31 outubro 2021

AINDA SE LEMBRAM DE QUANDO DONALD TRUMP PRETENDIA PESPEGAR A CARA DELE NO MONTE RUSHMORE?...

...fingindo - canhestramente - que não. Até parece que foi no século passado, mas foi apenas há catorze meses (Agosto de 2020). Diga-se o que se disser em contrário, há uma fracção dos americanos que parece estar cá com uma pressa em enterrar na memória os episódios concretos da palhaçada em que se tornou todo o período da presidência de Donald Trump...
Recupero esta publicação porque hoje se completam precisamente 80 anos da inauguração do monumento.

DAS ENTRADAS POR SAÍDAS...

Como alguma actualidade deste fim de semana está dominada por um certo frenesim ultrajado que está a ser provocado pela ressonância às notícias dos abandonos do CDS, lembrei-me de memória de uma história antiga, constante da biografia de Jorge Sampaio de José Pedro Castanheira, uma história que tem a ver com entradas, não com saídas, mas que tem sobretudo a ver com a ressonância mediática do gesto da entrada (por saída). E é assim que nos vamos transportar até ao ano de 1978, quando as derivas teórico-esquerdistas de Jorge Sampaio e de um núcleo fiel que o acompanhava (o grupo do Flórida - um snack-bar de um hotel do Marquês de Pombal) os haviam conduzido a um impasse político. Colocou-se a questão de se filiarem no PS (que estava então no poder). Só que os socialistas e Mário Soares faziam questão que as adesões se processassem individualmente e Jorge Sampaio, arrancando uma última concessão, exigiu que essas adesões fossem noticiadas com destaque de primeira página no Diário de Notícias. Mário Soares terá mostrado relutância e invocado uma impotência que a continuação dos acontecimentos tornou cómica, pois no dia convencionado - 20 de Fevereiro de 1978 - lá estava, em primeira página, uma oportuna reflexão de Mário Mesquita (director interino do jornal e militante socialista) sobre o significado da adesão daquele lote de intelectuais que constituíram uma nova ala esquerda do partido. A fotografia acima é a da página 591 da biografia de Sampaio, e inclui a famosa capa do Diário de Notícias que Mário Soares não sabia se conseguia publicar...
Porém, outros jornais desse mesmo dia deram um destaque menor à notícia, caso do Diário de Lisboa, que a empurrou para a sua segunda página como se pode observar acima. A esta distância, é um pouco difícil avaliar qual dos dois jornais terá adoptado um princípio editorial mais equilibrado. É verdade que a adesão ao PS de um punhado de intelectuais - que, apesar de só se representarem a si próprios, sempre haviam disposto de uma imprensa extremamente benévola para com eles - não constituiria, por si, um acontecimento de uma notoriedade por aí além. No Diário de Notícias forçara-se a nota, exigência de Jorge Sampaio. Mas, por outro lado, também não é possível avaliar com neutralidade a decisão do Diário de Lisboa de remeter o assunto para o interior do jornal, conhecidas que eram as suas simpatias comunistas e, mais do que isso, a atitude descaradamente anti-PS daquele jornal naqueles anos. Note-se a esse respeito que, se em Fevereiro de 1978, as 31 entradas para o PS não haviam merecido o destaque de serem noticiadas na primeira página, já em 6 de Julho desse mesmo ano (abaixo), havia 33 saídas do PS que o mereciam... Ou seja não é só a importância noticiosa das entradas num determinado partido que variam de jornal para jornal, num mesmo jornal elas podem variar conforme se trate de entradas ou de saídas. É uma questão de jornal...
Enriquecidos com as lições desta evocação do passado, regressemos então ao presente e ao destaque noticioso, não apenas de hoje, mas que, de há uns meses para cá, se tem estado a dar aos abandonos do CDS. Por exemplo, algumas das notícias de desfiliações que têm sido dadas pelo Público, que a da refiliação do antigo presidente do CDS, Manuel Monteiro, não chega para anular. Com a convicção que o encadeado e a ressonância das notícias continua, como outrora, a nada ter de inocente. E, também como outrora, com a convicção que a notícia da entrada para o PS de Jorge Sampaio (e os outros) tem a mesma irrelevância política (a curto prazo) que a saída do CDS de Adolfo Mesquita Nunes e dos outros terá. Aliás, e continuando a pensar a curto prazo, não percebo de todo este frenesim para dominar o partido quando as perspectivas eleitorais do CDS se apresentam tão deprimentes para o próximo acto eleitoral. Porque não deixam o Chicão ir a votos e sair-se com o resultado medíocre que quase todos vaticinam? Depois disso, com uma representação parlamentar que já nem será a de um táxi, não lhe restará outra opção senão demitir-se (como aconteceu, de resto, com Assunção Cristas). Ou terá Nuno Melo a ingenuidade de acreditar-se capaz de reverter esse desfecho eleitoral no curto prazo de tempo de que dispões? Ou então nada disto é ingénuo, e é tudo uma questão de disputar um, dois ou três lugares de deputados? Se for, é muito triste.

30 outubro 2021

A BOMBA TSAR

Se a Corrida Nuclear terá começado a 16 de Julho de 1945, quando os Estados Unidos realizaram o seu primeiro ensaio nuclear em Alamogordo, no Novo México, também se poderá dizer que ela terá atingido o seu apogeu – qualitativamente – em 30 de Outubro de 1961, há precisamente sessenta anos, quando a União Soviética realizou o maior de todos os ensaios nucleares de sempre ao detonar uma bomba que era 2.500 vezes mais potente do que a de Alamogordo. Depois desse teste, tendo a disputa pela qualidade atingido o limite do absurdo, a Corrida Nuclear transferiu-se para a quantidade de ogivas nucleares, como se pode ver no gráfico acima. O engenho que foi testado há quase 47 anos (acima - com 27 toneladas), cuja designação oficial era RDS-220, fora alcunhada pela equipa que o construíra por Большой Иван (João Grande), mas veio depois a ser conhecida no Ocidente por Bomba Tsar (Царь бомба), nome que veio a pegar. Trata-se da maior arma nuclear jamais construída e arrepia-nos ainda mais saber que, na sua configuração original, ela fora concebida para produzir uma detonação que fosse equivalente a 100 Megatoneladas de TNT, o que seria correspondente ao dobro da energia (50 Megatoneladas) que foi efectivamente libertada durante o teste realizado. Apesar do carácter remoto do local escolhido para o teste (o arquipélago de Novaya Zemlya no Árctico - veja-se a localização assinalada acima), vários problemas de ordem técnica impediram que o potencial da arma fosse testado em pleno nas suas 100 Megatoneladas. Uma das questões importante era a dos resíduos radioactivos causados pela explosão que, naquela configuração, iriam atingir as zonas habitadas da própria União Soviética. Outro problema, não despiciendo, é que, com aquela potência, o mais provável seria que a tripulação do bombardeiro encarregue de lançar a bomba não tivesse possibilidades de sobreviver ao teste… Mesmo com a potência limitada em 50%, o resultado do teste impressiona (veja-se o gráfico comparativo acima). Os dados a ele referentes são superlativos: lançada de 10 km de altitude por um TU-95 modificado para o efeito, a bomba foi concebida para detonar quando atingisse os 4 km de altitude. A bola de fogo provocada pela detonação (abaixo) com cerca de 9 km de diâmetro pôde ser observada até 1.000 km de distância, os efeitos de choque por ela provocados na crosta terrestre puderam ser medidos por três vezes a dar a volta à terra e o cogumelo que se formou em consequência da detonação atingiu os 60 km de altitude… Embora o projecto fosse um enorme disparate, tanto do ponto de vista científico como do ponto de vista militar, como aliás o futuro viria a comprovar, Nikita Khrushchov (1894-1971), o líder soviético de então, tão exuberante quanto bronco, mas sempre politicamente arguto, não deixou escapar mais esta ocasião de humilhar os norte-americanos naquilo que eles tanto prezam: também nas bombas atómicas, os soviéticos passavam agora por ser os maiores (the biggest)…

