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30 março 2016

A BATALHA DE TALAS (751)

No Verão de 751 os exércitos muçulmano e chinês defrontaram-se directamente pela primeira e última vez no vale do rio Talas, perto da actual cidade cazaque de Taraz (embora já em território que hoje faz parte da Quirguízia). Os árabes venceram a batalha mas as fontes que relatam a batalha são predominantemente chinesas. As elites dirigentes pertenciam aos grupos mencionados (com a curiosidade adicional do general chinês ser de origem coreana) mas os contingentes envolvidos na batalha seriam predominantemente locais, povos iranianos e turcos, antes de se islamizarem. Como costuma acontecer, os participantes não se terão apercebido do significado simbólico do embate. As móveis formações árabes não prosseguiriam a sua expansão militar pela Rota da Seda até ao Sinkiang e pelo Deserto de Gobi. Por seu lado, as preocupações chinesas com a expansão para Ocidente sofreriam uma pausa que duraria todo um milénio. Nem mesmo a desforra militar que se impunha ao Imperador Xuanzong (da dinastia Tang) promover acabou por ter lugar, por causa da eclosão da revolta de An Lushan em 755. Do outro lado, também os Califas Omíadas haviam sido substituídos pelos Abássidas.
Esta Batalha do rio Talas travada em pleno coração da Ásia terá o mesmo significado simbólico que a Batalha de Poitiers, travada no Outono de 732 (19 anos antes) em pleno coração da Europa, quando os exércitos francos derrotaram os seus homólogos árabes que procediam à sua característica expansão militar no extremo ocidental do vasto território já subjugado à dominação muçulmana. Há quase 5.500 km a separar os dois locais mas, se as consequências da vitória de Carlos Martel são razoavelmente conhecidas no Ocidente, as da derrota de Gao Xianzhi são quase completamente ignoradas. Numa altura em que tanto se discute a relativização da importância atribuída às notícias conforme a localização geográfica do local onde ocorrem - se os mortos de Bruxelas são mais importantes do que as vítimas do terrorismo de outros locais mais distantes, por exemplo - forçoso é reconhecer quanto o fenómeno da distorção das importâncias relativas dos temas é antigo. Seria desejável e eu seria dos primeiros a corrigi-lo, mas tenho que reconhecer que a exigência de que que haja uma globalização equilibrada sobre a importância absoluta das notícias parece-me fenómeno que não esteja para ocorrer assim tão depressa...

07 julho 2014

O RELÓGIO DO CALIFA


Ao exporem publicamente os seus líderes, os movimentos subversivos transitam para um outro campo de batalha, o mediático. Os insurrectos islâmicos sunitas que têm feito perigar o regime iraquiano correram esse risco quando apresentaram este vídeo com a pregação do seu califa Abu Bakr al-Bagdadi (أبو بكر البغدادي). O regime iraquiano reagiu de forma convencional, levantando dúvidas de que a pessoa que aparece no vídeo é quem pretende ser. Porém, uma outra forma mais imaginativa de o(s) contra-atacar foi concentrar-se na opulência do relógio (Rolex? Omega?) do orador quando em contraste com o conteúdo do seu discurso. Mas substantivamente, as notícias que circulam no Ocidente a respeito do novo califa nem sequer se dão ao trabalho de tentar especular sobre quais as possíveis razões para a adopção daquele nome de Abu Bakr,…
...o mesmo do primeiro califa sucessor de Maomé (632-634), figura respeitável mas que teve um reinado demasiado curto (ao contrário, por exemplo, do seu sucessor Omar, o verdadeiro fundador do império árabe) para que a adopção do seu nome pretenda representar algo mais do que uma mera intenção de retorno à simbologia primitiva do Islão. É nesse sentido que o relógio ou a ventoinha que o refresca podem revelar-se interessantes armas de arremesso. Apesar das ambições norte-americanas para a região, percebe-se uma profunda incompreensão recíproca entre povos, simbolizável por esta fotografia de Abril de 2005, onde vemos George W. Bush a passear de mão dada com Abdallah, então ainda o príncipe-herdeiro saudita, num significativo gesto de amizade nos países árabes, com um significado equivocamente diferente nos Estados Unidos...

16 dezembro 2008

OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 7

Ficou para último o caso do Estado Principesco de Caxemira (acima, a roxo e grená), que, nos casos dos 500+ Estados do Império das Índias, era o único deles em que, contrariando a tendência histórica quase milenar da conquista do subcontinente por uma casta guerreira muçulmana, devido a razões que seria fastidioso aqui detalhar, existia um monarca de religião hindu a governar uma região onde havia uma maioria da população (77,3%) de confissão muçulmana. Era um estado relativamente extenso com 222.000 km², mas relativamente pouco povoado, com um pouco mais de 4 milhões de habitantes.

Medido pela importância das salvas de canhão, o soberano de Caxemira tinha direito a 19, embora, quando se considerava que ele também era monarca de Jammu, tivesse direito às 21 da tabela máxima! Explique-se um pouco mais esta classificação artilheira, já aqui tanto falada: ia desde um máximo de 101 salvas, apenas conferido ao Rei Imperador (o monarca britânico) enquanto o máximo para os príncipes locais era de 21, depois a hierarquia estabelecia-se em números ímpares: 19, 17, 15, 13, 11, 9, até um mínimo de 3… Contudo o mínimo socialmente significativo era a categoria de 9 salvas.
Falando de coisas mais sérias, a Liga Muçulmana sempre considerou que o Estado de Caxemira seria uma das regiões constituintes indispensáveis do futuro país para os muçulmanos da Índia que ambicionavam. O nome desse país fora inventado apenas nos inícios dos anos 1930 e era formado pelas letras iniciais do Punjabe, da Afgânia (que era outra designação para a província conhecida normalmente por NWFP: Província da Fronteira Noroeste), de Caxemira (Kashmir em inglês), do Sindh e as finais de BalochisTÃO. Em inglês o jogo de letras resultava P-A-K-S-TAN: Paquistão.

