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23 junho 2024

80º ANIVERSÁRIO DA OPERAÇÃO «BAGRATION»

(Republicação)
23 de Junho de 1944. Início da Operação Bagration. Para os soviéticos, o desencadear da Operação Úrano, em Novembro de 1942, foi mais uma proeza de astúcia do que de força, cercando, para o aniquilar, e apenas devido à dispersão das forças do inimigo, o exército alemão que se obcecara em excesso com a conquista de Stalinegrado. Em Julho de 1943, na Batalha do Kursk (a Operação Cidadela, segundo o nome dado pelos alemães), já as forças presentes dos dois lados se equivaliam, e a vitória soviética resultou da habilidade de, conhecendo-lhe as intenções, dar a iniciativa ao inimigo, desgastando-o na sua ofensiva, para depois o contra-atacar depois disso. Mas nesta Operação Bagration, a coincidir com o início do Verão de 1944 e prometida aos Aliados por Stalin para a fazer coincidir com o desembarque na Normandia, já a superioridade passara inteiramente para o lado soviético. A questão já não se poria em saber qual o desfecho da ofensiva que o Exército Vermelho iria desencadear, a dúvida consistia apenas em saber qual a dimensão da derrota táctica da Wehrmacht. Essa derrota será colossal (como os cenários macroeconómicos de Vítor Gaspar...). Em duas semanas, pouco mais, serão destruídas 25 divisões alemãs, perder-se-ão 400.000 combatentes, haverá uma hecatombe entre os oficiais generais alemães: 9 mortos e 23 prisioneiros (na fotografia abaixo, da capitulação de Vitebsk, os dois generais alemães vencidos do lado direito, são o general Gollwitzer, comandante do 53º Corpo de Exército e o general Hitter, comandante da 206ª Divisão). O avanço soviético cifrou-se em 400 km e alcançou as antigas fronteiras da União Soviética com a Polónia e as repúblicas bálticas, a dinâmica da ofensiva veio a ser mais perturbada pelos problemas da logística de acompanhar um exército fortemente motorizado, do que pela capacidade de resistência das unidades alemãs ainda em condições de combater. No lugar das 25 divisões destruídas restaria o equivalente a 8 enquanto se aguardava a chegada de outras 8 em reforço. Diante delas, o estado-maior alemão enumeraria 126 divisões soviéticas de infantaria e outras 6 de cavalaria, para além de 62 brigadas blindadas. Naquele sector da Frente Leste e em termos de potencial de combate os alemães defrontar-se-ão a partir daí numa desproporção de um para dez! Hitler's Greatest Defeat é um livro já com 30 anos mas que cumpre a sua missão de explicar sucintamente uma tão grande e tão decisiva ofensiva em 170 páginas. Que é muito mais do que se pode dizer de evocações de jornal (em 2019) que mostram que quem as escreveu nem sequer quis perder muito tempo na wikipedia a documentar-se (para dizer mais que trivialidades misturadas com asneiras...).

20 maio 2024

UM «CAVALHEIRO» DE UMA SÓ PALAVRA, CUJA REELEIÇÃO NÃO FOI PROBLEMÁTICA

A curiosidade é a notícia ter precisamente dez anos e a constatação é que, roubando os dizeres do anúncio do famoso dentífrico se poderia escrever: «Palavras para quê? É um artista russo e não usa pasta medicinal Couto!»

Por outro lado, falando de um outro assunto correlacionado, hoje termina - tecnicamente - o mandato de cinco anos de Volodymyr Zelensky. A situação apresenta-se muito confusa. Há um artigo da Constituição ucraniana que estabelece que o presidente é eleito para um mandato de cinco anos; mas há outro artigo que diz que o presidente em exercício exercerá o poder até que o novo presidente seja empossado. Uma terceira lei (embora essa não tenha valor constitucional) condiciona a que as eleições não podem ser realizadas enquanto a lei marcial estiver em vigor, que é o que tem acontecido na Ucrânia desde que a Rússia iniciou a sua invasão em grande escala em Fevereiro de 2022.

Aprecie-se finalmente o contraste deste problema ucraniano com as ditas eleições presidenciais russas de Março de 2024, que foram ganhas magnanimamente por Vladimir Putin com 88,5% dos votos!  

