10 de Janeiro de 1972. Chegada triunfal a Dacca, a capital do recém independente Bangladesh, do xeque Mujibur Rahman. Só com o retorno daquele que era considerado o pai daquela pátria se pode considerar encerrado o complicado processo que culminou com a divisão do Paquistão e a fundação da nação bengali predominantemente muçulmana. Essencialmente, e no grande xadrez estratégico, este desfecho é uma uma vitória do Bangladesh e, por associação, dos seus aliados, a Índia e a aliada desta, a União Soviética, ao mesmo tempo que é uma clara derrota paquistanesa e dos seus grandes aliados, os Estados Unidos e a China. Por sinal, tudo isto está a acontecer enquanto discretamente Henry Kissinger estava a realizar, via Paquistão, a manobra de aproximação à China que culminará com a visita do presidente Richard Nixon àquele país em Fevereiro de 1972. Essa virá a ter promoção. Este fiasco da diplomacia norte-americana é que nem por isso.
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10 janeiro 2022
16 dezembro 2021
A VITÓRIA INDIANA NA TERCEIRA GUERRA INDO-PAQUISTANESA
16 de Dezembro de 1971. Assinatura da rendição do exército paquistanês estacionado no Bangladesh. Pelos indianos assinou o general Jagjit Singh Aurora (de turbante, a assinar na fotografia do lado esquerdo) e pelos paquistaneses o general Amir Abdullah Niazi (de boina, a fazer o mesmo na do lado direito). Os oficiais que aparecem por detrás são todos indianos. A independência do Bangladesh, que fora proclamada em Março daquele ano, tinha finalmente o seu dia.
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03 dezembro 2021
O INÍCIO FORMAL DA TERCEIRA GUERRA INDO-PAQUISTANESA
3 de Dezembro de 1971. Há cinquenta anos assistia-se ao início formal da terceira guerra indo-paquistanesa. Era uma guerra que estava perfeitamente anunciada, pelo menos desde a proclamação da secessão do Paquistão Oriental em Março daquele ano. As tropas paquistanesas continuavam a ocupar a província de Bengala Oriental como se ela se tratasse de uma dependência colonial, as tropas indianas, pelo seu lado, estavam a fornecer a mais descarada ajuda logística e militar aos guerrilheiros bengalis do Mukti Bahini. O resto fora uma guerra de nervos de meses entre a Índia e o Paquistão a ver quem perderia primeiro o sangue frio e desencadearia as hostilidades abertas. Foi o Paquistão, que, através da sua força aérea e copiando aquilo que fizera Israel em Junho de 1967, desencadeou nesta data um ataque preemptivo contra as bases aéreas da força aérea indiana, a operação Gengis Khan. A escolha do título fora muito apropriada, os resultados da mesma é que nem tanto. Os ataques tiveram lugar ao cair do dia - o que fez com que as notícias a seu respeito só tivessem aparecido nas edições dos jornais do dia seguinte (acima) - mas depararam-se com bases aéreas indianas que estavam preparadas para aquela eventualidade. Os aviões destruídos foram poucos, e os engenheiros indianos aproveitaram a noite para repararem as pistas de aviação atacadas. A supremacia aérea que o Paquistão buscava com aquele golpe de surpresa não foi alcançada e as operações terrestres que se haviam planificado pressupondo essa supremacia começaram a falhar. As simpatias dos Estados Unidos e da China iam para o Paquistão; as da União Soviética para a Índia. O máximo que a primeira-ministra indiana Indira Gandhi conseguira, depois de visitas a países ocidentais nos meses que haviam precedido a guerra, fora uma contida neutralidade de Londres e Paris. A posição portuguesa era francamente pró-paquistanesa, considerado o contencioso pendente, velho de dez anos, da ocupação militar de Goa, Damão e Diu pelos indianos. Mesmo um jornal não próximo das posições governamentais como o Diário de Lisboa fazia uma cobertura não muito isenta dos acontecimentos: o Paquistão não havia declarado guerra à Índia (na verdade, nenhum dos países entregara qualquer declaração de guerra ao outro) e, por tudo o que acima se explicou, haviam sido as tropas e a aviação paquistanesas a atacar a Índia, não o contrário. Abaixo, dois livros interessantes sobre o conflito.
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16 abril 2021
AS COMPLICADAS FRONTEIRAS DE BENGALA
As fronteiras então traçadas sob pressão, separando a Índia do que então se tornou o Paquistão Oriental, tornaram-se não só nas mais extensas como também nas mais complexas fronteiras do subcontinente. Na actualidade e como se vê acima, a Índia tem 3.400 km de fronteiras com a China, 2.900 com o Paquistão, 1.700 com o Nepal, 1.500 com a Birmânia e ainda 600 com o Butão. Porém, apesar das aparências geográficas, a fronteira mais extensa da Índia, por causa do seu formato sinuoso (mais de 4.000 km) é com o Bangladesh, o país que resultou da secessão do Paquistão Oriental em 1971.
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26 março 2021
A REDESCOLONIZAÇÃO DE ALGUNS DESCOLONIZADOS?
