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26 julho 2019

O FIM OFICIAL DA GUERRA DE KARGIL

26 de Julho de 1999. Término oficial da Guerra de Kargil. Opôs a Índia e o Paquistão durante quase três meses. O objectivo da operação inicialmente desencadeada pelos paquistaneses era a ocupação de várias posições tacticamente vantajosas em elevações situadas do lado indiano da Caxemira. A infiltração foi inicialmente atribuída pelos paquistaneses a guerrilheiros seus apaniguados, mas os factos subjacentes vieram a desmentir essa ficção. Tratava-se realmente de um desses raros conflitos militares tradicionais entre dois estados, com a agravante de se tratar de dois países com capacidade nuclear. Mas a iniciativa fora do Paquistão, faltava-lhe o lado Moral da guerra, ainda para mais quando a sua história inicial dos guerrilheiros se desmoronou, através de uma habilidosa intercepção pelos indianos de uma conversa telefónica entre o comandante-em-chefe do exército paquistanês e o seu chefe de Estado Maior, que provava a dimensão da mentira. Com a publicitação da conversa, o Paquistão ficou politicamente isolado: nenhum dos seus dois grandes aliados tradicionais, os Estados Unidos e a China, se dispuseram a apoiá-lo. No terreno, o contra-ataque indiano para recuperar as posições entretanto ocupadas pelos paquistaneses  foi mais demorado e sobretudo mais custoso em termos de vidas humanas: apesar da tradicional discrepância entre os números admitidos e atribuídos pelas duas partes, o número de mortos cifra-se nas largas centenas dos dois lados (500-700), o que é muito significativo se se tomar em consideração a escassa duração do conflito e o facto de se ter tratado de uma guerra de montanha, que envolve comparativamente poucos efectivos. Militarmente a Índia limitou-se a restabelecer o "statu quo" na linha de demarcação que a separa do Paquistão. Mas politicamente teve uma vitória retumbante ao desacreditar internacionalmente o seu inimigo de sempre. Nomeadamente, a política externa norte-americana passou a ser muito mais equilibrada do que fora até aí.
Dois anos depois do fim da Guerra de Kargil, este livro acima - que é nitidamente pró-indiano - para além de fazer uma recapitulação do conflito interminável entre a Índia e o Paquistão, não escondia as esperanças do resultado da inflexão gerada por aquele último episódio. E mesmo depois de 2001, com a invasão e presença norte-americana do vizinho Afeganistão, consolidou-se uma impressão entre quem se preocupa com estes assuntos nos Estados Unidos, que o Paquistão possui uma agenda muito própria quanto a assuntos que nos próprios Estados Unidos eles qualificam de enorme prioridade. O clímax dessa impressão, que não é propriamente de uma grande melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Índia, mas antes de um azedamento progressivo e assumido nas relações com o Paquistão, o clímax, escrevia, pode ser facilmente identificado pelo dia em que teve lugar a execução de Osama bin Laden (2 de Maio de 2011), que teve lugar no Paquistão, mas ao arrepio do conhecimento das autoridades daquele país. Isto é um resumo compacto do que havia a dizer a respeito da questão de Caxemira até à Segunda-Feira passada, quando Donald Trump recebeu o primeiro-ministro paquistanês Imran Khan e, como contrapartida do auxílio paquistanês para que os Estados Unidos se desengajem do Afeganistão, se propôs mediar o conflito da Caxemira entre a Índia e o Paquistão. A política externa da administração Trump, especialmente quando protagonizada pelo próprio, tornou-se de uma imprevisibilidade previsível: adopta uma atitude absolutamente contrária à dos seus antecessores. E é tão ignara quanto bem-intencionada, aldrabona e maledicente a respeito do trabalho dos que a precederam. Normalmente dá bronca porque não faz(em) a mínima ideia de onde é que se vai meter: neste caso, para agradar aos paquistaneses, irritou os indianos com as suas mentirolas, o que é um péssimo começo para qualquer aspirante a mediador.

03 maio 2019

A TERCEIRA GUERRA ANGLO-AFEGÃ

3 de Maio de 1919. Começa a Terceira Guerra Anglo-Afegã. Supreendentemente, foi desencadeada pelos afegãos que, num golpe de audácia e desafiando aquela que era uma das três grandes potências vencedoras do conflito mundial que acabara de terminar, há precisamente cem anos franquearam a fronteira comum na extremidade oeste do passo de Khiber, capturando uma pequena povoação. Esta retirava a sua importância do facto de ser a fonte de água de uma guarnição anglo-indiana de duas companhias aquartelada num forte situado a alguns quilómetros de distância. Do lado britânico não se conheciam bem, nem se não sabia, quais seriam as intenções de Amanullah, o emir afegão, que acabara de subir ao trono há pouco mais de dois meses, mas o domínio britânico sobre a Índia registara recentemente um incidente de repercussões políticas muito desagradáveis em Amritsar. Em Peshawar e Nova Deli (as capitais provincial e imperial da soberania britânica sobre a Índia, respectivamente), resolveu-se assumir a ameaça como muito séria e a Índia Britânica declarou guerra ao Afeganistão em 6 de Maio de 1919.
O conflito mais aceso vai durar cerca de um mês, e prolongar-se-á formalmente por mais dois meses, até à assinatura do Tratado de Rawalpindi em 8 de Agosto de 1919. A novidade táctica naquela região e naquele género de conflito foi a aparição da aviação que permitiu aos anglo-indianos alcançar uma outra superioridade sobre o inimigo. Desse ponto de vista não se colocam dúvidas sobre o desfecho e a identidade do vencedor desta Guerra. Mas a questão estratégica era outra: por esta vez, uma Grã Bretanha exaurida pela Grande Guerra, perdera a iniciativa, e não se mostrava minimamente capaz, nem interessada, de aproveitar esta provocação afegã para avançar para a controle directo desse país, beneficiando-se da momentânea fraqueza russa, que estava a braços com uma Guerra Civil, e dessa forma marcando pontos adicionais naquilo que fora uma das grandes rivalidades estratégicas do Século XIX, denominada o Grande Jogo. E o Afeganistão saía pelo menos vencedor de um outro pequeno jogo em que se mostrava demasiado custoso para ser ocupado. É o que se pode deduzir deste aviso afixado sobre a fronteira...