29 outubro 2021

MARCELO VAI AO MULTIBANCO

O que eu acho espantoso em toda esta cena, digna dos Monty Phyton, não é o Marcelo a escapulir-se por uma porta lateral para ir pagar uma conta ao multibanco. O ridículo é a turba que o acompanha, quais galinhas sem cérebro, só com instinto. E é sobretudo a forma como os comentadores das televisões se eximem da sua responsabilidade da palhaçada que insistem em transmitir. Marcelo desta vez - excepcionalmente! - não disse nada e quando se percebe que apenas está interessado na caixa multibanco deixa de haver assunto de reportagem. O que é que continua aquele circo ambulante ali a fazer, à volta do homem? Quem são os palhaços que só não se comportam decentemente porque têm receio que a concorrência tire vantagem disso? Não será que os jornalistas, pretendendo rir das excentricidades do Marcelo, não estarão a rir das figuras que se obrigam fazer?
Peço desculpa aos leitores mas aqueles senhores do blogger que andam sempre em manutenções fizeram merda mais uma vez. Alteraram-me a configuração da página sem que eu tivesse pedido ou intervindo. Já me queixei, mas até que desfaçam a merda que fizeram vai durar tempo. Uma das consequências é que não se consegue clicar nos postes do blogue e assim não se consegue accionar o vídeo do Marcelo para o apreciar. E se ele merece ser apreciado! Para o fazer há que levar o cursor até ao título do poste (Marcelo vai ao multibanco) e clicar em cima desse título. Passa a só ficar visível esse poste mas também passa a ser possível clicar em cima do vídeo e accioná-lo, assim como aceder à caixa de comentários. O blogue, aliás, assume a apresentação normal que tinha antes das experiências. Mais uma vez as minhas desculpas.

A EXONERAÇÃO DE JOÃO SALGUEIRO

A exoneração do subsecretário de Estado do Planeamento Económico é um assunto que importa assinalar porque já aqui há um ano, havia publicado neste mesmo blogue uma entrada dando João Salgueiro como uma das referências dos tecnocratas - em ascensão - no tempo do marcelismo. Como aconteceu em tantos outros tópicos, também na tecnocracia o marcelismo prometeu muito e viria a cumprir muito pouco. Pelo subtítulo da notícia da exoneração, constata-se que João Salgueiro ocupara a pasta durante 31 meses. Ora, ninguém abandona naturalmente uma missão desta complexidade ao fim de apenas dois anos e meio. Não o afirmando expressamente, e como tantas vezes acontecia nas notícias publicadas que pretendiam fintar a eventual acção da censura, competia ao leitor atento deduzir o que acontecera. As reformas do marcelismo haviam começado em cabeçalhos nas primeiras páginas do jornal mas, três anos depois da posse de Marcello Caetano, iam sendo enterradas numa notícia plena de subentendidos numa discreta página 9.

28 outubro 2021

A MÃO DE MARCELO... e a «mão» do PÚBLICO

Este é um artigo que me recomendaram e que aparece publicado na versão on-line do Público. O autor é um deputado do PSD considerado próximo da facção de Rui Rio, mas o que torna o artigo oportuno é a crítica severa que contém à conduta que o presidente da República tem assumido na disputa interna do partido. Por regra, não uso este modesto blogue para fazer ressonância ao que se publica noutros suportes com muito maior projecção. Agora, ele há coisas que, de tão flagrantes, me irritam. E uma delas é o facto deste artigo do deputado Hugo Carneiro ter sido excluído da versão em papel do Público. E o artigo foi excluído, apesar da sua flagrante oportunidade, por evidentes critérios editoriais, para dar espaço...
...por exemplo, a tópicos tão indispensáveis, nestas circunstâncias, como o acordo ortográfico, escrito pelo jornalista Nuno Pacheco, ou então uma análise do problema da ocupação do Sara Ocidental, vindo da pena do antigo ministro Azeredo Lopes. Ontem, no mesmo espaço de opinião, os leitores do Público em papel haviam sido brindados com uns considerandos pasionários pela antiga ministra Paula Teixeira da Cruz, mas essa, assumidamente, não gosta de Rui Rio. A subalternização do tratamento do artigo de Hugo Carneiro é tanto mais relevante quanto se tem notado na comunicação social um esforço consistente para tratar pelo mínimo a interferência recente de Marcelo Rebelo de Sousa na disputa interna do PSD. Mas vamos fingir acreditar que tudo isto acontece por critérios editoriais...

UMA DAS COISAS MUITO POSITIVAS DA QUEDA DO GOVERNO...

...é que põe fim ao folhetim da resistência patética do primeiro-ministro à demissão inevitável do seu ministro da Administração Interna, transformado num palhaço político que ainda anda por aí, que dá pelo nome de Eduardo Cabrita. Comparem as duas notícias acima: na da esquerda, de 2018, ele considerava «absolutamente inaceitável» o elevado número de atropelamentos e admitia generalizar - reduzir! - os limites de velocidade; na da direita, de 2021, era o seu carro oficial - onde viajava - o protagonista de um atropelamento (mortal) quando seguia numa auto-estrada a uma velocidade que ainda hoje é um segredo de estado. O governo do PS caiu por causa da votação de ontem. Mas já andava a tropeçar há vários meses.

