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15 julho 2024

O GOLPE DE ESTADO EM CHIPRE

15 de Julho de 1974. Com o patrocínio da Junta Militar grega a Guarda Nacional cipriota dá um golpe de Estado em Chipre. A ilha de Chipre, que se tornara independente da tutela britânica em 1960, vivia desde então um equilíbrio político periclitante. Os seus habitantes dividiam-se entre uma comunidade grega significativamente maioritária (quase 80% da população), onde, para mais, existia uma facção política que militava pela sua união com a Grécia; mas também existia uma comunidade turca (quase 20%) que recebia uma protecção ostensiva da Turquia, que era o país geograficamente mais próximo. O equilibrista no meio desta situação era um arcebispo ortodoxo, Makarios III, que fora eleito e reeleito e presidia aos destinos da ilha desde a independência. É esse arcebispo-presidente que é dado como morto na notícia acima. Não estava e o assunto irá ter várias outras repercussões, mas dentro de dias regressaremos ao assunto.

21 dezembro 2023

TODOS AQUELES INTELECTUAIS DO OBSERVADOR QUE TINHAM UMA OPINIÃO PREMENTE SOBRE A GRÉCIA E A QUEM NÃO OUVIMOS OUTRAS OPINIÕES SOBRE O MESMO PAÍS NOS NOVE ANOS QUE SE SEGUIRAM

A Grécia acabou de ser eleita como o país do ano pela revista liberal britânica The Economist. As razões para a nomeação constam dos dois parágrafos acima, do lado esquerdo. Mas aquilo que me ocorreu de imediato a propósito desta eleição e da Grécia foi regressar a Janeiro de 2015 e ao frenesim opinativo a que se dedicava o jornal Observador como antecipação às eleições que ali iriam ter lugar: dez artigos de opinião assinados por outros tantos intelectuais formulando essencialmente uma opinião que era a mesma e era premente (acima à direita). A esta distância temporal (quase nove anos) percebe-se que as eleições da Grécia só eram importantes porque continham o significado simbólico de serem uma antecâmara das que viriam a ter lugar em Outubro daquele mesmo ano em Portugal. O engraçado nesta associação involuntária entre a The Economist e o Observador é constatar que as inclinações ideológicas das duas publicações até nem são assim tão distantes entre si. O que as distingue indelevelmente é a profundidade como cada uma trata os assuntos. E a funcionalidade. Não me parece que no Observador se venha a reconhecer à Grécia de 2023 alguma utilidade como instrumento de arremesso político para as próximas eleições portuguesas de Março de 2024. Por isso, se continuarem a escrever para aquele jornal, todos aqueles dez intelectuais irão escrever sobre outras coisas que não a Grécia.

27 maio 2023

O MOTIM DO CONTRATORPEDEIRO GREGO

Depois de ter ocorrido uma tentativa abortada para uma insurreição naval na Grécia contra a Junta dos Coronéis que tomara o poder em 1967, o capitão e os oficiais de um dos navios de guerra da Marinha grega que participava em exercícios da NATO entre a Itália e a Sardenha, o contratorpedeiro Velos, decidiram-se a pedir asilo político ao país aliado que lhes estivesse mais próximo: a Itália. A guarnição do navio fundeou-o a 3,5 milhas náuticas (6,5 km) da costa em Fiumicino (onde se situa o aeroporto de Roma) e uma delegação de três oficiais veio a terra para, a partir das instalações do aeroporto, anunciarem a sua decisão às agências noticiosas internacionais, numa conferência de imprensa encabeçada pelo capitão do navio, o Antiploiarchos (capitão de fragata) Nikolaos Pappas. Pappas, seis oficiais e vinte e cinco outros membros da tripulação anunciaram a sua intenção de pedir asilo e permanecerem na Itália como refugiados políticos. Mais do que isso, correu um documento que foi subscrito por quase todos os 170 membros do navio, que acabou por não ser apresentado por receio de retaliações para com as famílias daqueles que apenas cumpriam o seu serviço militar. O episódio tornou-se num embaraço enorme para o regime grego. As notícias da época (acima) davam um grande ênfase à inspiração monárquica da revolta - o antigo rei Constantino II da Grécia encontrava-se desde finais de 1967 no exílio. Era essa a impressão também dos dirigentes da Junta que, no seguimento deste episódio, aproveitarão a ocasião para transformar a Grécia numa república em Junho de 1973. Mas os factos futuros virão indiciar que por detrás desta iniciativa terá estado mais a oposição democrática à Junta em Atenas. A questão de regime e do envolvimento do monarca terá sido muito acessória, ao contrário do que acima se lê. O referendo de 1973 que se pronunciou a favor da república foi repetido em Dezembro de 1974, depois da queda da Junta, com outras condições de liberdade de voto e os resultados vieram a ser muito semelhantes. Nikolaos Pappas e alguns dos oficiais exilados vieram a ser readmitidos na Marinha depois da queda da Junta. Tornado numa pessoa simbólica parta a Grécia democrática por causa deste seu gesto de há 50 anos, Pappas veio a retirar-se com a patente de almirante.