13 abril 2019

O CENTENÁRIO DO MASSACRE DE AMRITSAR


13 de Abril de 1919. Depois do fim da Grande Guerra, as elites indianas esperavam dos britânicos a concessão de um estatuto de autogoverno que os equiparasse, de alguma forma, aquele que era usufruído pelos Domínios do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia ou da África do Sul. O investimento que os indianos haviam feito na causa imperial durante a guerra - 1.440.000 soldados mobilizados, cerca de 65.000 mortos - esperava por esse retorno. Só que as autoridades britânicas não queriam nem ouvir falar em tais reivindicações. Refira-se que cerca de 450.000 desses indianos haviam sido recrutados no Punjabe, uma região fértil do Norte da Índia (Punjabe quer dizer cinco rios), onde coexistiam três das grandes religiões da Índia: muçulmanos, hindus e também sikhs. Em Amritsar, capital religiosa desta última confissão, a 13 de Abril de 1919 (um Domingo) dava-se a coincidência de se concelebrar o festival de Ram Naumi por parte dos hindus com o dia de Baisakhi, que era o primeiro dia do Ano Novo sikh. A cidade estava apinhada, abrigando cerca do triplo do que seria a sua população normal de 160.000 habitantes. O ambiente era tenso e a atenção policial era intensa mas o exercício de prepotência mortífera a que as autoridades britânicas se dedicaram teve todo o absurdo que esta reconstituição acima demonstra (foi retirada do filme Gandhi). Mais do que a brutalidade e as vítimas (379 mortos e 1.100 feridos, segundo os números oficiais), as consequências políticas para a presença britânica na Índia foram arrasadoras, ao fazerem desaparecer os moderados entre o movimento nacionalista indiano, aqueles que ainda estariam dispostos a negociar com as autoridades coloniais uma transição pacífica e progressiva da Índia até a um estatuto equivalente ao dos outros Domínios. Os 28 anos que decorrerão até à independência serão um contínuo braço de ferro com os nacionalistas a forçar o calendário dos acontecimentos.

19 dezembro 2018

A PRISÃO DE INDIRA GANDHI E A SOBREVIVÊNCIA DA DEMOCRACIA NA ÍNDIA

19 de Dezembro de 1978. Na Índia, a antiga primeira-ministra (1966-1977) Indira Gandhi é presa. Em consequência da prisão, pela lei indiana e ao contrário do que costuma acontecer noutros países, onde os eleitos costumam gozar de algumas imunidades, Indira Gandhi perdeu automaticamente o estatuto de deputada, estatuto que ela adquirira apenas um mês antes, quando disputara uma eleição intercalar por um círculo eleitoral que lhe fora arranjado para poder regressar ao parlamento (Lok Sabha). Há quarenta anos viviam-se tempos difíceis, não apenas para os membros da dinastia Gandhi (o filho de Indira, Sanjay, fora preso ao mesmo tempo que a mãe), mas sobretudo para a Democracia na Índia. E quem começara por a pôr em perigo fora precisamente a própria Indira Gandhi cerca de dois anos e meio antes, quando decretara o estado de emergência - o período ficou conhecido como The Emergency - o que a possibilitara suspender o parlamento, governar por decreto e suspender as liberdades civis. As eleições foram adiadas e quase todos os membros destacados da oposição foram presos e a vida política da Índia naquele período é, para todos os efeitos práticos, equiparável a uma ditadura. A normalidade apenas retornou em Março de 1977, por ocasião das eleições gerais e que - importa salientar - decorreram com toda a regularidade democrática. O Congresso de Indira Gandhi foi esmagado: a sua representação parlamentar passou de 350 para 150 deputados (a própria Indira Gandhi perdeu a eleição no círculo a que se apresentou). E, na sequência, tomou posse um governo liderado por Morarji Desai (ele próprio um antigo membro agora dissidente do Congresso), que se apressou a desmontar muitas das decisões aprovadas pelo governo precedente e que se apoiava numa heteróclita coligação de adversários e inimigos políticos de Indira Gandhi. São estes últimos que vamos encontrar há precisamente quarenta anos a quererem desforrar-se de Indira Gandhi, recorrendo aos mesmos métodos que lhe haviam criticado e que haviam, aparentemente, sido uma das principais causas da sua clamorosa derrota política nas urnas. As acusações que pendiam sobre ela eram frágeis do ponto de vista jurídico e esta prisão de Indira Gandhi acabou por ter uma ressonância contrária à do que esperariam os seus promotores. Por esta vez, o aparelho judicial indiano não se quis prestar ao frete de servir de arma de arremesso dos conflitos políticos e a antiga primeira ministra acabou por ser libertada uma semana depois, apesar de visivelmente desagradada, como demonstra a fotografia abaixo. Acessoriamente, os juízes indianos terão cortado cerce a adopção de uma tradição de enviar os adversários políticos para a prisão por causas pueris e com isso salvo a vigência de um padrão mínimo de Democracia na Índia.

06 novembro 2018

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue há poucos dias). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

31 outubro 2018

A RECRIAÇÃO DE UMA NOVA HISTÓRIA PARA A ÍNDIA MODERNA?

