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13 novembro 2018

A OCUPAÇÃO DE CONSTANTINOPLA

13 de Novembro de 1918. Desembarque dos primeiros contingentes aliados em Constantinopla, a capital do Império otomano. Os britânicos estão em franca maioria (2.616 efectivos - acima), mas franceses (540 - abaixo) e italianos (470 - mais abaixo) também se quiseram mostrar presentes. As tropas de ocupação chegarão a ser 50.000. Há cem anos, o momento não podia deixar de despertar evocações simbólicas - uma espécie de desforra - referente à data de 29 de Maio de 1453, 465 anos antes, dia em que a cidade fora conquistada pelos otomanos aos bizantinos.
Mas essa era apenas parte da História, e a parte da História que convinha evocar para aquela ocasião. Porque em 13 de Abril de 1204, a 714 anos de distância, portanto, já a mesma Constantinopla fora conquistada por um exército de cruzados vindo da Europa ocidental, um exército cuja composição - descontando os alemães, desta vez ausentes - muito se assemelhava à dos contingentes que há cem anos se exibiam, desfilando, perante os habitantes da milenar cidade imperial. A rematar, registe-se a discriminação: nem Berlim, nem Viena ou Budapeste virão a ser ocupadas...

02 outubro 2018

OUTRA CONQUISTA DE JERUSALÉM


2 de Outubro de 1187. Se a 15 de Julho deste ano se havia aqui assinalado a conquista de Jerusalém pelos cruzados em 1099 e em 11 de Dezembro passado o centenário da dos britânicos, é apenas proporcional assinalar no dia devido, mas agora do ano de 1187, a conquista da cidade pelos muçulmanos, comandados por Saladino. Todas estas conquistas tiveram a importância do seu tempo, assim como as actuais também deveriam ser equacionadas nessa mesma perspectiva, para que haja menos emoção e se possua um certo distanciamento sobre os factos: a supremacia europeia sobre a Palestina e o controlo de Jerusalém, local de peregrinação cristã, pelos cruzados, perdurou por 88 anos. E o Estado de Israel só ultrapassará essa duração a partir de 2036...

26 agosto 2018

A BATALHA DE CRÉCY

26 de Agosto de 1346. Teve lugar em Crécy aquela que foi primeira grande batalha da Guerra dos Cem Anos. O exército inglês de Eduardo III alcançou ali uma surpreendente vitória sobre o exército francês de Filipe VI. Tive o privilégio de visitar o local e o museu há cerca de uns dois meses. E esta evocação dedicar-se-á mais a essa visita do que à batalha propriamente dita. O museu, municipal, era simplicíssimo. É compreensível: tratando-se de uma derrota francesa, mesmo que - ou sobretudo... - em território francês, nunca deve ter havido generosidade nos financiamentos para a evocação de tal acontecimento funesto. Em contrapartida, e sublimando os meios, o acolhimento foi simpaticíssimo. Na foto acima, podemos ver, embora numa outra visita, aquele que foi o nosso anfitrião enlevado nas suas explicações diante de uma maqueta sobre os detalhes de como decorrera a batalha. No nosso caso, os visitantes eram bem menos (dois), mas terá havido mais participação da assistência e existe uma descrição, flagrantemente lisonjeira, de que a conversa, pluridisciplinar, empolgou visitantes e visitados. O que me mais me marcou a respeito da visita pode observar-se nesta fotografia abaixo: são aqueles 6 rectângulos verdes, onde se adivinham, mais do que se conseguem identificar, o desenho de setas vermelhas e azuis. Cada um dos 6 rectângulos é uma versão - autor identificado - de como pode ter sido a batalha de Crécy. Ou seja, nesta batalha travada há 672 anos, sabendo-se o essencial, há ainda muita latitude para presumir os detalhes. As certezas ficam para as reconstituições. E, pelo que aprendi, pela simpatia como fui acolhido, é da mais elementar justiça dar publicidade aos mais recentes apelos de financiamento daquele museu.

19 julho 2018

BATALHA DE ALARCOS

19 de Julho de 1195. Reinava em Portugal Sancho, o Povoador, então homem maduro com 40 anos de idade. E em terras de Castela-a-Nova o seu homólogo de Castela, Alfonso VIII preferia afrontar isoladamente as forças almóadas do califa Abu Iúçufe Iacube naquela que viria a ser conhecida pela batalha de Alarcos. Seria um risco para os castelhanos, mas muito maiores seriam os despojos para o vencedor em caso de vitória, não tendo que os repartir com as outras monarquias cristãs peninsulares: Aragão, Leão e Portugal. Para ser diferente das ilustrações que, nesta época, nunca são de época, vale a pena acompanhar a batalha numa reconstituição através do traço e da imaginação de William Vance, o autor que retratou esta batalha em 1974 para a sua série medieval Ramiro.

