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03 abril 2018

A «BATALHA» DE MANNERS STREET

Sábado, 3 de Abril de 1943. Decorria a Segunda Guerra Mundial mas, desta vez, a «batalha» é para ser entendida no sentido figurado. Teve lugar em Wellington, a capital da Nova Zelândia (Manners Street - fotografada acima em 1942 - é uma das artérias principais da cidade) e os «beligerantes» foram as tropas norte-americanas que então ali estavam estacionadas (que «empenharam» cerca de 500 «combatentes») contra os militares neozelandeses a que se juntaram civis locais para «equilibrar» os efectivos da refrega - cerca de um milhar no total. Note-se que os tumultos generalizados em cidades onde os soldados norte-americanos se podiam recrear eram então frequentes, até mesmo nos próprios Estados Unidos, de que um exemplo famoso foram os tumultos das «fatiotas» ("Zoot Suit Riots") que tiveram lugar em Los Angeles, distúrbios que eu já tive aqui oportunidade de referir no Herdeiro de Aécio. Contudo, os distúrbios desse mesmo género que irrompiam no estrangeiro, nos países atrás das linhas da frente onde as tropas norte-americanas estavam acantonadas, casos da Austrália, do Reino Unido ou, neste caso, da Nova Zelândia, eram mais delicados e, ao mesmo tempo, consequência e causa de dificuldades de relacionamento entre os soldados americanos e as sociedades que os acolhiam, a que nem sequer o facto de empregarem um idioma comum parecia obviar*. Sendo incidentes a que não se podia aplicar a justificação canónica da proximidade da tensão dos combates, tornavam-se em potenciais problemas diplomáticos, mau grado a nítida vontade das duas partes em encerrar e abafar os incidentes. A «batalha» de Manners Street não foi o primeiro nem o último de tais tumultos. Nem sequer terá sido o maior, numa lista extensa mas que se sabe não ser completa, e cujo factor comum foi o empenho como foram abafados pelas autoridades da época. Mas, para além dos ciúmes despeitados que a presença dos yankees costumava despertar em todos os países que os alojavam, este episódio terá sido de todos os que se conhecem razoavelmente, aquele em que o choque de culturas a respeito da questão racial terá assumido proporções mais evidentes.
A «batalha» em si contar-se-á em poucas frases desde que se conheça o enquadramento da situação: naqueles anos cerca de 1 a 3% da população residente na Nova Zelândia era composta por militares americanos; no entanto e simultaneamente, a Nova Zelândia empenhava uma unidade expedicionária (composta por efectivos quase equivalentes aos americanos na Nova Zelândia) que combatia desde 1941 na África do Norte e na Europa mediterrânica. Como se imagina, as licenças do pessoal que compunha essa unidade não eram fáceis, dado que a Nova Zelândia ficava literalmente do outro lado do Mundo. Havia assim alguma sensação na sociedade neozelandesa que uma boa parte do seu esforço de guerra estava empenhado, por uma questão de prestígio no seio da Commonwealth, numa guerra que não era a sua, enquanto a que se travava à sua porta era entregue a outrem. O outro factor que teve a ver ainda mais directamente com os tumultos, prende-se com o estatuto que os polinésios (maoris) gozavam na sociedade neozelandesa que é impar. Apesar de serem uma minoria, a nação neozelandesa no seu conjunto apropriou-se das tradições guerreiras dos maoris como sinal identitário: significativamente, a selecção neozelandesa de rugby - os All Blacks - começa as suas actuações com um haka e é impossível imaginar as suas homólogas australiana ou sul-africana a fazerem algo de remotamente parecido; ou então as selecções brasileira de futebol ou canadiana de hóquei no gelo a reclamarem-se das suas ascendências ameríndias. Explicado assim, creio que é fácil fazer perceber o que aconteceu há 75 anos, quando os americanos terão tentado implementar os seus padrões raciais no Clube Militar da Manners Street, bloqueando o acesso aos maoris, assim como era corrente que acontecesse com os negros no sul dos Estados Unidos. Seguiu-se uma enorme batalha campal de contornos e consequências difusas que terá durado duas horas, provavelmente mais, que o rigor dos relatórios de época deixa imenso a desejar. Sobre as baixas, nada se sabe. Mas, já pelos padrões da época e muito mais pelos actuais, é difícil não deixar de simpatizar com a causa dos neozelandeses. Na fotografia mais próxima do assunto que encontrei na rede, tirada em meados de Abril de 1943 em Wellington, vê-se a banda dos Marines a ensaiar. Gostaria de imaginar que se trata de uma operação de relações públicas e de um gesto de reconciliação com os habitantes de Wellington depois da «batalha» de Manners Street...
* Esperanças teóricas e ingénuas nesse sentido podem ser compreendidas através da ideia que assolou o presidente americano Franklin Roosevelt por esses anos, que, na eventualidade de uma ocupação dos Açores pelos Estados Unidos, a aceitação do gesto pelos portugueses seria facilitada se as tropas de ocupação fossem... brasileiras.

