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22 janeiro 2019

O ASSASSINATO DO COMANDANTE OPERACIONAL DO SETEMBRO NEGRO


22 de Janeiro de 1979. Quem visse estas imagens recolhidas pela Associated Press no dia seguinte numa rua comercial de Beirute, com carros destruídos e edifícios danificados, jamais se poderia aperceber da importância do que ali acontecera. Ali Hassan Salameh (1940-1979) era o chefe de operações da organização palestiniana Setembro Negro cuja notoriedade mundial se produzira seis anos e meio antes (no Verão de 1972), ao patrocinar o sequestro em Munique da delegação israelita aos Jogos Olímpicos. A retaliação engendrada pelos israelitas sobre os autores do que veio a ser um massacre dos reféns, veio a ser popularizada pelo filme Munich de Steven Spielberg (2005). Mas nem mesmo esse filme exibe a operação retaliatória israelita de há quarenta anos contra Ali Salameh, aquele que terá sido o principal responsável operacional pelo que acontecera em Munique. A carrinha Chevrolet em que ele seguia naquela tarde (15:35) com os seguranças, passou mesmo ao lado de um Volkswagen carocha carregado com 100 kg de explosivos, que foram detonados à distância à sua passagem por um agente do Mossad. Quatro guarda-costas de Salameh e mais quatro transeuntes morreram na explosão. O visado ainda sobreviveu mas, apesar de transportado de imediato para um hospital, morreu meia hora depois enquanto estava a ser operado. Outras dezasseis pessoas ficaram feridas. A casualidade como os afectados parecem lidar com a situação no vídeo acima explica-se pelo facto de, desde há quatro anos, o Líbano viver uma destrutiva guerra civil em que tais incidentes eram comuns. O tempo veio demonstrar que Ali Hassan Salameh fora também um canal de comunicação entre a OLP e a CIA, e, por causa disso (mas não só...), especula-se que esse estatuto o terá levado a pensar que o colocaria razoavelmente a coberto das intenções vingativas dos israelitas. Enganou-se. Nas notícias do dia seguinte (abaixo), a OLP, numa raiva despeitada, proclamava que «decidira intensificar a luta contra Israel». E então?...

