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05 junho 2024

AS ELEIÇÕES SÓ SE DECIDEM COM A CONTAGEM DOS VOTOS

Ainda há duas semanas - à esquerda - os especialistas previam uma vitória esmagadora (landslide) do BJP do primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Uma vitória com - escrevia-se então no Hindustan Times - «resultados idênticos senão mesmo ligeiramente melhores» do que os que haviam sido registados nas eleições de 2019. Contudo, o escrutínio dos votos - que na Índia é particularmente demorado: terão votado 642 milhões de eleitores! - parece apontar que as sondagens em que os especialistas tinham baseado as suas previsões estavam afinal erradas. Como se percebe pela notícia da direita, mais recente, do mesmo Hindustan Times, o BJP perdeu lugares no parlamento (cerca de 60) e terá perdido mesmo a maioria absoluta da câmara (Lok Sabha) de que dispunha. Este terá sido apenas mais um exemplo - mas um exemplo de grande dimensão! - de que a melhor atitude em eleições é aguardar mesmo pelos resultados. E o primeiro-ministro Narendra Modi não consegue disfarçar o facto incómodo de que, mesmo tendo ganho as eleições e preparando-se para continuar à frente do governo, acabou de as perder por causa das expectativas.
O segundo aspecto importante desta questão não é politico, mas noticioso e respeita à relação dos media com os seus leitores. Publicações de prestígio como é o caso da revista The Economist aqui acima, contradizem-se galhardamente em 3 dias (de 1 para 4 de Junho) e não parecem sentir qualquer necessidade de, para além de darem uma completa cambalhota no teor do que noticiam, se explicarem diante dos seus leitores.

22 maio 2024

O PRIMEIRO PRIMEIRO-MINISTRO INDIANO SEM SER DE RELIGIÃO HINDU

22 de Maio de 2004. Manmoham Singh de 71 anos toma posse como primeiro-ministro da Índia. É o 13º primeiro-ministro indiano desde a independência do país em 1947, mas é o 1º a ocupar aquele cargo que não professa a religião hindu, que é a religião de uma ampla maioria - cerca de 80% - da população indiana. A Índia já fora dirigida por uma primeira-ministra - Indira Gandhi - entre 1966 e 1977 e depois entre 1980 e 1984. Mas trata-se de uma estreia para um membro de uma minoria religiosa, no caso a minoria sique. Manmohan Singh irá ocupar o cargo durante dez anos (2004-2014). E entretanto, a Índia tem-se tornado notada por, por assim dizer, exportar primeiros-ministros para a Europa: começou por Portugal, depois foi a Irlanda, depois o Reino Unido... A ascendência indiana parece funcionar como um certificado de qualidade; é mais ou menos como os treinadores portugueses de futebol além fronteiras!

18 maio 2024

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

(Republicação)
18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

22 janeiro 2024

A CEGUEIRA IDEOLÓGICA DA IMPRENSA LIBERAL BRITÂNICA

Ao ler este artigo desta semana da revista The Economist lembrei-me de um outro, de teor rigorosamente igual, publicado vai para dezassete anos e meio no Financial Times. Tem sido uma obsessão da imprensa liberal britânica preocupar-se com as consequências negativas do «iliberalismo» como os sucessivos governos indianos têm conduzido a sua política económica. A única coisa que parece mudar é o alvo da crítica, já que o primeiro-ministro muda: era Manmohan Singh em 2006, agora é Narendra Modi. O pior, para publicações que se arrogam de uma objectividade económica indestrutível nas opiniões que escrevem, é que aquela atitude tem sido consistentemente desmentida pelos factos: consultando os números oficiais, a economia indiana passou de um índice 100 em 2006 (data da publicação do artigo do Financial Times) para 270 em 2022 (último ano de que há dados disponíveis). É um resultado que corresponde a um ritmo médio de crescimento anual (já incluindo os anos da pandemia) de 6,4%/ano(!). Assistir aos articulistas da The Economist regressarem, pela enésima vez, às críticas quanto aos danos para o «progresso económico» do modelo económico vigente (que é proteccionista, concentrado em proteger os interesses dos agentes económicos locais), mas fazê-lo numa economia que tem crescido a tal ritmo, desafia qualquer objectividade, é a expressão da maior cegueira ideológica possível. Uma cegueira que se recusa a ver o óbvio.

