Três semanas depois de descolado do lado oculto da Lua, a nave espacial chinesa Chang'e-6 completou a viagem de retorno, aterrando nas planícies da Mongólia Interior com um conjunto de amostras lunares de regiões geológicas ainda inexploradas do nosso satélite. A cápsula de retorno, no formato característico das naves de inspiração soviética, reentrou na nossa atmosfera às 06H07 GMT de 25 de Junho, com a descida a ser monitorizada via televisão pela equipa de controlo, como se pode ver no vídeo abaixo. Os membros da equipa de recuperação da missão apressaram -se a verificar não só a cápsula como a desenrolar uma bandeira chinesa para aparecer nas fotografias... É um indiscutível sucesso de propaganda chinesa.
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27 junho 2024
25 maio 2024
A APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO COX
(Republicação)
25 de Maio de 1999. Em Washington DC, uma comissão da Câmara de Representantes apresenta um documento com 900 páginas que se dedicara a investigar as actividades da espionagem militar dos chineses nos últimos 25 anos (os 25 anos anteriores, perceba-se, desde 1974). Para a imprensa, o Relatório adquiriu o nome de quem presidiu à comissão, o congressista republicano da Califórnia, Christopher Cox. Sob o conteúdo e as conclusões do Relatório Cox, podem-se sintetizar as 900 páginas (muitas delas sombreadas, pelas tradicionais razões de segurança), dizendo que a comissão formara a convicção que durante todos aqueles anos os serviços de informações da República Popular da China haviam desenvolvido esforços concertados para a aquisição do design dos engenhos termonucleares norte-americanos de última geração, numa tentativa de colmatar o hiato tecnológico que separava a China dos seus rivais (Estados Unidos e Rússia). Mais: o Relatório considerava que a espionagem chinesa fora bem sucedida nesses esforços. Este é o género daqueles acontecimentos inoportunos com que os governos não gostam de lidar: são assuntos demasiado sérios para poderem ser descartados facilmente por aqueles que gerem o spin das notícias, e ao mesmo tempo são assuntos demasiado graves, para que as opiniões públicas, as mais das vezes indignadas, não reajam, apossando-se do tema, e com isso causando danos diplomáticos indesejáveis. Neste caso, apesar da seriedade das acusações, a Administração Clinton parecia não se mostrar interessada em indignar-se muito e puxar pelo assunto, conforme se percebe logo pelo princípio do artigo (abaixo) enviado no dia seguinte por Bárbara Reis para o Público. Fossem as circunstâncias as actuais, e imagine-se o banzé!
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31 janeiro 2024
A CONQUISTA DE BEIJING
(Republicação)
31 de Janeiro de 1949. Culminando a campanha Pingjin, as tropas do exército popular de libertação (ELP) comunista entram em Beijing, cidade que fora a capital histórica da China desde os princípios do século XV até à proclamação da República em 1911. Apesar da sua importância simbólica, os cerca de 250.000 homens das forças nacionalistas que se lhes opunham não se dispuseram a defender a cidade, prenunciando um colapso cada vez mais acelerado do regime nacionalista e a vitória cada vez mais próxima dos comunistas na Guerra Civil. Neste cartaz contemporâneo celebrando a tomada da cidade, pode reconhecer-se uma (hoje famosa) praça Tiananmen estilizada, em que os retratos do muro são vários (e não apenas o de Mao), as massas populares vestem roupas garridas e variadas (e não apenas um macacão igual para todos), e os braços esticados apenas celebram (e não servem para brandir um livrinho vermelho). Todas os pormenores entre parenteses iriam ser uma outra moda dali por uns 20 anos. Os comunistas sempre foram muito mais simpáticos antes de tomarem o poder...