A Índia inaugurou hoje aquela que é considerada a mais alta estátua do mundo. A surpresa consiste no facto do representado não ser Açoka (o maior imperador indiano da Antiguidade, a roda estilizada que lhe é associada figura na bandeira indiana) nem tão pouco Mohandas K. Gandhi (o indisputável protagonista da história da Índia do Século XX). A estátua, que tem uns brutais 182 metros de altura (i.e.,quase o dobro da estátua da Liberdade em Nova Iorque), foi erigida perto de Rajpipla, uma obscura cidade do estado indiano de Gujarate e a colossal figura representada é a de Vallabhbai Patel (1875-1950), um dos discípulos e lugares tenentes de Mohandas K. Gandhi (1869-1948) ao longo do processo que levou o país até à independência em 1947. Patel, Gandhi e o actual primeiro-ministro indiano, Narenda Modi (1950- ), que presidiu à inauguração, eram e são todos originários de locais que hoje fazem parte de Gujarate.
Mas o que estará por detrás da construção de um monumento que custou quase 360 milhões de euros é certamente muito mais do que uma manifestação de bairrismo. A denominação de "Estátua da Unidade" que foi escolhida - «Hoje é um dia para ser lembrado na história da Índia, nenhum indiano vai esquecer este dia», disse Modi na ocasião - é um gesto que desperta uma natural curiosidade. Para tentar entender quais serão as intenções de Nova Deli com esta projecção simbólica da pessoa de um antigo vice-primeiro-ministro há que recuar uns bons 80 anos e tentar explicar, ainda que de uma forma necessariamente simplificada, aquilo que se configurava à volta da figura tutelar de Gandhi para o momento em que os britânicos abandonassem a Índia. Sendo o Congresso Nacional Indiano uma organização essencialmente nacionalista, praticamente todas as ideologias coexistiam no seu seio.
Nessa salada russa (por acaso indiana) e que incluía até uma facção que se dispunha a colaborar com alemães e japoneses em plena Segunda Guerra, como há dias tivemos aqui ocasião de lembrar, o herdeiro de Gandhi que representava a (admita-se) ala esquerda do Congresso era Jawaharlal Nehru (1889-1964) e o herdeiro que representaria a (dita) ala direita era Vallabhbai Patel, que, por sinal, era 14 anos mais velho que Nehru¹. (A terceira fotografia do poste mostra-os nas posições certas a falar com Gandhi) Como se sabe, foi Jawaharlal Nehru que, apesar de mais novo, assumiu o cargo de primeiro primeiro-ministro da Índia independente. Permaneceu no cargo 17 anos ininterruptos. Patel tornou-se vice-primeiro-ministro, ministro do Interior e comandante-chefe das Forças Armadas. Apesar de todo o poder que deteve - controlava todas as armas! - não há registo de conflitos políticos significativos entre os dois durante os três anos e quatro meses de coexistência no poder, até à morte súbita de Patel, de ataque cardíaco, em Dezembro de 1950.
Contudo a relativa brevidade da sua passagem pelo poder permitiu a construção à volta da figura de Vallabhbai Patel de uma espécie de mito, do que poderia ter sido se... ele tivesse sido o primeiro-ministro em vez de Jawaharlal Nehru. As diferenças ideológicas entre os dois eram conhecidas e sabia-se de que é que se revestiam. Não é por acidente que a revista Time concede uma capa a Patel em Janeiro de 1947², a pouco mais de seis meses da independência da Índia². Os Estados Unidos consideravam que uma Índia dirigida por Patel estaria mais próxima das suas concepções. Mas, descontando as especulações, para todos os efeitos e embora estivesse um pouco marginalizado quando comparado com as figuras maiores de Gandhi e Nehru, Vallabhbai Patel sempre foi um dos líderes históricos do Congresso, até que, desde há alguns anos, os rivais do BJP, agora dirigidos pelo primeiro-ministro Narenda Modi, têm desenvolvido uma manobra de apropriação da memória de Vallabhbai Patel. Gesto que hoje teve esta consagração.
¹ Para aqueles que gostem de se martirizar com a difícil pronúncia de nomes indianos, acrescente-se que havia um terceiro herdeiro potencial de Gandhi, candidato esse que, mais do que por questões ideológicas, se distinguia dos demais por ser oriundo do sul da Índia, do estado de Tâmil Nadu e que dava pelo nome de Chakravarti Rajagopalachari (1878-1972). Gosto de pensar que, quando as pessoas se deparam com o seu nome, passam a considerar Vallabhbai e Jawaharlal palavras facílimas de pronunciar...
² A Time vai conceder a mesma honra em Junho do mesmo ano (1947) a Gandhi, mas vai esperar por Outubro de 1949 para fazer o mesmo a Nehru.

