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15 agosto 2019

O «OUTRO» DESEMBARQUE

15 de Agosto de 1944. Depois da famosa operação Overlord, que decorrera nas costas da Normandia em Junho, tinha lugar um outro desembarque anfíbio em terras francesas, desta vez nas costas da Provença, dez semanas depois. Controversa desde a sua concepção - os americanos desejaram-na e impuseram-na, os britânicos só anuíram contrariados - o aparecimento de um novo exército aliado em terras francesas teve, pelo menos, a virtude de tornar insustentável o dispositivo global de defesa dos alemães, que já então fora levado a um limite pelo desgaste de dez semanas de combates na Normandia.
Para colmatar a ausência ostensiva dos britânicos, esta operação Dragoon é marcada pela participação significativa de tropas francesas, sobretudo contingente coloniais oriundos do norte de África, numa intenção política nítida de passar a mensagem que o exército francês participava na libertação do seu país. Visto à distância, funcionava. Visto de perto, a maioria dos soldados franceses eram argelinos e marroquinos que nunca haviam posto os pés na França metropolitana. Ironicamente, alguns deles iriam destacar-se como quadros na guerra de independência da Argélia que iria começar por dali a dez anos (1954-62).

04 janeiro 2019

O PERCURSO DISCRETO DA DESCOLONIZAÇÃO ESPANHOLA

4 de Janeiro de 1969. As autoridades marroquinas e espanholas chegavam a acordo em Rabat para a transferência para Marrocos da soberania do pequeno território de Ifni (ver mapa abaixo). Com 1.500 km² e habitado por um pouco mais de 50.000 habitantes, o território fora violentamente disputado dez anos antes (do Outono de 1957 à Primavera de 1958) por espanhóis e marroquinos, no decurso de uma guerra que hoje está esquecida. Se os espanhóis salvaram militarmente as aparências, mais para consumo doméstico do que do ponto de vista estritamente militar, por outro lado, a sua permanência ulterior nas possessões que detinha na fachada atlântica de Marrocos, afigurava-se definitivamente comprometida após o término do protectorado francês em Março de 1956. Aliás, a notícia que o Diário de Lisboa publicava na edição de há cinquenta anos era falsa logo a partir do primeiro parágrafo: «O enclave do Ifni é o primeiro dos territórios administrados pela Espanha, (...) que é reintegrado no território marroquino». Ora o tratado que fora firmado entre Marrocos e a Espanha na sequência da Guerra de 1957-58, o tratado de Angra de Cintra, já se saldara pela cedência por parte da Espanha do território espanhol de Cabo Juby a Marrocos (32.875 km² e uns 10.000 habitantes). Mas essa estava a ser a habilidade do regime franquista no que diz respeito à descolonização, em contraste flagrante com o que acontecia simultaneamente com os seus vizinhos portugueses: ceder em quase tudo, embora dando a aparência contrária. Passada uma decorosa década (para não se dizer que haviam sido corridos), em Ifni a cerimónia simbólica da transferência de soberania iria ter lugar a 30 de Junho de 1969. Ficava por resolver o problema do Sáara Espanhol...

10 março 2017

OS FANTASMAS DA TRANSIÇÃO ESPANHOLA

Já aqui havia falado mais desenvolvidamente do tema (se em suportes como estes fizer algum sentido utilizar o advérbio desenvolvidamente) da descolonização espanhola do Sahara que se sobrepôs à transição da Espanha de Francisco Franco para a de João Carlos. Este livro, publicado em Outubro de 2015, quando se completavam quarenta anos sobre o pico dos acontecimentos, é uma prova de que o assunto, apesar de estar olvidado por uma imensa maioria de espanhóis, não estará esquecido por todos e que, quanto a descolonizações exemplares, não houve nenhuma potência colonial que as tenha tido, há algumas potências é que, quando o seu impacto social e político não foi grande, as tentaram varrer para debaixo do tapete. Este mapa (p. 13) é mais uma daquelas demonstrações de como, também no caso espanhol, os amplos espaços africanos de além mar minimizam as áreas das metrópoles europeias.
Uma página cheia de humor (p. 532), reminiscente do livro Pantaleão e as Visitadoras de Vargas Llosa, foi o episódio associado à má planificação e à evacuação prematura de algumas civis residentes na colónia, e cuja ausência se fez sentir significativamente no moral das tropas, o que obrigou a que um oficial do estado-maior, o comandante (major) Vázquez Labourdette, tivesse que ir a Las Palmas para fazer um conjunto de contratações que normalmente não costumariam cair no âmbito das tradicionais contratações de géneros da 4ª Repartição (logística) do estado-maior do exército. Aquele último momento de refluxo de passageiras, chegadas num voo charter propositadamente fretado à Ibéria, terá sido de um grande conforto moral para as últimas guarnições ainda destacadas no Sahara espanhol...