07 junho 2017

O CENTENÁRIO DO INíCIO DA BATALHA DE MESSINES

Há cem anos começava a batalha de Messines. Três características se conjugavam para que parecesse haver algo de novo na frente ocidental. O método: a ofensiva foi precedida da detonação simultânea de 19 minas repletas de explosivos que haviam sido escavadas previamente sob as posições alemãs e que foram detonadas antes do começo do avanço da infantaria, apanhando os defensores em estado de choque. Alegadamente, as explosões foram de tal dimensão que de França chegaram a ser ouvidas na Inglaterra. Os intervenientes: pela primeira vez na frente ocidental uma apreciável percentagem (cerca de metade) das unidades participantes numa acção desta envergadura eram de origem colonial (australianos e neozelandeses). O comandante: Em três anos de impasse esgotara-se a admiração pela imagem do general de ar marcial e taciturno. Herbert Plummer, com o seu bigode branco projectava uma nova imagem, a do avozinho dos seus homens, a logística dedicada aos aguadeiros que acompanhavam os soldados enquanto eles progrediam no terreno, a solução de uma questão tão prosaica quanto a água potável para satisfazer a sede dos combatentes, mostrava-se algo de verdadeiramente inédito até então! Considerada momentaneamente um sucesso, a batalha acabou numa semana porque Messines não passou de uma vitória táctica, não havia nada de novo da frente ocidental quanto a processos de romper a linha defensiva do inimigo.

30 maio 2013

A «COMMONWEALTH» NOS DOIS APÓS-GUERRAS

Considerar o Império Britânico como uma unidade política ajudava a que, no final da Primeira Guerra Mundial, a contabilização do esforço do Reino Unido pudesse ser considerado como superior ao de qualquer das grandes potências vencedoras, tendo mobilizado cerca de 9,5 milhões de soldados, contra os 8,4 da França, os 5,6 de Itália ou os 4,7 dos Estados Unidos. Claro que para alcançar esse total havia que contar com as contribuições vindas de todo os domínios e colónias espalhados pelo mundo, como se pode ver pelo mapa acima e também pelos cartazes apelando aos voluntários abaixo: na Austrália, no Canadá, na Escócia ou na Irlanda.



Comparando o mapa inicial com outro semelhante mas agora a respeito dos esforços dispendidos durante a Segunda Guerra Mundial, mostrar-se-á que o engajamento do Império foi até superior ao do conflito precedente.
Porém, neste caso, tem de se comparar os mais de 11 milhões de mobilizados pelo Império Britânico com os mais de 12 milhões que foram mobilizados pelos soviéticos assim como outros tantos que o foram pelos norte-americanos. À luz desta contabilidade, o Reino Unido tinha agora uma posição equiparada no quadro das grandes potências vencedoras do conflito. Além disso, fragilizando-a, a fantasia da unidade política dos membros do Império dissipara-se quando Austrália, Índia ou Nova Zelândia se haviam visto alvo de ameaça de invasão japonesa, quando o assunto não era prioridade para a metrópole. Abaixo, numa fotografia de conjunto que, cada vez mais, não passava disso mesmo, uma fotografia de conjunto, e da esquerda para a direita, vêem-se os primeiros-ministros do Canadá, da África do Sul, do Reino Unido, da Nova Zelândia e da Austrália em Londres em Maio de 1944.

24 abril 2013

CASAMENTOS QUE PARECEM ALEGRAR A HUMANIDADE (PELO MENOS PARTE DELA…)

Eu sei que o Uruguai é um país que fica na América do Sul e que a sua capital é Montevideu. Sei até que é uma democracia presidencialista mas já tenho que recorrer a consultas para saber o nome do presidente (José Mujica) e qual o partido com maior representação parlamentar (Frente Ampla). Sei muito mais sobre a França, país que nos está muito mais próximo, cultural e geograficamente. Mas mesmo assim, foram precisos terem-se passado quase dez anos depois da sua aprovação para descobrir que existia no Direito civil francês uma figura chamada Pacto Civil de Solidariedade, que me parece uma espécie de casamento civil em versão suave. Mas suspeito que, não fosse o facto do ex-casal François Hollande / Ségolène Royal terem desfeito esse mesmo pacto que os unia, e ainda não teria sabido da sua existência. O direito civil vigente nos variados países do Mundo não costuma ser assunto digno de alimentar noticiários, nem mesmo quando exótico, como por exemplo o caso da poligamia na África do Sul, reconhecível porque o presidente Jacob Zuma tem quatro esposas

