23 de Junho de 1944. Início da Operação Bragation. Para os soviéticos, o desencadear da Operação Úrano, em Novembro de 1942, foi mais uma proeza de astúcia do que de força, cercando, para o aniquilar, e apenas devido à dispersão das forças do inimigo, o exército alemão que se obcecara em excesso com a conquista de Estalinegrado. Em Julho de 1943, na Batalha do Kursk (a Operação Cidadela, segundo o nome dado pelos alemães), já as forças presentes dos dois lados se equivaliam, e a vitória soviética resultou da habilidade de, conhecendo-lhe as intenções, dar a iniciativa ao inimigo, desgastando-o na sua ofensiva, para depois o contra-atacar depois disso. Mas nesta Operação Bragation, a coincidir com o início do Verão de 1944, já a superioridade passara inteiramente para o lado soviético. A questão já não se poria em saber qual o desfecho da ofensiva que o Exército Vermelho iria desencadear, a dúvida consistia apenas em saber qual a dimensão da derrota táctica da Wehrmacht. Essa derrota será colossal, como os cenários macroeconómicos de Vítor Gaspar. Em duas semanas, pouco mais, serão destruídas 25 divisões, perder-se-ão 400.000 combatentes, haverá uma hecatombe entre os oficiais generais alemães: 9 mortos e 23 prisioneiros (na fotografia abaixo, da capitulação de Vitebsk, os dois generais alemães vencidos do lado direito, são o general Gollwitzer, comandante do 53º Corpo de Exército e o general Hitter, comandante da 206ª Divisão). O avanço soviético cifrou-se em 400 km e alcançou as antigas fronteiras da União Soviética com a Polónia e as repúblicas bálticos, a dinâmica da ofensiva veio a ser mais perturbada pelos problemas da logística de acompanhar um exército fortemente motorizado, do que pela capacidade de resistência das unidades alemãs ainda em condições de combater. No lugar das 25 divisões destruídas restaria o equivalente a 8 enquanto se aguardava a chegada de outras 8 em reforço. Diante delas, o estado-maior alemão enumeraria 126 divisões soviéticas de infantaria e outras 6 de cavalaria, para além de 62 brigadas blindadas. Naquele sector da Frente Leste e em termos de potencial de combate os alemães defrontar-se-ão a partir daí numa desproporção de um para dez! Hitler's Greatest Defeat é um livro já com 25 anos mas que cumpre a sua missão de explicar sucintamente uma tão grande e tão decisiva ofensiva em 170 páginas. Que é muito mais do que se pode dizer de evocações de jornal que mostram que quem as escreveu nem sequer quis perder muito tempo na wikipedia a documentar-se.
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23 junho 2019
18 dezembro 2018
A OCUPAÇÃO FRANCESA DE ODESSA
18 de Dezembro de 1918. Soldados franceses desembarcam e ocupam a cidade (hoje) ucraniana de Odessa. A cidade, então com cerca de 400.000 habitantes, a quarta maior e quiçá a mais cosmopolita das cidades que compunham o antigo Império Russo (a população era composta por 42,5% de russos, 36% de judeus, 15% de ucranianos, 3% de polacos, etc.), era também o seu porto comercial mais importante. Razões estratégicas impedem contudo que o porto tenha um grande valor como base naval - o acesso aos oceanos de todos os portos situados no Mar Negro é condicionado por quem controle a sua única saída no Bósforo e Istambul*. Ora os franceses haviam acabado de ocupar esta última cidade e a sua intenção era utilizar as instalações portuárias de Odessa para dali prestarem apoio militar/logístico às diversas formações que, na Ucrânia e na Rússia, combatiam o poder bolchevique. A ideia parecia interessante quando configurada em Paris mas, no terreno, as realidades parecem ter-se sobreposto aos estrategas de salão: a ocupação francesa de Odessa durou tão somente três meses e meio: assim com o chegaram, partiram a 3 de Abril de 1919.
* Um pormenor que Vasco Pulido Valente aqui há uns tempos não parece ter percebido lá muito bem.
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13 outubro 2018
A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA
13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.
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05 julho 2018
O INÍCIO DA BATALHA DO KURSK
5 de Julho de 1943. Às 02H00 da madrugada (hora alemã) começava a Batalha do Kursk. Os sucessos das ofensivas soviéticas e dos contra-ataques alemães na Frente Leste nos primeiros meses de 1943 haviam resultado na formação de um grande saliente à volta da cidade de Kursk, entre Orel na Rússia e Kharkov na Ucrânia (ambas sob controle alemão). A ideia natural era pensar em fechá-lo, aprisionando no processo as unidades soviéticas que o guarneciam. Adolf Hitler já havia por uma vez adiado a Operação Zitadelle (fora assim que se baptizara o plano para fechar esse saliente com um ataque concêntrico em forma de pinça) em prol de uma proposta alternativa do OKW para a constituição de uma fortíssima reserva que acorresse (e esmagasse) as iniciativas soviéticas desse Verão, mas a 18 de Junho Hitler decidira-se finalmente a mudar de planos, assumir a iniciativa na Frente Leste e avançar com a Operação. Os objectivos adicionais, para além da enorme vitória táctica que constituiria mais este cerco de centenas de milhares de soldados soviéticos, seriam os de tornar a demonstrar a inequívoca superioridade alemã, que ficara tão abalada com os acontecimentos dos últimos meses em Stalingrado, e sobretudo aproveitar a ocasião para desfazer o enorme impasse militar em que caíra a Frente Leste no seu conjunto. A execução da Operação parecia ser, de facto e só por si, a demonstração da força da Wehrmacht: 900.000 homens, 2.700 tanques e peças autopropulsionadas e 1.800 aviões foram reunidos para ela, embora isso representasse a concentração de 70% dos blindados e 65% da aviação atribuída a toda a Frente Leste. Embora o Kursk seja comumente referenciada como uma grande batalha de tanques, na extracção das lições que ela contém, percebe-se que ela foi mais um sucesso das restantes armas combinadas (infantaria, artilharia e engenharia) frente à cavalaria (blindados) cuja reputação ofensiva atingira o zénite com as campanhas de 1939 e 40. De facto, a reacção soviética à ofensiva alemã que há 75 anos começava - cuja data e detalhes já era conhecidos de antemão pelos soviéticos através das redes de espionagem - foi a de dispor uma densíssima rede defensiva (bunkers, infantaria equipada com armamento antitanque e batarias de artilharia com alvos pré-referenciados) que que levou as unidades blindadas alemãs à usura rápida e sem alcançarem quaisquer resultados substantivos: a 10 de Julho, o braço da tenaz do Sul, o 4.