15 de Fevereiro de 1921. Há cem anos, o Exército Vermelho iniciava a invasão da República Democrática da Geórgia. Apesar da uma retórica que apregoava precisamente o contrário, os bolcheviques de Moscovo sempre foram imperialistas: o seu objectivo era reconstituir as fronteiras do Império russo com as devidas adaptações de vocabulário. Já aqui me referi como no Verão de 1920 os bolcheviques russos haviam tentado reapossar-se da Polónia, foram derrotados, e acabaram por reconhecer a independência polaca. E contudo, este caso da Geórgia consegue ser ainda mais escabroso. A Geórgia de 1921 era tecnicamente um país socialista, governado pela facção menchevique da secção georgiana daquele mesmo Partido Social Democrata russo que estivera na origem dos bolcheviques de Moscovo. Mas, mais do que o parentesco político (ou,se calhar, por causa dele...), os mencheviques da Geórgia haviam procurado assegurar-se de garantias políticas, assinando um Tratado em Moscovo em Maio de 1920, em que a Rússia reconhecia «sem reservas a independência e soberania do Estado da Geórgia e voluntariamente renuncia(va) a todos os direitos soberanos que a Rússia pudesse ter no que diz respeito ao povo e ao território da Geórgia.» E tudo isso foi descartado há cem anos. A Geórgia foi invadida, conquistada e anexada. Afinal, Stalin não era georgiano?...A fotografia mostra unidades do Exército invasor em Tblissi.
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15 fevereiro 2021
29 agosto 2020
O SEGUNDO ATENTADO CONTRA EDUARD SHEVARDNADZE
29 de Agosto de 1995. Em Tbilisi, na Geórgia, Eduard Shevardnadze, que fora o ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética desde 1985 até à sua dissolução em 1991, é vítima de um atentado quando se deslocava de automóvel. Desempenhando então o cargo de presidente da Geórgia, Shevarnadze era então conhecido em todo o Mundo por ter sido o ministro dos estrangeiros de Gorbachev e este já era o segundo atentado que sofria. Virá a sofrer um terceiro em 1998. As lutas políticas em alguns dos países resultantes do desmembramento da URSS podiam revestir-se de uma violência digna de um conflito entre mafiosos. E a constatação de episódios como este era considerado no Ocidente como um retrocesso em relação à era soviética, mesmo ao período do estalinismo, onde a eliminação dos adversários políticos se revestira sempre de uma capa - ainda que muito ténue - de legalidade jurídica. Vinte e cinco anos depois, comprova-se que esse retrocesso de tratar dos assuntos extra-judicialmente se consolidou: a Rússia, e provavelmente os regimes aparentados, são os únicos países do Mundo conhecidos por, actualmente, envenenar os seus adversários políticos.
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07 maio 2020
O TRATADO DE MOSCOVO QUE OS RUSSOS RAPIDAMENTE NÃO CUMPRIRAM
Há pelo menos uma meia dúzia de Tratados de Moscovo. O que hoje aqui se evoca, que foi assinado há precisamente cem anos (7 de Maio de 1920) entre a Rússia Soviética e a Geórgia Democrática não serviu para nada, pelo menos do ponto de vista dos georgianos que queriam garantias de segurança face às tradicionais ambições expansionistas do seu grande vizinho. Note-se que os signatários deste Tratado eram dois governos de esquerda, os bolcheviques russos e os mencheviques geórgios. Nos seus dois primeiros artigos podia ler-se:
Artigo I:
Partindo do direito, proclamado pela República Socialista Federativa Soviética da Rússia, de todos os povos à livre autodeterminação até e inclusive a separação do Estado em que constituem uma parte, a Rússia reconhece sem reservas a independência e soberania do Estado da Geórgia e voluntariamente renuncia a todos os direitos soberanos que possa ter a Rússia no que diz respeito ao povo e ao território da Geórgia.
Artigo II:
Partindo dos princípios proclamados no Artigo I acima do presente Tratado, a Rússia se compromete a abster-se de qualquer tipo de interferência nos assuntos da Georgia.