17 novembro 2016

A DESCOLONIZAÇÃO ESPANHOLA

Espanha, 19 de Novembro de 1975. O generalíssimo Francisco Franco entrara em agonia (morrerá no dia seguinte), mas a História de Espanha não se compadece dos estados de saúde dos seus filhos, por muito grandes que sejam. No Palácio de Zarzuela, João Carlos de Borbon, então ainda regente em nome do moribundo, apunha a sua assinatura à Lei 40/75 que autorizava o governo de Carlos Arias Navarro, a partir daquele próprio dia, a realizar os actos e adoptar as medidas que fossem necessárias para levar a cabo a descolonização do território não autónomo do Sahara. Quarenta e um anos depois, sabe-se que, com as atenções e as preocupações de Espanha absolutamente centradas naquilo que aconteceria em Espanha depois da morte de Franco, este documento não passava de uma chancela a uma decisão que já fora tomada de antemão: a descolonização espanhola. Um embaraço político da História de Espanha de que nunca se ouve falar. Mas, voltemos ainda 75 anos mais para trás, para os primórdios do século XX, explicando a colonização para depois falar da descolonização.
Em 1900, a Espanha era o único país da Europa Ocidental que não possuía colónias. As últimas que mantivera daquele que fora o mais poderoso Império do Mundo nos séculos XVI e XVII, as Filipinas, Cuba e Porto Rico, acabara de as perder para os Estados Unidos numa guerra travada (e perdida) em 1898. Limitada geograficamente nas suas opções onde refazer um novo império colonial, e impondo-se adquirir algo que países que considerava abaixo da sua categoria de potência possuíam, caso dos Países-Baixos, de Portugal, da Bélgica ou mesmo da Dinamarca, a Espanha, para se expandir, foi retomar um projecto estratégico que fora português no século XV (começado com a tomada de Ceuta em 1415 e abandonado com a batalha de Alcácer Quibir em 1578): o prolongamento da Reconquista em terras africanas. No mapa acima, vêm-se os contornos da província nortenha do Marrocos espanhol. Mas não foi só. Aproveitando-se da localização geográfica do arquipélago das Canárias, a Espanha também se apropriou das regiões desérticas a Sul do núcleo histórico de Marrocos (abaixo, assinalado a rosa).
Estas regiões meridionais valeriam pelo prestígio colonial. Não se revelavam remuneradoras. Eram escassamente povoadas. Lembre-se a persistência que foi preciso que o Infante (Henrique) incutisse nos seus navegadores do século XV para que eles explorassem as suas costas (é ali que se situa o famoso cabo Bojador de Gil Eanes), sem que estes vissem alguma utilidade imediata nas explorações. Em 1968, os 266.000 km² do Sahara espanhol (que equivalem a 3 vezes a área de Portugal continental) tinham uma população de apenas 48.000 habitantes. A capital, El Aaiún agrupava tão somente umas 5.500 pessoas. No entanto, a perspectiva de uma subsistência económica autónoma da comunidade consolidara-se depois da descoberta de fosfatos em Boucraa em 1962, uma daquelas matérias-primas que, como o petróleo, só se tornara importante depois da revolução industrial. Naturalmente, as ambições de Marrocos sobre o território foram potenciadas por essa descoberta. E, para conquistar/recuperar o Sahara, Rabat sabia que o tempo contava a seu favor...
Franco nascera em 1892, ultrapassara os 80 anos e o regime que vigorava em Espanha assentava na sua pessoa. A sua morte iria ter repercussões internas importantíssimas e fragilizar a Espanha. Esse seria o momento propício para, na perspectiva marroquina, atacar a Espanha a respeito do Sahara. O instrumento usado pelos marroquinos foi uma invasão de civis, denominada marcha verde. A reacção militar dos espanhóis, temerosos de se verem num conflito idêntico ao que os vizinhos portugueses se tinham visto envolvidos na Índia em 1961, foi nula. Não se vislumbrou nenhuma atitude dos militares espanhóis em baterem-se pela defesa do território colonial ou pela salvaguarda da autodeterminação dos habitantes sarauis. E foi com a corda na garganta que a diplomacia espanhola se sentou à mesa das negociações. Quando Juan Carlos promulga a Lei 40/75 por onde começámos este texto, já o Acordo Tripartido de Madrid fora assinado (14 de Novembro), envolvendo a Espanha, Marrocos e a Mauritânia. O documento possuía vários anexos secretos. As medidas para que a descolonização do território não autónomo do Sahara tivesse lugar, já haviam sido todas tomadas... Marrocos e a Mauritânia repartiram entre si a antiga colónia espanhola. Constatemos que não terá sido um dos momentos maiores das suas armas e da sua diplomacia.
Se fizermos o paralelo com o que então estava a acontecer também em Timor (um vizinho poderoso que ambicionava anexar a antiga colónia sem lhe reconhecer qualquer direito à autodeterminação), é que Portugal não se dispôs a firmar um acordo com a Indonésia, validando o que parecia inevitável. A Espanha fê-lo com Marrocos e, ainda por cima, reclama que terá acabado saindo aldrabada. Nos anos seguintes, os problemas dos dois antigos territórios coexistiram nas preocupações do Comité de Descolonização das Nações Unidas. O de Timor foi entretanto e felizmente resolvido. A questão que se coloca quanto à realização de um referendo sobre a autodeterminação do território, equivalente ao que se realizou em Timor, caiu num impasse e prende-se com a qualificação de quem pode participar: para os nacionalistas sarauis só deviam participar os cerca de 86.000 eleitores residentes ou deles descendentes que ali residiam em 1975; para os marroquinos devem participar todos os que residem no território, embora com algumas restrições; porém, neste momento, quando a população do território já ultrapassou as 500.000 pessoas, os marroquinos são uma esmagadora maioria e, com esse critério, o resultado do referendo não é difícil de prever. Falava-se mais em Portugal de Timor do que em Espanha sobre o Sahara...