21 abril 2024

A ELEIÇÃO DE VOLODYMYR ZELENSKY

21 de Abril de 2019. Na segunda volta das eleições presidenciais ucranianas, o candidato Volodymyr Oleksandrovych Zelensky, de 41 anos, vence-as com 73% dos votos. Na primeira volta, que fora disputada por nada menos do que 39 candidatos (!), Zelensky, já fora o candidato mais votado, com 30% dos votos. Uma vitória de tal amplitude reflecte-se no mapa eleitoral (abaixo): Zelensky foi o candidato mais votado em quase todo o país, com excepção da região mais ocidental do país. Note-se também, no mesmo mapa, as regiões que já estavam então ocupadas pela Rússia e onde não pôde haver eleições, que aparecem assinaladas a cinzento.

09 abril 2024

O NAVIO «HIDROGRÁFICO» QUE OS RUSSOS ROUBARAM AOS UCRANIANOS

9 de Abril de 1994. Uma pequena notícia da Reuters dá conta da defecção da Ucrânia para a Rússia de um dos navios da esquadra do Mar Negro. Como se pode ler nela, o navio estava acostado no porto de Odessa, na Ucrânia, quando a tripulação, estimada em aproximadamente 45 marinheiros e composta predominantemente por russos, contrariando as ordens de Kiev (a quem o navio fora, aparentemente, alocado), decidiu cortar amarras a meio da noite, partindo para parte incerta. Como é costume nestas ocasiões, os queixosos ucranianos atribuíam um valor desmesurado ao prejuízo incorrido com a deserção. A realidade é que o navio, que a notícia identifica como o «Cheleken», fora originalmente construído na Polónia em 1970 e era um daqueles navios que, apesar de classificados por soviéticos como «hidrográficos», estava equipado com equipamentos de escuta e espionagem, para acompanhar as unidades navais da NATO. Como a notícia explica, o processo de divisão dos activos da Frota do Mar Negro entre a Rússia e a Ucrânia, depois da extinção da União Soviética, já levava três anos e estava recheado de incidentes dos dois lados. Recorde-se que isto acontece 20 anos antes da ocupação russa da Crimeia. É uma história de um conflito latente que não tem inocentes. Pode ter ingénuos (como será o caso da Ucrânia, ao ceder o controle do arsenal nuclear em seu território com contrapartidas), mas inocentes não.

19 fevereiro 2024

A TRANSFERÊNCIA DA CRIMEIA DA RÚSSIA PARA A UCRÂNIA

A 19 de Fevereiro de 1954, o Presidium do Soviete Supremo da União Soviética, sedeado em Moscovo no Kremlin (como se pode ler na área assinalada do documento acima), «tendo em consideração a integração económica da região, a proximidade territorial e os estreitos laços económicos e culturais entre a província da Crimeia e a República Socialista Soviética da Ucrânia», emite um Decreto transferindo a província da Crimeia da soberania da República Socialista Federativa Soviética Russa para a jurisdição da República Socialista Soviética da Ucrânia. À época, esta transferência teve um significado mais simbólico que substantivo: Ucrânia e Rússia faziam parte da mesma entidade política, a União Soviética, esta transferência era apenas uma mudança de uma fronteira interna do grande país. O problema passou a colocar-se de outro modo quando da desagregação da União Soviética em 1991 em que Rússia e Ucrânia se tornaram países distintos. E aí na Rússia mostrou-se a intenção de recuperar a Crimeia, tanto mais que a esmagadora maioria dos habitantes da península são russófonos. Foi o que aconteceu entre Fevereiro e Março de 2014. À época, a iniciativa de força por parte da Rússia provocou as suas ondas de choque, mas vale a pena recordar que ocorreu numa conjuntura em que uma iniciativa de cariz muito semelhante ocorrera numa outra parte da Europa e com o patrocínio dos Estados Unidos: a extracção do Kosovo à soberania sérvia. Não havia muita moralidade para se andarem a recriminar uns aos outros. Só que o assunto apresentava-se como encerrado na antiga Jugoslávia e está muito longe de assim ser com a Rússia nas suas fronteiras. A Rússia não se ficou pela Crimeia e invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022 e hoje os dois países continuam em guerra. Como outrora aconteceu com a França do século XIX e a Alemanha do século XX, as ambições expansionistas da Rússia do século XXI são uma incógnita e um receio. Os outros países vizinhos da Rússia olham-na quase todos de viés. Contudo, paradoxalmente, registe-se que este gesto de há setenta anos havia sido apenas um expediente politico, sem se antever todas estas consequências.