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21 janeiro 2024
A RENÚNCIA FINGIDA DE CHIANG KAI CHEK
(Republicação)
21 de Janeiro de 1949. Em mais uma das inúmeras manobras retorcidas que rechearam toda a sua carreira política, o generalíssimo Chiang Kai Chek (1887-1975), que era então o chefe de estado nominal de uma China dilacerada pela guerra civil, anuncia ostensivamente que «entrega o poder» ao seu vice «para deixar o caminho livre às negociações de paz». Os seus exércitos nacionalistas haviam sofrido um encadeado de derrotas severas às mãos das forças comunistas de Mao Zedong (1893-1976) e a intenção de Chiang era passar a "batata quente" para o seu vice-presidente Li Zongren (1890-1969), que era também seu rival político. Como se pode ler num subtítulo da notícia acima, tratava-se «de uma interrupção de funções e não da resignação». Se as negociações de paz que se seguissem fossem frutuosas, tal facto dever-se-ia ao seu gesto magnânimo; se não e os comunistas reiniciassem a ofensiva militar (que foi o que de facto veio a acontecer), a responsabilidade pelo fracasso recairia totalmente em Li Zongren, e Chiang teria derrotado pelo menos o seu principal rival no campo nacionalista, enquanto havia ganho tempo e preparado a retirada dos últimos recursos do seu regime para a Formosa. O pensamento político retorcido de Chiang não ficava nada a dever ao de Mao...
15 janeiro 2024
O ALIADO
Para atribuir tanta importância ao «aliado diplomático», o jornalista que escreveu a notícia acima não deve fazer a mínima ideia sequer onde ficará Nauru. (Estivesse ele interessado, o Herdeiro de Aécio podia tê-lo ajudado, com esta publicação de 2006) Nauru é o terceiro mais pequeno país do Mundo, tanto em área (21 km²), como em população (cerca de 11.000 habitantes). Como «aliado», teria convido ao autor do artigo esclarecer os leitores que se trata de um aliado muito pequeno. A acrescer a essa irrelevância, Nauru tem um passado bastante volúvel no aspecto diplomático, porque, devido à dimensão, é um país descaradamente propenso a inflectir a sua política externa conforme as doações que recebe de países terceiros. Assim, já em 2002, Nauru havia cortado relações com Taiwan a troco de 130 milhões de dólares recebidos da China à guisa de auxílio humanitário. Contudo, em 2005, agora por uma quantia não revelada, Nauru reverteu a aliança que fizera, regressando ao reconhecimento de Taiwan em detrimento da China. Mas não se pense que o fenómeno da diplomacia oscilante se circunscreve às questões chinesas: em 2009, e contra o pagamento de 50 milhões de dólares da Rússia, Nauru tornou-se notícia por ser o quarto país do Mundo a reconhecer a independência da Abecásia, uma região da Geórgia que se separara dela com o apoio de Moscovo. Mais do que conhecida, a volubilidade de Nauru quanto a estas questões é proverbial. O que, como se compreende, retira quase todo o impacto à notícia acima. E é uma pena que António Saraiva Lima, o autor da notícia acima, licenciado em «Ciência Política e Relações Internacionais», que debateu «sobre a Europa num think tank», estagiou «numa afamada organização internacional» e que é mestre «em Estudos Europeus», pareça não saber praticamente nada de propedêutico sobre o assunto sobre o qual escreve. Este género de notícias avaliam-se pela profundidade como são tratadas, não pelo cardápio de títulos académicos que o autor ostenta.
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22 novembro 2023
A CONFERÊNCIA DO CAIRO
(Republicação)
22 de Novembro de 1943. Início da Conferência do Cairo, reunindo o presidente norte-americano (ao centro, sentado), o 1º ministro britânico (ao seu lado, de fato claro) e o generalíssimo Chiang Kai-shek pela China. Nas páginas do seu diário pessoal, o Chefe de Estado Maior Imperial, Alan Brooke (assinalado atrás de Churchill) confessava o frete inútil que representava toda aquela cimeira com os chineses, apenas uma semana antes da verdadeira cimeira que interessava, a que reuniria os dois líderes anglo-saxónicos com Estaline, em Teerão. «Toda a conferência começou a descarrilar com a chegada prematura de Chiang Kai-shek. Nunca deveríamos ter começado a conferência com Chiang; ao fazê-lo estamos a pôr a carroça à frente dos bois. Não nos traz nada que contribua para a derrota da Alemanha e, já agora e valha a verdade, também traz muito pouco que contribua para a derrota do Japão. Nunca descobri porque é que os americanos dedicam assim tanta atenção a Chiang. (...) O que devíamos estar a fazer era a acertar com os americanos uma conduta política e estratégia conjunta para a derrota da Alemanha. Com ela negociada, deveríamos apresentar uma frente negocial comum a Estaline. E à volta e se houver tempo, é que poderíamos reunir com Chiang e Madame*.»