º Exército Panzer de Hermann Hoth, avançara uns míseros 32 km, e o seu homólogo do Norte, o 9.º Exército de Walther Model uns ainda mais desapontantes 13 km. Porém, os soviéticos aguardaram ainda mais dois dias (12 de Julho) até empenharem maciçamente as suas unidades blindadas. O embate entre os Tigers e os Panthers do 4.º Exército Panzer de Hoth e os T-34 e os T-70 do 5.º Exército Blindado da Guarda de Pavel Rotmistrov é considerado uma das maiores batalhas de blindados de toda a Segunda Guerra Mundial: a batalha de Prokhorovka. Como acontecera com o duque de Wellington na celebradíssima batalha de Waterloo, o grande feito de armas de Rotmistrov foi apenas o de não se deixar derrotar pelo inimigo que, esse sim, estava obrigado a vencer. Porém, os heróis da História têm uma génese por vezes bizarra: se muitos, senão quase todos terão ouvido falar de Wellington, Rotmistrov é um perfeito desconhecido, mesmo para os russos. Não ajudou à sua notoriedade na Rússia que a sua carreira militar tivesse acabado subitamente no ano seguinte, em consequência da forma como ele se conduzira durante a Operação Bagration. E não ajudou à sua notoriedade fora da Rússia que o motivo invocado pela Stavka para o seu afastamento fosse o excesso de baixas suportadas pelas unidades sob o seu comando. É que durante a Guerra-Fria, no Ocidente, tornou-se um axioma considerar que os generais soviéticos não se preocuparam com o destino dos seus homens como o faziam os seus aliados anglo-saxónicos e os seus inimigos alemães. Ora aquilo que acontecera com Rotmistrov era um desmentido frontal desse axioma. Embora não se sabendo na altura, para o desfecho da Guerra o Kursk foi a última ocasião em que a Wehrmacht assumiu a iniciativa militar de uma forma significativa. Adolf Hitler tivera dois anos completos para alcançar a vitória no Leste. A partir daí limitar-se-ia a reagir defensivamente às iniciativas soviéticas.
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05 março 2018
O LIVRO VERMELHO E O LIVRO NEGRO
Nunca soube qual terá sido a causa - quiçá a obra clássica de 1830 de Stendhal - mas desde o principio que se me inculcou que existiam duas cores revolucionárias, o vermelho e o negro. O vermelho era a cor positiva e o negro era a cor negativa. Quando Arnaldo Matos, o grande educador da classe operária, o timoneiro cá da paróquia dos tempos do PREC, quis purgar o MRPP de quem o chateava, baptizou os chatos por linha negra, e a negrura da linha do renegado Sanches, não deixava dúvidas às massas populares quanto a quem teria razão naquela contenda. Quis a coincidência que as capas destes dois livros se distinguissem pela predominância das duas cores revolucionárias. Ou talvez não se trate de coincidência, que o tema dos dois livros são grandes desmandos dos períodos revolucionários, a Revolução Cultural na China e o Holodomor na Ucrânia. Recuperando as cores revolucionárias, o primeiro é um livro vermelho, o segundo é um livro negro. O primeiro sai-se bem na tarefa complexa de explicar as intenções e consequências dramáticas da manobra de Mao Zedong para recuperar o poder que ele sentia a tornar-se progressivamente cada vez mais simbólico por causa das suas incapacidades para dirigir administrativamente a China. A pacificação da China permitia a ascendência de figuras como Liu Shaoqi, Zhou Enlai ou Deng Xiaoping, enquanto Mao precisava de uma China em estado de perpétua desestabilização.
O segundo livro é um desapontamento. Nem sei se nele se chega a apresentar explicações para aquilo que aconteceu na Ucrânia em 1933. Até à página 140 (e o livro tem 367), onde começa o Capitulo 6, intitulado "Rebelião 1930", já se esgotou a paciência do leitor para a descrição das malfeitorias que os russos, sobretudo o poder soviético dos comunistas, haviam praticado sobre as populações ucranianas desde 1917 até esse momento. E faltam ainda mais dois ou três anos para que se chegue ao verdadeiro Crime da História, a morte pela fome de milhões de camponeses ucranianos, como resultado conjugado da diminuição da produção provocada pela coletivização das terras com o excesso das requisições de alimentos que foi executada pelos agentes do poder soviético. Mas, como houve uma tal banalização prévia da crueldade até quase metade do livro, o enfâse no clímax dos acontecimentos (1931-33) acaba desvirtuado. É um livro negro, não no conceito revolucionário, mas apenas como livro que falha na sua missão de denunciar outro dos maiores Crimes da Humanidade do século XX.
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30 setembro 2016
A HERANÇA SOVIÉTICA
O socialismo avançado e a planificação cientifica terão criado uma tradição nos países que fizeram parte da União Soviética que leva a que as cerimónias protocolares se realizem no formato antevisto independentemente das circunstâncias. É assim que se regam árvores sob chuvas copiosas e se depõem palmas de flores quando o melhor era não o fazer...