24 julho 2015

UMA GUERRA QUE RECORDO CONSUMIDA EM CAPÍTULOS DIÁRIOS, COMO UM FOLHETIM

Em 2006, a segurança e defesa de Israel revestia-se de alguns aspectos inéditos na sua História curta mas atribulada: a) Pela primeira vez, tanto as posições de primeiro-ministro (Ehud Olmert, acima ao centro) quanto a de ministro da Defesa (Amir Peretz, acima à direita) eram ocupados por políticos que, tendo cumprido o seu serviço militar como é obrigatório em Israel, não possuíam qualquer prestígio adicional junto das instituições militares; e b) pela primeira vez, o chefe de Estado-Maior do Tsahal (Dan Halutz, acima à esquerda) era oriundo da força aérea (Heyl Ha’Avir), um piloto de caça a quem haviam sido averbadas 3 vitórias em combate durante a Guerra do Yom Kippur de 73 e que chegara ao cargo disposto a incorporar na táctica israelita a doutrina contra subversiva da USAF então adoptada pelos norte-americanos. Derivada também da teoria dos cinco anéis de Warden¹, o modelo ganhara em Israel o imaginativo nome de baptismo Abutres sobre Serpentes, sendo estas últimas organizações como o Hamas ou a Fatah na Palestina e o Hezbollah no Líbano.
Nos finais de Maio de 2006, culminando o que fora até aí uma escalada de incidentes ao longo da fronteira entre Israel e o Líbano, a situação passou para um conflito aberto e assumido entre o Tsahal e o Hezbollah, travado especialmente junto à posição táctica conhecida pelas quintas de Chebaa (mapa abaixo). Foi a oportunidade para que o Tsahal testasse a sua nova doutrina. Com sucesso aparente. Em 48 horas (27 e 28 de Maio) um encadeamento de bombardeamentos de aviação e de artilharia israelitas esmagaram as posições ocupadas pela milícia xiita. Em termos de doutrina, a facção que defendia a nova táctica parecia superiorizar-se à facção rival, que lhe apontava os defeitos que a actuação dos Estados Unidos no Iraque próximo teria evidenciado em anos de resultados indecisos.
Contudo mês e meio depois, a 12 de Julho, tudo recomeçou. Foi o Hezbollah a tomar a iniciativa, quando montou uma emboscada a um destacamento israelita em patrulha ao longo da fronteira, emboscada durante a qual os israelitas perdem oito homens e um carro de combate Merkava. Ao mesmo tempo desencadearam um bombardeamento de rockets desde território libanês sobre centros populacionais israelitas. Mas o pior, em termos de imagem junto da opinião pública israelita, foi a captura de dois soldados – Ehoud Goldwasser e Eldad Regev – um gesto que denuncia a intenção do Hezbollah em provocar deliberadamente o Tsahal. É que duas semanas antes (28 de Junho) fora o Hamas palestiniano a fizer precisamente o mesmo: capturara e sequestrara um outro soldado israelita – Guilad Shalit – na Faixa de Gaza. Aí Israel mostrara o seu ponto fraco ao reagir desproporcionadamente à captura de um dos seus, invadindo militarmente Gaza, capturando no processo 64 dirigentes do Hamas, entre os quais se contavam 8 ministros da Autoridade Palestiniana, para os permutar pelo desaparecido. Com esse comportamento, e estabelecido o padrão, as decisões do alto comando israelita daí por diante pareciam tornar-se refém da sorte de um punhado de soldados aprisionados – por cá, não é raro ver órgãos de informação embarcarem na manipulação semântica israelita e ler que os seus soldados não são capturados, são raptados...