* Com o pretexto de o servir de tradutora, Chiang levava a esposa às negociações, onde era sabido que ela fazia muito mais do que apenas traduzir.
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06 novembro 2023
A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL
(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.
27 agosto 2023
AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES
(Republicação)
27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.
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23 agosto 2023
A 15ª CIMEIRA DOS BRICS E O RETORNO A UMA CERTA «KREMLINOLOGIA»
A ideia original do bloco de países denominado por BRICS (em inglês, literalmente, tijolos) apareceu já neste século. Foi em 2001 que a Goldman Sachs terá cunhado aquela sigla (originalmente bric, tijolo) num artigo sobre o potencial económico daqueles países: Brasil, Rússia, Índia e China. Houve, entre os seus dirigentes da época, quem tivesse ficado lisonjeado com a ideia e tivesse promovido uma aproximação recíproca. O quarteto original realizou a sua primeira cimeira em 2009. No ano seguinte, e porque a ausência africana era embaraçosa num projecto que era um contraponto às economias desenvolvidas do G7, a África do Sul foi convidada a aderir, ganhando o acrónimo actual, com o S de South Africa. A ideia parecia muito prometedora, mas o bloco acabou por não ganhar tracção política e/ou económica. A forma distanciada como toda a comunicação social dos países do G7 os noticia, também não os ajuda. Porém, as cimeiras continuam a realizar-se, como que por persistente e teimosa inércia. Ontem começou a 15ª, na cidade de Joanesburgo na África do Sul.
Na fotografia acima temos (da esquerda para a direita), Lula da Silva pelo Brasil, Xi Jinping pela China, o anfitrião Cyril Ramaphosa ao centro, Narendra Modi pela Índia e Sergey Lavrov pela Rússia. A razão para a ausência de Vladimir Putin da fotografia é um daqueles (poucos) assuntos a respeito da cimeira que terá suscitado o interesse da comunicação social dos países do G7. É que se Vladimir Putin comparecesse, a África do Sul, sendo membro do Tribunal Penal Internacional (TPI), teria sido obrigada a cumprir o mandado de prisão que foi emitido para o presidente russo em Março deste ano. Ou então não cumpria. Foi preferível não ter ido. Entretanto, logo no primeiro dia, já surgiu um outro pequeno episódio digno da maledicência ocidental. De acordo com o programa do primeiro dia, o líder chinês, Xi Jinping, deveria participar do fórum e fazer comentários ao lado dos outros líderes. Mas não foi isso que aconteceu. Em vez dele, o seu soporífero discurso foi lido pelo seu ministro do Comércio, Wang Wentao, levantando interrogações para uma tal alteração protocolar.
Outrora, nos tempos da guerra fria, a ignorância dos jornalistas ocidentais sobre o que se passava nos altos escalões dos poderes comunistas, levou esta prática jornalística ao estatuto de uma verdadeira ciência: a kremlinologia. Os cientistas especializavam-se em dar interpretações a episódios desprovidos de valor noutras circunstâncias. Neste caso concreto, há que dizer que as publicações oficiais chinesas davam o discurso como tendo sido lido pelo próprio Xi, o que permite aos cientistas deduzir que se terá tratado de uma alteração de última hora. Que talvez não tenha afinal grande significado, já que foi o próprio Xi Jinping que compareceu no jantar que se seguiu. Seja a ausência de Putin ou a alteração de programa por parte de Xi, este é o género de cobertura noticiosa que a comunicação social que estamos habituados a consultar tem para dar, de uma cimeira de onde não se esperam grandes surpresas.