21 outubro 2018

AZAD HIND - O COLABORACIONISMO QUE NÃO FOI RENEGADO

21 de Outubro de 1943. Constitui-se em Singapura o Governo Provisório da Índia Livre (Arzi Hukumat-e-Azad Hind), encabeçado por Subhas Chandra Bose (1897-1945). Subhas Bose fora um dos dirigentes destacados do Congresso indiano antes da Guerra, mas acabara por entrar em conflito com Gandhi e abandonara a organização em 1939. Com a eclosão daquela, as divergências acentuaram-se: ao neutralismo pacifista de Gandhi, contrapunha-se a aliança tácita com o inimigo do inimigo que era proposta por Bose, no que era acompanhado por uma facção mais radical dos nacionalistas indianos. Bose acabou por fugir para a Alemanha, onde ajudou a formar uma unidade militar indiana formada por antigos prisioneiros de guerra que depois combateu ao lado dos alemães. Já aqui foi referida no Herdeiro de Aécio. Mas o interesse de Subhas Bose (e a utilidade de o empregar pelas potências tutelares...) estava muito longe da Europa. Era na Ásia, onde os exércitos japoneses que ocupavam a Birmânia ameaçavam a Índia, que se combinavam o interesse do próprio e de quem se dispunha a patrociná-lo. Em 1943, Subhas Chandra Bose realizou uma prolongada e complexa viagem de submarino que o levou para o outro lado do mundo. Partido em Fevereiro desse ano da Alemanha num submarino alemão, a viagem envolveu um transbordo para um submarino japonês em Madagáscar, a meio do percurso, que só se veio a concluir com a sua chegada a Singapura em Maio. Os japoneses também já haviam pensado em recrutar entre os seus prisioneiros de guerras de origem indiana um exército de auxiliares que combatesse ao seu lado contra os britânicos. Contudo, terá sido a alavanca política representada pela presença e propaganda de Subhas Bose, a quem se passara a dar o título honorífico de Netaji (Líder Respeitado em hindi/urdu), que terá feito com que os efectivos desse exército indiano de libertação (o INA - 43.000) correspondesse a cerca de ⅔ dos efectivos totais de prisioneiros indianos capturados pelos japoneses durante o conflito (64.500).
Claro que nem todos os membros do INA haviam sido prisioneiros, como se pode constatar, aliás, por esta fotografia acima, em que a unidade é feminina, mas a elevadíssima percentagem de alistamentos tornou-se um daqueles embaraçosos segredos de guerra, guardado ferreamente pelos britânicos, tanto mais que ela contrasta com a percentagem de 20% de adesões que se havia registado no caso dos prisioneiros de guerra indianos na Europa. Aliás, tão ou mais importante do que a quantidade, a maioria dos oficiais e sargentos de origem indiana que enquadravam as tropas também aderiu ao INA. O Governo Provisório que se constituiu há precisamente 75 anos é o apex político desse esforço de mobilização. Apesar de aparecer fardado nas fotos, Subhas Chandra Bose nunca havia tido qualquer experiência militar. A avaliação séria do desempenho deste outro exército indiano é afectada pelos preconceitos distintos (mas coexistentes) de britânicos e japoneses e dos seus relatos. Como projecto político, a Azad Hind não iria durar dois anos. Afundou-se conjuntamente com o Japão em Agosto de 1945. Pessoalmente, Subhas Chandra Bose morreu em 18 de Agosto de 1945, em consequência dos ferimentos resultantes de um acidente de aviação. Mas a questão política daqueles que haviam pegado em armas contra a Índia colonial continuou a subsistir. Quando as autoridades britânicas quiseram, depois do fim da guerra, levar a julgamento os responsáveis políticos e militares que haviam pegado em armas contra o Raj, depararam-se com a oposição dos nacionalistas. Terá sido até a última vez em que o Congresso e a Liga Muçulmana agiram de forma concertada, pois entre os réus tanto havia hindus como muçulmanos. Para surpresa dos britânicos, e ao contrário dos princípios que vigoravam na Europa que fora ocupada, ter-se sido colaboracionista ao serviço de uma potência hostil não funcionava como um estigma na Índia. Num ambiente que cada vez mais se adensava contra a sua presença, os britânicos tiveram que desistir da sua intenção. Mais do que isso, na Índia actual e como se pode constatar pelo vídeo abaixo, Subhas Chandra Bose é considerado um grande herói nacional.

18 maio 2018

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

24 março 2018

A METAMORFOSE DA «COMMONWEALTH»

Estamos a 17 de Março de 1961, em Londres, a cerimónia é de gala porque se trata do encerramento da conferência de primeiros ministros, e esta fotografia assinala o início do que será a metamorfose da imagem da Commonwealth britânica. A fotografia em que a monarca Isabel II aparece, ao centro, rodeada dos chefes de governo dos países que outrora haviam composto o Império, parece ser uma composição cada vez mais heterogénea, quando comparada com as fotos de cerimónias precedentes, uma heterogeneidade que, tanto como as aparências, se substancia também pelos percursos e pelos anseios díspares de quem rodeia a monarca. A Commonwealth mostrava que não podia ser o desejado prolongamento do Império Britânico desejado por Londres. A Irlanda já saíra, a África do Sul preparava-se para o fazer, a instituição manifestava-se impotente para gerir a animosidade indo-paquistanesa. Há 57 anos e da esquerda para a direita, identificam-se Kwame Nkrumah pelo Gana, John Diefenbaker pelo Canadá, Hendrik Verwoerd pela África do Sul, Jawaharlal Nehru pela Índia, Ayub Khan pelo Paquistão, a Rainha, Roy Welensky pela Rodésia (que hoje são a Zâmbia e o Zimbabwe), Sirimavo Bandaranaike pelo Sri Lanka, Harold Macmillan que foi o anfitrião britânico, Robert Menzies pela Austrália e o arcebispo Makarios III por Chipre. Ausentes da foto, mas presentes na conferência, haviam estado ainda os dirigentes da Malásia, Nova Zelândia e Nigéria. Abaixo, pode comparar-se o que fora a tradição daquelas conferências (a de 1926, acima, ainda com Jorge V, o avô de Isabel II) e aquilo em que se iriam transformar (a de 1983, abaixo).

18 dezembro 2017

A INVASÃO DE GOA, DAMÃO E DIU

18 de Dezembro de 1961. As forças armadas indianas procedem à invasão e posterior anexação das três possessões coloniais que Portugal possuía naquele subcontinente: Goa, Damão e Diu. Embora se tenha tornado pacífico admitir, depois do 25 de Abril, o quanto a situação portuguesa na Índia era militar e politicamente insustentável a longo prazo, dessa admissão não costuma constar o quanto a situação estava eivada de hipocrisia, não apenas da parte portuguesa, mas por parte de todos os grandes actores. O plano português resumia-se a ir aguentando e, na eventualidade da situação escalar militarmente, o que se esperava da guarnição local é que se batesse sem esperança mas que produzisse um bom punhado de mártires para conferir ainda mais peso mediático aos protestos diplomáticos como Portugal iria tentar reverter a situação. No terreno, a esmagadora maioria da guarnição não se prestou a esse papel, não se registaram muitos episódios heroicos de defesa da Pátria e a diferença da primeira página das duas edições do Diário de Lisboa daquele dia mostram que isso depressa se soube em Lisboa (acima). A posição tutelar dos Estados Unidos era outro monumento à hipocrisia, refreando os indianos para que encontrassem uma solução pacífica para a questão das possessões portuguesas. Ora, como muito bem saberia a Adminstração Kennedy depois da Abrilada, qualquer inflexão da política externa portuguesa, e assim qualquer solução pacífica para o problema, só se processaria com a remoção de Salazar e isso acabara de fracassar. A Índia também não se livraria das acusações de hipocrisia pois, para tomar a iniciativa da invasão, dera um grande pontapé em todo o seu discurso oficial associado ao pacifismo como fora a imagem de marca do combate político de Mahatma Gandhi, o fundador espiritual do país. Descobria-se para a ocasião que a Índia era um país que se reclamava muito pacífico, mas que não o era a todo o transe, acontecia-lhe tomar a iniciativa de invadir territórios adjacentes. No ano seguinte, talvez embriagados pela vitória, os indianos irão tentar repetir o método brusco na resolução de um diferendo fronteiriço com os chineses e, merecidamente, vão levar um enxerto de porrada.

