num país que acaba de sufragar com 30% dos votos um escroque que anda a fugir à polícia. Comparado com isso, o caso de Isaltino Morais é detalhe consolador. Como dizia um amigo meu: pimenta no cu dos outros às vezes funciona como refresco.

O REGRESSO DA KREMLINOLOGIA?

A expressão kremlinologia perdeu popularidade porque já não há Kremlin. Mas há uns cinquenta anos e porque a queda de Nikita Khrushchev resultara de uma conspiração de bastidores maquinada pela confederação de sensibilidades que compunha a oligarquia soviética, houve a necessidade de criar-se a disciplina da kremlinologia, traduzindo para os leitores aquilo que era a opacidade do vértice do poder soviético. Era preciso conhecerem-se os nomes, não apenas o de Brejnev, o líder do partido, Kossygin, o chefe do governo, ou ainda Podgorny, o chefe de Estado, mas ainda os de Gromyko, o homem dos negócios estrangeiros, ou Suslov, o ideólogo (é o que aparece no cartaz da fotografia abaixo). Era preciso alguém que ouvisse os seus discursos soporíferos, formatados nas fórmulas tradicionais, e dali produzisse uma síntese (no caso disso valer a pena). Nenhum dos kremlinólogos se terá apercebido, nem mesmo com Gorbachev, do quanto tudo aquilo estava apodrecido por dentro. Não estranho que tivesse sido assim: é contranatura o analista aperceber-se do desaparecimento do seu ganha pão. Agora reaparece o mesmo método, só que aplicado ao PSD e às suas figuras gradas. A sério, eles lá no Observador acham que, se Vítor Matos não mo «descodificar e comentar», eu não consigo compreender o sentido de um discurso de Passos Coelho? Ele também fala em russo?...

UM DOS PRIMEIROS REGISTOS DE UM ECLIPSE SOLAR

22 de Outubro de 2 136 antes de Cristo. Neste mesmo dia de há 4 153 anos registava-se um eclipse anular do Sol cujo apogeu teve lugar por sobre o ocidente do Oceano Pacífico, naquilo que é hoje é conhecido por Mar das Filipinas, sensivelmente a meio caminho entre esse arquipélago e o das Marianas (mapa abaixo). Assim como os cálculos precisos de mecânica celeste permitem aos astrónomos prever quando serão os futuros eclipses solares e lunares, com uma antecipação que pode chegar a milhares de anos, esses mesmos cálculos também permitem recalcular para o passado esses mesmos acontecimentos. Existem tabelas publicadas pela NASA compilando-os até datas pré-históricas. A grande maioria deles não terá qualquer interesse histórico, o que distinguirá este, de que hoje se celebra o aniversário, foram as suas consequências. Uma das áreas em que este eclipse do Sol de 2 136 a.C. foi observável foi, evidentemente, a China. E sabe-se hoje que o monarca e a corte de um dos reinos da cultura Longshan, em que então se decompunha a estrutura política ao longo do Rio Amarelo, foram surpreendidos pelo acontecimento. O que era grave, considerando que na corte havia, já nessa altura, astrónomos precisamente para essa função de calcular antecipadamente tais eventos. Dois deles, Hi e Ho, foram dados como bêbados e incompetentes para as suas funções e acabaram sendo executados. Note-se que aquilo que terá merecido ter ficado registado para a posterioridade neste primeiro registro de um eclipse, foi a sanção disciplinar, não propriamente o fenómeno astronómico.