07 março 2023

A GRÉCIA, ANTES DA MALTA DO JORNAL «OBSERVADOR» IMPLICAR COM ELA...

7 de Março de 1933. Na Grécia conseguiu-se a proeza de se realizar eleições legislativas no dia 5 de Março, desencadear-se um golpe de Estado no dia seguinte (6 de Março), encabeçado por um general Nikolaos Plastiras (1ª foto) com aqueles que não haviam ficado satisfeitos com o resultado eleitoral, e finalmente dar-se um contra-golpe militar clarificador a 7 de Março, encabeçado desta vez por um outro general, Alexandros Othonaios (2ª foto), promovido por aqueles que se dispunham a acatar o veredicto das urnas. Vigoraria na Grécia aquilo que, em Ciência Política, se poderá denominar por sistema misto: contam-se os votos, contam-se as espingardas, e só depois da validação desta última contagem é que se fica a saber se a contagem dos votos conta...

30 janeiro 2023

O CENTENÁRIO DA ASSINATURA DA CONVENÇÃO DE LAUSANNE

30 de Janeiro de 1923. Assinatura da Convenção de Lausanne entre a Grécia e a Turquia. Os dois governos acordam em proceder a uma enorme transferência de populações - cerca de dois milhões de pessoas serão afectadas - por forma a que qualquer deles passasse a constituir praticamente um estado nação, com uma população homogénea e sem significativas minorias étnico religiosas. Se a maioria das populações a deslocar respeitavam o padrão étnico-religioso - os gregos eram cristãos ortodoxos e os turcos muçulmanos - havia variadíssimas comunidades - minoritárias, mas mesmo assim constituídas por dezenas de milhares de pessoas - que desrespeitavam esse padrão. Nem todos os muçulmanos que viviam dentro das fronteiras da Grécia eram de cultura turca; e nem todos os gregos que viviam dentro das fronteiras da Turquia eram de confissão cristã.
Em resultado desta Convenção que foi assinada há cem anos e como se depreende do mapa mais acima, cerca de 0,5 milhão de muçulmanos (predominantemente turcos) foram expulsos da Grécia e cerca de 1,5 milhões de cristãos ortodoxos (sobretudo gregos) foram expulsos da Turquia. Estes últimos, e como se lê também no mapa, vieram a constituir cerca de 20% da população grega - proporcionalmente, será 3 vezes mais do que os retornados de África em Portugal nos anos 70. Mas, mais do que números, mais importante será compreender os dramas humanos que esta imensa migração forçada provocou, de que este livro acima narra vários casos. Paradoxalmente, o olhar analítico, distanciado de um século, obriga-nos a reconhecer que, apesar do trauma, esta solução terá evitado inúmeros pretextos adicionais para a ocorrência de conflitos posteriores entre gregos e turcos. A nota final é para a forma como o assunto foi noticiado (abaixo): Curzon era o ministro britânico das Negócios Estrangeiros, e aos jornalistas escapou-lhes por completo o que de mais importante acontecera. É uma tradição, quase...

30 agosto 2022

A BATALHA DE DUMLUPINAR

30 de Agosto de 1922. Com a conquista pelo exército turco de Afyon (actualmente Afyonkarahisar), dá-se por concluída a batalha de Dumlupinar. A derrota grega, mais do que apenas uma derrota militar, representa o fim do sonho de uma Grécia coexistente nas ilhas mas sobretudo também nas duas costas do Mar Egeu, a da Europa e a da Ásia, a Megáli Idea (abaixo). A lendária cidade de Tróia onde ocorreu a guerra do mesmo nome, por exemplo, situa-se nas costas asiáticas do Egeu. Mas os sentimentalismos de pouco haviam contado no campo de batalha e a vitória decisiva fora para a Turquia e Tróia iria ficar em território turco. Naturalmente não se saberia então, mas este desfecho, como assinalei num poste prévio, virá a causar a queda do primeiro-ministro britânico!
E no entanto e mais uma vez venho demonstrar que os acontecimentos internacionais de mais profundo significado não raro escapam às atenções de quem se encarregava - e encarrega - de nos informar. Esta batalha de Dumlupinar e as suas consequências militares e políticas, apesar do significado profundo que virá a ter para a configuração das fronteiras e para as populações da Grécia e da Turquia (milhões virão a ser transferidos de um dos lados da fronteira para o outro como assinalei noutros poste), passou quase uma semana sem ser sequer noticiada nos nossos jornais. Quando o passaram a ser, a partir de dia 4 de Setembro, ainda as notícias vinham cheias de distorções (abaixo). A classe dos jornalistas bem se esforça para parecer que não, mas quando a História vem nas páginas de um jornal, até parece que é por acaso...