26 de Março de 1971. Há 50 anos o xeque Mujibur Rahman (1920-1975) proclamava a independência do Bangladesh. A data tornou-se o dia nacional do país mas, à época, a declaração foi mais simbólica do que prática. Ao contrário de tantas outras cerimónias idênticas mas pacíficas a que o Mundo assistira depois da Segunda Guerra Mundial, o novo país permanecia ocupado por tropas paquistanesas e assim iria continuar pelos nove meses seguintes até à sua rendição perante uma ofensiva indiana que se desencadeou em Dezembro de 1971. Para além de se ter tratado da terceira guerra entre a Índia e o Paquistão nos primeiros 25 anos da existência dos dois países e do conflito arrastar consigo um delicado problema geoestratégico, com os Estados Unidos e a China a apoiar o Paquistão e a União Soviética a apoiar a Índia, a terceira perturbadora novidade na ordem mundial é que poderia estar a passar-se para uma nova fase de descolonizações, em que o alvo já não eram as tradicionais potências coloniais europeias, antes os antigos povos que haviam sido colonizados (os paquistaneses haviam-se tornado independentes do Reino Unido em 1947) e onde agora apareciam regiões a queixaram-se de outras discriminações também de cariz colonial. Era precisamente esse o teor das queixas dos bengalis em relação aos paquistaneses e havia ali um potencial de rectificação de fronteiras e de novos países (recorde-se o caso do Biafra 1967-70) que terá tornado os países recém-independentes do Terceiro Mundo muito mais moderados quanto aos discursos anti-coloniais que adoptavam.
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07 março 2021
O DISCURSO DE 7 DE MARÇO DE MUJIBUR RAHMAN
Na sequência de um clima de tensão crescente entre o governo militar paquistanês e a Liga Awami, a formação política bengali que vencera com maioria parlamentar absoluta as eleições que se haviam realizado em Dezembro, este discurso proferido há cinquenta anos pelo líder da Liga, o xeque Mujibur Rahman, representa uma primeira ruptura de Bengala oriental com a legalidade paquistanesa. Mas não era a declaração unilateral de independência que a comunidade mediática internacional estaria à espera - leia-se a notícia acima. No seu discurso, o habilidoso Rahman proclamava a certa altura: «Desta vez a luta é pela nossa liberdade. Desta vez a luta é pela nossa independência» Mas não foi ao ponto de a proclamar. Cautelosamente, ia primeiro recuperar a tradição da desobediência civil, que fora a arma dos nacionalistas para alcançar a independência paquistanesa (e indiana) do Reino Unido em 1947. Só que agora o inimigo colonizador era o governo que estava domiciliado do outro lado do subcontinente.
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07 dezembro 2020
AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES GERAIS POR SUFRÁGIO UNIVERSAL NO PAQUISTÃO
7 de Dezembro de 1970. Realizam-se as primeiras eleições gerais por sufrágio universal no Paquistão. País formado em 1947, ao mesmo tempo que a Índia, e abrangendo as regiões de maioria muçulmana do subcontinente, o Paquistão de 1970 era um país compósito e complexo, mais do que o é na actualidade. Assim, como se observa no mapa acima, era formado por duas partes separadas, assinaladas a verde: o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental. O primeiro era quase seis vezes mais extenso que o segundo, mas a maioria da população (54%) concentrava-se neste último, onde a população, aliás, era mais homogénea do que na parte ocidental. Mas era a ocidente que se situava a capital paquistanesa: primeiro fixara-se no porto de Karachi, mas mais tarde transferida para Islamabad, no interior. As conexões entre as duas grandes componentes do país deixavam muito a desejar: são mais de 2.000 km de Islamabad até Dacca pelo ar e 2.600 milhas náuticas (4.800 km) de Karachi a Dacca por mar; por estrada, são 2.300 km de Lahore até Dacca, um percurso que, porém, só se poderia cumprir atravessando a Índia hostil. Em suma, e considerando as restrições que a Índia colocava ao sobrevoo do seu território por aviões paquistaneses, pode dizer-se que, comparativamente e para a época, Portugal possuía ligações mais fluídas e rápidas com algumas das suas colónias de África (como Cabo Verde e Guiné) do que as existentes entre as duas parcelas do Paquistão.
A comparação entre Portugal e o Paquistão é menos descabida do que se possa pensar à primeira vista, porque, no quadro das relações políticas entre as duas parcelas, era de uma verdadeira exploração colonial que os principais dirigentes políticos do Paquistão Oriental se queixavam, conforme se pode escutar acima na entrevista dada alguns dias antes das eleições pelo xeque Mujibur Rahman. Tratado pelos seus adeptos por Mujib, Rahman era a figura política mais destacada no Paquistão Oriental, e já estivera preso durante dois anos pelo regime militar paquistanês, acusado de secessionismo em prol de um Paquistão Oriental independente. Estas eleições gerais de há cinquenta anos, foram as primeiras em 23 anos de existência do país a recorrerem ao sufrágio universal, e seriam o primeiro teste verdadeiro à consistência popular da nação paquistanesa. O modelo escolhido foi o britânico: 300 círculos eleitorais que elegiam cada um o seu deputado, escolhido pelos 57 milhões de eleitores. A grande maioria deste eleitorado (pelo menos 75% dele) era analfabeta, e a esmagadora maioria da propaganda assentava nos símbolos em vez de palavras. Como se veio a tornar costume e para evitar que os eleitores votassem mais do que uma vez, eram obrigados a marcar o indicador com tinta indelével. Mas, muito importante para as consequências do acto eleitoral e porque a maioria da população (e do eleitorado) se situava no Paquistão Oriental, este elegia 162 deputados enquanto o Paquistão Ocidental elegia os restantes 138.
A acrescer às questões estruturais, o acto eleitoral foi fortemente influenciado (pelo menos, na parte oriental) por questões circunstanciais: no mês anterior a região fora assolada por um terrível ciclone que provocara centenas de milhares de mortos, onde a assistência às vítimas - para não ser mais crítico - não se distinguira pela sua eficácia. Foi com base nisso que os 33 milhões de eleitores paquistaneses que votaram (uma afluência de 58%) produziram a composição da assembleia que se pode apreciar acima, à esquerda. Repara-se que não houve nenhuma formação política que conseguisse eleger representantes simultaneamente nos dois Paquistões. Nem na Assembleia "Nacional" paquistanesa, nem nas regionais (à direita), onde, mesmo assim, se constatava que o PPP de Zulfikar Ali Bhutto parecia prevalecer na parte Ocidental do Paquistão. A nível nacional, com 160 deputados eleitos em 300 (ou seja, quase todos os 162 que haviam estado em disputa no Oriente), a Liga Awami de Mujibur Rahman poderia aritmeticamente vir a governar sozinha o Paquistão, mas isso representaria uma verdadeira «cambalhota política» em que os discriminados de ontem se transformariam nos detentores exclusivos do poder de hoje. Algo que o governo militar de Islamabad nunca poderia aceitar. Com estas eleições, o Paquistão apareceu perfeitamente dividido em dois, concluindo-se que a sua constituição inicial, em 1947, fora, provavelmente, uma aberração nos contornos que assumira. Realizadas imediatamente depois do ciclone de Bhola, estas eleições foram, possivelmente, o maior ciclone político provocado por umas eleições gerais.
