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02 junho 2024

A ESTREIA DA TELEVISÃO BUTANESA

(Republicação)
O Butão é um país de 725.000 habitantes e 38.400 Km², situado nas encostas meridionais da cadeia dos Himalaias. E não é um país de modas. O dia 2 de Junho de 1999 ficou assinalado pela inauguração das transmissões de televisão naquele país. Simultaneamente, e num gesto que poderemos classificar de estouvado, o país conectou-se à internet. Até aí, os butaneses nunca tinham tido acesso a esse tão prosaico meio de entretenimento, pois até as antenas parabólicas eram interditas no país. À época, o Butão era uma monarquia absoluta, o que pode explicar muita coisa. A descrição da actividade do monarca butanês de então, Jigme Singye Wangchuck (que reinava desde 1972), aparece repleta daqueles elogios que costumam ser dispensados aos déspotas esclarecidos pelos seus esforços em prol do desenvolvimento dos povos dos países que governam. Atribui-se ao país e aos seus governantes uma preocupação precoce e continuada com as questões ambientais, mas a verdade é que, vinte e cinco anos depois e já com um outro monarca (constitucional) no poder, o país permanece demasiado isolado do exterior para que possamos avaliar de fora, e com propriedade, como é que os butaneses avaliam a sua própria situação. Mas algo me parece evidente: pelo menos, ter inaugurado os serviços de televisão a 19 meses do início do século XXI não terá constituído a vanguarda de modelo de desenvolvimento algum - porque televisão é coisa que toda a Humanidade parece gostar de ver.

07 abril 2009

BUTÃO – O REINO EREMITA NO MEIO DE UM GRANDE JOGO

Se observarmos atentamente o mapa acima, as zonas de fronteira entre a China (a Norte e a vermelho) e a Índia (a Sul e a açafrão) contêm três regiões vazias que se apresentam a branco. A região da esquerda, denominada Aksai Chin, até está mal assinalada, porque se encontra, de facto, ocupada pela China embora a ocupação não seja reconhecida pela Índia. A do centro, sobre o comprido, é o Nepal. E a da direita, a mais oriental de todas, é um país quase desconhecido, que dá pelo nome improvável de Butão.
A minha relação de simpatia com este discretíssimo país data da infância, depois de ter visto um documentário na televisão a seu respeito. Era um país romanticamente medieval, daqueles que ainda possuía uma capital de Inverno (Punaka) e outra de Verão (Thimbu), pois, tal como acontecia com os nossos primeiros reis, tal estatuto acabava por viajar conjuntamente com o monarca e a corte. Já não propriamente medieval, mas ainda de um arcaísmo impressionante, era o armamento das Forças Armadas (abaixo)…

Na prática, naquela altura o Butão era (e ainda hoje permanece) um protectorado da Índia, que se responsabilizava pela sua defesa e pela formação dos militares. Com uma área que equivale a metade de Portugal (47.000 km²) mas com apenas um terço da população metropolitana de Lisboa (700.000 habitantes), o Butão é literalmente um pequeníssimo peão do grande jogo que se trava entre os dois colossos que o cercam. E, neste momento, apesar de predominantemente budista, aquele peão pertence à Índia.
Mas, esse grande jogo geoestratégico que se trava nas faldas dos Himalaias, tem sido, apesar do desinteresse ocidental, daqueles que tem mostrado muito dinamismo: ainda em Maio de 2008, a China, por intermédio do Partido Comunista local, marcou pontos sobre a Índia ao instalar-se no poder no Nepal, derrubando a monarquia hindu. Simbólico da ignorância daquilo em que consiste o grande jogo, houve quem celebrasse o derrube, ainda assim melhor que outros que mostravam não perceber patavina do que tinha acontecido
Mas o grande jogo continua e a (pouca) atenção que o assunto merece transferiu-se agora para o Butão onde existe uma cópia exacta da manobra nepalesa: há ali uma outra organização de guerrilheiros (a Frente Revolucionária Unida do Butão), que é a emanação do Partido Comunista local, de inspiração maoista. Muito recentemente, uma emboscada destes últimos liquidou quatro guardas butaneses. Claro que já nem guerrilheiros rebeldes nem guardas governamentais estavam equipados e armados da forma pitoresca da fotografia acima...