13 julho 2022

OUTRA FILHA E OUTRO FUNERAL

13 de Julho de 1972. Com destaque de primeira página, o Diário de Lisboa noticiava que «a actriz Melina Mercouri» voltara «ontem à Grécia, com autorização especial das autoridades, para assistir aos funerais da sua mãe.» (...) «Foram-lhes concedidas exactamente 12 horas para permanecer em território grego e assistir às cerimónias fúnebres.» Na telefoto da UPI que acompanha a notícia, «ela aparece entre o irmão e o marido, o cineasta Jules Dassin, exprimindo pateticamente a sua dor, como qualquer das heroínas populares dos filmes que interpretou.» É uma coincidência evocar este episódio antigo de cinquenta anos, quando as questões da segurança jurídica das filhas de José Eduardo dos Santos em Angola também estão em aberto, por ocasião da eventual realização do funeral do antigo presidente angolano no seu país natal. Mas, descontando os aspectos mais essenciais, a analogia não é assim tão extensa quanto isso. A figura principal do episódio grego é a filha, enquanto a do episódio angolano é o progenitor que morreu; aquelas filhas, por muito espaço mediático que agora lhes concedam, não seriam notícia, não fosse o pai.

11 abril 2022

O MASSACRE DE CHIOS

Há duzentos anos, a ilha de Chios (842 km²), situada no Mar Egeu, pertencia ao império otomano (turco), embora a ilha fosse povoada (cerca de 80 a 100.000 habitantes) quase exclusivamente por gregos (cristãos ortodoxos). Chios, cuja área era apenas ligeiramente maior do que a Madeira e com uma população comparável (à época), era uma das mais prósperas comunidades insulares do Egeu. E a ilha passou a ser disputada no quadro da guerra de independência grega. A 22 de Março de 1822, um destacamento de 2.500 rebeldes gregos desembarcara em Chios, cercando a guarnição otomana na fortaleza da capital. Mas a 11 de Abril de 1822, há precisamente 200 anos, os otomanos procederam a um contra-desembarque (repare-se como Chios se situa perto das costas da Anatólia). Os 46 navios e 7.000 soldados otomanos - posteriormente reforçados com mais 30.000 - vinham com uma missão de retaliação e uma política de terra queimada. Nos meses que se seguiram, Chios foi deliberadamente despovoada. A dimensão do massacre de Chios é incerta, mas as estimativas mais comuns apontam para que 25.000 habitantes da ilha foram mortos, 45.000 foram capturados e reduzidos à escravatura, e só uns 10 a 20.000 é que terão conseguido fugir. No final, terão subsistido apenas uns 20.000 habitantes. O episódio causou um grande impacto - negativo - por toda a Europa. Tanto que em 1824 o pintor francês Eugène Delacroix assinava este quadro abaixo, intitulado precisamente o Massacre de Chios. Chios nunca recuperou plenamente da hecatombe: a ilha tem actualmente 54.000 habitantes, ou seja, um pouco mais de metade da população que tivera há duzentos anos. E, como se costuma escrever no rodapé do final dos filmes, qualquer associação desta minha evocação com o comportamento assumido recentemente pelas tropas russas na Ucrânia terá sido uma mera coincidência.

20 maio 2021

O 80º ANIVERSÁRIO DO INÍCIO DA BATALHA DE CRETA

20 de Maio de 1941. Início da invasão aerotransportada de Creta por parte dos alemães. Em menos de duas semanas os britânicos foram expulsos da ilha. Tempos terríveis para estes últimos que, sempre que se confrontavam com os primeiros, perdiam sempre. 

