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27 julho 2023

O COMITÉ NACIONAL PARA A SALVAGUARDA DA PÁTRIA (CNSP)

Houve um golpe de Estado no Níger. Ao contrário dos da América Latina, protagonizados normalmente por generais e almirantes, singulares, em pares ou trios, os golpes de Estado em África costumam ser protagonizados por militares de patentes mais baixas, normalmente oficiais, que formam grupos mais abrangentes, como se pode verificar pela fotografia acima. Esses grupos alargados de oficiais adoptam uns nomes pomposos quando se apresentam na sequência do golpe: este agora é o Comité Nacional para a Salvaguarda da Pátria (CNSP), na presunção óbvia que o seu país - o Níger, neste caso - estava à beira do colapso por culpa do regime que tinham acabado de derrubar. O Níger é muito propenso a esses colapsos: desde que se tornou independente, em 3 de Agosto de 1960, o país já registou (com este) 6 golpes e tentativas de golpe de Estado e 7 constituições! Diz-nos a experiência de dezenas de golpes de Estado deste mesmo género, que o porta-voz - no caso acima, o coronel major Amadou Abdramane que até está vestido de maneira diferente dos outros - é o espertalhão do grupo, e os observadores mais bem informados tendem a classificá-lo(s) invariavelmente como o novo homem-forte do país. Porém, a coreografia que acabei de descrever já leva uns sessenta de idade e está bastante desacreditada pelo uso e abuso. Noutros tempos, tal qual a situação está a ser apresentada (anúncio formal, prisão do anterior presidente), era considerado assunto encerrado. Mas as notícias que chegam (abaixo), mostram-nos que isto de ser o que detém as armas não é garantia por si de sucesso de um golpe de Estado.

17 agosto 2020

UM AGOSTO DE SONHO PARA QUEM GOSTAVA DE CONHECER E RECONHECER BANDEIRAS

17 de Agosto de 1960. A França concede a independência ao Gabão. A ocasião é apenas mais uma de um frenesim gaulês que começara logo no princípio daquele mês, em dias alternados, e que começara pela independência do Daomé em 1 de Agosto, a que se seguira a do Níger no dia 3, a do Alto Volta no dia 5, a da Costa do Marfim no dia 7, a do Chade no dia 11, a da República Centro Africana no dia 13, a do Congo no dia 15 e esta, do Gabão, há precisamente sessenta anos. Para rematar, no dia 20 de Agosto, o Senegal, que se tornara independente da França numa federação conjuntamente com o Mali havia precisamente dois meses(!), resolve romper aquela estrutura e assumir-se como uma nação independente (voltaremos a este último episódio na respectiva data). Entretanto este querido mês de Agosto de 1960, e apenas à conta da França, produzirá nove novas bandeiras(!), que aparecem dispostas acima no sentido tradicional da leitura pela data da acessão dos respectivos países à independência. Concorde-se que o conjunto é assaz colorido, não se tratassem elas de novas nações africanas... Nestes 60 anos, algumas delas mudaram de nome, o Daomé para Benim, o Alto Volta para Burkina Faso. Ambos esses países mudaram de bandeira, conjuntamente com o Congo, mas tanto o Benim quanto o Congo retornaram às originais de 1960 e só o Burkina Faso adopta actualmente uma diferente.

17 janeiro 2013

O SAHEL, AS FRONTEIRAS POLÍTICAS DE ÁFRICA E O MALI


Dividindo o continente do Atlântico ao Mar Vermelho ao longo de 5.400 km e com uma largura variável de algumas centenas de quilómetros, o Sahel constitui uma região de transição entre o deserto do Sahara e a região das savanas a Sul, que rasga completamente África. A Sul vivem tradicionalmente as populações sedentárias de pele normalmente mais escura; a Norte, as populações são tradicionalmente nómadas e têm a pele mais clara. A configuração das fronteiras políticas que foi desenhada pelas potências europeias na Conferência de Berlim (1885) reuniu-as em entidades políticas que posteriormente vieram a constituir países africanos independentes: de Oeste para Leste, a Mauritânia, o Mali, o Níger e o Chade, todos saídos da esfera da francofonia, mais o Sudão, de ascendência britânica (abaixo). Muito antes deles (desde o Século XV), o Islão tem convertido a população e a maioria, senão mesmo a esmagadora maioria dela em qualquer dos países mencionados é actualmente muçulmana. 
O que pode conferir um carácter heterogéneo à população local é o contraste histórico entre os povos sedentários mais escuros do Sul e os nómadas mais claros do Norte – sobretudo a sobranceria que, em geral, estes últimos manifestam em relação aos primeiros. Os sedentários são maioritários na Mauritânia, no Mali e no Níger. No Chade a composição é equilibrada e no Sudão os povos do Norte estão em franca maioria. Terá sido por isso que tanto no Chade como no Sudão desde o Século XIX os meridionais abraçaram o cristianismo como religião identitária. A verdade é que nos últimos 50 anos de independência qualquer daqueles países – com a notável excepção do Níger – passou por graves momentos de confrontação interna: já duas guerras civis no Chade (1965-1979/2005-2010), chegam a existir umas Forças de Libertação Africanas da Mauritânia, do Mali falar-se-á mais adiante e no Sudão ainda não se percebeu se a tensão terá terminado com a independência do Sudão do Sul em Julho de 2011.
 O aparecimento do Sudão do Sul criou um precedente que fora cuidadosamente interditado pelos próprios países africanos logo na fundação da OUA: a criação/revisão de fronteiras para além das herdadas do colonialismo (da Conferência de Berlim). Antevia-se que seria uma Caixa de Pandora de conflitos. E é: só foi preciso esperar nove meses após a independência do Sudão do Sul para que os rebeldes malianos proclamassem a do Azawad em Abril de 2012. E, se compararmos o traçado das fronteiras do putativo Azawad independente (acima) com a imagem compósita por satélite do Mali (abaixo), apercebemo-nos de como elas seguem um traçado tão natural quanto a que foi escolhida no Sudão. Este será uma descrição sucinta do enquadramento geral da situação política na região do Sahel que ajudará à compreensão do problema maliano, no qual a França acabou de se intrometer, após ter esperado debalde nove meses por uma intervenção dos países da CEDEAO, o organismo regional de integração económica e política.
A coerência política parece ter sido uma das primeiras vítimas da intervenção francesa. No Mali a França opõe-se a uma intenção de secessão que parece simétrica à que se verificou no Sudão do Sul, à qual a França não se opôs. Por outro lado, aparentemente para colher simpatias junto dos seus aliados, a França procura aproveitar-se do extremismo religioso dos rebeldes para os associar mediaticamente à Al-Qaeda. Assim como o cristianismo no Sul do Sudão, poder-se-ia argumentar que este extremismo religioso está a ser usado como elemento de unidade das populações separatistas do Norte, já que aproximadamente 90% da população maliana é muçulmana. Noutra perspectiva, poder-se-ia argumentar que à França não incomodou apoiar outros extremistas religiosos – esses porventura já não seriam jihadistas... – quando, por exemplo, do derrube do regime líbio. Contradições à parte, a França aparece aqui apostada na preservação de um status quo que, teoricamente, deveria interessar mais aos países da própria região…