Contudo, do ponto de vista formal, o destino de Caxemira quando da Independência e da Partição dependeria não das ambições dos líderes da Liga Muçulmana (ou do Partido do Congresso) mas da decisão do Maharaja Hari Singh (abaixo). Como acontecia em Jodhpur, Caxemira localizava-se numa zona que seria a fronteira entre a Índia e o Paquistão: podia optar. Como acontecia com Travancore, situava-se num dos extremos do subcontinente com a hipótese de se tornar independente deles dois. E tal qual se passava em Hyderabad, tinha dimensão suficiente para evadir às pressões a que o sujeitassem.
A 15 de Agosto de 1947 Hari Singh ainda não se havia decidido. E apesar de não ser o único a não o ter feito, no fundo acabava por ser o único Estado Principesco cuja evolução futura era, genuinamente, uma incógnita. É preciso perceber que a questão de Caxemira ainda hoje não se resolveu e, por isso, a narrativa dos acontecimentos que se sucederam têm uma forma distinta de ser contada conforme a nacionalidade do narrador: indiana ou paquistanesa. Em Outubro de 1947, perante o impasse (e mais um Standstill Agreement assinado entre as partes), o Paquistão ensaiou uma manobra para o contornar

Na perspectiva paquistanesa, depois de 15 de Agosto, a comunidade muçulmana de Caxemira estava a ser perseguida e expulsa do território e esse facto serviu de pretexto para que alguns chefes proclamassem a formação de um governo no exílio de uma Caxemira Livre (Azad Kashmir – bandeira abaixo). Para expandir a autoridade desse governo no terreno o Paquistão veio a servir-se de voluntários (mujahideens) pashtunes da província paquistanesa vizinha do Afeganistão (NWFP). E à medida que essas forças de voluntários progrediam no terreno a tensão subia cada vez mais.
Subia porque as próprias forças de defesa de Caxemira se mostravam ineficazes para conter aquela invasão; algumas desertaram até para o lado dos invasores; também subia porque os invadidos rapidamente descobriram e publicitaram que o apoio logístico dos voluntários estava a ser fornecido pelos militares paquistaneses; subia ainda porque o comportamento dos libertadores nas regiões libertadas deixava muito a desejar; subia finalmente porque, naquelas circunstâncias o Maharaja viu-se compelido a pedir auxílio ao único país que estava em condições de o ajudar: a Índia.

A intervenção indiana teve um preço: a assinatura do Acto de Adesão à Índia por parte de Hari Singh em 27 de Outubro de 1947. O conflito depressa perdeu aquela faceta inicial de faz-de-conta e caminhou para a uma fase do embate directo e assumido entre os exércitos indiano e paquistanês (abaixo). Entre Outubro de 1947 e 31 de Dezembro de 1948 a frente de batalha teve diversas configurações (a evolução pode ser acompanhada aqui). A que existia no último dia de 1948 passou a ser a fronteira na prática entre os dois países e a partir daí veio a ser designada pela sigla LOC (Line of Control).
O antigo Estado de Jammu e Caxemira apresenta-se desde então dividido entre uma região oriental sobre controlo indiano (compreendendo cerca de 40% do território e de 75% da população original, a laranja no mapa abaixo) e outra ocidental sobre controlo paquistanês (com a parte restante, a verde). As manobras diplomáticas e militares desenvolvidas por um lado e outro durante os últimos 60 anos transcendem o âmbito desta série, que se pretende circunscrever às vicissitudes associadas às Adesões dos Estados Principescos durante o período inicial da existência de ambos os países.

Mas, para além dos argumentos de ordem estratégica que costumam ser invocados para justificar o valor que os dois lados atribuem ao controle de Caxemira, há que reconhecer como é difícil atingir-se um consenso: para os paquistaneses, a pertença de Caxemira ao seu país é uma evidência, exemplificada no nome que o país adoptou; para a facção moderada dos indianos, a existência de um Estado maioritariamente muçulmano como Caxemira é a demonstração que a Partição foi um erro e que a ideia de Índia era muito mais vasta do que a de um Estado fundamentalmente para os hindus…

(Continua)

14 dezembro 2008

OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 6

Era uma fatalidade que a Adesão de Hyderabad, já mencionado atrás como o maior dos Estados Principescos com 214.000 km² e mais de 16 milhões de habitantes (e 21 salvas de canhão!), viesse a causar problemas. Por um lado porque era um daqueles casos em que a religião do monarca (designado por Nizam) não coincidia com a da maioria da população; por outro, porque a própria dimensão do Estado lhe conferiria uma massa crítica que o tornava muito menos permissivo às pressões e outros golpes baixos que o Congresso veio a utilizar nas circunstâncias descritas anteriormente.

O Estado de Hyderabad poderá ser descrito como foi o de Bhopal, só que numa escala 10 a 20 vezes superior. Um monarca muçulmano auxiliado por uma classe dirigente também muçulmana e urbana (estimada em 10,6% da população total) dirigiam um Estado predominantemente povoado por hindus, que se localizava nas regiões centrais da Índia, sem saída para o mar. E mesmo antes da Independência já se antecipava que todas as regiões que lhe eram adjacentes, de forma directa ou por assinatura da Adesão iriam pertencer à Índia. Contudo, o Nizam deixou passar a data sem se pronunciar…
O Nizam Mir Usman Ali Khan (acima), que era o décimo sucessor de uma linhagem de Nizans que começara no Século XVIII, tinha então 61 anos e era um monarca experimentado – subira ao trono em 1911. A evolução dos acontecimentos fez com que abandonasse o seu objectivo inicial (a Adesão ao Paquistão) e se tornasse mais pragmático – Hyderabad não se juntaria a nenhum dos dois novos países, mas constituiria um Domínio autónomo com laços privilegiados com o Reino Unido. E para alcançar esse objectivo, o Nizam elaborou uma complexa manobra com duas vertentes – diplomática e militar.

De forma activa, o Nizam contratou aquele que seria provavelmente o melhor advogado britânico da época, Sir Walter Monckton (entre os clientes mais distintos de Monckton contava-se Eduardo VIII por ocasião da sua abdicação em 1936). Apesar da sua fama de forreta, neste caso o Nizam não se poupou a despesas e, nesta actividade diplomática junto do establishment britânico, também não se inibiu de cobrar favores que prestara no passado, como era o caso, por exemplo, da fragata Nizam da Marinha Australiana, que fora construída em 1940 e cuja construção fora paga parcialmente por si...
À época considerava-se que o Nizam detinha a maior fortuna do Mundo. Mas não era apenas a sua fortuna pessoal e sim a prosperidade do próprio Estado que financiava os seus meios de defesa. Essa era a outra vertente da manobra do Nizam: um Exército estadual que possuía 3 regimentos blindados e 1 regimento de cavalaria tradicional e 11 batalhões de infantaria, todos dotados de artilharia, num total que rondava os 22.000 efectivos*. Significativamente, 55% deles eram muçulmanos (muitos oriundos de outras regiões da Índia) e essa percentagem subia para 72% entre os quase 1.800 oficiais.