27 outubro 2021

O FRENTE A FRENTE NO «CHECK POINT CHARLIE» EM BERLIM

27 de Outubro de 1961. Depois da construção do Muro de Berlim em Agosto, o «check point Charlie» ficara a constituir um dos poucos pontos da cidade em que se podia realizar a travessia de um lado para o outro das duas Berlins agora separadas por um muro contínuo. A confusão de há sessenta anos começou quando as autoridades de Berlim-Leste começaram a exigir a documentação aos soldados aliados da guarnição de Berlim quando pretendiam visitar o «outro lado», algo que ia contra os acordos de ocupação que haviam sido firmados pelas quatro potências desde 1945. Isso não se alterara. Os ânimos exaltaram-se e, durante 16 horas de 27 de Outubro de 1961, houve um frente a frente com carros de combate enfrentando-se naquele ponto quente da cidade de Berlim. Analisando a situação friamente e na eventualidade de uma conflagração militar, a situação seria inglória para os militares norte-americanos, isolados em pleno território controlado pelos soviéticos. Contudo, do ponto de vista propagandístico para berlinenses de Oeste, e mesmo todos os países ocidentais, acontecia precisamente o contrário: era reconfortante assistir à primeira reacção desagradada à construção do Muro. E a fotografia que a exibia (abaixo) correu Mundo.

O WHISKY QUE «APARECEU» NAS ROCHAS

27 de Outubro de 1981. Um submarino soviético apareceu subitamente encalhado nas costas suecas, a cerca de dois quilómetros (apenas) da mais importante base naval daquele país… e o navio até nem fora oficialmente convidado a visitar a Suécia. Como um rato que é apanhado por uma ratoeira, esta é uma daquelas notícias que se percebe pertinente pelo seu carácter insólito. Sendo a Suécia totalmente banhada pelo Mar Báltico, convém relembrar como era a situação estratégica naquela região marítima em 1981, em plena Guerra-Fria
Dos oito países ribeirinhos, havia três que pertenciam à NATO (Noruega, Alemanha Ocidental e Dinamarca), outros três pertenciam ao Pacto de Varsóvia (Alemanha de Leste, Polónia e União Soviética) e mais dois assumiam-se como neutrais (Finlândia e Suécia). Ora um submarino de uma das facções que é apanhado em flagrante a espiar as costas de um inimigo, ainda vai que não vai, agora a espiar um dos neutros é que dava muito mais aspecto à facção dos espiões. Para mais, quando o comandante chefe sueco até tinha uma visita de cortesia à União Soviética marcada para Novembro.
Mas, por outro lado, o episódio também não enaltecia a eficácia militar dos suecos, porque o submarino estivera encalhado durante umas 18 horas a tentar sair da situação pelos próprios meios antes de alguns pescadores civis terem dado por ele - e isto apesar da proximidade da base…. Mas o aspecto ridículo e até cómico da situação desapareceu subitamente quando uma frota de navios da Marinha Soviética acompanhando rebocadores se apresentou ao largo das águas territoriais da Suécia, mostrando a intenção de resgatar, eventualmente pela força, a unidade acidentada e a sua tripulação.
A intenção demonstrada pelos suecos de ripostar proporcionadamente a essa demonstração de força fez os soviéticos recuar perante um conflito militar que, mesmo que limitado, a sua diplomacia sabia que se tornaria num enorme desastre de relações públicas, de escala Mundial. Seguiu-se depois uma fase de intensas negociações entre as partes. Eliminadas as possibilidades de conseguir resgatar o submarino de surpresa ou à força, as vantagens estariam agora todas do lado sueco: era a parte ofendida e o passar do tempo corria a seu favor. Um dispositivo de segurança foi montado à volta do local do incidente…
Pertencendo o submarino a uma classe que na NATO fora baptizada com o código de Whiskey (baseada na letra W do seu alfabeto fonético), o episódio acabou por ganhar na rede noticiosa mundial a alcunha de Whiskey on the Rocks por trocadilho com a popular bebida de whisky simples com gelo. Depois da situação se arrastar por dez dias, a Suécia acabou por autorizar que o submarino fosse desencalhado do local onde ficara para depois ser rebocado para alto mar sob sua supervisão. A data era 7 de Novembro de 1981 e os soviéticos festejavam o 64º aniversário da sua Revolução...

26 outubro 2021

MAIS DO QUE OPINIÃO PÚBLICA E MAIS DO QUE OPINIÃO PUBLICADA, ESTAMOS NA ÉPOCA DA OPINIÃO CONSENSUAL

Se há alguma lição a retirar da surpresa como ocorreu esta crise política é a de constatar como as opiniões publicadas são geridas pelo poder político, nomeadamente o governamental. Como nas hostes socialistas não se configurara qualquer cenário em que todos os seus potenciais parceiros políticos se recusassem a alinhar consigo, ia haver muita emoção até ao cair do pano, mas garantidamente não ia haver crise. Vale a pena recuperar, para troça, este cabeçalho acima do jornal Sol, publicado há apenas três dias. Apetece perguntar agora: quem é que plantou aquilo?... Pouco importa, porque a diversão passou agora para os «comentadores a tentarem explicar a lógica de uma coisa que pura e simplesmente não viram chegar.» E isto é uma citação de um comentador (João Miguel Tavares), enquanto nos explica que ele não, ele é que fora mais presciente do que os outros comentadores. Essencialmente, pelo que li e enquanto se foi formando como uma tempestade, ninguém deu por ela - pela crise - até há poucos dias.
O esforço dos comentadores em pretenderem que o que aconteceu não aconteceu com eles, só com os outros, faz-me lembrar os jogos de cintura de quem joga hula-hoop: o arco nunca vai ao chão... E, porque se convencem que nos convenceram, é que nem darão mostras de se quererem moderar com os erros. Não anteciparam a crise política, mas já tem prognósticos garantidos para as eleições que se antecipam: «Só mesmo o Chega e a Iniciativa Liberal (...) são os únicos vencedores antecipados de umas eleições que podem correr muito mal a muita gente.», escreve João Miguel Tavares. Outro que também acha coisas consentâneas com o comentário consensual é André Azevedo Alves: «Os únicos beneficiários claros [de eleições antecipadas] são o Chega e a Iniciativa Liberal». Claro que quando se proceder ao escrutínio dos votos, no dia das eleições, poderá haver «vencedores não antecipados» (desdizendo Tavares) ou então «beneficiários menos claros» (contrariando os «estudos políticos» de Azevedo Alves). Essa história de andar - metaforicamente - com o hula-hoop à volta da cintura também cansa e descredibiliza.
Por sinal, e em nota de rodapé, permitam-me discordar desta história, mais uma vez consensual, de associar a Iniciativa Liberal ao Chega. Este último já deu provas do que pode valer eleitoralmente, nomeadamente quando André Ventura recebeu quase 500.000 votos nas eleições presidenciais do princípio deste ano. Mas a Iniciativa Liberal (cujo candidato recebeu 135.000 votos nessas mesmas eleições) parece o exemplo reencenado de um fenómeno que apareceu logo nos princípios da nossa democracia, há 40 anos, e que se denominava por «síndrome de PPM»: havia imensa gente a confessar gostar do partido, tinha uma imprensa extremamente simpática (nomeadamente para com o seu líder, Gonçalo Ribeiro Teles),... só que essa simpatia nunca se conseguiu traduzir em votos. Agora, também tenho visto a Iniciativa Liberal a ser levada ao colo como o faziam com o PPM. Mas, tomando como referência mínima os 250.000 votos que diferenciam eleitoralmente uma formação política de um epifenómeno, surpreender-me-ia se o Chega não ultrapassasse essa meta nas próximas eleições, enquanto não tenho qualquer certeza que os liberais a consigam sequer alcançar.