Foi por isso que Hassan Nasrallah, o dirigente do Hezbollah (acima), teria a certeza absoluta que, com aquele rapto, iria provocar a quinta invasão israelita do Líbano² em 28 anos, que começou nessa mesma tarde de 12 de Julho, com a Operação militar a receber o nome de Punição Adequada. Sem ser particularmente numerosa, o Hezbollah constituirá à época a mais eficaz das milícias libanesas, num país que não possuía verdadeiramente um exército nacional, antes várias milícias que correspondem às várias confissões religiosas do país. Com cerca de 2.000 combatentes (uma parte deles veteranos da anterior invasão e ocupação israelita que tivera lugar entre 1996 e 2000), outros 2.000 reservistas e ainda uns 6.000 irregulares, apresentava-se razoavelmente bem equipado quanto a armamento ligeiro, mas estava preciosamente bem equipado quanto ao equipamento mais pesado e também estava rigorosamente bem posicionado quanto à implantação no terreno porque passara os últimos 6 anos a preparar-se para um e só um cenário de guerra: a invasão israelita que estava prestes a repetir-se. Entre o material mais pesado possuía várias centenas de misseis anticarro de última geração destinados a contrariar as colunas blindadas do Tsahal. As suas posições defensivas haviam sido preparadas com enorme antecipação para contrariar os preceitos tácticos do Tsahal já conhecidos das invasões anteriores. Mas o grande recurso do Hezbollah eram os seus paióis repletos com 13.000 rockets de calibres vários (abaixo) para lançar sobre Israel, quais bandarilhas para cravar no dorso de um touro, incitando-o a investir, assegurando-se do controle das intenções do inimigo. Enquanto aqueles rockets continuassem a ser arremessados sobre Israel o Tsahal não poderia suspender as suas operações. Além disso, apesar de ter a reputação de uma milícia irregular, veio-se a descobrir que o Hezbollah possuía o aconselhamento técnico de quadros iranianos.
A Punição Adequada começou por uma conjugação de operações aéreas e navais envolvendo todo o Sul do Líbano numa espécie de carapaça dentro da qual eram interditas as movimentações. O aeroporto de Beirute, uma vintena de pontes e os principais eixos rodoviários foram seleccionados comos alvos pela aviação em complemento a um dispositivo naval que bloqueou o acesso por mar a qualquer ponto do litoral libanês a Sul de Beirute. O Hezbollah porém, não precisou de reabastecimentos logísticos para começar a visar com os seus rockets as cidades do Norte de Israel especialmente o porto de Haifa (a terceira cidade de Israel com cerca de 250.000 habitantes), onde vivia (e vive) uma importante minoria de árabes cristãos (um pouco menos de 14% da população total). Na semana que se seguiria a cidade viria a ser atingida com 93 rockets enquanto se despovoava de quase metade da população. Mas, sem qualquer precisão e causando um total de 11 mortos, os danos que os rockets causavam eram muito mais intangíveis na imagem do suposto poder de Israel. Coisa diferente eram operações como a desencadeada na noite de 14 para 15 de Julho em que um missil C-802 anti-navio atingiu uma das corvetas israelitas – a Hanit (abaixo) – encarregadas de bloquear a costa libanesa, incapacitando-a e causando-lhe 4 mortos entre a tripulação.
Numa espécie de compensação pelas deficiências do seu serviço de informações que não antecipara tal tipo de equipamento de origem chinesa (fornecido via Irão) na posse dos milicianos do Hezbollah, os raids aéreos israelitas registaram uma escalada no dia seguinte, tendo agora como alvo objectivos nos bairros do Sul de Beirute e o seu porto. Os bombardeamentos da aviação israelita tornaram a situação intolerável no Sul do Líbano de onde, por instigação dos israelitas, a população começou a fugir, num êxodo de mais de meio milhão de pessoas. Mas, por outro lado, ao conseguir continuar a lançar uma média diária de várias dezenas de rockets sobre as povoações do Norte de Israel, o Hezbollah conseguiu criar condições de instabilidade simétricas que provocaram o mesmo género de deslocação das populações israelitas.