Tão importante quanto os meios de defesa, e desencorajando a utilização das pressões económicas por parte da Índia independente, Hyderabad era auto-suficiente em termos alimentares e era abastecedor das indústrias indianas em algodão, oleaginosas, carvão e cimento. Em troca, precisava de sal e produtos petrolíferos. E a manobra diplomática protagonizada por Sir Walter Monckton prosseguiu: quando pressionado pelo Vice-Rei, Lord Mountbatten, a aderir à Índia o advogado retorquia que o Nizam podia deixar a sua posição conciliadora – a independência – pela radical – aderir ao Paquistão!...
A verdade é que a localização de um Estado de Hyderabad independente mesmo no seu centro (como se pode observar - a amarelo - no mapa acima) era um verdadeiro entrave para a Índia. Por outro lado o Estado também tinha os seus pontos fracos. Alguns nem ao próprio Congresso interessava explorar – a delegação local do partido chamava-se Hyderabad State Congress e fora fundada em 1938. Era o caso da heterogeneidade cultural da maioria popular hindu: nos 16 distritos que compunham o Estado o telugu era o idioma maioritário em 8 deles, o marathi em 5 e o kannada em 3.

Havia um outro ponto fraco que, não o podendo explorar, outros o podiam explorar pelo Congresso: a extrema desigualdade da distribuição das terras (só o Nizam possuía 10% de todas elas!). O agente de pressão nesse caso foram os comunistas do CPI** e uma reforma agrária armada que eles desencadearam baseados na experiência maoista contemporânea da China e em que a grande maioria dos proprietários desapropriados eram muçulmanos. A comunidade muçulmana reagiu com o total apoio do governo do Estado, armou-se e formou milícias (abaixo) designadas pelo nome de Razakars.
A conjugação de todos estes acontecimentos fazia com que o tempo passasse, a situação de Hyderabad permanecesse num impasse mas sem que o clima social se acalmasse. Em Junho de 1948, 10 meses depois da Independência, Lord Mountbatten abandonou o cargo de Governador-Geral da Índia escrevendo uma exortação ao Nizam para que ele se decidisse a assinar a Adesão à Índia. E o clima de instabilidade que se instalara continuava a assegurar um duplo fluxo contínuo de refugiados – hindus a abandonar Hyderabad e muçulmanos das regiões vizinhas a ali se refugiarem.

Se a exortação de Mountbatten caiu em ouvidos surdos, a sua saída de cena deixou os indianos, a começar por Vallabhbhai Patel, mais à vontade para o que, na perspectiva deles, tinha que ser feito... A ampla manobra diplomática do Nizam acabara por falhar, os antigos amigos não lhe haviam dado cobertura, o máximo que ele conseguira fora um acordo para a preservação da situação vigente à data da retirada britânica (Standstill Agreement), que fora assinado em Novembro de 1947, mas, para os indianos, esse estatuto excepcional para o Hyderabad não se podia continuar a perpetuar.
O pretexto invocado foi a dificuldade que as autoridades indianas estavam em lidar com o progressivo fluxo de refugiados que estavam a fugir de Hyderabad para a Índia, pretexto destinado a ter uma repetição muito mais conhecida dali a 23 anos***. Em 13 de Setembro de 1948, 13 meses depois da Partição, as unidades militares indianas invadiram Hyderabad, numa acção baptizada Operação Polo. Dia 17 à noite, o Nizam anunciou por um discurso na rádio a sua rendição. Significativamente, apesar do idioma do Estado de Hyderabad ser o urdu, quem o escreveu para o Nizam, fê-lo para que ele o lesse em inglês…
(Continua)

* Para comparação, refira-se que os efectivos portugueses presentes em Goa, Damão e Diu em Dezembro de 1961 não chegavam a 4.000.
** Partido Comunista Indiano.
*** Voltará a ser invocado por ocasião da Terceira Guerra Indo-Paquistanesa e de libertação do Bangladesh (Dezembro de 1971).

13 dezembro 2008

OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 5

O Estado Principesco de Junagadh, situado na região natal do Mahatama Gandhi e de Vallabhbhai Patel, o Gujarate, era mais pequeno e menos próspero do que aqueles que foram referidos até aqui – apenas 15 salvas de canhão! Em termos mais concretos eram aproximadamente 400.000 habitantes (dos quais cerca de 82% eram hindus) em quase 9.000 km² de extensão. Como curiosidade, refira-se que era o Estado que fazia fronteira com a praça portuguesa de Diu. E possuía um monarca de religião muçulmana, um Nawab, devidamente aconselhado pelo seu chefe de governo, o Dewan.

Ao contrário do Maharaja de Jodhpur, quando dos acontecimentos de 1947 o Nawab de Junagadh era um monarca veterano, e ocupava o trono desde a infância (1911). Com 47 anos de idade, o Nawab Muhammad Mahabat Khanji III era também conhecido por uma das suas excentricidades: a sua predileção por seus cães (acima), a quem propiciava um tratamento invejável. Mas o burlesco desse facto – depressa aproveitado pelo Congresso para o desacreditar – não nos pode fazer esquecer a legitimidade das suas pretensões quanto ao futuro do Estado de que era soberano: assinar a Adesão de Junagadh ao Paquistão!
Na realidade, quando dos acontecimentos do Verão Quente de 1947, o Nawab até estava de férias na Europa e o governo estava entregue ao Dewan, um político sindi, próximo da Liga Muçulmana, de seu nome Sir Shahnawaz Bhutto (acima, com a família), que os leitores facilmente referenciarão se o der como o avô paterno da recentemente assassinada Benazir Bhutto. Seguindo as suas sugestões, o Nawab depois de regressar de férias manteve-se em silêncio apesar de todas as pressões a que foi sujeito, até anunciar na véspera do dia da Independência (14 de Agosto) que pretendia aderir ao Paquistão.

E tirando a questão da maioria hindu, que era um problema moral mas não formal (o monarca era soberano para decidir qual o país a que pretendia aderir), não havia mais nada que a Índia pudesse invocar para contrariar essa adesão. Embora estivesse separado fisicamente do resto do Paquistão e rodeado por outros Estados Principescos que haviam optado pela Índia, Junagadh possuía vários portos numa costa extensa (abaixo) que se localizavam a uma distância aceitável (325 milhas) do principal porto paquistanês, Karachi. Recorde-se que o resto do Paquistão também estava dividido em Ocidental e Oriental…
A própria recepção paquistanesa à intenção de Junagadh foi, inicialmente, moderada. Para Jinnah, Junagadh poderia servir como uma eventual moeda de troca no quadro negocial mais vasto das rectificações a processar na fronteira indo-paquistanesa depois de Agosto de 1947 mas, de uma forma realista, os domínios do Nawab não passavam de um grande enclave cujas possibilidades de defesa militar, se a tal extremo fosse preciso chegar, eram nulas(*). Só passado um mês, em 13 de Setembro, e sobretudo por causa do que se estava a passar em Caxemira é que o Paquistão aceitou a Adesão de Junagadh.