CONSTRUÇÃO DA FONTE CENTRAL NO LARGO DONA ESTEFÂNIA

O ano é 1951 e o Neptuno, que ainda hoje a enfeita, já está instalado na fonte central do Largo Dona Estefânia, muito antes da chegada da água que o legitima. No canto superior direito, vindo da Rua Almirante Barroso, identifica-se um dos pioneiros autocarros da Carris, importados de Inglaterra e, por isso, com o volante à direita. A fotografia é de Armando Serôdio.

25 outubro 2021

ADMISSÃO DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA NA ONU

25 de Outubro de 1971. Com a admissão da República Popular da China na ONU, aquele organismo acolhia finalmente, e apenas 22 anos depois, a realidade da vitória dos comunistas na guerra civil chinesa. E fazia-o apenas porque os Estados Unidos se preparavam para realizar uma inflexão substantiva na sua política externa, que viria a ser consagrada pela primeira visita de um presidente americano (Richard Nixon) à China, que se realizaria daí a quatro meses. No processo, os Estados Unidos tiveram que sacrificar a representação de Taipé (República da China), já que Pequim se recusava liminarmente a aceitar a coexistência das duas representações. O secretário-geral da ONU da altura chamava-se U Thant, era birmanês, e hoje ninguém já se lembra dele quando se mencionam estes acontecimentos históricos. Este que agora ocupa o lugar, nós sabemos o seu nome e damos-lhe atenção porque é português, mas não nos iludamos quanto à importância histórica do cargo.

24 outubro 2021

TRADIÇÕES DE OUTONO

Assim como existe o Verão de São Martinho há uma outra tradição de Outono de que se fala bastante menos: as primeiras grandes chuvadas que, com um sistema de escoamento negligenciado por meses sem utilização, se transformam depois em grandes inundações. Esta foi há precisamente noventa anos, a 24 de Outubro de 1931. À época era um dia em cheio para os bombeiros e os jornalistas iam lá depois saber o que acontecera. Hoje vai para lá tudo ao mesmo depois, especialmente repórteres de imagem das tvs, quando não mesmo uns espontâneos. E depois há as culpabilizações: até há uma semana a culpa era do Medina, agora é do Moedas. Quanto à acção preventiva, isso é um costume completamente contrário aos costumes portugueses. E, por outro lado, ser medianamente competente não é sequer remunerador, porque os jornalistas vão dar as notícias das inundações que ocorreram, não daquelas que se evitaram.

A PRIMEIRA FOTOGRAFIA NO ESPAÇO

Apesar do aspecto banal, desinteressante até, esta fotografia tem o valor histórico de ter sido a primeira feita no espaço, a uma altitude de 104 km, em 24 de Outubro de 1946, completam-se hoje 75 anos. Até aí, a foto tirada a maior altitude fora feita de um balão, a 22 km da superfície terrestre, em 1935. O transportador da máquina de 35 mm que captou esta imagem foi um dos famigerados foguetões V-2 de concepção alemã que, finda a Segunda Guerra Mundial, continuaram a ser testados e desenvolvidos, só que agora nos e pelos Estados Unidos. Regista-se a curiosidade de que o teste em que esta fotografia foi obtida (o 13º) correu anormalmente: algo falhou no sistema de propulsão porque um V-2 conseguia normalmente atingir altitudes muito superiores aos 100 km. Porém, o dispositivo automático acoplado à máquina funcionou sem problemas embora, obviamente, a câmara contendo o respectivo negativo tivessem que ser depois recuperados em terra porque nesses anos a transmissão de dados fotográficos por rádio – indispensáveis para a esmagadora maioria das fotografias espaciais que hoje existem – ainda era ficção científica. O negativo foi leiloado em 2015.

23 outubro 2021

RELEMBRAR QUANTO «OS PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES NÃO ESTAVAM NADA UNIDOS»...

Apesar dos apelos dos slogans marxistas*, a ambicionada unidade do proletariado de todo os países, acaba por ser uma grande aldrabice. A sessão do congresso anual dos sindicatos britânicos de há 75 anos mostrava-o à saciedade. A sessão é descrita como «tempestuosa» e foi dominada pela hostilidade dos congressistas para com os trabalhadores imigrados polacos, descritos como «os visitantes mais impopulares que a Grã-Bretanha tem tido». Lembre-se que, depois de 1945, os comunistas se haviam apropriado no poder na Polónia. Por isso, a questão da presença de trabalhadores polacos no Reino Unido, muitos dos quais se tinham ali refugiado durante a Segunda Guerra Mundial, continha uma delicadeza política que se sobrepunha a considerações económicas da disputa dos mesmo postos de trabalho com os trabalhadores britânicos entretanto desmobilizados. A acrescer a isso, o governo britânico era trabalhista, de uma esquerda que ia buscar a sua maior sustentação política precisamente àqueles sindicatos que agora se manifestavam contra os polacos. Esta hostilidade dos proletários britânicos para com os proletários polacos que não queriam regressar ao seu país, agora teoricamente dirigido por uma ditadura do proletariado, possui uma ironia acrescida quando observada agora a esta distância de 75 anos: a comunidade polaca no Reino Unido cresceu enormemente no século XXI, tendo passado de 66.000 pessoas em 2001 até ultrapassar as 900.000 pessoas em 2016, ano do referendo do Brexit; depois disso, a comunidade reduziu-se em 25%, nomeadamente no contingente de camionistas que se encarregavam dos transportes rodoviários. Essa falta - estimada em 100.000 camionistas - está a fazer-se sentir seriamente no Reino Unido, provocando várias rupturas de stocks de muitos produtos de consumo, o mais preocupante são os combustíveis. A questão é que os camionistas polacos, instados a retomar o trabalho no Reino Unido, não se mostram interessados nisso - «Não, obrigado, primeiro-ministro», é a resposta de um camionista polaco a uma oferta de um visto de trabalho por três meses. Há que concordar que faz um certo contraste com a forma como os seus avós eram tratados há 75 anos.
* Há uma corrente do nosso pensamento intelectual muito minoritária, muito ignorante, mas muito assertiva, que atribui a autoria da frase a Lenine (Fernanda Câncio).