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13 novembro 2020
A DISSIPAÇÃO DO CICLONE DE BHOLA
13 de Novembro de 1970. Dissipação do Ciclone de Bhola. Este ciclone havia-se formado sobre o Golfo de Bengala em 8 de Novembro e, nos cinco dias seguintes, irá percorrer uma rota até ao Norte do Golfo (o mapa da direita mostra a deslocação do epicentro do ciclone, a imagem da esquerda é a de uma fotografia de satélite mostrando o ciclone em plena evolução), atingindo no final desse percurso as regiões densamente povoadas de Bengala, divididas entre a Índia (Bengala Ocidental) e o Paquistão (Bangladesh, que se tornou um ano mais tarde num país independente). Foi nesta última região, que coincide aproximadamente com o delta do Ganges que se registaram os maiores desastres pessoais. Este Ciclone de Bhola é, ainda hoje, considerado o mais mortífero de que há registo histórico. Os números mais empolados variam entre os 300 a 500 mil mortos mas, mesmo os estudos mais sóbrios apontam para 240.000 vítimas mortais, e isso apenas no Bangladesh*.
E contudo, as ondas alterosas que terão afogado centenas de milhar nas ilhas rasas do delta aconteceram de uma forma discreta aos olhos da informação mundial. Só dois dias depois do tremendo ciclone se ter dissipado é que os jornais portugueses davam, pela primeira vez, conta da catástrofe, e mesmo assim de uma forma muito subestimada quanto ao número de vítimas (acima). Os sistemas de auxílio colapsaram e isso combinou-se com a delicada questão política da autonomia bengali no quadro do Paquistão. Dali por um ano, eclodiria uma insurreição que conduziria à independência do Bangladesh. O episódio foi também pretexto para a promoção do primeiro Grande Concerto Rock em prol de uma causa, onde se destacou a figura de George Harrison. O concerto teve lugar em Nova Iorque em 1 de Agosto de 1971 e vale a pena ouvir a passagem inicial (aos 0:21) em que um jornalista pergunta a Harrison a razão, com «os enormes problemas no Mundo», para que ele escolhesse aquele... (E porque não?...)
* Para comparação, o tsunami de 2004, também no Golfo de Bengala, terá causado um máximo de 230.000 vítimas mortais.
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13 abril 2019
O CENTENÁRIO DO MASSACRE DE AMRITSAR
13 de Abril de 1919. Depois do fim da Grande Guerra, as elites indianas esperavam dos britânicos a concessão de um estatuto de autogoverno que os equiparasse, de alguma forma, aquele que era usufruído pelos Domínios do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia ou da África do Sul. O investimento que os indianos haviam feito na causa imperial durante a guerra - 1.440.000 soldados mobilizados, cerca de 65.000 mortos - esperava por esse retorno. Só que as autoridades britânicas não queriam nem ouvir falar em tais reivindicações. Refira-se que cerca de 450.000 desses indianos haviam sido recrutados no Punjabe, uma região fértil do Norte da Índia (Punjabe quer dizer cinco rios), onde coexistiam três das grandes religiões da Índia: muçulmanos, hindus e também sikhs. Em Amritsar, capital religiosa desta última confissão, a 13 de Abril de 1919 (um Domingo) dava-se a coincidência de se concelebrar o festival de Ram Naumi por parte dos hindus com o dia de Baisakhi, que era o primeiro dia do Ano Novo sikh. A cidade estava apinhada, abrigando cerca do triplo do que seria a sua população normal de 160.000 habitantes. O ambiente era tenso e a atenção policial era intensa mas o exercício de prepotência mortífera a que as autoridades britânicas se dedicaram teve todo o absurdo que esta reconstituição acima demonstra (foi retirada do filme Gandhi). Mais do que a brutalidade e as vítimas (379 mortos e 1.100 feridos, segundo os números oficiais), as consequências políticas para a presença britânica na Índia foram arrasadoras, ao fazerem desaparecer os moderados entre o movimento nacionalista indiano, aqueles que ainda estariam dispostos a negociar com as autoridades coloniais uma transição pacífica e progressiva da Índia até a um estatuto equivalente ao dos outros Domínios. Os 28 anos que decorrerão até à independência serão um contínuo braço de ferro com os nacionalistas a forçar o calendário dos acontecimentos.