É assim que parece totalmente desproporcionada a exuberante cobertura noticiosa que é dada quando das extensões dos direitos civis do matrimónio aos casais homossexuais, seja na África do Sul, no Uruguai ou agora em França. Serão excelentes notícias para uma minoria (suponho que os heterossexuais ainda sejam maioritários…) de estrangeiros (esse direito já está consagrado em Portugal desde 2010), mas a relevância do acontecimento não passará desse pouco, e o empolamento só se pode compreender pela militância ou pela incompetência. Exemplificativamente: se num ano a nossa comunicação social não chegará a dar relevo a uma dúzia de notícias que sejam oriundas da Nova Zelândia, por que será que dessa parca dúzia uma delas será a da aprovação dos casamentos homossexuais? Acredito que quantos mais homossexuais se puderem casar em mais países mais aumentará a onda de alegria que grassa nesse segmento da Humanidade, mas será que o assunto é assim tão sério que ombreie (e às vezes desaloje…) a guerra civil na Síria ou a situação na Coreia?  

Desta vez acabo por onde costumo começar: a fotografia inicial é de um casal, ela é Erika Mann (1905-1969), escritora e actriz alemã, filha do escritor Thomas Mann; ele é W.H. Auden (1907-1973), poeta de origem inglesa que se veio a radicar nos Estados Unidos naturalizando-se norte-americano. A fotografia datará da segunda metade dos anos 1930, pois os dois casaram-se em 1935. Tratou-se de um casamento de conveniência, visto que Erika era lésbica e Auden homossexual, mas foi a forma dela adquirir nacionalidade britânica e fugir às perseguições que estava a sofrer na Alemanha nazi. Curiosamente, para um casal que nunca o foi, este outro casamento de homossexuais durou 34 anos, até à morte de Erika. 

13 setembro 2011

APESAR DE ATRASADO…


…mesmo assim ainda vou a tempo de afixar o sempre espectacular confronto entre o Sipi Tau e o Haka do jogo inaugural (Tonga – Nova Zelândia) da Taça do Mundo de Râguebi que se está disputar neste último país. As explicações do que é o Sipi Tau e o Haka estão neste poste aqui, publicado desde a Taça do Mundo de 2007.

Adenda: Por causa dos marretas dos direitos de autor (ganhar-se-á assim tanto em proteger as imagens de dois minutos prévios e supletivos de um espectáculo que irá decorrer ao longo dos outros oitenta?), tive que o substituir acima por outro Haka contra outro Sipi Tau, da Taça do Mundo de 2007.

02 setembro 2011

A «COMMONWEALTH» PARA OS BRANCOS

Commonwealth era uma expressão com indiscutíveis ressonâncias republicanas – era assim que se começou por designar o Estado britânico dirigido por Oliver Cromwell no Século XVII – mas que veio a ser recuperado no Século XX pela monarquia britânica para designar a entidade que se forjou depois da Primeira Guerra Mundial. Era uma aliança com mais simbolismo do que propriamente agrupando interesses estratégicos comuns entre a metrópole e as suas antigas colónias onde existia uma supremacia política dos brancos. O pólo agregador do conjunto era a pessoa do monarca.
Tirada no Outono de 1926 em Londres, a fotografia acima mostra-nos o Rei Jorge V sentado ao centro, rodeado dos Primeiros-Ministros do Reino Unido, Stanley Baldwin (à esquerda) e do Canadá, Mackenzie King (à direita). Detrás, da esquerda para a direita, aparecem-nos os Primeiros-Ministros da Terranova, Walter Stanley Monroe, da Nova Zelândia, Gordon Coates, da Austrália, Stanley Bruce, da África do Sul, J. B. M. Hertzog e da Irlanda, W. T. Cosgrave. Clamorosamente ausente, o Primeiro-Ministro de uma Índia de onde o monarca se proclamava até Imperador

24 fevereiro 2011

SOBRECARGA

Houve um terramoto na Nova Zelândia. Terão morrido centenas de pessoas. E há manifestações contestando os regimes no poder no Bahrein, na Líbia e no Yemen. Mas também há limites para a distribuição das simpatias e compaixões do público com tantos assuntos quentes no noticiário internacional. Por isso, tornou-se essencial seleccionar e optou-se pela Líbia cujo dirigente é o mais conhecido, mais exótico e mais mau – e assim o mais propenso a ser detestado, que é afinal aquilo de que o público gosta: enredos com bons e maus. Por fim, há ainda as consequências, como é o caso do aumento do preço do petróleo, por exemplo…

