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12 abril 2024

PORTUGAL UNO E MULTIRRACIAL... MAS CONTAS À PARTE S.F.F.

12 de Abril de 1974. Em vésperas do 25 de Abril, o Portugal de Marcello Caetano continuava a ser o «uno e multirracial» de Salazar (o marcelismo até criara um novo slogan, melhor adaptado aos novos tempos, o dos «vinte e cinco milhões de portugueses»), mas a compartimentalização financeira do «Portugal Uno» perpetuava, por detrás da propaganda, a concepção imperial da estrutura do conjunto: Portugal e cada uma das suas colónias mantinham em circulação moedas distintas e os acertos de contas das transacções financeiras entre a metrópole e as colónias (e entre estas, também), faziam-se ao ritmo que fosse mais conveniente para Lisboa. E as colónias que registavam saldos comerciais superavitários no seu comércio externo, como era o caso mais flagrante de Angola, ficavam anos à espera que Lisboa procedesse à devida compensação. Esses montantes designavam-se eufemisticamente por «atrasados» e esta notícia acima, de há precisamente 50 anos, dá conta das queixas - muito suaves - apresentadas pelo então «secretário provincial das Finanças e Planeamento», Walter Marques, a respeito da situação que se percebe que já se arrastava desde 1971. Um dos aspectos realçados era que, apesar de - teoricamente - as cotações das duas moedas - o escudo metropolitano e o angolano - se equivalerem, as duas moedas já eram cambiadas em Luanda no mercado livre - ali denominado acintosamente «mercado negro» - à cotação de 0,70 ou 0,75 para 1. Os mercados demonstravam que a colónia (Angola) estava a ser lesada à custa da metrópole (Portugal). E, para além disso, as previsões de Walter Marques para 1975 é que o problema se continuaria a manter («... tal não implica que se inicie o período de licenciamento livre...»). Hoje sabemos que o ano de 1975 veio a ser completamente diferente daquele que Walter Marques estaria a antecipar naquela altura: a questão das finanças terá sido o menor dos problemas com que Angola se confrontou até à independência. Mas estes problemas que aqui recordo, e que acabaram sendo atropelados por outros de gravidade superior depois do 25 de Abril, mostram que, para além da questão política e militar, a estrutura do Portugal de Marcello Caetano, falho das reformas que ele não tivera a coragem de iniciar, essa estrutura estava a ranger em mais do que apenas aqueles aspectos que depois se tornaram mais evidentes.

19 fevereiro 2023

OS EXERCÍCIOS DA ARTILHARIA ANTIAÉREA

Luanda, 19 de Fevereiro de 1963. A cidade angolana era palco dos primeiros «exercícios de fogos reais antiaéreos». Dois anos depois de ter sido palco das primeiras acções de subversão por parte dos movimentos nacionalistas, a capital da província ultramarina portuguesa de Angola exibia a sua capacidade de defesa contra um ataque por aeronaves. Como em outros aspectos, estas exibições do dispositivo militar português nas colónias destinavam-se mais a ser consumidas pelas populações locais e pela opinião pública doméstica, do que propriamente como intimidação aos inimigos. Concretamente, e enquanto na Guiné, como aqui já havia explicado, não havia grande utilidade para as fragatas portuguesas combaterem a hipotética marinha do PAIGC ou da FLING, em Angola as hipóteses do MPLA ou da UPA virem a constituir uma hipotética força aérea com capacidade para bombardear Luanda afiguravam-se igualmente remotas...

Uma nota final: aparentemente, nestes exercícios, havia uma extrema - e compreensível - relutância dos pilotos da Força Aérea em colaborarem como «alvos» para a afinação da pontaria dos artilheiros AA. Um elogio será devido, ao fim de todos estes anos, aquele que virá a ser um dos futuros Alto-Comissários em Angola (depois do 25 de Abril), o general Silva Cardoso, que era um bravo.