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21 outubro 2018
AZAD HIND - O COLABORACIONISMO QUE NÃO FOI RENEGADO
21 de Outubro de 1943. Constitui-se em Singapura o Governo Provisório da Índia Livre (Arzi Hukumat-e-Azad Hind), encabeçado por Subhas Chandra Bose (1897-1945). Subhas Bose fora um dos dirigentes destacados do Congresso indiano antes da Guerra, mas acabara por entrar em conflito com Gandhi e abandonara a organização em 1939. Com a eclosão daquela, as divergências acentuaram-se: ao neutralismo pacifista de Gandhi, contrapunha-se a aliança tácita com o inimigo do inimigo que era proposta por Bose, no que era acompanhado por uma facção mais radical dos nacionalistas indianos. Bose acabou por fugir para a Alemanha, onde ajudou a formar uma unidade militar indiana formada por antigos prisioneiros de guerra que depois combateu ao lado dos alemães. Já aqui foi referida no Herdeiro de Aécio. Mas o interesse de Subhas Bose (e a utilidade de o empregar pelas potências tutelares...) estava muito longe da Europa. Era na Ásia, onde os exércitos japoneses que ocupavam a Birmânia ameaçavam a Índia, que se combinavam o interesse do próprio e de quem se dispunha a patrociná-lo. Em 1943, Subhas Chandra Bose realizou uma prolongada e complexa viagem de submarino que o levou para o outro lado do mundo. Partido em Fevereiro desse ano da Alemanha num submarino alemão, a viagem envolveu um transbordo para um submarino japonês em Madagáscar, a meio do percurso, que só se veio a concluir com a sua chegada a Singapura em Maio. Os japoneses também já haviam pensado em recrutar entre os seus prisioneiros de guerras de origem indiana um exército de auxiliares que combatesse ao seu lado contra os britânicos. Contudo, terá sido a alavanca política representada pela presença e propaganda de Subhas Bose, a quem se passara a dar o título honorífico de Netaji (Líder Respeitado em hindi/urdu), que terá feito com que os efectivos desse exército indiano de libertação (o INA - 43.000) correspondesse a cerca de ⅔ dos efectivos totais de prisioneiros indianos capturados pelos japoneses durante o conflito (64.500).
Claro que nem todos os membros do INA haviam sido prisioneiros, como se pode constatar, aliás, por esta fotografia acima, em que a unidade é feminina, mas a elevadíssima percentagem de alistamentos tornou-se um daqueles embaraçosos segredos de guerra, guardado ferreamente pelos britânicos, tanto mais que ela contrasta com a percentagem de 20% de adesões que se havia registado no caso dos prisioneiros de guerra indianos na Europa. Aliás, tão ou mais importante do que a quantidade, a maioria dos oficiais e sargentos de origem indiana que enquadravam as tropas também aderiu ao INA. O Governo Provisório que se constituiu há precisamente 75 anos é o apex político desse esforço de mobilização. Apesar de aparecer fardado nas fotos, Subhas Chandra Bose nunca havia tido qualquer experiência militar. A avaliação séria do desempenho deste outro exército indiano é afectada pelos preconceitos distintos (mas coexistentes) de britânicos e japoneses e dos seus relatos. Como projecto político, a Azad Hind não iria durar dois anos. Afundou-se conjuntamente com o Japão em Agosto de 1945. Pessoalmente, Subhas Chandra Bose morreu em 18 de Agosto de 1945, em consequência dos ferimentos resultantes de um acidente de aviação. Mas a questão política daqueles que haviam pegado em armas contra a Índia colonial continuou a subsistir. Quando as autoridades britânicas quiseram, depois do fim da guerra, levar a julgamento os responsáveis políticos e militares que haviam pegado em armas contra o Raj, depararam-se com a oposição dos nacionalistas. Terá sido até a última vez em que o Congresso e a Liga Muçulmana agiram de forma concertada, pois entre os réus tanto havia hindus como muçulmanos. Para surpresa dos britânicos, e ao contrário dos princípios que vigoravam na Europa que fora ocupada, ter-se sido colaboracionista ao serviço de uma potência hostil não funcionava como um estigma na Índia. Num ambiente que cada vez mais se adensava contra a sua presença, os britânicos tiveram que desistir da sua intenção. Mais do que isso, na Índia actual e como se pode constatar pelo vídeo abaixo, Subhas Chandra Bose é considerado um grande herói nacional.
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07 abril 2015
«THE BLOOD TELEGRAM»
O tema do livro já aqui o havia abordado no blogue, ainda que sem grande desenvolvimento: são os acontecimentos que, ao longo de quase todo o ano de 1971, conduziram à eclosão de uma terceira Guerra entre a Índia e o Paquistão, guerra essa que veio a culminar com a secessão e independência do Bangladesh, que até aí fora uma província paquistanesa. Quanto ao livro propriamente dito, o seu título é digno de atenção. Em primeiro lugar por se tratar de um trocadilho que faz sentido em língua inglesa: blood telegrama pode traduzir-se literalmente por telegrama sangrento; mas Blood Telegram pode ser também a alusão ao diplomata norte-americano Archer Blood (1923-2004), que, colocado na época como cônsul em Daca, foi o autor de um importante telegrama daquele período, alertando Washington, mas sobretudo a opinião pública e publicada norte-americana, para as consequências graves que a imposição da lei marcial pelas autoridades paquistaneses estava a ter na população bengali, os assassinatos e o êxodo que estava a gerar. Mas o título possui também o interesse, de parecer inspirado no zimmermann telegram, um episódio de 1917 que culminou com a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Sobre este outro tema já a celebrada Barbara Tuchman escrevera em 1958 um livro intitulado precisamente The Zimmermann Telegram. Os prémios entretanto recebidos por este The Blood Telegram (vencedor do Prémio Lionel Gelber 2014, finalista do Prémio Pulitzer 2014) parecem sugerir, pela analogia dos títulos e dos estilos que o autor, Gary Bass (1969-....), se sentirá recompensado na sua ambição de emular Barbara Tuchman.