Após uma semana de raids aéreos, a aviação israelita havia atingido todos os objectivos pré-determinados – os quartéis-generais conhecidos do Hezbollah assim como as suas rampas de lançamento dos rockets de maior alcance, a central eléctrica que servia o sul do Líbano, as pontes da rede rodoviária da região, o trânsito de viaturas pesadas estava interdito – sem que esse sucesso se visse reflectido na forma como as opiniões públicas em Israel e no Mundo apreciavam a situação: bastavam as filmagens da rotina diária de uma qualquer equipa de reportagem televisiva para ali destacada, mostrando a queda de um punhado de katyusha de 122 mm sobre uma qualquer povoação da Galileia (acima) para subverterem toda a cuidada planificação do Estado-Maior israelita. É nessas circunstâncias que o Estado-Maior decide proceder a uma inflexão, consagrada na mudança do nome da Operação, que deixa de ser a Punição Adequada para se tornar na Mudança de Direcção. A nova direcção é produzir um encadeado de raids terrestres em território libanês dirigidos sobre objectivos de valor simbólico para o inimigo. 
 
Era o caso exemplar da vila de Bint Jbeil. Fora ali que, em 2000 e após a retirada israelita do Sul do Líbano depois de 18 anos de ocupação, o xeque Hassan Nasrallah pronunciara o seu discurso de vitória. A enumeração das unidades israelitas que acabaram envolvidas na Mudança de Direcção veio dar a impressão de se terem mobilizado um conjunto de meios muito respeitável: cinco brigadas blindadas (7ª, 14ª, 188ª, 401ª e 500ª), duas brigadas de pára-quedistas (35ª e 226ª) e ainda quatro brigadas de infantaria mecanizada (Alexandroni, Givati, Golani e Nahal). Teoricamente estar-se-ia a falar de 45.000 efectivos, mas a escala dos combates, embora tenazes, foi substancialmente inferior: a ofensiva de 26 de Julho contra a vila de Bint Jbeil envolveu duas brigadas, a 35ª e a Golani e saldou-se por duras perdas dos dois lados mas a contagem dessas perdas duras (9 mortos e 25 feridos graves) do lado israelita dá hoje uma outra ideia da escala dos combates e indicia a incapacidade de Israel em suportar baixas verdadeiramente pesadas tendo em atenção os parcos objectivos do conflito onde se engajara. À comunicação social, o general Dan Halutz (acima) anunciava que o Hezbollah estava em vias de sofrer enormes danos estratégicos mas sem precisar em que consistiriam. Pior do que isso, do ponto de vista de Israel mas também das formações políticas rivais do Hezbollah no Líbano, a resistência demonstrada no terreno pelo Hezbollah – entre 27 e 29 de Julho falhou uma nova ofensiva contra Bint Jbeil que custou 10 mortos e 50 feridos graves aos israelitas – estavam a consolidar um prestígio daquela organização que se iria obrigatoriamente reflectir na sua capacidade negocial à mesa das negociações. A pressão em Israel (mas não só...) para que se chegasse rapidamente a um cessar-fogo era grande.
A 31 de Julho o gabinete israelita, completamente ultrapassado pelos acontecimentos e sempre receoso que o alargamento do envolvimento militar no Líbano o reconduzisse à situação política insolúvel que se vivera com a ocupação do Sul do país entre 1982 e 2000, lá acabou por aceitar, a contragosto e renitente, o princípio do alargamento das operações militares, sujeitas a que essas operações fossem suficientemente limitadas para, dando a imagem inequívoca de derrota táctica do Hezbollah não se prestassem aos equívocos de uma reedição da Operação Paz para a Galileia de 1982 – que desde há mais de trinta anos não trouxera paz para lado algum. Um dos meios privilegiados foi a realização daquele género de operações especiais espectaculares, capazes de encher os noticiários, do tipo Entebbe³. Só que, desta vez, essas operações tiveram um êxito mitigado.
Na noite de 1 para 2 de Agosto um comando, composto por equipas dos Sayeret Matkal e Chedlag, atacou com um forte apoio de meios aéreos (caças F-16, helicópteros Apache e CH-53) o hospital de Dar al-Hikma, uma infra-estrutura financiada pelos iranianos, localizada na região de Baalbek no vale de Bekaa, onde se supunha que estariam escondidos alguns dos mais altos dirigentes do Hezbollah. Como em Entebbe³, os comandos também se aproximaram do objectivo disfarçados com equipamento idêntico ao usado pelos libaneses, mas o efeito de surpresa alcançado não teve nada do lendário efeito relâmpago no Uganda: os combates demoraram 4 horas e os israelitas acabaram por não encontrar no local os quadros da organização xiita que pretendiam usar posteriormente como moeda de troca contra os prisioneiros