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25 junho 2024

«CAPITÃO DE ABRIL, CONSTRUTOR DA DEMOCRACIA, COMBATENTE PELA PAZ»... MAS TAMBÉM "DESTRUIDOR" DO REGIME NOVEMBRISTA

25 de Junho de 1984. Por ocasião da realização do 2º Congresso Regional da UDP no Machico (Madeira), o dirigente nacional Mário Tomé destacava-se pelo tom inflamado e radical do seu discurso opinando que a única saída para a situação política económica e social de então seria «a destruição daquele regime reaccionário novembrista» (referência ao 25 de Novembro de 1975). A solução seria a instauração em Portugal da «República Popular», única que «permitiria ao povo a mais ampla liberdade para se organizar e lutar». Também se mostrava contra a presença de Portugal na NATO e contra o FMI, já que, segundo ele, «o povo português não devia nada a ninguém e era, isso sim, vítima há muitos e muitos anos da roubalheira e das negociatas dos burgueses com os estrangeiros». Enfim, trata-se de um conteúdo capaz de ombrear em despropósito e disparate com aquelas coisas que agora se ouvem a André Ventura. O folclore da asneira transferiu-se da extrema esquerda para a extrema direita nestes quarenta anos. E, no entanto, ainda aqui há cinco anos, os do Bloco de Esquerda (Catarina Martins) iam recuperar este mesmo disparatado Mário Tomé, numa manobra de lhe conferir estatuto de veneranda figura, branqueando-lhe estes discursos do passado e dando-lhe epítetos bonitos - capitão de Abril, construtor da democracia, combatente pela Paz - num gesto de amnésia que teve tanto de ridículo, quanto de despropositado. Nunca esqueçamos que a grande virtude da Democracia é aceitar todos estes cretinos - e classificá-los pelo que eles são: cretinos.

24 junho 2024

«OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER» E A LUTA DO MRPP PARA CONTROLAR A FACULDADE DE DIREITO DE LISBOA

24 de Junho de 1974. Uma notícia dava ampla ressonância ao comunicado de um grupo de estudantes que se auto-baptizara «Ousar Lutar, Ousar Vencer» (as ressonâncias maoistas são óbvias) e que entrara em confronto aberto com a «Comissão Pré-Eleitoral» (CPE) da Faculdade de Direito de Lisboa (FDL), estrutura que provisoriamente substituíra a Associação Académica daquela faculdade. O que se deduz do que aparece no comunicado, é que há uma disputa por quem controla a Reunião Geral de Alunos (RGA - uma sigla que então surgia e que viria a ter grande ressonância durante o PREC). Houvera uma RGA dois dias antes, onde vingara a proposta de SUSPENSÃO IMEDIATA DE EXAMES (sic - é assim que aparece redigida, em maiúsculas). Os da «Ousar Lutar, Ousar Vencer», que terão sido os proponentes, explicam no comunicado que «a decisão» é o «passo necessário que permitirá aos estudantes iniciar o duro e urgente trabalho de reestruturação da Faculdade». Sendo «duro e urgente», a verdade é que não aparece uma discrição mais detalhada daquilo em que consistirá o tal «trabalho de reestruturação». Em contrapartida o que aparece é um veemente desmentido que aquela suspensão equivalesse a uma «forma encapuçada de passagens administrativas que ninguém» propusera, conforme afirmariam as «calúnias» dos «actuais membros da CPE». Para aquele dia 24, às 21 horas, estava marcada nova RGA, ou seja, um rematch para se saber quem controlava a FDL - o MRPP da «Ousar Lutar, Ousar Vencer», ou os seus adversários da CPE? Convém acautelar que esta última seria provavelmente controlada pelos comunistas canónicos do PCP. Estava-se em dia de São João Baptista e esta seria um dos baptismos de fogo das lutas académicas sem que fossem alvo da PIDE...

21 junho 2024

ENTRA O VERÃO E COMEÇAM AS NOTÍCIAS REAQUECIDAS NO MICRO-ONDAS

Com a entrada do Verão começam a faltar as notícias e os espaços passam a ser preenchidos com a redescoberta do que é evidente, como se de novidade se tratasse, uma espécie de recondicionamento da notícia, reaquecida num micro-ondas da oportunidade. Aqui, e porque o assunto é a evidência de que a CGTP é uma extensão do PCP para a actividade sindical, algo que é óbvio há quase 50 anos, tantos quantos duram os anos da mentira do desmentido (veja-se acima, em Abril de 2022), o aparelho que reaquece o tópico merece ser apresentado numa versão vermelha e de esquerda, popular e proletária. Só que, para que a metáfora fosse completa, a dimensão do micro-ondas devia ser cada vez mais pequena, a cada ano que passa e a pretensa "independência" da CGTP é reaquecida.