A manobra de resposta escolhida pelos indianos foi a de arranjar um governo de Junagadh no exílio (em Bombaim), chefiado por um sobrinho de Gandhi, Samaldas, que era de lá natural. E no ambiente da época, a concorrência dessa autoridade paralela à administração, com uma pressão militar discreta (abaixo) acabou por desmoralizar as autoridades legais, a começar pelo Nawab, que em Outubro acabou por partir para o Paquistão acompanhado da família e de uma dúzia dos seus cães favoritos. A 9 de Novembro de 1947 foi o Dewan que entregou formalmente a administração de Junagadh à Índia.
Para conferir um ar de legitimidade à anexação, três meses depois (20 de Fevereiro de 1948), a nova administração organizou um plebiscito consultando as populações sobre o futuro do Estado. O resultado foi uma previsível vitória da opção indiana mas que, de tão esmagadora, acabou por se tornar embaraçosa para os organizadores: de entre os 190.870 votantes apenas 91 (ou seja uns míseros 0,05%) se pronunciaram a favor da Adesão ao Paquistão... Quanto ao Nawab, como um daqueles monarcas europeus depostos, a sua causa continua de pé através dos sucessores, como se pode ver nesta página da internet.
(Continua)

(*) Foi pena que Salazar não tivesse tido essa mesma percepção em relação aos enclaves que constituíam a Índia Portuguesa.

12 dezembro 2008

OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 4

A razão para o que o Estado de Jodhpur apareça nesta lista de Estados Principescos cuja adesão foi acidentada acabou por nunca ter uma explicação satisfatória. Jodhpur era um Estado cujo Maharaja tinha direito a 17 salvas de canhão. Era relativamente extenso, com 93.000 km², embora tivesse uma baixa densidade populacional pelos padrões indianos: cerca de 2,5 milhões de habitantes em 1941. A sua localização precisa na Índia pode ser observada no mapa abaixo e tratava-se de um Estado cuja existência era bastante antiga: as primeiras referências escritas a ele datavam do Século XIII.
Além disso, como a maioria da população e o monarca eram de confissão hindu, não se antecipava grandes dúvidas quanto ao país a que o Estado iria aderir quando da Independência, apesar do facto de que uma parte do Estado ser adjacente ao Sindh, onde existia uma maioria muçulmana, o que fazia prever que por ali passaria parte da futura fronteira entre a Ìndia e o Paquistão. A surpresa desencadeou-se quando o Maharaja Umaid Singh faleceu súbita e inesperadamente com apenas 44 anos em Junho de 1947, tendo sido sucedido pelo seu filho Hanwant Singh, então com 24.

Vai ficar para sempre por esclarecer quem – o Nawab de Bophal, de que se falou anteriormente, é um dos suspeitos principais… – terá entusiasmado o jovem Maharaja a explorar a situação fronteiriça do seu Estado para sondar Muhammad Ali Jinnah e a Liga Muçulmana sobre as condições que eles teriam para lhe oferecer na eventualidade de uma Adesão do seu Estado ao Paquistão. Diz a lenda que na reunião que tiveram a esse respeito Jinnah terá entregue uma caneta e uma folha em branco para que o jovem Hanwant Singh escrevesse as suas condições…
A atitude podia ser vista como a consequência da imaturidade de um monarca jovem, que queria tratar um assunto de estado como uma transacção comercial, mas o Partido do Congresso não estava disposto a encarar o assunto com bonomia e as pressões para que o jovem Maharaja mudasse de atitude foram imensas. Mais importante para outros casos mais complexos que vieram a acontecer, o gesto de Jinnah fomentou desconfianças em Vallabhbhai Patel, o dirigente que tratava desta questão do lado do Congresso, que a Liga poderia agir sem razoabilidade, ao tentar aliciar um estado maioritariamente hindu.

O problema acabou por se resolver com o Maharaja a assinar a esperada Adesão à Índia mas não sem antes haver uma cena durante a cerimónia da assinatura, que se desenrolou na antecâmara do Gabinete do Vice-Rei e em que Hanwant Singh sacou de um revólver e o apontou à cabeça do secretário que lhe apresentou o documentou a assinar dizendo: - Eu não aceitarei as vossas ordens! Enfim podemos levar todo o incidente à conta de alguém que, para além de se mostrar imaturo perante as responsabilidades, possuía um forte sensibilidade ao sentido cénico, tendo por hobby, aliás, a magia…
(Continua)

11 dezembro 2008

OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 3

Bhopal era e continua a ser, de entre as cidades importantes da Índia, a mais central (acima). Ao mesmo tempo era a capital de um Estado Principesco com o mesmo nome de uma importância de 19 salvas de canhão – idêntica à de Travancore. Contudo, Bhopal, apesar de ter uma área idêntica (cerca de 18.000 km²) a Travancore, era um Estado muito menos povoado – tinha apenas 730.000 habitantes em 1931. Sobretudo o que distinguia os dois Estados em 1947 era o facto de Bhopal possuir um soberano muçulmano (designado por Nawab), apesar da maioria da população ser hindu.

Todavia essa distribuição da população por confissão não era homogénea: os muçulmanos encontravam-se em maioria nos centros urbanos e os hindus nas regiões rurais. Ainda hoje, na Bhopal moderna, que cresceu para uma população de 1,5 milhões de habitantes e é a capital do Estado indiano de Madhya Pradesh, 38% da população é muçulmana, o que é uma proporção três vezes superior à média nacional. Durante o período do Estado Principesco os muçulmanos predominavam na administração, tanto mais que o idioma empregue, a par do inglês, era o persa e o urdu (abaixo).
Mas o que tornava a História de Bhopal mais exótica foi a sucessão de mulheres que ocuparam o trono e exerceram o poder de facto entre 1819 e 1926: Qudsia (1819-1837), Sikander Jahan (1844-1868), Shahjahan (1868-1901) e Kaikhusrau Jahan (1901-1926)*. Em 1947, quando se colocou o problema da Adesão do Bhopal, o Nawab era o filho da última, Hamidullah Khan. Era conhecido pela sua antipatia para com o Congresso, não só do ponto de vista comunitário-religioso como também do ponto de vista político, a quem lhe desagradava as tendências socialistas, especialmente Nehru.

A realidade é que a geografia não ajudava nada às pretensões de Hamidullah Khan: o Estado de Bhopal, para além da maioria demográfica de hindus, estava situado bem no interior e numa região que naturalmente viria a pertencer à Índia. As dificuldades por si colocadas acabaram mais por ser de carácter protocolar do que realmente substantivas: pediu, por exemplo, que a data limite para assinar a Adesão fosse excepcionalmente alterada no seu caso em mais dez dias. Recusaram-no, mas o Vice-Rei teve a cortesia de guardar o documento assinado no seu cofre durante esses dias adicionais…
À margem da História principal, vale a pena dizer que de Bhopal houve depois um forte movimento de emigração de quadros extremamente qualificados para o Paquistão depois da Partição e da Independência. Uma das emigrantes foi a própria filha mais velha e herdeira do Nawab, Abida, que emigrou com a família para Karachi em 1950. A sucessão do título passou então para a filha mais nova, Sajida. Outra família muçulmana de Bhopal que também emigrou por essa altura (1952) foi a de Abdul Qadeer Khan, aquele que virá a ser considerado o pai da bomba atómica paquistanesa…

(Continua)

* Na Europa, só nos Países-Baixos é que se passará um fenómeno semelhante: depois da Rainha Guilhermina (1890-1948), seguiu-se a sua filha Juliana (1948-1980) e agora a sua neta Beatriz (1980- ).

