Mostrar mensagens com a etiqueta Dinamarca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dinamarca. Mostrar todas as mensagens

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

29 agosto 2023

O DIA DA OPERAÇÃO «SAFARI» NA DINAMARCA

(Republicação)
29 de Agosto de 1943. A Dinamarca entrara na Segunda Guerra Mundial quando da invasão alemã a 9 de abril de 1940. A resistência dinamarquesa foi breve (6 horas). Desde aí, a Dinamarca tornara-se num protectorado alemão, embora os Aliados (britânicos e americanos) tivessem ocupado todas as suas outras possessões, e o modus vivendi dos dinamarqueses sob ocupação alemã era razoável, dadas as circunstâncias, superando todos os outros países ocupados da Europa. Em Março de 1943 até se haviam realizado eleições legislativas que haviam reconduzido por uma esmagadora maioria a ampla coligação nacional. Mas, para a Alemanha, nesse Verão de 1943 e depois da ofensiva diplomática que desencadeara na Primavera anterior, a decepção era grande, ao constatar a ausência de resultados concretos entre a constelação de países que a rodeava, ou mesmo pior, já que, entretanto, o próprio Mussolini fora deposto em finais de Julho. Tudo isto para explicar o ambiente que está por detrás das exigências alemãs apresentadas ao governo dinamarquês a 28 de Agosto de 1943. Em detalhe, os alemães exigiam que as reuniões públicas fossem proibidas, as greves ilegalizadas, houvesse recolher obrigatório, que a censura fosse acompanhada por alemães e que houvesse tribunais militares especiais que poderiam sancionar com a pena de morte em casos de sabotagem.
A ideia dos alemães teria sido apenas atarrachar, só que... a coisa partiu. Como noticiava o Diário de Lisboa desse dia, o governo dinamarquês demitiu-se e as autoridades alemãs, proclamando o estado de sítio, tiveram que assumir elas próprias as responsabilidades da governação. Para que se concretizasse os alemães executaram um plano de desarmamento das fracas forças armadas dinamarquesas que ficou conhecido pelo nome de Operação Safari. Momento mais simbólico da ocasião foi a corrida contra o tempo para afundar os poucos navios da marinha de guerra antes que os alemães se apossassem deles (um episódio semelhante em atitude - que não em escala - com o que tivera lugar dez meses antes em Toulon, na França). Mesmo para quem acompanhava a guerra pelos jornais, o comportamento dos alemães começava a assumir um padrão antipático, à medida que a confiança deles nos seus aliados e dependentes se esvanecia. Na última página do Diário de Lisboa desse mesmo dia e ao lado do resto da notícia sobre o que acontecera na Dinamarca, lia-se a notícia da morte do rei Boris III da Bulgária (outro aliado de Hitler), falecido no dia anterior inesperadamente aos 49 anos, oficialmente de ataque cardíaco, mas uma morte que ainda hoje permanece misteriosa.

19 outubro 2022

O REI CAIU DO CAVALO

O que a notícia de 19 de Outubro de 1942 não pode transmitir é o simbolismo destes passeios habituais e matinais a cavalo do rei da Dinamarca, numa Copenhaga que estava ocupada (pelos alemães) desde 1940. Cristiano X, já com 72 anos, saía regularmente para o seu passeio equestre sem qualquer escolta, ocasião em que costumava ser saudado efusivamente pelos seus súbditos. Os passeios a cavalo do rei eram uma exibição de soberania numa Dinamarca ocupada. E o contraste não podia ser maior com a indiferença como os dinamarqueses em geral reagiam à presença das autoridades de ocupação.

20 abril 2022

UMA HISTÓRIA DINAMARQUESA COM FREDERICOS E CRISTIANOS

20 de Abril de 1947. Na Dinamarca, morre o rei Cristiano X (1870-1947). Sucede-lhe o seu filho Frederico IX (1899-1972). O acontecimento veio manter uma tradição que remontava aos princípios do século XVI, que fazia com que no trono dinamarquês se alternasse um monarca de nome Frederico com outro de nome Cristiano, Como as tradições só se tornam interessantes quando se quebram, dali por 25 anos (1972) e porque Frederico IX só tinha três filhas, por sua morte o trono foi ocupado por Margarida II (1940- ), que ainda hoje o ocupa, aos 82 anos. Mas o seu filho mais velho, o herdeiro, chama-se Frederico, reatando a tradição.