18 maio 2008

O “VENTRE MOLE” DA EUROPA – 2

A invasão da Sicília desencadeou uma manobra palaciana que acabou por conduzir à deposição do Duce, Benito Mussolini (25 de Julho de 1943). E o novo governo italiano, que era encabeçado pelo Marechal Badoglio procurou discretamente encetar contactos com os Aliados por forma a que fosse assinado um Armistício com eles. Tratava-se de uma oportunidade preciosa para os Aliados: se essa manobra fosse desencadeada de surpresa e bem coordenada do ponto de vista político e militar as Forças Aliadas poderiam progredir rapidamente em direcção a Norte através de toda a Península italiana, neutralizando os destacamentos militares alemães presentes em Itália. O pior era a desconfiança germânica…

Contudo, em Berlim parecia não haver ilusões quanto às intenções italianas. Adolf Hitler foi estenografado clamando, vingativo: É preciso trazer-me toda a camarilha, com o príncipe herdeiro à frente… O comportamento italiano foi, no que concerne às relações ítalo-alemãs, de uma duplicidade irrepreensível. Mas a triplicidade germânica foi ainda superior. Em antecipação ao anúncio público do Armistício (8 de Setembro de 1943) que fora previsto para coincidir com o desembarque das Forças Aliadas no Golfo de Salerno (abaixo), os alemães desencadearam a sua Operação Alarico, neutralizando e aprisionando os soldados de todas as unidades das Forças Armadas italianas.
Para os Aliados perdera-se totalmente o efeito de surpresa – chegara a equacionar-se a hipótese de, com a conivência dos italianos, uma das suas divisões de pára-quedistas saltasse sobre Roma! – e a progressão dos dois Exércitos Aliados (o V norte-americano, a ocidente e o VIII britânico, a oriente) em direcção ao Norte passou a fazer-se numa frente de combate estreita (200 km), acidentada e quase sem vias de comunicação. Era uma situação onde as condições dificultavam a aplicação da superioridade material dos Aliados e, pelo contrário, facilitavam a tarefa aos defensores que quase podiam impor o ritmo de progressão do adversário: apenas a 1 de Outubro a cidade de Nápoles foi conquistada.