16 junho 2024

UMA VIAGEM AO PASSADO FALANDO SOBRE «A BOLHA» DOS CONSPIRADORES PROFISSIONAIS REVOLUCIONÁRIOS

Muito me surpreenderá se houver um leitor do Herdeiro de Aécio que reconheça a pessoa do retrato acima. A Wikipedia resolve o problema: trata-se de Filippo Buonarroti (1761-1837), que a página respectiva descreve como um «revolucionário e teórico socialista italiano radicado em França». Quanto ao retrato, a Wikipedia não esclarece, mas ele foi pintado por Philippe Auguste Jeanron (1808-1877). A acção predominante de Buonarroti foi, porém, em França, onde ele se tornou conhecido por ser um dos activistas mais radicais no período mais dinâmico da Revolução Francesa (1791-1797), é considerado alguém muito próximo do proto-comunista François Noël Babeuf (1760-1797), que veio a morrer na guilhotina em resultado de uma conspiração - conhecida pela Conspiração dos Iguais - intentada contra o governo do Directório. Apesar de envolvido na conspiração, Buonarroti sobreviveu com uma pena de desterro e é como teórico - mas sempre conspirador - que ele se vem a tornar famoso, quando publica em 1828 o livro acima: Conspiração para Igualdade dita de Babeuf. Repare-se o pormenor que o livro foi editado em Bruxelas, que fazia parte então do Reino dos Países Baixos e onde Buonarroti estava então exilado. A obra foi muito bem acolhida, nomeadamente por teóricos revolucionários de gerações posteriores, os casos mais notáveis de Marx, Engels, Bakunin e Trotsky, todos eles produziram textos com referências elogiosas a Buonarroti. Preso por uma última vez ainda em Paris, em Outubro de 1833, aos 72 anos, Buonarroti vem a falecer cego na mesma cidade em 1837. Com esta história de vida, é considerado o percursor dos conspiradores profissionais que sacrificaram toda a sua vida pela luta por uma causa. Mas, remetido para aquela categoria implacável e talvez simplista de socialista utópico com que estes precursores vieram a ser mimoseados pelos conspiradores profissionais revolucionários do século seguinte, estes últimos esqueceram Buonarroti por completo.
O que é uma excelente deixa para apresentar esta outra fotografia, que foi tirada num dos anos finais do século XX (1997/8?) pelo fotógrafo Eduardo Gageiro. Trata-se de uma fotografia de conjunto dos dirigentes históricos do Partido Comunista Português (PCP). Sentados e da esquerda para a direita: António Dias Lourenço (1915-2010), Álvaro Cunhal (1913-2005), José Vitoriano (1917-2006), Joaquim Gomes (1917-2010) e Octávio Pato (1925-1999). Detrás, de pé e pela mesma ordem: Jaime Serra (1921-2022), Sérgio Vilarigues (1914-2007) e Fernando Blanqui Teixeira (1922-2004). Para os mais rigorosos e mais interessados, o elenco congrega não apenas os quatro membros eleitos para o Secretariado do Comité Central (CC) do PCP em 4 de Maio de 1974 (Cunhal, Gomes, Pato e Vilarigues), como também oito dos dez membros da Comissão Política desse mesmo Comité Central que foram eleitos nessa mesma altura, conforme se pode ler num documento da autoria de um dos presentes, Joaquim Gomes, que foi publicado em 1999 e de onde tomei a liberdade de retirar a lista que se pode apreciar mais abaixo, onde se dá conta de como ficou a composição do CC do PCP logo depois do 25 de Abril. Os nomes dos presentes na foto acima estão sublinhados. E nota-se aplicação e método na enumeração feita por Joaquim Gomes. Cada nome aparece acompanhado da antiguidade como militante, como funcionário do partido (i.e., trabalhando em exclusivo na actividade política clandestina), os anos de prisão, e também a antiguidade do militante como membro do CC. Estranhamente, o que ficou por nomear foi a idade de cada um. Assim, em 1974 aquela vanguarda mais esclarecida dos comunistas portugueses que nos aparece mais acima tinha uma idade média de 56 anos, estivera preso quase 10 anos, era militante há 37 anos, funcionário do PCP há um pouco mais de 29 anos e integrava o CC desde há 24 anos e meio.
Embora seja um pouco forçado este processo de sintetizar todos aqueles números acima evocados num retrato-robot da elite dos militantes comunistas quando da queda do Estado Novo, a verdade é que aqueles dados nos podem dizer muita coisa: todos eles se haviam tornado militantes muito novos, aos 19 anos em média (i.e. 56-37 anos) e tinham-se profissionalizado também muito cedo: cerca dos 27 anos (56-39) haviam-se passado a dedicar exclusivamente ao partido. Uma profissão que comportava muitos riscos: 10 anos de prisão da PIDE em média. Mas, precisamente por causa desses riscos, mas também por se considerarem uma vanguarda de cunho quase sacerdotal, não se pode dizer que eles pudessem compartilhar a vivência do povo que tanto invocavam. Na época ainda não se inventara a expressão «viver numa bolha» mas era precisamente o que acontecia com eles, discípulos longínquos de um Buonarroti, conspiradores profissionais dedicados à causa da revolução. A que surgiu em Abril de 1974, era-lhes favorável, mas ainda não era a revolução deles. E felizmente nunca foi a revolução deles. É precisamente isso e o que aconteceu depois do 25 de Abril no Portugal democrático que eu gostaria de enfatizar e que me levou a escrever este poste, baseando-me na fotografia de 1997/98, que foi tirada quase 25 anos depois do 25 de Abril. A fotografia mostra-nos que esse quarto de século em que Portugal passou a viver em Democracia, mesmo que essa circunstância tivesse feito desaparecer as ameaças que pendiam sobre os membros do CC nos 37 anos precedentes de militância comunista, parece não ter tido qualquer influência profissional na actividade de qualquer um deles veio a exercer. Haviam sido funcionários do partido antes de 1974 e aqui vêmo-los reformados de funcionários do partido. Precisamente, como agora se diz, na mesma «bolha».
Uma última nota para acrescentar esta outra fotografia com os mesmos, que foi provavelmente feita na mesma altura, mas onde a sua ordem é diferente. Octávio Pato mudou-se da extrema direita para a extrema esquerda sentada, desalojando Dias Lourenço que foi para a extrema direita levantada, enquanto Blanqui Teixeira ocupou o lugar sentado que fora o de Octávio Pato. Os outros ocupam os mesmos lugares. Nesta versão da foto, a debilidade física de Octávio Pato é notória e isso torna-se mais evidente pelo olhar que lhe dedica José Vitoriano (ao centro). Apesar de ser o mais novo dos oito, Octávio Pato será o primeiro a falecer, em Fevereiro de 1999.

