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29 janeiro 2021

A «BATALHA» DE KHAFJI

29 de Janeiro de 1991. Havia quase duas semanas que a ofensiva de bombardeamentos desencadeada a partir de 17 de Janeiro pela coligação liderada pelos Estados Unidos prosseguia, mas a verdade é que a Guerra do Golfo, por muito mediática que estivesse a ser, prosseguia só no ar. No mar e sobretudo em terra, não se anunciavam quaisquer movimentações da parte das tropas aliadas para desalojar o exército iraquiano que invadira e se instalara em território do Koweit, que era afinal, o propósito último daquela guerra. Eis senão quando, nesta guerra que se travava também para proveito das audiências, os iraquianos saem da defensiva e desencadeiam um ataque sobre a cidade fronteiriça saudita de Khafji. Foi uma manobra audaciosa e com que os adversários não contavam. Num dia, a cidade foi conquistada pelos iraquianos, mas a conquista era inconsequente do ponto de vista militar: nos dois dias seguintes, a cidade foi retomada, tendo a coligação tido o cuidado de atribuir os louros da reconquista a unidades militares sauditas e qataris. Objectivamente foi um pequeno recontro de três dias, com o nome pomposo de batalha, mas com as baixas pessoais a rondar as poucas centenas (se tanto) em qualquer dos lados. E no entanto, tornou-se um bom pretexto para, nas semanas que se seguiram, haver uma romaria de equipas de televisão na cidade para filmarem os estragos dos combates. A RTP também teve a sua oportunidade (abaixo), naquela ocasião abrilhantada pela apresentação - o drama, a tragédia, o horror! - de Artur Albarran.

02 agosto 2020

A INVASÃO DO KOWEIT

2 de Agosto de 1990. O Iraque invade o Koweit. Do ponto de vista militar, a disparidade das forças em presença não oferece dúvidas quanto ao desfecho: em 48 horas os iraquianos conquistarão o emirado. Do ponto de vista das lições históricas da diplomacia, este é um daqueles exemplos de que nem sempre vale a pena «amansar uma fera»: o Koweit fora um grande aliado do Iraque na guerra que este travara com o Irão entre 1980 e 1988 e a paga que agora recebia era a invasão. Do ponto de vista da estratégia, e recordando aquele tempo em que os Estados Unidos tinham a pretensão e o poder de supervisionar o que era tolerável e o que o não era nos status quo internacional, o que o Iraque fizera não era tolerável. Se fosse hoje, quando é conhecida a propensão do inquilino da Casa Branca para se axandrar diante de homólogos de atitudes másculas e robustas (do género de Putin ou de Erdogan), não se poder descartar que o primeiro problema da América seria convencer Donald Trump a assumir uma reacção consequente, não fosse ele ter ficado impressionado com Saddam Hussein por causa do que ele tinha acabado de fazer.

23 agosto 2018

UM VERDADEIRO DESASTRE DE RELAÇÕES PÚBLICAS

23 de Agosto de 1990. Depois de ter invadido o Koweit no princípio do mês, e de ter sido surpreendido pela amplitude da reacção hostil dos Estados Unidos, Saddam Hussein protagoniza na televisão iraquiana uma reportagem de 30 minutos (que ele sabia destina a ser retransmitida para todo o mundo) onde aparece a visitar uma família de expatriados britânicos, conversando com alguns deles. Três semanas depois do inicio do conflito, centenas de ocidentais permaneciam impedidos de viajar para fora do Iraque e do Koweit. A mensagem de Saddam mediava entre o aparentemente simpático e o subtilmente ameaçador, mas o resultado entre as opiniões públicas ocidentais, que ele procurava assim cortejar e condicionar, foi um colossal desastre mediático. Tanto, que o momento da reportagem em que Saddam Husseim (que até largara o uniforme para a ocasião!) afaga uma criança visivelmente tensa, rapidamente foi posto a circular, mas pela propaganda adversária! O episódio mostrou a completa falta de consciência, por parte da liderança iraquiana, quanto à imagem pública que ela própria possuía fora das suas fronteiras.