15 janeiro 2023

BATALHA DE MBANDA KASI

Só se sabe que a batalha de Mbanda Kasi ocorreu num dos dias de Janeiro de 1623. Enfrentaram-se os exércitos de duas facções rivais em disputa pela supremacia pelo reino do Congo. Uma das facções era encabeçada pelo rei (conhecido pelo título de manicongo) Pedro II, enquanto a facção rebelde contaria com o apoio material substantivo dos portugueses estabelecidos na região de Luanda. Admite-se que o capitão-general daquela província, Pedro de Sousa Coelho, tenha estado presente na batalha. E a vitória terá sido do exército congolês, mas só recentemente (em 2010) é que se ficaram a conhecer estes (poucos) detalhes sobre esta batalha travada em terras de Angola em que tropas portuguesas terão intervido de forma significativa (embora em números que se desconhecem). Isso deve-se à descoberta de um documento nos arquivos holandeses, uma carta em que o manicongo Pedro II abordava os directores da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais já depois da batalha, procurando forjar uma aliança anti-portuguesa. Não existem relatos da parte portuguesa em relação a esta batalha - ela nem consta da maior compilação que existe sobre o tema: o livro Portugal Militar de Carlos Selvagem (1931). Sabe-se que, na sequência da derrota, Pedro de Sousa Coelho acabou por ser substituído no cargo pelo bispo Simão Mascarenhas. E que o projecto de aliança de Pedro II do Congo acabou por não se concretizar. O manicongo morreu em Abril de 1624. Sucedeu-lhe um filho (Garcia I) que também permaneceu no trono apenas por dois anos (1626), tendo sido deposto numa outra guerra civil congolesa.

28 setembro 2022

A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA RECONHECE A REPÚBLICA POPULAR DE ANGOLA

28 de Setembro de 1982. Nos dias que correm, suspeito que será uma inconveniência recordar que a China aguardou quase sete anos para reconhecer o governo que o MPLA havia proclamado em Luanda em 11 de Novembro de 1975 e isso apesar dos dois regimes se reclamarem do mesmo campo ideológico (comunista). Hoje há uma certa tendência para sobre simplificar as vicissitudes da Guerra-fria, colocando os Estados Unidos capitalistas de um lado e a União Soviética comunista de outro, quando o xadrez da ordem internacional vigente era, como aqui se percebe à evidência, bem mais complexo.

13 julho 2022

OUTRA FILHA E OUTRO FUNERAL

13 de Julho de 1972. Com destaque de primeira página, o Diário de Lisboa noticiava que «a actriz Melina Mercouri» voltara «ontem à Grécia, com autorização especial das autoridades, para assistir aos funerais da sua mãe.» (...) «Foram-lhes concedidas exactamente 12 horas para permanecer em território grego e assistir às cerimónias fúnebres.» Na telefoto da UPI que acompanha a notícia, «ela aparece entre o irmão e o marido, o cineasta Jules Dassin, exprimindo pateticamente a sua dor, como qualquer das heroínas populares dos filmes que interpretou.» É uma coincidência evocar este episódio antigo de cinquenta anos, quando as questões da segurança jurídica das filhas de José Eduardo dos Santos em Angola também estão em aberto, por ocasião da eventual realização do funeral do antigo presidente angolano no seu país natal. Mas, descontando os aspectos mais essenciais, a analogia não é assim tão extensa quanto isso. A figura principal do episódio grego é a filha, enquanto a do episódio angolano é o progenitor que morreu; aquelas filhas, por muito espaço mediático que agora lhes concedam, não seriam notícia, não fosse o pai.

04 abril 2022

PAZ A SÉRIO EM ANGOLA

4 de Abril de 2002. Há precisamente vinte anos assinava-se um acordo de cessar-fogo em Angola. Na altura, não se pode dizer que fosse uma notícia, a História breve da Angola independente já estava cheia de acordos de paz (fotos abaixo) que haviam ficado por cumprir. Notícias a respeito haviam-se desvalorizado como os kwanzas, a moeda local. Mas este acordo, sabemos agora, veio a ser a sério. O que havia mudado: seis semanas antes desta assinatura Jonas Savimbi, o líder da UNITA, fora abatido pelas forças governamentais no mato onde se refugiara para prosseguir a guerrilha. Os factos vieram demonstrar que ele era pessoalmente o obstáculo para a paz. Ficou para a parte contrária, a de José Eduardo dos Santos, a demonstração da colossal hipocrisia das elites angolanas: durante 27 anos a guerra civil (1975-2002) fora o motivo invocado para justificar as condições deploráveis em que viviam a esmagadora maioria dos angolanos, apesar da riqueza intrínseca do seu país. 20 anos entretanto passados depois da obtenção da paz e nada a esse respeito se alterou, a não ser que os ricos se tornaram ainda mais ricos... E isso porque o MPLA que tem estado no poder é um partido que se tinha/tem reclamado do marxismo; imagine-se se fosse capitalista...