israelitas. De 5 para 6 de Agosto, houve uma outra operação de comandos (navais) daquele mesmo género, mas com melhores resultados. O alvo dessa vez foram as rampas de lançamento dos misseis Fajr-5 (de concepção iraniana e um alcance alargado de 60 km) que estavam instaladas/camufladas num prédio do centro da cidade de Tiro. A intervenção estava terminada duas horas depois: as rampas e os misseis haviam sido destruídos e o interrogatório dos prisioneiros permitira localizar onde se localizavam os outros pontos de lançamento naquela mesma região de Tiro que, dali por um quarto de hora e beneficiando ainda do efeito de surpresa estavam a sofrer os efeitos dos raids nocturnos da aviação.
Mas este grande sucesso militar não conseguiu esconder a percepção que os intervenientes tinham das consequências da evolução das operações: o tempo estava do lado dos libaneses. Tanto era assim que, nesse mesmo dia 6 de Agosto de 2006 era o governo libanês que rejeitava endossar um projecto franco-norte-americano de resolução a apresentar no Conselho de Segurança da ONU. Por eles, a redacção era demasiado favorável aos interesses israelitas... A vila simbólica de Bint Jbeil ainda não caíra nas mãos do Tsahal – nem nunca viria a cair... – e continuavam a cair rockets sobre o Norte de Israel. O reforço crescente dos efectivos postos em linha pelo Tsahal tornava a posição do Hezbollah cada vez mais precária mas é nítido que são os israelitas que têm mais pressa em que se firme um acordo para o cessar das operações. Em 7 de Agosto os xiitas libaneses mostravam que ainda tinham ideias em carteira quanto tentaram começar a usar drones para continuar a bombardear Israel: começaram por usar um Ababil de concepção iraniana (abaixo) que foi destruído por um F-16 israelita ainda sobre território libanês.
Desde os princípios de Agosto que, nascida não se sabe de onde, surge uma necessidade em crescendo da existência de uma força de interposição robusta que separe os combatentes. Cá em Portugal a ideia apareceu expressa de forma previsível por opinion makers como José Pacheco Pereira. Houve um director de jornal (José Manuel Fernandes) que, convidado por Israel para cobrir o conflito a expensas de um dos contendores, se excedeu na forma como se engajou parcial pelo lado que financia a sua estadia, arrastando atrás de si a publicação que dirige (Público). No cume do disparate, esse jornal publica a 11 de Agosto um título de primeira página anunciando que França e EUA chegam a acordo sobre cessar-fogo como se os intervenientes directos não fossem mais do que marionetas de interesses alheios. É que não o eram e, se o fossem, não seriam esses propriamente (França e Estados Unidos) os dois actores principais em conflito. E desmentindo na prática o Público, a resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU que pôs fim ao conflito só veio a ser votada dali por três dias, a 14 de Agosto, o que, no mínimo, quer dizer que era necessário que mais interlocutores chegassem a acordo...
Para deslustre da argumentação de quem acompanhou o conflito de uma forma facciosa pró-israelita, o balanço final era nitidamente desfavorável a Israel. Não se haviam alcançado qualquer dos objectivos assumidos publicamente: os dois soldados israelitas capturados não foram libertados, as milícias do Hezbollah continuavam presentes no Sul do Líbano, bem longe de terem sido erradicadas conforme se prometera, pelo contrário, o estatuto político da organização e o standing do seu líder, o xeque Nasrallah saíra até reforçado. O único ponto positivo para Israel era o reforço da FINUL, a designação das forças de interposição instaladas na região, vigiando os beligerantes, denunciando as iniciativas das milícias xiitas. No mês seguinte uma Comissão de Inquérito era criada em Israel para analisar o que correra mal. As conclusões dessa Comissão, designada por Winograd (do nome do seu presidente), foram particularmente severas para os dirigentes políticos e militares israelitas numa desautorização retroactiva de muito do que fora doutamente publicado e opinado durante o conflito. Na realidade, constata-se que quando se revê o dia-a-dia noticioso de um conflito como aquele (veja-se este resumo da BBC News ao longo de três semanas: 1, 2, 3), é notório como aquilo que vemos enquanto decorre se assemelha a um encadeado de notícias, como árvores, sem perspectiva de floresta. Que nunca esqueçamos esta lição quando se acompanha acontecimentos destas características - quase tudo o que de importante aconteceu não chegou aos jornais na época.