02 agosto 2017

HÁ 27 ANOS O IRAQUE INVADIA O KOWEIT


2 de Agosto de 1990. Ao fim de dez anos de espera, a cadeia internacional de notícias CNN tinha finalmente aquele acontecimento para a qual fora concebida (e não irá desmerecer a ocasião): uma guerra com muitos meios militares (blindados, aviação, etc.) para exibir. Mas atenção: mais do que uma guerra próximo das frentes de combate (tal como chegara a acontecer 22 anos antes no Vietname), tornava-se uma guerra que, tanto quanto possível, era para ser transmitida com imagens em directo. Como se percebe pelas imagens acima, privilegiava-se o que sentiriam os koweitis comuns ao verem-se invadidos pelos soldados iraquianos, em detrimento da análise do que pudessem ser as intenções e/ou a dissecação do conteúdo do previsível ultimato que Saddam Hussein teria apresentado ao Emir do Koweit. Com este estilo, a CNN destacava-se na batalha pelas audiências, as outra rivais copiavam-no, e o modelo acabava por transformar decisivamente tanto jornalistas quanto militares para o futuro: a) os primeiros passaram a noticiar não em função do que é importante que esteja a acontecer, mas em função das imagens que se arranjam para mostrar; b) os segundos organizam os seus planos de operações em função já não tanto (nem exclusivamente) do inimigo quanto da imagem que pretendem transmitir para a opinião pública doméstica.

19 agosto 2008

OS LOUCOS E OS EXCÊNTRICOS, LES UNS ET LES AUTRES

Quando Muammar al-Gaddafi promoveu o Golpe de Estado que o levou ao poder na Líbia, em 1 de Setembro de 1969, o seu novo regime foi inicialmente bastante bem acolhido pelos Estados Unidos. Lembro-me de ler um artigo muito elogioso a seu respeito nas Selecções do Reader´s Digest da época. No artigo, os elogios incidiam sobre a sua sobriedade (ao contrário dos militares golpistas africanos tradicionais, Gaddafi não se auto-promovera imediatamente ao posto de general…) e sobre a sua preocupação com o povo (qual Harun al-Raschid*, também Gaddafi tinha fama de percorrer incógnito as ruas assistindo aos oprimidos, castigando os poderosos e fazendo justiça sumária**).
Se a sobriedade se ia inspirar directamente ao exemplo de Gamal Abdel Nasser, que permaneceu coronel para o resto da sua vida na condução dos destinos do vizinho Egipto, a verdade é que os comportamentos bizarros eram bastante frequentes entre os governantes árabes da época. Para usar um exemplo engraçado, o do Koweit, foi preciso esperar pela chegada ao trono do Emir Sabah Al-Salim Al-Sabah em 1965 para que houvesse uma distinção entre o que era tesouro do monarca e o que era o Tesouro do Koweit. E adoptando uma medida para se tornar popular, o seu primeiro-ministro diminuiu em 1966 o seu salário anual de 28 para apenas 22,4 milhões de dólares…
Mas esses gestos não impediam outras proezas, como a viagem (já na década de 70) do Emir (viria a morrer em 1977), das suas mulheres e concubinas e restante comitiva num enorme Boeing 747 para irem às compras a Paris… No regresso acabaram por vir dois Boeings 747: um trazendo a comitiva, o outro, na versão cargueiro, trazendo todas as compras… Como disse acima, os governantes dos países árabes eram muito propensos a excentricidades… O que tornou Gaddafi diferente da maioria foi a renegociação que ele e o novo regime líbio impuseram às diversas companhias petrolíferas que operavam então na Líbia que culminou com a sua nacionalização em 1 de Setembro de 1973.
Trata-se de um episódio normalmente desconhecido, mas a verdade é que antecipadamente aos outros países da OPEP, a Líbia gozava de condições contratuais que os restantes países membros só vieram a adquirir depois da Crise de Outubro de 1973. Ao contrário daquilo com que estavam habituados a lidar, as grandes petrolíferas não conseguiram accionar a arma do suborno (Gaddafi nunca se mostrou venal), nem conseguiram explorar fragilidades dentro do regime que pudessem levar ao seu derrube porque Gaddafi o dominava com mão de ferro. Parece-me evidente a razão porque, em vez de ser mais um árabe excêntrico, a imagem internacional de Gaddafi passou a ser a de um louco…
É que a loucura e os pormenores pitorescos do regime líbio de Gaddafi (as tendas, as amazonas na segurança...) parecem não ter nada de semelhante com o que acontecia com o Uganda de Idi Amin, por exemplo. Por analogia, e aproveitando a fotografia acima (Gaddafi cumprimentando Sarkozy), confesso que me intriga a aura de má publicidade constante que parece rodear o presidente francês. Percebo, por um lado, que em Bruxelas não se aprecie Sarkozy por ele se mostrar muito menos complacente com as posições alemãs*** do que acontecia com o antecessor Chirac. Por outro, tenho certa dificuldade em perceber as causas de tanto noticiário negativo a seu respeito, quando em Itália existe uma figura chamada Silvio Berlusconi…
* Califa abássida do Século VIII, protagonista do livro de Contos das Mil e Uma Noites.
** Uma das histórias do artigo era a de um médico ocidental que se recusava a ver um doente a meio da noite e foi expulso da Líbia no dia seguinte.
*** Normalmente, no noticiário originário ou inspirado por Bruxelas prefere-se a expressão posições europeias...