22 fevereiro 2022

A MORTE MATADA DE JONAS SAVIMBI

22 de Fevereiro de 2002. Só com a morte de Jonas Savimbi se consegue assegurar o fim da guerra civil em Angola. É um daqueles casos em que é patente que o materialismo histórico não serve para explicar a História, como pretendiam os marxistas. Karl Marx nunca percebeu nada de África e as massas populares africanas, com toda a legitimidade recíproca, também se estiveram a marimbar para aquilo que Marx achava a respeito do modo de como elas se deviam comportar e definir os momentos decisivos da História. Estes episódios da História de Angola são de uma História de homens. A constatação daquele momento, corroborada pelo que se seguiu, é que, enquanto Jonas Savimbi foi vivo e apesar de inúmeras tentativas, não houve condições para a existência de uma solução política pacífica em Angola; e depois de morto, houve. Há duas versões das circunstâncias da sua morte: em combate ou executado. A versão oficial é demasiado conveniente para ser concludente. Mas, para o que interessa, estes episódios, não sendo gloriosos, são eficazes para os vencedores: recorde-se que já há mais de 2.000 anos os romanos haviam feito o mesmo cá por Portugal, com Viriato e depois com Sertório. O que os vinte anos entretanto transcorridos vieram revelar também, assunto do qual se fala bastante menos, é que a morte de Jonas Savimbi veio revelar, para além de qualquer dúvida, de que massa era feito José Eduardo dos Santos. Se até ali, a guerra fora uma desculpa preciosa para que a esmagadora maioria da população angolana vivesse em muito más condições, com o fim da guerra, e o fim da enorme despesa a ela associada, apenas se terá assistido a um reforço das contas bancárias privativas de tantos figurões que José Eduardo dos Santos caucionou com o seu péssimo exemplo. Ou alguém duvida que Angola sofreu dos problemas de corrupção que ainda sofre sobretudo por causa do presidente que a maioria da sua população havia escolhido?

20 dezembro 2021

O PROBLEMA DA COLONIZAÇÃO DE ANGOLA

20 de Dezembro de 1921. O artigo, que então vemos abaixo publicado no Diário de Lisboa mas que havia sido transcrito de A Vitória, reveste-se da novidade de dar um sentido de missão e apontar um objectivo concreto para as possessões portuguesas em África. O artigo tem o patrocínio (nada dissimulado) do alto comissário em Angola, José Norton de Matos (significativamente, a página que lhe é dedicada na wikipedia dá uma extrema importância à sua carreira maçónica...). Fosse porque fosse, pelos seus méritos intrínsecos ou pelas conexões maçónicas, a promoção da ideia da colonização de Angola com portugueses metropolitanos aparece por uma primeira vez devidamente estruturada. Na sua essência é de uma simplicidade quase infantil: num país de onde emigravam todos os anos dezenas de milhares de pessoas (nomeadamente para o Brasil), porque não direccioná-los para os planaltos do centro de Angola, onde as condições climatéricas se assemelhavam num mínimo às que existiam na Europa? Porque seria a primeira vez que se via a ser apresentado assim, num formato sistemático, a argumentação arrebatava, aparentemente irrefutável. O tempo viria a mostrar que a ideia mostrava-se bem apresentada mas não iria vingar. Quanto aos meios, repare-se abaixo que a questão do capital («necessário para organizar um núcleo europeu») fora remetido para um discreto quinto lugar nas prioridades quando a falta de capital constituía, na verdade, o verdadeiro calcanhar de Aquiles do colonialismo português¹. Quanto às pessoas, o raciocínio esquecia o importante pormenor que a maioria dos nossos emigrantes, quando emigrava, o fazia com o desejo de abandonar a actividade agrícola e desejava dedicar-se a outras actividades. Um artigo que se mostrava excelente na forma mas fraco no fundo.
¹ Como exemplo, compare-se o ritmo da construção das linhas de caminhos de ferro que, na Tanzânia e em Moçambique ligavam os portos do litoral até aos Grandes Lagos. Os cerca de 1.250 km que vão do porto de Dar-es-Salaam até Kigoma no Lago Tanganica foram completados pelos alemães em Fevereiro de 1914. Os quase 800 km que vão do porto de Nacala até Lichinga (Vila Cabral) perto do Lago Niassa foram completados, ainda pelos portugueses, só que em... 1969, 55 anos depois. Os portugueses também construíam as infraestruturas, é certo, mas era mais devagarinho... A falta de capital para investir sempre foi um problema maior quando se pretendia tratar deste, como se escrevia acima em 1921, «interessantíssimo problema».