21 outubro 2017

O CENTENÁRIO DOS PRIMEIROS AMERICANOS NAS TRINCHEIRAS


21 de Outubro de 1917. Pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial vêm-se finalmente tropas americanas a guarnecer as trincheiras na Frente Ocidental (no sector de Lunéville). A 2 de Novembro registar-se-ão as primeiras mortes em combate, um cabo e dois soldados, quando de um raid alemão sobre as trincheiras americanas, muito provavelmente concebido para testar o ânimo dos noviços. Recorde-se que os Estados Unidos haviam declarado guerra à Alemanha em 6 de Abril de 1917 e que passados dois meses e meio, em fins de Junho, os primeiros destacamentos de soldados americanos haviam chegado a França. Mas haviam sido precisos mais quatro meses adicionais para que os recém-chegados recebessem o treino táctico suficiente para ocuparem posições na frente de batalha. Alheios a esses preciosismos operacionais, nesse mesmo Outono, mas ainda do outro lado do Atlântico, uma canção patriótica americana fazia furor por lá e era adoptado como hino oficioso da AEF (American Expeditionary Forces): «Over There». O entusiasmo da letra porém, era tal, que soava a pretensioso aos ouvidos europeus, na confiança manifestada de que, só por si e depois de três anos de impasse, a chegada dos americanos a França (abaixo) seria decisiva para o conflito.

UMA POUCA VERGONHA!

O autor é o ucraniano Félix Lupa, embora o local da foto seja Israel. Um outro título admissível para a fotografia, menos ultrajado mas mais irónico, seria: "O sentir das partes".

20 outubro 2017

AS ANALOGIAS PODEM NÃO SER SEMPRE ANALÓGICAS

A análise do New York Times como decorrera a sessão bolsista de há trinta anos dificilmente podia ser mais acabrunhante: «A BOLSA AFUNDOU-SE. A bolsa teve o seu pior dia da história. O índice Dow Jones perdeu, segundo se estima, 508 pontos até bater nos 1.738,74, numa sessão com tantas transacções que as actualizações das cotações chegaram a estar atrasadas durante horas. Mais de 604 milhões de acções mudaram de mãos, ultrapassando em muito o record de 338,5 milhões que acabara de ser estabelecido na Sexta-Feira, e a queda de 22,6% foi muito superior à descida de 12,82% que se havia registado na fatídica Segunda Feira Negra de 1929 que veio a desencadear a Grande Depressão.» O jornal não era o primeiro (nem seria o último) a estabelecer a analogia entre crashs bolsistas, entre o que se acabara de verificar e o de 1929, espalhando o pânico para fora do circuito financeiro tradicional. O espectro do regresso a uma gigantesca recessão mundial ao jeito do que acontecera na década de 1930 - conforme alertaria um grupo de 33 eminentes economistas, nos quais se contavam 5 Nobeis - era algo que deixava os dirigentes dos grandes países capitalistas muito desconfortáveis, lutando contra novas reemergências de totalitarismos, comunistas ou fascistas. Mas os campeões das analogias desta vez estavam errados: o desmoronamento dos mercados financeiros de Outubro de 1987 nunca se chegou a propagar à economia. No nosso caso concreto da economia portuguesa, por exemplo, e nos quatro anos que vão de 1987 até ao final da década, a economia portuguesa crescerá 30%. Virá a existir um colapso sim, dali por dois anos, mas do Muro de Berlim, arrastando consigo, não o capitalismo, mas o seu inimigo figadal, o comunismo.

IDIOSSINCRASIAS DA CULTURA LUSA: O SEMI-DEFICIENTE

Para todos aqueles que passam o tempo a indignar-se com fenómenos que consideram que acontecem apenas no nosso país, quando isso depois se vem a revelar mentira, apreciemos este episódio que nos distingue verdadeiramente de outras culturas: o conceito de semi-deficiente, tal qual ele é assumido pelo condutor(a) da Skoda Octávia da fotografia acima. Ele(a) não será bem deficiente mas, por outro lado, também sofrerá das suas maleitas e é por isso que deixa apenas duas rodas a ocupar o lugar de estacionamento de deficiente. As outras estão sobre o passeio e, na sua opinião, dessa maneira ainda restará espaço suficiente para que um deficiente, esse inteiramente deficiente, estacione devidamente o seu carro. O que porventura não terá ocorrido ao(à) semi-deficiente (de imaginação) é que o deficiente inteiro, para quem até lhe guardou o espacinho, precisasse de espaço suplementar para manobrar (por exemplo) uma cadeira de rodas, conforme a que está desenhada no pavimento...

19 outubro 2017

QUEM ESPERA NEM SEMPRE ALCANÇA

Desconheço quem seja o autor da fotografia mas parece-me ser um excelente desmentido visual ao conhecido ditado popular. Não só não alcança, como se arrisca a ser alcançado... pela maré.