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20 junho 2016
1991 - O ANO DE TODOS OS REFERENDOS
Porque já se passaram 25 anos é natural o esquecimento, mas, a propósito do desta semana no Reino Unido, lembre-se que 1991 foi o ano de todos os referendos. Houve-os para todos os gostos em terras que a eles não estariam habituados. As três repúblicas do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, que faziam então parte da União Soviética, organizaram em Fevereiro e Março desse ano referendos em que se questionava a continuação desse estatuto versus a independência. A ideia fora anteciparem-se a um outro referendo, realizado na própria União Soviética em prol da sua preservação. Este último foi boicotado não apenas nas três repúblicas bálticas acima mencionadas, como também na Geórgia, na Arménia e na Moldávia. Onde se organizaram posteriormente os seus referendos que apuraram precisamente o contrário daquilo que o da União pretendia. Precipitada pela tentativa de golpe de Estado de Agosto, a dinâmica de decomposição da União Soviética parecia imparável, que veio a ser complementada por mais referendos em outras repúblicas, casos do Azerbaijão, do Uzbequistão ou da Ucrânia. A URSS desapareceria ainda antes do fim do ano.
Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, para voltar ao tema por onde havia começado o parágrafo anterior, não me recordo de ter ouvido muitas Cassandras económicas em 1991. Havia efectivamente muitas vozes agoirentas - há-as sempre - mas sempre no quadro do problema político e estratégico. Porque de um problema político se tratava, embora com enormes repercussões económicas. Neste caso do referendo britânico o que eu tenho estado a assistir é à subversão do que é a causa e do que é a consequência, do que é primordial e do que é acessório. Os britânicos, tal como outrora os lituanos e os restantes povos soviéticos o fizeram, decidirão da sua continuação na União Europeia por variadíssimas razões. Algumas até erradas; outras insignificantes; a económica será uma delas, mas não sei aquilatar da sua importância no computo global. Sei que no caso da dissolução da União Soviética não pesou grandemente, pois o impacto negativo nas economias das republicas era antecipável e não foi determinante. Mas, por causa do que me parece um expediente argumentativo, confesso que me tenho dedicado a um exercício que me tem divertido imenso e que aqui quero compartilhar com o leitor: quando se depararem com alertas quanto à evolução económica desfavorável no caso do Reino Unido abandonar a União Europeia, perguntem-se - e normalmente é fácil adivinhar a resposta... - se aquela mesma pessoa seria capaz de apresentar o mesmo género de argumentos - os prejuízos económicos - se ele fosse para ser utilizado como argumento em prol da continuação da União Soviética...
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03 fevereiro 2015
MCDONALDS UCRANIANO
E, por se ter mencionado um pouco abaixo as bodas de prata da inauguração do primeiro McDonalds soviético, permita-se, à laia de complemento, esta fotografia ligeiramente posterior de um outro estabelecimento gémeo, só que na Ucrânia. Nela, quem a observa numa perspectiva ideológica simplificada, tenderá a associar a cabine e o empregado ao capitalismo triunfante e a carroça com os clientes ao socialismo científico. Mas isso explicar-se-á pelo entusiasmo do momento, que os vinte anos depois decorridos terão demonstrado observações adicionais relevante de cariz material e também ideológico: que os clientes terão entretanto mudado certamente de meio de transporte, que com ele não se ia a lado nenhum, e que o empregado terá entretanto mudado de emprego, quiçá emigrado, porque a trabalhar para um McDonalds também não se vai a lado nenhum.
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05 setembro 2014
CONSTANTES DA POLÍTICA EXTERNA RUSSA
Como aconteceu com as divergências entre Aliados quanto ao destino a dar à Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial (de 1945 e 1949), uma lição da História a extrair dali é que quando a Rússia se apercebe que não consegue neutralizar o país que disputa e em tendo o poder para o fazer, não se ensaia nada em dividi-lo, por muito absurdas que sejam as fronteiras que daí resultem: será desnecessário recordar o caso de Berlim. Claro que as fronteiras da nova Ucrânia sob tutela russa podem não corresponder às que foram desenhadas especulativamente no mapa abaixo, onde se aproveita a ocasião para resolver também o problema dos secessionistas pró-russos da Transnístria. Mas parece consensual reconhecer ao menos que, quanto à autodeterminação dos povos (algo que só se evoca quando dá jeito à própria causa), os russos coleccionarão actualmente muitas mais simpatias entre os ucranianos de Leste da Novorrússia do que as simpatias comunistas que recolheram entre os alemães de Leste naqueles outros tempos da criação da Alemanha Democrática.
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26 agosto 2014
AS TRAGÉDIAS E AS ESTATÍSTICAS
Moscovo 1943. Um cortejo de vários milhares de prisioneiros alemães capturados durante e após a Batalha de Estalinegrado é passeado pelas ruas da cidade. Note-se o palanque onde se instalaram as câmaras para filmar toda a cena e depois a difundir. A tradição russa de passear prisioneiros pelas cidades para os sujeitar às humilhações da população civil é portanto uma prática antiga, pelo menos com 70 anos. Já vi muitas fotografias deste mesmo género, há mesmo vídeos no you tube, mas não me recordo de manifestações de solidariedade para com o tratamento sofrido pelos alemães. Acrescento mesmo que, na legenda que acompanha a fotografia acima (recolhida de A Segunda Guerra Mundial, Raymond Cartier, Vol. 3, p. 117) se precisa que os prisioneiros alemães sorriem e fazem sinais à multidão, para eles a guerra acabara. Uma alegria, apetece ironizar. O que haverá de novo nas fotografias que nos chegam de Donetsk, aproximando-se, individualizando as expressões dos prisioneiros, é a manifesta intenção de nos despertar simpatia pela sua sorte, como se constata pelo caso exemplar daquela que foi ontem utilizada pelo Público na sua primeira página. Porém, a humilhação que se percebe nas expressões das dezenas de ucranianos abaixo não deve ser muito diferente da que só se pode adivinhar nos milhares de alemães acima, de quem muito poucos se condoeram. A proximidade ou a distância humanizam ou desumanizam conforme as conveniências da propaganda. Tudo é relativo, resumir-se-á a uma questão de enquadramento que pode transformar (numa lógica imorredoura atribuída, nem de propósito, a Estaline) a desdita de alguns numa tragédia e a desdita de muitos milhares numa estatística.