23 agosto 2021

ANGOLA: JÁ DÁ PARA PERCEBER O QUE SÃO OS QUE SE SUCEDERAM À CLIQUE DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS

Fique ainda o desejo que os actuais poderes angolanos não roubem tanto nem tão à descarada como os que o antecederam, mas este gesto de trocar um presidente do Tribunal Constitucional que se demitiu em protesto e ruptura, por quem não parece ser mais do que uma mera funcionária de partido (e em política, mesmo nos trópicos e com toda a condescendência tropical, aquilo que parece, é), assemelha-se muito àquele gesto dos que fazem batota com as cartas até quando jogam paciências, sozinhos. É o despotismo dito esclarecido, a que há quem teça umas loas desculpabilizantes por o classificar como esclarecido. Mas o esclarecimento aqui é outro...

17 julho 2021

O 25º ANIVERSÁRIO DA CPLP

17 de Julho de 1996. Data da fundação da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Hoje tem 9 países membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Assim, à primeira vista, parecia uma ideia engraçada. À segunda vista e com 25 anos de existência, não tenho ideias, porque não tenho noção da actividade desenvolvida. Nem da identidade ou sequer da nacionalidade de quem a dirige, que descubro ser português. Mas descubro que deve ser giro pertencer-lhe como membro associado, atentando à profusão e disparidade de países que se mostram «oficialmente interessados» nesse estatuto, uma lista que começa alfabeticamente pela Albânia(!) e acaba em Taiwan, do outro lado do Mundo.

31 maio 2021

ASSINATURA FORMAL DOS ACORDOS DE BICESSE

31 de Maio de 1991. Assinatura formal dos acordos de Bicesse, cuja intenção original era a de aproveitar a dinâmica do fim da Guerra Fria e tentar pôr fim à guerra civil angolana. Com a clarividência dos trinta anos entretanto decorridos, foi um grande momento para Portugal e também um grande momento pessoal para o 1º ministro Cavaco Silva. Que, evidentemente, enxotou o presidente Mário Soares da cerimónia. É justo reconhecer que este último também não havia contribuído significativamente para o desfecho. Mas, muito mais importante que as questiúnculas pessoais entre figurões, a assinatura que então se formalizava entre as duas facções combatentes da guerra civil angolana podia ser interpretada como um reatar e, mais do que isso, como um emendar de mão daquilo que fora firmado no Alvor em Janeiro de 1975, e que acabara por se transformar em letra morta. As críticas ao que acontecera em 1975 eram unânimes (veja-se abaixo, e só para exemplo, o trecho de um documentário da BBC) e abrangiam todas as partes angolanas mas também uma esmagadora maioria das portuguesas. O cumprimento entre José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi em 31 de Maio de 1991 (o grande momento televisivo da reportagem acima!...) apresentava-se como a oportunidade perfeita para rectificar aquilo que fora mal engendrado, com a parte portuguesa, a antiga potência colonial (que, tendo sido colonial, nunca teve muita potência...), a ter a oportunidade de voltar a funcionar como o catalisador da concórdia. Era muito bonito mas hoje sabemos o resto da história. Não havia concórdia nenhuma. As duas partes assinaram de má fé. Os procedimentos para a paz eram apenas um instrumento menos sangrento para alcançar o poder (para Savimbi) ou de o legitimar (Eduardo dos Santos). Tanto assim que, quando, no ano seguinte, as eleições programadas mostraram resultados de que não se estava à espera (pelo menos Savimbi...), tudo se desmoronou. Regressou a guerra civil. E esta só terminou mesmo com a morte de um dos signatários (Jonas Savimbi) em 2002. Mas o que resultou importante é que, com esta cerimónia de há trinta anos, Portugal lavou a face. Assim como, creio, o fizeram americanos e soviéticos, cubanos e sul-africanos. O que o tempo se encarregou de mostrar depois de Bicesse é que a fragilidade da posição portuguesa (1975) e a guerra fria (1975-1991) haviam sido apenas pretextos e desculpas invocadas pelos angolanos para eles próprios andarem 27 anos aos tiros uns com os outros.