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26 julho 2023
A BATALHA DO RIO SAMICHON
Republicação
26 de Julho de 1953. Fim da batalha do rio Samichon na Coreia. Esta batalha está longe de ter sido uma das batalhas mais importantes, simbólicas ou renhidas da hoje esquecidíssima Guerra da Coreia (1950-53). A situação táctica em que teve lugar é simples de descrever se nos socorrermos do mapa acima. O rio Samichon (assinalado a um azul muito claro) é um afluente da margem direita do muito mais importante rio Imjin (assinalado a um azul mais escuro). O vale do Samichon seria o corredor natural de progressão das tropas norte-coreanas e chinesas (setas vermelhas) no caso de elas conseguirem romper o dispositivo defensivo (a verde) que fora adoptado pelas tropas sul-coreanas e dos seus aliados ocidentais (na sua grande maioria tropas americanas). Na tentativa de obter essa ruptura, a batalha começara dois dias antes, a 24 de Julho, uma ofensiva desencadeada pela 137ª divisão chinesa, com a curiosidade de que uma parte da linha de defesa atacada era guarnecida por um batalhão australiano (as unidades restantes eram americanas) e de que uma unidade de artilharia que os apoiava ser neozelandesa. As características da ofensiva chinesa não se alteraram em relação à táctica que se viera a tornar tradicional naquele conflito: uma ofensiva nocturna (para neutralizar a superioridade aérea esmagadora do inimigo), uma preparação prévia de fogo de artilharia (sobretudo de morteiros) e vagas sucessivas de ataques de infantaria tentando submergir as posições inimigas pela superioridade maciça dos seus efectivos. A comparação das baixas sofridas pelas duas partes mostra o quanto, a esse respeito, aquela guerra era assimétrica.
Os americanos sofreram 43 mortos e 316 feridos; os australianos 5 mortos e 24 feridos; com as estimativas do número de mortos sofridos pelos chineses a cifrar-se entre os 2.000 a 3.000. Mesmo descontando o exagero destas estimativas, a desproporção entre os mortos do lado ocidental para os do inimigo, mesmo usando a estimativa mais cautelosa é de 1 para 40! Mas aquilo que é verdadeiramente impressionante nesta batalha é que ela foi a última da Guerra da Coreia. A batalha do rio Samichon cessou na véspera do dia da assinatura do Armistício - 27 de Julho de 1953 - que pôs fim às hostilidades. Era um acontecimento que estava previsto desde há dias (acima, a edição do Diário de Lisboa de há 70 anos) e que fora o culminar de um arrastadíssimo processo de negociações que durara mais de dois anos, onde houvera 575 reuniões em que - alguém estimou - se haviam trocado 18 milhões de palavras! Mas, para a parte chinesa não se punha o problema de correr o perigo de poder desfazer tudo o que se alcançara até aí e sacrificar mesmo 2.000 vidas para obter ainda, à última hora, uma pequena vantagem táctica adicional para a trazer para a mesa das negociações! Na verdade, no cômputo global e nos últimos meses, eles e os norte-coreanos haviam sofrido 72.000 baixas (dos quais 25.000 mortos) tentando fazer isso mesmo. As negociações na Coreia são tradicionalmente muito duras e inconclusivas e o problema da Coreia não se resolvem com coisas simples que se possam dizer em tweets, nem os tweets têm espaço para que se explique convenientemente porque é que essas simplicidades são um disparate... E disparate é sinónimo de Trump.
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10 julho 2023
O CISMA SINO-SOVIÉTICO
10 de Julho de 1963. Em Moscovo, a delegação soviética e a chinesa encontravam-se para ver se se podia sanar o conflito ideológico sino-soviético. O engraçado, quando apreciado a esta distância de 60 anos, é constatar que as delegações eram encabeçadas pelos nossos conhecidos Mikhail Suslov e Deng Xiaoping. Quanto às expectativas, eram muito baixas. O artigo terminava antecipando que «um rompimento das negociações não deve mesmo constituir motivo de surpresa». E não constituiu.
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17 abril 2023
O UNIVERSO DÚPLICE ORWELLIANO DE PEQUIM...
Por ocasião da visita oficial que o presidente brasileiro Lula da Silva acabou de realizar a Pequim, podemos destacar este momento surreal em que ele passa revista às tropas acompanhado do seu homólogo Xi Jinping, enquanto a banda militar toca «Novo Tempo», uma velha canção de Ivan Lins que data do tempo da ditadura militar (1980). Um daqueles episódios em que salta à vista que o responsável chinês por aquela escolha se quedou pelo potencial significado do título, mas não prestou atenção ao significado da letra de Vítor Martins, que é uma arenga contra a ditadura militar brasileira e em prol dos tempos de liberdade que se lhe sucederiam. Ora o novo tempo descrito por Vítor Martins não era a substituição de uma ditadura (militar) por uma outra ditadura (comunista), como a chinesa, daí o anacronismo daquela música naquele enquadramento. A complementar o constrangimento da cena, há aquela coreografia com as criancinhas chinesas a pular de ramos de flores na mão, gestos que se coreografavam precisamente durante as cerimónias públicas da ditadura militar... A rematar a minha completa desilusão com o adocicado como esta cena está a ser descrita no e para o Brasil, a reacção «emocionada» numa rede social do próprio Ivan Lins. Lins sofrerá talvez do síndrome Lucélia Santos, a actriz que ainda é recordada (no Brasil) por ter derretido o coração de 300 milhões de chineses como escrava Isaura...