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09 julho 2014
PUTIN O MAU: LÁ SE ESTRAGOU UMA PARTE DO ENREDO…
Há três meses e meio, havia quem consultasse especialistas em separatismo(...) para identificar outras regiões adjacentes à Rússia que, através do efeito dominó, poderiam seguir o exemplo da Crimeia: Transnístria, Nagorno-Karabakh, Ossétia do Sul ou Abcásia. O presidente Vladimir Putin, qual novo Adolf Hitler do Século XXI, encarnava nos media a figura do revisionista de fronteiras capaz de pôr em causa perigosamente a ordem internacional. Entretanto a Ucrânia reagiu militarmente às ameaças secessionistas que ameaçavam o seu território, e parece estar em vias de as jugular. Há líderes separatistas russófonos a acusar Putin de lhes dar esperanças para depois os abandonar. Sabe-se quanto o homem tem uma má reputação, como ele tem cara de pessoa que não inspira confiança, mas em função destes últimos desenvolvimentos há partes do enredo noticioso que precisam de ser reacertadas: ou se faz eco das críticas por ele apoiar os separatismos das vizinhanças ou se faz eco das críticas por ele não os apoiar…
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21 março 2014
UMA SINTÉTICA HISTÓRIA DA UCRÂNIA
Uma das ironias mais interessantes da actual situação que confronta Rússia e Ucrânia é que o primórdio da História dos dois países é comum. Ou melhor: a História da Rússia começou na Ucrânia. O primeiro capítulo de A History of Russia c. 882 – 1996 de Paul Dukes é dedicado à construção e colapso de Kiev, 882 – 1240; também em Russia’s Empires de Philip Longworth o primeiro dos impérios russo é o de Kiev, c.850 – 1240. O primeiro capítulo deste segundo livro aborda até um tema pertinente, mas de discussão impertinente nos dias que correm: quem são os russos? Serão os ucranianos um subgrupo dos russos? Mas ultrapassemo-lo para começar a narrativa da fundação da cidade de Kiev (Kyiv em ucraniano) nas margens do rio Dniepre, na encruzilhada de duas rotas comerciais: uma terrestre que ligava de Leste para Oeste a Europa e a Ásia Centrais, a outra fluvial e na época muito mais importante, de Sul para Norte, conectando o mar Báltico e o mar Negro e, através deste, a grandiosa metrópole de Constantinopla, a capital do Império Romano.
As elites desse primeiro estado russo terão vindo de Norte, da Escandinávia, numa época em que, como vikings, os povos nórdicos atravessaram uma verdadeira explosão populacional que os fez instalarem-se por quase toda a Europa. Mas as principais influências culturais vinham do Sul. O ano de 988 é considerado o ano da adopção do cristianismo como religião oficial pela corte de Kiev – compare-se com datas simbólicas semelhantes para a Polónia (966) ou a Hungria (1000). Porém, ao contrário destes dois casos, o rito adoptado em Kiev é o Ortodoxo e a subordinação é ao Patriarca de Constantinopla, em vez do Papa. É a expansão deste estado conectando Kiev num eixo de Sul para Norte até à cidade mercantil de Novgorod (veja-se o mapa acima) que lhe confere o carácter pan-eslavo que o torna o antepassado daquilo que seria uma ideia mais vasta transcendendo o que seria apenas os primórdios da nacionalidade ucraniana. Esse estado foi-se expandindo e fraccionando em unidades menores autónomas ao longo dos Séculos XI e XII, até à data inequívoca do seu colapso final, a da conquista e o saque de Kiev pelos mongóis em 1240.
Os centros de poder mudaram-se com ela. A Ocidente haviam sobrado da conquista mongol os principados da Galícia e da Volínia, em breve fundidos num só reino e também numa complexa relação de hostilidade política mas aproximação cultural com os reinos católicos adjacentes da Polónia e da Hungria. A Nordeste, uma miríade de principados genuinamente russos começava a recompor-se dos efeitos do tsunami mongol e a evoluir paulatinamente para a concentração à volta de Moscovo como centro do primeiro estado genuína e especificamente russo. Mas foi de Noroeste que vieram os próximos senhores da Ucrânia: em 1362, Kiev foi conquistada, passando a fazer parte de um grão-ducado da Lituânia que estava em vias de se tornar territorialmente num dos maiores estados europeus (acima). Em 1386, esse grão-ducado reuniu-se ainda num regime de união pessoal com o reino da Polónia. Durante quase 200 anos a unidade dessa associação de coroas permaneceu frágil, à mercê das vontades dos nobres polacos, onde a escolha do rei se processava por eleição. Era um estado extensíssimo, mas frágil por falta de uma metrópole central: note-se no mapa abaixo o rosário de cidades importantes mas todas periféricas, sem capacidade de assumir a preeminência, desde Vilnius no Norte, a capital da Lituânia propriamente dita e depois, no sentido horário, Smolensk, Kiev, Lvov, Cracóvia e Varsóvia.