27 maio 2024

O DESCONTENTAMENTO ESLOVACO DENTRO DA CHECOSLOVÁQUIA

27 de Maio de 1964. O New York Times publicava um artigo sobre aqueles temas que eram raramente abordados no Ocidente - os nacionalismos subordinados dos países da Europa de Leste. A simplicidade da propaganda tendia a descrever estes países como meros satélites da União Soviética sem mais. Mas, para além das especificidades, havia aspectos associados a alguns deles que lhes davam características únicas. A Jugoslávia e, neste caso, a Checoslováquia eram países recentes (1918) e que resultavam da agregação de mais do que uma nacionalidade. Neste caso, a notícia era oriunda de Bratislava, capital da Eslováquia, e instruía o leitor sobre o desconforto dos «quatro milhões de eslovacos» que «constituíam cerca de 20% da população» total da Checoslováquia (um número mais realista seria 28%). As causas para tal desconforto assentavam no facto de que, na condução da política nacional da Checoslováquia, predominava a maioria checa. E, quanto a relações de proximidade, o artigo não deixava passar algumas evidências da geografia, como o facto de que a distância de Bratislava a Praga, a capital da Checoslováquia, é de 330 km, enquanto a capital da Hungria, Budapeste, está a 200 km e, mais importante para a argumentação subjacente ao artigo, Viena, a capital da Áustria, está apenas a 80km! Mas até 1989, aqueles países eram ditaduras e estes assuntos eram encarados no Ocidente como preciosismos que não interessavam para a rivalidade Leste-Oeste. Só que não eram preciosismos, mas assuntos muito sérios para os directamente envolvidos: tanto assim que os dois países se dissociaram um do outro escassos anos depois do fim da Guerra Fria.

20 maio 2024

OS "MELÕES" (ELEITORAIS) E AQUILO QUE PARECE SER A NOVA ESTRATÉGIA POLÍTICA DA "MELANCIA" COMUNISTA

Se querem saber a minha opinião ao ler esta promoção às «jornadas parlamentares comunistas», acho que é uma grande injustiça para os mais de 40 anos de leais serviços à causa comunista por parte do partido ecologista os verdes. O PEV «foi fundado em 1982 e concorreu sempre às eleições em coligação com o PCP», na função subalterna de partido satélite encarregue dos assuntos ambientais e com a função de fazer com que o PCP se apresentasse a eleições como se fosse uma frente eleitoral, e não o partido per se. O sucesso da primeira parte do expediente não parece ter durado muito, mas, avaliando a duração de 40 anos, terá deixado os seus autores felizes quanto ao sucesso da segunda parte - a da ficção da frente eleitoral. Até ao definhamento eleitoral do PCP registado nas sucessivas eleições legislativas desta última década: 446.000 votos (2015), 332.000 (2019), 242.000 (2022), 203.000 (2024). Apesar da robustez aparente da expressão acima, onde se lê «...que juntarão os deputados e eurodeputados do partido», está-se a falar concretamente de uma meia-dúzia: são quatro deputados e dois eurodeputados, os que o PCP conta hoje por eleitos (quiçá queiram adicionar ainda o deputado regional da Madeira ao elenco para serem sete...). Por detrás desse parece-o-que-não-é, aquilo que me considero verdadeiramente inédito no artigo comunicado acima é o destaque dado a assuntos que canonicamente pertenceriam aos verdes - «questões que se prendem com a defesa do ambiente, a protecção do nosso património natural, da natureza, da biodiversidade». Ora esta manobra parece-me uma grande - e injusta - rasteira à Heloísa Apolónia. Depois de tantos anos com os verdes, são agora os comunistas, falhos de outras perspectivas, a quererem fazer-se passar por melancias. É ainda mais triste do que quando eram os verdes a fazê-lo, passarem-se por ecologistas.

É que a imagética tradicional do comunismo está repleta de exemplos do Homem a dominar e domar a natureza, de hossanas à produção, como esta fotografia abaixo de Vsevolod Tarasevich de uma fábrica de cimento soviética em plena laboração em 1954, há 70 anos. Com muito fumo, a simbolizar muita actividade. E, pelo contrário, não conheço muitas fotografias de propaganda comunista canónica com ninhos de passarinhos, ou outra temática bucólica análoga... Com este lastro, é muito tarde para os comunistas portugueses se reinventarem a serem outras coisas...