23 fevereiro 2022

O REFERENDO NA GRONELÂNDIA SOBRE A CEE

23 de Fevereiro de 1982. Tem lugar na terça-feira de Carnaval um referendo na Gronelândia para decidir se aquela (grande!) região autónoma da Dinamarca continuaria ou não fazer parte da então Comunidade Económica Europeia (CEE). Não consta que haja grandes celebrações de Carnaval por aquelas paragens (frias!) e venceu a rejeição, embora o número de votos contados (12.615 contra 11.180) mostre o limitado impacto demográfico da decisão. Apesar disso, politicamente, a decisão seria demonstrativa que a CEE não era o El Dorado apregoado pela propaganda de Bruxelas, a organização a que todos desejavam pertencer. Havia quem não o quisesse. A decisão viria a entrar em vigor dali por três anos, a partir de 1 de Fevereiro de 1985. Até ao Brexit (2016), por 34 anos, seria o único episódio de abandono da União Europeia. Um pequeno episódio, que a propaganda de Bruxelas se mostrava hábil em tornar ainda mais pequenino.

24 fevereiro 2021

VENCEDORES E VENCIDOS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Esta notícia de 24 de Fevereiro de 1946 mostra-nos um dos anacronismos produzidos pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Os britânicos, nomeadamente os seus soldados que estavam estacionados no norte da Alemanha como forças de ocupação vitoriosas de uma Alemanha derrotada, olhavam com uma extrema inveja as condições materiais vigentes na Dinamarca, que fora um dos vencidos do conflito. A Dinamarca fora um dos países invadidos e ocupados pela Alemanha em Abril de 1940 e ocupado permanecera até ao fim do conflito em Maio de 1945. Tirando alguns bombardeamentos seleccionados dos Aliados, visando objectivos que prejudicassem o esforço de guerra alemão, o país não fora palco de combates para a sua libertação e assim a esmagadora maioria do seu tecido produtivo industrial e, sobretudo, agrícola, não fora destruído. Grande produtor de alimentos já antes da guerra, a descrição das refeições dinamarquesas acima deviam parecer banquetes aos britânicos médios, acostumados ao racionamento. Como se lê no último parágrafo da notícia, «os soldados britânicos não compreendem a razão por que esse supérfluo de comida não é enviado para a Grão-Bretanha» mas a verdade impossível de lhes explicar era que o seu país, apesar de ter vencido a guerra, estava na bancarrota.

15 maio 2020

O AJUSTE DE CONTAS COM OS COLABORACIONISTAS E OS COMPROMETIDOS

15 de Maio de 1945. Terminada há uma semana a Segunda Guerra Mundial, por toda a Europa começava o ajuste de contas com o passado recente, tivesse ele sido na Checoslováquia anexada ao Reich, na Dinamarca ocupada pelo Reich ou ainda na França que colaborara com esse mesmo III Reich.  E estes eram apenas alguns exemplos recolhidos de notícias várias da edição daquele dia do Diário de Lisboa. Os ajustes de contas multiplicavam-se por todos os países da Europa que se haviam visto nas mesmas condições. Em todos eles, há 75 anos, a germanofilia era um predicado muito pouco saudável

03 maio 2020

O APARECIMENTO DA EFTA

3 de Maio de 1960. Quatro meses depois da assinatura do tratado em Estocolmo, a EFTA (European Free Trade Association) entra em vigor, associando a Áustria, a Dinamarca, a Noruega, Portugal, o Reino Unido, a Suécia e a Suíça. À época, a nova organização apresentava-se como uma espécie de CEE alternativa.