17 março 2021

A SITUAÇÃO TRANQUILA EM ANGOLA AFINAL NÃO ESTAVA ASSIM TÃO TRANQUILA...

17 de Março de 1961. Entre as duas edições daquele dia do Diário de Lisboa assiste-se a uma cambalhota noticiosa de 180º: a situação tranquila que se vivia em Angola na primeira tiragem já não era nada tranquila quando da saída da segunda («Bandos vindos do exterior atacaram postos fronteiriços entre Maquela do Zombo e São Salvador»). Nesta segunda fase, impunha-se vender a versão oficial que os acontecimentos haviam sido importados do exterior. O que só em parte era verdade. Mas eram outros tempos e outros ritmos noticiosos: agora antecipam-se as datas dos acontecimentos nas evocações - o Observador, por exemplo, começa a assinalar os acontecimentos de 15 de Março de 1961 a 10 de Março de 2021! Há sessenta anos acontecia o contrário: a 17 de Março ainda não havia uma percepção global nas duas capitais, Luanda e Lisboa, da chacina que ocorrera.

09 março 2021

«REINA A PAZ NA ÁFRICA PORTUGUESA»

9 de Março de 1961. Ás vezes acontece isto: os jornais publicam assertivos títulos que o decorrer de alguns - poucos - dias se encarrega de desmentir. Neste caso a fava calhou ao embaixador português em Washington DC, Luís Esteves Fernandes, a quem fora conferida a tarefa de desmentir um artigo que aparecera publicado no Washington Post. O artigo, bastante crítico da actuação portuguesa em África, na sua recusa em conceder a autodeterminação às suas colónias, reflectia a inflexão política a respeito do assunto - maior pressão sobre Lisboa - que se desencadeara com a tomada de posse da administração Kennedy em Janeiro de 1961. Aquilo que se pode ler da carta na transcrição do Diário de Lisboa até é prudente e conforme o expectável para as circunstâncias, embora evite tocar - naturalmente - na questão de fundo. O problema virá a ser o trecho dela que foi destacado para o título: «Reina a paz na África portuguesa». Dali por menos de uma semana, os acontecimentos sangrentos no Norte de Angola (abaixo) ridicularizarão a cuidada argumentação do embaixador.

04 fevereiro 2021

PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA, 4 DE FEVEREIRO É MAIS UMA DATA DO QUE PROPRIAMENTE UM ACONTECIMENTO

4 de Fevereiro de 1961. Um grupo de várias dezenas de nacionalistas angolanos, conotados com o movimento que viria a ser conhecido por MPLA, procede a um ataque coordenado à vários objectivos na cidade de Luanda: a sede dos CTT, uma cadeia de uma esquadra policial, a casa de reclusão militar, estes dois últimos objectivos com o objectivos de proceder à libertação de alguns dos reclusos que ali se encontravam. A acção saldou-se por um fracasso total: nenhum dos objectivos foi conquistado, nenhum dos presos foi libertado, os atacantes sofreram baixas significativas mas que nunca foram contabilizadas com rigor. Entre os defensores contaram-se sete mortos. O episódio, irrelevante como se percebe do ponto de vista prático, veio a adquirir um valor simbólico - o aeroporto de Luanda denomina-se hoje 4 de Fevereiro em atenção à data, por exemplo - porque através dele o movimento MPLA se permitia estabelecer a precedência sobre a sua rival FNLA no que concerne ao desencadear da luta armada para a independência de Angola. Simbologias à parte, do ponto de vista operacional militar esta acção foi a primeira... de mais nenhuma pois, como já aqui expliquei no Herdeiro de Aécio, nunca houve acções de terrorismo urbano em Angola, ao contrário de outros casos similares, como o argelino.