19 maio 2024

IMAGENS DE OUTROS SANTOS PORTUGUESES – 2

70º aniversário da morte de Catarina Eufémia. Republicação
A fotografia acima é um retrato (como então se dizia) típico dos anos cinquenta de uma mulher pobre – uma verdadeira proletária, no sentido marxista do termo – como se comprova pela modéstia dos adornos visíveis que usa: um colar simples com uma medalha. Chamava-se Catarina Eufémia, era uma trabalhadora rural que encabeçava uma manifestação reivindicativa quando foi morta pela GNR em 19 de Maio de 1954 em Baleizão no Baixo Alentejo. A sua condição de proletária e de analfabeta torna muito improvável a afirmação que ela fosse uma militante clandestina do PCP, conforme este último ainda hoje reclama.
Mas uma coisa é certa: o PCP dispôs de outros candidatos a santos mártires pela causa (como será o caso de José Dias Coelho), mas foi nela que apostou decisivamente para esse papel, sobretudo depois do 25 de Abril. Como aconteceu com Ribeiro Santos, a representação de Catarina Eufémia tornou-se estilizada, usando um jogo de padrões claro/escuro que se tornasse reconhecível nas pinturas murais (acima). E houve até quem tivesse ido mais longe e tentado tornar a imagem da Santa um pouco mais misteriosa e atractiva, invertendo-a no seu eixo vertical, como se pode observar neste cartaz abaixo, datado de 1980…
Em complemento ao texto inicial, vale a pena publicar a notícia da época, publicada no Diário de Lisboa do dia seguinte, que dá conta da «impressionante manifestação de pesar» do seu funeral. Como a realidade frequentemente vem acompanhada de ironia, o nome da vítima aparece trocado: Maria da Graça Sapinho, em vez de Catarina Eufémia... O episódio é dado como acidental e o autor dos disparos, o tenente Carrajola, é dado como estando sob prisão, em Évora. E vale a pena assinalar que, pelo conteúdo, parece não ter havido intervenção da censura na publicação da notícia. É um daqueles casos em que agora não se menciona esse aspecto, mas, caso tivesse havido censura à notícia, a propaganda do PCP não deixaria de o realçar.

16 maio 2024

OS TEMPOS DO JOGO DA VERMELHINHA (E DA FOICE E DO MARTELO) E DA IGNORÂNCIA INGÉNUA DOS PORTUGUESES

16 de Maio de 1974. A página da crítica televisiva do Diário de Lisboa dá destaque a uma «mesa redonda» que, supõe-se que pela sua importância, fora transmitida no dia anterior por duas vezes - «às duas horas da tarde e repetida à noite» - «mesa redonda» essa em que haviam participado «o tenente-coronel Ricardo Durão, Octávio Pato, membro do Comité Central do Partido Comunista Português e Carlos Carvalho do sindicato dos metalúrgicos, candidato às "eleições" pela C.D.E.» (as de 1973). A tónica do encontro, conta-nos Mário Castrim, «recaiu na necessidade de estreitar, com a máxima firmeza, os laços entre as massas populares e o Movimento das Forças Armadas, ali representado pelo tenente-coronel Ricardo Durão». E quem é que ali representaria «as massas populares»? Por um lado, Octávio Pato, dirigente de topo do PCP (o mais antigo dos partidos políticos existentes em Portugal a 25 de Abril de 1974). Por outro lado, interviera o aparente "sindicalista" Carlos Carvalho, cujo nome fora mal grafado, e que se chamava, na realidade... Carlos Carvalhas! Carlos Carvalhas (como hoje sabemos) veio a ser o secretário-geral do mesmo PCP em 1992... A esta distância temporal e sabendo o que sabemos hoje, percebemos que a «mesa redonda» da RTP estava afinal "arredondada" de uma maneira bastante "distorcida", com dois militantes comunistas, um assumido e outro encapotado a contracenar com um militar - por sinal, conotado com a ala spinolista do MFA. Mas ainda não era tudo. Quanto ao objectivo da mensagem política que o PCP quereria passar, essa seria «a de estreitar os laços entre as massas populares e o Movimento das Forças Armadas» e aí também Mário Castrim se destacava nessa missão de propaganda, já que, também ele, era militante comunista, na altura não sei se já assumido ou ainda encapotado... Os portugueses eram todos muito ingénuos naqueles tempos e tudo aquilo parecia o jogo da vermelhinha: sempre que se virava uma carta, saía sempre uma carta vermelha e do partido do costume... De resto, neste caso concreto e por força das circunstâncias, reconheça-se que a ficção da "independência" de Carlos Carvalhas não durou muito: a 7 de Junho de 1974 ele tomou posse como secretário de Estado do Trabalho do I Governo Provisório em representação do PCP e lá se foi a encenação que dali viriam comentários alternativos aos de Octávio Pato...

Agora os tempos são completamente e felizmente outros, sem tantas ingenuidades. Quando, no Domingo passado, João Cotrim de Figueiredo da Iniciativa Liberal apareceu com João Oliveira do PCP no programa de Ricardo Araújo Pereira, o comentário inicial de Cotrim de Figueiredo continha uma referência indisfarçável às simpatias políticas do anfitrião:   
- "...se tudo tinha corrido bem da outra vez (que ele fora àquele programa), eu não percebo porque é que foi preciso ir buscar outro comunista para equilibrar isto. Mas eu posso bem com os dois."