15 julho 2018

A CONQUISTA DE JERUSALÉM

15 de Julho de 1099. Conquista de Jerusalém pelos cruzados. Foi há 919 anos mas ainda ontem se assinou mais um cessar-fogo na região, embora não tenha a certeza que o problema seja ainda o mesmo...

04 julho 2018

O ÚLTIMO SULTÃO

4 de Julho de 1918. Com a morte do seu meio-irmão Mehmed V, ascende ao trono aquele que virá a ser o 36.º e último Sultão Otomano, Mehmed VI. Tinha 57 anos e a fotografia que acima dele se exibe não se pode dizer que seja a de um monarca arrebatador. Não pode existir imagem equivalente de Constantino XI, aquele que fora o 98.º e último Basileus dos Romanos, naquela mesma cidade de Constantinopla, no século XV. Mas talvez Constantino se assemelhasse a Mehmed, dois homens comuns vergados a uma inexorabilidade da História, que, 465 anos depois, essa mesma História, irónica e fatal, se preparava para, de algum modo, se reeditar.

10 junho 2018

O AFOGAMENTO DE FREDERICO BARBA RUIVA

10 de Junho de 1190. Neste mesmo dia de há 828 anos, o Imperador germânico Frederico Barba Ruiva (1122-1190) morre afogado num rio da Turquia quando chefiava um grande exército de cruzados que se encaminhava para a Terra Santa - a Terceira Cruzada. Se a data da morte é precisa, de acordo com as crónicas, todos os restantes pormenores do caso não o são. Não há consenso nem quanto ao local - o monumento da fotografia acima que o assinala é apenas uma das possibilidades - nem quanto às circunstâncias: o banho pode ter sido deliberado, pode ter sido acidental, o afogamento deu-se porque o imperador foi arrastado pela corrente ou porque sofreu um ataque cardíaco quando estava na água. Frederico tinha então 67 ou 68 anos, uma provecta idade pelos padrões medievais. Demonstrando como é fácil tomar o joio pelo trigo nestes acontecimentos muito antigos, refira-se que a gravura abaixo, constante na Sächsische Weltchronik (o mais antigo documento de história escrito em prosa em alemão), exibindo e descrevendo o afogamento de Frederico, foi escrito, na mais coeva das hipóteses, já 40 anos depois dos acontecimentos.
 

14 fevereiro 2018

OS JURAMENTOS DE ESTRASBURGO

14 de Fevereiro de 842. Dois dos pretendentes à herança dos territórios que haviam pertencido ao império de Carlos Magno, assinam um pacto que ficará conhecido pelo nome de Juramentos de Estrasburgo. O documento revestir-se-á de uma importância maior do que as circunstâncias políticas que haviam conduzido à sua elaboração. Por uma primeira vez (que se conheça) os juramentos que obriga as duas partes é bilingue, sendo uma das línguas um protofrancês que seria o idioma corrente entre os apoiantes de Carlos II, o Calvo (823-877, veja-se o mapa abaixo) e a outra um germânico renano que se depreende fosse o idioma de comunicação entre os apoiantes do meio-irmão, Luís I, o Germânico (806-876). O alvo da aliança era um terceiro irmão, o mais velho dos netos de Carlos Magno, Lotário I (795-855). Repare-se que Carlos o Calvo, então apenas com 19 anos e muito mais novo do que qualquer dos meios-irmãos (36 e 47 anos), não poderia ser mais do que o joguete de outros interesses do Ocidente mais latinizado da Europa, que, mesmo assim, conseguiram vingar. Com o Tratado de Verdun, assinado pelos três irmãos rivais um ano e meio depois (em Agosto de 843), as respectivas possessões foram definidas conforme aparecem no mapa abaixo. Mesmo numa época em que a questão das identidades nacionais, consubstanciadas em idiomas identificativos, estava muito longe de se colocar em cima das mesas de negociações, não deixa de se apontar a coincidência do traçado alcançado em Verdun repartir aquele que fora o império de Carlos Magno nas fracções que ainda agora constituem os núcleos das identidades francesa (Carlos), alemã (Luís) e italiana (Lotário). Mas também é evidente a fragilidade das possessões alcançadas por Lotário, num território que depois se veio a designar por Lotaríngia: trata-se de uma faixa de território que vai do Mar do Norte ao Mediterrâneo associando italianos com holandeses. Mas regressando a 1.176 anos atrás, percebe-se porque os Juramentos de Estrasburgo (por sinal, bem explicados na wikipedia em português), sendo um dos documentos fundadores da Europa, não é uma das etapas favoritas da construção europeia que a burocracia bruxelense goste de promover.