02 maio 2021

DESCODIFICANDO ALGUMAS NOTÍCIAS DE GUERRA HÁ OITENTA ANOS

2 de Maio de 1941. O exemplo acima de uma edição daquele dia mostra como a página de um jornal pode ser informativa sem ser explicativa e muito menos reflexiva. Informar o leitor que desembarcara no Iraque mais um contingente de tropas britânicas contornava as explicações das razões que levavam o Reino Unido a tomar tal iniciativa, quando tanto precisavam de tropas nas frentes de combate contra alemães e italianos. Na realidade a tensão viera a acumular-se tanto entre as forças militares britânicas estacionadas no Iraque e as autoridades do país que, nesse mesmo dia, começara uma guerra declarada entre as duas partes. Duraria cerca de um mês e terminaria com a vitória inglesa e com o derrube do regime iraquiano, que fora apoiado pelos alemães. Já aqui me referi ao assunto como um daqueles (pouco conhecidos) «sideshows» da Segunda Guerra Mundial. Duas colunas ao lado, uma outra notícia assegurava ao leitor que 80% das tropas britânicas presentes na Grécia haviam sido evacuadas o que prefigurava mais um sucesso das armas britânicas, ao jeito do que acontecera no ano anterior em Dunquerque. Aqui ficava a faltar a reflexão de questionar como é que os britânicos estariam a contar vencer a Guerra, se o que eles apenas conseguiam fazer era retirar do continente cada vez que ali desembarcavam, por muito que depois viessem propagandear que as suas evacuações de tropas eram magnificamente bem sucedidas.

06 abril 2021

A INVASÃO SIMULTÂNEA DA GRÉCIA E DA JUGOSLÁVIA

6 de Abril de 1941. A Alemanha invade simultaneamente a Jugoslávia e a Grécia. Não se trataria de uma notícia surpreendente, se se atentasse à impaciência da Alemanha com o comportamento pouco conforme à sua hegemonia continental que estava a ser assumido por qualquer daqueles dois países (como aqui já mencionáramos). Mas, mesmo assim, a notícia de mais um alargamento da Segunda Guerra Mundial não deixa de constituir um choque. E, por se tratar de um Domingo, toda a primeira página do Diário de Lisboa é dedicada ao acontecimento. Abaixo, o mapa das operações. Invadida a partir de cinco dos sete países com que a Jugoslávia fazia fronteira (Itália, Áustria, Hungria, Roménia e Bulgária), o país é indefensável nos moldes clássicos da constituição de frentes de combate e cairá rapidamente (pouco mais de uma semana), numa nova reedição da «blitzkrieg». Um pequeno contingente britânico ainda participará em assistência aos gregos, mas o desfecho foi o mesmo: como se pode perceber pelas datas do mapa abaixo, a resistência grega no continente terminará ainda antes do final do mês de Abril.

20 fevereiro 2021

A GRÉCIA NA ENCRUZILHADA DEPOIS DA VITÓRIA SOBRE A ITÁLIA

20 de Fevereiro de 1941. O jornal do costume, ao apresentar «a marcha das operações», descrevia um cenário que correspondia à vitória da Grécia, que derrotara a invasão italiana partida da Albânia, onde agora se travavam os combates, e onde «as tropas gregas continua(va)m a progredir».» Os comunicados de Atenas sobre a situação militar rivalizavam em exuberância e pomposidade com os de Roma, apesar desta última ser a campeã das notícias farfalhudas de entre todos os beligerantes da Segunda Guerra. O problema é que Atenas estava a ser muito mais rigoroso nas suas gabarolices do que Roma. Nesse dia, embora o Diário de Lisboa não o noticiasse porque não se soubera, o governo grego rejeitara uma oferta do governo alemão para mediar o conflito. Apesar das aparências, a situação era de impasse: a Grécia desbaratara a ofensiva italiana, colocara-os em cheque, mas faltavam-lhe os meios militares adicionais para os expulsar da Albânia. Por outro lado, as movimentações dos alemães, em conjunção com alguns dos vizinhos balcânicos da Grécia (Bulgária e Jugoslávia), obrigavam os gregos a ter de prestar atenção a outras frentes. Mas o maior problema da Grécia de há oitenta anos fora a morte inesperada em 29 de Janeiro, aos 69 anos, do ditador Ioánnis Metaxás, o homem forte do regime grego. A rearrumação das forças entre as principais figuras políticas e militares da Grécia fazia-se agora sentir na indecisão sobre a conduta a assumir, como aproveitar da melhor maneira possível a ligeira vantagem adquirida pela asneira cometida pela Itália de Mussolini.