17 novembro 2023

ISTO JÁ FOI CHÃO QUE DEU UVAS

Confesso que tenho curiosidade em ver qual a amplitude da cobertura mediática que a comunicação social irá dar a este (obrigatório) retorno das atenções à guerra na Ucrânia. Tenho uma expectativa, mas preferia estar enganado. Recorde-se que a questão ucraniano-russa é incomensuravelmente mais importante para a Europa do que a israelo-palestinana.
Alguma informação europeia - a Euronews acima - parece já falar do assunto. A norte-americana ainda não. Como aqui em Portugal somos alimentados predominantemente pelo que vem do outro lado do Atlântico, e os alinhamentos seguem o que vem da América, ira demorar certamente mais um bocado até eventualmente a SIC Notícias, a CNN (doméstica) ou a RTP 3 começarem a dedicar mais atenção ao assunto.

21 setembro 2023

«AO VIVO DE NOVA IORQUE»: TRÊS MINUTOS E MEIO DE "CONVERSA PARA BOI DORMIR"

Há quatro meses havia sido notícia que Lula da Silva ficara "chateado" com Vladimir Zelensky porque "o tinha deixado pendurado" numa cimeira. Para Lula, será importante mostrar ao Mundo que Zelensky presta atenção ao que o brasileiro tem para dizer sobre a invasão da Ucrânia, e para Zelensky é importante mostrar que a importância que o ucraniano lhe dispensa é sofrível, é o mínimo acima do limiar da má educação. Os dois, para colmatar o episódio de há quatro meses, e para não ficarem com a fama de mal educados, encontraram-se agora em Nova Iorque. Só mesmo os media brasileiros (e alguns portugueses por arrasto) deram relevância prévia ao encontro. E escolhi este vídeo da CNN Brasil que me parece eloquentemente simbólico do quanto nada havia para noticiar. São três minutos e meio em que a repórter, «ao vivo de Nova Iorque», nada consegue dizer de substantivo sobre o conteúdo das conversações, deixando a suspeita que nada havia de importante para dizerem pessoalmente um ao outro - é aquilo que os brasileiros classificam como "uma conversa para boi dormir". Conversa tão oca que, mesmo em três minutos e meio, o boi adormece logo. Este género de jornalismo é mesmo uma merda de perda de tempo!

25 agosto 2023

DOIS CHEFES DE ESTADO QUE NÃO FORAM OS PRIMEIROS A ENTRAR NUMA TRINCHEIRA...

A propósito das legendagens disparatadas que ontem os nossos canais de televisão andaram a afixar por conta da visita - surpresa! - de Marcelo Rebelo de Sousa à Ucrânia, permitam-me a ousadia de ir recuperar esta fotografia com quase 106 anos (Outubro de 1917), quando de uma visita presidencial a Ham, no Norte de França, onde então acantonava o Corpo Expedicionário Português (CEP). Como se percebe, a povoação está quase totalmente destruída. Em plano destacado identifica(va)m-se (da esquerda para a direita) Bernardino Machado, o presidente da República Portuguesa, Raymond Poincaré, o presidente da República Francesa e Afonso Costa, o chefe do governo português. T(iv)emos portanto ali não um mas dois chefes de Estado e, do que consta da visita, nenhum deles «foi o primeiro chefe de Estado a entrar numa trincheira»... Talvez no século passado, naquilo que mediaticamente será a era A.M. (antes de Marcelo), entrar numa trincheira não tivesse um significado por aí além...

28 julho 2023

A GUERRA RUSSO UCRANIANA CONTINUA...

...mas fingir que não em grandes eventos desportivos internacionais pode ter efeitos contraproducentes, quando os atletas não se conformam com as regras que lhe são impostas pelos dirigentes desportivos. Os atletas até podem perder formalmente por desqualificação aquilo que ganharam, como foi o caso desta atiradora ucraniana que participava nos Campeonatos Mundiais de Esgrima que se estão a disputar em Milão, mas quem costuma sair descredibilizado pela insensibilidade demonstrada quando destes episódios, acabam por ser os próprios dirigentes desportivos quando sancionam as atitudes (muitas vezes compreensíveis...) dos atletas. Isto de eles insistirem que a indústria dos espectáculos desportivos possa viver numa espécie de bolha amoral que não prejudique muito o negócio... acaba por se revelar não ser bem assim quando os protagonistas se recusam a colaborar.