Na prática, Lenine e os dirigentes soviéticos limparam o rabo a todo este palavreado: uns escassos nove meses depois, em Fevereiro de 1921, invocando os pretextos mais absurdos e aplicando a superioridade militar, os russos ocuparam a Geórgia e forçaram o país a integrar-se na União Soviética. Até 1991. Pelas razões históricas à vista, depois disso, na Geórgia acredita-se em relações e equilíbrios de força e não em qualquer compromisso da Rússia.
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13 outubro 2018
A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA
13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.
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20 junho 2016
1991 - O ANO DE TODOS OS REFERENDOS
Porque já se passaram 25 anos é natural o esquecimento, mas, a propósito do desta semana no Reino Unido, lembre-se que 1991 foi o ano de todos os referendos. Houve-os para todos os gostos em terras que a eles não estariam habituados. As três repúblicas do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, que faziam então parte da União Soviética, organizaram em Fevereiro e Março desse ano referendos em que se questionava a continuação desse estatuto versus a independência. A ideia fora anteciparem-se a um outro referendo, realizado na própria União Soviética em prol da sua preservação. Este último foi boicotado não apenas nas três repúblicas bálticas acima mencionadas, como também na Geórgia, na Arménia e na Moldávia. Onde se organizaram posteriormente os seus referendos que apuraram precisamente o contrário daquilo que o da União pretendia. Precipitada pela tentativa de golpe de Estado de Agosto, a dinâmica de decomposição da União Soviética parecia imparável, que veio a ser complementada por mais referendos em outras repúblicas, casos do Azerbaijão, do Uzbequistão ou da Ucrânia. A URSS desapareceria ainda antes do fim do ano.
Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, para voltar ao tema por onde havia começado o parágrafo anterior, não me recordo de ter ouvido muitas Cassandras económicas em 1991. Havia efectivamente muitas vozes agoirentas - há-as sempre - mas sempre no quadro do problema político e estratégico. Porque de um problema político se tratava, embora com enormes repercussões económicas. Neste caso do referendo britânico o que eu tenho estado a assistir é à subversão do que é a causa e do que é a consequência, do que é primordial e do que é acessório. Os britânicos, tal como outrora os lituanos e os restantes povos soviéticos o fizeram, decidirão da sua continuação na União Europeia por variadíssimas razões. Algumas até erradas; outras insignificantes; a económica será uma delas, mas não sei aquilatar da sua importância no computo global. Sei que no caso da dissolução da União Soviética não pesou grandemente, pois o impacto negativo nas economias das republicas era antecipável e não foi determinante. Mas, por causa do que me parece um expediente argumentativo, confesso que me tenho dedicado a um exercício que me tem divertido imenso e que aqui quero compartilhar com o leitor: quando se depararem com alertas quanto à evolução económica desfavorável no caso do Reino Unido abandonar a União Europeia, perguntem-se - e normalmente é fácil adivinhar a resposta... - se aquela mesma pessoa seria capaz de apresentar o mesmo género de argumentos - os prejuízos económicos - se ele fosse para ser utilizado como argumento em prol da continuação da União Soviética...