Em suma, está-se num tal estado de sobrecarga informativa que até se deixou passar o 23 de Fevereiro e os 30 anos decorridos sobre a tentativa de Golpe de Estado em Espanha (1981) sem que a efeméride tivesse sido trabalhada devidamente. Só que, convém recordar como, ao contrário do jornalismo, a verdadeira importância histórica dos assuntos não se compacta às páginas ou ao horário disponível nos órgãos de informação. Para mais quando o importante por vezes é até a sua ausência, como será o caso da inexistência de notícias revolucionárias após as Revoluções que abalaram recentemente a Tunísia e o Egipto

08 setembro 2009

O JEDIÍSMO E OUTROS FENÓMENOS DO NOSSO TEMPO

Já não me lembro onde terei lido a história de um par de rapazes que seguia no seu carro quando, ao atravessar os cabos esticados na estrada de um contador de tráfego (acima), resolveram parar a meio e, saindo do carro, resolveram levantá-lo e empurrá-lo com as rodas traseiras no ar, para que estas passassem por cima do cabo sem lhe tocar. Quando alguém que passava lhes perguntou porque é que estavam a fazer aquilo, um dos rapazes sorriu e explicou: - É apenas para lhes estragar as estatísticas todas. Como eles contam os carros pelos pares de rodados, já os imaginou agora a ter que preencher todas as estatísticas deles com um “meio carro”?...
Se os recenseamentos, as contagens e as estatísticas sempre foram uma demonstração de exercício da autoridade do Estado e eles costumem estar registados – não nos esqueçamos que ainda hoje sabemos que Roma tinha organizado um na Judeia precisamente na altura do nascimento de Cristo – as reacções evasivas por parte da populações submetidas a eles, embora não estejam registadas da mesma forma, deverão ser um fenómeno igualmente tão antigo. É um ciclo de perguntas e respostas que se tem vindo a tornar historicamente mais pesado, à medida que o aparelho estatal cresceu, arrastando consigo a burocracia, a quantidade de perguntas e a aldrabice das respostas…
Alguns desses fenómenos costumam passar ao lado do circo noticioso. Outros não passam, especialmente quando essas manifestações de saturação podem ser imputadas em exclusivo ao braço político do aparelho de estado. Um caso típico deste último caso terá sido o das eleições europeias realizadas ainda em Junho deste ano na Suécia, onde o Partido Pirata local (acima), um partido político monotemático que se opõe tanto aos direitos das patentes como aos direitos de autor, recolheu 226.000 votos (7,1%) e ganhou uma representação no Parlamento Europeu. Neste caso, creio que ainda se pode argumentar que se tratará de uma espécie de paródia, causada pela incompetência dos políticos.
Mas, e nos outros casos em que não parece existir qualquer explicação política? Quase não se noticiou, e poucos se aperceberam que houve um movimento nos vários países anglo-saxónicos para que nos censos realizados em 2001, na pergunta respeitante à confissão religiosa, as pessoas se confessassem como jedíistas, ou seja, adeptos da religião ficcional da saga da Guerra das Estrelas… Os resultados foram que 404.000 britânicos, 70.000 australianos, 53.000 neozelandeses e 20.000 canadianos se confessaram oficialmente adeptos dessa religião, que, por causa disso, se tornou na maior religião minoritária da Nova Zelândia e na terceira maior religião minoritária da própria Grã-Bretanha…
Dessa vez, sem que houvesse alvos políticos a abater, a notícia da religião em fulgurante ascensão não terá ultrapassado as páginas interiores das curiosidades, embora, como fosse de esperar, os burocratas dos serviços de recenseamento não tivessem levado a coisa com tão bom humor. Embora haja maduros para tudo, é evidente que os censos posteriores vieram mostrar que a maioria dos crentes nunca existira: na Nova Zelândia, por exemplo, num censo que foi realizado cinco anos depois, mais de 60% da comunidade jedíista havia desaparecido... Enfim, resta-me desejar-vos, empregando a que penso ser a língua litúrgica do jedíismo: May the Force be with You! (Que a Força fique convosco!)

24 maio 2008

PORTAR-SE MAL EM CASA ALHEIA

A visita que o secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-Moon, acabou de realizar à Birmânia (acima), fez-me lembrar uma outra, realizada por uma comitiva de compatriotas seus ao mesmo país em Outubro de 1983, faz mais de 24 anos. Encabeçada pelo presidente sul-coreano de então, Chun Doo-hwan, que ia acompanhado por uma alargada comitiva ministerial, o objectivo diplomático da visita era o de rivalizar com as boas relações que a Birmânia tinha mantido até então com a sua rival Coreia da Norte.