02 fevereiro 2018

A COROAÇÃO DE OTÃO, O GRANDE

2 de Fevereiro de 962. A mais conhecida cena histórica da ressurreição da coroa imperial do Ocidente no período medieval é a coroação (inesperada?) de Carlos Magno pelo papa Leão III no dia de Natal de 800. Mas esta outra coroação, que teve lugar há precisamente 1056 anos nessa mesma Basílica de São Pedro (antiga) onde a anterior tivera lugar, não lhe merece ficar atrás em notoriedade. Os sucessores de Carlos Magno não tinham estado à altura das expectativas atribuídas à recriação do ideal do soberano comum europeu, e a fraqueza progressiva dos titulares nesses 160 anos culminara até com a vacatura da dignidade desde 924, nos últimos 38 anos. Otão, então com quase 50 anos, tornara-se duque da Saxónia e rei da Germânia desde há 25 anos, conquistara mais outras regiões entretanto, e as regiões do Ocidente sobre as quais ele exercia a usa hegemonia (mapa mais abaixo, com o traçado das fronteiras actuais), não se comparando com as de Carlos Magno,...
...tornavam-no, apesar de tudo, o senhor indisputado do Ocidente e o sucessor natural do Imperador franco. O papa que coroou Otão chamava-se João XII, teria uns 25 anos, não seria um papa muito conforme os padrões actuais para os titulares daquele cargo, quanto à coroa imperial, é a que se pode apreciar acima, hoje guardada em Viena. Se a herança da figura de Carlos Magno é compartilhável por franceses, alemães e italianos, Otão o Grande é uma figura histórica cujo percurso enfatiza a importância que ele atribuía à última palavra da designação de Sacro Império Romano Germânico. Deixou-se coroar em Roma, porque lhe dava jeito o prestígio e, aliás, estava de visita a Itália, em conquistas. Logo no ano seguinte (963), aborrecido com as suas intrigas, depôs o papa. É assim que, por exemplo, passe a erudição e mesmo que já tenha transcorrido mais de um milénio, faz sentido atribuir a pessoas como Wolfgang Schäuble e a muitos que pensam como ele, uma perspectiva otónida da unidade europeia...

01 fevereiro 2018

O PAN-ARABISMO


1 de Fevereiro de 1958. O Egipto e a Síria proclamavam a sua união numa nova entidade política designada por República Árabe Unida. O ideal da unificação dos países árabes sob a égide de Nasser soava extremamente apelativo para as suas populações: a fusão fora votada favoravelmente por 92% dos sírios e nas monarquias adjacentes (Arábia Saudita, Iraque ou Jordânia) vacilava-se nas adesões, diante do chamamento romântico à reconstrução daquele que fora o império do século XII de Saladino (mapa abaixo). Os novos cruzados do século XX eram, evidentemente, os israelitas, que, 770 anos depois, havia que expulsar novamente de Jerusalém e da Terra Santa. Contudo, rara é a História que se reescreve. Neste caso, as elites sírias rapidamente se viram subjugadas aos interesses superiores do Egipto e a ressentir-se com isso. A 28 de Setembro de 1961 um golpe de Estado na Síria pôs fim à breve experiência. É importante notar que a religião islâmica desempenhou um papel muito secundário nesta efervescência pan-árabe de há sessenta anos.