05 julho 2020

A AUDIÊNCIA DE PAULO VI AOS LÍDERES DA FRELIMO, PAIGC E MPLA

5 de Julho de 1970. Os jornais do dia dão destaque a uma audiência que o Papa Paulo VI dera alguns dias antes (1 de Julho) a três líderes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas: Amílcar Cabral do PAIGC, Agostinho Neto do MPLA e Marcelino dos Santos da Frelimo. Normalmente uma notícia deste cariz teria sido censurada, mas ela tornava-se indispensável para dar enquadramento à violenta nota emitida pelo ministério português dos Negócios Estrangeiros, condenando a iniciativa - e daí o hiato de tempo transcorrido entre a data da audiência e ela ter sido noticiada em Portugal. O gesto do Vaticano, acautelando o futuro da igreja católica naqueles três países, era tão compreensível quão previsível seria a reacção da parte portuguesa que se seguiu. Nesta altura dos acontecimentos, a atitude romana era a de tentar aplacar a irritação de Lisboa e, para isso, até mesmo os sacerdotes, que tanto admoestavam os fiéis escutando as confissões, por causa do pecado da mentira, não se eximiam de ser eles, por sua vez, a mentir grosseiramente: escrevia-se a rematar a notícia acima «Um prelado do círculo pontifical observou que os três dirigentes, que são católicos, tinham sido admitidos à audiência "na sua qualidade de cristãos". A audiência durou sete a oito minutos.» (Em primeiro lugar, nenhum dos três era conhecido por ser cristão praticante; em segundo lugar, Agostinho Neto nem era católico, a sua formação fora feita na missão protestante metodista dirigida por seu pai; em terceiro lugar, a audiência podia ter sido breve, mas chegara para que o Papa tivesse oferecido a cada um, um exemplar da sua encíclica ‘Populorum Progressio)

25 março 2020

UMA NOTÍCIA DE PRIMEIRA PÁGINA SOBRE A GUERRA EM ANGOLA

25 de Março de 1970. Por uma vez excepcional, acontecimentos relacionados com uma das guerras que se travava em África, no caso a de Angola, merecia o destaque de uma primeira página. Um comunicado especial do comando-chefe da Forças Armadas em Angola, avalizado pela chancela da agência noticiosa oficial ANI, dava conta de um ataque ao aquartelamento de Caripande, no Leste da província, indo ao ponto de o atribuir ao MPLA, e assumindo «muitas baixas» entre as nossas tropas. Convirá explicar que Caripande era um aquartelamento vulnerável àquele tipo de acções, situado na margem esquerda do rio Zambeze e mesmo junto à fronteira com a Zâmbia (veja-se abaixo). Essa circunstância permitia que os atacantes retirassem rapidamente para território zambiano, conseguindo assim evadir-se à retaliação das tropas portuguesas. Por várias vezes o aquartelamento foi atacado precisamente da mesma maneira de que a notícia dá conta, mas os anais da guerra que hoje a contam, dão mais destaque aos ataques que tiveram lugar a 14 de Abril de 1968, em que morreu o comandante dos atacantes do MPLA, sobrinho de Agostinho Neto, e também a 16 de Fevereiro de 1971 que, devido à data e à inspiração de um aquartelado mais sarcástico, veio a ganhar a designação de "Carnaval em Caripande». Nada consta, porém, de importante a respeito desta flagelação de 25 de Março de 1970. Uma possível explicação, maliciosa, para tanta publicidade, poderá deduzir-se da forma como o comunicado está redigido: «...bandoleiros, provavelmente do chamado MPLA, acolitados naquele país vizinho, pelos menos sob as vistas dos respectivos guardas fronteiriços. Seguros da impunidade de que gozam na Zâmbia, efectuaram aquela acção que nos provocou muitas baixas.» Portugal parecia ali estar a municiar-se com um capital de queixa para pressionar depois diplomaticamente os zambianos. Parece plausível. Numa perspectiva de censura, as manobras diplomáticas do governo português até podiam ser notícia de jornal, as operações militares é que não.