O último figurante da tetralogia das hipocrisias foi o nosso mais antigo aliado, o Reino Unido. Aquilo que se possa dizer sobre o comportamento britânico na época sintetiza-se bem com este vídeo que está disponível no You Tube: nele aparece primeiro o secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano de então, Triloki Nath Kaul (o titular da pasta era o primeiro-ministro Nehru), a explicar a posição indiana e depois aparece o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Alberto Franco Nogueira, a defender a parte portuguesa. Havendo lógica e imparcialidade e a ordem deveria ter sido a inversa: começa-se tradicionalmente a ouvir o queixoso. Mas isso será o menos porque, dos cerca de seis minutos que o vídeo tem de duração, cinco são dedicados aos argumentos dos indianos e um (apenas) à perspectiva portuguesa - por muito errada que estivesse, a equidade de tratamento das duas partes parece coisa que não passa por ali. É curiosa a junção destas duas personalidades neste vídeo. Se Franco Nogueira é hoje considerado aquele que teria sido o mais lídimo continuador do salazarismo depois de Salazar, T.N. Kaul já então era tomado de ponta pela diplomacia norte-americana e considerado um dos membros mais pró-soviéticos da equipa dos Negócios Estrangeiros da Índia.

26 novembro 2017

FALA SÔNIA, VERSÃO ERUDITA


...um pequeno esforço para soletrar o nome de Rabindranath Tagore, poeta bengali, agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1913.

13 setembro 2017

SOBRE A DISCRIÇÃO E A EXUBERÂNCIA DE CERTOS CONFLITOS

13 de Setembro de 1967. Há precisamente 50 anos as relações sino-indianas passavam por mais uma fase muito tensa, com a ocorrência de um choque violento entre forças armadas dos dois países a propósito da delimitação das fronteiras numa remota portela dos Himalaias denominada Nathu La. O que se pode hoje reconstituir hoje do incidente, tudo terá começado por uma iniciativa indiana de delimitar a fronteira naquele local, a equipa (de engenharia militar) que estava encarregue de o fazer foi interpelada por um destacamento do exército chinês que acabou recorrendo ao fogo de armas ligeiras para dispersar a equipa indiana, atingindo alguns. Seguiu-se um crescendo do poder de fogo, com o emprego de morteiros e de artilharia dos dois lados, emprego esse que se prolongou pelos três dias seguintes (é o conteúdo da notícia acima). Ao quinto dia dos combates alcançou-se uma espécie de cessar-fogo. No final, e apesar daquela tradicional guerra de comunicados com números entre as baixas causadas e sofridas (em que se multiplicam as primeiras e se dividem as segundas), qualquer dos lados assumiu, pelo menos, que tinha sofrido várias dezenas de mortos nos combates, o que tornava o incidente em algo mais do que uma escaramuça acidental.
Do ponto de vista do seu desfecho, as análises depois surgidas ao combate travado consideram que os indianos gozavam da vantagem inicial do seu posicionamento táctico e que, no final, beneficiaram com isso. De todo o modo, vitória que tivesse sido, tratou-se de uma vantagem infinitesimal se considerarmos a envolvente estratégica de todo o incidente - a questão dos contornos fronteiriços entre a China e a Índia que ainda hoje é um assunto dormente nas relações entre aquelas duas grandes potências. Mas o que tornará oportuno evocar agora este episódio, quando a questão da Coreia do Norte ocupa as manchetes, é perceber como a coreografia dos intervenientes pode ser decisiva na importância e na gravidade que a comunicação social tende a atribuir a estes incidentes. Se há um historial de rivalidade sino-indiana por causa de questões fronteiriças (com fases mais quentes, como este episódio agora aqui descrito de 1967, que se seguira a uma mini-guerra em 1962, e que precederá novos confrontos em 1987), parece haver também haver um consenso estabelecido entre as duas partes em tratar toda a questão com a maior discrição possível. Às vezes é vantajoso. A prova é que quase ninguém se lembra deles - e de como a China e a Índia são rivais.

15 agosto 2017

A INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E DO PAQUISTÃO


15 de Agosto de 1947. Há precisamente 70 anos a Índia e o Paquistão alcançavam simultaneamente a independência, dividindo entre si os territórios do subcontinente que haviam estado submetidos ao raj britânico. Os desejos de John Bull no cartoon abaixo não se concretizaram. a partição da Índia esteve muito longe de ser pacífica.

