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13 fevereiro 2023

O NONAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DE PAUL BIYA

13 de Fevereiro. O presidente camaronês Paul Biya festeja hoje o seu 90º aniversário. Tanto como a sua provecta idade (é o chefe de Estado mais velho do Mundo depois da morte de Isabel II de Inglaterra), o outro aspecto que o torna digno de registo consiste no facto de ocupar o cargo há mais de 40 anos, desde Novembro de 1982. Um palmarés de apego ao poder interessante, mesmo sendo inferior aos 49 anos de poder de Fidel Castro em Cuba (1959-2008), é, ainda assim, superior aos intermináveis 36 anos de poder de Oliveira Salazar cá por Portugal (1932-1968). Mesmo que a prolongada ditadura pessoal de Paul Biya nos Camarões passe desapercebida às atenções dos que travam batalhas ideológicas em prol dos extremos, brandindo o exemplo pernicioso de Salazar mas esquecendo Fidel, ou então vice versa, a questão é que o presidente camaronês passou do prazo de validade. Qualquer visita dele ao estrangeiro, ocasião em que se torna muito mais difícil preservá-lo da exposição pública numa redoma institucional, todas essas visitas redundam em momentos embaraçosos como o exibido acima, verificado há dois meses em Nova Iorque por ocasião de uma cimeira que ali teve lugar. Em suma: pobres camaroneses, que vergonha passam!

11 junho 2012

KAMERUN!

Ao contrário do que se pode ler no subtítulo do livro acima, a guerra que se travou nos Camarões entre 1955 e 1971 nunca esteve escondida. Foi sobretudo numa guerra acessória, rapidamente esquecida e hoje desconhecida, mas isso só acontece porque há uma conjugação de factores a si associados que fizeram com que praticamente tudo nela passasse na época ao lado da cobertura noticiosa mais intensa, mas também porque veio a ter um desfecho desinteressante como instrumento de propaganda para as partes ali envolvidas. Mas é esse quase anonimato congénito que torna livros a seu respeito como o de cima, mais as suas 650 páginas, muito raros, preciosos para conhecer melhor esta outra guerra africana. Mas a robustez factual é condição necessária mas não suficiente para a valia de um livro...
Quando eclodiram as primeiras acções armadas da guerrilha da UPC (União das Populações dos Camarões¹) estava-se em 1955 e toda a atenção mediática da França se concentrava na Argélia. Os meios militares disponíveis para a contra-insurreição eram mínimos por causa disso mas, em contrapartida, essa situação obrigou os franceses a ser muito mais imaginativos na forma como lidaram com a revolta neste território que, ainda por cima, não era uma colónia tradicional, mas sim um Mandato internacional, cuja acção administrativa era escrutinada pela ONU. Houve que associar os políticos locais e dinamizar as incipientes estruturas militares e policiais camaronesas para a resposta repressiva à insurreição e aquelas circunstâncias fizeram com que houvesse uma africanização da guerra desde o seu começo…
A acrescer, em breve a UPC iria perder a razão principal para arregimentar as simpatias que se tornam indispensáveis nessas guerras de libertação nacional: a França mostrou-se disposta a conceder rapidamente a independência aos Camarões. Esta teve lugar a 1 de Janeiro de 1960. O que não quer dizer que a França se afastara do conflito: ainda em finais desse ano, os seus serviços secretos envolveram-se numa operação suja para assassinar na Suíça o dirigente máximo da UPC, Félix Moumié. Mas, conforme a terminologia revolucionária, a guerra colonial passara a ser neo-colonial. Passara a ser, sobretudo, uma guerra civil. A facção governamental desenvolvera os seus apoios tribais por todo o país enquanto o apoio da UPC  se concentrara nos bamilekés e nos bassas (cerca de 25% da população) da Região do Oeste.
O número estimado de vítimas que a guerra terá causado varia mas o número mais mencionado costuma ser o de 70.000 mortos. Quando a guerra foi dada por finda, em 1971, já o continente africano presenciara uma outra guerra civil, a do Biafra na vizinha Nigéria, que ofuscara mediaticamente as guerrilhas da UPC nos Camarões. A guerra do Biafra e o seu milhão de mortos chamara politicamente a atenção – a colonialistas, neo-colonistas e anti-colonialistas – dos perigos secessionistas das organizações políticas quando elas estão demasiado dependentes de uma base étnica. Em síntese, não só a situação da guerrilha no terreno se mostrara cada vez mais débil, como aqueles que haviam apoiado a UPC até então (os países do bloco Leste) mostravam-se agora descrentes da utilidade dos resultados políticos dela.
Tratou-se de uma vitória da contra-subversão. É tão mais romântico quando acontece ao contrário… Quanto ao livro Kamerun!², ele será a antítese de Covert War, um livro que aqui já comentei sobre outra guerra desconhecida, a da Namíbia. Enquanto ali se falava exclusivamente da guerra e nada da sua envolvente política, em Kamerun! cai-se no extremo oposto. A capa com os militares está lá só para despistar… Nas 650 páginas não se descreve qualquer acção militar e os autores só se indignam militantemente com os massacres das forças governamentais, que eles não são daqueles de camuflar as suas simpatias… O livro é útil mas os autores tornam-no tonto. Tratou-se de uma guerra. São supérfluas as indignações com as práticas crueis da facção vencedora, a fazer crer que o desfecho não lhes agradou…
¹ O nome da organização pode ter servido de inspiração à UPA angolana. Os dirigentes desta última não se mostraram particularmente imaginativos quanto aos nomes da sua organização. Quanto mais tarde lhe mudaram o nome para FLNA, foram-se inspirar nitidamente na Frente de Libertação Nacional argelina. São notas de rodapé, mas que corroboram de algum modo as acusações que os dirigentes da UPA/FNLA gravitavam mais à volta do mundo cultural francófono do que lusófono.
² A designação Kamerun, adoptada pela UPC e seguida pelos autores do livro, é a forma de designar o país em alemão, que foi a potência colonial entre 1884 e 1914. Trata-se de uma atitude: uma exibição da rejeição do colonialismo francês (Cameroun) e inglês (Cameroon). Em rigor, a designação mais neutra do país seria a original, do Século XV, em português: Camarões.