09 abril 2020

OPERAÇÃO WESERÜBUNG


9 de Abril de 1940. A Alemanha desencadeia a Operação Weserübung, a invasão simultânea da Dinamarca e da Noruega, dois países adjacentes que haviam permanecido, até aí, neutrais na Segunda Guerra Mundial. Haviam permanecido, mas a Alemanha achou que tinha necessidade de os invadir e ocupar e assim fez. Eu aprecio pessoalmente Angela Merkel. Ela convenceu-me quando assumiu uma resposta politicamente incorrecta para com uma refugiada palestiniana, a propósito dos seus direitos de asilo. Angela podia ter mentido à rapariga para aparecer bem na televisão, mas preferiu ser sincera e isso apenas deu mais valor à sua sinceridade quando se condoeu com a reacção da adolescente. Mas não posso esquecer que ela é a chancelerina (kanzlerin) dos alemães. Ocupa aquele lugar para zelar pelos interesses deles. Os alemães, como se vê por estes exemplos do passado, têm uma empatia nula pelas preocupações dos outros povos. Portanto não vale a pena estar a enviar a Angela Merkel cartas abertas com muitas assinaturas para que ela tome iniciativas que se referem a interesses muito mais vastos do que aqueles que lhe são exigidos.

14 março 2020

A SEGUNDA FASE DO PLEBISCITO PARA A DEFINIÇÃO DA FRONTEIRA DA ALEMANHA COM A DINAMARCA

14 de Março de 1920. Cumprindo o que ficara acordado pelas cláusulas do Tratado de Versalhes, tem lugar a segunda fase do plebiscito em que se definirá, por voto popular, o traçado da única fronteira norte da Alemanha, aquela que ela faz com a Dinamarca, numa região denominada Schleswig. O acto eleitoral é digno de nota porque ele decorre quando, simultaneamente, em Berlim, está em curso uma tentativa de golpe de Estado, como ontem demos nota neste blogue. Mas a protecção de unidades militares francesas, que haviam sido destacadas para a região, permitiu que a votação decorresse sem incidentes de maior. Como se perceberá pela leitura do mapa acima, nas regiões setentrionais do Schleswig venceu a opção dinamarquesa (em azul), mau grado as concentrações urbanas pró-alemãs (a vermelho). Aquela que no mapa acima aparece denominada por Zona I passou a ser dinamarquesa; a Zona II permanecerá alemã e reunir-se-á a região adjacente do Holstein para formar o actual estado federal do Schleswig-Holstein. O traçado da fronteira é o da actualidade.

31 maio 2019

O TRATADO DE NÃO AGRESSÃO GERMANO DINAMARQUÊS

31 de Maio de 1939. A Dinamarca e a Alemanha assinam um Tratado de Não Agressão. No quadro de uma situação internacional cada vez mais exacerbada pelo expansionismo alemão, a Alemanha propusera-se firmar tratados daquele teor com os países do Norte da Europa para os tranquilizar: os três países da Escandinávia (Dinamarca, Noruega e Suécia), os três países Bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia) e ainda a Finlândia. A Suécia, a Noruega e a Finlândia recusaram-se, apenas a Dinamarca, conjuntamente com os estados bálticos, o fizeram. A parte alemã fê-lo com evidente má fé: menos de um ano transcorrido, a 9 de Abril de 1940, a Alemanha invadia e ocupava a Dinamarca, ocupação que perduraria até ao final da Guerra. A imagem acima foi recolhida de um filme de propaganda da época (1940), em que se recordavam as palavras diplomáticas hipócritas (passe a redundância...) que haviam sido proferidas pelo ministro Ribbentrop por ocasião da cerimonia de há oitenta anos: «Fica firmemente estabelecido manter a paz entre a Dinamarca e a Alemanha, sejam quais forem as circunstâncias». Foi o que se viu...

Sendo os factos o que são, trata-se de um daqueles casos flagrantes em que os acontecimentos posteriores desautorizaram de todo as boas intenções de quem defendeu esta assinatura do lado dinamarquês, em contraponto, aliás, com a opção que foi feita pelos outros parceiros escandinavos, mais desconfiados. Foi uma asneira política indesculpável. Embora se consigam arranjar desculpas - arranjam-se sempre... - para ela. Os dinamarqueses não são muito expansivos, não gostam - ninguém gosta... - de ter feito triste figura de si próprios, e também não gostam que outros discutam estes episódios mais controversos da sua história (e outros episódios não tão históricos também não). A Dinamarca criou um discurso sobre a sua conduta durante a Segunda Guerra Mundial mas este episódio, especificamente, parece ter-se tornado tabu. Consultem-se as edições de hoje dos dois jornais dinamarqueses de maior circulação (Politiken e Berlingske) e a efeméride não é para ser mencionada sequer.