Na Frente italiana entrara-se numa espécie de impasse táctico de posições fixas, muito à semelhança do que acontecera na Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial. Perdera-se assim todo o interesse estratégico. Em finais de Dezembro de 1943, tanto Eisenhower como Montgomery abandonaram os seus comandos e regressaram ao Reino Unido em preparação ao desembarque da Normandia que estava programado para daí a poucos meses. O mesmo acontece às melhores unidades britânicas e norte-americanas (como as divisões de pára-quedistas), que vieram a ser substituídas por divisões de outras nacionalidades – francesas (de origem norte-africana, abaixo), polacas, indianas, neo-zelandesas, etc.
Enquanto a Itália demorara pouco mais de um mês a passar de aliada da Alemanha para sua inimiga (de 7 de Setembro a 13 de Outubro), do outro lado dessa frente que dividia a Itália em duas, depois da libertação de Mussolini do seu cativeiro em 12 de Setembro de 1943, criara-se uma ficção de ressurgimento de um novo Pacto Germano-italiano, através do aparecimento de uma República Social Italiana, herdeira aparente das tradições do fascismo, mas que não passava de um protectorado germânico. Nem países simpatizantes da causa, como era o caso da Espanha franquista, mesmo quando solicitada directamente pela Alemanha, se dispuseram a reconhecer diplomaticamente o novo regime…

Ainda houve uma tentativa de contornar as posições defensivas alemãs lançando mais um desembarque anfíbio em Anzio, nos arredores de Roma, em Janeiro de 1944 mas a Operação Shingle veio a revelar-se um fracasso. O ritmo de progressão das Forças Aliadas passou a ser marcado pelo grau de exaustão das Forças alemãs que lhes faziam frente; quando esse limite era atingido estas últimas recuavam para uma nova linha defensiva ligeiramente mais a Norte, que fora cuidadosamente seleccionada e cujas posições haviam sido preparadas de antemão. Em 4 de Junho de 1944 os Aliados atingiram Roma (abaixo), mas o feito foi completamente obscurecido pelo Desembarque na Normandia dois dias depois.
O desembarque aliado nas costas mediterrânicas da França em 15 de Agosto de 1944 (Operação Dragoon) desguarneceu ainda mais (desta vez em divisões francesas) a Frente italiana. Outras unidades vieram substituí-las incluindo uma divisão brasileira* e a única divisão norte-americana (92ª) composta por afro-americanos** presente na Europa. O conjunto de nacionalidades das unidades combatentes em Itália pelos Aliados é capaz de ter constituído o recorde daquele conflito: houve norte-americanos, britânicos, canadianos, neo-zelandeses, sul-africanos, polacos, franceses, argelinos, marroquinos e brasileiros, além dos italianos que combateram pelos aliados, evidentemente.

Quanto à questão por onde começámos, a da disputa estratégica entre britânicos e norte-americanos sobre o estabelecimento das prioridades sobre quais deveriam ser os objectivos militares da reconquista da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, mau grado os dotes de persuasão de Alan Brooke e dos britânicos, provou-se que Marshall e os norte-americanos, não tendo razão na forma***, acabavam por a ter no fundo. Apesar dos precedentes históricos, como o caso das Guerras Napoleónicas onde os britânicos se empenharam também em teatros periféricos como a Península Ibérica, do ponto de vista estratégico a decisão da Segunda Guerra Mundial jamais teria sido decidida na Península Itálica...
* O emblema identificativo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que se vê acima é uma alusão directa a um discurso neutralista de Getúlio Vargas (o Presidente brasileiro), proferido logo no início da Guerra, em que afirmou que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. Depois dos Estados Unidos entrarem em Guerra, o Brasil veio a alinhar as suas posições com eles, e apareceu esta cobra fumadora...
** A segregação oficial nas Forças Armadas norte-americanas só terminou em 1948.
*** Aprendeu-se imenso com as várias operações anfíbias da Sicília e da Itália e esses conhecimentos foram muito úteis na Normandia.