05 julho 2023

O INÍCIO DA BATALHA DO KURSK

(Republicação)
5 de Julho de 1943. Às 02H00 da madrugada (hora alemã) começava a Batalha do Kursk. Os sucessos das ofensivas soviéticas e dos contra-ataques alemães na Frente Leste nos primeiros meses de 1943 haviam resultado na formação de um grande saliente à volta da cidade de Kursk, entre Orel na Rússia e Kharkov na Ucrânia (ambas sob controle alemão). A ideia natural era pensar em fechá-lo, aprisionando no processo as unidades soviéticas que o guarneciam. Adolf Hitler já havia por uma vez adiado a Operação Zitadelle (fora assim que se baptizara o plano para fechar esse saliente com um ataque concêntrico em forma de pinça) em prol de uma proposta alternativa do OKW para a constituição de uma fortíssima reserva que acorresse (e esmagasse) as iniciativas soviéticas desse Verão, mas a 18 de Junho Hitler decidira-se finalmente a mudar de planos, assumir a iniciativa na Frente Leste e avançar com a Operação. Os objectivos adicionais, para além da enorme vitória táctica que constituiria mais este cerco de centenas de milhares de soldados soviéticos, seriam os de tornar a demonstrar a inequívoca superioridade alemã, que ficara tão abalada com os acontecimentos dos últimos meses em Stalinegrado, e sobretudo aproveitar a ocasião para desfazer o enorme impasse militar em que caíra a Frente Leste no seu conjunto. A execução da Operação parecia ser, de facto e só por si, a demonstração da força da Wehrmacht: 900.000 homens, 2.700 tanques e peças autopropulsionadas e 1.800 aviões foram reunidos para ela, embora isso representasse a concentração de 70% dos blindados e 65% da aviação atribuída a toda a Frente Leste. Embora o Kursk seja comumente referenciada como uma grande batalha de tanques, na extracção das lições que ela contém, percebe-se que ela foi mais um sucesso das restantes armas combinadas (infantaria, artilharia e engenharia) frente à cavalaria (blindados) cuja reputação ofensiva atingira o zénite com as campanhas de 1939 e 40. De facto, a reacção soviética à ofensiva alemã que há 75 anos começava - cuja data e detalhes já era conhecidos de antemão pelos soviéticos através das redes de espionagem - foi a de dispor uma densíssima rede defensiva (bunkers, infantaria equipada com armamento antitanque e batarias de artilharia com alvos pré-referenciados) que que levou as unidades blindadas alemãs à usura rápida e sem alcançarem quaisquer resultados substantivos: a 10 de Julho, o braço da tenaz do Sul, o 4.º Exército Panzer de Hermann Hoth, avançara uns míseros 32 km, e o seu homólogo do Norte, o 9.º Exército de Walther Model uns ainda mais desapontantes 13 km. Porém, os soviéticos aguardaram ainda mais dois dias (12 de Julho) até empenharem maciçamente as suas unidades blindadas. O embate entre os Tigers e os Panthers do 4.º Exército Panzer de Hoth e os T-34 e os T-70 do 5.º Exército Blindado da Guarda de Pavel Rotmistrov é considerado uma das maiores batalhas de blindados de toda a Segunda Guerra Mundial: a batalha de Prokhorovka. Como acontecera com o duque de Wellington na celebradíssima batalha de Waterloo, o grande feito de armas de Rotmistrov foi apenas o de não se deixar derrotar pelo inimigo que, esse sim, estava obrigado a vencer. Porém, os heróis da História têm uma génese por vezes bizarra: se muitos, senão quase todos terão ouvido falar de Wellington, Rotmistrov é um perfeito desconhecido, mesmo para os russos. Não ajudou à sua notoriedade na Rússia que a sua carreira militar tivesse acabado subitamente no ano seguinte, em consequência da forma como ele se conduzira durante a Operação Bagration. E não ajudou à sua notoriedade fora da Rússia que o motivo invocado pela Stavka para o seu afastamento fosse o excesso de baixas suportadas pelas unidades sob o seu comando. É que durante a Guerra-Fria, no Ocidente, tornou-se um axioma considerar que os generais soviéticos não se preocuparam com o destino dos seus homens como o faziam os seus aliados anglo-saxónicos e os seus inimigos alemães. Ora aquilo que acontecera com Rotmistrov era um desmentido frontal desse axioma. Embora não se sabendo na altura, para o desfecho da Guerra o Kursk foi a última ocasião em que a Wehrmacht assumiu a iniciativa militar de uma forma significativa. Adolf Hitler tivera dois anos completos para alcançar a vitória no Leste. A partir daí limitar-se-ia a reagir defensivamente às iniciativas soviéticas.