Embora o comentário não tenha sido mencionado sequer no dia seguinte, o sorriso bem amarelo que ele provocou no momento ao moderador Ricardo Araújo Pereira, mostrou quanto a canelada fora inesperada, senão mesmo assestada num sítio onde doía... Hoje, cinquenta anos depois, deixou de haver ignorâncias ingénuas para onde pendem as simpatias políticas de quem nos aparece nos ecrãs. Muito menos se torna possível, que uma crónica deste «Isto é Gozar com quem trabalha», que aparecesse publicada num jornal do dia seguinte, viesse assinada, com toda uma pretensa neutralidade, pelo jornalista/opinador Pedro Tadeu...

14 maio 2024

DOS FRACOS (DE ESPÍRITO) NÃO REZA A HISTÓRIA...

Esta história havia começado em Janeiro de 1963, quando um artista de trapézio da Alemanha Oriental, chamado Horst Klein, alcançara a notoriedade por ter fugido daquele país, atravessando o Muro de forma original, escalando um grande poste de electricidade e pendurando-se num dos cabos de sustentação em aço. Tudo terá corrido bem até à sua chegada a - por cima de - Berlim Ocidental, quando Horst Klein se terá desequilibrado e caído de uma altura apreciável, já que a consequência foi a de ter fracturado os dois braços. Mas, mesmo de braços partidos ou, se calhar, até por causa deles, o homem tornou-se um daqueles pequenos heróis da Guerra Fria, entre aqueles poucos que haviam vencido o Muro que separava as duas Alemanhas. Mas a pequena notícia (acima, ao centro) de 14 de Maio de 1964 desfaz o mito: é que, chegado ao Ocidente, o homem deixou-se enganar depois pelos apelos da sua mulher Sylvia, que ficara do lado de lá, e regressara à Alemanha Oriental para ser - naturalmente - preso e condenado a 30 meses de trabalhos forçados. Suprema humilhação para Horst Klein: a mulher divorciara-se e casara-se com outro. A propaganda da Guerra Fria aceitava heróis desastrados e de braços partidos, agora assim tão estúpidos, não!

09 maio 2024

A GREVE DE 8 E 9 DE MAIO DE 1944

Se há alguma coisa que faz pouco sentido em Democracia é que, à censura oficial que se verificava sob o Estado Novo, que impedia que os pontos de vista do regime fossem contraditados, se sucedeu, depois do 25 de Abril, outro género de unilateralismo, que peca por omissão, em que agora as narrativas dos acontecimentos são feitas apenas pelo outro lado. Por exemplo, a greve de 8 e 9 de Maio de 1944, que foi fomentada e organizada pelo Partido Comunista Português torna-se numa narrativa heróica, com um generalizado apoio popular, um acontecimento sem mácula, quando é evocada por aquela organização. Do lado direito da imagem temos um panfleto da altura e a primeira página da edição seguinte do jornal clandestino Avante! E no entanto, e como já aqui se verificara aquando da evocação do 75º aniversário da prisão de Álvaro Cunhal, uma consulta aos jornais da época, mostra todo um distanciamento em relação às acções dos comunistas. Aquilo que aconteceu não foi nada como eles agora contam e os comunistas estavam muito longe de granjear o apoio popular que se subentende das suas narrativas. E repare-se como acima, do lado esquerdo, a notícia de dia 9 de Maio, que dá conta dos acontecimentos, é antecedida de um editorial intitulado A Ordem. Pelo menos para o editorialista do Diário de Lisboa (presumivelmente o seu director Joaquim Manso), fomentar greves num país neutral numa Europa em guerra não lhe parecia gesto que se saudasse.

01 maio 2024

...SOLDADOS E MARINHEIROS...

(Republicação)
Mário Soares nunca ficou a dever nada ao rigor. Ouvi-lo anos mais tarde a descrever os primeiros dias após o 25 de Abril, nomeadamente a rigidez como os comunistas se apegavam à simbologia do leninismo era um desafio aos factos e às fotos, mas não à essência das suas críticas a um comportamento que procurava mimetizar acontecimentos 57 anos depois dos originais (a revolução russa). Os 57 anos decorridos tornavam a reencenação ridícula. Para Soares, os momentos lenínicos de Cunhal compactavam-se na sua chegada apoteótica ao aeroporto de Lisboa, onde o faziam subir para um carro blindado abraçar-se a um soldado e a um marinheiro para discursar às massas. Com rigor (que nunca incomodou Soares...), importa esclarecer que se tratou de dois momentos distintos, embora em dias encadeados. Álvaro Cunhal chegou a Portugal a 30 de Abril de 1974 e discursou em cima do blindado logo à saída do aeroporto (ao jeito de Lenine), mas o abraço conjunto ao soldado e ao marinheiro para as câmaras só veio a ter lugar no dia seguinte, 1º de Maio de 1974 - completam-se hoje 50 anos (acima). Mas o que os esforços do PCP da época têm de cómico não é apenas o meia bola e força da tal evocação sintética de Soares. É também o zelo formal dos discípulos de Cunhal no método científico que eles usam para refutar Soares, concentrando-se no detalhe e na forma (Cunhal não abraçou o soldado e o marinheiro em cima do blindado), que não no conjunto e na substância (a constatação que havia uma preocupação dos comunistas em fazer Cunhal assumir atitudes públicas associáveis a gestos de Lenine). Porque na substância, a ironia de Mário Soares em realçar o quanto Cunhal aparecia empenhado a ressuscitar uma coreografia que já estava então muito mais do que ultrapassada, essa ironia é mais do que justificada: repare-se como na foto acima já não existirá espaço para se incluir na foto um outro militar, da Força Aérea, ramo das Forças Armadas que já existia no Portugal de 1974, mas ainda não na Rússia de 1917, onde então só havia apenas soldados e marinheiros... Lá nos manuais de propaganda dos comunistas não se sabia ainda o que fazer com as fardas azuis dos aviadores...