30 julho 2017

EM VEZ DE «APRESENTAR ARMA!», O «ARROCHAR» ARMA DO GUARDA DE HONRA

30 de Julho de 1987. Mesmo nos momentos mais tensos das relações bilaterais entre estados, o que se espera de qualquer país anfitrião é que ele acautele a integridade física de todo o chefe de estado (ou de governo) que o visite. Mais do que uma questão protocolar, é uma questão de reciprocidade e de princípio. Se a antipatia for tanta que não dá para assegurar a segurança do visitante, então a solução é simples: cancele-se a visita. Imagine-se por isso a surpresa como foram recebidas estas imagens que há trinta anos começaram a correr mundo. Uma banal revista a uma guarda de honra, uma cerimónia bocejantemente previsível, que se tornara... imprevisível e nada honrosa. O primeiro-ministro indiano, Rajiv Gandhi, acabara levando uma arrochada assestada por um marinheiro do Sri Lanka, o cabo Silva (logo um apelido daqueles, para mal da reputação da nossa presença por aquelas paragens...). Se este blogue prosseguisse com a sobriedade e o rigor informativo que foi o seu durante anos, seguir-se-ia uma explicação das razões para que o cabo Silva quisesse tanto mal ao primeiro-ministro indiano. Mas isso já se constatou ser uma opção que não cativa audiências, por isso vamos adoptar o estilo moderno e fazer como no Malomil, dando relevo ao lado humano da história, que é como quem diz, contar o que é que aconteceu ao gajo chanfrado, o responsável pelo exotismo do episódio - afinal ele há milhares de revistas a guardas de honra por mês e muitos participantes a cumpri-las de má vontade e de mau humor. Como se imagina, o cabo Silva acabou julgado num severo e muito publicitado Tribunal Marcial, condenado a seis anos de prisão dos quais cumpriu dois e meio, tendo recebido um perdão presidencial. Mudando o nome para Vijitha Rohana e falhada uma incursão na política, veio-se a especializar como astrólogo, o que não deixa de ser uma ironia. Para quem se crê vocacionado a adivinhar os destinos alheios como as cartas da Maya, Wijemuni Vijitha Rohana de Silva falhou desnecessariamente na previsão daquele que estaria destinado a Rajiv Gandhi: morrer assassinado num atentado suicida no seu próprio país, menos de quatro anos depois de lhe ter arreado com a espingarda. A verdade é que, se ele tivesse sido mais paciente ou presciente, ter-se-ia poupado a muitos aborrecimentos. Mesmo assim, e como é conhecido o seu empreendedorismo, as autoridades não brincam com as suas previsões: quando no principio deste ano o astrólogo Vijitha Rohana de Silva anunciou a previsão da morte do presidente Sirisena para um dia preciso (26 de Janeiro), por via das dúvidas prenderam-no, não se lembrasse ele de fazer qualquer coisa para que a previsão se concretizasse...

22 abril 2017

AS PEDRAS QUE SE ARREMESSAM... ACABAM POR CAIR EM ALGUM LADO

Os instantâneos foram colhidos acompanhando os protestos estudantis em Caxemira, assunto sobre o qual a comunicação social portuguesa não tem dito nada. O fotógrafo poderia vender a foto acima a uma das facções e a de baixo à dos seus adversários. Reunidas tornam-se num manifesto pacifista.

13 abril 2017

O MASSACRE DE AMRITSAR

13 de Abril de 1919. Por ocasião de um festival religioso sique e para reprimir a multidão que se aglomerava numa das praças ajardinadas da cidade de Amritsar, as forças militares sob o comando do coronel Reginald Dyer provocaram a morte de várias centenas de peregrinos e passantes. O ambiente na cidade era tenso mas, veio-se a comprovar, nada no comportamento da multidão justificaria a proporção da acção policial/militar adoptada contra ela. O número oficial de mortos foi de 379 para além de mais 1.200 feridos. Há outros números mais elevados. Uma parte deles foram vitimadas pelas balas, enquanto os restantes foram causados indirectamente pelo estampido da multidão a evitar os tiros. Mas, a agravar ainda mais, se possível, a situação, foi o que se seguiu. Não há fotografias do massacre, como um muro de silêncio tivesse caído sobre a cidade e não se reconhecesse a gravidade do que acontecera, mesmo tendo ele acontecido numa cidade santa para os siques, que hoje conta com mais de um milhão de habitantes. Só muito depois se vieram a fazer reconstituições. E o comunicado dirigido à população local no dia seguinte era redigido em urdu (o menor dos insultos, já que a população local até falava punjabi...), e constava mais ou menos disto:

Vocês sabem bem que eu sou um cipaio e um soldado. Querem a guerra ou querem a paz? Se querem a guerra, o governo está preparado para ela, e se querem a paz, então obedeçam às minhas ordens e abram as vossas lojas; senão dispararei. Para mim os campos de batalha da França e de Amristsar são a mesma coisa. Sou um militar e sou directo.(...)

Adivinha-se o teor do resto da proclamação. Mesmo contando com variadíssimas simpatias pessoais, até mesmo para os poderes coloniais britânicos a conduta de Dyer fora longe demais. Uma comissão de inquérito constituída seis meses depois considerou-o culpado embora as sanções não tivessem sido muito evidentes, num processo em que o réu contara com a anuência tácita da hierarquia colonial. Coisa outra foi a perspectiva das elites indianas locais. O massacre veio a ocorrer no preciso momento em que se esclarecia um equívoco: as elites indianas haviam apoiado lealmente a metrópole durante a Primeira Guerra Mundial na presunção de que a Índia do após-Guerra receberia a mesma autonomia que já fora concedida ao Canadá, à Austrália e até aos africânderes da África do Sul. Nada disso, era o figurino da resposta de Londres cinco meses depois do fim do conflito. Os indianos eram escuros e por isso não tinham categoria para se tornarem num Dominion. É do esclarecimento desse equívoco que o livro acima dedica o seu prólogo ao massacre de Amritsar. A longa caminhada para a Independência da Índia começou ali naquele dia.

17 fevereiro 2017

ÍNDIA COLOCA 104 SATÉLITES EM ÓRBITA COM UM SÓ FOGUETÃO


Não é a primeira vez que aqui menciono o assunto, mas esta capacidade indiana de acomodar tudo e de se acomodarem todos num mesmo meio de transporte parece imbatível à escala mundial e continua a maravilhar-me, tanto mais que agora o vemos transposto para a astronáutica. Com impacto para a nossa História, são conhecidas várias narrativas na História Trágico-Marítima de naus portuguesas que, saídas da Índia na viagem de retorno a Portugal, se afundaram por estarem ajoujadas de especiarias para além de um limiar de segurança. Combinado com o desejo lusitano de rentabilizar a viagem e de mais depressa enriquecer a todo o custo, adivinha-se a participação da consultoria indiana qualificada na técnica da estivagem...