21 junho 2023

QUEREM VER QUE AFINAL FOI A UCRÂNIA QUE INVADIU A RÚSSIA?...

A maneira como certos comentadores pretendem distorcer o âmbito do que está em causa na invasão russa da Ucrânia, só merece um desdenhoso comentário sarcástico. Aliás, o processo de (no caso) Pedro Tadeu distorcer o que é óbvio, relativizando-o, é sistemático nele, como se recorda por este comentário evasivo abaixo, que lhe ouvimos três dias antes da invasão russa. Revelou-se uma chatice, porque os factos vieram comprovar que, no que diz respeito à anunciada invasão da Ucrânia, Biden tinha razão e Putin estava a mentir com todos os dentes que tinha na boca. Mas essa admissão do óbvio não ouvimos - e nunca ouviremos - a Pedro Tadeu... Não é uma questão de opiniões que ele possa ter, é uma tentativa sua, continuada, de evadir-se ao reconhecimento da verdade óbvia. Vigarice intelectual, em suma.

16 junho 2023

«SE A GUERRA COMEÇAR AMANHû

«Se a Guerra começar amanhã» (Yesli zavtra voyna) é um filme soviético, estreado em Fevereiro de 1938, e que concebido e realizado por um colectivo de cineastas encabeçado por Efim Dzigan. É um filme de propaganda de época, com um trecho musical marcante que se repete, que está vocacionado para perdurar no ouvido. Tem uma duração de pouco mais de uma hora. Por curiosidade, acrescente-se que este mesmo filme havia sido seleccionado para representar a União Soviética no primeiro Festival de Cannes, que se estava marcado para se realizar em Setembro de 1939, e que foi cancelado devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial. O filme soviético teria vindo a propósito porque a história que conta é uma hipotética história de guerra.
Mostra a heróica reacção soviética a um ataque militar de uma potência imperialista capitalista que se consegue facilmente identificar como sendo a Alemanha. Porque o filme tem a duração de apenas uma hora a guerra não é muito prolongada e a trama não é complexa. No filme, para além do povo heróico, aparecem dirigentes soviéticos verdadeiros: o incontornável Staline, o comissário para a Defesa Voroshilov, o marechal Budienny, que irá encabeçar a carga de cavalaria conducente ao vitorioso desfecho final. Mas é Voroshilov quem aparece, a certa altura, a transmitir a mensagem essencial do filme: «Se nos impuserem uma guerra, ela não se travará no nosso solo soviético, mas no território daqueles que ousaram desembainhar a espada em primeiro lugar».
No futuro mais imediato, os acontecimentos descritos no filme is-se-ão consubstanciar dali por dois anos, em Junho de 1941, quando a Alemanha invadir realmente a União Soviética (Operação Barbarossa (1)(2)). Infelizmente para os russos, o enredo da realidade divergirá do narrado pelo filme: irão decorrer três longos anos (1941-44), até que a guerra chegasse ao «território daqueles» que haviam «desembainhado a espada em primeiro lugar». Mas o que nos interessa para o caso é a História recente, a da invasão russa da Ucrânia de 2022, e a constatação de como a narrativa russa não evoluiu nestes 83 anos. Seja qual for a sua extensão geográfica, a Rússia tem sempre vizinhos ameaçadores que lhe impõe guerras. E os russos preferem travá-las sempre em território alheio, quando podem...