O episódio está hoje praticamente esquecido mas, se a visita correu mal para a Coreia do Sul por uns motivos, acabou por correr pior para a Coreia do Norte, por outros. De início, a visita parecia estar a correr bem, parecia ter-se desenvolvido uma certa empatia entre o visitante (o general Chun Doo-hwan) e o visitado (o general Ne Win), ambos dirigentes de ditaduras militares. E as propostas comerciais da, já então, muito mais evoluída economia sul-coreana pareciam interessar seriamente aos birmaneses.
Só que os norte-coreanos tinham mau perder. Durante uma cerimónia protocolar no Mausoléu dos Mártires (acima) fizeram explodir uma bomba entre os participantes que matou 17 sul-coreanos e 4 birmaneses (além de ter feito 46 feridos). O Presidente Chun Doo-hwan só terá escapado por acaso e entre os mortos sul-coreanos contavam-se os Ministros dos Negócios Estrangeiros, da Economia e do Comércio. A polícia birmanesa conseguiu identificar rapidamente os responsáveis: um comando de três norte-coreanos.

Apesar da Coreia do Norte se ter desfeito em protestos inverosímeis de inocência, o caso contra os agentes norte-coreanos era tão evidente que os dois que foram capturados foram condenados (à morte e a prisão perpétua). Foi só em Abril de 2007, que Birmânia e Coreia do Norte voltaram a restabelecer relações diplomáticas. É das normas que aos países soberanos não lhes agrade que países estrangeiros (mesmo amigos) desencadeiem destas operações no seu território à sua revelia...
Foi o que também aconteceu quando, em Julho de 1985, na sequência do afundamento do Rainbow Warrior*, um navio do movimento Greenpeace que estava ancorado em Auckland, na Nova Zelândia, dois agentes franceses acabaram por ser implicados no afundamento pela polícia neozelandesa. As provas em favor da tese de uma operação dos serviços secretos franceses também eram esmagadoras e eles foram condenados, e o governo francês acabou por confessar de forma semi-contrita a sua participação.

Uma insigne excepção a esta prática foi o assassinato em Portugal de Issam Sartawi, um dirigente moderado da OLP, assassinado em Albufeira, em Abril de 1983. O trabalho de polícia também foi bastante rápido: descobriu-se um palestiniano que se identificava por Al Awad, mas que possuía documentação em nome de Mohamed Rashid que, mesmo por coincidência, logo depois do atentado, apanhara um táxi que o trouxera desde Albufeira até ao aeroporto da Portela em Lisboa onde ia apanhar um avião…
Segundo me recordo, o réu acabou condenado a 3 anos de prisão por uso de passaporte ilegal. Foi uma coroa de louros para a defensora oficiosa, num caso em que, dadas as perspectivas, nenhum nome de vulto da advocacia portuguesa quis pegar. Poderá ter sido aquilo que se conseguiu provar judicialmente, mas também foi, numa leitura política feita pelos actores internacionais, uma maneira embaraçosamente portuguesa de querer ficar de bem com todos, mas sem conseguir o respeito de ninguém.

* Donde resultou a morte de um fotógrafo holandês de origem portuguesa.

18 maio 2008

O “VENTRE MOLE” DA EUROPA – 2

A invasão da Sicília desencadeou uma manobra palaciana que acabou por conduzir à deposição do Duce, Benito Mussolini (25 de Julho de 1943). E o novo governo italiano, que era encabeçado pelo Marechal Badoglio procurou discretamente encetar contactos com os Aliados por forma a que fosse assinado um Armistício com eles. Tratava-se de uma oportunidade preciosa para os Aliados: se essa manobra fosse desencadeada de surpresa e bem coordenada do ponto de vista político e militar as Forças Aliadas poderiam progredir rapidamente em direcção a Norte através de toda a Península italiana, neutralizando os destacamentos militares alemães presentes em Itália. O pior era a desconfiança germânica…