19 setembro 2020

COMO SÃO ANTIGAS - E FALSAS - AS PROMOÇÕES AO SUCESSO DAS SOLUÇÕES «MUSCULADAS»

19 de Setembro de 1970. O Diário de Lisboa publicava na sua terceira página um artigo resultante da parceria que mantinha com o Los Angeles Times . O tema era o sucesso como a «Grécia dos coronéis» (uma ditadura militar implantada através de um golpe de Estado em 1967) tornara eficaz o aparelho fiscal grego, país, onde, «no passado, não pagar os impostos não era considerado um crime, mas sim um desporto nacional». (não estranhe se ficar com a sensação que já ouviu esta expressão em algum outro lado, mas já lá iremos...) Para conseguir esse resultado ocupando a pasta das Finanças, prosseguia o artigo do Los Angeles Times, os coronéis haviam ido buscar o Adamantios Androutsopoulos aos Estados Unidos (que é o único sítio que produz economistas de jeito, toda a gente sabe...). E ele e mais os coronéis, concluía-se da leitura do artigo, aumentara não apenas as receitas fiscais como eliminara o défice, num processo que, lia-se ao terminar, «não se pode negar (...) que os coronéis levaram muitos gregos a modificar os seus hábitos negligentes no pagamento de impostos. Talvez os meios que utilizam sejam discutíveis, mas o resultado é precisamente o que os líderes militares do país esperavam conseguir com o seu golpe de Estado: um grupo jamais igualado de cidadãos está a cumprir as suas obrigações fiscais para com a sociedade». E, o articulista do Los Angeles Times rematava sobranceiro com a advertência: «Se a "reforma" subsistirá depois da baioneta ser afastada das suas costas é outro assunto». A conclusão era cristalina: os gregos só lá iam, à porrada. Ora as reformas, as verdadeiras são as que subsistem, e quando elas precisam de porrada para subsistir está a falar-se de outra coisa que não "reformas". A direita musculada costuma confundir conceitos. Quanto à superioridade moral como o artigo está redigido, Joe Alex Morris Jr. que o escreveu, desconhecia então que, dali por três anos e no próprio país que produzia estas luminárias que educavam o resto do Mundo com os seus artigos traduzidos, o vice-presidente dos Estados Unidos iria resignar ao cargo por acusações de suborno, extorsão e... fraude fiscal. Requinte final de ironia: o vice-presidente em questão chamava-se Spiro Agnew e era de ascendência grega... Por outro lado, e como de prever, a "reforma dos coronéis" não reformou nada: há cinco anos, o jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos esteve na Grécia a fazer a cobertura das eleições locais, e um dos seus temas favoritos foi a evasão fiscal dos gregos, repetindo em espírito, senão mesmo em letra, a piada de 1970, a de que não era um crime, apenas um desporto nacional.
Ainda 19 de Setembro de 1970 e ainda a respeito da Grécia. Um jovem grego de 22 anos chamado Constantino Georgakis imolava-se em protesto contra o regime dos coronéis e contra a pressão que esse regime estava a exercer sobre si e a sua família, já que ele militava num dos partidos democráticos gregos no exílio, em Itália. Como todas as imolações é um gesto carregado de simbolismo mas, neste caso concreto, um completo desastre do ponto de vista mediático e como arma de propaganda. O jovem «Kostas» Georgakis suicidou-se às três da manhã, numa deserta praça de Génova, cidade italiana onde estudava. Porém, não tomou quaisquer disposições para promover o significado do seu gesto, uma proclamação como o fizera o checo Jan Palach, ou convocara fotógrafos e repórteres ao seu redor a cobrir o acontecimento como acontecera o monge vietnamita Thích Quảng Đức. Nem foi preciso o governo grego esforçar-se para abafar o que acontecera. Sem promoção, estes gestos caem no esquecimento - o Diário de Lisboa daquele dia e dos dias seguintes não tem qualquer referência ao acontecimento.