22 maio 2023

LULA ESTÁ CHATEADO COM ZELENSKY E NÓS TEMOS PENA

Quando uma potência de pequena/média dimensão, como é o caso da Ucrânia, se torna a protagonista de um conflito internacional cuja dimensão a supera, tem que acautelar-se para que os seus interesses vitais não sejam sacrificados pelos grandes - e verdadeiros - protagonistas da disputa. A História está repleta de exemplos de grandes potências que estiveram dispostos a sacrificar aquilo que pertencia aos seus aliados subordinados, como expediente para apaziguar as grandes potências adversárias. No nosso caso concreto e até à Primeira Guerra Mundial e por diversas vezes, o Reino Unido mostrou-se disposto a ceder as grandes colónias portuguesas em África em benefício - e para apaziguamento - da Alemanha; mas talvez o caso mais escandaloso tenha ocorrido em Munique em 1938, quando esse mesmo Reino Unido e a França retalharam a Checoslováquia em benefício - e para apaziguamento - daquela mesma Alemanha, num processo diplomático em que a sacrificada Checoslováquia nem foi convidada a estar presente... Não é difícil deduzir que em Kyiv essa história do sacrifício de Praga de 1938 estará muito presente para não o repetir. A Ucrânia será uma potência de pequena/média dimensão, mas não muito propensa a deixar-se domesticar e muito cuidadosa para com aqueles, como o Brasil, que se arrogam uma importância política internacional que ninguém lhes parece reconhecer.

Quanto à condução da sua actividade diplomática, a prioridade de Zelensky será para com as potências que forneçam aos ucranianos meios de combate e de resistência. É por isso e para isso, cativar os países que ainda estejam verdadeiramente indecisos para a sua causa, que o presidente ucraniano andará a saltitar por esse mundo fora, como aconteceu recentemente com a sua presença na Liga Árabe. Depois, na hierarquia das prioridades da Ucrânia, há que prestar atenção àquelas potências que verdadeiramente contam e que só se fingem indecisas: estão do lado russo da barricada - leia-se, a China. Com a China, Zelensky joga uma diplomacia subtil: Xi Jinping vai a Moscovo e Zelensky convida-o para ir também a Kyiv; claro que Xi não vai, embora arranje um sucedâneo de manobra diplomática - uma conversa telefónica - que satisfaz as duas partes mas que não engana ninguém: tal qual a situação internacional se apresenta, os líderes importantes que vão a Moscovo não vão a Kyiv e vice versa. Restam os outros, os líderes que não têm importância alguma, como será o caso de seis líderes africanos, encabeçados pelo presidente da África do Sul, que anunciaram recentemente a sua intenção de lançar uma missão de paz, visitando as duas capitais. O Brasil com Lula da Silva é mais um país que pertencerá a este último grupo de aplicados minions, com o inconveniente de Lula da Silva já ter proferido declarações que o tornaram mal quisto entre as potências ocidentais. Para mais, numa cimeira do G-7, o Brasil nem está presente por inerência, antes e apenas por convite. Ou seja, na ocasião Lula da Silva é tão convidado como Zelensky. Se este último lhe deu tampa e se baldou ao encontro é porque não terá visto grande vantagem na sua realização - foi má educação. Ou talvez tenha sido um correctivo diplomático aplicado em quem se pensa mais do que aquilo que é...

07 maio 2023

VÍDEOS QUE, OU NÃO SÃO PARA LEVAR A SÉRIO, OU ENTÃO SÃO UM CASO MUITO SÉRIO

Estes vídeos protagonizados por Yevgeny Prigozhin, o chefe do grupo Wagner, são tão surpreendentes, que, se são uma manobra de desinformação da Rússia, então suponho que seriam facilmente expostas como tal. Contudo, se as queixas que faz e, sobretudo, o método aberto como as expressa são mesmo genuínas, então isto é uma verdadeira hecatombe, a começar pela autoridade de Vladimir Putin. Se na Alemanha dos finais da Segunda Guerra Mundial, Heinrich Himmler - que também tinha uma espécie de exército particular, as Waffen SS - se pusesse a reclamar dos problemas de reabastecimento para as suas SS e anunciasse, com a mesma ostentação que acima Prigozhin exibe, que as recuava da frente de combate, alguém duvida do que é que lhe aconteceria?... Ou tudo isto é uma palhaçada encenada, ou então, para que Putin preserve a sua autoridade, terá que acontecer qualquer coisa a Yevgeny Prigozhin, e qualquer coisa mais ostensiva do que apenas cair de uma janela... Ao fim de quatorze meses e meio de guerra na Ucrânia, parece-me que as análises se ritualizaram, as audiências escolheram o seu clube e tornaram-se dormentes ao que de interessante acontece - que é bastante pouco, reconheça-se.