A verdade é que praticamente ninguém se lembra da Guerra Indo-Paquistanesa de 1971. Mas outra verdade é que este livro também não é um livro sobre essa Guerra ou a situação política que a ela conduziu. Essa ignorância também não se deverá à falta de livros dedicados ao assunto. Contudo, o que este livro tem de importante para despertar o interesse do leitor norte-americano típico é que ele acompanha a crise centrado do ponto de vista da sala oval da Casa Branca. E aí, a partir das transcrições das conversas ora desclassificadas do presidente Richard Nixon com o seu conselheiro de segurança Henry Kissinger, é que o assunto se torna particularmente interessante. Ouvindo-os na intimidade, as opiniões de dois dos homens mais importantes do Mundo naquela época tornam-se de uma simplicidade grosseira, assustadora ao pensar-se nas responsabilidades que então possuíam. Há comentários de Nixon a respeito dos indianos que soam típicos de um racismo de taxista, a sua conduta da política externa parece exclusivamente norteada pela simpatia que lhe merecia Yahya Khan, o presidente paquistanês, quando em contraste com a antipatia (retribuída) para com Indira Gandhi, a primeira-ministra da Índia¹. E a sempre tão propagandeada (de lúcida) realpolitik de Henry Kissinger sai totalmente embaciada de todo o episódio quando, entre outros malabarismos, o encontramos a tentar aliciar os chineses para uma escalada do conflito, envolvendo-os na guerra em apoio do Paquistão, quando a derrota destes já se anunciava. Explique-se que, como a Índia solicitara o apoio político da União Soviética, a entrada da China em jogo arriscava-se a alastrar o conflito para além das fronteiras do armamento convencional... e da previsibilidade. Mas, apesar de ser também apoiante dos paquistaneses, Zhou Enlai não se prestou naquelas circunstâncias a ser um joguete de um capricho dos norte-americanos e que não podiam fazer grande coisa, atascados como estavam com a Guerra do Vietname.
Mas, como em quase tudo na vida, também na Geoestratégia há a acção e há a promoção e esta costuma ser - injustamente - mais importante que a primeira. Em Dezembro de 1971, os Estados Unidos, muito por culpa de quem (mal) os dirigira, haviam sofrido uma humilhante derrota diplomática directa diante da Índia; e indirecta diante da União Soviética. Dois meses depois, Fevereiro de 1972 (e em The Blood Telegram já não se fala em nada disto...), Kissinger conseguira erigir e engalanar um palco para que Nixon nele brilhasse, reatando relações com a China. É o que interessa. É nisso, muito mais do que como teórico, que Henry Kissinger se revela imbatível, pois hoje quase todos se lembram de uma coisa como a expressão máxima do jogo geoestratégico (acima) e quase ninguém se lembra da outra...
¹ Até então (1971), Richard Nixon estivera por três vezes na Índia e por seis vezes no Paquistão, nos dois casos apenas uma delas (Julho/Agosto de 1969) como presidente, o que não parece deixar muitas dúvidas quanto às suas inclinações e simpatias pessoais.
¹ Até então (1971), Richard Nixon estivera por três vezes na Índia e por seis vezes no Paquistão, nos dois casos apenas uma delas (Julho/Agosto de 1969) como presidente, o que não parece deixar muitas dúvidas quanto às suas inclinações e simpatias pessoais.
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14 dezembro 2013
A FACE ESQUECIDA DE UM MORTICÍNIO ESQUECIDO DE HÁ 42 ANOS
Os distúrbios e a guerra que culminaram com a independência do Bangladesh terminaram em 16 de Dezembro de 1971, há quase precisamente 42 anos (acima). Contudo, apesar de todos esses anos decorridos, a nação dos bengalis muçulmanos transmitiu recentemente para o exterior uma imagem do quanto os dilemas da existência do país não parecem ainda superados, ao anunciar-se a execução de Abdul Quader Molla (abaixo), responsável por violações e assassínios em massa (344) ocorridos em 1971, durante o período que precedeu a Guerra de Independência. Repare-se que, à época dos factos, o executado, que agora tinha 65 anos, contava apenas 23. E que, ao contrário de alguns julgamentos tardios de algozes nazis, o paradeiro e a identidade de Abdul Quader Molla foram sempre conhecidos ao longo de todos estes anos.
O fio condutor que explica e conecta o passado e o presente é o Jamaat-e-Islami, organização islâmica de que Abdul Quader Molla foi militante (e agora dirigente destacado) desde sempre. No Jamaat-e-Islami sempre se considerou que a religião (islâmica) era mais importante que a nacionalidade (bengali) para a definição das relações comunais no subcontinente indiano. Era em concordância com esses princípios, em 1971 o Jammat opunha-se ao movimento secessionista que no Bangladesh se opunha ao Paquistão. Na altura, Abdul Quader Molla terá sido um dos militantes responsáveis por uma repressão contra os independentistas e contra minorias religiosas (sobretudo hindus) que, mesmo as fontes mais prudentes, estimam ter causado entre 300 e 500.000 mortos civis, mais um morticínio que passou desapercebido no Ocidente.
Uma das fotografias mais significativas desse morticínio que agora parece regressar à actualidade política bangladeshi (acima, o autor é Rashid Talukder) reproduz de uma certa forma simbólica essa alheamento, porque a face inexpressiva no meio dos tijolos se assemelha à primeira vista a uma máscara descartada até nos apercebermos que aquilo foi um ser humano. Também os cautelosos 300.000 (há quem mencione 3 milhões de) mortos civis se tendem a dissolver nas muitas centenas de milhões que povoa(va)m o subcontinente indiano até nos apercebermos para comparação e naquela mesma região da comoção provocada pelos cerca de 200.000 mortos em consequência do tsunami de 26 de Dezembro de 2004.
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26 maio 2012
INDRA LAL ROY – O HERÓI RETOCADO
Indra Lal Roy (1898-1918) foi o único ás da aviação de ascendência indiana durante a Primeira Guerra Mundial. E com isso, considerada a cultura da época, a sua (curta) carreira militar tornou-se num absurdo. Os britânicos até podiam conceber a existência de feitos de armas protagonizados pelos povos coloniais – mas dos primários, demonstrando coragem pura. Era inesperado um herói de um povo colonizado que se destacasse numa actividade militar tão sofisticada quanto a aviação, vanguarda tecnológica do conflito.