12 dezembro 2019

A SUSPENSÃO DA GRÉCIA

12 de Dezembro de 1969. A notícia internacional em destaque era a provável suspensão da Grécia como membro do Conselho da Europa. É uma notícia antiga de cinquenta anos mas com estranhas ressonâncias modernas, recorde-se a sua crise financeira iniciada em 2009, e as reacções que suscitou em vários dos seus parceiros europeus, quando ostracizaram a Grécia. Há cinquenta anos, contudo, o problema que empurrava a Grécia para o lote dos indesejáveis entre os europeus era político e não financeiro. Em Abril de 1967 houvera um golpe de Estado na Grécia. Instituíra-se um regime militar que ganhou o nome de Ditadura dos Coronéis. A ditadura era, como já aqui a descrevi no blogue, uma... ditadura. E nada compatível com os valores democráticos subscritos pelos restantes dezassete países membros do Conselho da Europa - cujo seu primeiro objectivo é «defender os Direitos do Homem e a Democracia parlamentar e assegurar a preeminência do Direito». Os restantes países membros haviam aguardado mais de dois anos e meio pela evolução do regime grego depois do golpe e, sem sinais de uma inflexão na sua conduta, decidiam-se agora pela suspensão do país da organização. Mas o que para mim mais interessante é nesta notícia é o que nela não se diz... Por um daqueles milagres da censura implícita, o leitor lia a notícia até ao fim induzido a depreender que Portugal seria um dos países que avaliava a conduta da Grécia. Não se escrevia expressamente que era assim, mas também não se explicava como é que era. Porque o que haveria para explicar era desagradável: é que Portugal (e a Espanha) não eram membros do Conselho da Europa. E não eram membros da organização porque esta só acolhia Democracias parlamentares, ou seja, precisamente por essa mesma razão que estava por detrás da decisão de suspender a Grécia... Era profundamente irónica a primeira página da edição do Diário de Lisboa daquele dia.

14 outubro 2019

A LIBERTAÇÃO DE ATENAS

14 de Outubro de 1944. Os soldados britânicos sob o comando do general Ronald Scobie entram em  Atenas, que havia sido evacuada apenas dois dias antes pelos alemães. As cenas da libertação que tanto se assemelham neste documentário às das outras capitais europeias escondem que se espera que os libertadores funcionem como uma força de interposição entre dois exércitos irregulares ansiosos por se confrontarem de armas na mão: o ELAS, militarmente mais forte, pró-comunista e o EDES, pró-republicano, que apesar de mais fraco gozava das simpatias britânicas. Estes últimos, falhos de uma leitura perspicaz da situação e de discernir o que era importante do que não o era, insistiam em adicionar o rei Jorge II à questão política, complicando-a. Estas celebrações que assinalavam a libertação de Atenas e as tréguas que se lhe seguiram duraram cerca de um mês e meio. Em 3 de Dezembro um ELAS cada vez mais desconfiado da parcialidade dos britânicos, desencadeava uma insurreição pelo controle de Atenas (Dekemvriana), onde o seu exército se viu obrigado a intervir para a suprimir. Ainda não terminara a Segunda Guerra Mundial, mas houve sítios onde a transição para a Guerra Fria foi abrupta.

29 agosto 2019

MAIS DEPRESSA SE APANHA UM COXO DO QUE UM MENTIROSO

Os portugueses não se conseguem esquecer de como em 2011 foram massacradas com a mensagem de que a subida da yield dos títulos da sua dívida pública fora da sua responsabilidade colectiva, porque haviam vivido acima das suas possibilidades. Olhando em volta para os seus outros parceiros europeus, o panorama era claro e a explicação transparente, porque os mercados insistiam em atacar especificamente os países perdulários, como a Grécia, Portugal, a Irlanda, todos resgatados, a que se seguiria inexoravelmente a Espanha, a Itália, se não se fizesse nada. As razões eram específicas e da responsabilidade dos países que, com a sua incúria, haviam causado tal crise e agora pagavam o preço disso.
Entretanto, passaram-se um punhado de anos. Os países faltosos foram ultrapassando as suas crises como puderam, de forma mais canónica (Passos Coelho), de forma menos canónica (Alexis Tsipras). A esses já se sucederam outros (Costa, Mitsotákis). E o panorama do mercado das yields das dívidas públicas acalmou substancialmente: a da Grécia a 10 anos, que chegou a ser transaccionada a 40% em princípios de 2012, cotou-se ontem em valores próximos de uns triviais 1,8%. Mas aquilo que outrora era causado pelo demérito dos países em causa (o tal viver-se acima das possibilidades), agora, quando em sentido inverso, não se deve à especificidade e ao mérito dos países em causa, mas antes «às tendências gerais que fazem com que as yields tenham vindo a cair nos países da zona Euro». Ou seja, a explicação que agora nos querem impingir é que neste caso das dívidas públicas quando as taxas se agravam a culpa é do devedor; quando melhoram a causa deve-se aos mercados. Mas aquele que me leu até aqui não tente ver esta incoerência a ser aflorada sequer no Observador...

