23 de Agosto de 1990. Depois de ter invadido o Koweit no princípio do mês, e de ter sido surpreendido pela amplitude da reacção hostil dos Estados Unidos, Saddam Hussein protagoniza na televisão iraquiana uma reportagem de 30 minutos (que ele sabia destina a ser retransmitida para todo o mundo) onde aparece a visitar uma família de expatriados britânicos, conversando com alguns deles. Três semanas depois do inicio do conflito, centenas de ocidentais permaneciam impedidos de viajar para fora do Iraque e do Koweit. A mensagem de Saddam mediava entre o aparentemente simpático e o subtilmente ameaçador, mas o resultado entre as opiniões públicas ocidentais, que ele procurava assim cortejar e condicionar, foi um colossal desastre mediático. Tanto, que o momento da reportagem em que Saddam Husseim (que até largara o uniforme para a ocasião!) afaga uma criança visivelmente tensa, rapidamente foi posto a circular, mas pela propaganda adversária! O episódio mostrou a completa falta de consciência, por parte da liderança iraquiana, quanto à imagem pública que ela própria possuía fora das suas fronteiras.
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23 agosto 2018
02 agosto 2017
HÁ 27 ANOS O IRAQUE INVADIA O KOWEIT
2 de Agosto de 1990. Ao fim de dez anos de espera, a cadeia internacional de notícias CNN tinha finalmente aquele acontecimento para a qual fora concebida (e não irá desmerecer a ocasião): uma guerra com muitos meios militares (blindados, aviação, etc.) para exibir. Mas atenção: mais do que uma guerra próximo das frentes de combate (tal como chegara a acontecer 22 anos antes no Vietname), tornava-se uma guerra que, tanto quanto possível, era para ser transmitida com imagens em directo. Como se percebe pelas imagens acima, privilegiava-se o que sentiriam os koweitis comuns ao verem-se invadidos pelos soldados iraquianos, em detrimento da análise do que pudessem ser as intenções e/ou a dissecação do conteúdo do previsível ultimato que Saddam Hussein teria apresentado ao Emir do Koweit. Com este estilo, a CNN destacava-se na batalha pelas audiências, as outra rivais copiavam-no, e o modelo acabava por transformar decisivamente tanto jornalistas quanto militares para o futuro: a) os primeiros passaram a noticiar não em função do que é importante que esteja a acontecer, mas em função das imagens que se arranjam para mostrar; b) os segundos organizam os seus planos de operações em função já não tanto (nem exclusivamente) do inimigo quanto da imagem que pretendem transmitir para a opinião pública doméstica.
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Informação,
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19 agosto 2008
OS LOUCOS E OS EXCÊNTRICOS, LES UNS ET LES AUTRES
Quando Muammar al-Gaddafi promoveu o Golpe de Estado que o levou ao poder na Líbia, em 1 de Setembro de 1969, o seu novo regime foi inicialmente bastante bem acolhido pelos Estados Unidos. Lembro-me de ler um artigo muito elogioso a seu respeito nas Selecções do Reader´s Digest da época. No artigo, os elogios incidiam sobre a sua sobriedade (ao contrário dos militares golpistas africanos tradicionais, Gaddafi não se auto-promovera imediatamente ao posto de general…) e sobre a sua preocupação com o povo (qual Harun al-Raschid*, também Gaddafi tinha fama de percorrer incógnito as ruas assistindo aos oprimidos, castigando os poderosos e fazendo justiça sumária**).
Se a sobriedade se ia inspirar directamente ao exemplo de Gamal Abdel Nasser, que permaneceu coronel para o resto da sua vida na condução dos destinos do vizinho Egipto, a verdade é que os comportamentos bizarros eram bastante frequentes entre os governantes árabes da época. Para usar um exemplo engraçado, o do Koweit, foi preciso esperar pela chegada ao trono do Emir Sabah Al-Salim Al-Sabah em 1965 para que houvesse uma distinção entre o que era tesouro do monarca e o que era o Tesouro do Koweit. E adoptando uma medida para se tornar popular, o seu primeiro-ministro diminuiu em 1966 o seu salário anual de 28 para apenas 22,4 milhões de dólares…
Mas esses gestos não impediam outras proezas, como a viagem (já na década de 70) do Emir (viria a morrer em 1977), das suas mulheres e concubinas e restante comitiva num enorme Boeing 747 para irem às compras a Paris… No regresso acabaram por vir dois Boeings 747: um trazendo a comitiva, o outro, na versão cargueiro, trazendo todas as compras… Como disse acima, os governantes dos países árabes eram muito propensos a excentricidades… O que tornou Gaddafi diferente da maioria foi a renegociação que ele e o novo regime líbio impuseram às diversas companhias petrolíferas que operavam então na Líbia que culminou com a sua nacionalização em 1 de Setembro de 1973.
Trata-se de um episódio normalmente desconhecido, mas a verdade é que antecipadamente aos outros países da OPEP, a Líbia gozava de condições contratuais que os restantes países membros só vieram a adquirir depois da Crise de Outubro de 1973. Ao contrário daquilo com que estavam habituados a lidar, as grandes petrolíferas não conseguiram accionar a arma do suborno (Gaddafi nunca se mostrou venal), nem conseguiram explorar fragilidades dentro do regime que pudessem levar ao seu derrube porque Gaddafi o dominava com mão de ferro. Parece-me evidente a razão porque, em vez de ser mais um árabe excêntrico, a imagem internacional de Gaddafi passou a ser a de um louco…
É que a loucura e os pormenores pitorescos do regime líbio de Gaddafi (as tendas, as amazonas na segurança...) parecem não ter nada de semelhante com o que acontecia com o Uganda de Idi Amin, por exemplo. Por analogia, e aproveitando a fotografia acima (Gaddafi cumprimentando Sarkozy), confesso que me intriga a aura de má publicidade constante que parece rodear o presidente francês. Percebo, por um lado, que em Bruxelas não se aprecie Sarkozy por ele se mostrar muito menos complacente com as posições alemãs*** do que acontecia com o antecessor Chirac. Por outro, tenho certa dificuldade em perceber as causas de tanto noticiário negativo a seu respeito, quando em Itália existe uma figura chamada Silvio Berlusconi…
* Califa abássida do Século VIII, protagonista do livro de Contos das Mil e Uma Noites.** Uma das histórias do artigo era a de um médico ocidental que se recusava a ver um doente a meio da noite e foi expulso da Líbia no dia seguinte.
*** Normalmente, no noticiário originário ou inspirado por Bruxelas prefere-se a expressão posições europeias...
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