É essa ambivalência que podemos perceber nestas duas fotografias acima, ambas imagens retocadas da original do início. À esquerda vemos um Roy de feições mais ocidentalizadas e com um sorriso que lhe foi desenhado; à direita um Roy com olheiras mais acentuadas e um olhar distante que desafia a câmara. Não é por acaso que a primeira é a que ilustra a entrada referente ao aviador na Wikipedia e a segunda a escolhida para ilustrar a da Banglapedia, um projecto alternativo à primeira do nacionalismo bengali...
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17 março 2010
O REGIMENTO DE INFANTARIA 950
O erro mais estúpido que poderíamos cometer seria o de permitir que as raças subjugadas possuíssem armas. A História mostra-nos que os conquistadores que permitiram que as raças que haviam subjugado se armassem provocaram a sua queda por o ter permitido.
A História também nos mostrou que a coerência entre o discurso e a acção não foi o forte de Adolf Hitler, autor das frases acima. As necessidades alemãs durante a Segunda Guerra Mundial fizeram com que a Wehrmacht e as Waffen SS se tornassem num dos exércitos mais mesclados que a História alguma vez conheceu, só perdendo em heterogeneidade para os exércitos persas de Dario e Xerxes na Antiguidade. A propósito disso, já se escreveu aqui neste blogue sobre as Osttruppen, as unidades militares criadas sob égide alemã e formadas pelas minorias étnicas do Império Soviético.
Mas o Regimento de Infantaria 950 da Wehrmacht foi uma unidade ainda mais exótica do que essas. Era constituída por indianos (e paquistaneses e bengalis) que lutavam ao lado dos alemães e contra os britânicos em prol da independência do seu país – que hoje são três países… O mentor da ideia foi Subhas Chandra Bose (1897-1945) que foi, com Gandhi, Nehru, Jinnah ou Patel, um dos principais dirigentes nacionalistas indianos e merecedor do destaque de um poste futuro neste blogue, pelo tratamento discreto que recebeu depois por se ter aliado com o lado errado durante a Segunda Guerra Mundial…
Uma das ironias desta história é que Subhas Chandra Bose, que os britânicos mantinham sob prisão domiciliar em Calcutá na Índia, só conseguiu chegar à Alemanha depois de se ter evadido em Janeiro de 1941 graças aos bons ofícios da União Soviética que permitiu – a lembrar o que a Alemanha fez a Lenine em 1917… – que ele atravessasse o seu território. Do seu encontro com Adolf Hitler nasceu a ideia da formação de uma unidade militar que lutasse ao lado dos alemães contra a potência colonial britânica. Os primeiros voluntários eram jovens indianos que estavam a estudar em países europeus…
Eram voluntários entusiasmados mas eram muito poucos. A unidade só recebeu um reforço significativo em pessoal quando os campos de prisioneiros alemães se começaram a povoar de prisioneiros de guerra indianos capturados pelo Afrika Korps de Rommel na Líbia. O número de prisioneiros que, depois de abordados, se mostraram dispostos a baterem-se pela Índia (só que do lado oposto) superou os 3.000 (um número embaraçoso para os britânicos...) e também os italianos constituíram o seu próprio Batalhão indiano com os prisioneiros indianos que haviam capturado.
É óbvio que, em Teatros de Operações em que os efectivos se contavam por milhões, a participação do Regimento de Infantaria 950 (também conhecido por Legião Indiana) na Segunda Guerra Mundial, teve mais importância pelo seu carácter político do que militar. Colocada como guarnição perto da cidade francesa de Bordéus, a unidade – que abaixo se vê a ser inspeccionada pelo mesmo Rommel que fora o responsável por tantos dos seus recrutas… – acabou por não participar directamente nos combates que tiveram lugar em França depois dos desembarques na Normandia, veio a retirar para a Alemanha.
Constituída por uma maioria de muçulmanos (cerca de ⅔), mas formada por uma óbvia motivação política anti-colonial (as subunidades não eram constituídas segundo bases religiosas¹), o Regimento de Infantaria 950 acabou os seus dias em Maio de 1945, junto à fronteira germano-suíça, com muitos dos seus soldados a tentarem refugiar-se naquele país neutral, mas a serem capturados e a serem vítimas de um dos últimos massacres da Segunda Guerra Mundial, um massacre que foi perpetrado, suprema ironia final, por soldados coloniais marroquinos (muçulmanos) ao serviço do Exército francês…
¹ Ao contrário do que acontecia no Exército da Índia Britânica.
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26 dezembro 2008
OS ESTADOS PRINCIPESCOS DA ÍNDIA – 8
Com a meia dúzia de casos que foram aqui apresentados não se pretende ter esgotado, apenas tipificado a história dos problemas por que passaram tanto a Índia quanto o Paquistão para a definição das suas fronteiras recíprocas. Uma das questões que a Partição de 1947 não resolveu, apesar dos milhões de refugiados que ela gerou, foi a questão dos muçulmanos que ficaram do lado errado da fronteira. Hoje, mais de 60 anos passados, entre os 460 milhões de muçulmanos com que conta o subcontinente, há 150 milhões (ou seja, quase um terço) que têm a nacionalidade indiana.
Isso permite chegar àquelas conclusões tão surpreendentes quanto curiosas: que a Índia é o terceiro país do Mundo em número de muçulmanos, depois da Indonésia e do Paquistão, ou que é o segundo país com o maior número de muçulmanos xiitas, logo a seguir ao Irão. Só que a realidade sociológica da comunidade muçulmana é muito mais complexa que aquela aritmética comparativa: aqueles 150 milhões de indianos são um agregado tão heterogéneo quanto aquele que transforma, do outro lado da fronteira, a coesão nacional do Paquistão num dos problemas prioritários da sua existência.