01 maio 2023

A «OFENSIVA UCRANIANA»

A próxima «ofensiva ucraniana» (também conhecida por «ofensiva ucraniana da primavera») tem sido referida tantas vezes, desde há tanto tempo e com tanta ostentação que só se pode colocar a questão se o anúncio é mesmo para levar a sério. A propósito do acto de informar deliberadamente o inimigo a respeito das suas intenções, lembrei-me deste trecho de uma história de Lucky Luke.


23 abril 2023

A PAZ NÃO É UMA QUESTÃO DE BOA VONTADE

Em Dezembro de 1916, por iniciativa do papa Bento XV, foi pedido aos dois lados beligerantes da Grande Guerra (Primeira Guerra Mundial) que apresentassem uma proposta de paz que pudesse vir a servir de base negocial com as partes contrárias. Só a Alemanha chegou a apresentar concretamente uma proposta contendo os termos em que ela estaria disposta a negociar uma solução pacífica para o conflito. Ao conhecer o seu conteúdo, os Aliados ocidentais (a França e o Reino Unido) consideraram as pretensões alemãs tão distantes do que consideravam ser os seus objectivos de guerra, que a rejeitaram liminarmente e consideraram que nem valeria a pena apresentar uma contraproposta. A iniciativa do papa Bento XV, que foi secundada pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson (então ainda neutral), acabou ali mesmo.

A proposta alemã pedia a paz com base no status quo ante bellum: a manutenção das fronteiras de antes da guerra, fronteiras essas que teriam deixado do lado da Alemanha as duas províncias da Alsácia e da Lorena – que haviam sido humilhantemente tomadas à França na Guerra Franco-Prussiana de 1871. A sua recuperação era o objectivo central político da participação francesa na Guerra e, por isso, era uma condição inaceitável para os franceses. Esse retorno das fronteiras de 1914 também teria forçado as potências aliadas a devolver as colónias alemãs que haviam sido conquistadas em 1914-15 e onde a resistência alemã cessara, com excepção de Tanganica. Era devolver algo que a Alemanha nunca teria condições materiais de conseguir reaver. Outra condição expressa pela Alemanha era a existência de um governo neutral (pró-alemão) na Bélgica (que estava então praticamente toda ocupada pela Alemanha), o que constituía uma preocupação significativa para a Grã-Bretanha, já que sua estratégia de sempre fora a de garantir que nenhuma potência hostil (França ou Alemanha) controlasse os portos do Canal da Mancha, que seriam sempre um possível ponto de partida para uma invasão da Grã-Bretanha. A dificultar ainda mais, as propostas alemãs incluíam pedidos de indemnização monetária à Alemanha pela sua evacuação dos territórios franceses que ela conquistara e ocupara desde 1914. Em contraste, o texto era omisso quanto a reparações devidas aos franceses pelos estragos provocados em território francês durante essa ocupação. Outras condições a Leste, aí envolvendo os russos e de ainda mais difícil aceitação por eles, era a reconfiguração de uma nova fronteira que protegesse estratégica e economicamente a Alemanha e uma nova Polónia (estado satélite da primeira).

Ou seja, a Alemanha mostrava-se disposta a sentar-se à mesa das negociações considerando que ela é que tinha as cartas mais fortes na mão. O que não era de todo a opinião dos seus inimigos. Podiam não parecer estar em vantagem, mas acreditavam que o tempo corria a seu favor por causa do bloqueio económico que haviam imposto aos seus inimigos. Consideradas as circunstâncias tão divergentes, nem apresentaram resposta aos pedidos de Bento XV. Só por curiosidade, o resultado daquilo que teria sido o resultado das negociações baseadas nessa hipotética proposta alemã, seria um mapa da Europa ficcional como este abaixo, resultado de um também imaginário Tratado de Bruxelas, assinado em 17 de Dezembro de 1917. Uma curiosidade, já que a História tomou um outro curso.
Mas, se torno a recontar ainda mais detalhadamente todo este episódio com mais de cem anos, é para chamar a atenção que a História nos ensina que quem define a oportunidade e a proficuidade da existência de negociações de paz são os beligerantes e que é preciso que essa vontade se manifeste simultaneamente. Nunca são os mediadores, por muito empenho e boa vontade que estes últimos ponham na sua mediação, como aconteceu com Bento XV. Uma lição para quem se queira armar em mediador no conflito da Ucrânia, em que me parece, como em 1916, que nenhum dos beligerantes tem algo a oferecer que seja aceitável pelo outro. 