Este é um texto com tema escolhido, especialmente dedicado ao meu sogro – José Alberto Loureiro dos Santos – com os meus votos para que recupere e que o venha a apreciar como costuma fazer.
¹ John A. Warden III, coronel da USAF.
² 1978, 1982, 1993, 1996, 2006.
³ Aeroporto da capital do Uganda onde, em 1976, um comando do Tsahal efectuou uma operação de resgate de mais de 100 reféns de um sequestro aéreo.

04 maio 2015

...ACENANDO A UM M-113 QUE PASSA

É apenas da natureza humana que crianças e jovens se entusiasmem, sem outras intenções ocultas, à passagem de carros blindados. Foi assim mesmo que Bill Perlmutter fotografou algumas na antiga Berlim Ocidental, acenando a um M-113 norte-americano da guarnição de ocupação. Mas terá sido sabendo precisamente isso que os israelitas ornaram um outro M-113 seu com uma bandeira libanesa durante a sua invasão àquele país em 1982. Mesmo que não tenha sido encenada, a reacção dos jovens cristãos maronitas à beira da estrada estaria mais do que prevista pelo fotógrafo.

12 maio 2008

A SUÍÇA DO MÉDIO ORIENTE

Contou-me quem sabe que, numa reunião alargada com uma vintena de suíços mesmo que eles sejam todos originários dos cantões de língua alemã (que são a maioria: cerca de 75% da população), a primeira meia hora da reunião (e Deus sabe como eles são pontuais…) pode ser dedicada à escolha da versão cantonal oral do alemão suíço com que decorrerão os trabalhos. O debate não está aberto a estrangeiros (é o caso de quem me contou esta história, alemão de Hanôver, que preferiria uma versão oral das menos castiças…) mas ao fim daqueles 30 minutos a decisão é tomada e a reunião começa, de facto, com uma fluidez que nada tem a ver com as nossas tradicionais dispersões lusitanas.
O Líbano é frequentemente comparado com a Suíça e há alguns aspectos nos dois países que se assemelham, a começar pela geografia física (acima) que facilita a formação de agrupamentos cantonais distintos (abaixo), só que neste caso de carácter religioso. Mas as semelhanças por aqui se ficam. A hipotética vintena de libaneses da reunião do parágrafo acima não teria quaisquer problemas na escolha da língua de trabalho (árabe), mas a escolha sobre se se proferiria e quem proferiria uma oração antes da reunião teria sido o pretexto para os que queriam conduzir a reunião desencadeassem um debate que se tornaria mais importante do que os problemas que se procuravam resolver com aquela reunião.
Parece ser genético e fazer parte da gramática da disputa política local. É verdade que a localização geográfica do Líbano não ajuda à pacificação, entalado como está entre Israel e a Síria (abaixo), mas esse argumento aplicava-se também à Suíça na época das grandes rivalidades franco-alemãs e ela permaneceu neutral durante as duas Guerras Mundiais… Por outro lado, definido pelas comunidades religiosas, o quadro político libanês é mais complexo e confuso do que o suíço: até 1997, enquanto foi obrigatório mencionar a confissão religiosa do portador do bilhete de identidade, havia 17 comunidades distintas que eram legalmente reconhecidas… – 11 cristãs, 2 muçulmanas (xiita e sunita), druza, judia, ismaelita e alauíta.
É esta complexidade que torna mais fácil escreverem-se disparates quando se fala do Líbano, como o da coluna de opinião de hoje do Diário de Notícias, assinada por Manuel Queiroz, que se refere (final do parágrafo intermédio), aos cristãos de Nabih Berri, que é o presidente do Parlamento”. Ora, uma das primeiras coisas que se aprende quando se estuda o Líbano político são as cláusulas do Pacto Nacional de 1943 que repartiu os cargos do Estado libanês pelas confissões religiosas: um Presidente cristão maronita, um Primeiro-Ministro muçulmano sunita e um presidente do Parlamento, muçulmano xiita… Nabih Berri (abaixo), pelo cargo que ocupa, é obviamente xiita*. Manuel Queiroz até se podia ter informado
Já aqui na blogosfera, encontra-se uma outra abordagem para analisar estes recentes acontecimentos no Líbano, mais ideológica, mas mais defensiva, passando por alto o detalhe dos acontecimentos, e por isso menos propensa a cair nas armadilhas daqueles erros factuais. Decalcando os interesses israelitas, podem dar mais destaque à própria cobertura mediática do conflito actual, que é menor e menos enviesada do que quando Israel interveio no Líbano, ou então remetem para a incapacidade do governo libanês e da UNIFIL para derrotar o Hezbollah xiita. Mas, como já aqui escrevi e como se pode ler nos documentos originais que a mandatam, o objectivo da UNIFIL não é substituir o exército israelita…
Finalmente, lendo a substância das notícias do que aconteceu recentemente no Líbano, fica-se a saber que os recentes conflitos tiveram lugar tanto nos arredores de Beirute Ocidental** entre as milícias do Hezbollah xiita e do PSP*** druzo, como também nos arredores de Tripoli (cidade do Norte do Líbano) mas aqui entre milícias sunitas rivais, apoiantes e opositoras do governo. A vantagem parece ter pertencido à facção que aglutina as diversas forças que estão na oposição. Não é de excluir que se possa esperar uma nova invasão de tropas sírias. Só aí será apropriado fazer-se uma comparação com a cobertura informativa que foi dada aos acontecimentos do Verão de 2006. Mas até lá, a comparação parece-me excessiva…

* Embora xiita, Berri não pertence ao Hezbollah, mas sim a um partido concorrente, o Amal.
** É em Beirute Ocidental que se localizam os bairros de maioria muçulmana. Beirute Oriental é predominantemente cristã.
*** Partido Socialista Progressista. É o único caso que me lembro de um partido nitidamente étnico/confessional que é membro da Internacional Socialista. Já ouvi o seu dirigente, Walid Jumblatt, um senhor feudal típico, a receber grandes elogios de son ami Mário Soares…