Muito do que une os indianos de confissão muçulmana em organizações como a Liga Muçulmana da União Indiana são memórias. Compare-se, por exemplo, na fotografia acima, aquele que foi o líder daquela formação até à sua morte em Junho deste ano, G. M. Banatwalla, com o retrato institucional do pai fundador do Paquistão, Muhammad Ali Jinnah, imediatamente por cima… Ora o projecto de uma pátria única protagonizado por este último para os indianos de confissão muçulmana esgotou-se há muito… Pior, sofreu danos irreversíveis em 1971 com a secessão do Paquistão Oriental, tornado Bangladesh.
Como qualquer grande fenómeno sociológico que ocorre aquele subcontinente, a questão dos indianos de confissão muçulmana é um fenómeno extremamente complexo onde o primeiro patamar de complexidade resulta do facto dos mencionados 460 milhões se distribuírem em números muito aproximados entre as três nacionalidades do subcontinente: paquistanesa (160), indiana (150) e bangladeshi (130 milhões). São fenómenos como esse que conferem às rivalidades geopolíticas ali existentes um direito de intromissão que não costuma existir noutras grandes rivalidades espalhadas pelo Globo.Tomemos, por exemplo, a tradicional rivalidade sino-japonesa e os elementos culturais que as duas culturas compartilham (como o alfabeto ou a religião budista) e verifique-se como lhe falta o toque fraternal que, apesar das quatro guerras (1947, 1965, 1971 e 1999) a rivalidade indo-paquistanesa contêm. Tanto é assim que uma encenação dessa rivalidade passou a desenrolar-se todos os dias no posto fronteiriço de Wagah (acima) e o evento já adquiriu fama turística mundial… Menos histriónicos, mas muito mais graves (foi por aí que comecei esta série), foram os ataques de Novembro em Bombaim…
Interpretando os acontecimentos de há um mês para cá, se os Serviços de Informações indianos foram obviamente apanhados desprevenidos quanto ao quando da Operação, a pressão que eles têm colocado (por intermédio dos Estados Unidos) em cima dos seus homólogos paquistaneses, e o incómodo evidente que tem sido revelado por estes últimos parece indiciar que os indianos mostram saber quem terá estado por detrás da Operação. E o momento, com o capital de simpatia gerado por terem sido as vítimas é demasiado bom para que a Índia não explore esse filão até ao fim…
Será propósito da Índia usar os Estados Unidos para que pressionem o Paquistão para que ele desarme o seu arsenal de movimentos islâmicos clandestinos, alguns deles efectivamente controlados pelos Serviços de Informações paquistaneses, outros apenas alegadamente controlados e outros que nem alegadamente o são… O que restará ao Paquistão, na situação de fragilidade em que está colocado, serão manifestações mediáticas de aumento da tensão militar como aquelas que ultimamente têm vindo a ser ventiladas… Mas a constrição diplomática montada pela Índia parece ser muito forte… 07 janeiro 2008
SE O EXÉRCITO NACIONAL DEIXAR DE SER CONSIDERADO NACIONAL…
Pessoa amiga e atenta chamou-me a atenção para um artigo publicado no Washington Post de hoje, debruçando-se sobre o agudizar das tensões étnicas no Paquistão, dando um particular relevo à forma como a crise actual, desencadeada pelo assassinato da dirigente política Benazir Bhutto no passado dia 27 de Dezembro de 2007 em Rawalpindi está a ser encarado. O que o referido artigo possui de novidade é uma nova perspectiva que, em vez de se concentrar no radicalismo político religioso, destacar o radicalismo político nacionalista, entre uma das várias nacionalidades (todas muçulmanas) que compõem o Paquistão.
O seu objecto é o de dar uma visão da actual situação política vista da perspectiva dos militantes (porventura alguns dos mais radicais…) do PPP, tradicionalmente de nacionalidade sindi, precisamente a mesma, e onde se contam os adeptos mais incondicionais, de Benazir Bhutto. E um dos aspectos a que ali foi dado maior destaque foi ao do separatismo sindi, concretizado também na hostilidade para com as forças armadas paquistanesas, que são consideradas como dominadas pela nação rival dos punjabis. É algo de esperar entre as correntes radicais, mas será preocupante se essa opinião já estiver muito disseminada…O Paquistão tem um precedente de secessão: o do Bangladesh, antigo Paquistão Oriental, que se separou em Dezembro de 1971. Entre as causas para as razões de queixa dos bengalis muçulmanos que levaram à criação de um país separado contava-se a sua sub-representação entre os altos escalões da administração. No exército, em 1955, não havia nenhum bengali entre os 3 Tenentes-Generais, nenhum entre os 20 Majores-Generais, havia apenas 1 entre os 35 Brigadeiros, 1 entre os 50 Coronéis, 2 entre os 200 Tenente-Coronéis e 10 entre os 600 Majores. Eram apenas 7 entre os 600 oficiais da Marinha e 40 entre os 700 da Força Aérea.
No entanto, os bengalis representaram, até 1971, um pouco mais de metade de toda a população paquistanesa… Por causa disso, na guerra de libertação que acabou por conduzir à independência do Bangladesh de 1971, nem chegou a haver uma verdadeira guerra civil entre facções do exército paquistanês. As unidades que deveriam defender o Paquistão Oriental da invasão indiana foram sempre percebidas pela população local como se se tratasse de um verdadeiro exército de ocupação… E, até agora, supunha-se que o exército que sobreviveu a essa derrota pareceu ter incorporado e ter estado atento a essa lição dos equilíbrios regionais…Logo depois, com Ali Bhutto (1973 – o pai de Benazir), estabeleceu-se um regime de quotas de admissão nas diversas componentes da administração pública que estabelecia que 50% dos admitidos e/ou promovidos deveriam vir do Punjab e da capital, Islamabad, 11,5% da Província da Fronteira do Noroeste (NWFP), 11,4% da Província do Sind rural, 7,6% do Sind urbano (refere-se à cidade de Karachi, onde há uma maioria de mohajirs*), 4,0% às áreas do Norte conhecidas pela designação de FATA*, 3,5% ao Baluchistão, 2,0% a Caxemira (a fracção sob controlo paquistanês) e 10,0% exclusivamente a critérios de mérito.