03 julho 2019

QUANDO NÃO HAVIA DÚVIDAS SOBRE A SUPERIORIDADE DOS GENERAIS SOBRE OS JUÍZES

3 de Julho de 1969. Uma notícia discreta na última página do Diário de Lisboa dava-nos conta do que acontecera a três advogados gregos que haviam tentado desafiar juridicamente a Junta Militar que governava a Grécia.

«Três advogados gregos, que tinham ganho o apelo para que 21 proeminentes juízes fossem reinstalados nos seus cargos judiciários (juízes que haviam sido depurados pelo governo há 18 meses), foram hoje exilados para pequenas aldeias nas montanhas. Os três causídicos faziam parte de uma equipa de cinco homens que fizera apelos perante o Conselho de Estado, o Supremo Tribunal Administrativo da Grécia, em 24 de Junho passado, para que os juízes fossem readmitidos. Dizem familiares que os dois homens, George Maghakis e Theofylos Zoukas, foram presos esta madrugada, após buscas feitas nas suas residências, e levados para a sede dos serviços de Segurança. O terceiro dos advogados chama-se Evangelos Giannopoulos. Os três homens em causa serão obrigados a viver no exílio, em residências e aldeias separadas, fora da capital grega, uma vez que são considerados como um perigo para a segurança pública da Grécia.»

Quando eu era pequeno e estava a aprender, era assim que se entendiam as relações de poder. Os militares davam golpes de Estado. O que ocorrera da Grécia em 21 de Abril de 1967 fora promovido por coronéis. Porque qualquer golpe de Estado é, pela sua própria circunstância, uma subversão da legalidade vigente, os militares costumavam adoptar uma atitude bastante abrangente da estrutura jurídica sobre a qual fundamentavam o seu poder. Assumiam o poder executivo, suspendiam os membro do poder legislativo e os elementos do poder judicial que não cooperassem iam de férias, como acima se pode perceber. O local das férias dependia da insistência com que acatassem os novos poderes. Há cinquenta anos era assim que funcionava, não apenas na Grécia, como também no Brasil assim como viria a acontecer no Chile, e em tantos outros países: os generais mandavam e os juízes faziam o que os generais mandavam, revestindo as vontades dos generais de pomposidade jurídica. Nas entrelinhas da notícia acima percebia-se que arranjar os mandatos que permitissem mandar os advogados para um rincão esquecido fora apenas uma minudência despropositada. E subentendia-se que (aspecto omisso na notícia) o destino dos juízes que haviam despachado favoravelmente o requerimento dos advogados, não se adivinhava nada promissor. 

Hoje, tudo se inverteu. Os juízes alcançaram o estrelato. E os generais foram rebaixados a limitados. Nos países civilizados as ameaças de golpe de Estado perderam credibilidade. Os juízes é que podem virar qualquer regime de pernas para o ar com a ameaça de um daqueles mega-processos que vise as pessoas destacadas da sociedade. Por isso, até mesmo no Brasil (que ainda não é civilizado), quando general ameaça de quartelada é em prol do juiz, e a fazer figura de subordinado a ele...

25 janeiro 2019

AINDA SE LEMBRA COMO ERA IMPORTANTE A GRÉCIA DE HÁ QUATRO ANOS?


25 de Janeiro de 2015. Realizam-se eleições legislativas na Grécia em que, pela primeira vez, o Syriza, além de as ter vencido, quase alcançou a maioria absoluta da representação parlamentar (149 em 300 lugares), vindo posteriormente a formar governo em coligação com uma formação política nacionalista de direita. Mas a data precisa das eleições é apenas pretexto para evocar e relembrar o que aconteceu nas semanas que se seguiram entre certos círculos político-informativos portugueses, que desencadearam uma ferocíssima barragem opinativa sobre o que acabara de acontecer no outro canto da Europa. A razão de tal afã é hoje perfeitamente evidente: combater o efeito de contágio, nem que para isso, e por algum tempo e de uma forma que a distância temporal tornou ridícula, quisessem tornar a Grécia um dos países europeus mais importantes do panorama noticioso nacional. Hoje, que já se conhecem os desenvolvimentos da história (além do Syriza ter tornado a vencer outras eleições em Setembro seguinte, foi encerrado o procedimento por défice excessivo, a economia do país está a gerar excedentes primários - e tudo isso sob a égide do Syriza!), é de toda a justiça evocar quem então se prestou a emitir tais opiniões... para sobretudo compreender a quantos deles lhes assaltou, a respeito do tema, aquele sentimento - sempre nobre - da contrição. É que entre as figuras abaixo está Paulo Almeida Sande, que Pedro Santana Lopes escolheu para cabeça de lista do seu partido às próximas europeias. É para nós não nos esquecermos, apesar de só se terem passado quatro anos...
Como nota de rodapé e ainda a respeito da Grécia de há quatro anos, gostaria de relembrar que, se a cobertura do enviado especial da RTP a essas eleições (José Rodrigues dos Santos) se tornou famosa e caricata pelo seu facciosismo, e por isso escolhi uma das suas intervenções para encabeçar este poste, a da SIC (de que não se fala), não lhe fica atrás em incompetência. Logo no primeiro minuto da reportagem abaixo o enviado especial Pedro Cruz consegue enganar-se consecutivamente dizendo que em Portugal há 260 deputados (não: são 230) e que na Grécia são 500 deputados (não: são 300). A partir daí, Pedro Cruz entusiasma-se com uma diatribe baseada no facto do «parlamento grego ter perto do dobro do número de deputados em Portugal» (0:50s). Por acaso, é mentira. Olhem se isto fosse discutido como o são os erros de arbitragem ou como se no Bloco de Esquerda se tivesse verdadeiro interesse em denunciar as incompetências dos repórteres de televisão...