Finalmente, em 1569 deu-se a formalização da União dos dois estados, num figurino que iria durar outros 200 anos, embora a solução tenha sido alcançada à custa de uma supremacia da metade polaca (e católica) sobre as restantes nacionalidades. No entanto, reconheça-se que o ressurgimento económico de Kiev data dessa época da segunda metade do Século XVI. É nessa altura que a palavra Ucrânia (que quer dizer região fronteiriça) começa a ser empregue, que a nobreza ucraniana, que era originalmente lituana, se torna polaca por aculturação, e que uma identidade verdadeiramente ucraniana se começa a forjar com o aparecimento dos cossacos. Cossaco é uma palavra que tem uma interpretação fluida: há quem o considere um grupo étnico, há quem o considere sobretudo um modo de vida. Tratava-se originalmente de servos que abandonavam as suas regiões de origem para se irem instalar para lá do Dniepre, terras ainda por desbravar e que, por isso, estavam fora do alcance das autoridades tradicionais. Essas sociedades que aí se formavam eram predominantemente masculinas, violentas, permitiam ascensões sociais abruptas e eram também ferozmente ortodoxas, nem que fosse para acentuar o contraste com o catolicismo polaco do status quo que haviam abandonado. Os cossacos costumam ser frequentemente comparadas aos cow-boys do Oeste norte-americano embora tivessem ainda sobre eles a possibilidade adicional de se tornarem mercenários.
Em 1648, um desses generais mercenários, Bohdan Khmelnytskyi (1595-1657), desencadeou uma revolta bem-sucedida contra o poder lituano-polaco no fim da qual (1654) conseguiu obter o reconhecimento de uma autonomia para um estado cossaco na Ucrânia a Leste do Dniepre englobando a própria cidade de Kiev. O mapa acima mostra-nos a área desse estado autónomo. Mas note-se como, tratando-se da fronteira da civilização de então, quase todo o terço oriental da Ucrânia moderna, incluindo até a cidade de Kharkov (Kharkiv em ucraniano, cidade que só virá a ser fundada em 1656), ainda não faz parte dessa civilização. Ora, no Portugal contemporâneo já se havia dado a Restauração (1640) e era a última dinastia da sua História que ocupava já o trono. As inúmeras análises que se lêem actualmente sobre a Ucrânia tendem a esquecer esse aspecto: a sua relativa juventude quando comparada com os espaços da velha Europa. Para o que interessa, Khmelnytskyi transformou-se num herói da história ucraniana… mas também da história russa: as necessidades da política internacional obrigaram-no, para que a secessão tivesse sucesso, a trocar a suserania polaco-lituana pela dos russos de Moscovo. Em contrapartida, o tratamento histórico dado ao seu sucessor Ivan Mazepa (1639-1709) já não será assim tão consensual, porque ele tentou inflectir a política de associação com a Rússia, coligando-se com os seus inimigos suecos. Infelizmente para ele, o tsar Pedro o Grande venceu a decisiva batalha de Poltava em 1709. Os cossacos da Ucrânia Oriental perderam quase todos os seus direitos especiais. E 84 anos mais tarde, nas partições da Polónia de 1793 e 1795 (abaixo), a Rússia conseguia anexar quase toda a Ucrânia Ocidental, com excepção da Galícia (com a cidade de Lvov, rebaptizada de Lemberg), que coube à Áustria.
Apresentando-se repartida por dois Impérios multiculturais, a Ucrânia desaparece da História política por 200 anos para conseguir ressurgir no Século XIX através da sua identidade cultural. A questão é que existiam dois pólos que a dinamizavam, através da literatura e da poesia: Kiev na Rússia e Lvov na Áustria. Havia muito a distingui-los: o passado histórico, que fazia com que a religião predominante na Galícia fosse o greco-catolicismo (ortodoxos, mas integrados na hierarquia da igreja católica romana) enquanto a religião maioritária do resto dos ucranianos era a ortodoxa tradicional (sedeada em Moscovo); mas também o presente político, dividindo para reinar, os austríacos incitavam o nacionalismo ucraniano para que ele servisse de contrapeso ao polaco, os russos, pelo seu lado, reprimiam-no brutalmente, o ucraniano e o polaco. Entre 1876 e 1906 proibiu-se na Rússia a impressão de obras escritas em ucraniano. Eram publicadas em Lvov. A relação entre as duas metrópoles da cultura ucraniana faz lembrar, ainda hoje, a de dois irmãos que não desenvolveram grande intimidade entre si. Mas note-se a ausência nesta equação de cidades importantes situadas na Ucrânia, como a já acima referida Kharkov ou então Odessa, fundada em 1794 por decreto de Catarina II, uma cidade portuária de formação cosmopolita (teve até o duque de Richelieu por um dos seus primeiros governadores), situada nas costas do mar Negro. Em 1917, Odessa era a quarta maior cidade do Império e a maior da Ucrânia, mas era uma cidade imperial, mais russa que ucraniana.
O colapso dos Impérios russo em 1917 e austro-húngaro em 1918 constituiu uma oportunidade impar para que os nacionalistas obtivessem a independência da Ucrânia. A fotografia acima é de Janeiro de 1919, foi tirada em Kiev, uma manifestação celebrando a proclamação da união da antiga Ucrânia russa com a Ucrânia ocidental que fora austríaca. As ameaças à existência desta Ucrânia eram, porém, poderosas. Não apenas as duas facções russas (vermelhos e brancos) que se digladiavam na guerra civil pelo domínio do Império e que recolhiam significativas simpatias entre os ucranianos de concepção pan-eslava, mas também as aspirações nacionalistas de uma Polónia entretanto renascida, disposta a recuperar territórios da Ucrânia ocidental que haviam sido seus 125 anos antes. Em 1925, a Ucrânia estava de novo dividida por uma nova fronteira que se assemelhava muito à de 1914, só que a Galícia e a Volínia (com Lvov) estavam agora sob tutela polaca (abaixo). Agora era do lado russo que havia uma maior tolerância para a cultura ucraniana – embora a capital da república socialista soviética da Ucrânia até 1934 tivesse sido Kharkov! – enquanto a repressão cultural se fazia sentir mais vincadamente a Ocidente, com os polacos a procurar assimilar culturalmente os ucranianos. Porém, para além dos aspectos culturais, a administração soviética da Ucrânia tornou-se responsável por uma palavra específica, cunhada para acontecimentos que só se tornaram verdadeiramente conhecidos de há uns 25 anos para cá: Holodomor. É sinónimo de uma fome generalizada e deliberadamente provocada, consequência directa do processo de colectivização das terras agrícolas e que terá custado a vida a vários milhões nos princípios da década de 1930, sob Staline.