06 novembro 2023

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

17 setembro 2023

A INVASÃO INDIANA DO ESTADO PRINCIPESCO DE HYDERABAD

Tirando o caso do estado de Caxemira, cuja disputa ainda hoje perdura, a Partição que, em 15 Agosto de 1947, resultara da independência simultânea da Índia e do Paquistão, deixara de imediato ainda dois outros problemas por resolver, as questões dos estados principescos de Junagadh e de Hyderabad. (Se clicar em cima dos seus nomes poderá aceder ao que já aqui escrevi sobre cada um dos três estados) Em suma, estes dois últimos estados principescos eram governados por monarcas de religião muçulmana que pretendiam vir a fazer parte do Paquistão. A Índia opôs-se e aquilo que desta vez pretendo invocar foi a forma como a invasão militar do estado de Hyderabad se efectuou e a sua cobertura informativa. A invasão (baptizada com o nome de código de Operação Polo) durou apenas 5 dias, apesar de, como se pode ler abaixo, o Hyderabad ter uma área de 214.000 km² e de contar (à época) com mais de 16 milhões de habitantes. Tudo acabou a 17 de Setembro de 1948, completam-se hoje precisamente 75 anos. Como se lê no título da notícia: «O Conselho de Segurança (da ONU) recebeu a queixa do Hyderabad contra a Índia» e mandou-a arquivar (provavelmente), com os países que dele então faziam parte esquecendo completamente o direito internacional. Se calhar, Vladimir Putin estava à espera que lhe dessem a mesma borla na Ucrânia...

06 setembro 2023

A PRESENÇA «TUTELAR» DOS ESTADOS UNIDOS NA LUA

Rompendo com uma longa tradição jornalística, neste mês de Agosto que acabou não se redescobriu água na Lua. Se calhar, porque não foi preciso. Duas sondas enviadas para aquele satélite conseguiram criar a impressão de uma mini corrida ao espaço e preencheram as leituras científicas do Verão. Melhor do que isso, a história das duas sondas acabou por adquirir até um fundo moral, porque a sonda russa (Luna-25 - a sonda dos maus...) despenhou-se na superfície lunar em 20 de Agosto, enquanto a sonda indiana (Chandrayaan-3 - a sonda dos... outros) ali alunou com sucesso apenas três dias depois. Mas tudo isto que se explicou até agora é o evidente. O que o é menos é a forma discreta como a agência espacial norte-americana NASA, ausente da mini corrida, se vai fazendo notar, publicando nos sites especializados as fotos dos sítios da superfície onde estão as duas sondas. O recado é claro, embora apenas para bons entendedores e como dissuasor para as potências rivais que queiram actuar clandestinamente no espaço: eles acompanham de perto o que se passa na superfície lunar.

23 agosto 2023

A 15ª CIMEIRA DOS BRICS E O RETORNO A UMA CERTA «KREMLINOLOGIA»

A ideia original do bloco de países denominado por BRICS (em inglês, literalmente, tijolos) apareceu já neste século. Foi em 2001 que a Goldman Sachs terá cunhado aquela sigla (originalmente bric, tijolo) num artigo sobre o potencial económico daqueles países: Brasil, Rússia, Índia e China. Houve, entre os seus dirigentes da época, quem tivesse ficado lisonjeado com a ideia e tivesse promovido uma aproximação recíproca. O quarteto original realizou a sua primeira cimeira em 2009. No ano seguinte, e porque a ausência africana era embaraçosa num projecto que era um contraponto às economias desenvolvidas do G7, a África do Sul foi convidada a aderir, ganhando o acrónimo actual, com o S de South Africa. A ideia parecia muito prometedora, mas o bloco acabou por não ganhar tracção política e/ou económica. A forma distanciada como toda a comunicação social dos países do G7 os noticia, também não os ajuda. Porém, as cimeiras continuam a realizar-se, como que por persistente e teimosa inércia. Ontem começou a 15ª, na cidade de Joanesburgo na África do Sul.

Na fotografia acima temos (da esquerda para a direita), Lula da Silva pelo Brasil, Xi Jinping pela China, o anfitrião Cyril Ramaphosa ao centro, Narendra Modi pela Índia e Sergey Lavrov pela Rússia. A razão para a ausência de Vladimir Putin da fotografia é um daqueles (poucos) assuntos a respeito da cimeira que terá suscitado o interesse da comunicação social dos países do G7. É que se Vladimir Putin comparecesse, a África do Sul, sendo membro do Tribunal Penal Internacional (TPI), teria sido obrigada a cumprir o mandado de prisão que foi emitido para o presidente russo em Março deste ano. Ou então não cumpria. Foi preferível não ter ido. Entretanto, logo no primeiro dia, já surgiu um outro pequeno episódio digno da maledicência ocidental. De acordo com o programa do primeiro dia, o líder chinês, Xi Jinping, deveria participar do fórum e fazer comentários ao lado dos outros líderes. Mas não foi isso que aconteceu. Em vez dele, o seu soporífero discurso foi lido pelo seu ministro do Comércio, Wang Wentao, levantando interrogações para uma tal alteração protocolar.