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24 novembro 2011
O ÚNICO CENSO RUSSO DA ERA IMPERIAL
A música para ir acompanhando a leitura é do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881): Quadros duma Exposição (1874)
Apenas através deste artifício o Império Russo podia apresentar a imagem de um núcleo central maioritário eslavo de religião ortodoxa constituído por ⅔ da população. Com o resto da população eslava não se podia contar: havia 7,9 milhões de polacos (6,3%) de confissão católica romana concentrados num Reino da Polónia de que o Czar era o monarca e que fora criado em 1815 (ver mapa acima). Mas a história dessa Polónia dual ao longo do Século XIX era a de um sucesso económico (Varsóvia era a terceira cidade do Império depois de São Petersburgo e de Moscovo) mas de uma contínua instabilidade política onde as revoltas polacas (1830, 1863) eram seguidas por ferozes repressões russas. Um outro grupo importante na Polónia e também nas regiões ocidentais do Império era o dos judeus: havia 5,1 milhões de falantes de ídiche (4,0%), um idioma germânico que se escreve em alfabeto hebreu. A importância da comunidade era acrescida pela sua sobre-representação entre a população urbana. Por exemplo, numa cidade como Brest, hoje localizada na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os judeus constituíam ⅔ da população de 45.000 habitantes. Seria, a par dos polacos, finlandeses ou alemães, uma das nacionalidades mais evoluídas mas também uma das que mostraria uma maior resistência àquilo que as autoridades imperiais qualificariam como assimilação…
Contudo, havia outros grupos nacionais a Ocidente com histórias de sucesso na sua integração sem assimilação no quadro imperial: a Finlândia, que era um Grão-Ducado que gozava de uma ampla autonomia, era um desses casos (os finlandeses eram 2,5 milhões – 2,0%). E embora com muito menos autonomia, algo de semelhante acontecia na região do Báltico, onde as populações estónias (1,0 milhão), letãs (1,4 milhão) e lituanas (1,6 milhão), ou seja cerca de 3,2% da população total, eram controladas por uma elite de ascendência alemã (que constituíam 1,8 milhão em todo o Império – 1,4%), uma das mais fiéis a São Petersburgo, uma ironia dada a história futura da relação entre alemães e russos. Essas eram as fronteiras pacíficas do Império Russo. As outras eram regiões de expansão, turbulentas como as populações que nelas habitavam. Na que confinava com os Balcãs, onde as potências rivais haviam incentivado a criação da Roménia de língua latina (1878) para obstar à expansão dos russos para as regiões dos eslavos no Sul da Europa, existia, apesar disso, uma minoria (1,1 milhão – 0,9%) que falava o romeno. Outras fronteiras meridionais da Rússia eram povoadas por uma confederação de nacionalidades que o Censo classificou demasiado genericamente de Turco-Tártara, que se estendia do Mar Negro ao Pacífico, composta por 13, 4 milhões de pessoas (10,6%).
Uma apreciável parte deles eram descendentes de tribos nómadas que, sob a bandeira mongol, haviam conquistado a Rússia no Século XIII e muitos continuavam os hábitos nómadas de outrora (acima), embora houvesse outros que haviam assentado (abaixo). Porém, quase todos professavam o Islão, que era a religião de 13,9 milhões dos súbditos do czar (11,1%). A maior concentração de muçulmanos localizava-se na Ásia Central (7,7 milhões), onde a administração russa funcionava segundo um modelo colonial clássico. Os soviéticos reorganizaram depois a região nas cinco repúblicas que são as que hoje perduram: Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Quirguízia. Uma segunda região muçulmana, que começara a ser integrada no Império já a partir de meados do Século XVII, estendia-se desde a Península da Crimeia até ao curso inferior do Rio Volga. Ao contrário da Ásia Central, neste caso a imigração dos russos alterara o panorama demográfico, fazendo com que a população muçulmana fosse significativa mas não predominante. Exemplo: ainda hoje há quase tantos russos quanto tártaros no Tartaristão. Finalmente havia uma terceira região de predomínio muçulmano: o Cáucaso. A região é célebre pela complexidade do seu relevo que interfere na distribuição e classificação das suas etnias que desafia as descrições simplificadas que se tentem conceber...
Contornando isso, há que referir que, apesar do carácter tradicionalmente combativo dos povos do Cáucaso que muitos problemas militares causara, o Império Russo contava ali com dois aliados sólidos, tanto os georgianos (1,4 milhões – 1,1%) como os arménios (1,2 milhões – 1,0%) eram povos de confissão cristã numa região que lhes era francamente hostil: já houvera príncipes georgianos a comandar exércitos russos contra Napoleão e, quanto ao futuro, Stalin, quase todos o saberão, era georgiano. O Censo de 1897, mau grado a manipulação a que foi sujeito, foi um instrumento único na identificação das minorias relevantes dentro do Império Russo. Dá para perceber que, como regra geral, o tratamento dado por São Petersburgo a cada minoria variava em função, não apenas da cumplicidade recíproca entre minoria e poder central, mas também na razão inversa da sua sofisticação cultural: quando maior esta, também maior era a hostilidade imperial. Mas, com essa notável excepção dos polacos, cuja direcção política clandestina nunca se terá disposto a reivindicar nada menos que a independência total, há que reconhecer que em 1897 a questão das nacionalidades ainda não seria um problema sério para a subsistência do Império. A Revolução de 1905, que irá ter lugar dali por oito anos, abanando o regime, deverá ser analisada sobretudo – senão exclusivamente – pela sua componente social.