Contudo, em Berlim parecia não haver ilusões quanto às intenções italianas. Adolf Hitler foi estenografado clamando, vingativo: É preciso trazer-me toda a camarilha, com o príncipe herdeiro à frente… O comportamento italiano foi, no que concerne às relações ítalo-alemãs, de uma duplicidade irrepreensível. Mas a triplicidade germânica foi ainda superior. Em antecipação ao anúncio público do Armistício (8 de Setembro de 1943) que fora previsto para coincidir com o desembarque das Forças Aliadas no Golfo de Salerno (abaixo), os alemães desencadearam a sua Operação Alarico, neutralizando e aprisionando os soldados de todas as unidades das Forças Armadas italianas.
Para os Aliados perdera-se totalmente o efeito de surpresa – chegara a equacionar-se a hipótese de, com a conivência dos italianos, uma das suas divisões de pára-quedistas saltasse sobre Roma! – e a progressão dos dois Exércitos Aliados (o V norte-americano, a ocidente e o VIII britânico, a oriente) em direcção ao Norte passou a fazer-se numa frente de combate estreita (200 km), acidentada e quase sem vias de comunicação. Era uma situação onde as condições dificultavam a aplicação da superioridade material dos Aliados e, pelo contrário, facilitavam a tarefa aos defensores que quase podiam impor o ritmo de progressão do adversário: apenas a 1 de Outubro a cidade de Nápoles foi conquistada.

Na Frente italiana entrara-se numa espécie de impasse táctico de posições fixas, muito à semelhança do que acontecera na Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial. Perdera-se assim todo o interesse estratégico. Em finais de Dezembro de 1943, tanto Eisenhower como Montgomery abandonaram os seus comandos e regressaram ao Reino Unido em preparação ao desembarque da Normandia que estava programado para daí a poucos meses. O mesmo acontece às melhores unidades britânicas e norte-americanas (como as divisões de pára-quedistas), que vieram a ser substituídas por divisões de outras nacionalidades – francesas (de origem norte-africana, abaixo), polacas, indianas, neo-zelandesas, etc.
Enquanto a Itália demorara pouco mais de um mês a passar de aliada da Alemanha para sua inimiga (de 7 de Setembro a 13 de Outubro), do outro lado dessa frente que dividia a Itália em duas, depois da libertação de Mussolini do seu cativeiro em 12 de Setembro de 1943, criara-se uma ficção de ressurgimento de um novo Pacto Germano-italiano, através do aparecimento de uma República Social Italiana, herdeira aparente das tradições do fascismo, mas que não passava de um protectorado germânico. Nem países simpatizantes da causa, como era o caso da Espanha franquista, mesmo quando solicitada directamente pela Alemanha, se dispuseram a reconhecer diplomaticamente o novo regime…

Ainda houve uma tentativa de contornar as posições defensivas alemãs lançando mais um desembarque anfíbio em Anzio, nos arredores de Roma, em Janeiro de 1944 mas a Operação Shingle veio a revelar-se um fracasso. O ritmo de progressão das Forças Aliadas passou a ser marcado pelo grau de exaustão das Forças alemãs que lhes faziam frente; quando esse limite era atingido estas últimas recuavam para uma nova linha defensiva ligeiramente mais a Norte, que fora cuidadosamente seleccionada e cujas posições haviam sido preparadas de antemão. Em 4 de Junho de 1944 os Aliados atingiram Roma (abaixo), mas o feito foi completamente obscurecido pelo Desembarque na Normandia dois dias depois.
O desembarque aliado nas costas mediterrânicas da França em 15 de Agosto de 1944 (Operação Dragoon) desguarneceu ainda mais (desta vez em divisões francesas) a Frente italiana. Outras unidades vieram substituí-las incluindo uma divisão brasileira* e a única divisão norte-americana (92ª) composta por afro-americanos** presente na Europa. O conjunto de nacionalidades das unidades combatentes em Itália pelos Aliados é capaz de ter constituído o recorde daquele conflito: houve norte-americanos, britânicos, canadianos, neo-zelandeses, sul-africanos, polacos, franceses, argelinos, marroquinos e brasileiros, além dos italianos que combateram pelos aliados, evidentemente.

Quanto à questão por onde começámos, a da disputa estratégica entre britânicos e norte-americanos sobre o estabelecimento das prioridades sobre quais deveriam ser os objectivos militares da reconquista da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, mau grado os dotes de persuasão de Alan Brooke e dos britânicos, provou-se que Marshall e os norte-americanos, não tendo razão na forma***, acabavam por a ter no fundo. Apesar dos precedentes históricos, como o caso das Guerras Napoleónicas onde os britânicos se empenharam também em teatros periféricos como a Península Ibérica, do ponto de vista estratégico a decisão da Segunda Guerra Mundial jamais teria sido decidida na Península Itálica...
* O emblema identificativo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que se vê acima é uma alusão directa a um discurso neutralista de Getúlio Vargas (o Presidente brasileiro), proferido logo no início da Guerra, em que afirmou que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. Depois dos Estados Unidos entrarem em Guerra, o Brasil veio a alinhar as suas posições com eles, e apareceu esta cobra fumadora...
** A segregação oficial nas Forças Armadas norte-americanas só terminou em 1948.
*** Aprendeu-se imenso com as várias operações anfíbias da Sicília e da Itália e esses conhecimentos foram muito úteis na Normandia.