Outrora, nos tempos da guerra fria, a ignorância dos jornalistas ocidentais sobre o que se passava nos altos escalões dos poderes comunistas, levou esta prática jornalística ao estatuto de uma verdadeira ciência: a kremlinologia. Os cientistas especializavam-se em dar interpretações a episódios desprovidos de valor noutras circunstâncias. Neste caso concreto, há que dizer que as publicações oficiais chinesas davam o discurso como tendo sido lido pelo próprio Xi, o que permite aos cientistas deduzir que se terá tratado de uma alteração de última hora. Que talvez não tenha afinal grande significado, já que foi o próprio Xi Jinping que compareceu no jantar que se seguiu. Seja a ausência de Putin ou a alteração de programa por parte de Xi, este é o género de cobertura noticiosa que a comunicação social que estamos habituados a consultar tem para dar, de uma cimeira de onde não se esperam grandes surpresas.

25 junho 2023

OUTRO EFEITO DO «BREXIT»

Sete anos (e dois dias) depois do referendo do Brexit aparecem ainda impactos desconhecidos daquela decisão, como o gráfico acima, publicado na edição deste Sábado da revista The Economist, e que nos dá conta do que aconteceu ao contingente de estudantes estrangeiros a frequentarem as universidades do Reino Unido nos últimos 15 anos e especialmente depois do Brexit. O artigo de onde o gráfico foi extraído incide mais sobre o crescimento abrupto do número de estudantes indianos depois de 2016 (o seu título: Indians are flocking to study at British universities), do que no crescimento mais compassado, mas também muito impressionante, do número de estudantes chineses. Estas tendências, a que se juntam a dos estudantes nigerianos, aparecem contrapostas ao que aconteceu com os estudantes oriundos na União Europeia cujo número diminuiu abruptamente para menos de metade. Um comentário visionário inspirado naquilo que este gráfico nos sugere é que Rishi Sunak poderá ser apenas o primeiro de uma série de primeiros-ministros britânicos de ascendência indiana (ou chinesa).

20 junho 2023

ÍNDIA: DOS CARRIS PARA AS ASAS

Uma das imagens mais emblemáticas da Índia é o ambiente completamente caótico do seu transporte ferroviário. Há imagens de comboios apinhados de gente em todo o Mundo mas as da Índia superam tudo! A Índia está a modernizar-se gradual e aceleradamente e é previsível que, num futuro próximo, todos aqueles milhões que agora enchem e até adornam os tectos e as laterais dos comboios-expressos venham a preferir outros meios de transporte. Embora se reconheça que essa evolução se esteja a fazer preservando o mesmo registo sóbrio e económico, completamente adaptado as realidades locais e à imagem propagandeada pelo Mahatma Gandhi, repare-se abaixo nesta modesta rampa de embarque que é usada pela companhia aérea local IndiGo, muito diferente das mangas de embarque de outros aeroportos de outras paragens.
Uma das notícias recentes, discretas, mas significativas, foi o anúncio que essa mesma companhia low-cost IndiGo fez uma encomenda - gigante! - à Airbus de 500 aviões A-320neo a entregar entre 2030 e 2035. A IndiGo, que foi criada apenas em 2006, já é actualmente a companhia aérea da Ásia que mais passageiros transporta anualmente e, pelos vistos, tem perspectivas de se expandir ainda mais. Mas não é só ela. A companhia aérea de bandeira da Índia e grande rival da IndiGo, a Air India, havia-se também notabilizado por, no princípio deste ano, ter colocado uma outra grande encomenda de aviões (470), só que desdobrada: 250 aviões à Airbus europeia e 220 aviões à Boeing norte-americana. Há optimismo entre as operadoras aéreas, tanto mais que está descartada a hipótese de haver borlistas pendurados nas asas ou sentados no tecto dos aviões.