Só que, ele há Democracias e ele há ditaduras. Mas, mais do que ser apenas descritivo e para ser também construtivo, e visto que o périplo mundial de Lula da Silva ainda irá passar por Lisboa no próximo dia 25 de Abril, será que ainda se vai a tempo para que a banda da GNR ensaie, para tocar enquanto ele passar revista às tropas, o famoso «Fado Tropical» (1973) de Chico Buarque, letra de Ruy Guerra?... Acredito que eles no Itamaraty também vão adorar aquela passagem final em que se profetiza que «esta terra (Brasil) ainda vai cumprir o seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal»...
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27 março 2023
O JAPÃO ABANDONA A SOCIEDADE DAS NAÇÕES
(Republicação)
27 de Março de 1933. O Japão abandona a Sociedade das Nações, depois das censuras públicas expressas pela Assembleia da organização, a respeito da sua conduta expansionista na China. Em O Lótus Azul, aventura de Tintin que se desenrola na China e que estava a ser desenhada nessa época, Hergé (o seu autor) refere-se ao incidente de uma forma que, não sendo rigorosa, é bastante credível. Compare-se com as imagens abaixo.
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15 março 2023
A APROXIMAÇÃO IRANO-SAUDITA MEDIADA PELA CHINA: AS FOTOGRAFIAS E O RESTO
As fotografias que se publicaram da cerimónia da assinatura deste último acordo entre a Arábia Saudita e o Irão, mediado pela China, são espectaculares, parecem plenas de simbolismo. As reacções dos órgãos de informação deste lado de cá do Mundo dividem-se entre as apreciações mais entusiásticas e outras apreciações mais prudentes. Estas parecem-me muito mais consistentes: é melhor esperar para ver o que acontece de concreto. O Médio Oriente é uma região conhecida por ter responsáveis políticos que assinam muito facilmente tratados que depois permanecem letra morta. (Exemplo recente: o plano de paz gizado por Jared Kushner, genro de Donald Trump, em Setembro de 2020, envolvendo Israel e alguns países do Golfo, foi declarado letra morta seis meses depois de assinado) A acrescer a isso, sabe, quem acompanha os assuntos da região com outra profundidade, que a Arábia Saudita e o Irão mantêm uma rivalidade e uma clivagem profundas desde há décadas, de um nível idêntico às que separam Israel dos seus vizinhos árabes, e que ultrapassá-las não será tarefa fácil para os dois rivais signatários (para melhor compreender essa rivalidade sugere-se a leitura do livro abaixo de 2020). Considerando isto e, por muito que a China seja a novidade da equação, aparecendo pela primeira vez a protagonizar uma iniciativa nesta região e desta dimensão, manda a experiência que nos mantenhamos prudentes quanto à evolução dos acontecimentos.
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ANTES DE OS CARGOS SE TORNAREM VITALÍCIOS, PREÂMBULO PARA SE TORNAREM HEREDITÁRIOS...