22 outubro 2021

A OPERAÇÃO OSOVIAKHIM

22 de Outubro de 1946. Desde o começo do dia contingentes do NKVD, sob a supervisão global do general Ivan Serov, iniciam um processo de «arrebanhamento» de mais de 2.500 quadros técnicos alemães especializados, que então trabalhavam em laboratórios e fábricas de regiões da Alemanha Oriental, que estavam então sob ocupação soviética. A intenção é de os «transferir» para trabalharem na União Soviética e, conjuntamente com eles, foram reunidos também cerca de mais 4.000 familiares que os acompanhariam nessa «transferência». A transferência de muito equipamento industrial da Alemanha para a União Soviética começara logo depois do fim da Guerra, em Maio de 1945. No que diz respeito às indústrias de ponta alemãs, os norte.americanos e os britânicos também não se tinham atrasado em capturar e desmontar o equipamento industrial que lhes interessava. Mas o problema principal com que todos eles, as potências vencedoras, se deparavam era a questão do «know-how» tecnológico e a sua transferência para cientistas e técnicos nacionais. E para isso era preciso mesmo controlar os quadros qualificados. Mas, enquanto os Estados Unidos montaram uma operação com uma aparência cativante - condições de trabalho e remuneração excepcionais - denominada Operação Paperclip, a União Soviética não estava para essas cortesias; a sua Operação Osoviakhim, que começou há precisamente 75 anos, fora concebida à medida das directivas de um regime de Estaline. Repare-se que a iniciativa foi rapidamente identificada e denunciada: no dia seguinte aparecia esta notícia acima no Diário de Lisboa. Claro que a denúncia não teve qualquer consequência. Os cientistas foram para a Rússia, ponto final.

21 outubro 2021

QUANDO UM NULO ATÉ PODE PASSAR A SER UM CONSOLO

Quando se lê a crónica (do dia seguinte) deste Benfica - Bayern que se disputou há precisamente 40 anos, e que terminou com um empate 0-0, há que relativizar o descontentamento e dar algum desconto à severidade do que Neves de Sousa escrevia então do comportamento em campo da equipa portuguesa (adjectivo que, naquela altura, se aplicava à equipa e à nacionalidade dos jogadores - 11 em 13 dos que jogaram). O empate dava muito poucas expectativas de passagem à próxima eliminatória (o Benfica viria, de facto, a ser eliminado) mas até um nulo constitui um resultado reconfortante perante os 0-4 do Benfica - Bayern de ontem à noite, com os golos do Bayern a serem todos marcados nos últimos 20 minutos de jogo...

OS "LULUS" DA BARONESA

Cascais, 1951. A fotografia acima apareceu inserida numa reportagem de uma edição da revista LIFE sobre as nobrezas europeias que se haviam exilado nestas paragens lusitanas durante e depois da Segunda Guerra Mundial. O autor é o fotógrafo americano Gordon Parks. A modelo - se assim se pode dizer... - é a baronesa alemão Walburga von Friesen de 65 anos, que passeia os seus cães. Os cães são dachshunds. Mas a fotografia é dominada pelo pés descalços da senhora que passa por detrás e que a revista não se dá ao incómodo de identificar - é de origem local, não se exilou... Foi há 70 anos, ainda o PAN não existia para se preocupar com os animais e a natureza. Havia ainda que calçar as pessoas...

20 outubro 2021

PORQUE É QUE HÁ CERTAS NOTÍCIAS QUE NÃO SÃO NOTICIADAS?

Comece-se por explicar que o primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, esteve ontem de visita ao parlamento europeu, em Bruxelas. Onde foi ostensivamente maltratado. Não apenas pelos parlamentares europeus, mas também pelos membros da comissão, a começar pela sua presidente Ursula von der Leyden. O governo polaco está entalado entre as suas (naturais) pretensões de soberania, a sanção de Bruxelas de não lhes conceder os fundos comunitários e uma opinião pública polaca que, ao contrário da britânica, se mostra esmagadoramente a favor da permanência na União Europeia (17% a favor da saída contra 62% a favor da manutenção). Mas chega de falar do que é importante. Falemos do que é noticiável, nomeadamente o episódio que aparece no vídeo acima, que foi protagonizado pelo próprio Mateusz Morawiecki e pelo eurodeputado português Pedro Silva Pereira, naquela ocasião a presidir aos trabalhos parlamentares enquanto o polaco discursava. Apesar de não ter encontrado nenhuma versão em português, o episódio conta-se em poucas linhas: o 1º ministro polaco estava a prolongar o seu discurso, o  presidente em exercício da câmara já o havia instado por mais do que uma vez a terminá-lo, o orador queixou-se da insistência, dizendo que estava a cumprir o que fora combinado, um discurso de 30 a 35 minutos, ao que o português replicou que não confirmava aquela afirmação (ou seja, o polaco estava a mentir*). A cena foi rematada pelo pedido do polaco: «Não me interrompa, por favor». O eurodeputado socialista português no entanto, reservou para si uma punchline depois do 1º ministro polaco ter terminado o seu discurso: depois de enfatizar que procedera com a maior tolerância para com a ultrapassagem do tempo concedido, alertou que o respeito demonstrado pelo tempo concedido também era uma medida do respeito demonstrado pelo 1º ministro polaco para com aquela casa da democracia europeia. Ora se, quando do futebol internacional, é notícia de destaque um golo de um dos jogadores portugueses a actuar em qualquer dos grandes clubes por essa Europa fora, é com grande estranheza que não vejo este golo europeu de Pedro Silva Pereira a ser destacado pelos noticiários nacionais, para mais quando se trata de um eurodeputado socialista. Será porque, mesmo tratando-se de um socialista, não interessa dar-lhe destaque mediático por se tratar de um socratista?...

* Os serviços fizeram depois saber que o que ficara acordado era que von der Leyden e Morawiecki fariam os dois, por essa ordem, uma curta intervenção de cinco minutos ao parlamento. De facto, a intervenção da presidente da comissão durou cerca de dez minutos; a do 1º ministro polaco trinta e três minutos (e a notificação do presidente Pedro Silva Pereira, que aparece acima, ocorreu quando já haviam passado 27 minutos de discurso)

OS 25 ANOS DA «MARCHA BRANCA» DE BRUXELAS

20 de Outubro de 1996. Após a descoberta de uma série de assassinatos de crianças que haviam sido abusadas sexualmente e da descoberta de uma rede pedófila, tópicos que vieram a ser denominados o Caso Dutroux, um número estimado entre 250.000 e 300.000 belgas saem às ruas em Bruxelas para protestar contra a extraordinária displicência demonstrada pelo aparelhos policial e judicial belgas na investigação e condenação de crimes daquela gravidade. A dimensão do protesto constituiu uma surpresa numa sociedade europeia ocidental que aparentava ter-se tornado progressivamente cada vez mais apática às manifestações de rua, demonstrando que essa pretensa desmobilização dos belgas se poderia dever mais a uma questão de desinteresse pelas causas tradicionais, que haviam mobilizado às gerações do após-guerra, do que devidas ao alheamento dos cidadãos.