22 novembro 2017

A BULA «PASTORALIS PRAEEMINENTIAE»

22 de Novembro de 1307. Com a publicação da bula «Pastoralis Praeeminentiae» o papa Clemente V (o francês Bertrand de Got) ordenava a todos os reis da cristandade que procedessem quer à prisão de todos os membros da Ordem dos Templários presentes nos seus reinos, quer ao sequestro de todos os terrenos e bens da Ordem. Com a bula, Clemente procurava associar-se (para o tentar controlar) ao processo que o rei Filipe-o-Belo, lançara no mês anterior (13 de Outubro) contra esses mesmos templários em França. Nascida como uma Ordem militar religiosa no século XII, a Ordem dos Templários era aquilo que de mais parecido haveria com uma multinacional moderna no século XIV, mas haviam perdido a sua principal fonte de financiamento com a queda da última possessão cristã na Palestina em 1291. Com isso, tiveram que diversificar a sua actividade: os capitais que antigamente eram destinados principalmente ao financiamento do comércio levantino passaram a ter como destino as necessidades da coroa francesa. A França do dealbar do século XIV era indiscutivelmente o reino mais importante e desenvolvido do Ocidente cristão. Mas a concentração das aplicações num grande cliente foi o grande erro do também francês Jacques de Molay, o 22º e último grão mestre da Ordem: é que uma instituição nunca pode emprestar demasiado dinheiro a uma outra que seja mais poderosa que a sua. Não só deixa de ter instrumentos de pressão para recuperar o crédito malparado, como surge a tentação do devedor resolver a dívida extinguindo o credor - como tantos banqueiros do período medieval descobriram à sua própria custa. Muito se crítica Clemente V pela publicação desta bula há 710 anos, mas, para mim, ela é apenas demonstrativa de uma evidente lucidez política quanto à força dos intervenientes. Afinal, Filipe IV e Guilherme de Nogaret, apenas haviam precisado de capturar 232 membros (138 em Paris e 94 no resto de França) para se apropriarem de todo o património dos Templários e, actualmente, em querendo, com muito menos detenções seleccionadas qualquer poder político determinado toma conta de uma grande multinacional...

15 novembro 2017

JOÃO O PÓSTUMO

15 de Novembro de 1316. Em França nascia e começava imediatamente a reinar o filho póstumo de Luís X o Teimoso (1289-1316) e de Clemência da Hungria (1293-1328). Sem que existissem as modernas ecografias, e com a morte inesperada de Luís X apenas com 26 anos no mês de Junho, todo o reino ficara suspenso por cinco meses para saber qual seria o sexo do bebé da rainha. Entretanto, o irmão mais velho do rei, Filipe o Comprido (1293-1322), assumira a regência do reino. E é com este enquadramento que se chega a este dia de há 701 anos, em que se fica a saber que a França tem um novo rei (se fosse uma menina, a questão política seria mais complicada pois havia um partido na corte disposto a invocar a lei sálica, que excluiria as mulheres da sucessão ao trono). Deram ao bebé o nome de João e assim seria o primeiro rei com esse nome a reinar em França. Mas, nesses tempos medievais, onde se registavam elevadíssimas taxas de mortalidade perinatal, João I o Póstumo (1316-1316) não estava destinado a notabilizar-se nos livros da História: morreu com cinco dias de vida, a 20 de Novembro e foi o tio a herdar o trono como Filipe V de França. Nos milhares de relatos dos feitos de um reinado que haja por esse mundo fora, dificilmente haverá outro que se possa reduzir o comportamento do monarca às funções mais elementares como as do reinado de cinco dias de João I de França: mamou, chorou e sujou algumas fraldas...

25 outubro 2017

A BATALHA DE AZINCOURT

25 de Outubro de 1415. Trava-se, no norte de França e ainda no quadro da Guerra dos Cem Anos, a Batalha de Azincourt. O resultado foi uma vitória clamorosa para os ingleses que foram comandados no terreno pelo seu rei Henrique V de Lencastre (1386-1422). Para além do desfecho, que se tornou um dos grandes feitos das armas inglesas, o que esta batalha possui de distintivo é a data em que ocorreu, já entrados em pleno Outono, com o Estio e a época tradicional das campanhas militares medievais há muito ultrapassada. Henrique V iniciara a sua campanha em 13 de Agosto, quando desembarcara o seu corpo expedicionário em França e pusera cerco ao porto francês de Harfleur. Quase simultaneamente e em Portugal, o rei João I de Avis (que até era casado com a sua tia Filipa), fazia precisamente o mesmo com Ceuta, no norte de Marrocos. Só que o desfecho em Ceuta foi rápido: caiu logo em 21 de Agosto de 1415. Pelo contrário, Harfleur resistiu e só se veio a render a Henrique um mês depois (22 de Setembro). O resto da campanha do corpo expedicionário inglês é um exercício de perseverança do monarca, quando todas as boas práticas lhe recomendariam que evacuasse as suas tropas antes que, com o fim do Verão, se levantassem problemas logísticos insuperáveis de as reabastecer. De uma certa maneira, o gesto francês de oferecer batalha aos ingleses tão tarde quanto 25 de Outubro, veio salvar a intransigência de Henrique V, salvando-lhe a face e proporcionando-lhe ainda por cima uma jornada militar gloriosa. Apesar disso, os ingleses terão sido ingratos: um dos episódios mais controversos da batalha de Azincourt foi a decisão inglesa de matar os prisioneiros, o que era contrário às convenções da guerra de então (os prisioneiros costumavam ser resgatados). É um episódio que ainda hoje se revela controverso, veja-se a forma distinta como é narrado na wikipedia em inglês e em francês.