Foi em consequência disso que, durante a Segunda Guerra Mundial e especialmente depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em 1941, os nacionalistas ucranianos começaram por acolher favoravelmente os invasores alemães até se aperceberem que eles não passavam de um terceiro partido num gigantesco embate de titãs, pouco atreitos às subtilezas de quem estava de permeio. Acabaram por ser aliados de uns e outros (alemães e soviéticos) assim como também os combateram. Serão poucos os que sabem que um dos principais generais soviéticos a ter combatido na Ucrânia, Nikolai Vatutin (1901-1944), morreu em consequência dos ferimentos causados por uma emboscada montada por guerrilheiros ucranianos; serão poucos os que sabem que vários anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial ainda havia uma guerrilha nacionalista activa que obrigava à mobilização de vários milhares de homens do KGB. Mas a verdade é que não foi apenas por culpa dos soviéticos que os nacionalismos dos povos constituintes da União Soviética (é também o caso dos povos bálticos) desapareceram da agenda mediática nos 45 anos que se seguiram ao fim da guerra. Os Estados Unidos também os consideraram causas nacionais desinteressantes, demasiado expostas e com poucas possibilidades de sucesso, situadas muito para além das fronteiras de segurança que os soviéticos haviam traçado em Ialta – nomeadamente a cortina de ferro. Mas não nos antecipemos…
A Ucrânia terá sido uma das repúblicas da União Soviética mais severamente devastada pelo conflito de 1941-45. Depois da guerra recuperou as duas províncias ocidentais que haviam pertencido à Polónia. O processo foi também acompanhado de uma importante migração de populações: mais de um milhão de polacos foram transferidos para Ocidente, um número substancialmente inferior de ucranianos atravessaram a fronteira no sentido inverso. A Ucrânia era a segunda república mais importante da União, a seguir à própria Rússia e a política oficial era de que tudo corria pelo melhor na relação entre elas (acima, um cartaz de propaganda a esse respeito). É claro que nem sempre era bem assim: em 1972, Leonid Brejnev afastara o primeiro secretário do partido comunista ucraniano Petro Shelest, acusado de nacionalismo e substituído por um Vladimir Shcherbytsky de muito mais confiança. Tanta, que ele ainda por lá estava, no mesmo cargo, em 1989… Nesse mesmo ano realizou-se aliás o último censo soviético. Segundo ele, 72% da população da Ucrânia era classificada como ucraniana, enquanto 22% era russa, concentrada sobretudo nas províncias (oblast) orientais e meridionais (abaixo). Mas tratava-se de uma daquelas imagens convenientes, típicas da lógica soviética de mostrar aquilo que se deseja (uma nacionalidade maioritária dentro da sua própria república), e não aquilo que já então deveria existir e que se mostra no mapa final, resultado do censo realizado em 2001: há uma apreciável proporção de ucranianos que se exprimem em russo e que constituem, com os russos propriamente ditos, um bloco sociológico (e também político) que tem um peso demográfico (e também eleitoral) muito semelhante ao dos ucranianos que se exprimem em ucraniano (mais abaixo).
Podem-se ver nesta ligação alguns exemplos da coincidência entre a distribuição geográfica das votações de diversos actos eleitorais e estes mapas etno-linguísticos. Pode dizer-se que na Ucrânia coexistem dois eixos ligando cidades importantes: há um, cultural, no sentido Leste-Oeste que liga Kiev a Lvov (azul), cidades a que aqui várias vezes nos referimos ao longo desta sintética História da Ucrânia; há outro, económico, de Nordeste para Sudoeste, unindo Kharkov com Odessa (vermelho), cidades que foram muito menos referidas. O que é muito mais difícil será perceber como se pode conectar um eixo com o outro… e manter a unidade da Ucrânia sem que uma das metades tenha a sensação que está a ser dominada pela outra. Trata-se de um país dividido e será uma evidência dizer que não se devem propor propostas de divisão de um país de ânimo leve. Mas também é verdade que não se pode excluir tal hipótese e que houve várias razões circunstanciais que levaram as potências a decidirem-se pela divisão de um país: fosse por 20 anos (o Vietname), por 70 anos (e ainda a contar: caso da Coreia) ou mesmo sem fim à vista (a Índia e o Paquistão). Mas permitam-me agora regressar à cortina de ferro que deixámos em suspenso lá em cima e evocar o exemplo da Alemanha, com uma sociedade aparentemente muito mais cimentada do que aquilo que acontecerá na Ucrânia, que também permaneceu dividida por 45 anos devido às tais circunstâncias. Vale a pena essa referência para nos apercebermos do quanto as fronteiras de segurança da Rússia recuaram neste últimos 25 anos, quando a criação de um estado satélite quase no centro da Europa (Alemanha Democrática) é agora substituída pela hipótese de um seu equivalente (Ucrânia oriental) na sua vizinhança imediata. Esta última observação não é para o leitor ter pena dos russos, é para que se perceba que os norte-americanos não andam nisto para lhes facilitar a vida.