ELOGIO - ATRASADO - AO RECÉM FALECIDO ABOLHASSAN BANI-SADR

Embora com semana e meia de atraso, assinale-se aqui o falecimento no exílio, em Paris, de Abolhassam Bani-Sadr, que foi o primeiro presidente da República Islâmica do Irão (Janeiro de 1980- Junho de 1981). Na fotografia acima, desses tempos, numa fase da campanha eleitoral das eleições que ele venceu - à iraniana - com 78% dos votos, Bani-Sadr é, obviamente, o intelectual, o que usa óculos enquanto os outros empunham armas. O que o notabiliza na história do Irão foi o facto de ele ter entrado em conflito com o aiatolá Khomeini, que queria - e conseguiu - fazer dos presidentes iranianos figuras que lhe fossem completamente subordinadas. Embora tivesse sido derrotado politicamente, Bani-Sadr constitui uma daquelas figuras trágicas, mas merecedoras de reconhecimento, já que não se prestaram a ser figurantes de uma encenação com a qual não concordavam. (Por analogia e evocando um caso português, recordo que ouço muito poucos elogios a Luís Campos e Cunha, que deixou a pasta das Finanças quatro meses depois de tomar posse no governo de José Sócrates...) Outra virtude de Bani-Sadr (num aspecto em que já não se pode aplicar, felizmente, a Campos e Cunha...) é que o iraniano morreu aos 88 anos e descalço, no quarto do hospital, um destino que é muito raro entre os opositores do regime dos aiatolás.

19 outubro 2021

A NOITE SANGRENTA

19 de Outubro de 1921. Nessa noite desencadeia-se a revolta militar e os acontecimentos trágicos que culminarão com o assassinato de António Granjo, presidente do Ministério, e de outros políticos de nomeada da República portuguesa. Mas, mais do que os desmandos sangrentos e inconsequentes da acção revolucionária, o que é interessante recordar é o destaque e o estilo como os acontecimentos eram noticiados há cem anos, aprecie-se a sobriedade das primeiras páginas das edições dos três dias seguintes do Diário de Lisboa. Como é que hoje se noticiaria o assassinato de um primeiro-ministro em funções?...

18 outubro 2021

A PREVISÍVEL DITADURA MILITAR MARXISTA-LENINISTA NA POLÓNIA

18 de Outubro de 1981. Depois de, oito meses antes, o general e ministro da Defesa Wojciech Jaruzelski, se ter tornado o chefe do governo polaco, agora era a vez de, por sua vez, se ver eleito para dirigente do partido comunista polaco. Na Polónia, uma sociedade socialista, a liderança política, administrativa e militar concentrava-se num só general. À concentração dos poderes num só homem, isso até era uma marca de água de qualquer regime comunista. Agora que esse homem fosse um militar de carreira, um general, isso era indiscutivelmente uma novidade na teoria histórica do marxismo-leninismo. Ao contrário do que anunciava o título da notícia, o problema não era a apreensão do papa (João Paulo II, um polaco) nem as prudências das duas superpotências. A questão centrava-se mais na incógnita de se começar a navegar em mares que as cartilhas do marxismo-leninismo nunca haviam cartografado. Marx falara da ditadura do proletariado, não da ditadura do generalato. Para mais, havia a propaganda comunista contra os regimes militares, normalmente de origem sul-americana e oligárquicos, embora houvesse alguns exemplos sul europeus, casos da Grécia ou da Turquia. Mas esta situação na Polónia era ao contrário das que os comunistas estavam acostumados a atacar: o que diria a doutrina  quando os ditadores militares eram progressistas, como chegara a ser o espectro em Portugal em 1975, por ocasião do PREC?... Nesse caso, um ditador militar e a imposição de uma ditadura militar torna-se bom? Isso ia contra toda a genética da subordinação dos militares ao poder dos sovietes, um princípio que fora estabelecida desde o princípio da União Soviética por Lenine, com Trotsky a protagonizá-lo à frente do Exército Vermelho. Normalmente, estas questões da doutrina da Fé seriam decididas em Roma Moscovo pelo camarada Mikhail Suslov, mas, quem estivesse atento ao que se estava a passar, aperceber-se-ia que o «"nerd" do socialismo soviético tardio» até aparecia por detrás da solução do general Jaruzelski...

17 outubro 2021

A CENSURA QUE CHEGOU IMPORTADA DE PARIS

17 de Outubro de 1961. No quadro das movimentações políticas da guerra da Argélia, a FLN convocava uma manifestação entre a comunidade argelina emigrada em Paris. A manifestação, que se pretendia pacífica (já que se realizava na capital da potência colonial - o inimigo), visava protestar contra o recolher obrigatório imposto especificamente à comunidade argelina emigrada em França. Dos cerca de 90 mil imigrantes argelinos que então haveria na região da Grande Paris, cerca de uns 20.000 a 25.000 terão comparecido na manifestação. Ao contrário do que noticiavam os títulos dos jornais franceses que se podem ler acima, a manifestação não foi «violenta», hoje sabe-se que, por detrás da camuflagem mediática, o que foi violenta foi a repressão policial sobre os manifestantes. O balanço oficial foi de 3 mortos e 77 feridos (64 manifestantes e 13 polícias). Porém, cálculos posteriores e conforme o autor e o período abrangido, o verdadeiro número de mortos - por exemplo - terá sido de 30 a 50, ou 120 ou ainda 200. Onde não parece haver controvérsia é nos muitos milhares de manifestantes que foram detidos nessa noite: 7.500 é o número que se lê na primeira página do Le Figaro, 11.538 é o número publicado pelo Diário de Lisboa (abaixo) que noticiava aqueles acontecimentos à distância. No jornal português é notória a escalada entre a notícia publicada no dia 17 de Outubro, quando a prisão envolvera uns meros «sessenta a oitenta argelinos», e a do dia seguinte, quando as atenções já tinham sido desviadas para os 1.500 repatriamentos e o pormenor que um dos três mortos (oficiais) era «um francês de 30 anos». A realidade estava a ser escamoteada mas, por esta vez, a censura chegava importada, vinda de Paris.