15 abril 2008

«SIDESHOWS» DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (3) – A CAMPANHA SÍRIO-LIBANESA DE JUNHO E JULHO DE 1941

Este será um dos casos em se compreendem as razões porque terá sido um sideshow. Em primeiro lugar, porque a Campanha Sírio-Libanesa travou-se entre forças armadas sob comando britânico mas das mais variadas proveniências (britânicas, australianas, indianas, árabes, judaicas e ainda unidades francesas afectas à França Livre) que invadiram a Síria e o Líbano, e que se defrontaram com as defesas do Exército francês fiel ao regime de Vichy. Para as relações anglo-francesas é um daqueles conflitos que as duas partes envolvidas esqueceram depois de muito bom grado…

Por outro lado, com franceses combatendo dos dois lados, por vontade do General de Gaulle e apesar das opiniões contrárias da maioria dos que o rodeavam (como Leclerc), tratou-se colateralmente de um episódio sangrento de uma Guerra Civil francesa, assunto que também não interessará realçar. Culminado as causas para o esquecimento, a campanha teve lugar simultaneamente com uma das mais famosas operações de toda a Segunda Guerra Mundial, a da invasão da União Soviética pela Alemanha (Operação Barbarossa), que foi desencadeada a 22 de Junho de 1941.
As facilidades concedidas pela Administração Colonial francesa às esquadrilhas em trânsito da Luftwaffe* quando elas foram apoiar o exército iraquiano na sua guerra contra os britânicos em Maio de 1941, foram as razões próximas para precipitar a decisão de Winston Churchill em neutralizar as atitudes dúbias de uma Administração obediente a Vichy no Próximo Oriente. Dúbia até ao fim, o General Henri Dentz (acima, com Pétain), o Alto-Comissário francês, recusou o auxílio que alemães e italianos lhe propuseram, ao mesmo tempo que punha o maior empenho na resistência à invasão.

Apesar de invadidos por dois lados (Palestina e Iraque), e ao contrário dos sideshows já aqui mencionados, na Síria a moral dos combatentes e a qualidade do material equivaliam-se. A resistência dos franceses de Vichy mostrava-se tenaz contra os outros, mas particularmente feroz contra os seus compatriotas gaullistas. O Ás da aviação francesa Pierre Le Gloan cobriu-se de glória abatendo 7 aviões britânicos. Foi a falta dos reabastecimentos (que teriam de vir por mar, quando o Mediterrâneo Oriental pertencia aos britânicos…) que acabou por vergar a resistência dos defensores.
Mesmo no curso das negociações para a rendição, a política interna francesa sobrepor-se-á às realidades internacionais, com o General Dentz** a exigir ignorar o General Georges Catroux, representante da França Livre, e assinando o Armistício do Acre apenas com os britânicos. O local (São João do Acre foi a última possessão dos cruzados na Terra Santa) e a data (14 de Julho de 1941, data da queda da bastilha) da assinatura eram cheios de significado para os franceses. E os 37.736 vencidos sobreviventes eram agora prisioneiros de guerra, criando um outro problema político delicado.

Para de Gaulle, o problema nem se devia colocar: pretendendo passar por corporizar a França, os elementos aprisionados do Exército francês deveriam ser incorporados sem quaisquer questões adicionais, para se redimirem dos erros do passado... Mas os britânicos, mais realistas, impuseram a livre opção individual e daquele total, apenas 5.688 (ou seja 15%) escolheram aderir à França Livre; os restantes preferiram ser repatriados. À falta de indicador melhor, este é um bom indício do que valeria a popularidade do General de Gaulle entre os franceses no Verão de 1941…
Pormenor irrelevante mas interessante: foi nesta campanha que Moshe Dayan (acima) recebeu o ferimento no olho que o obrigou a usar uma pala para o resto da vida. Os binóculos que estava a usar foram atingidos por uma bala e os estilhaços do mesmo destruíram-lhe o olho e o globo ocular de tal forma que não podia usar prótese. O mediático General israelita era então um mero intérprete*** duma unidade australiana e, ironicamente, a bala que o atingiu e desfigurou era tão francesa quanto os caças Mirage III que, conjuntamente consigo, fazem parte dos ícones da vitória israelita na Guerra dos Seis Dias de 1967…