26 junho 2017

INFORMAÇÕES QUE NÃO PÕEM AS REDES SOCIAIS "AO RUBRO": A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO DA GRONELÂNDIA

A Gronelândia tem uma área de 2.166.000 km² (24 X a área de Portugal) mas é povoada apenas por uns 56.000 habitantes (menos de ¼ da população da Madeira), o que a torna o território menos densamente povoado do Mundo. Esta informação estatística perfeitamente supérflua é complementada com a da sua distribuição, que se concentra predominantemente na costa ocidental, a costa que está orientada para o continente americano, conforme se pode perceber pelo mapa acima. É uma informação que, não inflamando as redes sociais, não deixa de ser surpreendente, já que a quase totalidade das referências históricas à Gronelândia a conectam com a sua descoberta e tentativa de colonização pelos povos nórdicos entre os séculos X e XV, uma história trágica, já que a colonização veio a fracassar ao fim de 500 anos por causas ainda hoje discutidas, só vindo a ser retomada num outro fôlego e com melhores meios materiais a partir do século XVIII. Na actualidade, ao contrário do que aconteceu na Islândia (que era deserta e onde a população moderna é de ascendência nórdica) e apesar do território continuar a ser uma dependência da Dinamarca, cerca de ⅞ da população da Gronelândia é de ascendência inuíte.

03 fevereiro 2016

SEJAM BONZINHOS PARA COM OS ANIMAIS (O VALOR DAS IMAGENS 3)

Para os dinamarqueses, os coelhos são animais de companhia. Forma segura de lhes provocar uma expressão de repulsa é pretender aliciá-los com um dos inúmeros pratos de coelho da nossa cozinha tradicional. Nem imagino como é que naquele país se explicará às crianças o que é que o Elmer Fudd anda a fazer nos desenhos animados... Os dinamarqueses passam por gostar muito de animais. Será por isso que não gostam de touradas - que em dinamarquês se designa pela palavra tyrefægtning. Será uma das causas mais importantes dos amigos dos animais local, como se vê pelo seu site numa página enfeitada, como seria de esperar, por um touro ensanguentado. O paradoxo é que descobri eventos tipicamente dinamarqueses que se mostram tão ou mais sangrentos do que uma tourada e que permanecem relativamente desconhecidos do resto do mundo e também afastados das preocupações dos dinamarqueses para com os animais. Há, por exemplo, esta caça tradicional às baleias nas Ilhas Féroe que é aqui ilustrada com algumas fotografias tão cruéis e sangrentas quanto aquelas que costumam ser publicadas para ilustrar touradas quando o tópico lhes é hostil. E, se aquilo que se vê também não é particularmente bonito como um touro ensanguentado no estertor da morte, as justificações canónicas sobre o carácter antigo e antropológico da actividade assemelham-se estranhamente ao que se ouve em defesa das touradas. O que os escandinavos me parecem inexcedíveis, quando em comparação connosco, ibéricos, é na discrição como escondem os seus pontos fracos. Tanto assim, que eles sentem-se com superioridade moral para se pronunciarem sobre as touradas de cá, e por cá ninguém parece ter ânimo para se ir imiscuir - a favor ou contra - a chacina das baleias de lá.

28 janeiro 2016

O MODELO NÓRDICO

Convenço-me que entre as razões que contribuem para ampliar o ultraje como está a ser acolhida a legislação sobre o confisco dos bens dos refugiados se prende com o facto da medida ter sido votada no parlamento dinamarquês (Folketing), um país escandinavo e não noutro qualquer. A Dinamarca, conjuntamente com os outros países nórdicos, sempre cultivou uma imagem internacional de benemerência vinda de uma sociedade que gozava de um padrão de qualidade de vida superior ao dos outros países. Só que essa superioridade material e também moral do modelo nórdico estará agora, ironicamente, a voltar-se contra quem a promoveu com tanta eficácia. Tanta, que mesmo fora da Escandinávia não se esperam atitudes egoístas como as que estão a ocorrer. As habilidades que seriam apenas compreensíveis se ocorridas noutros parceiros europeus, tornam-se particularmente chocantes, quando passa a ser a Suécia a anunciar que vai expulsar 80.000 migrantes. É curioso, e não vi isso devidamente destacado, o comportamento dos políticos locais perante tão grave problema: a votação do Folketing dinamarquês com 179 deputados que aprovou o controverso confisco dos bens dos refugiados teve o seguinte resultado: houve 81 votos favoráveis à lei, 27 desfavoráveis, ainda 1 abstenção, mas sobretudo 70 ausências significativamente oportunas. Estas últimas corresponderam a 39% dos parlamentares dinamarqueses. Mesmo contando com a revelação da política dinamarquesa que constituiu a famosa série televisiva Borgen, e sem ter a ousadia de especular o que os 70 deputados teriam votado se se dispusessem a ter estado presentes, é possível constatar quanto uma significativa parcela dos políticos de lá e de cá se podem equivaler na cobardia de se evadirem a mostrarem as suas convicções políticas.