04 agosto 2007

TEMPOS DE VERÃO – OS ESTRAMBÓLICOS GOLPES DE ESTADO CONTRA HASSAN II

Memórias de outros verões distantes e as evocações desta época baptizada de silly season levaram a minha memória até episódios que creio que hoje foram completamente esquecidos mas que o meu espírito atento e disponível registava atentamente (estávamos nas férias grandes…) numa época em que escassez das notícias levava a noticiá-las de forma muito mais cuidadosa.

Para lá da linha do horizonte da nossa praia ficava um país exótico chamado Marrocos, que as notícias faziam hostil a Portugal, como todos os países árabes. Mas aquela espécie de vizinhança longínqua sonhadora levava a que quaisquer notícias sobre Marrocos tivessem o travo adicional de uma certa intimidade com a nossa praia quotidiana e com as nossas férias. E, durante um par de anos, houve-as, interessantes…

Os tempos eram os de 1971 e, para os enquadrar, recorde-se que a vida não corria de feição para os monarcas de países muçulmanos. A moda era a de os destronar e havia um bónus se se o fizesse sem o assassinar: dois anos antes (1969) Kadhafi destronara o rei Idris da Líbia e dois anos depois (1973) era a vez do Afeganistão e do rei Zahir. E o rei da Jordânia, Hussein, era comparado a um gato com 7 vidas, tantos os atentados…
Retomando o fio à meada, foi a 10 de Julho de 1971, que as notícias vindas de Marrocos davam conta de uma notícia de uma tentativa de golpe de estado envolvendo também a intenção de assassinar o rei, Hassan II (acima). Os pormenores eram pitorescos, capazes de captar a atenção de um ocioso (eu): o rei estava a festejar o seu aniversário (42º) num dos seus palácios, quando apareceu um grupo de penetras que desatou aos tiros…
Em primeiro lugar, chocava porque uma festa de anos era coisa que naquela idade eu considerava do que mais próximo havia do sagrado: não se devia estragar assim uma a outrem… Depois descobriu-se que o responsável pela inesperada animação fora um dos grandes amigos do rei (e eu considerava os amigos coisa séria…), o general Mohammed Medbouh (acima), chefe da casa militar do rei e comandante da Guarda Real, e que o rei tivera muita sorte (abaixo)…
Durante a quinzena seguinte, jornais e revistas acompanharam a repressão ao golpe que pusera o jet-set marroquino a correr pelas cercanias do palácio real para salvar a pele, e as execuções por fuzilamento de um conjunto de oficiais de alta patente nele envolvido e que supostamente eram muito chegados ao rei e como o haviam traído. O novo homem forte do regime, que se revelara de uma fidelidade a toda a prova ao rei na hora da verdade, era o general Mohamed Oufkir (abaixo).
O episódio já estaria esquecido quando, na temporada de Verão seguinte, em 16 de Agosto de 1972, voltou a haver notícias de nova tentativa de golpe de estado com a tradicional tentativa de assassinato de Hassan II, só que desta vez o homem por detrás do acontecimento era precisamente o fidelíssimo amigo que se revelara na temporada passada, o general Mohamed Oufkir que, como seria de esperar, foi rapidamente executado por sua vez...
O método usado não perdia para o do ano anterior em imaginação: o rei regressava do estrangeiro, viajando num Boeing-727 da Royal Air Maroc fretado exclusivamente para o efeito, quando os novos caças militares F-5 da base de Kenitra que haviam sido enviados para o receber e escoltar resolveram mudar de opinião e fazer “tiro ao alvo com o Boeing-727 onde viajava Hassan II e a comitiva que o acompanhava…