26 fevereiro 2014
A UCRÂNIA, A LUTA DE CLASSES E O PORSCHE
Friedrich Engels (1820-1895) nunca esteve na Ucrânia. Isso não invalida que, para mal dos seus pecados e durante mais de 70 anos, todos os ucranianos tenham tido que saber quem fora Friedrich Engels, nomeadamente as suas contribuições teóricas para a explicação da origem da família, da propriedade e do estado. E é mesmo a propósito de propriedade e associando-o à revolução que grassa na Ucrânia que suponho não se tornar descabido relembrar um slogan descritivo que se popularizou faz uns nove anos, quando a facção ocidentalizada da política ucraniana alcançou o poder com a eleição para a presidência de Viktor Yushchenko¹: tratara-se de uma revolta dos milionários contra os bilionários ucranianos.
Contudo, nesta nova revolta de 2013-2014, não tenho dado por que se tenha repegado naquela dinâmica de luta de classes. Se as análises se apresentam repletas de considerações geoestratégicas sobre os alinhamentos de sempre das facções em contenda (onde se antagonizam uma pró Ocidental e outra pró Russa), as imagens que têm sido captadas e distribuídas Mundo fora não parecem conter qualquer sugestão de luta de classes como motor da revolta dos ucranianos. Será assim pela sua excepcionalidade que destaco este breve vídeo abaixo, onde um grupo de insurrectos aparece a dedicar-se, com algum deleite e evidentes ganas vingativas, à destruição de um Porsche, um inequívoco símbolo do capitalismo.
¹ De então para cá a sua influência política esboroou-se: o seu partido recolheu 1,11% dos votos nas últimas eleições legislativas de 2012.
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31 janeiro 2014
O TOBOGÃ DO POLÍCIA DE CHOQUE
A verdadeira realidade pode ter formas bastantes contraditórias de se apresentar: nas imagens acima, um polícia de choque ucraniano parece aproveitar um intervalo dos momentos tensos que se têm vivido em Kiev para se divertir na neve, usando o seu escudo de protecção como se fosse um tobogã. Estas imagens de Kiev são tão reais quanto as muitas outras que têm alimentado a informação, mas estarão em completa dessintonização com aquilo que da União Europeia nos pretendem transmitir, não adoptando o estilo que o famoso Artur Albarran definiu certa vez (de uma forma destinada a tornar-se célebre) por: O Drama! A Tragédia! O Horror!
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27 janeiro 2014
RETOQUE GELADO NUMA SITUAÇÃO ESCALDANTE
Embora já estejamos acostumados a fotografias de destruição como as que agora nos chegam de Kiev, há por vezes pormenores que eu nunca antes vira e para os quais creio que vale a pena chamar a atenção, como a curiosa formação de estalactites de gelo que se vêem suspensas do tecto do autocarro incendiado à esquerda, consequência muito provável da água nele despejada pelos bombeiros para apagar o incêndio... e das baixas temperaturas que se fazem sentir.
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09 dezembro 2013
UCRÂNIA (1) – Uma história esquecida
Trata-se de uma pequeníssima história, ínfima perante a enormidade do que foi o embate titânico entre os exércitos alemão e soviético na Frente Leste da Segunda Guerra Mundial. Na fase final da Batalha de Estalinegrado, já para lá da Ucrânia mas onde o exército alemão veio a sofrer uma das suas mais pungentes derrotas, quando as forças alemãs já se encontravam inexoravelmente cercadas pelas soviéticas, o reabastecimento das primeiras já só se podia fazer com lançamentos por para-quedas. A precisão era pouca e muitos dos contentores vinham cair em área já ocupada pelos soviéticos. Num desses contentores capturados, os soviéticos encontraram embalagens de cigarros de origem portuguesa, uma oferta de Portugal para elevar a moral dos combatentes alemães, gesto que rapidamente se tornou em artigo de propaganda para ser usado pelos serviços em português de Rádio Moscovo.
O que mais marcou os ouvintes portugueses no anúncio daquela captura foi a constatação do quanto os comunistas portugueses exilados estavam dissociados da realidade quotidiana do seu país: ao descrever a marca dos cigarros o locutor leu-a Vinte e Vinte e Vinte, ignorando como ela era conhecida comumente na rua: Três-Vintes – de 20 cigarros, 20 gramas e 20 centavos. Mas, na substância, a notícia foi eficaz, levando os ouvintes a perguntarem-se qual o nosso interesse em imiscuirmo-nos num conflito entre grandes potências que se travava no outro extremo da Europa. E, com esta constatação, permitam-me regressar ao presente e à pergunta sobre o que será o nosso interesse nacional na disputa – desta vez felizmente pacífica – que se trava entre alemães e russos pelo controlo da Ucrânia. E não se recorra ao estribilho da nossa solidariedade europeia: de há dois anos para cá que os portugueses não têm sentido outra coisa…
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UCRÂNIA (2) – Uma história promovida
Se a história dos maços de cigarros que enviávamos aos soldados alemães para os moralizar enquanto conquistavam a Ucrânia caiu hoje no esquecimento, a manipulação das nossas simpatias no conflito revisitado que actualmente se trava em Kiev está à vista de todos. A informação que nos chega é de um maniqueísmo primário. Se quisermos analisar a disputa em profundidade há aspectos que são ridículos: compare-se o colossal contraste entre o tratamento dado pela Alemanha à Ucrânia – que não quererá orbitar de tão próximo a União Europeia – e aquele que é dado à Turquia – que até quer integrar essa mesma União e a não deixam. Mas estes assuntos são para ser disputados na informação em ideias e imagens simples. A que corre mundo foi uma de ontem, onde se assiste ao derrube e à destruição de uma estátua de Lenine. E também essa história é engraçada pelos anacronismos que contém…
Em primeiro lugar porque apetece logo perguntar como é que uma estátua de um Lenine russo sobreviveu numa Kiev ucraniana ao massacre de centenas de estátuas suas a que assistimos depois da queda da União Soviética. Em segundo lugar porque os protagonistas de tal acção terão sido membros do partido da extrema-direita Svoboda. Assim apreendemos que além de uma extrema-direita perniciosa, como a Aurora Dourada na Grécia, e de outra civilizada como o Partido Liberal (FPÖ) na Áustria, em situações de convulsão pode haver extremas-direitas benignas como será este caso do Svoboda na Ucrânia. Mas o mais engraçado poderão ser mesmo os pormenores irrelevantes, adequados à densidade da história que nos querem contar: aprecie-se com mais atenção a fotografia acima e note-se a inconveniência do sujeito que empunha o malho enquanto destrói a estátua ostentar uma bandeira alemã no ombro do anorak…
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04 dezembro 2013
«AMIZADE INQUEBRÁVEL»
A pretexto dos acontecimentos na Ucrânia permitam-me aqui colocar este belíssimo cartaz da era soviética do Império Russo onde um atleta russo (à esquerda, na camisola lê-se РСФСР – RSFSR, ou seja, República Socialista Federativa Soviética Russa) se confronta desportiva mas amigavelmente com um ucraniano (УССР – RSSU, República Socialista Soviética Ucraniana) e o apelo abaixo qualifica a amizade dos dois desportistas como inquebrável (НЕРУШИМУЮ ДРУЖБУ). É notório que na Ucrânia há quem não goste mesmo nada dos russos e as opiniões divididas a esse respeito dilaceram o país, mas na Rússia não se será rancoroso: a amizade com a Ucrânia é mesmo uma prioridade da sua política externa. Os russos mostram estar dispostos a ir até onde ninguém do lado de cá se atreve.