05 agosto 2015

O ACIDENTE DE THULE


A Força Aérea norte-americana (USAF) tem uma base em Thule. Thule fica na Gronelândia e a Gronelândia é muito fria. Como Thule fica no Norte da Gronelândia as temperaturas na base serão ainda mais baixas que no resto da ilha. E como o episódio se desenrolou em 21 de Janeiro de 1968 (no pico do Inverno, portanto) é mesmo sob uma sensação gélida que a história tem de ser compreendida. Nesse dia permanentemente escuro de Janeiro de 1968 (naquelas latitudes naqueles meses o Sol mal se levanta acima do horizonte), um bombardeiro B-52 da USAF (abaixo, à esquerda) cumpria a sua missão de alerta voando interminavelmente durante horas uma rota em forma de infinito a 35.000 pés de altitude. E, porque o desconforto era grande, o co-piloto havia arranjado umas almofadinhas de espuma de borracha para colocar sobre o assento. Haviam-se passado já umas cinco horas de voo quando a tripulação tiritando achou que o aquecimento da cabine não estava a funcionar adequadamente. O mesmo co-piloto, o major Alfred d’Amario Jr. – o friorento do grupo, provavelmente... – accionou um dispositivo adicional para aquecer a cabine que sugava ar de exaustão dos reactores. Só que o ar estava muito quente (220ºC) e, porque os ventiladores se situavam precisamente sob os assentos(!), pegaram fogo às almofadinhas.
O operador de radar, o major Frank F. Hopkins, deu pelo cheiro a borracha queimada, identificou a origem dele, a tripulação ainda tentou apagá-lo com os extintores mas o fogo e o fumo propagaram-se, declarando-se o fogo a bordo, provavelmente o pior perigo para um avião voando em altitude de cruzeiro. O piloto, o capitão John Haug pediu a Thule autorização para proceder a uma aterragem de emergência. Não a chegou a realizar porque, passado algum tempo, o fogo deve ter atingido e destruído alguma cablagem vital e o B-52 perdeu a energia eléctrica. A tripulação iria ter que saltar de pára-quedas. Naquele dia a temperatura ambiente era de -30º C. O vento e o consequente efeito de windchill tornavam-na equivalente a -42º C. Naquelas condições, qualquer parte exposta do corpo arriscar-se-ia a uma severa queimadura pelo frio em cerca de dois minutos. Por isso, para aumentar as hipóteses de sobrevivência da sua tripulação, o piloto tentou aproximar o mais possível o avião de Thule antes de o abandonar por último, a cerca de 5 km do início das pistas. Já sem ninguém, o B-52 sobrevoou totalmente Thule antes de posteriormente descrever uma bizarra volta de 180º e vir despenhar-se sobre o mar gelado.
Dos sete tripulantes, seis chegaram vivos ao solo. O último a saltar, o capitão Haug, veio a pousar são e salvo e ajudado pelo vento no meio do complexo de pistas da própria base aérea. O primeiro a saltar ainda a 10 km de distância das pistas, o navegador, o capitão Curtis Criss, foi o último a ser encontrado quase 24 horas depois e teve que amputar os dois pés. Mesmo assim, e consideradas as circunstâncias, é consolador pensar que, na altura com 43 anos, o capitão conseguiu continuar a jogar golfe e que veio a sobreviver mais 40 anos ao desastre. Desastre esse que nada teria de notável não se desse o caso do B-52 transportar 4 bombas termonucleares (acima). O local do despenhamento (abaixo) ficou totalmente contaminado – a sua (custosa) limpeza foi um evento de interesse mediático – e a existência de um B-52 em espaço aéreo dinamarquês transportando armamento nuclear tornou-se um problema de política interna dinamarquesa, já que o desastre indiciava que uma política assumida de ausência de armamento nuclear em solo dinamarquês estaria a ser violada. Investigações posteriores, mais de 25 anos depois, concluíram que, a haver hipocrisia e dissimulação, ela seria mais da responsabilidade do lado dinamarquês do que do norte-americano...
Retrospectivamente, já se imaginou se algo semelhante se tivesse passado nas Lajes?