07 setembro 2007

HAKA

Agora que se vai iniciar o Campeonato do Mundo de Râguebi, vem a propósito falar do Haka, um espectáculo dentro de outro espectáculo. Trata-se de uma dança guerreira executada pela equipa neozelandesa no centro do campo, diante dos adversários, antes do jogo se realizar. Foi um ritual importado directamente do folclore maori, os polinésios que habitavam a Nova Zelândia antes do povoamento por europeus do século XIX.
Como o râguebi se tornou um jogo muito popular entre as nações polinésias do Pacífico (onde existem frequentemente pessoas com a compleição física ideal para o praticar), também elas adoptaram cânticos guerreiros semelhantes ao Haka, como sejam o Cibi de Fidji, o Siva Tau de Samoa ou o Sipi Tau de Tonga. Quando duas destas selecções se defrontam e se põem a executar o seu cântico simultaneamente o resultado é impressionante: veja-se aqui, no último mundial, Nova Zelândia versus Tonga…
Fica para o fim o esclarecimento da dúvida por quem vou torcer neste Mundial. À selecção portuguesa cumpre-lhe a enorme missão de se bater com dignidade e não perder por muitos, que este não é um desporto propenso a muitos milagres*… As razões históricas, de que já falei aqui num poste anterior, levam-me a torcer pelo País de Gales (acima), mas as razões estéticas, de que falarei num poste futuro, levam-me a torcer pelos All Blacks da Nova Zelândia (abaixo). E a razão diz-me que devia ser mais estético que histórico…
* A Espanha, por exemplo, na sua única participação em Mundiais (1999), perdeu por 27-15 com o Uruguai e depois enfardou 47-3 da África do Sul e 48-0 da Escócia. Nota adicional de humilhação: tanto a equipa sul-africana (os Springboks) como a escocesa alinharam nesses jogos quase só com reservas… Mas há quem tenha perdido 142-0 (Austrália – Namíbia) e 111-13 (Inglaterra – Uruguai), ainda no último Mundial de 2003…

18 setembro 2006

ENREDOS…

Quem se dispuser a imaginar um enredo forte para uma possível novela política, poderia imaginar um país onde a primeira-ministra, de um governo de esquerda, tivesse que fazer uma declaração pública desmentindo que o seu marido fosse homossexual.

O problema teria aparecido depois de um jornal ter publicado fotografias do senhor a ser abraçado e beijado por outro homem. Contactado o homem do beijo, ele havia confirmado ser gay, embora afirmasse que o beijado, de quem era amigo há 30 anos, não o era.

As fotografias haviam sido extraídas de um vídeo de TV, por ocasião da última vitória eleitoral da primeira-ministra, onde o seu marido fora surpreendido, no meio dos festejos, pelas manifestações de regozijo um pouco impróprias daquele seu amigo.

A primeira-ministra terminou as suas declarações comentando como no seu círculo de amigos próximos se riam da insinuação que corria na imprensa e desmentindo categoricamente: Estou casada há 25 anos e tenho um casamento feliz.

Normalmente, estas coisas costumam acontecer aos pares. É quase um teorema que quando se descobre assim a careca a alguém do governo logo de seguida algo de escandaloso costuma ser revelado a respeito de alguém da oposição.

Para respeitar a regra, pode-se descobrir que o líder da oposição conservadora tem um caso com uma loura tipo bomba, que, não por acaso, é casada com um importante homem de negócios e financiador do partido.

Por precaução, os dois envolvidos desapareceram, assim como os respectivos cônjuges, da vista da comunicação social. A senhora fê-lo com atraso, porque ainda houve tempo para que fosse entrevistada: (…) tive imensos almoços, jantares, pequenos-almoços, aaah…, pequenos-almoços não…, com o casal…

É uma pena que este enredo não seja utilizável por questões de copyright, dadas as flagrantes semelhanças entre a apimentada história que acabou de ser contada e o que está a acontecer na Nova Zelândia, como se pode ler aqui.

É perante acontecimentos como estes que se percebe que há muitas circunstâncias em que o tradicional comentário do estas coisas só acontecem mesmo em Portugal… é, para além de desnecessariamente depreciativo, apenas demonstrativo de ignorância saloia.

09 julho 2006

OS BRITÂNICOS DOS ANTÍPODAS

Um dos comentários mais insultuosos proferidos por um governante a propósito de outro país foi proferido por um ex-primeiro-ministro neozelandês que, quando lhe pediram a opinião sobre a contínua emigração de neozelandeses para a Austrália, a considerou positiva, porque constituía uma boa forma de aumentar simultaneamente o QI médio dos dois países.