09 dezembro 2008

OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 1

No seguimento dos recentes acontecimentos de Bombaim, vale a pena ir ao passado retirar algumas pequenas histórias e ensinamentos sobre a questão da comunidade muçulmana da Índia que poderá ter desencadeado aqueles acontecimentos. Claro que o momento marcante da Índia moderna (e aqui entenda-se a designação no sentido amplo do subcontinente) é o da Independência e Partição de 15 de Agosto de 1947, quando o Império, construído sob a égide britânica, alcançou a independência ao mesmo tempo que se dividia em duas grandes nações: a Índia e o Paquistão.

A questão da Partição irá permanecer para sempre controversa. Depois da leitura de alguns livros sobre o tema, parece-me que se podem sistematizar as acusações para o acontecido em três categorias distintas: a de que os dirigentes do Partido do Congresso (especialmente Gandhi) subestimaram por tempo demasiado as pretensões de Jinnah e da Liga Muçulmana; a de que Jinnah se veio a revelar um tal obcecado com o poder que inviabilizou a obtenção de um acordo entre as duas comunidades; a de que os britânicos se aproveitaram cinicamente das rivalidades para melhorarem a sua posição negocial.
Provavelmente haverá fundamento em todas as três acusações… Mas o que nos poderá interessar agora foi um argumento usado pelo Congresso contra a Liga por altura da Partição: a de que a constituição do Paquistão só resolveria parcialmente o problema que a Liga invocava: quase 30% dos 115 milhões de muçulmanos com que o Império então contava (em 1947) continuariam a viver em regiões que viriam a fazer parte da nova Índia independente… Mas esse será o paradoxo da Partição que é mais conhecido; o outro, o dos Estados principescos é-o menos, por isso vale a pena falar dele.

Uma parcela (30% do território e 24% da população) do Império das Índias não pertencia verdadeiramente aos britânicos sendo administrada indirectamente pelos seus representantes administrativos. Denominados em conjunto por Princely States of India (Estados Principescos da Índia), a primeira curiosidade a seu respeito é a da sua quantificação: é que as fontes não se entendem sobre quantos havia… O número que costuma ser mais usado é 565, mas há quem refira 521 ou 641, há outras fontes que se mostram cuidadosamente imprecisas, e a precaução manda-nos utilizar a notação 500+…
Havia a questão das características heterogéneas desses Estados Principescos, desde o maior, que era Hyderabad (no centro do mapa acima), que representaria, quer em área (214.000 km²), quer em população (16 milhões de habitantes), um pouco mais do dobro de Portugal, até aos mais pequenos, que eram típicas grandes propriedades latifundiárias de algumas centenas de hectares e uns escassos milhares de habitantes que, por um qualquer erro histórico, haviam ficado com o atributo da soberania. Mas, com mais potencial para tratamento jornalístico do que os estados, eram os próprios Príncipes…

Claro que em 500+ príncipes havia imensas possibilidades para monarcas excêntricos. Em Esta Noite a Liberdade, Lapierre e Collins, dedicaram todo um capítulo (Os elefantes, os Rolls e os Maharajas) às idiossincrasias de alguns dos monarcas mais castiços do Raj. Mas não havia necessidade… Mesmo no protocolo estabelecido pelos próprios britânicos existia um sistema, tão exótico quanto ridículo, de os hierarquizar pelo número de salvas de canhão a que tinham direito quando de uma cerimónia, desde as 21 devidas ao Nizam de Hyderabad ou ao Maharaja de Mysore até às 3 de um Nawab de Mija-na-escada
Ora um dos paradoxos mais desconhecidos associados à Partição de 1947 é que, dado o estatuto de que gozavam sob tutela britânica, e respeitando escrupulosamente o ponto de vista do Direito Internacional, todos aqueles 500+ soberanos teriam direito a pronunciarem-se por ocasião da cessação dessa tutela: ou escolhiam que o seu Estado se integrasse na Índia, ou no Paquistão, ou então pela reaquisição da Independência. Em rigor, o Império correu o risco de desmoronar e o facto de esse risco ser hoje apenas uma nota é uma boa medida do sucesso dos esforços feitos para a integração dos Estados Principescos.

Mas, mesmo que o processo (designado por AccessionAdesão) tenha decorrido de uma forma excelente (com 99% de sucessos!) sempre restaram uma meia dúzia que decorreram de forma acidentada. Como seria de esperar, as excepções aconteceram precisamente entre os Estados Principescos de maior dimensão. Vale a pena contar a história dessas excepções, especialmente, como já acima referi e dada a oportunidade dos acontecimentos de Bombaim, a dos casos em que monarcas muçulmanos voluntariosos procuraram na época forçar a adesão dos seus Estados maioritariamente hindus ao Paquistão…
(Continua)

11 setembro 2006

QUANDO A GEOGRAFIA FÍSICA ATRAPALHA A COESÃO NACIONAL – II


Se no caso checo, as fronteiras físicas que, sendo também as políticas, não acompanham as linguísticas e culturais, têm uma antiguidade milenar, as que o Paquistão tem com o Afeganistão são frescas, traçadas no século XIX pelos britânicos, quando estes se mostravam preocupados com a ameaça constituída pela expansão imperial russa, e decidiram estabelecer uma linha de defesa avançada protegendo à distancia aquilo que era verdadeiramente importante: toda a zona fértil do vale do Indo e dos seus afluentes onde se concentrava a esmagadora maioria da população.

Valha a verdade que os britânicos ainda tentaram ir mais além daquela linha de defesa, invadiram o Afeganistão (duas vezes – 1839-42 e 1878-80) e a coisa correu-lhes mal… Valha a ironia que o choque com o império russo acabou por ser evitado graças à diplomacia (1893) e que, por causa dos seus engenhos, como se pode ver num Atlas moderno, o Afeganistão acabou por ganhar uns contornos tais que o império russo e o império britânico nem chegaram a ter fronteiras comuns graças a uma estreita faixa de território designada por corredor de Wakhan.