548º ANIVERSÁRIO DO CASAMENTO DE FERNANDO DE ARAGÃO E ISABEL DE CASTELA

19 de Outubro de 1469 foi a data do casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela. A cerimónia realizou-se em Valladolid, os noivos tinham, respectivamente, 17 e 18 anos. O enlace teve lugar pendente de validação canónica, a qual só veio a ter lugar dois anos depois, com a Bula de Simancas emitida pelo papa Sisto IV. O acontecimento a que hoje se atribui a génese da unidade espanhola teve assim um começo muito periclitante, o qual só veio a adquirir todo o significado histórico e político que possui actualmente com o tempo, significado e simbolismo que não deve ter escapado a Madrid quando se verificou a coincidência das datas entre o aniversário do consórcio e o esgotamento dos prazos que impôs a Barcelona. Sabendo isto, é evidente o quão se torna disparatado atribuir intenções políticas visionárias aos dois adolescentes, mas não deixa de ser um exercício assaz interessante especular sobre o que os notáveis das duas facções políticas reunidas na boda de há 548 anos poderiam pensar dos comportamentos actuais de Rajoy e Puigdemont.

SOBRE A RECUPERAÇÃO DAS ARMAS ROUBADAS, MAS SOBRETUDO SOBRE OS COMENTÁRIOS QUE SE PRODUZIRAM A ESSE RESPEITO...

A notícia da recuperação da grande maioria das armas roubadas em Tancos permite esclarecer qual o grau de pertinência da grande maioria dos comentários que apareceram produzidos nos órgãos de informação por altura da descoberta dos roubos: nenhum. Os mais sóbrios e sensatos entre os comentadores ficaram-se pelas generalidades e quanto aos mais ousados a especulação tomou dois rumos: ou minimizando a gravidade da ocorrência, que foi protagonizada por uma facção que se considerará mais pró-governamental, ou então maximizando-a, atitude essa que foi protagonizada por uma facção mais da oposição. Este desfecho, a confirmar-se que o armamento estava escondido a uns escassos 25 km de onde fora roubado, virá provar que nenhuma daquelas facções tinha razão e que apenas aproveitaram a atenção dispensada para andarem a expressar os palpites que tinham por convenientes: é que houve mesmo roubo e não regularizações de inventário mas, em contraste, o perigosíssimo material roubado não se destinou a armar uma tenebrosa organização terrorista islâmica.
O que é bom na actividade de comentador é que não se costuma ser escrutinado nas previsões, porque há uma enorme falta de memória colectiva entre nós. Temos até um presidente que se celebrizou por errar previsões. O que se costuma fazer é baixar a cabeça e manter um perfil baixo durante um par de semanas até ao assunto em que se meteu água sair de agenda. Ou então ignorá-lo, olimpicamente. O que não fica bem é fazer como Nuno Rogeiro que, com todo o topete e esquecendo-se daquilo que escreveu, se apressa a chamar a atenção para as asneiras da facção contrária. Se recuperarmos e levarmos a sério aquilo que Rogeiro escreveu (leia-se abaixo), será que, mesmo reconhecendo que afinal houve roubo, ele nos pode explicar, por outro lado, quais terão sido os problemas de logística da Al Qaeda ou do Daesh para que tivesse deixado as tão prementes (e letais) 44 armas anticarro M72 LAW a aboborar por três meses nalgum local recôndito da Chamusca?...

18 outubro 2017

NÃO HAVERÁ INDIGNAÇÕES ANTIFASCISTAS NO PRÓXIMO FIM DE SEMANA...