11 setembro 2011

ROCKALL, O PEQUENO ILHÉU EM DISPUTA

Não são apenas as conversas que são como as cerejas. Também os mapas o podem ser. Mapas que aqui se afixam com o propósito de esclarecer algum aspecto específico tratado num poste contêm um outro pormenor que pode ser pretexto e assunto para um outro poste. Assim aconteceu com o Mapa da Europa de há 20.000 anos atrás (acima).
Nesses tempos de glaciação, em que o nível dos oceanos era muito mais baixo do que na actualidade, tanto que as ilhas britânicas estavam ligadas ao continente, havia uma ilha adjacente em pleno Atlântico (assinalada com uma circunferência vermelha) num local onde hoje não existe mais nada senão um pequeníssimo ilhéu chamado Rockall.
O ilhéu actual será o que resta da montanha mais alta dessa ilha (um antigo vulcão), uma rocha com uns 750 m² de base e uns 20 metros de altura. Apesar da sua pequenez, mas por causa dos direitos marítimos associados, é um dos focos de discórdia entre países da Europa, envolvendo as pretensões do Reino Unido, Irlanda, Islândia e Dinamarca…

27 junho 2009

O IMPÉRIO COLONIAL DINAMARQUÊS

Talvez por causa da correcção política que se costuma associar aos povos escandinavos, o povo colonizador mais esquecido de todos os que a Europa conta será, com muita probabilidade, o dinamarquês. A verdade é que, ao longo da sua História, a Dinamarca chegou a possuir colónias em quatro continentes (Europa, África, Ásia e América) e ainda hoje a Gronelândia e as Ilhas Faroe, embora gozando de uma ampla autonomia interna, são dependências da Dinamarca. Como acontece também com as duas regiões autónomas portuguesas no Atlântico, Açores e Madeira, as Ilhas Faroe e a Gronelândia foram, conjuntamente com a Islândia, as primeiras regiões de colonização, ainda durante a Idade Média, e também as que permaneceram ligadas à metrópole depois do fim do Império. Contudo, a comparação não é linear, porque a colonização nas terras do Norte do Atlântico foi realizada também por noruegueses, escoceses e irlandeses. As relações entre metrópole e dependências não têm assim as características de proximidade e, sobretudo, de exclusividade, como aquelas que vigoram entre Portugal, a Madeira e os Açores. Ainda recentemente, a Rainha da Dinamarca, quando em visita à Gronelândia, apareceu vestida com o fato tradicional daquela região (acima). Apesar do teor dos discursos de Alberto João Jardim, ainda não parece necessário que o casal Cavaco Silva faça o mesmo com o trajo madeirense… Mas os dinamarqueses foram muito mais longe do que o Atlântico. O local mais distante onde se instalaram foi a Índia, onde fundaram uma feitoria em 1620 em Tranquebar, na Costa do Coromandel, no actual estado indiano de Tamil Nadu. Em 1675 fundaram uma outra no estado de Bengala, próxima de Calcutá. Em 1755 reivindicaram as insalubres Ilhas Nicobar, no Golfo de Bengala. Em 1845, o conjunto foi vendido aos britânicos, já hegemónicos no subcontinente.
Outro dos locais em que os dinamarqueses se instalaram foram as costas do Golfo da Guiné, nas paragens correspondentes ao Gana actual, onde os dinamarqueses conquistaram e reforçaram, ou edificaram de raiz, vários fortes e feitorias desde 1658 até se retirarem da região em 1850. O propósito das feitorias era, principalmente, o comércio de escravos para as Américas e, com a abolição da escravatura e a extinção do tráfico, os dinamarqueses venderam-nas aos britânicos.
Nas Caraíbas, os dinamarqueses ocuparam em 1673 algumas das Ilhas Virgens que ficaram a ser conhecidas pelas Ilhas Virgens Dinamarquesas. As ilhas eram o destino principal dos escravos que eram comprados no Golfo da Guiné, para trabalharem nas plantações de açúcar. A abolição da escravatura (1848) tornou-as economicamente desinteressantes. Também foram vendidas em 1917 mas, sinal dos tempos, os compradores dessa vez foram os Estados Unidos (*).
Quanto às possessões europeias, em 1874 a Dinamarca concedeu a autonomia à Islândia e em 1918, através da Assinatura de um Acto de União, a Islândia ascendeu à soberania plena em que compartilhava o monarca com a Dinamarca. Ao tornar-se uma República em 1944, a Islândia rompeu os últimos vínculos que a ligavam à Dinamarca. Depois da Guerra, as autonomias concedidas às Ilhas Faroe e à Gronelândia parecem encaminhá-las num percurso semelhante. (*) Actualmente são conhecidas pelas Ilhas Virgens americanas para as distinguir das vizinhas Ilhas Virgens britânicas.