No conjunto do império britânico das Índias, a ampla faixa de territórios que ia do rio Indo até à fronteira (que era comparativamente muito pouco povoada) sempre foi território instável e de intensas operações militares de repressão à actividade das tribos aí localizadas. O equivalente do nosso Instituto de Altos Estudos Militares (ministrando cursos de comando e de estado-maior) para o exército indiano (depois de 1947, para o exército paquistanês) estava e está localizado, desde 1907, em Quetta, a maior cidade do Baluchistão e da ampla faixa de territórios acima referida.

Não vale a pena referir em detalhe as vicissitudes que conduziram à constituição de dois estados (Índia e Paquistão) por ocasião da independência da Índia em 1947. Mas é importante referir quais os nomes das regiões desejadas para a constituição do Paquistão, um nome composto artificialmente em 1931. Incluíam o P de Pundjabe, o A de Afegânia (uma outra designação para os territórios da fronteira do Noroeste), o K de Kashmir (Caxemira), o S de Sindh e o TAN como terminação de Baluchistão. De P-A-K-S-TAN chegou-se ao nome Paquistão.

Toda esta engraçada construção esconde o facto de que a esmagadora maioria (cerca de 5/6) de toda a população paquistanesa actual se concentrar ao longo do vale do Indo e dos seus afluentes, no Pundjabe e no Sindh. E que as forças dominantes do extremismo islâmico – os apoiantes dos taliban – dentro do Paquistão se recrutam sobretudo dentro da minoria paquistanesa culturalmente aparentada com o outro lado da fronteira, com os fluxos de pessoas, bens e ideias ampliados pelas comunidades de refugiados que se estabeleceram no Paquistão depois da invasão soviética do Afeganistão de 1979.

O Paquistão pode ser analisado como uma espécie de deus Janus, onde a essa face que se vira para Ocidente e para o Afeganistão, se junta uma outra, provavelmente maior e mais importante que se vira para Oriente e para o grande vizinho indiano, o inimigo que, apenas por existir, é uma ameaça. O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, é geneticamente um exemplar dessa outra face de Janus, pois nasceu em Nova Deli, capital da Índia actual, e é filho de refugiados muçulmanos que abandonaram a Índia depois da independência de 1947*.

A fragilidade intrínseca do Paquistão é que, devido aos acontecimentos associados ao seu nascimento, sem o Islão não parece ter razão de ser. Mas o Islão extremado que é protagonizado por aquela quinta coluna de pashtuns e baluches (os parentes dos afegãos) está a corroer internamente o país, num processo que – salvaguardando as seguranças associadas à posse do material nuclear – não desagradará de todo à Índia que poderá satelizar mais facilmente os seus vizinhos quanto mais frágeis estejam, como acontece com o Sri Lanka ou o Bangladesh.

Estruturalmente, é quase instintivo que qualquer militar não se disponha (e até se oponha) a ceder qualquer parcela do que se considera ser o seu território nacional. Musharraf é um político, mas também é um militar de formação. Historicamente, entre os militares, apenas recordo de Gaulle que tenha conseguido (apesar de terrivelmente criticado…) ter a ousadia e lucidez de sacrificar território nacional (a Argélia) em favor da coesão nacional. Mas essa será uma hipótese (a da secessão) que Musharraf terá de vir forçosamente a equacionar – seja desencadeada por si ou não…

Porque o Paquistão sedentário do Indo, que gosta dos filmes de Bollywood e dos jogos de cricket está a ficar dominado na frente interna e apagado na frente externa pela imagem projectada para o exterior por aquele outro Paquistão minoritário mas muito militante. E uma guerra civil é o tipo de conflito a que, nem Musharraf, nem o Paquistão, se podem dar ao luxo de ter: o único que houve, em 1971, a Índia interveio e o Paquistão perdeu mais de metade da sua população para o novo Bangladesh independente...

* Curiosamente, o actual primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, nasceu em zonas que pertencem agora ao Paquistão e os seus pais, de religião sikh, abandonaram o Paquistão depois de 1947, numa espécie de simetria daquilo que aconteceu ao presidente paquistanês.

07 setembro 2006

EPISÓDIOS PARA A COMPREENSÃO DO IRÃO

Imagine-se por momentos que o 25 de Novembro de 1975 fora descaradamente patrocinado pela CIA. É verdade que essa é uma tese ainda hoje defendida tanto por comunistas como pela extrema-esquerda mas, para acabar de vez com controvérsias, imagine-se que eram os próprios operacionais da agência que reconheciam abertamente a sua participação.

Mais, ficava a saber-se publicamente qual fora o orçamento de toda a operação, quem fora subornado e por quanto fora subornado, o que custara montar as manifestações espontâneas e de que forma haviam sido persuadidos os chefes militares que estavam mais indecisos. Agora imagine-se qual seria o estatuto do nosso actual regime democrático depois dessas revelações…

Sobretudo, quais as implicações que elas teriam, quer no nosso amor-próprio nacional, quer na forma como nos relacionaríamos com os Estados Unidos… Pois bem, tudo o que foi descrito aconteceu de facto, em 1953, no Irão, quando a CIA pilotou o golpe de estado que depôs o governo iraniano, chefiado por Mohammed Mossadegh (na imagem), em nome da autoridade do Xá.

A causa próxima para o golpe foi a nacionalização em 1951, por parte de Mossadegh, da exploração do petróleo iraniano, afectando profundamente os interesses britânicos. A causa invocada para consumo dos Estados Unidos foi o perigo de que o Irão caísse na órbita comunista, esquecendo a rivalidade e profunda inimizade histórica existente entre persas e russos.

Numa análise expressa sumariamente das consequências daquele golpe, os interesses ocidentais foram bastante beneficiados a curto prazo (a nacionalização dos petróleos foi em parte revertida, dando origem à actual BP), mas a imagem das potências ocidentais ficou por décadas danificada. A oposição laica aos regimes despóticos herdados do passado foi fortemente danificada.

Apesar de ferozmente nacionalista, Mossadegh era, de certa forma, um estrangeirado que se havia formado em França e na Suíça e era o representante de uma elite dirigente que queria modernizar numa determinada direcção a sociedade iraniana. É uma das ironias da história que a elite clerical, representada naquela altura pelo Aiatollah Kashani, tenha sido dos últimos grupos a ser convencido pela CIA a abandonar o apoio a Mossadegh.

É esta elite clerical que possui hoje as chaves do jogo democrático, condicionando o seu acesso àqueles que lhes transmitam confiança. Há que reconhecer que é um processo sofisticado de escolha múltipla em que não se escolhe quase nada. É como se no Portugal do Estado Novo Salazar nos deixasse escolher entre três candidatos… mas sendo todos da União Nacional.

