22 de Abril de 1971. No Haiti, no dia seguinte à morte do pai, o presidente François «Papa Doc» Duvalier, o seu filho com quase 20 anos, Jean-Claude Duvalier (e que virá a ficar conhecido para a História com a alcunha - previsível - de «Baby Doc»), toma posse desse mesmo cargo presidencial, perante as críticas unânimes de uma comunidade internacional que se mostrava ainda pouco habituada a gestos tão despropositados de sucessão monárquica, pelo menos quando acontecendo em regimes que se reclamam dos princípios republicanos. Quase 50 anos contados dia a dia se passaram, e a 21 de Abril de 2021, aconteceu precisamente o mesmo no Chade, com a morte do presidente Idriss Déby, que foi substituído de imediato no cargo pelo seu filho Mahamat Déby Itno, um sucessor que, com os seus 37 anos, até faz figura de veterano quando em comparação com Baby Doc. A diferença é que agora já não há quem se indigne por aí além com estas sucessões dinásticas como acontecia outrora... até já as houve - e por duas vezes - em países socialistas avançados como a Coreia do Norte!
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22 abril 2021
17 agosto 2020
UM AGOSTO DE SONHO PARA QUEM GOSTAVA DE CONHECER E RECONHECER BANDEIRAS
17 de Agosto de 1960. A França concede a independência ao Gabão. A ocasião é apenas mais uma de um frenesim gaulês que começara logo no princípio daquele mês, em dias alternados, e que começara pela independência do Daomé em 1 de Agosto, a que se seguira a do Níger no dia 3, a do Alto Volta no dia 5, a da Costa do Marfim no dia 7, a do Chade no dia 11, a da República Centro Africana no dia 13, a do Congo no dia 15 e esta, do Gabão, há precisamente sessenta anos. Para rematar, no dia 20 de Agosto, o Senegal, que se tornara independente da França numa federação conjuntamente com o Mali havia precisamente dois meses(!), resolve romper aquela estrutura e assumir-se como uma nação independente (voltaremos a este último episódio na respectiva data). Entretanto este querido mês de Agosto de 1960, e apenas à conta da França, produzirá nove novas bandeiras(!), que aparecem dispostas acima no sentido tradicional da leitura pela data da acessão dos respectivos países à independência. Concorde-se que o conjunto é assaz colorido, não se tratassem elas de novas nações africanas... Nestes 60 anos, algumas delas mudaram de nome, o Daomé para Benim, o Alto Volta para Burkina Faso. Ambos esses países mudaram de bandeira, conjuntamente com o Congo, mas tanto o Benim quanto o Congo retornaram às originais de 1960 e só o Burkina Faso adopta actualmente uma diferente.
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11 outubro 2018
A EMBOSCADA DE BEDO, ÀS TROPAS FRANCESAS ESTACIONADAS NO CHADE
11 de Outubro de 1970. Soldados franceses de uma coluna que patrulhava o norte do Chade, são emboscados por um forte contingente de guerrilheiros da Frolinat. A Frente de Libertação Nacional do Chade (Frolinat) formara-se em 1966 e combatia o governo central chadiano que se constituíra na sequência da concessão da independência ao Chade em Agosto de 1960. Em 1968, dois anos após o início da revolta, havia sido a pedido da presidência chadiana que os militares franceses haviam sido chamados a intervir no norte do país, região de onde a guerrilha rebelde praticamente expulsara o exército chadiano. O destacamento francês era pequeno, situava-se na ordem do milhar de efectivos (talvez um pouco mais), a versão oficial é que estavam sobretudo a instruir o novo exército chadiano, mas, para todos os efeitos, tratava-se de uma nova guerra contra-subversiva, num meio ambiente - o deserto - que os franceses tão bem haviam conhecido quando da Guerra da Argélia.
Apenas o quadro político mudara e adquirira uma outra legitimação: era o próprio país que pedia o auxílio da antiga potência colonial. E isso parecia legitimar tudo. A emboscada de há 48 anos foi uma acção importante: nela, os paraquedistas franceses perderam 11 mortos e tiveram 16 feridos, o que constituía um balanço pesado, apesar das baixas infligidas ao inimigo. E nada melhor que os portugueses para o avaliarem, que nas suas três guerra em África se deparavam com alguma frequência com situações semelhantes. A acentuar a semelhança, as imagens abaixo dos soldados franceses envergando camuflados quase idênticos aos das nossas tropas (ou talvez ao contrário, que em muitos aspectos fomos nós que os copiámos da Argélia). Mas havia uma diferença substantiva para o que acontecia em Portugal: o assunto era notícia no telejornal do dia seguinte e um deputado da oposição (François Mitterrand) pretendia interpelar o governo a respeito do que acontecera. Só damos o devido valor à Democracia depois de nos apercebermos do que é não a ter...