03 agosto 2019

O MASSACRE DE PIDJIGUITI

3 de Agosto de 1959. Dá-se o massacre de trabalhadores portuários guineenses num dos cais do porto de Bissau que ficou a ser conhecido pelo Massacre do Pidjiguiti. A história do que aconteceu está por aí publicada em várias versões: desde uma publicada no Expresso e que mete um cão, até uma outra contada na primeira pessoa e que reduz o número de mortos a 16, uma fracção dos 40 a 70 (para além de uma centena de feridos!) que costumam constar das versões nacionalistas tornadas oficiais depois da independência. Pouco importa. O que é coincidente é que todos os nacionalismo africanos que entraram em conflito com o colonialismo português precisaram, por esta altura, de um acontecimento deste género que tivesse servido de estopim para a luta anti-colonial: foi este massacre do Pidjiguiti na Guiné Bissau (1959), havia sido o massacre de Batepá em São Tomé e Príncipe (1953), virá a ser o de Mueda em Moçambique (1960) ou o da Baixa do Cassange em Angola (1961). Foram explorados de forma muito semelhante para efeitos de propaganda: o contexto das reivindicações (normalmente laborais) é deturpado, o papel das organizações dirigentes é retocado, enquanto o número de vítimas é inflacionado.
Mas há um outro aspecto que contrasta com esta deturpação da verdade histórica e que justifica esta evocação simbólica de hoje a um desses massacres: é que não nos podemos esquecer que estes episódios violentos terão sido, mais do que provavelmente, apenas os publicitados de uma longa lista deles, desconhecidos, que forçosamente acompanharam a implantação do regime colonial português nas suas províncias africanas ao longo de muitas décadas. E é em memória de todas essas prepotências desconhecidas que agora ainda faz sentido falarmos do assunto, apesar dos exageros e de tudo o resto.

20 março 2019

AS ESTRANHAS DECORAÇÕES QUE OS CATAVENTOS DA POLÍTICA PODEM TER


Os observadores da actualidade internacional que se surpreendem com acontecimentos em sítios inóspitos e exóticos (como é o meu caso e o do Nuno Rogeiro), foram surpreendidos com o anúncio (acima) da resignação do presidente Nursultan Nazarbaev do Cazaquistão. Compreende-se. Com um passado de vinte e sete anos e meio de poder ininterrupto, ainda recentemente (Abril de 2015) reconduzido por 97,7% dos votos numa eleição onde participaram 95,1% dos seus concidadãos, Nazarbaev parecia ser o exemplo acabado do estadista indispensável para o seu país até à hora da morte. Ora, como eu já escrevi aqui no Herdeiro de Aécio há uns anos, dá-se a coincidência curiosa que, no Cazaquistão e como acontecia em Angola, a filha do presidente é uma pessoa extremamente rica, quiçá entre as mais ricas do país: a Isabel dos Santos cazaque chama-se Dinara Kulibaeva. Ou seja, não é bem uma coincidência: são duas vezes duas coincidências, quatro coincidências no total, o que é mesmo muita coincidência para países que transitaram para o capitalismo vindos do marxismo-leninismo. Mas adiante. O que nos interessa agora é verificar se aquilo que já aprendemos com Angola e com o que aconteceu à capacidade empresarial perdida de Isabel dos Santos depois do pai abandonar o cargo, se pode replicar futuramente naquele país das estepes com Dinara Kulibaeva. É uma forma rebuscada, mas que julgo segura, de seguir os acontecimentos. Se Dinara perder subitamente o jeito para os negócios, a coincidência (outra!) poderá ser interpretada como uma perda do controle do aparelho político por parte de seu pai. Os cataventos que mostram a direcção e sentido para onde eles sopram, sempre foram conhecidos por poderem ter decorações bem estranhas...

10 janeiro 2019

A RETIRADA CUBANA DE ANGOLA

10 de Janeiro de 1989. Os soldados cubanos começavam a abandonar finalmente Angola: há treze anos que eles lá estavam (logo depois, e muito provavelmente até mesmo antes, da independência concedida pelos portugueses em Novembro de 1975) e há treze anos que andavam a prometer que de lá saíam (veja-se esta notícia de Maio de 1976!). Em comparação, outros treze anos de guerra (1961-1974) haviam esgotado a força anímica dos portugueses em quererem defender Angola como sua. Mas estes treze anos de guerra (1975-1989) pareciam não ter beliscado a determinação dos cubanos em defender um país irmão na ideologia situado a 11.000 km de distância! Ou é a constatação da superioridade moral do marxismo-leninismo, ou é a constatação de que a ditadura cubana era particularmente mais eficaz do que a portuguesa quanto à supressão das manifestações sociais de revolta a respeito do engajamento numa guerra distante. Os últimos soldados cubanos só abandonarão Angola em 1991 e durante esses quinze anos terão sido cerca de 310.000 os cubanos  mobilizados para lá combater, deixando um saldo oficial de 2.016 mortos.  