(Republicação)
15 de Março de 2003. Há precisamente vinte anos Hu Jintao (n. 1942, acima, à esquerda) sucedia a Jiang Zemin (n. 1926, ao centro) no cargo de Presidente da República Popular da China. Dali por dez anos (14 de Março de 2013), e cumprindo o preceito constitucional que proíbe que aquele cargo seja ocupado por mais do que dois mandatos consecutivos (de cinco anos), a presidência veio a ser por sua vez ocupada por Xi Jinping (n. 1953, à direita), que é o presente titular do cargo. Na China, esse cargo é essencialmente simbólico, aquele que detém o poder real é o de secretário-geral do Partido Comunista Chinês, que qualquer destes homens começou por ocupar antes de se tornar presidente: Jiang foi-o entre 1989 e 2002, Hu de 2002 a 2012 e agora é Xi que acumula os dois cargos. Porém, o preceito constitucional do limite de mandatos presidenciais foi empregue nestes últimos vinte anos que se seguiram à morte de Deng Xiaoping (1904-1997), como um freio à tendência cientificamente comprovada entre os partidos comunistas, para que se perpetue a pessoa do secretário-geral e o poder se concentre vitaliciamente numa só pessoa. Anómala em regimes de partidos monolíticos, a História recente da China mostrou também uma saudável renovação dos protagonistas das sua classe dirigente em cada decénio, aproximando-se dos ciclos que acontecem naturalmente nas Democracias. Ora essa imposição para o refrescamento regular das elites políticas chinesas parece ter agora sido posto em causa com a remoção da cláusula constitucional do limite de mandatos presidenciais. Xi Jinping dispõe agora de uma base jurídica para se perpetuar vitaliciamente no poder, à semelhança de outros ditadores, também herdeiros do socialismo científico, como são os casos de Vladimir Putin na Rússia ou de Aleksandr Lukashenko na Bielo-Rússia, e mesmo, num país cuja História riquíssima até está repleta delas, Xi poderá ser o fundador de uma dinastia como as dos Kim na Coreia do Norte ou a dos Aliyev no Azerbeijão.
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06 março 2023
PROVOCAÇÕES PARA QUE EU SEJA ACOMETIDO DE «UM MOMENTO 50 LIVROS»
A expressão «Momento 50 Livros» remete-nos para um episódio já com mais de dez anos, do Verão de 2012, quando o Expresso, num daqueles ataques de pedantismo institucional, se propôs elaborar mais uma das ene listas de livros «que toda a gente deve ler» (acima). Nessa altura, e neste mesmo blogue, acabei perguntando-me se, no futuro, viria a adquirir «um pretensiosismo idêntico ao da intenção de quem elabor(ou) estas listas, (ao qual) ripostarei simetricamente com uma lista de livros que, por sua vez, os sugestores (da altura) deve(ria)m ler». Acabou por ocorrer este fim de semana, o «momento 50 livros» provocado pela simplicidade medíocre como está a ser coberto o congresso que irá proceder à recondução excepcional de Xi Jinping à frente dos destinos da China. Os exemplos destes países onde o poder é monolítico e opaco (a Rússia é igual) são a demonstração de que o jornalismo pouco consegue fazer sem cumplicidades dos actores políticos. Sem essas cumplicidades uma cobertura eficaz destes eventos políticos torna-se mais exigente. E sem um conhecimento fundamentado sobre a história mais recente da China, as notícias a que podemos aceder pouco mais são do que retransmissões estilizadas da propaganda oficial, por falta de capacidade de separar o trigo do joio informativo. Abaixo, apresento 4 livros, por sinal todos do mesmo autor, que «todos os» jornalistas e opinadores sobre a China «devem ler» antes de se porem a falar sobre o assunto.
Dos 4 livros, o segundo será o melhor de todos, nomeadamente por tudo aquilo que revela, que era quase desconhecido até à data da sua publicação. Recebeu o prémio Samuel Jonhson de 2011. Contudo o terceiro livro será mais impressionante pela descrição de um devaneio colectivo num país que contava então com mais de 700 milhões de pessoas. E o livro menos bem conseguido será o quarto (tanto cronologicamente, como por ordem de saída), cobrindo o período depois da morte de Mao. Apesar disso, contém um dos ensinamentos práticos mais importantes: a de que as estatísticas na China não são minimamente fiáveis. Em 1983, o organismo chinês encarregue das estatísticas empregava 16.000 pessoas enquanto o seu congénere soviético da época empregava 220.000 (p.41). O padrão não se terá alterado de há 40 anos para cá e, para além disso, todos sabemos como os estatísticos dos países autoritários têm tendência a reportar dados que agradem às autoridades. Portanto, quaisquer números que sejam brandidos nestas ocasiões solenes pelos responsáveis chineses, são sempre para ser acolhidos com toda a circunspecção.