06 março 2023

BORSCH À BORLA PELA MORTE DE STALINE

Há 70 anos, Staline acabara de morrer e nem todos se mostravam tristes, como este restaurante judeu de Nova Iorque, que fazia questão de oferecer borsch de graça aos seus clientes para celebrar o óbito. Borsch é uma tradicional sopa de beterraba, que é muito comum nas gastronomias do Leste da Europa. Há 70 anos era um pouco indistinto, quase um preciosismo, indicar a sua origem: ucraniana. Hoje, como consequência das mais recentes iniciativas daquele sucessor longínquo de Staline que dá pelo nome de Vladimir Putin, tornou-se importantíssimo precisar essa questão: todos tomámos consciência da diferença entre russos e ucranianos.

24 fevereiro 2023

O DISCURSO DE SÉRGIO SOUSA PINTO E O RESTO

Ainda a respeito do primeiro aniversário da invasão da Ucrânia, vale a pena ouvir o discurso proferido hoje por Sérgio Sousa Pinto na Assembleia da República. É um excelente orador e foi um excelente discurso, recuperando exemplos históricos que são impossíveis de refutar com seriedade. Acrescento que é também significativa a reacção que o mesmo suscita, no final, nas bancadas: para além do PS, também o PSD e a IL aplaudem-no de pé e mesmo no Chega há quem o aplauda, embora permanecendo sentado, nomeadamente André Ventura. O silêncio verifica-se no outro extremo do hemiciclo, onde tanto os deputados do Bloco como os do PCP se destacam pela apatia. Por momentos, parecem reconstituir-se ali as trincheiras da antiga Guerra Fria. Mas não, que essa já acabou. Só que estas ocasiões transformam-se numa chatice para aqueles na esquerda moderada que têm um discurso que demoniza a nova extrema-direita, enquanto procuram absolver a velha extrema-esquerda.

EXERCÍCIO DE IMAGINAÇÃO

Hoje, dia de aniversário da invasão da Ucrânia pelos russos, é um exercício de imaginação apropriado avaliar as consequência do que teria acontecido neste último ano se o inquilino da Casa Branca se chamasse Donald Trump. Na sequência da invasão russa, os norte-americanos proporiam a Zelensky e ao governo ucraniano que se refugiasse na Polónia, para que ali constituíssem um governo no exílio. Mesmo que se esboçasse uma resistência militar à invasão, os ânimos dos combatentes teria sido outro, porque o conteúdo das reacções oficiais teria sido outro. O sucesso russo teria sido muito mais provável. E caso ele tivesse acontecido, se a Rússia de Putin tivesse vencido a Ucrânia de Zelensky, o resto da Europa estaria a viver agora num clima de total insegurança, acompanhada de uma instabilidade ao nível global. Para mais, e sobrepondo-se às declarações apologéticas que facilmente se adivinham proferidas por Donald Trump, haveria a questão da dependência energética do gás russo a incentivar a acomodação entre os países europeus mais dependentes e a Rússia prepotente. E todos aqueles populistas autocratas, que se ouvem por aí a defender as posições russas, poderiam acarinhar com muito mais projecção a pessoa e o estilo autocrático de Vladimir Putin, aproveitando-se simultaneamente do isolacionismo de Donald Trump para defenderem um maior distanciamento geo-estratégico entre europeus e norte-americanos. É tudo isso que tem estado em jogo e é uma sorte para a Humanidade que o primeiro erro que Vladimir Putin cometeu foi não ter reconhecido a sua oportunidade quando a teve - com o palhaço de Donald Trump na Casa Branca.

31 dezembro 2022

O ANO DE 2022 COMEÇOU COM ZELENSKYY A FICAR NA UCRÂNIA E TERMINOU COM BOLSONARO A FUGIR DO BRASIL

Cada um dos dois presidentes fica com o registo histórico que merece. A História é a História. O resto é conversa.