Depois das indignações antifascistas nas redes sociais do fim de semana transacto terem ficado muito aquém do esperado por dispersão por outras causas indignantes como os incêndios, no fim de semana que se aproxima poder-se-á assistir a uma transição das atenções - e indignações - eleitorais da Áustria para a vizinha República Checa. Ao contrário do primeiro caso, neste segundo país que vai a votos no próximo fim de semana, o panorama partidário é mais repartido e não existe um grande partido fascista (FPÖ) que recolha 27% dos votos, daqueles onde apeteça malhar, para recuperar a inolvidável expressão de Augusto Santos Silva. O melhor que se pode arranjar para as franjas anti-sistema é um médio partido comunista (KSČM, que recolheu quase 15% dos votos nas últimas eleições), mas que são comunistas daqueles puros e duros como o pessoal do Avante! gosta, que nem levam a mal aquela invasãozinha de 1968; e ainda um menor partido de extrema-direita denominado SPD, que resulta de dissidências noutras formações, que se vai estrear em eleições e cujas sondagens (acima) atribuem um resultado abaixo de 10% mas seguramente com representação parlamentar. Como o exotismo parece impregnar a extrema-direita europeia moderna, com uma profusão (nunca devidamente realçada) de lésbicas e homossexuais entre os seus dirigentes, também aqui no SPD checo, formação nacionalista e mesmo xenófoba, se exercita o paradoxo de ser liderado por alguém de ascendência mista: checa e japonesa. Mas o aspecto mais interessante das eleições que se aproximam relaciona-se com o partido que tem liderado as sondagens, o ANO 2011, e o seu líder Andrej Babiš. Este último apresentar-se-á às eleições já depois de ter sido formalmente acusado de fraude na obtenção de subsídios comunitários, o que aconteceu no princípio deste mês. Para isso acontecer, no mês anterior, havia sido o parlamento checo a despojá-lo da imunidade parlamentar. E, para quem considerasse que tudo isto não passava de uma manobra de baixa política de última hora, constata-se que a investigação já datava de 2015 e que envolvia desde o princípio o próprio Organismo Europeu de Luta Antifraude. Se na imprensa internacional há quem compare Andrej Babiš a Sílvio Berlusconi ou a Donald Trump, prefiro recorrer a um outro exemplo mais doméstico, e constatar que a República Checa se arrisca a transformar-se num gigantesco concelho de Oeiras, elegendo um escroque ao jeito de Isaltino Morais para a dirigir. Estou para apreciar como será o volume de indignação das redes sociais a respeito do resultado das eleições checas, quais são as prioridades de quem se indigna: um aldrabão ou um fascista?

A GATA FÉLICETTE, A HEROÍNA DO «PROGRAMA ESPACIAL FRANCÊS»

18 de Outubro de 1963. Os soviéticos tinham tido os seus cães, nomeadamente a célebre cadela Laika (acima, à esquerda), pioneira e mártir do primeiro voo orbital habitado em Novembro de 1958. Os norte-americanos, por seu lado, preferiam os chimpanzés e o seu pioneiro foi Ham, que acima aparece envergando um capacete da NASA pouco antes do seu voo suborbital em Janeiro de 1961. E completam-se hoje precisamente 54 anos que os franceses, naquela sua conhecida folie des grandeurs (mania das grandezas), resolveram adicionar, para glória do seu programa espacial, mais um bicho, o gato, ou melhor uma gata, à gesta da bicharada pioneira do espaço. Baptizaram-na de Félicette e a biografia que para ela criaram dava-a como uma genuína gata frequentadora dos algerozes parisienses antes de ter sido recolhida, qual trabalhadora do Pigalle apanhada pela ramona... Menos oficial mas ainda mais interessante era a historieta transmitida em surdina, que Félicette viera substituir à última hora Félix, um seu colega que, selecionado antes dela, dispensara, por assim dizer, a honraria de se tornar gato pioneiro no espaço, evadindo-se para se cafrealizar, misturando-se com a gataria de Hammaguir, a vila argelina onde então se realizavam os ensaios dos foguetes franceses. A verdade é que os fait-divers a respeito da viagem espacial de Félicette pareciam ser mais interessantes do que os hard-data. Sobre estes últimos, o que havia a dizer era que o lançamento se inseria no programa de pesquisas espaciais da França, especificamente pesquisas no campo da biologia espacial. O foguete lançador era designado por Véronique. Como acontecia com os concorrentes soviético e americano, a concepção e design dos foguetes franceses também devera muito aos trabalhos percursores que os técnicos alemães haviam desenvolvido em Peenemünde durante a Segunda Guerra Mundial.
O que o voo em que Félicette participaria pretenderia alcançar era transportá-la até uma altitude de 157 km (na viagem ela estaria sujeita inicialmente a uma pressão de 9,5 G para depois estar cerca de 5 minutos em condições de imponderabilidade), para recuperar depois a cápsula, de preferência com a gata viva. Nesse aspecto, a viagem de Félicette veio a revelar-se um sucesso. Félicette teve a sorte do seu lado; um seu colega que participou num outro voo daí por seis dias não a terá... A importância da gata pode ser avaliada pelo facto de haver duas fotografias acima retratando o mesmo momento, o da colocação da gata na ogiva do foguete (onde a fotografia da esquerda parece ser a encenada). Apesar das aparências e das irrelevâncias promocionais (nunca terá havido nenhum Félix evadido), a realidade é que o programa espacial francês se encontrava quase uma década atrasado em relação ao das duas superpotências. A viagem de Félicette apenas repetia aquilo que norte-americanos e soviéticos já haviam testado na década de 1950. A França ainda teria que esperar mais dois anos até conseguir colocar o seu primeiro satélite em órbita. E, no campo concreto das pesquisas em biologia espacial, a França nunca veio a desenvolver uma capacidade autónoma para colocar um homem em órbita (para além dos dois países que já então a tinham adquirido, tal capacidade só veio a ser adquirida em 2003 pela China). A esta distância percebe-se nitidamente que a viagem de Félicette não passava do que hoje designaríamos por um golpe publicitário para maior glória de França!