17 julho 2017

O MITO DO PARAÍSO ANDALUZ

«Córdova, que conta actualmente 326 600 habitantes (2016), tinha na Idade Média, a acreditar-se na tradição árabe, meio milhão. Ainda que toda a população da actual Península Ibérica não ultrapassasse 40 milhões de habitantes, só a Andaluzia, no tempo do califado, contava 34 milhões. Com as suas 600 mesquitas, numerosos banhos públicos, bibliotecas (sendo a do califa, com as suas 500 000 obras, a mais importante). Córdova era a Damasco do Ocidente. De noite a cidade era iluminada com lanternas. Setecentos anos mais tarde, o londrino que circulasse de noite precisaria de transportar a sua própria luz. As ruas de Córdova estavam pavimentadas. Séculos mais tarde, o mais pequeno aguaceiro ainda transformava as ruas de Paris num lamaçal. A Mesquita de Córdova, com a sua floresta sem fim de pilares de mármore e de jaspe, ultrapassava, em importância e magnificência, todos os templos muçulmanos do Oriente.»

Carl Grimberg. História Universal, Vol. 6, p. 114
O Al-Andalus, o estado muçulmano edificado na Hispânia europeia desde o Século VIII até aos finais do Século XV, sempre gozou de um estatuto especial benigno na forma como os historiadores ocidentais o descreviam quando em comparação com os outros estados islâmicos daquela e de épocas posteriores. Aprecie-se esta descrição acima de Córdoba, feita nos anos imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial por um historiador sueco. Mesmo para um historiador vindo do extremo boreal da Europa, o califado andaluz, cujo apogeu terá sido alcançado sob Abderramão III (912-961), representaria a versão mais europeia e mais sincrética do islão. Daí a transformá-lo num modelo de convivência entre comunidades religiosas seria apenas um passo mas também uma necessidade de coerência discursiva para a historiografia europeia. O Al-Andalus era tomado como um exemplo de tolerância religiosa, o que pôde levar a excessos interpretativos quando não se tiveram cuidados com o entendimento a atribuir à palavra “tolerância”, indispensáveis quando num contexto medieval. As tendências de há 80 anos agudizaram-se com o alargamento das ciências sociais do após-guerra e o alvo primordial de Os Mitos do Paraíso Andaluz são as descrições descabeladas mais elaboradas de uma sociedade andaluza que acabou descrita tão cosmopolita que até há quem lhe consiga encontrar analogias com a Califórnia do século XXI, nomeadamente no que se refere à emancipação das mulheres e à assunção pública da homossexualidade masculina! É giro, até pode dar um bons artigos de imprensa, mas é um disparate e quando Darío Fernández-Morera desmonta tais ideias disparatadas fá-lo com propriedade porque é ele que ocupa o lado da razoabilidade argumentativa.
Mas se a razão assistirá à tese central de Os Mitos do Paraíso Andaluz, de que “La Convivencia” não se reveste de todos aqueles aspectos benignos de como essa tese costuma ser apresentada, também fiquei com a impressão que o formato escolhido, combativo e recriminador, para a rebater deixou imenso a desejar. Por causa de erros factuais clamorosos cometidos pelo autor quando, por exemplo, dá para exemplo correlativo da mudança da toponímia local pelos conquistadores árabes o caso de Istambul, cidade que mudou de nome mas apenas 350 anos depois da sua conquista pelos turcos e, mesmo aí, por iniciativa de Kemal Ataturk, que é o paradigma do laicismo de todo o mundo islâmico. Ou então quando baralha as classificações das línguas e aparenta os góticos que seriam o idioma dos visigodos com os neo-latinos praticados pelas populações hispânicas durante o processo de formação do estado visigótico na Península (século V). Também por causa de flagrantes erros de omissão: um português consegue acabar de ler aquele livro sem ocupar os dedos de uma mão com referências ao seu país ou então encontrando relatos referentes ao território que veio a ser ocupado por Portugal. Numa das poucas referências e como é quase tradição nos livros anglos, os nossos reis Afonsos tornam-se... Alfonsos. E esta constatação é tanto mais