20 agosto 2016

GOA A DOURADA

Cinquenta anos depois da incorporação na Índia, este mapa que mostra, segundo o censo de 2011, a proporção de cristãos existente nos vários subdistritos (taluka) do estado indiano de Goa, constituirá um bom auxiliar para evidenciar alguns aspectos da presença portuguesa de 450 anos (1510-1961). A percentagem de cristãos em Goa tem vindo a decrescer sustentadamente, desde os 34% contados no censo de 1971 (o primeiro a ser realizado sob a égide da Índia - e que, ao contrário de Portugal, não teria qualquer razão para empolar o número de cristãos) até aos 25% que foram apurados neste último censo de 2011. Note-se porém a heterogeneidade da distribuição, de como as cores mais carregadas coincidem com as talukas junto à costa e próximas do estuário combinado do Mandovi e do Zuari. Em geral, correspondem às Velhas Conquistas, aquelas que foram realizadas originalmente no Século XVI por Albuquerque e os seus sucessores imediatos. Se o Império português no Oriente chegou a ser enorme por causa das rotas comerciais que controlava, constata-se que nem mesmo ao redor da sua capital, Goa, a Dourada (como era então apelidada), os portugueses tinham os recursos humanos, os meios materiais ou a vontade política para se expandirem territorialmente de forma significativa. As velhas conquistas são menos extensas que o menor dos distritos portugueses. Coisa outra foi o esforço alocado, pela evangelização, na aculturação dos habitantes. Notável nesse aspecto, é ainda hoje o caso da taluka de Salcete - cuja capital é Margão. Ao longa da costa do Malabar, é a unidade administrativa em que a proporção de cristãos é mais elevada, chegando os cristãos a constituir a maioria absoluta da população. Essa proporção de cristãos ainda é mais acentuada (75%) nas áreas rurais, numa demonstração de como o cristianismo permanece enraizado naquelas paragens.

23 junho 2016

UMA NOVA PROEZA DA TECNOLOGIA INDIANA


Consolidando uma reputação tecnológica que tem vindo a ser construída desde há mais de cem anos, a tecnologia indiana mostrou ontem toda a sua reputada capacidade de potenciar a capacidade de transporte de um veículo concebido por si, quando anunciou ter colocado em órbita 20 satélites recorrendo apenas a um foguetão (acima).
Tornaram-se emblemáticas fotografias como a acima, que mostram como um comboio indiano típico tem uma lotação e acomodações distintas dos seus congéneres de outros países do Mundo. Também é possível constatar abaixo, nesta versão asiática do famoso programa da BBC Top Gear, que uma viatura indiana típica pode transportar comodamente 12 pessoas...

A notícia de ontem parece constituir o anúncio da chegada de tal conceito logístico à exploração espacial.