O avião conseguiu, mesmo assim, aterrar como pode (acima) no aeroporto de Rabat. Daí Hassan II conseguiu convocar as tropas fiéis e fazer abortar o golpe. A lenda faz constar que o piloto do Boieng-727 (que era um antigo piloto militar, colega dos pilotos dos F-5 que o perseguiram) era convictamente republicano, mas que haviam sido as próprias circunstâncias do golpe que o haviam motivado a salvar a sua própria pele…

Ainda fiquei à espera que o Verão de 1973 me trouxesse mais novas do género de Marrocos… Mas duas coisas aprendi com as desilusões sucessivas de Hassan II. Em primeiro lugar, que ele não sabia escolher os amigos… Em segundo lugar, que os árabes são extremamente imaginativos quando se trata de assassinatos políticos: lembremo-nos dos conspiradores que interromperam a parada militar para assassinar Sadat em 1981…

Fica uma nota final para a desforra das monarquias muçulmanas que estava guardada para o futuro do nosso Século XXI, quando regimes de países árabes orgulhosos das profundas raízes republicanas se iriam especializar em sucessões hereditárias de pai para filho, como já aconteceu com os Assad na Síria e tudo indica que venha a acontecer com os Mubarak no Egipto... Enfim, já Augusto descobrira na velha Roma, que, por vezes, o principal passa apenas por não chamar rei ao monarca…

19 junho 2006

OS ENCLAVES DA DISCÓRDIA

No seguimento do recente referendo na Catalunha sobre o seu estatuto autonómico, aceite por uma clara maioria (quase 74%) dos que votaram, os que o fizeram é que foram uma minoria (49%) dos que o podiam fazer, vale a pena recordar as disputas de soberania que existem por resolver nesta nossa península ibérica e na suas redondezas.

No centro de três disputas está a Espanha que, a par da enorme publicidade que tem dado ao seu desejo de recuperar Gibraltar ao Reino Unido, também tem que resolver, só que agora colocada na situação oposta (a de ocupante), os problemas de Ceuta e Melilha com Marrocos e o de Olivença com Portugal.

Nessa posição central, a Espanha tem-se visto regularmente confrontada com os paradoxos provocados pela argumentação que é invocada por si para defender um dos casos poder vir a ser empregue contra si num outro caso em que se encontra na posição oposta.

Assim, a continuidade geográfica que lhe parece motivo ponderoso e evidente para justificar a absorção de Gibraltar pela Espanha pode também ser invocada por Marrocos para justificar a cedência a este pela Espanha das cidades africanas de Ceuta e Melilha.

Noutro lado, a vontade das populações afectadas, que parece aos espanhóis um motivo suficiente para procurarem encerrar de vez o problema de Olivença com Portugal, tem a sua contrapartida em Gibraltar, onde a população já se manifestou de forma plebiscitária, por repetidas vezes, que não quer ser espanhola.

Nem mesmo as formas mais imaginativas de soberania que a diplomacia espanhola se lembrou de desencantar para tentar atrair os gilbratinos para a sua causa parecem imunes a problemas. Quando o assunto dessas novas formas de soberania foi ventilado, arrebitaram-se imediatamente umas orelhas interessadas, mas na Catalunha e no País Basco…

Usando um velho ditado popular português, a posição da diplomacia espanhola no que diz respeito a estes três assuntos é a de alguém que quer simultaneamente sol na eira e chuva no nabal ou, exagerando um outro ditado, a de quem nem está disposto a dar um chouriço para receber um porco

Mas o que mais importante me aparece em todo o problema é a lição evidente de como em diplomacia não parece haver uma linha de conduta óptima que dê mais possibilidades de sucesso à resolução de disputas fronteiriças ou, já agora, a quaisquer outro problemas diplomáticos.

A exuberância diplomática que a Espanha tem demonstrado ao longo dos últimos 70 anos em recuperar Gibraltar e a displicência que a diplomacia portuguesa tem demonstrado a propósito de Olivença, deixou os dois países rigorosamente no mesmo ponto onde estavam inicialmente.

Qual será a lição que poderemos transportar daqui (se o pudermos fazer) para a conduta da diplomacia portuguesa a propósito dos recentes episódios em Timor? Que não há manual de instruções para cada situação; ninguém garante o sucesso de resultados preconizando a assunção duma atitude mais cordata ou mais exuberante…