16 abril 2008

«SIDESHOWS» DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (4) – A INVASÃO DA ISLÂNDIA DE MAIO DE 1940

Nos primórdios da Segunda Guerra Mundial, se os alemães não se tivessem antecipado por algumas horas, teriam sido muito provavelmente os britânicos a invadir a Noruega antes deles... Os alemães chegaram a 9 de Abril, mas no dia seguinte a Royal Navy* (que também já andava por aquelas paragens…) travava a primeira batalha naval de Narvik contra a Kriegsmarine*. Embora embrulhados numa proclamação grandiloquente de Winston Churchill (Humanity, rather than legality, must be our guide**), os britânicos foram tão implacáveis quanto os alemães a cilindrar soberanias e neutralidades alheias.
Quase um mês depois daquela invasão quase simultânea da Noruega, no dia 10 de Maio de 1940, precisamente o mesmo dia em que a Wehrmacht* desencadeou a sua ofensiva na Frente Ocidental, invadindo a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo, um pequeno batalhão de fuzileiros britânicos, com cerca de 750 efectivos, invadiu e conquistou a Islândia. As razões estratégicas para a ocupação percebem-se no mapa acima e esclareça-se que a Islândia era um país relativamente fácil de conquistar: não possuía Forças Armadas. O governo islandês emitiu um protesto contra a violação flagrante da neutralidade islandesa.
Na expectativa de um contra-ataque germânico o contingente britânico na ilha cresceu dos 750 elementos originais até atingir os 25.000 homens (acima), o que se tornou uma bênção para a economia islandesa, por expandir de uma forma colossal o seu limitado mercado consumidor. Sendo um país extenso (a ilha tem uma área de 103.000 km², é ligeiramente maior que Portugal), ele é também escassamente povoado. Naquela época, a sua população rondaria apenas cerca de 125.000 habitantes o que, considerando o corpo expedicionário britânico (e canadiano), elevava a proporção entre habitantes e ocupantes para uns abafantes 5 para 1…
Mas a partir de 7 de Julho de 1941, e dados os inúmeros compromissos das forças britânicas nos vários Teatros de Operações, mas agora através de um Acordo formal prévio entre a Islândia e os Estados Unidos (que na época ainda eram neutrais), os britânicos foram sendo substituídos progressivamente pelos norte-americanos, o que constituiu um impulso ainda maior para a economia islandesa. Eram mais (chegaram a ultrapassar os 40.000) e, sobretudo, estavam mais bem abonados***… No meio de tanta prosperidade, em Maio de 1944**** e através de um referendo, a Islândia tornou-se totalmente independente da Dinamarca.

* A Royal Navy e a Kriegsmarine eram as Armadas do Reino Unido e da Alemanha, respectivamente. A Wehtmacht, as Forças Armadas alemãs.
** A Humanidade, em vez da legalidade, é que nos deve orientar.
*** O pré de um soldado norte-americano, quando colocado no estrangeiro, era substancialmente mais elevado que o dos soldados dos outros exércitos aliados.
**** Portanto, antes do desembarque dos Aliados na Normandia (6 de Junho).