irónica quando se descobre que o departamento onde Darío Fernández-Morera lecciona na Northwestern University é o Department of Spanish & Portuguese... Mas onde a gravidade dos erros se destaca é naqueles que ele assume por descontextualização. Só muito relutantemente o autor vai admitindo que ao longo dos quase 800 anos abrangidos pelo livro se multiplicaram exemplos de dhimmis (cristãos e judeus) a serem chamados pelos monarcas para ocuparem os postos mais importantes da governação. O próprio Darío Fernández-Morera explica que a causa para tal nada teria a ver com a tolerância, antes uma forma de neutralizar o poder das facções em que normalmente se desdobravam as sociedades árabes (e berberes). Mas a verdade é que, apesar dos protestos das elites religiosas e das reacções negativas que se adivinham das camadas inferiores dessa própria população muçulmana, os monarcas hispânicos recorriam a esse género de solução com uma frequência que era desconhecida na Síria, no Egipto, no Iraque, em todos esses sítios onde houve outras cortes califais contemporâneas.
Porém, o processo escolhido por Darío Fernández-Morera é o de dar preferência à documentação e aí, toda aquela que sobrevive acaba por estabelecer a predominância da produção intelectual, sobretudo religiosa. E a sociedade que os ulemás queriam estabelecer não se orientava (como seria de esperar) pelas regras da tolerância religiosa e do pragmatismo político. Um exemplo interessantíssimo é o de Averróis (que o autor não se esquece de designar pelo seu nome árabe - Ibn Rushd – sempre que a ele se refere), que foi um filósofo muito estudado e acarinhado a Ocidente nesse segundo papel, mas que também foi um ulemá zeloso e aí bastante distinto da impressão causada pelo filósofo – no livro faz-se um ferino acompanhamento dos seus comentários sobre variados temas: a jihad (p.26), a apostasia (p.100), o roubo (p.103), as bebidas alcoólicas (p.105), o adultério (p.145), (a condição d)as mulheres (p.156). Defender a tolerância durante “La Convivencia” torna-se um exercício bastante ingrato, para mais quando o leitor tem como referência as democracias ocidentais do século XX. O que se preservou escrito para a posterioridade foram um conjunto de regras do que os seus autores achavam que devia ser a sociedade islâmica ideal, subordinada aos ensinamentos de Alá, e não aquilo que a sociedade islâmica da Hispânia terá sido de facto, nos seus compromissos. É como tentar aferir da razoabilidade das políticas financeiras de Portugal nos últimos 20 anos a partir dos programas de televisão do professor Medina Carreira... E, no entanto, estas revisões em baixa dos valores integradores da civilização islâmica têm-se acentuado a partir dos inícios do século XXI. Mesmo descontando a propensão para a polémica de Darío Fernández-Morera, há aspectos por ele mencionados no livro que só se estranha que só agora estejam a ser investigados com mais rigor. Por exemplo, a tese de que muito do conhecimento da Antiguidade só chegou até nós por ter sido preservado pelos árabes era algo que sempre foi, pelo menos, controverso. Como ali se demonstra num caso em particular, muitas e as melhores traduções que terão chegado ao Ocidente dos clássicos, se não haviam permanecido por cá preservadas durante toda Idade Média, terão chegado depois, no tempo das cruzadas e traduzidas directamente do grego para o latim pela via do Império Romano do Oriente.
 
Os Mitos do Paraíso Andaluz é um livro polémico no sentido académico. É demasiado curto (240 páginas) para aquilo que ambiciona: analisar com profundidade 800 anos de presença muçulmana na Hispânia e desmontar um discurso edulcorado a respeito desse período. Está apresentado de uma maneira demasiado assertiva para não o considerar trendy no revisionismo de tudo o que tenha a ver com o Islão. Será esse revisionismo oportuno? Eu quando ouço o Xeque Munir a esgueirar-se como uma enguia besuntada de manteiga para não condenar os atentados feitos em nome da sua religião, tendo a concordar que sim, apesar de todas as suas limitações.