Embora racionalmente me disponha a compreender a estudar e a compreender o melhor que posso os iranianos, emocionalmente confesso que sou um clássico que se sente vencedor ao ler os relatos das batalhas de Issus e de Gaugamela. Mas, como Alexandre, reconheço que há que perceber o potencial inimigo se o quiser vencer e não condescender com os disparates simplificados que se lêem e ouvem por aí…

21 agosto 2006

OS ÁRABES RICOS

As histórias das arábias referiam-se, nos tempos antigos, à prosperidade das grandes metrópoles do Islão como são os casos de Damasco, de Bagdade ou do Cairo. A partir do século XX essas histórias das arábias mudaram de local e de protagonistas, quer para os árabes nómadas da península Arábica, quer para os pescadores do litoral norte da península, que antes retiravam a sua subsistência da pesca no golfo Pérsico.

Ao contrário de outros países onde houve lugar à descoberta de importantes jazidas de petróleo, mas onde a população era (e é) numerosa (como o Irão ou o Iraque), os países da península eram todos escassamente povoados (ainda hoje a densidade populacional média é sete vezes inferior à portuguesa) e os benefícios dos rendimentos do petróleo tiveram um impacto profundo na população local.

Há o aspecto anedótico das esposas do Emir do Koweit que, tendo alugado um Boeing 747 para ir fazer compras a Paris, regressaram em dois, pois precisaram de um avião suplementar para trazer as compras… Mas há também o aspecto (único no mundo) da cidade do Dubai nos Emirados Árabes, com uma população de 850.000 pessoas, ter como fonte exclusiva de água potável, a água do mar dessalinizada.

O conjunto dos países da península (com excepção do Yemen, que tem muita gente, não tem petróleo e é uma republica…) agrupou-se em 1981 numa espécie de clube selecto de seis países monárquicos chamado Conselho de Cooperação para os Países Árabes do Golfo. Compõem-no a Arábia Saudita, Omã, o Kuweit, o Bahrain, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, uma federação de 7 emirados. A bandeira da organização ornamenta este post.

Em conjunto, o PIB dos seis países da organização equivalerá sensivelmente ao do Irão, para cerca de metade da população, e tanto a produção petrolífera como o nível de reservas actuais do conjunto corresponderá ao quádruplo dos do seu grande vizinho do norte. Mas o clube – cujo membro dominante é evidentemente a Arábia Saudita (75% da população total) – também tem as suas ameaças.

Há membros que já estão a esgotar as suas reservas de petróleo. É o caso do Bahrain. Embora ainda continue por mais algum tempo (cerca de 10 anos) a extracção de gás natural e tenha havido uma diversificação da economia antevendo o esgotamento dessas fontes de rendimento é sempre arriscado prever as consequências económicas e sociais do fim destes ciclos de prosperidade.
Seguir-se-á Oman, dentro de 20 a 25 anos. E depois será a vez do Qatar. Mas aquele problema que consideramos principal, e que poderá constituir uma verdadeira ameaça para o bem-estar dos árabes ricos está no presente das sociedades dos vários países da organização: cerca de 40% de toda população (36,7 milhões em Julho de 2006, segundo os dados da CIA) é composta por imigrantes.

Os imigrantes são um conjunto bastante heterogéneo. Há uma apreciável quantidade composta por imigrantes sazonais sozinhos (nos Emirados Árabes há três homens para cada mulher adulta) que são fortemente dissuadidos de ali procurarem estabelecer residência definitiva (as políticas poderão variar de país para país e conforme a naturalidade do imigrante mas estamos a falar do padrão dominante).

Quanto à origem dos imigrantes, há que considerar em primeiro lugar, o conjunto de quadros norte-americanos, europeus e japoneses (certamente virá a haver chineses no futuro…) que estão encarregues de supervisionar na origem os processos de extracção do petróleo que os seus países precisam. São poucos e a esmagadora maioria não faz tenção de ficar, por isso não inquietam as autoridades.

Depois, há que considerar a imigração árabe qualificada (nomeadamente egípcia, libanesa e também palestiniana) que, aparentemente é fácil de integrar, mas pode ser potencialmente perigosa, por estar habituada a níveis superiores de intervenção política, estranhos às sociedades locais. Uma boa fracção dos intervenientes nos atentados de 11 de Setembro, discípulos de bin Laden, pertencia a este grupo.

A ocupação dos postos de quadros médios e inferiores e de trabalho não qualificado tem sido disputada entre oriundos dos países árabes e de países asiáticos. A vantagem sociológica da contratação dos primeiros parece ser compensada com a vantagem económica de recorrer aos segundos. Mesmo assim é nítido que a preferência vai para imigrantes oriundos de países muçulmanos da Ásia como o Paquistão, a Indonésia ou o Bangladesh.

Mesmo assim, estas sociedades prósperas do petróleo devem-se contar entre as mais cosmopolitas da actualidade, onde aos países já mencionados, há que adicionar ainda naturais da Índia, das Filipinas, do Sri Lanka ou do Irão, para não falar dos países árabes adjacentes como o Iraque, Yemen, Síria ou Jordânia, a fazer lembrar a diversidade tradicional dos Estados Unidos e a menos tradicional da Europa.

Por não terem a atenção mediática e por não existirem as liberdades políticas do Ocidente, nomeadamente a de expressão, não se pense que tudo esteja bem nos países árabes ricos. A técnica de impedir os imigrantes indesejados de se fixarem já teve os fracassos suficientes – na Alemanha, com os Gastarbeiter*, ou na África do Sul, com os bantustões** – para se perceber que não tem sucesso a longo prazo.

Outro dia, penso que terá Vasco Pulido Valente a perguntar porque razão no Ocidente não se leva a sério a ameaça do terrorismo islâmico com a mesma seriedade com que outrora se levou a do comunismo, durante a guerra-fria. Arrisco a resposta que talvez a sociedade ideal de bin Laden, não sendo deste mundo, não seja suficientemente tangível para que as pessoas a levem a sério, como acontecia com a União Soviética.

Mas o Islão teve e está a ter, com o exemplo destes países, uma oportunidade de mostrar as sociedades que a sua civilização pode criar, quando provida (!) de recursos. Suspeito que essa sociedade, quando vista da perspectiva de – por exemplo – um paquistanês emigrado em Riade, é capaz de não lhe deve parecer assim tão mais atractiva – ideologias à parte – do que parecerá a um seu compatriota a sociedade de Londres.

É questão de nos perguntarmos se os países árabes ricos também não correm o risco de vir a ter, à sua maneira, o seu choque de civilizações

* Traduzida literalmente, a expressão quer dizer trabalhador convidado. Convidado porque não se destinava a ficar na Alemanha para sempre, bem entendido...
** Os bantustões eram países artificiais criados pelo regime sul-africano de supremacia branca. A maioria dos trabalhadores eram nacionais desses países hipotéticos e podiam ser expulsos da África do Sul para o seu país em caso de conveniência...

NOTA: Os dados numéricos foram retirados do CIA Factbook.