24 outubro 2018

É UM GOSTO QUANDO ESTE PASQUIM TEM DE DAR O BRAÇO A TORCER

Dada a forma memorável como no Observador se acompanhou a crise grega, as vitórias eleitorais do Syriza e o desempenho do primeiro-ministro Alexis Tsipras, não se devem perder as oportunidades de enfatizar as ocasiões em que o mesmo jornal, ainda que a contragosto, se vê obrigado a dar-nos conta dos sucessos registados naquele país no reequilíbrio da sua situação financeira, com aquele primeiro ministro a encabeçar um governo daquele partido - de quem tanto mal foi dito! Vale a pena realçar que, acentuando o contragosto, a notícia acima, colocada hoje on-line, é apenas a transposição da produzida pela agência Lusa.
É estranho que um jornal que teve no passado tal riqueza de pensadores e de opinadores sobre a realidade grega, não tenha agora um disponível para escrever uma peça autónoma sobre o tema da Grécia, nem que fosse - para variar! - uma honesta penitência... Para os leitores, estes exemplos do passado, comprovados no presente, devem ser um alerta sobre a credibilidade da publicação. Eu gostaria de acreditar que terá sido pelo aprender com os erros passados, que a atitude do Observador para com a actual indisciplina orçamental da Itália se esteja a mostrar muito mais moderada do que a ferocidade como José Manuel Fernandes causticou a Grécia ao longo de todo o ano de 2015 (abaixo).
É que, se não tiver sido por ter aprendido a lição de ter disparatado em demasia com a Grécia, a outra hipótese que resta para a condescendência agora demonstrada pelo Observador para com a Itália, dever-se-á ao facto de que a indisciplina orçamental de agora vir de organizações políticas de extrema-direita, enquanto que Tsipras e o Syriza eram de extrema-esquerda...

29 setembro 2018

OS (MAUS) IMITADORES DE DE GAULLE

Se, como se viu ontem, em 1958 o general de Gaulle havia mostrado em França que se podia utilizar o instrumento do referendo para contornar as resistências da classe política e apelar directamente à expressão da vontade popular, outros militares houve que, do exemplo, apenas retiraram as lições de como se procederia formalmente para conferir uma aparência de legalidade sufragada aos regimes de força. Dez anos depois, quase contados dia a dia, a 29 de Setembro de 1968, a Junta Militar dos coronéis, que tomara o poder na Grécia, organizou também um referendo à «sua» constituição. A atender aos resultados do escrutínio, apurados no dia seguinte, os coronéis haviam arrebatado os gregos: 94,9% dos votos haviam sido favoráveis à nova constituição! Pormenor não despiciendo: os doze primeiros artigos (aqueles que tradicionalmente abordam os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos) ficariam, para já, suspensos por tempo indeterminado... Ao mesmo tempo que anunciava esse pequeno senão, o primeiro ministro (e a cara mais visível da junta), o coronel Georgios Papadopoulos (1919-1999), procurava compensá-lo com o anúncio que a nova constituição entraria imediatamente em vigor. A ideia que se procurava vender naquela época era que os militares no poder eram muito práticos, não perdiam tempo com detalhes... Uma outra característica da época era que, ao contrário do que hoje acontece, os referendos não metiam medo a ninguém: não havia pudor em forjar o resultado.