25 abril 2024

MAIS CRAVOS EM ARMAS ERRADAS

(Republicação a propósito do cinquentenário)
Já aqui escrevera, no 25 de Abril do ano passado, sobre cravos colocados nas armas erradas. Regresso ao tema, observando a forma displicentemente ligeira como, por vezes, o tema dos cravos do 25 de Abril é tratado. A silhueta da arma da figura acima, por exemplo, é facilmente reconhecível como uma AK-47, uma arma de origem soviética. Para além do erro factual (Portugal sempre pertenceu à NATO, seria impossível que os seus soldados usassem armas daquela proveniência em 1974), e com a ignorância mais do que provável dos autores da montagem, aquela arma pode prestar-se a interpretações maliciosas (mas quiçá pertinentes) sobre a influência que o marxismo-leninismo teve no desvio dos ideais originais do 25 de Abril, só posteriormente corrigidas a 25 de Novembro de 1975.

Aliás, desconhecido de muitos, a começar pelos portugueses, a associação entre cravos e armas individuais de infantaria, especialmente as de origem soviética, é um fenómeno bem mais antigo do que 1974. Abaixo podemos ver um cartaz polaco dos anos próximos do fim da Segunda Guerra Mundial, da época em que vigorava uma amizade fraterna entre russos e polacos. Do ponto de mira da arma (uma PPSh de origem soviética) vêm-se sair dois cravos, um vermelho outro branco, representativos das cores nacionais da Polónia. Apesar de se tratar de uma estética bem conseguida, não consta que os cravos tivessem adquirido grande significado simbólico entre os polacos... Deve ter sido porque lá na Polónia daqueles anos os cravos da Liberdade não se davam muito bem por causa do clima

24 abril 2024

O ESPIÃO QUE FOI PRESO NA VÉSPERA DO 25 DE ABRIL

(Republicação)
A história passou praticamente desapercebida em Portugal, porque ocorreu quase toda durante a fase eufórica que vai do 25 de Abril de 1974 até ao 1º de Maio, mas um dos maiores, senão mesmo o maior escândalo de espionagem ocorreu na Alemanha Federal durante esse período. Depois de uma investigação metódica dos seus serviços de contra-espionagem, o governo alemão descobriu que um dos homens de maior confiança do chefe do governo, o Chanceler Willy Brandt, havia sido, desde sempre, um espião plantado pelos serviços de informações da vizinha e rival Alemanha Democrática (abaixo).
De seu nome Günter Guillaume, o homem que conquistara a confiança de Brandt viera do Leste em 1956 no meio dos quase 2.750.000 alemães que atravessaram a fronteira no mesmo sentido entre 1949 (data da fundação das duas Repúblicas alemãs rivais) e 1961 (data da construção do Muro de Berlim). Só que Guillaume vinha com instruções específicas de Markus Wolf (abaixo) – hoje considerado uma referência entre os profissionais da espionagem – para se infiltrar no aparelho político do SPD (o Partido Social Democrata da Alemanha Federal), o que ele fez com o sucesso que agora se conhecia…
A prisão de Guillaume, quando as provas angariadas contra si já eram indesmentíveis, ocorreu precisamente a 24 de Abril de 1974 e foram, e aqui o termo pode empregar-se com propriedade, um verdadeiro terramoto político. Tanto mais que o próprio visado assumiu imediatamente a verdade, mal foi preso. Embora tenha vindo a compor o seu comportamento nas suas memórias (*), a verdade é que Willy Brandt ainda tentou minorar os estragos e verificar as suas possibilidades de sobrevivência política. Só dali a duas semanas (6 de Maio) é que se demitiu e, mesmo assim, só do cargo governamental de Chanceler.
Willy Brandt foi substituído no cargo de Chanceler por Helmut Schmidt (acima). Interditado a partir dali de ocupar quaisquer lugares de relevo, Brandt passou os anos que se seguiram a mexer os cordelinhos nos bastidores, quer com o cargo (que reteve até 1987) de presidente do SPD, quer com o de presidente da Internacional Socialista até 1992, que foi também o ano da sua morte. Quanto a Günter Guillaume, ele foi julgado e condenado a uma pena de 13 anos de prisão. Acabou por cumprir apenas metade da pena, porque em 1981 veio a ser libertado numa troca de espiões entre Leste e Oeste.
Curiosamente, nesse mesmo ano de 1981, uma operação que teria causado na Alemanha Democrática um embaraço simétrico à do Caso Guillaume, foi evitada: um quadro dos serviços de espionagem da RDA chamado Werner Teske tinha estado a preparar-se para desertar para o Ocidente (**) levando um amplo dossier com as actividades do seu serviço quando foi descoberto, julgado, condenado e executado. Tudo isso se passou no maior silêncio informativo e só se veio a descobrir depois da queda do Muro. É por comparar casos destes que sempre achei que em vez das mais amplas liberdades democráticas foi sempre preferível usufruir das outras

(*) – A versão que agora se tenta fazer correr é que Brandt já estava muito desgastado politicamente naquela altura e que se demitiu por outras causas que não o escândalo. É preciso frisar que Willy Brandt sempre desfrutou desde o princípio da sua carreira, como burgomestre de Berlim, de uma boa publicidade na imprensa, nomeadamente do maior grupo editorial alemão, o de Axel Springer.
(**) – Houvera um outro desertor, mas de menor graduação, chamado Werner Stiller, que fora bem sucedido em Janeiro de 1979.