17 janeiro 2013
O SAHEL, AS FRONTEIRAS POLÍTICAS DE ÁFRICA E O MALI
Dividindo o continente do Atlântico ao Mar Vermelho ao longo de 5.400 km e com uma largura variável de algumas centenas de quilómetros, o Sahel constitui uma região de transição entre o deserto do Sahara e a região das savanas a Sul, que rasga completamente África. A Sul vivem tradicionalmente as populações sedentárias de pele normalmente mais escura; a Norte, as populações são tradicionalmente nómadas e têm a pele mais clara. A configuração das fronteiras políticas que foi desenhada pelas potências europeias na Conferência de Berlim (1885) reuniu-as em entidades políticas que posteriormente vieram a constituir países africanos independentes: de Oeste para Leste, a Mauritânia, o Mali, o Níger e o Chade, todos saídos da esfera da francofonia, mais o Sudão, de ascendência britânica (abaixo). Muito antes deles (desde o Século XV), o Islão tem convertido a população e a maioria, senão mesmo a esmagadora maioria dela em qualquer dos países mencionados é actualmente muçulmana.
O que pode conferir um carácter heterogéneo à população local é o contraste histórico entre os povos sedentários mais escuros do Sul e os nómadas mais claros do Norte – sobretudo a sobranceria que, em geral, estes últimos manifestam em relação aos primeiros. Os sedentários são maioritários na Mauritânia, no Mali e no Níger. No Chade a composição é equilibrada e no Sudão os povos do Norte estão em franca maioria. Terá sido por isso que tanto no Chade como no Sudão desde o Século XIX os meridionais abraçaram o cristianismo como religião identitária. A verdade é que nos últimos 50 anos de independência qualquer daqueles países – com a notável excepção do Níger – passou por graves momentos de confrontação interna: já duas guerras civis no Chade (1965-1979/2005-2010), chegam a existir umas Forças de Libertação Africanas da Mauritânia, do Mali falar-se-á mais adiante e no Sudão ainda não se percebeu se a tensão terá terminado com a independência do Sudão do Sul em Julho de 2011.
O aparecimento do Sudão do Sul criou um precedente que fora cuidadosamente interditado pelos próprios países africanos logo na fundação da OUA: a criação/revisão de fronteiras para além das herdadas do colonialismo (da Conferência de Berlim). Antevia-se que seria uma Caixa de Pandora de conflitos. E é: só foi preciso esperar nove meses após a independência do Sudão do Sul para que os rebeldes malianos proclamassem a do Azawad em Abril de 2012. E, se compararmos o traçado das fronteiras do putativo Azawad independente (acima) com a imagem compósita por satélite do Mali (abaixo), apercebemo-nos de como elas seguem um traçado tão natural quanto a que foi escolhida no Sudão. Este será uma descrição sucinta do enquadramento geral da situação política na região do Sahel que ajudará à compreensão do problema maliano, no qual a França acabou de se intrometer, após ter esperado debalde nove meses por uma intervenção dos países da CEDEAO, o organismo regional de integração económica e política.
A coerência política parece ter sido uma das primeiras vítimas da intervenção
francesa. No Mali a França opõe-se a uma intenção de secessão que parece simétrica
à que se verificou no Sudão do Sul, à qual a França não se opôs. Por outro
lado, aparentemente para colher simpatias junto dos seus aliados, a França
procura aproveitar-se do extremismo religioso dos rebeldes para os associar mediaticamente à Al-Qaeda. Assim como o cristianismo no Sul do Sudão, poder-se-ia argumentar
que este extremismo religioso está a ser usado como elemento de unidade
das populações separatistas do Norte, já que aproximadamente 90% da população
maliana é muçulmana. Noutra perspectiva, poder-se-ia argumentar que à França
não incomodou apoiar outros extremistas religiosos – esses porventura já não seriam jihadistas... – quando, por exemplo, do derrube do regime líbio. Contradições à parte,
a França aparece aqui apostada na preservação de um status quo que, teoricamente,
deveria interessar mais aos países da própria região…
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