11 fevereiro 2006

A BANDEIRA

Já é habitual ver a bandeira americana a ser queimada. É de uma banalidade tal, que se pode mesmo dizer que se comem bandeiras americanas ardidas ao pequeno-almoço. Ás vezes, como suplemento vitamínico, serve-se a Union Jack britânica. São países com ambições globais e com caparro para aguentarem a cena.

Agora a da Dinamarca? Além de ser chocante até se podem notar traços de despotismo da parte dos manifestantes. Que capacidade de intimidação poderão ter os dinamarqueses? Quem se segue? Poderá ser o Liechtenstein ou San Marino?

Aquela bandeira vermelha e branca está a ter para nós, habitantes de países europeus de média dimensão sem grandes pretensões estratégicas mundiais, uma capacidade inédita de nos fazer identificar com os valores simbólicos que estão a ser pisados por aquela turba que passa na televisão.

10 fevereiro 2006

ALLAH-O-AKBAR!

Na guerra de informação (ou de propaganda) que anda a ser travada por causa dos cartoons do jornal dinamarquês e das reacções nos países muçulmanos aos cartoons do jornal dinamarquês, tem-se assistido a um lançar de pedras alternado dos dois lados, com o intuito de chamuscar a reputação da parte adversa.

Anteontem, descobriu-se que a publicação das famosas caricaturas ocorrera há quatro meses e meio, em Setembro, o que tornava questionável a oportunidade da manifestação de tanta indignação depois de tanto tempo decorrido após os acontecimentos.

Ontem, descobriu-se que o jornal dinamarquês já recusara anteriormente publicar caricaturas de conteúdo anticristão, o que provava que a sua direcção estava perfeitamente ciente da contestação que poderia causar a publicação de cartoons de carácter anti-religioso.

Hoje, descobre-se que algumas das controversas caricaturas haviam sido publicadas num jornal egípcio, tendo passado desapercebidas. Mas apareceu uma outra novidade, substancialmente muito mais importante do que a pequena troca de galhardetes que, no fundo, as outras notícias constituíram.

Assim, as manifestações de repulsa nos países islâmicos teriam vindo a ser organizadas desde Dezembro, depois da realização de uma Conferência Islâmica realizada na Arábia Saudita, que até teria contado com a presença do presidente iraniano, e onde o assunto teria sido abordado a pedido de clérigos oriundos da Europa, nomeadamente da Dinamarca.

A primeira diferença substantiva que esta notícia trás é que o patrocínio das manifestações, até agora, havia sido atribuído às correntes radicais do islamismo. Ora é muito razoável admitir que uma Conferência Islâmica não seja nenhum fórum de radicais, antes uma Assembleia formada por ponderados membros do clero – à semelhança do que será uma Conferência Episcopal da Igreja Católica. Conservadores, sim, reaccionários, provavelmente, mas não radicais.

A outra diferença substantiva vem do comportamento dos clérigos islâmicos europeus que, descontentes com a condução do problema segundo as normas vigentes na Europa, vêm colocá-lo num outro fórum, que esteja mais de acordo com as suas convicções. Até pode ser defensável que o faça mas não será surpreendente que esse comportamento possa facilmente vir a ser considerado como o equivalente a uma espécie de uma quinta coluna islâmica na Europa.

Passado todos estes dias de manifestações, parece também tornar-se evidente que o controlo do povo das ruas, os soldados que se manifestam e atacam as embaixadas e os interesses ocidentais, é fraquíssimo. Os acontecimentos tendem a descontrolar-se facilmente, como se viu, aliás, recentemente, com os confrontos recentes entre sunitas e xiitas, a propósito das celebrações religiosas destes últimos.

Mas, para além das manobras de geopolítica pura e dura, onde há países islâmicos que talvez necessitem de passar ao contra-ataque para sacudir a pressão que possa estar a ser exercida sobre eles por parte de países ocidentais – a Síria ou o Irão são candidatos evidentes -, retenha-se que, a fazer fé nestas últimas notícias, não são radicais fundamentalistas os que estão por detrás deste movimento de contestação aos cartoons dinamarqueses, assim como não são os radicais fundamentalistas da defesa dos direitos humanos* aqueles que defendem o direito de os publicar.

E é isso que confere muito mais seriedade e preocupação à disputa em curso.

* Sabia que há uma Declaração Islâmica Universal dos Direitos do Homem?