QUESTÕES SOBRE EM QUE CONSISTIRÁ UM«A VITÓRIA PIRRÓNICA»

Ao ouvir ontem o programa de discussão política Bloco Central, fui confrontado, logo ao início (aos 2:09, para ser preciso), com o conceito, apresentado por Pedro Marques Lopes (acima, à esquerda, a rir), de uma «vitória pirrónica», quando descreveu o resultado do PSD nas recentes eleições autárquicas. Confesso ter ficado completamente na dúvida sobre o que Marques Lopes quereria dizer com aquele adjectivo assaz rebuscado. Estar-se-ia ele a referir a «vitória pírrica» (vitória extremamente difícil que deixa o vencedor em piores condições que o vencido) e, porque o protagonista da expressão se chamava Pirro, rei do Épiro, a coisa ter-lhe-á saído mal? Ou teria ele empregue deliberadamente e com consciência o adjectivo pirrónico, esse sim, derivado de Pirro de Elis, um percursor dos filósofos cépticos, que viveu nos séculos IV e III a.C? Mas, a ser assim, em que consistirá, de acordo com Pedro Marques Lopes, a vitória céptica do PSD? Uma última hipótese que coloquei, muito mais actualizada, é que o adjectivo pirrónico não tenha nada a ver com o mundo helenístico, e que o comentador pretendesse referir-se ao condutor de fórmula 1 Didier Pironi (também já falecido), por alguma analogia que eu desconheço com as suas vitórias (3) em grandes prémios daquela modalidade... Considerando a prodigiosa cultura de que Pedro Marques Lopes tem dado mostras, cultura que o tem, de resto, ajudado a perpetuar-se pelo mérito no espaço de comentário da comunicação social portuguesa, não sei qual destas hipóteses fará mais sentido.

A DELEGAÇÃO DOS FUTUROS CHEFES DE ESTADO-MAIOR DAS FORÇAS ARMADAS

17 de Outubro de 1941. Esta pequena notícia acima do Diário de Lisboa dava conta de uma visita à Alemanha protagonizada pelos majores Manuel Gomes de Araújo e Júlio Carlos Alves Dias Botelho Moniz e pelo capitão José António da Rocha Beleza Ferraz. Apesar de composta apenas por oficiais superiores e não por oficiais generais, as aparências iludiam quanto à importância da delegação. No futuro, qualquer dos três oficiais referidos ir-se-á tornar sucessivamente Chefe de Estado Maior das Forças Armadas: Botelho Moniz de 1955 a 1958, Beleza Ferraz de 1958 a 1961 e Gomes de Araújo de 1961 a 1962. Para além disso, Gomes de Araújo virá a ser ministro das Comunicações (1947-1958) e da Defesa (1962-1968), enquanto Botelho Moniz virá a ser ministro do Interior (1944-1947) e da Defesa (1958-1961). Sem o querer parecer, tratava-se de uma delegação importante esta que o Exército português enviava à Alemanha «em missão de estudo» dos métodos de uma Wehrmacht que se apresentava mais vitoriosa que nunca, num momento histórico em que a queda de Moscovo parecia eminente, segundo o que se podia ler numa outra notícia desse mesmo jornal nesse mesmo dia. O corpo diplomático já abandonara a cidade, e as conversas giravam à volta da localização da «capital provisória» da URSS.

16 outubro 2021

OS QUARENTA ANOS DA ESTREIA EM PORTUGAL DE «HILL STREET BLUES»

16 de Outubro de 1981, Sexta-Feira. Ao serão, pelas 21H05 a RTP1 estreia a série policial americana «Hill Street Blues», (mal) traduzida para «Balada de Hill Street» (a referência blues não tem nada a ver com o estilo musical, antes com a cor tradicional dos uniformes policiais). Era uma série policial de um formato diferente dos tradicionalmente emitidos pelas televisões americanas. Focava-se em acompanhar o dia a dia dos membros de uma esquadra de polícia e, sobretudo, a América urbana que ali aparecia era, na sua crueza, uma surpresa para os europeus que se haviam habituado a referenciar uma outra América que lhe entrava pela televisão. a da classe média. Só que esses raramente tem problemas com a polícia. O fundo da sociedade é que está sempre a ter problemas com a polícia. E Hill Street era escrupulosamente verdadeiro a mostrar isso, por exemplo na desproporção de minorias que constavam do elenco.

O ASSASSINATO DO PRIMEIRO-MINISTRO DO PAQUISTÃO

16 de Outubro de 1951. Assassinato em Rawalpindi do primeiro primeiro-ministro paquistanês, Liaquat Ali Khan (1895-1951). O assassino era afegão e, porque foi morto de imediato, como se lê na notícia acima, nunca se pôde esclarecer se agira sozinho ou a mando de alguém. Depois das independências simultâneas da Índia e do Paquistão em Agosto de 1947, já não era o primeiro grande dirigente dos dois países herdeiros da Índia britânica a morrer assim, assassinado a tiro. Acontecera o mesmo a Mohandas Gandhi em Janeiro de 1948, no país rival. Foram os primeiros, mas o recurso à eliminação física dos protagonistas políticos ir-se-á banalizar em qualquer dos países do subcontinente indiano, até se tornar quase uma espécie de tradição. Na pessoa de Benazir Bhutto (1953-2007), aquela mesma cidade de Rawalpindi irá voltar a assistir ao assassinato de uma outra primeira-ministra paquistanesa, em Dezembro de 2007.

15 outubro 2021

A BURGUESIA MOTORIZADA FRANCESA DA DÉCADA DE SESSENTA

15 de Outubro de 1961. Por coincidência, em duas páginas adjacentes do mesmo jornal, encontra-se publicidade a dois modelos emblemáticos e simbólicos da indústria automóvel francesa daquela década: o Citroën DS-19 (mais conhecido por boca de sapo) e o Peugeot 404. São concorrentes directos porque correspondem ambos a uma concepção muito próxima de elevado estatuto social. Possuir uma viatura daquelas era uma expressão de exclusividade: naquele ano de 1961 produziram-se para todo o Mundo cerca de 80 mil Citroëns DS-19 e 115 mil Peugeots 404.

A DETENÇÃO DO HOMEM QUE FAZIA DESCARRILAR OS COMBOIOS

15 de Outubro de 1931. Embora a data permaneça controversa (7, 10 ou 15 de Outubro) esta é uma das datas possíveis em que se realizou finalmente a prisão de Szilveszter Matuska. Matuska era um húngaro (embora nascido em território que hoje faz parte da Sérvia), que se celebrizou por, num determinado período de apenas dois meses (Agosto-Setembro) de 1931, ter sido o autor de dois descarrilamentos de importantes comboios que ligavam capitais da Europa central (Basileia-Berlim e Budapeste-Viena). As repercussões dos actos tornaram-se mais importantes que as consequências dos próprios e um prémio de 100 mil marcos foi atribuído à captura do homem que fazia descarrilar os comboios. A investigação revelou-se até rápida. Matuska foi capturado em Viena de Áustria (onde vivia), confessou os atentados, e aí foi condenado a seis anos de prisão, dos quais cumpriu quatro, tendo sido depois transferido para a Hungria, onde ocorrera o atentado mais grave (22 mortos), país que o condenou por sua vez a prisão perpétua. No entanto, em Dezembro de 1944, a prisão onde Matuska estava preso libertou todos os seus prisioneiros diante do avanço do Exército Vermelho. Matuska desapareceu a partir daí, dando uma nova vida à lenda da sua pessoa, para a qual nunca se arranjou uma explicação razoável para ter feito o que fez. Tão forte era esse mito que cerca de 40 anos depois, ainda se fazia uma BD contando a sua história (abaixo) e, mais de 50 anos depois (1983), um filme.