26 setembro 2016

A (FALSA) QUESTÃO DAS INVESTIDURAS DO SÉCULO XXI

Costumava ser perante vitórias de partidos de esquerda, aconteceu mais recentemente com o Brexit e agora, pelos vistos, passou a ser com Donald Trump, visando a ala ultra direita do espectro político. Ao menos reconheça-se o seu ecletismo. O método (recorrente) consiste em invocar as reacções adversas das bolsas (também conhecidas por «os Mercados») para mostrar qual é o lado certo e o errado de uma disputa eleitoral que se aproxima. O expediente faz lembrar na aparência a questão medieval das Investiduras que, entre 1076 e 1122, colocou em confronto o poder temporal do imperador e o poder espiritual do papa. Se então houve a necessidade de separar aquilo que era de César daquilo que era de Deus, actualmente quem promove estas notícias não quer clarificar a linha divisória entre o que é política e o que é economia. O tempo veio demonstrar que o poder espiritual era mais uma construção ideológica do que uma realidade: o imperador Frederico II, por exemplo, recuperou Jerusalém na sexta Cruzada (1229), apesar de à época estar excomungado pelo papa... A excomunhão não o impediu de alcançar um grande triunfo político e diplomático. Como outrora seria pretensão dos papas, pretender-se-á agora que haja uma certa espiritualidade orientadora ou sancionatória no comportamento das bolsas antes ou depois dos resultados eleitorais. As bolsas não gostam de Trump. A verdade é que essa verdade só se torna verdade para aqueles que têm fé n'«os Mercados». Circunstancialmente até poderá acontecer o inverso e os fiéis podê-lo-ão aproveitar para cabeçalho, mas estruturalmente compete às bolsas seguir o comportamento da economia real - e não o contrário. É por isso, por exemplo, que a ausência de notícias sobre o comportamento da bolsa de Londres depois do Brexit é o mais eloquente dos silêncios, depois do que se escreveu quando da votação...

05 setembro 2016

O EXTREMO DA GRANDE MURALHA DA CHINA

Quando se contempla uma obra como a Grande Muralha da China, é apenas natural que a curiosidade que nos surja quase de imediato seja a de saber onde e como é que ela acaba. A grandiosidade e qualidade das construções podem-se ir degradando gradualmente à medida que a muralha se perde a Ocidente nas estepes da China central, mas a Oriente tem de haver um local onde a Muralha chegue ao mar. Esse local é conhecido por Shanhaiguan (à letra portão de Shanhai), embora o local preciso tenha o nome de Laolongtou, conforme se lê no mapa acima.
Pode-se fotografar o local sob chuva e bruma, conferindo-lhe uma certa aura mítica, mas a realidade de fotos captadas em dias mais solarengos acaba por despojar o local da solenidade a que a Muralha da China tradicionalmente nos induz. Dá para perceber quanto a construção era afinal um caríssimo instrumento de propaganda interna, pois naquele local com bonança e numa baixa mar, os temíveis invasores mongóis poder-se-iam ter descalçado, arregaçado as calças, e contornado a formidável construção assim como quem se dispõe a ir às conquilhas...

30 março 2016

A BATALHA DE TALAS (751)

No Verão de 751 os exércitos muçulmano e chinês defrontaram-se directamente pela primeira e última vez no vale do rio Talas, perto da actual cidade cazaque de Taraz (embora já em território que hoje faz parte da Quirguízia). Os árabes venceram a batalha mas as fontes que relatam a batalha são predominantemente chinesas. As elites dirigentes pertenciam aos grupos mencionados (com a curiosidade adicional do general chinês ser de origem coreana) mas os contingentes envolvidos na batalha seriam predominantemente locais, povos iranianos e turcos, antes de se islamizarem. Como costuma acontecer, os participantes não se terão apercebido do significado simbólico do embate. As móveis formações árabes não prosseguiriam a sua expansão militar pela Rota da Seda até ao Sinkiang e pelo Deserto de Gobi. Por seu lado, as preocupações chinesas com a expansão para Ocidente sofreriam uma pausa que duraria todo um milénio. Nem mesmo a desforra militar que se impunha ao Imperador Xuanzong (da dinastia Tang) promover acabou por ter lugar, por causa da eclosão da revolta de An Lushan em 755. Do outro lado, também os Califas Omíadas haviam sido substituídos pelos Abássidas.
Esta Batalha do rio Talas travada em pleno coração da Ásia terá o mesmo significado simbólico que a Batalha de Poitiers, travada no Outono de 732 (19 anos antes) em pleno coração da Europa, quando os exércitos francos derrotaram os seus homólogos árabes que procediam à sua característica expansão militar no extremo ocidental do vasto território já subjugado à dominação muçulmana. Há quase 5.500 km a separar os dois locais mas, se as consequências da vitória de Carlos Martel são razoavelmente conhecidas no Ocidente, as da derrota de Gao Xianzhi são quase completamente ignoradas. Numa altura em que tanto se discute a relativização da importância atribuída às notícias conforme a localização geográfica do local onde ocorrem - se os mortos de Bruxelas são mais importantes do que as vítimas do terrorismo de outros locais mais distantes, por exemplo - forçoso é reconhecer quanto o fenómeno da distorção das importâncias relativas dos temas é antigo. Seria desejável e eu seria dos primeiros a corrigi-lo, mas tenho que reconhecer que a exigência de que que haja uma globalização equilibrada sobre a importância absoluta das notícias parece-me fenómeno que não esteja para ocorrer assim tão depressa...