06 fevereiro 2023

POR ORDEM DO GENERAL…

A pretexto da morte do protagonista, republico um texto a respeito de Pervez Musharraf, originalmente aqui publicado a 12 de Julho de 2007 
Há notícias interessantes e há notícias importantes. Da combinação destes dois atributos resultam quatro resultados e uma regra, não escrita, que estabelece que a grande maioria das notícias interessantes não são importantes e que a grande maioria das notícias importantes não são interessantes. Também há as que não são uma coisa nem outra, e nisso estou, por exemplo, com Mika Brzezinski e com a sua opinião sobre a notícia da saída de Paris Hilton da prisão…

Mas o que me deixa mais intrigado são os casos em que não são exploradas daquelas raras notícias que são ao mesmo tempo interessantes e importantes, como foi o caso da ordem dada pelo general Pervez Musharraf para que o Exército paquistanês procedesse ao assalto da mesquita Lal Masjid de Islamabad, onde se tinham entrincheirado um largo grupo de radicais islâmicos. Desencadeado na Terça-Feira passada, ainda hoje se especula qual terá sido o número total de mortos causados pela operação.

Os ataques a locais onde fanáticos religiosos estavam entrincheirados foram acontecimentos que sempre saíram bem na televisão. Foi o caso do assalto do FBI ao rancho em Waco no Texas, onde se refugiaram os seguidores da seita de David Korresh, que decidiram imolar-se lançando fogo às instalações. Também foram acontecimentos importantes pelas suas consequências, como foi o caso do assalto pelo Exército indiano ao Templo Dourado em Amritsar, lugar sagrado para os sikhs.
É por isso curioso a ausência de atenção dedicada a um daqueles acontecimentos raros, ao mesmo tempo tão interessante quanto importante. E Pervez Musharraf, presidente do Paquistão e comandante-chefe das suas Forças Armadas é o homem chave de toda esta situação complicada, desencadeada sob sua responsabilidade (Ayman Al-Zawahiri o rosto da Al-Qaeda nos tempos que correm já apareceu em vídeo a condená-lo), num país cuja coesão interna sempre foi o seu maior problema.

Nunca é demais recordar que o Paquistão resulta das províncias do Império das Índias britânicas, onde havia uma maioria de população muçulmana. É um co-herdeiro, com a União Indiana (e depois de 1971, com o Bangladesh), da identidade regional estabelecida pelos britânicos para toda aquela região. Aliás, o rio Indo, de onde os gregos e depois os europeus retiraram o nome que empregam para designar o subcontinente (a designação equivalente em hindi é Bharat), corre em território paquistanês…

De uma forma sintética, o grande problema do Paquistão, quando em comparação com os seus vizinhos do subcontinente, é que, com mais de 150 milhões de habitantes, a sua população não é tão homogénea quanto a do Bangladesh (150 milhões, uma esmagadora maioria deles muçulmanos de cultura bengali), nem tão heterogénea quanto a da Índia (1.120 milhões, distribuídos por 28 estados e 7 territórios, com 18 idiomas oficiais entre 1.650 línguas utilizadas…), o que impossibilita a ascensão de um só grupo dominante.

No Paquistão há quatro (e meia…) regiões históricas: Punjab, Sind, Baluchistão e (usando ainda a designação colonial britânica) a Província da Fronteira de Noroeste, cujo acrónimo em inglês correntemente usado é NWFP. A meia região histórica mencionada acima é a parcela de Caxemira controlada pelo Paquistão (cuja maior parte está sob controle indiano), numa disputa de 1947 ainda hoje por resolver. Há ainda os territórios do Norte, da capital federal (Islamabad) e o Território Federal das Áreas Tribais.
Mais de 75% da população paquistanesa vive ao longo do vale do Indo e seus afluentes, que são as áreas mais férteis do país, onde se situam as províncias do Punjab e do Sind. Foi para melhor protecção destas regiões férteis que os britânicos se decidiram a controlar as regiões adjacentes do Baluchistão, da Fronteira Noroeste e das Áreas Tribais (ver mapas) onde se situavam os corredores naturais de invasão da Índia. O problema eram os habitantes desses corredores naturais…

A presença britânica naquelas regiões acabou por ser, por assim dizer, muito pouco presente. Aliás, a designação (que se mantém) em inglês do Território Federal das Áreas Tribais (Federally Administered Tribal AreasFATA) dá-nos uma indicação como as áreas são e eram administradas - a nível federal, longínquo… Outra pista é-nos dada pela manutenção da palavra fronteira na designação (que também se manteve) da Província da Fronteira de Noroeste (NWFP), numa indicação da sua funcionalidade para a Índia britânica…

Outro exemplo, foi em Quetta, capital do Baluchistão que os britânicos decidiram instalar em 1907 o prestigiado Instituto de Comando e Estado-Maior (Command & Staff College) do Exército britânico das Índias. Os alunos do Instituto não teriam de se deslocar para muito longe nas suas semanas de campo, especialmente quando o assunto era contra-subversão, campo onde o Instituto era muito prestigiado, tendo sido pioneiro, na década de 1920, da doutrina de emprego de meios aéreos no apoio à contra-subversão...