20 novembro 2022
UMA ESPÉCIE DE DESFORRA POR INTERPOSTO INIMIGO
20 de Novembro de 1962. Prosseguia a Guerra Sino-Indiana e os indianos estavam nitidamente a perdê-la. Em Portugal, a Índia fora erigida em inimigo principal depois da invasão de Goa, Damão e Diu em Dezembro de 1961. E as considerações sobre política internacional que se fizessem subordinavam-se a esse princípio. É isso pode explicar esta espécie de regozijo como é noticiado que o general Choudhery (que fora um dos comandantes que se destacara na invasão da Índia portuguesa) fora promovido para o comando do exército indiano. Ao jeito - mais subentendido do que explícito - de se tratar duma espécie de desforra. Mesmo que os promotores dessa desforra fossem os comunistas chineses, que também não eram particularmente bem quistos pelo Estado Novo, mas que, ao menos, não invadiam Macau... Vale a pena ainda acrescentar que, contrariamente aos vaticínios sugeridos pela notícia supra, a carreira do general Chaudhuri (e não Choudhery...) vai beneficiar daquela dose de sorte de que todos os generais precisam: neste mesmo dia em que ele tomou posse, a China anunciou um cessar fogo unilateral, a entrar em vigor à meia noite.
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03 novembro 2022
AINDA UM OUTRO EPISÓDIO DA GUERRA SINO-INDIANA
3 de Novembro de 1962. Apesar das atenções do mundo se concentrarem no bloqueio naval de Cuba e na disputa entre soviéticos e norte-americanos, estes últimos não se distraíam dessa outra confrontação que estava a decorrer ao mesmo tempo nos cumes da cordilheira dos Himalaias entre chineses e indianos. E, surpreendentemente para o que vieram a ser os alinhamentos da Índia e da China depois disso até ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos saíam neste caso em apoio da Índia - que estava a ser derrotada - fornecendo-lhes armamento pertencente às tropas norte-americanas então estacionadas na Europa. Transportadas desde a Alemanha e mais do que se pode ler na notícia acima, aviões C-130 começaram a transportar para Calcutá, para além do armamento acima descriminado, artilharia de montanha para contrariar a superioridade que os chineses estavam a exibir nos campos de batalha. E este é apenas mais um daquelas dezenas de episódios, depois de 1945, em que os Estados Unidos municiaram generosamente aqueles que eles consideravam estar a combater por interesses estratégicos que lhes convinham, aos próprios Estados Unidos. Como hoje está a acontecer com a Ucrânia...
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20 outubro 2022
A GUERRA SINO-INDIANA
20 de Outubro de 1962. Depois de semanas de um agudizar progressivo da tensão nas regiões fronteiriças do Himalaia entre chineses e indianos, eclode finalmente o conflito militar assumido entre os dois lados, a ofensiva, como se lê acima, foi desencadeada pelo exército chinês. Estes haviam transferido previamente tropas para as regiões disputadas - de muito fraca densidade populacional e situadas todas a mais de 4.000 metros de altitude - e gozavam de uma superioridade patente. No entanto, apesar dos sinais, os indianos viviam iludidos na húbris da superioridade militar de que haviam gozado quando da sua invasão dos territórios da Índia portuguesa, menos de um ano antes. A guerra, que durou um mês, já foi objecto de tratamento aqui neste blogue. O cessar-fogo foi uma situação satisfatória mas não uma solução de fundo para as divergências entre as duas partes. Também já foi objecto de tratamento alguns episódios que se lhe seguiram. Eram as duas potências mais populosas do Mundo em conflito militar directo mas, devido às circunstâncias e ao encadeamento noticioso, a atenção mediática dispensada ao acontecimento foi quase nenhuma. É a diferença entre o que é importante para a História e o que é importante para a informação. E um jornalista há-de ser sempre apenas um jornalista.
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28 setembro 2022
A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA RECONHECE A REPÚBLICA POPULAR DE ANGOLA
28 de Setembro de 1982. Nos dias que correm, suspeito que será uma inconveniência recordar que a China aguardou quase sete anos para reconhecer o governo que o MPLA havia proclamado em Luanda em 11 de Novembro de 1975 e isso apesar dos dois regimes se reclamarem do mesmo campo ideológico (comunista). Hoje há uma certa tendência para sobre simplificar as vicissitudes da Guerra-fria, colocando os Estados Unidos capitalistas de um lado e a União Soviética comunista de outro, quando o xadrez da ordem internacional vigente era, como aqui se percebe à evidência, bem mais complexo.
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