16 outubro 2018

PORTUGAL E AS GUERRILHAS DE ÁFRICA

Para quem (como eu) esperasse de um livro com este título uma outra abordagem dos três conflitos africanos, uma obra que rivalizasse com o (tornado) clássico Contra-Insurreição em África de John P. Cann (de 1998), este livro vem a revelar-se uma completa desilusão. Melhor que o título, são as imagens da capa, avulsas e desgarradas, as que melhor descrevem o conteúdo. Este é o relato de um punhado de visitas (não se chega a perceber quantas, talvez meia dúzia) que o autor realizou aos três teatros de guerra (Angola, Guiné e Moçambique) quando Portugal ali esteve empenhado entre 1961 e 1974. Al Venter é um jornalista sul-africano que se especializou em cobrir conflitos militares. O livro resulta extenso (mais de 500 páginas) mas absolutamente superficial porque é uma colagem de reportagens e, como tal, fica-se sempre pela rama dos aspectos que aborda. Resultaria mais palatável se Venter ao escrevê-las não tivesse adoptado aquela atitude tão tipicamente britânica - que depois veio a ser herdada por rodesianos e sul-africanos - de pretender que «nós (eles) é que percebemos de contra-subversão: olhem para os nossos sucessos na Malásia e no Quénia». Isso por contraponto ao que aconteceu aos americanos no Vietname, aos franceses na Indochina e na Argélia e aos portugueses nestas suas três colónias. Irrita ler a atitude sobranceira de Venter quando a História é o que foi e o desmente. Rodesianos e sul-africanos acabaram precisamente no mesmo sítio que os outros três, derrotados politicamente: África do Sul e Zimbabwe têm hoje governos de maioria negra. E quanto aos britânicos, se o seu domínio das tácticas de contra-subversão era assim tão excelente porque é que saíram de outras colónias - estou a lembrar-me da Palestina em 1948 ou do Iémen do Sul em 1967- com o rabo entre as pernas? Venter é um veterano cuja curva de aprendizagem evoluiu lentamente, quando chegou a evoluir. A repetição das suas visitas, por exemplo, não o motivou a aprender um português mínimo. Aquilo que ele consegue recolher dos locais que visita ressente-se disso, já que apenas uma fracção ínfima dos combatentes (dos dois lados) domina o inglês. E isso agrava a superficialidade do que escreve. Neste livro, que é uma versão traduzida para português do original, o leitor é confrontado com um chorrilho de asneiras facilmente detectável por um nacional. São muitas, são demasiadas e de vários géneros, aqui vão quatro exemplos sortidos.
Esta vem nos livros de História: Bartolomeu Dias foi o primeiro homem a dobrar o Cabo da Boa Esperança. O Cabo da Boa Esperança fica na África do Sul e Venter é sul-africano... 
Esta seria só para especialistas, se não estivesse acessível na wikipedia: o NRP Pacheco Pereira foi a fragata HMS Bigbury Bay da classe Bay. O detalhe é irrelevante mas, se é para o mencionar, que o faça correctamente.
Acredito que, antes dos portugueses em geral, a primeira pessoa a surpreender-se com a sua própria descrição como um intelectual terá sido Otelo Saraiva de Carvalho («Se tivesse mais cultura política, seria o Fidel Castro da Europa»). Também não se sabia que as FP-25 eram anarquistas...
Esta de fazer do Avante!, jornal oficial do Partido Comunista Português, um «jornal de Luanda» é simbólica de que Venter, estando a pretender escrever reportagens sobre portugueses em guerra, não sabe nada sobre Portugal.

Em suma, livro medíocre, apenas recomendável aos incondicionais do tema. O autor tem muitas opiniões sobre o que os portugueses deveriam ter feito, normalmente copiando o que os ingleses haviam feito na Malásia ou o que os rodesianos iriam fazer no Zimbabwe, mas por outro lado, e através do quilate destes erros constantes, é perceptível que uma boa parte da guerra, e sobre o que ela pensavam os seus protagonistas, lhe passou completamente ao lado...