O dilema de qualquer governante paquistanês desde 1947 tem sido o de fazer a síntese entre as várias expressões de Paquistão. Há esta fracção ora descrita, minoritária mas que sempre foi muito insubmissa e militante, que está mais vocacionada para o vizinho ocidental – o Afeganistão – com quem tem aliás parentescos étnicos. Há também a fracção maioritária, mais sedentária e menos exuberante, nas províncias maiores do Pundjab e do Sind, embora ela também esteja dividida por divisões culturais.
O (escasso) rotativismo eleitoral que o Paquistão já teve, funcionou à volta de duas famílias de latifundiários do Punjab (os Sharif) e do Sind (os Bhutto). Qualquer mapa dos resultados eleitorais mostra que, dada a concentração regional dos votos, a vitória de qualquer um deles foi também a vitória de uma das duas principais regiões constituintes do Paquistão sobre a outra. Dada a ausência de práticas democráticas, o favorecimento de uma das facções cria, a prazo, uma enorme pressão na coesão nacional paquistanesa.

Aqueles que se consideram os verdadeiros intérpretes do ideal paquistanês são aqueles que imigraram para o Paquistão em 1947, quando da Partição, e que são conhecidos pela designação de mohajirs. Embora estejam, com os descendentes, estimados em apenas 4 a 7% da população total, a sua importância social é desmesuradamente muito superior ao seu peso social: Pervez Musharraf é um deles (nasceu em Nova Deli, na Índia), controlam economicamente Karachi, a capital económica do país e administrativamente o aparelho de estado.

São também eles os defensores da manutenção do urdu (a par do inglês) como idioma oficial do Paquistão. O urdu, actualmente conhecido através do sistema escolar por mais de 25% dos paquistaneses mas que não é o idioma nativo de qualquer dos povos que hoje pertencem ao Paquistão, é a versão islamizada do hindi, a língua oficial (também a par do inglês) da União Indiana. Apesar de escritas em alfabetos diferentes elas são inteligíveis e é por isso que a televisão indiana e os filmes de Bollywood* podem ser tão populares no Paquistão…

Mas, se as classes instruídas não se têm mostrado, na generalidade, hostis ao desempenho de Musharraf, também vieram a mostrar recentemente, através de manifestações colectivas que parecem ter bloqueado a tentativa de Musharraf de afastar o juiz Iftikhar Mohammad Chaudhry do Supremo Tribunal, que consideram que devem existir limites para o poder presidencial e que o Paquistão não deve ter à sua frente um déspota oriental como acontece normalmente com os outros países islâmicos da região.
Por causa das condições que presidiram ao seu nascimento em 1947, o Islão tem de ser sempre um componente indispensável à identidade nacional paquistanesa. Mas, como nas receitas, ele tem de ser em quantidade q.b. (quanto baste). Nada dos exageros produzidos pelas madrassas radicais das províncias marginais do Paquistão. Houve tempos, no passado, em que esses radicais foram activos de uma política externa dinâmica do Paquistão junto dos países vizinhos (Afeganistão ou Caxemira).

Agora, tornaram-se em passivos, numa chatice. Podem servir de apoio parlamentar às ficções eleitorais do regime de Musharraf mas as proezas de realizar atentados contra comboios indianos em Bombaim ou de dar apoio logístico a guerrilheiros empenhados em combate contra forças da NATO são gestos capazes de provocar a ponderação das autoridades paquistanesas sobre os benefícios recíprocos do entendimento... Embora desencadear a ruptura também tenha os seus riscos, sendo um deles o da decomposição do próprio Paquistão entre os das montanhas e e os dos rios.

Nesse eventual cenário, a Índia, que teria delirado há 20 anos com um desfecho desses, hoje tem de ter a preocupação de acautelar em quais das parcelas ficariam os detonadores das bombas atómicas… Há duas coisas que parecem certas: a política paquistanesa não se pode desviar muito das condicionantes que aqui tracei e elas manter-se-ão, qualquer que seja o protagonista, e o general estaria, de certeza, muito consciente de todas as implicações associadas à sua ordem de ataque à mesquita Lal Masjid na passada Terça-Feira…

* Trocadilho com Hollywood, referindo-se às produções de cinema indiano feitas em Bombaim, faladas em hindi e também em urdu. Curiosamente, o idioma popular em Bombaim não é o hindi, mas sim o marathi.