04 março 2015

AS VIRTUDES TERAPÊUTICAS DA AUDIÇÃO DO CANTO GREGORIANO


Se eu o designar por exercício de relaxamento e de notar que há que lhe dedicar apenas um pouco mais de seis minutos do vosso tempo, suponho que reforçarei a argumentação para o convite a que ouçam este pequeno Te Deum, para que com ele sintam as virtudes terapêuticas da audição do canto gregoriano. Não terão sido por acaso os vários séculos que este género musical esteve na moda.

24 janeiro 2014

A CRISTOLOGIA DO NOSSO TEMPO

Contrariamente ao que eventualmente se possa imaginar, os cidadãos romanos dos Séculos V e VI eram pessoas civicamente muito conscientes. O que nos pode parecer hoje bizarro é a expressão desse civismo, que se exprimia em posições muito firmes e convictas sobre as grandes controvérsias da Cristologia. A figura de Jesus Cristo, a existência (ou não…) de duas naturezas (humana e divina) na sua pessoa, foram (apresentados aqui de uma forma excessivamente simplificada) pretextos para controvérsias acérrimas, que todo o cidadão atento devia acompanhar (ou fingi-lo…) por causa das suas implicações políticas sérias. Um equivalente actual, tanto pelo exotismo como pela impenetrabilidade, serão as yields da nossa dívida pública.
Como acontecia com os teólogos de há 1500 anos, também no caso da formação e evolução das cotações das dívidas dos países soberanos, a compreensão do fenómeno estará reduzida a uns quantos eleitos, embora todo o cidadão se farte de mandar palpites (de preferência com ar grave e circunspecto), quando, na verdade, todos nos mostramos inseguros quanto aos alicerces daquilo que verdadeiramente sabemos sobre o assunto: quase nada. Tanto assim é que, ainda na Terça-Feira, os jornais destacaram cabeçalhos dedicados à quebra da fasquia dos 5% (acima) quebra que depois os gráficos da Blomberg (fonte primária para esse tipo de informações) não corroboraram (abaixo), mas a contradição nem sequer parece despertar celeuma…

19 dezembro 2013

DIZ-ME O QUE COMEMORAS, DIR-TE-EI…

Nos últimos dois séculos Carlos Magno foi uma figura histórica ambivalente, dividido entre as suas raízes culturais indisputavelmente germânicas e as suas ambições políticas imperiais inequivocamente latinas, aprecie-se uma das suas únicas imagens de época num denário cunhado na cidade alemã de Mogúncia já no final do seu reinado (812/814). Esse carácter híbrido franco-alemão fez dele peça de propaganda tanto de Napoleão Bonaparte para atrair alemães como de Adolf Hitler para atrair franceses, além de figura privilegiada à volta da qual o aparelho de Bruxelas ainda pretenderá(?) promover o ideal europeu.
Em 2014 comemorar-se-ão os 1200 anos da morte de Carlos Magno, ocorrida em 28 de Janeiro de 814 em Aquisgrano (Aachen em alemão e Aix-la-Chapelle em francês), a cidade alemã que o imperador elegeu como capital e que foi por isso escolhida para acolher as iniciativas associadas às comemorações. Simbólica e significativamente as iniciativas alemãs impõem-se e as francesas distinguem-se pela ausência. Os esforços destes últimos para 2014 parecem ter-se deslocado para a comemoração de um outro centenário: o do início da Primeira Guerra Mundial em 1914. É outro género de comemoração: menos ambivalente.