17 outubro 2017

PELO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA OFENSIVA PARA A LIBERTAÇÃO DE MOSSUL

17 de Outubro de 2016. Ao raiar da aurora de há um ano começava finalmente o assalto para a conquista da cidade iraquiana de Mossul. O que se seguirá nos nove meses, até Julho de 2017, não terá sido uma paródia de guerra como a do Solnado, mas terá sido decerto uma paródia de cobertura informativa de uma guerra, à qual dediquei, de resto, dois postes troçando da falta de escrutínio e de profissionalismo dos meios de informação quanto ao que por lá se estava a passar: em Fevereiro e Junho deste ano. A ironia dos tempos modernos é que, ao contrário do que acontecia antigamente, a informação deixou de ser secreta, aparece aí totalmente disponível para os interessados. Uma consulta à Wikipedia mostra que os atacantes de Mossul dispunham de uma superioridade numérica sobre os defensores de 8 a 10 para 1. E, contando com o apoio aéreo dos países ocidentais aos iraquianos, o poder de fogo de cada um dos contendores acentuaria ainda mais a desproporção entre os beligerantes. Contudo, não me recordo de ouvir qualquer dos nossos especialistas mediáticos no tema acompanhar-me no cepticismo quanto ao muito fraco empenho que as forças atacantes estariam a pôr na operação que justificasse, ao menos, que toda essa superioridade humana e material não se concretizasse em resultados. O número de baixas sofridas pelos atacantes no final da operação, um máximo de 1.500 mortos e de 7.000 feridos ao longo de nove meses, parece confirmar essa asserção que havia muita propaganda, mas pouca gente disposta a morrer por Mossul. Não fora assim e nove meses de encarniçados combates ter-se-iam transformado naturalmente num épico, uma espécie de Estalinegrado do Médio Oriente (cidade pela qual se combateu durante cinco meses e meio). Para sintetizar e simbolizar a atitude dos atacantes, que mais do que combatê-los, estiveram à espera que os seus inimigos se aborrecessem e se fossem embora, encontrei a fotografia acima. Evidentemente encenada, aos dois combatentes não parece faltar armamento, nem equipamento: duas armas para cada um (num dos casos um RPG), colete e estojo de primeiros socorros, a pose marcial e aguerrida acaba estragada pelo alçar da perna de um deles, deixando ver uma sapatilha, que estes guerreiros modernos devem ter uns pés sensíveis, a quem as tradicionais botas militares fazem muitas bolhas...