30 janeiro 2023

O ASSASSINATO DE GANDHI

30 de Janeiro de 1948. O Mahatma Gandhi - que nunca desempenhara qualquer função formal no governo da União Indiana - foi assassinado na capital Nova Deli, ao final da tarde. Como acontece com muita frequência nestes casos, em que o assassinado se destaca pela moderação quando duas comunidades se disputam violentamente (no caso, hindus e muçulmanos), o assassino foi um extremista da sua própria comunidade. (quase 50 anos depois, em 1995, aconteceria algo de muito semelhante com o primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin a ser assassinado por um extremista judeu). O funeral decorreu no dia seguinte. Vários jornais não se inibiram de noticiar um milhão de pessoas presentes. Mas, mais do que o seu número, o que a fotografia abaixo destaca foram os prodígios de esforço a que alguns se dedicaram para verem a pira funerária.

20 novembro 2022

UMA ESPÉCIE DE DESFORRA POR INTERPOSTO INIMIGO

20 de Novembro de 1962. Prosseguia a Guerra Sino-Indiana e os indianos estavam nitidamente a perdê-la. Em Portugal, a Índia fora erigida em inimigo principal depois da invasão de Goa, Damão e Diu em Dezembro de 1961. E as considerações sobre política internacional que se fizessem subordinavam-se a esse princípio. É isso pode explicar esta espécie de regozijo como é noticiado que o general Choudhery (que fora um dos comandantes que se destacara na invasão da Índia portuguesa) fora promovido para o comando do exército indiano. Ao jeito - mais subentendido do que explícito - de se tratar duma espécie de desforra. Mesmo que os promotores dessa desforra fossem os comunistas chineses, que também não eram particularmente bem quistos pelo Estado Novo, mas que, ao menos, não invadiam Macau... Vale a pena ainda acrescentar que, contrariamente aos vaticínios sugeridos pela notícia supra, a carreira do general Chaudhuri (e não Choudhery...) vai beneficiar daquela dose de sorte de que todos os generais precisam: neste mesmo dia em que ele tomou posse, a China anunciou um cessar fogo unilateral, a entrar em vigor à meia noite.

03 novembro 2022

AINDA UM OUTRO EPISÓDIO DA GUERRA SINO-INDIANA

3 de Novembro de 1962. Apesar das atenções do mundo se concentrarem no bloqueio naval de Cuba e na disputa entre soviéticos e norte-americanos, estes últimos não se distraíam dessa outra confrontação que estava a decorrer ao mesmo tempo nos cumes da cordilheira dos Himalaias entre chineses e indianos. E, surpreendentemente para o que vieram a ser os alinhamentos da Índia e da China depois disso até ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos saíam neste caso em apoio da Índia - que estava a ser derrotada - fornecendo-lhes armamento pertencente às tropas norte-americanas então estacionadas na Europa. Transportadas desde a Alemanha e mais do que se pode ler na notícia acima, aviões C-130 começaram a transportar para Calcutá, para além do armamento acima descriminado, artilharia de montanha para contrariar a superioridade que os chineses estavam a exibir nos campos de batalha. E este é apenas mais um daquelas dezenas de episódios, depois de 1945, em que os Estados Unidos municiaram generosamente aqueles que eles consideravam estar a combater por interesses estratégicos que lhes convinham, aos próprios Estados Unidos. Como hoje está a acontecer com a Ucrânia...

20 outubro 2022

A GUERRA SINO-INDIANA

20 de Outubro de 1962. Depois de semanas de um agudizar progressivo da tensão nas regiões fronteiriças do Himalaia entre chineses e indianos, eclode finalmente o conflito militar assumido entre os dois lados, a ofensiva, como se lê acima, foi desencadeada pelo exército chinês. Estes haviam transferido previamente tropas para as regiões disputadas - de muito fraca densidade populacional e situadas todas a mais de 4.000 metros de altitude - e gozavam de uma superioridade patente. No entanto, apesar dos sinais, os indianos viviam iludidos na húbris da superioridade militar de que haviam gozado quando da sua invasão dos territórios da Índia portuguesa, menos de um ano antes. A guerra, que durou um mês, já foi objecto de tratamento aqui neste blogue. O cessar-fogo foi uma situação satisfatória mas não uma solução de fundo para as divergências entre as duas partes. Também já foi objecto de tratamento alguns episódios que se lhe seguiram. Eram as duas potências mais populosas do Mundo em conflito militar directo mas, devido às circunstâncias e ao encadeamento noticioso, a atenção mediática dispensada ao acontecimento foi quase nenhuma. É a diferença entre o que é importante para a História e o que é importante para a informação. E um jornalista há-de ser sempre apenas um jornalista.