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23 abril 2013
PASSO DE GANSO
A pretexto de uma notícia da actualidade, a futura (mas ainda contestada) fusão do Colégio Militar com o Instituto de Odivelas, permitam-me inserir esta fotografia tirada em Odessa em 1982, nos bons velhos tempos da União Soviética. Não sei de que cerimónia se tratará mas é uma cerimónia socialista em todo o seu rigor de inspiração marxista-leninista, desde o aprumo impecável da rapariga que está a marchar à igualdade dos géneros numa formatura que é composta por rapazes e por raparigas até ao indispensável retoque dialéctico final, que desmente essa igualdade, pois só os rapazes é que estão armados… – com PPSh-41, segundo creio.
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06 novembro 2012
UCRÂNIA 2012
Completamente ofuscadas pelas presidenciais norte-americanas, realizaram-se no fim-de-semana anterior eleições legislativas na Ucrânia. Passam-se os anos, sofisticam-se os meios, convidam-se estrelas mundialmente reconhecíveis (acima, o futebolista Andriy Shevchenko) para as abrilhantar, mas o estilo parece não ter evoluído praticamente nada desde a era soviética. Mais do que a votação propriamente dita, o escrutínio dos votos depositados nas urnas continua a ser uma operação fundamental para o resultado final. Enquanto escrevo o poste e apesar do governo já ter reclamado a vitória, ainda não existem propriamente resultados oficiais, os partidos da oposição já reclamaram por fraudes, a delegação da União Europeia já exortou as autoridades a apresentarem uma versão concluída dos resultados do escrutínio, enfim toda aquela coreografia pós-eleitoral clássica inerente às orlas semi-democráticas da Europa civilizada.
Para além desta espuma noticiosa, o que me parece mais interessante dos resultados (considerando-os fiáveis…) destas eleições ucranianas são os resultados que foram alcançados por alguns partidos secundários. O quarto lugar, com 13,2% dos votos e 32 deputados (em 450) foi alcançado pelo Partido Comunista Ucraniano, dirigido por Petro Symonenko (acima) secretário-geral desde há 19 anos, um homem que anda nisto desde sempre (do período soviético), um indício seguro que o partido é dirigido como deve ser. É sempre bom trazer alegrias aos comunistas portugueses mesmo se eles adoptam aquela técnica de acompanhamento do assunto à Benfica B: Mesmo que se ignore quem lá joga ou contra quem joga e até a própria classificação, impõe-se que qualquer benfiquista nunca expresse desinteresse público pela prestação do Benfica B na Liga Orangina. Assim, é muito provável que o Avante! venha a dedicar um artigo saudando o reforço das posições do PCU nas eleições ucranianas, mesmo que quem o escreva não perceba nada da política local – como às vezes acontece…
O quinto lugar entre os partidos mais votados foi alcançado por uma formação do outro extremo do espectro partidário, que se intitula Liberdade – Svoboda no original. O seu líder chama-se Oleh Tyahnybok (acima) e irá dirigir um grupo parlamentar de 37 deputados eleitos por 10,4% dos eleitores. Como outras organizações congéneres que despontaram recentemente (estou-me a lembrar da Aurora Dourada grega), trata-se – depois de anos a chamar pelo lobo na brincadeira… – de uma formação de extrema-direita a sério, xenófoba, que é cultural mas também etnicamente anti-russa e anti-semita. Há certas passagens dos discursos de Tyahnybok ;que dão vontade de pedir a Telavive que transfira o seu embaixador em Lisboa (Ehud Gol - abaixo) para Kiev, que ficará colocado num país onde haverá quem tratará as suas exortações públicas com uma simetria adequada. Porém, o que é relevante é que, em conjunto, as duas expressões dos extremos do espectro político aumentaram a sua votação 17,5% em relação ao último acto eleitoral…
Contudo, e por muito que os resultados eleitorais registem evoluções paralelas, a Ucrânia (ao contrário da Grécia) não pertence à União Europeia nem está sob intervenção de uma troika… Mas, se calhar, lá dirá o ditado que pelas costas dos outros vemos as nossas e o eleitorado ucraniano estará a debandar para novas experiências políticas como acontecerá, suspeito, com alguns eleitorados europeus quando vierem a ser consultados... O que acontecerá estatutariamente antes destes mais cinco anos de austeridade pedidos por Angela Merkel.
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