Não juro pela fidelidade da história, mas não é descabida, porque o insulto (tremendo!) não é perceptível de imediato. E a sua existência serve-nos de alerta para que as relações entre os dois países, apesar de aparentados, não são – nunca foram - as melhores, marcadas por uma rivalidade e características a fazer lembrar as relações ibéricas entre Portugal e Espanha.

Também ali há uma evidente assimetria do potencial estratégico de cada um dos países, com a tendência do mais poderoso (Austrália) a pretender assumir a hegemonia em toda a região, ao arrepio dos interesses neozelandeses. Este conflito exprime-se das mais variadas formas, as desportivas são das que têm mais visibilidade, e cada país – talvez mais a Nova Zelândia - exprime uma particular satisfação em derrotar o outro em râguebi – como os famosos Portugal-Espanha em hóquei em patins…

Nos recentes acontecimentos de Timor-Leste, onde a Nova Zelândia também está presente com um contingente de tropas, a preocupação neozelandesa parece ter sido o de contribuir para acautelar o controle de uma área de segurança da Oceânia, embora considere que, pela sua localização geográfica (no Índico), a responsabilidade recaia na Austrália.

À escala peninsular terá sido o equivalente ao gesto de Portugal enviar um contingente para os Pirenéus, em reforço ao dispositivo espanhol, como forma de contribuir para enfrentar uma eventual ameaça sobre a Península Ibérica. Algo que, de facto, até já aconteceu na realidade, por alturas da Revolução Francesa, com a campanha do Rossilhão.

Vale a pena chamar a atenção para o facto que a Nova Zelândia podia ter optado pela neutralidade e certamente por menos encargos se não tivesse enviado o seu contingente para Timor-Leste. No entanto, deve considerar que há aspectos dos seus interesses que serão melhor defendidos com a presença de um destacamento seu no território, sem procurações passadas aos seus grandes vizinhos australianos.

Convém tomar em conta que no tabuleiro dos contingentes militares e policiais presentes em Timor não existe uma simplicidade linear de Portugal contra os outros. Cada uma das nacionalidades presentes - Austrália, Portugal, Nova Zelândia e Malásia – joga em função de interesses diferentes. A conjugar com os interesses de outras nacionalidades que não estão presentes…

09 junho 2006

A ÚNICA CONSPIRAÇÃO QUE NÃO FOI TEÓRICA

É sempre simpático ver reconhecer pela comunicação social tradicional as competências de um colega de blogosfera como aconteceu ontem com Paulo Gorjão no jornal da meia-noite da SIC Notícias. É saudável ver um indício de renovação dos comentadores num país que está sempre tão agarrado nisto, como noutras coisas, às tradições.

Um pormenor que vale a pena destacar é que discordo de cerca de 30 a 40% das conclusões que Paulo Gorjão apresentou. Só para dar um pequeno exemplo, as conspirações existem mesmo e são para permanecer teóricas para os observadores externos, se forem montadas por serviços de informações competentes, preocupados em não deixarem provas tangíveis, apenas ficam as circunstanciais. Por isso se torna forçado tentar minimizar a sua existência recorrendo à expressão depreciativa Teoria da Conspiração.

Desvalorizar sucessiva e metodicamente as provas circunstanciais que tem aparecido em relação ao envolvimento da Austrália no assunto Timor está no direito de cada um, embora seja uma atitude que possa ter a consequência de fragilizar todo o resto da sua argumentação, para quemo está a escutar. Paulo Gorjão habituou-nos a ser tão arguto em assuntos de política interna e depois parece tornar-se tão obnóxio neste assunto específico de política externa.

Ou será que a última conspiração que houve por aquelas paragens foi em 1985, quando os serviços secretos franceses afundaram o navio Rainbow Warrior do movimento Greenpeace e os agentes responsáveis pelo afundamento vieram a ser capturados pelos serviços de contra-espionagem neozelandeses? Só há conspirações com flagrante delito? Tivesse Lawrence da Arábia sido mais discreto e nada se poderia provar contra os britânicos na 1ª Guerra Mundial?

Há diversos patamares de debate deste assunto. A análise da situação actual, a pertinência da intervenção portuguesa, a forma como está a ser conduzida, as perspectivas da posição portuguesa naquelas paragens a médio e a longo prazo. Começando a divergir logo no primeiro fico com a sensação que a convergência de opiniões nos seguintes que possa ter com Paulo Gorjão (que existe), até podem não ter passado de uma mera coincidência.