Os acontecimentos de 1971 serviram, por muitos anos, de alerta para que entre as cúpulas do Estado paquistanês houvesse uma aparência de equilíbrio entre as diversas nacionalidades que o compõem, não se tornassem eles a repetir. Dois dos casos onde esse equilíbrio era mais acautelado eram as cúpulas do sistema judicial e das forças armadas. Recentemente, devido às circunstâncias, ficou a sensação que Pervez Musharraf parece ter rebentado com esse equilíbrio ao alterar a composição do Supremo Tribunal. Citações no artigo do Washington Post dão a sensação que a percepção desse equilíbrio também está a desaparecer das forças armadas…É que no passado, na Jugoslávia, também os sérvios sempre tinham sido sempre (como acontece com os punjabis no Paquistão), por efeito da própria demografia, a nacionalidade predominante nas forças armadas federais… Mas as estruturas federais jugoslavas só começaram a falhar quando essas forças armadas acabaram por perder esse seu estatuto de imparcialidade na disputa política, ao terem de implementar pela força (na fotografia abaixo, um blindado destruindo um bloqueio rodoviário na Eslovénia em Junho de 1991), a coesão que deveria ser tacitamente aceite de forma pacífica pelos cidadãos da federação.
Não é de excluir que o artigo do Washington Post poderá estar a exorbitar o facciosismo com que as forças armadas podem estar a ser encaradas actualmente pelos vários agentes políticos paquistaneses, e também é verdade que as teias que dominam os centros de poder no Paquistão são complexas demais para se poderem explicar apenas pela lógica das fidelidades nacionais. Também os juízes afastados por Musharraf do Supremo Tribunal são predominantemente punjabis, assim como o são os quadros principais da Liga Muçulmana Paquistanesa (N) de Nawaz Sharif, três facções insuspeitas de simpatias recíprocas entre si…Mas é assunto a merecer atenção cuidada. Em 1991, como em 2008, se o exército federal (ou nacional) deixar de ser assim considerado então torna-se muito mau sintoma para a saúde da coesão do Estado…
*Mohajirs – imigrantes ou descendentes de imigrantes da Índia
*FATA – Federally Administered Tribal Areas
31 dezembro 2007
A POLÍTICA, ASSUNTO DE FAMÍLIA
Como de certa forma antecipei, apesar dos seus 19 anos, o filho de Benazir Bhutto, Bilawal, foi indicado para suceder à mãe à frente do Partido Popular do Paquistão (PPP). Não foi previsão arriscada de fazer. Em quase todos os despachos das agências noticiosas, divulgados imediatamente a seguir ao seu assassinato, devidamente transpostos como obituários para os vários órgãos da comunicação social e também afixados por alguns blogues aqui na blogosfera da mesma forma igualmente acrítica, se refere como Benazir Bhutto herdara o lugar do pai e se havia tornado a primeira mulher a governar um país muçulmano (1988).
É verdade, mas será daquelas verdades elementares, porque terá sido muito mais importante a antropologia prevalecente no subcontinente indiano para que Benazir tivesse alcançado aqueles lugares. Ali, a política é negócio de família, onde nem sequer existe discriminação dos sexos. É que, para além de Benazir Bhutto, entre os países mais próximos do Paquistão contam-se as seguintes antigas chefes de governo e/ou líderes políticas: Indira Gandhi e a sua nora, Sónia Gandhi, na Índia, Khaleda Zia e a sua grande rival, a Sheik Hasina, no Bangladesh, Sirimavo Bandaranaike e a sua filha, Chandrika Kumaratunga, no Sri Lanka*.
Mas, para quem pense em elaborar considerações sobre o elevado estatuto gozado pela mulher indiana, saiba-se que em todos os casos mencionados acima se tratou ou de viúvas ou de filhas de políticos predominantes**, que receberam os seus cargos por herança, embora haja que reconhecer – como aconteceu, de resto, com Benazir – que houve casos em que as filhas passaram à frente de filhos menos vocacionados para a actividade política. Mas não há ali histórias de mulheres de ferro, cuja ascensão na carreira política foi feita a pulso, como os casos de Golda Meir em Israel ou de Margaret Thatcher no Reino Unido…
Mudando radicalmente de assunto, mas ainda associado às superficialidades que por aí li escritas a respeito deste mesmo assunto do assassinato de Benazir Bhutto, é engraçado ler as considerações de José Pacheco Pereira sobre a mediocridade da blogosfera portuguesa… Ele e outros com a mesma visibilidade dele, parecem que estão habituados, enquanto cronistas de jornal, comentadores na rádio ou na televisão, à impunidade das trivialidades e ocasionais erros do que escrevem ou dizem, enquanto a blogosfera possui aquele enorme inconveniente de nivelar a produção de tais excelências democraticamente com o resto do meio que os cerca… Será que é isso que tanto o(s) incomoda?
* Numa perspectiva do subcontinente indiano, a pioneira a assumir a chefia do governo foi Sirimavo Bandaranaike no Sri Lanka, logo em 1960 (o primeiro caso no mundo), depois foi Indira Gandhi na Índia (em 1966), só depois foi Benazir Bhutto no Paquistão (1988), a preceder de muito pouco (1991) Khaleda Zia, no Bangladesh, outro grande país muçulmano. É essa a ordem das fotografias do poste.** Que, normalmente, faleceram de morte violenta…
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