09 agosto 2006

SÍRIA, O PAÍS QUE RECENTEMENTE DESPERTOU PARA O XIISMO…

Sabe quem ensina ou quem já teve de ensinar que existe uma opção permanente na permuta entre a simplicidade da apresentação e o rigor do que está a ser explicado. Pode-se tornar a matéria que se explica mais acessível à custa da perda do rigor e vice-versa. Quem domina a matéria sabe o que faz e fá-lo conscientemente. O pior acontece quando quem o faz não sabe do que está a falar.

A propósito do recente conflito entre Israel e o Hezbollah, já se ouviu por diversas vezes repetida a associação entre a organização libanesa, composta por xiitas libaneses, o Irão, país onde a população é predominantemente xiita, o Iraque, país que é maioritariamente xiita, e a Síria, onde o presidente e a elite dirigente é xiita. Enfim, parece tratar-se de uma enorme coligação cujo denominador comum é o xiismo.

Só que essa teoria da ameaça do Crescente Xiita, que é até visualmente muito interessante e que está a ser propagandeada de órgão em órgão de comunicação social, padece de algumas evidentes lacunas quando confrontada com a realidade, sendo o busílis mais evidente o xiismo da Síria. A Síria nunca foi politicamente xiita nem há registos de grande importância da religião no actual regime sírio.

O regime Assad foi fundado pelo pai do actual presidente, Hafez el-Assad, que deu um golpe de estado em Novembro de 1970. O regime por ele fundado assume-se laico – embora constitucionalmente o presidente tenha de ser muçulmano… – e nos bons velhos tempos da guerra-fria até se proclamava uma democracia popular socialista ligada à União Soviética pelo tradicional tratado de amizade e cooperação.

A constituição síria data de 1973, mas é muito elástica: como à morte de Hafez el-Assad (2000) o seu filho Bachar el-Assad não tinha a idade mínima para ser eleito presidente, o limite de idade foi rapidamente alterado para o efeito. A organização política dirigente – tipo partido único – é a Frente Nacional Progressista, fundada em 1972 pela fusão do Partido Baath e do Partido Socialista Árabe.

Nos 36 anos que o regime leva a maior oposição que tem defrontado é a das irmandades muçulmanas e a da frente islâmica (como acontece, de resto, também com o Egipto). A elite dirigente é xiita porque é pessoal e familiarmente próxima do clã presidencial (como acontecia, de resto, com Saddam Hussein no Iraque). Por toda a descrição, não se vislumbram na Síria sombras de influências de Aiatollahs...

Todavia, sobram indícios de análises superficiais de jornalistas habituados a emprenhar de ouvido…

18 julho 2006

OS AYATOLLAHS DO OUTRO LADO

Marcou-me a forma como decorreu o debate sobre o interminável conflito israelo-árabe no último Expresso da Meia-Noite, da passada Sexta-Feira. Pela fragorosa parcialidade pró-israelita de uma das intervenientes (a pedir a comparência, para equilibrar, do inolvidável José Goulão) e pela forma como, graças a ela, activamente, e aos moderadores, passivamente, a conversa se centrou nas aberrações constantes dos estatutos das organizações radicais islâmicas.

Nunca é demais realçar o radicalismo e os propósitos extremistas de organizações como o Hamas ou o Hezbollah, o que foi feito ao longo daquele programa, e muito bem, no meu entender. O problema foi a quase absoluta ausência de menções ao radicalismo do outro lado do conflito – porque um conflito sempre se faz do choque de interesses de duas partes… – que teria ajudado o espectador a compreender porque é que a obtenção de um compromisso se torna assim tão difícil.

Simbolicamente, posso sugerir – embora à posteriori – que a situação poderia ter sido muito bem representada pelo mais que provável conversa de surdos entre a indefectível apoiante de Israel, Manuela Franco (suponho ser este o seu nome), e José Goulão, um valor seguro no que diz respeito ao facciosismo pró-árabe. Da forma que decorreu, até parece que as aberrações intelectuais repousam todas do lado dos árabes, nomeadamente do seu clero, o que é apenas uma face da verdade.

Procurando corrigir isso, modestamente, este blogue procura demonstrar que existem aberrações também do outro lado, juntando aqui uma ligação para um excelente e esclarecedor artigo de William Kristol, provavelmente o guru mais proeminente dos neo-conservadores norte-americanos, que escreve na The Weekly Standard da semana, considerando que esta guerra é a nossa (deles) guerra, que Bush devia ir para Jerusalém e que os Estados Unidos deviam confrontar o Irão

Deixem-me confessar-vos a minha antipatia pelos radicalismos, sobretudo pelo islâmico, mas também a minha defesa de uma informação equilibrada É que deve haver tempos de antena equilibrados para os malucos dos dois lados…

04 março 2006

MORNING HAS BROKEN…


Morning has broken é o título e a forma como começa a letra de uma canção da autoria de, e cantada por, Cat Stevens, há uma trintena de anos atrás. O cantor e compositor, aqui retratado, teve uma queda abissal nos charts das tabelas de vendas depois de se ter convertido ao Islão, deixado crescer ainda mais a barba, e passar a deixar-se tratar por Yusuf Islam.

Mas não é propriamente o choque de civilizações (aliás, um tema que já passou de moda, a fazer fé na blogosfera) que se pretende tratar neste poste. Viremo-nos antes para a programação viçosamente matinal da TSF e para os seus habituais noticiários de meia em meia hora.

Aconteceu já por um punhado de vezes, que algumas das notícias que ali ouvi pela manhã se vêm a revelar depois muito mais complexas, subtis, a ponto de desmontar quase na totalidade a primeira impressão que delas havia colhido.

Dadas as circunstâncias, pensei que a culpada mais provável seria a minha natural obtusidade matinal, até que a multiplicação dos incidentes me levou a suspeitar que, provavelmente em nossa intenção, ouvintes, a TSF caprichará em apresentar uma versão light das notícias, para não fazerem ricochete dentro das nossas cabeças mal acordadas.

Será isso, ou então é a informação produzida pela rádio que é mesmo toda light – confesso que não ouço outros noticiários TSF ao longo do dia. A verdade é que a minha manhã se arrisca a perder toda a leveza da música original de Cat Stevens.

Tenho a certeza quase absoluta que ninguém sintonizará a TSF (ou qualquer outra rádio, de resto) para escutar a leitura de uma conferência de 12 minutos sobre o controle da proliferação nuclear, por muito credenciado que seja o conferencista.

Mas também convinha ter o cuidado de não transpor para a informação no estúdio aquele estilo bem TSF, aaah…, de repórter, aaah…, dinâmico, aaah…, a tentar ganhar tempo, aaah…, de uma forma canhestra, aaah…, em cima do acontecimento, aaah…, mas sem nada de importante para dizer!