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09 março 2012

A LINHA «DA FRENTE»

A fotografia acima data dos princípios dos anos 80 e nela identificam-se (da esquerda para a direita): Sam Nujoma da Namíbia (1929- ), o único dos presentes que, à data da fotografia, ainda não era chefe de estado nem de governo, Kenneth Kaunda (1924- ), que era então o Presidente da Zâmbia, Samora Machel (1933-1986), o Presidente moçambicano, Julius Nyerere (1922-1999), o Presidente da Tanzânia, Robert Mugabe (1924- ), então ainda 1º Ministro do Zimbabwe e finalmente o Presidente angolano José Eduardo dos Santos (1942- ).

O bloco representado por aqueles cinco países (mais a SWAPO namibiana) designava-se por Estados da Linha da Frente – assinalados a vermelho no mapa abaixo. O inimigo comum era a África do Sul (a azul), que era então dirigida pelo regime dos africânderes. Assinale-se a cor amarela dos países que estavam geograficamente mesmo à frente, como o Botswana, a Suazilândia ou o Lesoto que, por causa das represálias do poder militar e económico dos sul-africanos, não se podiam dar ao luxo de ser tão radicais quanto os vizinhos da frente mais resguardados

14 setembro 2009

FLUVIALIDADES BIZARRAS – 1 (O Rio que «desagua» no Deserto)

A fotografia acima, uma composição obtida por um satélite, não é do planeta Terra. É de Marte, e trata-se de uma daquelas fotografias a que as agências de exploração espacial costumam dar uma grande publicidade, para tornarem a opinião pública sua aliada naquela eterna disputa com o poder político pelos recursos para o financiamento das suas pesquisas. A palavra mágica dessa promoção costuma ser água, que funciona como um sinónimo de vida extraterrestre, qual Elixir da Longa Vida moderno, que nestas coisas da propaganda, mesmo sendo o assunto científico, o rigor é um aspecto de somenos importância.
Por consequência, é muito provável que a fotografia do primeiro delta, marciano e sequíssimo, seja muito mais conhecida do que a fotografia (outra composição obtida por satélite) do delta acima, terreno e molhado, do Rio Cubango (também conhecido pelo nome de Okavango) que, com as nascentes em Angola (abaixo o mapa da bacia do Rio), vem desaguar uns 1.500 km ao Sul no meio de nenhures, em pleno Deserto do Kalahari no Botswana. O delta caracteriza-se por ser uma zona pantanosa com uma flora e fauna exuberante e é, consequentemente, uma importante atracção turística desse país.
Mas nem guias, nem sequer cientistas, conseguem explicar cabalmente os mecanismos que fazem com que toda a água trazida de Norte pelo Cubango desapareça subitamente numa área de cerca de 15.000 km². É mais fácil explicar como era a configuração hidrográfica da região há uns 20.000 anos atrás, quando um lago de 80.000 km², baptizado de Makgadikgadi, era o destino final das águas do Cubango. Desse lago, hoje identificam-se as áreas mais profundas onde se formaram os depósitos salinos depois de ele ter secado (são as regiões esbranquiçadas à direita na fotografia abaixo).
Terão sido as mutações climáticas a alterar essa configuração e a transformar gradualmente o antigo lago no Deserto actual. E a explicação mais aceite para o completo desaparecimento do Rio antes de atingir o Deserto é que é a evaporação que faz com que desapareça 97% do débito de água do Rio Cubango que, ainda assim, atinge um mínimo de 350 m³ de água por segundo no tempo seco e chega a triplicar esse volume na época das chuvas. Para aqueles que se deixam induzir a entusiasmarem-se com formações geológicas bizarras noutros planetas, também vale a pena conhecer estas, que existem cá na Terra…

06 abril 2008

BOTSWANA

O Botswana é um país da África Austral, com as dimensões da França (582.000 Km²), mas desértico, onde apenas habitam 1,8 milhões de habitantes, o que, mesmo assim, é cerca do triplo do que acontecia há 40 anos atrás, quando a colónia (que então se chamava Bechuanalândia) se tornou independente do Reino Unido (30 de Setembro de 1966).
Era uma daquelas colónias africanas que não tem saída para o mar e que eram consideradas tão marginais que acontecia a bizarria rara* da sua capital colonial se situar no estrangeiro – Mafeking na vizinha África do Sul. Só com a aproximação da independência se veio a criar uma verdadeira cidade capital – Gaborone (hoje com 200.000 habitantes).
O Botswana independente viveu uma longa época (1966-94) de um comportamento internacional esquizofrénico, alinhando-se politicamente com o conjunto de países que proclamavam opor-se ao apartheid sul-africano (os Estados da Linha da Frente**), mas permanecendo na quase completa dependência económica dessa mesma África do Sul.
Mas uma imagem de marca do que se consideravam ser as tendências pró-ocidentais do Botswana era a pessoa do seu primeiro presidente (1966-80) Sir Seretse Khama e a publicidade dada ao facto dele ser casado com uma europeia (acima), o que afinal era uma verdadeira trivialidade... Acontecia o mesmo com Amílcar Cabral, Agostinho Neto ou Eduardo Mondlane…
Por falar em trivialidades, o Botswana tem uma certa projecção internacional por causa de personagens de ficção como Mma Ramotswe, a mais conhecida mulher detective africana, saída da imaginação do escocês Alexander McCall Smith, ou Xixo, o bosquímano determinado a devolver a garrafa vazia de Coca Cola no popular filme Os Deuses devem estar loucos

Mais a sério, o Botswana, que regista um estatuto económico bastante elevado para os padrões africanos e tem sido apontado como um exemplo por causa disso, tem a sua economia muito dependente da indústria mineira, sobretudo a dos diamantes (abaixo). A De Beers, multinacional que controla mundialmente esse sector, tem uma grande influência no país.
De certa forma, dada a sua grande extensão e fraca população, o Botswana é uma espécie de Emirato árabe no Sul da África, só que em vez de petróleo tem diamantes. Também ali, o Estado tornou-se um dos grandes empregadores nacionais e, entre os seus serviços, destacam-se as suas Forças Armadas (9.000 efectivos), denominadas Forças de Defesa do Botswana.
Pois foi um dos seus comandantes, o Tenente-General Ian Khama (acima) que, não por acaso, é filho de Sir Seretse***, o primeiro Presidente do país, que assumiu recentemente (desde o principio deste mês) o cargo que fora de seu pai, em substituição ao Presidente Festus Mogae. O contraste não podia deixar de ser maior com aquilo que se está a passar no vizinho Zimbabué
Há contudo quem aponte um problema ao novo Presidente: é solteiro, o que é capaz de levantar imensos problemas aos serviços protocolares do seu país por ocasião das visitas de Estado que venha a fazer e a receber. Contudo olhando para as beldades do seu país (acima), não se adivinham problemas para que Ian Khama copie o seu colega francês Nicolas Sarkozy

* Acontecia com o Botswana, com o Malawi ou com a Mauritânia (francesa).
** Angola, Botswana, Moçambique Tanzânia e Zâmbia.
*** É a criança do lado esquerdo da terceira fotografia.