15 agosto 2022

«A PARTIR DE HOJE, A ÍNDIA GOVERNAR-SE-Á POR SI PRÓPRIA» e «UM ENCONTRO COM O DESTINO»

A Índia tornou-se independente há precisamente 75 anos. Tornar-se-ia de imediato o segundo país mais populoso do Mundo. Só apenas esse aspecto, conferiria imenso destaque ao acontecimento. Contudo, preste-se atenção à sobriedade da redacção do título escolhido pelo Diário de Lisboa para o anunciar. Constate-se como a palavra independência não aparece nem uma única vez naqueles primeiros parágrafos da notícia. E como, por causa do cuidado em evitar usá-la, o que se noticia parece por isso resumir-se, ridiculamente, a um simples novo procedimento administrativo: «A partir de hoje, a Índia governar-se-á por si própria». Em contraste, ouça-se e leia-se mais abaixo a tradução do início do discurso proferido na ocasião pelo primeiro primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru - «A Tryst with Destiny» (Um Encontro com o Destino). É considerado um dos dez mais importantes discursos em língua inglesa de todo o século XX.
Há muitos anos marcámos um encontro com o destino, e agora chega o momento em que resgataremos essa nossa promessa, não na sua totalidade ou plenamente, mas muito substancialmente.

Ao soar da meia-noite, enquanto o Mundo dorme, a Índia despertará para a Vida e para a Liberdade. Chega um daqueles momentos, que raramente ocorre na História, em que se sai do velho para o novo, quando termina uma Era e quando a Alma de uma nação, há muito reprimida, encontra a sua Expressão.

03 junho 2022

O DISCRETO ANÚNCIO DA FUTURA PARTIÇÃO DA ÍNDIA BRITÂNICA

3 de Junho de 1947. Foi assim, numa singela coluna das páginas centrais do Diário de Lisboa, ao lado de uma notícia bem mais desenvolvida e ilustrada de uns oficiais espanhóis que haviam sido condecorados pelo governo português por terem vindo a Portugal concorrer a um concurso hípico, que os leitores do jornal têm conhecimento da histórica notícia que as Índias britânicas se iriam cindir em dois países - Índia e Paquistão - quando da data da independência, que estava prevista para dali a pouco mais de dois meses (15 de Agosto). O mapa acima mostra o contorno que virão a ter os dois futuros países, uma informação que era desconhecida há 75 anos, já que as fronteiras ainda não estavam sequer traçadas. Ponderando a importância das duas notícias justapostas, tive dificuldade em encontrar o que foi feito do coronel D. Rafael García-Ciudad Reig, do tenente-coronel D. Faustino Domínguez Salgado ou do major D. Jaime García Cruz, os oficiais espanhóis condecorados com a Medalha de Mérito Militar (2ª classe). Sobre a Índia e o Paquistão, não tive - não tenho tido - qualquer dificuldade.

08 maio 2022

«SIDESHOWS» DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (11) – OS MOTINS DAS GUARNIÇÕES DAS ILHAS BRITÂNICAS DO ÍNDICO OCIDENTAL