14 outubro 2021

OPERAÇÃO «SKY SHIELD II»

14 de Outubro de 1961. Repetindo e aprimorando um outro exercício que tivera lugar em Setembro de 1960, as Forças Aéreas dos Estados Unidos e do Canadá levaram a efeito um gigantesco exercício militar em que se simulavam as condições para um gigantesco ataque aéreo oriundo - como seria de esperar... - da União Soviética. Só que, para que esta Operação Sky Shield II tivesse lugar, todos os voos da aviação civil no Canadá e nos Estados Unidos tiveram que ser suspensos durante doze horas(!). Como se lê na notícia, a medida terá afectado «273 aparelhos civis canadianos e 1.850 norte-americanos» e, como não se pode ler na notícia, isso terá afectado cerca de 125.000 passageiros. Ao contrário daquilo que se costuma frequentemente escrever a respeito dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, estas foram as primeiras ocasiões em que as operações aéreas civis foram completamente suspensas no espaço aéreo norte-americano. As conclusões dos resultados da Operação Sky Shield II só vieram a tornar-se públicos - e mesmo assim com algumas restrições - em 1997: e não eram brilhantes. Por deficiências de detecção, ou por deficiências de intercepção, cerca de ¾ dos «bombardeiros soviéticos» teriam atingido os seus "alvos". Mas pior, uma outra questão era a do incómodo que a realização destes exercício causava, numa época em que o transporte aéreo crescia exponencialmente a cada ano que passava. No ano seguinte, em Setembro de 1962, uma terceira versão da Operação Sky Shield, a III, mas a suspensão dos voos civis restringiu-se apenas a cinco horas e meia. A avaliação das consequências desta vez foi menos patriótica e apareceu com uma factura de prejuízos apresentada pelas companhias de aviação: 1 milhão de dólares (da época). A Operação Sky Shield IV, prevista para 1963, acabou por ser cancelada e nunca mais se falou em operações àquela escala. Em Setembro de 2001, quando o tráfego aéreo civil foi efectivamente suspenso, o assunto estava esquecido.

EM QUE É QUE RAQUEL VARELA É IMPORTANTE? E PORQUE SERÁ ELA IMPORTANTE?

Quando leio um opinador a perguntar-se, na sua coluna de jornal, se Raquel Varela é importante, apetece-me devolver-lhe a pergunta: em que é que ela é importante? e porque é que ela é importante? Pensando nisso, o que a projectou mediaticamente terá sido a sua atitude assertiva e arrogante, que é excelente para a figuração em espectáculos televisivos de mud wrestling (acima), só que em versão verbal. Ora as mud wrestlers são para ser detestadas pelos espectadores. Se recordarmos o momento televisivo abaixo, em que Manuela Moura Guedes abandona com espavento um programa de televisão desse género, hão de reparar que as quatro presentes compartilham o mesmo retrato psicológico de pessoas que se detestam entre si e que todos adoramos detestar por sua vez: Isabel Moreira, Manuela Moura Guedes, Raquel Varela e Sofia Vala Rocha. Umas são más, outras são piores, há umas que se conseguem fazer detestar mais do que outras, mas é essa capacidade de se fazerem detestar que é simultaneamente a força e a sua fraqueza de tais figuras mediáticas. Os detalhes que têm rodeado as revelações sobre a carreira académica de Raquel Varela, e que estão na origem da pergunta do opinador, são aquilo mesmo: detalhes. Quem estivesse, ainda que vagamente, interessado em acompanhar o que Raquel Varela produz, sabe que a produção científica de Varela é uma merdaSempre foi. É a identidade da visada que torna interessante o assunto do percurso académico tortuoso, não o assunto em si. Repare-se que, se fossem as revelações sobre outro docente universitário, o interesse público seria uma fracção do que é. Em contraste, se as revelações fossem sobre outro assunto escabroso qualquer, mas sobre Manuela Moura Guedes (por exemplo), ninguém perderia um bocadinho sequer e ter-se-iam acumulado os comentários, como aqui tem acontecido. Em conclusão, Raquel Varela não tem importância alguma, Pedro Tadeu. Mas parece ser muito divertido (e também merecido) vê-la a rojar-se pela lama. Mas isso é - sempre foi - do domínio do espectáculo, não de quaisquer preocupações com a produção científica.

13 outubro 2021

OS SESSENTA ANOS DA INVENÇÃO DOS «ÖST AMPELMÄNNCHEN»

13 de Outubro de 1961. É o dia em que se considera que foram oficialmente adoptados os ampellmänn na sinalização para os peões em Berlim Oriental, na antiga República Democrática Alemã (foto acima). Quem se dedicava ao estudo das questões de trânsito no país, considerou que, para além das próprias luzes, vermelha e verde, seria vantajoso adicionar um desenho de um peão avançando ou parado. Mas o que tornou os ampelmmän populares até hoje terá sido o design dos bonecos e não o facto da ideia ter sido pioneira - rapidamente copiada de resto nos outros países, mas com bonecos não tão castiços. Para mais, a questão do design colocou aos alemães de Leste problemas que só uma sociedade socialista avançada como a sua poderia conceber.
Um desses problemas era questão de os bonecos terem chapéu, o que, como se sabe, poderia ser considerado um adorno desnecessário, capitalista mesmo. O problema veio a ser ultrapassado quando se produziram fotografias (como esta abaixo) em que os dirigentes Walter Ulbricht e Erich Honecker apareciam de chapéu, o que esclareceu as dúvidas. Outro problema sério que se colocou foi o de saber se o boneco em movimento se apresentaria a caminhar da esquerda para a direita, acompanhando o sentido natural da leitura, ou se, pelo contrário, e porque a República Democrática Alemã se assumia como uma sociedade socialista a caminho do comunismo, o boneco devia caminhar da direita para a esquerda. Apesar do desenho acima ser o mais lógico, foi a versão ideologicamente mais pura que prevaleceu... o boneco ia da direita para a esquerda.
Descontando a ironia dos comentários às questões da concepção, os bonequitos dos ampelmännchen tornaram-se um dos pormenores identificativos da sociedade leste-alemã, um dos poucos aspectos em que ela se mostrava mais rica e interessante do que a ocidental. E talvez por isso os bonequitos tenham vindo a tornar-se, depois do desaparecimento do país, a mascote da «ostalgie», uma nostalgia - estranhamente material, já que muitas vezes se expressa pela aquisição de gadgets - por aquela sociedade que terminou com a queda do muro de Berlim em 1989.