05 maio 2016

AS ILHAS SENTINELAS DO NORTE E OS SENTINELESES

Situada em plena Baía de Bengala no Oceano Índico, a ilha Sentinela do Norte faz parte do arquipélago das Ilhas Andamão. O nome foi inspirar-se à sua localização geográfica, em que emparelha com outra ilha baptizada (previsivelmente) de Sentinela do Sul, enquadrando ambas a Passagem Duncan, um estreito de 48 km que separa as ilhas da Grande e da Pequena Andamão. Uma toponímia destas faz perceber a sua origem europeia recente. Com apenas 72 km² e situada numa região sem qualquer interesse económico a primeira referência ocidental (britânica) que se lhe conhece data de 1771. Os britânicos instalaram-se na Grande Andamão em 1789 mas, significativamente, foram-se embora em 1796, tal eram as condições e o clima. E quando regressaram ao arquipélago em 1858, também significativamente, foi para ali instalar uma colónia penal. Mais do que um contacto deliberado o que por vezes acontecia é que um naufrágio forçava o contacto entre os náufragos e as populações indígenas. Assim aconteceu na ilha Sentinela do Norte em 1867 com um navio britânico e cerca de uma centena de sobreviventes. Alguns dias depois, enquanto aguardavam socorro, foram atacados por guerreiros nus armados de lanças com pontas de ferro. Salvaram-se, mas o episódio e as tentativas de contacto – sempre goradas – que se seguiram durante as duas últimas décadas do Século XIX fizeram com que os sentineleses adquirissem uma reputação de ferocidade numa região que já de si nunca fora particularmente acolhedora. Mais do que isso, de uma ferocidade misteriosa. A ilha que, como se referiu, não é particularmente extensa (72 km² – a área de um concelho urbano como o de Almada ou da Trofa), apresenta-se totalmente coberta por uma vegetação densa como se vê pelas fotografias abaixo. Não possui um porto natural nem tão pouco enseadas abrigadas, muito pelo contrário, está rodeada de uma cadeia de recifes que dificulta a navegação costeira e a aproximação.
Assente numa placa tectónica instável, o sismo que provocou o tsunami de 2004, elevou recentemente a ilha em um ou dois metros, fazendo emergir a região dos recifes adjacentes e aumentando a área da ilha, que aparece na fotografia acima da direita em claro, por agora ainda não coberta de vegetação. O ponto mais elevado da ilha tem cerca de 100 metros de altitude. Sobre a população sabe-se muito pouco, a começar por se desconhecer quantos são. Durante o período do raj britânico e por ocasião do censo de 1901 alguém se lembrou de inventar que a tribo tinha 117 membros. Em 1911 continuavam os mesmos 117 e em 1921 perpetuavam-se. Em 1931 um recenseador mais consciencioso (ou menos imaginativo) reduziu esse número para 70. Na verdade nunca se soube nem hoje se sabe. As copas da floresta não os permitem contar nem sequer fazer uma estimativa pelo número de habitações. O que se sabe é aquilo que eles compartilham com as outras tribos indígenas das Andamão das quais se separaram em algum momento do passado. Pela aparência, os sentineleses são negritos. Os negritos terão sido os primeiros habitantes da Ásia chegados há uns 60.000 anos. Hoje o grupo sobrevive de forma identificável pelos seus traços morfológicos principais – nomeadamente a estatura baixa, a cor da pele que lhes dá o nome e a esteatopigia (acumulação de gordura nas nádegas) – apenas em tribos isoladas de alguns países asiáticos, não só na Índia, mas também na Tailândia, na Malásia, na Indonésia ou nas Filipinas. No caso concreto dos negritos que habitam desde há dezenas de milhares de anos as ilhas Andamão, os estudos de DNA indiciam que se terão começada a individualizar dos restantes há um pouco menos de 50.000 anos. Havia uns 5.000 em todo o arquipélago no Século XIX. As tribos de negritos que habitavam as outras ilhas das Andamão sabiam da existência dos sentineleses, mas, nos tempos históricos, estes nunca terão sentido necessidade de romper o seu isolamento. Sabe-se que constroem canoas e praticam a pesca mas costeira. Não se sabe se perderam ou se abdicaram voluntariamente do conhecimento da navegação a mais longas distâncias – a verdade é que foi navegando que eles foram parar à ilha que habitam. Desconhece-se a circunstância em que isso aconteceu. E também é verdade que o território que ocupam está, pela sua própria natureza insular, limitado quanto ao número de pessoas que pode sustentar.
Também não se sabe que acontecimentos terão estado na origem de tão manifesta hostilidade para com os forasteiros, embora se desconfie, que os contactos com o exterior não se circunscreverão aos que estão documentados, e que o passado possa estar recheado de episódios de violência entre os autóctones e tripulações de navios de passagem. O que se deduz, mais do que saber-se, é que os sentineleses como as outras tribos originais de Andamão, viverão da caça, pesca e recolecção como o fazem as tribos das ilhas adjacentes, desde há milhares de anos. O seu isolamento não pode ter sido total: por exemplo, de algum modo eles aprenderam a funcionalidade do ferro que empregam nas suas lanças e de algum modo o obtiveram. Uma dessas vezes é conhecida, quando uma embarcação moderna acabou por naufragar na costa e os sentineleses assaltaram a carcaça encalhada para obter o ferro que não conseguem produzir. Uma das gulodices mais apreciadas por eles são os cocos (numa das fotografias abaixo – com teleobjectiva – aparece uma mulher da tribo a apanhar um que lhes foi oferecido), que paradoxalmente não existem na ilha apesar da exuberância botânica (a plantação de coqueiros está muito para além das capacidades técnicas daquela sociedade, seria fazê-los evoluir da recolecção para a agricultura). A escassa rentabilidade da recolecção por hectare é um factor que limita as estimativas da população de sentineleses; em sentido inverso, sabe-se que um número demasiado baixo de habitantes acentuará os inconvenientes da consanguinidade da população, nomeadamente a esterilidade. As estimativas são várias e vão dos 50 aos 400 habitantes com as mais razoáveis a situarem-se num intervalo entre 100 e 200. Tendo sido muito pouco estudada, mesmo assim sabe-se alguma coisa da cultura dos sentineleses. Um antropólogo indiano chamado Trilokinath Pandit passou anos a tentar contactá-los apesar da hostilidade demonstrada. Houve muitos fracassos. Só se conseguiram resultados há uns 25 anos (1991-93).
Pandit desistiu de levar óculos e relógio para os cautelosos encontros, pois os precavidos sentineleses obrigavam-no a despojar-se de tudo, roupa incluída, já que pelos seus padrões de nudez, roupa e adereços só poderiam ser um pretexto para esconder algo. Apesar de não se conseguir comunicar fluentemente com eles, já que a língua local deixou de ser inteligível com as das outras tribos conhecidas, Pandit conseguiu aperceber-se que a estrutura da sua sociedade é do mais simplificada que há: não há chefe político nem religioso. A sua forma de expressão artística preferida é a pintura corporal: esfregaços ondulados em branco ou ocre. A sua música é rudimentar, as suas canções usam apenas duas notas e acontece o mesmo com a aritmética: há a designação para o número um, para o número dois e para o número muitos. Limitação importante para o seu quotidiano: sabem a importância do fogo mas não o sabem fazer, por isso muita atenção é dada à tarefa de o preservar continuamente. A decisão das autoridades indianas depois daquela série preliminar de estudos foi a de manter a tribo isolada de contactos do exterior. Os contactos de Pandit não alteraram o comportamento hostil dos sentineleses para com outros intrusos. Quando do tsunami de 2004 que, como se viu mais acima, também atingiu a ilha, um helicóptero militar indiano, que viera investigar como a tribo fora afectada pela catástrofe, acabou recebido à pedrada. Dois pescadores indianos que estavam a pescar ilegalmente perto da ilha e que acabaram por ser arrastados para uma das suas praias foram assassinados. Episódios como esses servem para que a espectacularidade e o absurdo se sobreponha ao científico – ainda faltava ver os sentineleses acusados de canibalismo, mas agora já não. Mas o que me ocorre a respeito da situação é uma extrapolação que nada tem directamente a ver com os próprios. O que se observa nesta questão da ilha Sentinela do Norte é uma diferença tecnológica de milhares de anos entre duas civilizações. O hiato é tão grande que as autoridades indianas preferiram deixar os sentineleses entregues a si próprios, num regime jurídico de autonomia política de que nem os próprios se aperceberão. Ora isso seria um cenário parecido ao de uma qualquer civilização extraterrestre que nos contactasse. Como a da Índia, a sua benignidade para connosco seria feita de condescendência. O que é espectacular é como a ficção de Hollywood ainda nos consegue persuadir em filmes descabelados que poderíamos defrontar frontalmente e em pé de igualdade tecnologias que nos superariam por milhares de anos.