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29 julho 2011
OS MERIDIONAIS
Datada de 1925, não fosse a presença do facilmente reconhecível Stalin e a fotografia pareceria ser uma fotografia de família. De certa maneira é uma fotografia de família, a dos dirigentes bolcheviques de origem meridional (do Cáucaso): da esquerda para a direita, o arménio Anastas Mikoyan e os georgianos Iossif Djugashvíli (Stalin) e Grigol Sergo Ordzhonikidze. Manobravam politicamente de forma concertada ao contrário do outro grupo minoritário entre os velhos dirigentes bolcheviques, os de origem judaica como Trotsky, Kamenev, Zinoviev, Litvinov ou Kaganovich. Pode ser uma explicação simplista, mas não desprovida de verdade, para explicar o sucesso da ascensão de Stalin ao poder absoluto na União Soviética.
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13 agosto 2008
UM ANTEPASSADO DE VLADIMIRO II
Apesar de Alexandre ser um nome de origem grega – basta lembrarmo-nos de Alexandre Magno – e da cultura e religião gregas (o cristianismo ortodoxo) terem sido extremamente influentes na formação da Rússia, o nome Alexandre era aí quase desconhecido quando o czar Alexandre I (1777-1825) ascendeu ao trono (1801), depois de uma conspiração que terminou com o assassinato do seu pai, o czar Paulo I (1754-1801). Na Europa aristocrática, sobretudo depois da execução de Luís XVI, isso foi considerado um episódio demasiado impróprio para uma corte civilizada, mas em São Petersburgo sempre se soube que o embaixador britânico a incentivara e que Alexandre sempre estivera ao corrente da conjura.
Depois de Pedro I, o Grande (1672-1725), uns cem anos antes, nunca um czar russo merecera um tal interesse na Europa, mas também, com as sucessivas Guerras Napoleónicas e a alteração consecutiva das suas fronteiras e dos seus equilíbrios internos, nunca se haviam propiciado tais condições para que a Rússia desempenhasse um papel tão importante na evolução do continente. Ainda hoje, a personalidade de Alexandre é um assunto que tem tanto de atractivo como de controverso. Raras vezes um monarca terá sido e permanecido tão incensado. Leo Tolstoi põe uma das suas personagens do seu clássico Guerra e Paz (concluído meio século depois), a proferir um dos mais rasgados elogios a Alexandre:
O nosso bom e maravilhoso imperador tem o maior papel a desempenhar no Mundo. É tão virtuoso e bom que Deus não o abandonará e ele cumprirá o seu glorioso destino de esmagar a hidra da Revolução, actualmente mais terrível ainda sob os traços daquele assassino e salteador. Esta última referência é obviamente a Napoleão, e a pretensa modéstia de Alexandre ainda o tornava mais simpático quanto em comparação com o seu grande rival; em Dezembro de 1812, em Vilnius (na Lituânia), depois da enorme derrota de Napoleão na sua frustrada Campanha da Rússia, Alexandre anunciava aos seus generais: Meus Senhores, Vós não haveis salvado apenas a Rússia, também salvaram a Europa.
Mas, na intimidade, Alexandre tinha momentos de fraqueza: Às vezes apetece-me dar com a cabeça nas paredes e se pudesse abandonar honrosamente esta função, fá-lo-ia de bom grado, pois não conheço nenhuma mais difícil que esta e não tenho vocação para o trono. Visto através dos olhos do realismo cruel dos homens de governo que o acompanharam ao longo da vida, apoiando-o ou defrontando-o, havia muito de verdade naquela confissão. Embora tivesse um temperamento naturalmente simpático e generoso, também facilmente se melindrava com pormenores. Ao mesmo tempo que se mostrava fraco de carácter e desejoso de agradar a todos era extremamente teimoso o que o fazia fácil de influenciar mas difícil de orientar.