A Ilha Christmas e as Ilhas Cocos estão situadas no Índico Ocidental, separadas por quase 1.000 km entre si e, no caso da primeira, situada a 400 km ao Sul de Java, a principal ilha da Indonésia. Apesar da proximidade geográfica e de aqui serem consideradas em conjunto, as ilhas são muito distintas, Christmas, com 135 km², é dez vezes mais extensa que as Cocos que são dois atóis com apenas 14 km². Mas uma e outras foram primordiais para o Império Britânico por causa da sua localização estratégica no eixo das comunicações marítimas entre a Austrália e a Índia. Comprovando essa importância, as Cocos haviam sido o alvo de uma das raríssimas operações navais alemãs fora do Atlântico durante a Primeira Guerra Mundial (Novembro de 1914) com o intuito de destruir as comunicações radio e telefónicas que ligavam Camberra a Nova Deli e Londres.
Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial no Extremo Oriente, o problema da defesa das ilhas tornava-se a colocar nos mesmos moldes, só que agora frente ao Japão. Resultado da dispersão dos recursos para outros Teatros de Operação mais importantes, as guarnições das ilhas eram escassas (algumas dezenas, efectivos comparáveis a uma pequena companhia) e constituídas por tropas coloniais, de origem indiana, cingalesa ou africana, embora enquadradas por europeus. A inexorabilidade da expansão nipónica após o ataque a Pearl Harbour, que os fez conquistar Hong-Kong, a Malásia, Singapura, as várias ilhas da Indonésia e das Filipinas nos meses iniciais de 1942, mais do que propriamente à sua propaganda anti-colonial apelando à solidariedade entre povos asiáticos, havia deixado a moral das guarnições de rastos, antecipando uma derrota sangrenta e inútil às mãos de uma expedição sanguinária de centenas de japoneses...
A 10 de Março de 1942 em Christmas e, quase dois meses depois, a 8 de Maio nas Cocos, as guarnições locais, indiana no primeiro caso, predominantemente cingalesa no segundo, amotinaram-se. O desfecho foi diferente, assim como veio a ser história dos dois locais até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Em Christmas o motim vingou com a morte dos oficiais e sargentos europeus, a ilha foi assaltada e conquistada (sem resistência) três semanas depois pelos japoneses, que a ocuparam até depois do fim da Guerra (Outubro de 1945). Nas Cocos os amotinados foram derrotados e apenas se pode especular sobre qual teria sido o comportamento da guarnição em caso de desembarque japonês porque não chegou a existir. Contudo, uma lição os britânicos parecem ter recolhido destes dois episódios, insignificantes à escala do magno conflito, mas significativos do ponto de vista político e das suas relações com os povos colonizados…
Como se nota nesta fotografia acima de soldados dessa mesma guarnição das Cocos apenas um par de anos depois dos acontecimentos (mas ainda durante a Segunda Guerra Mundial), é sempre preferível guarnecer esses lugares isolados com uma saudável mistura entre tropas metropolitanas e coloniais…

12 abril 2022

APRENDER A LER OS SUBENTENDIDOS DE UM JORNAL PORTUGUÊS DURANTE O PERÍODO DO ESTADO NOVO

12 de Abril de 1962. Em primeira página, o Diário de Lisboa anuncia a libertação próxima dos rebeldes cubanos que haviam estado envolvidos no desembarque da Baía dos Porcos em Abril do ano anterior. A habilidade de um leitor português de há sessenta anos era perceber que o destaque dado àquela notícia era uma alusão indirecta aos soldados portugueses que ainda estavam aprisionados na Índia, na sequência da invasão desta de Goa, Damão e Diu de Dezembro de 1961. Por sinal, sabe-se hoje que a notícia era falsa ou, pelo menos, muito prematura: os exilados cubados só irão ser libertados pelo governo de Fidel Castro em finais de Dezembro daquele ano. Mas, perguntar pelo andamento das negociações para a libertação dos prisioneiros portugueses na Índia era, como se imagina, um assunto tabu na imprensa portuguesa.

13 março 2022

«A PRISÃO DO AGITADOR GANDHI» NOS TEMPOS EM QUE AS NOTÍCIAS CORRIAM DEVAGAR MAS EM QUE A JUSTIÇA ERA CÉLERE

13 de Março de 1922. A notícia do Diário de Lisboa da «prisão do agitador Gandhi» era dada como originária de Bombaim. Por sinal, essa prisão fora efectuada em Amedabade (e não Ahmecabad...) no Gujarate (o estado natal de Gandhi), e ocorrera três dias antes, a 10 de Março. Como se depreende, está-se perante um jornalismo vagaroso e displicente. O mesmo não se poderá dizer da justiça. Já na própria notícia se percebia a preocupação em que o julgamento fosse célere, terminasse «dentro de 15 dias». Nem isso. O réu confessou desde o princípio a sua intenção sediciosa de «provocar o ódio e o desprezo pelo governo estabelecido por Lei na Índia BritânicaSimplificados os procedimentos, Gandhi veio a ser condenado a seis anos de prisão, pena que começou a cumprir em 18 de Março de 1922. Gandhi já era uma figura suficientemente importante para que lhe fosse dedicado um pequeno documentário de quase três minutos (mudo, como todo o cinema de então). Mas o poder das imagens, sobretudo as suas vestes ascéticas, até nos faz esquecer que fora apenas seis meses antes que Gandhi decidira deixar de envergar roupas ocidentais.