03 abril 2024

OS ÚLTIMOS VESTÍGIOS DA DISPUTA PELA SUCESSÃO DE ESTALINE

3 de Abril de 1964. Num artigo publicado no oficialíssimo Pravda, órgão central do Partido Comunista da União Soviética, artigo esse que aparecera assinado por aquele que era o oficialíssimo ideólogo do partido, o camarada Mikhail Suslov, o Mundo ficava a saber que os camaradas Vyacheslav Molotov, Geórgiy Malenkov e Lazar Kaganovich haviam sido expulsos do partido por ocasião de uma reunião do Comité Central que tivera lugar mais de um mês antes, a 14 de Fevereiro de 1964. Hoje esquecidos, qualquer daqueles três homens pertencera ao círculo que rodeava o ditador Estaline e fora elemento importante na disputa para a sua sucessão depois da sua morte em 1953. (Em parêntesis, confirme-se no vídeo abaixo que todos os três aparecem como personagens destacadas no filme comédia negra A Morte de Estaline de 2017). Mas Estaline morrera onze anos antes e o vencedor da disputa que se seguira fora Nikita Khrushchev. Como o próprio artigo do New York Times se encarrega de recordar os seus leitores, eles já haviam sido afastados dos cargos cimeiros do partido a partir de 1955 e desterrados administrativamente para cargos subalternos em localidades esconsas da imensa Rússia. Mas, pelos vistos, o que se ficava a saber há sessenta anos é que essa sanção não fora considerada suficiente.
Compare-se agora a mesma notícia original quando publicada num jornal português, em que a referência às expulsões não pôde ser referida. Isto é um exemplo concreto da diferença entre uma informação livre e outra tutelada.

01 abril 2024

BRASIL EM FESTA - QUANDO O PODER POLÍTICO EMANA DO CANO DE UMA ESPINGARDA

(Republicação)
1 de Abril de 1964. Há precisamente 60 anos as altas patentes militares brasileiras desencadeavam um golpe de Estado que os tornava senhores do poder político. Acima, identificam-se (de binóculos) o general Costa e Silva que representava a facção mais radical entre os generais e, a seu lado e à civil, o general Castelo Branco, que encabeçava uma facção tida por mais moderada e que iria encabeçar o movimento revoltoso assumindo a Presidência pelos próximos três anos (1964-67). Entretanto, e para sustentar as aparências legais, os generais haviam incumbido os constitucionalistas Francisco Campos e Carlos Medeiros Silva de redigir um documento legitimador que ficou conhecido por Acto Institucional (mais tarde, como se seguiram outros, este acabou por receber o nº 1). É uma peça com passagens interessantíssimas, onde a tradicional esterilidade do «juridiquês» se combina com uma prosa de uma estética apelativa para quem professa a legitimação dos acontecimentos pela força dos meios, mais do que das convicções.
«(...) A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Os Chefes da revolução vitoriosa, graças à acção das Forças Armadas e ao apoio inequívoco da Nação, representam o Povo e em seu nome exercem o Poder Constituinte, de que o Povo é o único titular.(...)
(...) Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é que recebe deste Acto Institucional, resultante do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legitimação. (...)»
A legitimidade do novo poder é assim, e por muito que tenha sido portagonizada por generais, assumidamente revolucionária, e não parece despropositado emparceirar a linha de raciocínio acima com uma conhecida - e já então consagrada - frase de Mao Zedong, a de que o poder político emana do cano de uma espingarda. O poder dos generais era daí que vinha, era através dele que se tinha apoderado também, da opinião publicada (como se comprova acima). Confesso que - não concordando nada com o que lá está escrito! - gosto particularmente da redacção do Acto Institucional nº1. Também pelo seu significado e pelas suas implicações, parece-me ser um dos textos politicamente dialecticos mais interessantes que foram escritos em português e, não fora os preconceitos de esquerda, e fossem as palavras e os raciocínios em política para levar cartesianamente a sério, seria pacífico que o AI-1 tem muito mais valia literária que alguns livrinhos com máximas que, por aqueles anos, nos chegavam vindos da China.