Enfim, são pormenores de carácter de um governante num tempo em que, na Rússia, o poder do monarca era absoluto e imperava a regra da hereditariedade para o alcançar. Actualmente, as coisas parecem ter mudado muito mais na forma que na substância. As referências ao poder na Rússia continuam a ser fortemente personalizadas (não se fala do Governo da Rússia, quase ninguém conhece os seus ministros) e, quanto às regras para o alcançar, ainda hoje se especula sobre o conteúdo do acordo que terá sido firmado entre Putin e o seu predecessor Yeltsin, que permitiu ao primeiro assumir o cargo de Presidente interino em 1 de Janeiro de 2000 e assim disputar as eleições presidenciais de Março de 2000 numa posição privilegiada.
Com certeza que no futuro também se virão a escrever retratos psicológicos deste czar Vladimiro II*, mas entretanto, e a propósito do recente conflito entre a Rússia e a Geórgia, vale a pena fazer a comparação destes com os tempos de Alexandre I, para perceber quanto o Império Russo encolheu e perdeu poder. É que em 1801, um dos primeiros actos do reinado de Alexandre I foi a formalização da anexação da Geórgia ao Império Russo. Claro que os tempos eram distintos e os georgianos tinham inimigos muito mais ferozes do que os russos, como eram os casos dos turcos e dos persas. Estes últimos haviam saqueado Tbilissi em 1795. Numa análise estratégica distanciada, a Rússia está a bater-se por posições que considerou suas por 200 anos.
* O primeiro czar com esse nome foi Vladimiro Ulyanov (1870-1924), que é mais conhecido pelo nome de Lenine. 11 agosto 2008
EM INGLÊS PARA O MUNDO
Houve um cartaz do regime do Estado Novo que foi no seu tempo muito gozado por se inserir na campanha de erradicação do analfabetismo e onde, creio, se fazia um apelo a que os analfabetos deixassem de o ser. Quanto à eficácia do cartaz, como se dizia na anedota a seu respeito daquela época: não houve nenhum analfabeto que tivesse deixado de o ler! O cartaz da fotografia que enfeita um artigo do Público de hoje, sobre os rostos do jihadismo é do mesmo quilate: trata-se de um cartaz tipo faroeste (encimado com o tradicional Wanted), redigido em inglês e onde se pedem informações e se oferece uma recompensa (10 milhões de dólares) pelo já falecido Mussab al-Zarqawi (cartaz parecido com o de cima).
Aproveitando a piada: também naquele caso não deve ter havido iraquiano que não o tivesse deixado de o ler… Mais a sério, é evidente que o alfabeto corrente nos países árabes é o alfabeto árabe (acima) assim como o idioma. E sempre que temos direito a eventos em inglês adequados a que os possamos compreender naquelas paragens é uma atitude elementar desconfiar estarmos perante uma encenação destinada a consumo externo. Por exemplo, tornaram-se famosas as enormes discrepâncias entre os discursos em árabe e em inglês que eram proferidos por Yasser Arafat, o líder da OLP. Nos grandes problemas mundiais, como que se criou uma espécie de gramática política em inglês, especialmente vocacionada para o exterior.
Um dos factores que confere uma identidade nacional forte à Geórgia, o que é uma indiscutível vantagem perante os seus dois grandes vizinhos (russos e turcos) é o seu idioma e o seu alfabeto próprio, cujas raízes datam do fim da Antiguidade, da época da evangelização do país (Século V d.C.). Embora se perceba perfeitamente as razões porque o faça, não deixa de me ser desconfortável assistir aos vários discursos do Presidente da Geórgia que passam nas televisões internacionais (Mikhail Saakashvili - acima) onde ele aparece sempre a falar inglês. Embora a sua causa nos seja simpática (trata-se do fraco contra o forte), lembra Arafat, e levanta-me a dúvida se aquilo que diz ao seu povo é igual ao que diz ao Mundo...
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