25 março 2024

A PRISÃO DE ÁLVARO CUNHAL

Álvaro Cunhal foi preso pela PIDE na madrugada de 25 de Março de 1949 num palacete do Luso. Esta notícia do Diário de Lisboa data, porém, de 31 de Março, seis dias depois. Como se depreende pela leitura do artigo (que recomendo), o anúncio público da prisão foi precipitado por uma iniciativa dos próprios comunistas, que fizeram publicar um anúncio críptico num jornal portuense (O Primeiro de Janeiro), anunciando que Álvaro Cunhal Duarte se mudara para a rua do Heroísmo (a sede da PIDE no Porto, onde ele estava preso). Vale a pena ler o artigo no original, porque, ao contrário das versões que apareceram depois do 25 de Abril, a redacção do artigo é bastante parcimoniosa quanto à simpatia pelos protagonistas. Por exemplo, de um lado temos «o distinto Inspector Superior da PIDE, sr. capitão José Catela» que, por outro lado, «teve ensejo (...) de lamentar que se perdesse por tão ínvios caminhos um rapaz que poderia ser cidadão prestimoso» (Cunhal). Sintomático de quem seria o vencedor do momento, a inclusão do último trecho do artigo, em que se faz referência a um «comentário» de um «colega»: - «Como é que o general três pontinhos se meteu com esta gente?!» (os comunistas) O «general três pontinhos» era o general Norton de Matos que fora o candidato às eleições presidenciais de 13 de Fevereiro daquele mesmo ano e que desistira no dia anterior ao escrutínio, invocando falta de condições. Não era difícil perceber para onde, na circunstância, penderiam as simpatias do redactor em 1949. E imaginar aquilo em que se transformou este mesmo jornal dali por 25 anos!

22 março 2024

DEDICADO EM REGISTO NOSTÁLGICO AOS CAMARADAS DA SOEIRO PEREIRA GOMES

Celebrações do 40º aniversário da Alemanha Oriental, a um mês do colapso do regime comunista local. Depois de 1989 nunca mais as coisas foram as mesmas. Em Portugal e apesar do barulho que eles se impuseram fazer logo imediatamente depois de 10 de Março («Cerca de duas centenas de delegados, dirigentes e ativistas sindicais da administração pública manifestaram-se hoje na baixa de Lisboa»), a constatação a cada eleição que passa, é que o ideal e as ilusões comunistas ortodoxas morrem mais um bocadinho. Contudo, pior do que tudo, este lento processo de definhamento tem sido feito sem qualquer dignidade, porque os comunistas se têm agarrado a todos os expedientes e até a amizades fingidas. A propósito daquilo que acabou de acontecer na Rússia (que por lá chamaram eleições presidenciais), vale a pena recordar velhos tempos (Janeiro de 2005), em que o PCP, certamente por solidariedade para com o partido irmão russo*, ainda não se havia tornado na organização incondicionalmente putinista que hoje conhecemos.
* Partido Comunista russo que entretanto, sob Putin, se terá tornado noutra memória histórica, precedendo o PCP. A Rússia actual é a demonstração acabada que uma ditadura é uma ditadura e o que é importante numa ditadura é que ela seja obediente a um ditador independentemente das razões que este último arranje para ser obedecido.

15 março 2024

ADOPÇÃO DO HINO OFICIAL DA UNIÃO SOVIÉTICA

(Republicação)

15 de Março de 1944. Discretamente, em plena conflagração mundial e justificando-se por causa da auto dissolução da III Internacional no ano anterior, a União Soviética adopta oficialmente um novo hino em substituição de A Internacional. Com uma outra letra, em que as menções a Estaline (primeiro) e a Lenine (depois) entretanto desapareceram, ainda hoje permanece sendo o hino da Rússia.

11 março 2024

A RENDIÇÃO - ASSAZ TARDIA - DO TENENTE HIROO ONODA

11 de Março de 1974. A notícia da rendição do tenente Hiroo Onoda do exército imperial japonês deu a volta ao Mundo, considerado o anacronismo de que a rendição formal do Japão havia tido lugar vinte e oito anos e meio antes... Mesmo assim, houve que ir convocar o antigo comandante de Onoda ao Japão para que este se apresentasse às autoridades filipinas. É uma daquelas notícias que só vale a pena apresentada superficialmente pela sua faceta anacrónica: é evidente que naqueles anos o tenente Onoda terá tido muitos contactos prévios com quem o teria informado da evolução da realidade no resto do Mundo. Nas fotos abaixo, a espada está velha e ferrugenta, mas Onoda terá adquirido calçado noutro sítio, por exemplo, porque aquilo que ele calça não tem aspecto de ter durado 29 anos... Hoje, tendo em atenção os resultados eleitorais de ontem do PCP (agora reduzido a um grupo parlamentar de quatro deputados, mais de 32 anos depois da dissolução da União Soviética), parece-nos um dia assaz oportuno para evocar este género de pessoas que se recusam teimosamente a reconhecer aquilo que aconteceu à sua volta, e permanecem fiéis a um ideal que já desapareceu.

10 março 2024

COMPAREMOS ENTÃO A NOSSA DEMOCRACIA COM A DA COREIA DO NORTE

Hoje, que é dia de eleições, recordemos a notícia acima, de há precisamente dez anos, sobre eleições que haviam tido lugar na Coreia do Norte. Eleições onde havia «um único candidato designado pelo partido único para cada uma das 687 circunscrições do país»... Felizmente os portugueses têm hoje muita mais escolha: há 19 partidos e coligações a concorrer a estas eleições em Portugal. E entre esses 19 há um partido cujos dirigentes manifestaram aprofundadas dúvidas que a liberdade de escolher os seus dirigentes políticos seja condição indispensável para a existência de uma verdadeira Democracia, como se comprova mais abaixo. É nestes dias que se vê quanto a verdadeira Democracia é Grande, é tolerante até para com aqueles que mostram não saber em que é que ela consiste.