* Força Aérea alemã.
** Henri Dentz - um oficial de mérito indiscutível, foi o primeiro do seu curso em Saint Cyr - foi condenado à morte em 1945 como colaboracionista. Charles de Gaulle (magnânimo…) comutou a pena em prisão perpétua. Dentz morreu na prisão em Dezembro de 1945.
*** Não foi só o Mourinho a começar uma grande carreira pelas traduções… Ao contrário de Dentz, tanto Dayan como Mourinho são conhecidos pelas dúvidas que suscitam quanto à parte da fama que devem à sua competência técnica ou à sua vocação mediática...

17 maio 2007

AS TRÊS GUERRAS E AS TRÊS COMISSÕES EM ISRAEL

As três guerras convencionais e de alta intensidade que Israel travou desde a sua existência (1956, 1967 e 1973) foram todas muito breves. Dados os factores estratégicos dominantes, Israel nunca se pôde dar ao luxo de vencer os seus inimigos por exaustão. A guerra que durou mais tempo foi precisamente a última com tais características que Israel travou, e que foi baptizada de Guerra de Yom Kippur, por referência à data do feriado religioso judeu (6 de Outubro de 1973) em que egípcios e sírios desencadearam o seu ataque simultâneo.

Durou precisamente 21 dias (de 6 a 26 de Outubro), o que foi imenso pelos padrões das guerras anteriores (9 dias em 1956 e 6 dias em 1967) e isso aconteceu porque Israel passou metade desse período a perder a guerra tacticamente: o seu contra-ataque contra os egípcios só data de 15 de Outubro de 1973. E, para o levar a cabo, ficou a percepção que, se não fosse o armamento e munições que os Estados Unidos enviaram de urgência em ponte aérea para Israel (Operação Nickel Grass), o contra-ataque nunca teria condições materiais para ter tido lugar…
Essa foi uma grande humilhação para quem tanto prezava a sua autonomia estratégica, que tinha até levado Israel, numa fase anormal de embriaguez na fase final da guerra precedente (8 Junho de 1967), à provável ousadia de atacar por mar e ar um navio de espionagem electrónica norte-americano (USS Liberty), causando 34 mortos e 173 feridos entre a sua tripulação. É um episódio que permanece ainda hoje controverso (as explicações israelitas permanecerão duvidosas) e sobretudo esquecido, dada a vontade das duas partes em minorá-lo.

Mas a outra verdade é que a Guerra terminou tacticamente de uma forma claramente vantajosa para Israel. A suspensão das hostilidades foi um alívio para o exército egípcio que se encontrava completamente cercado. Na outra frente (síria), os blindados israelitas estavam prontos para avançarem até Damasco. Tudo acabou bem mas, como no apuramento do Benfica para a final da Taça dos Campeões de 1990 contra o Marselha, ficou nos israelitas um travo amargo na vitória, como o do golo irregular de Vata

Tratar-se-á adiante do impacto da Guerra na sociedade israelita mas, entre as suas elites e em termos estratégicos, os países árabes haviam conseguido demonstrar-lhes, que a sua opinião sobre a situação estratégica de Israel se assemelhava aquela que o IRA veio a sintetizar no futuro, depois de falharem um atentado contra Margaret Thatcher em Brighton em 1984: Hoje não tivemos sorte, mas lembrem-se que só é preciso que tenhamos sorte uma vez. Vocês vão precisar de ter sempre sorte*.

Na sociedade israelita, a forte sensação de segurança colectiva que ficara da vitória esmagadora de Junho de 1967 perdeu-se logo na primeira semana de guerra, quando as notícias das frentes pareciam tão graves que levavam a pôr em causa a própria sobrevivência do Estado de Israel. E foi esta sensação geral de que a Guerra acabou bem, mas correu mal, que esteve por detrás da decisão do governo de Golda Meir da formação de uma Comissão, denominada Agranat a partir do nome do juiz presidente.
Tratava-se de uma Comissão com aqueles objectivos clássicos de encontrar bodes expiatórios que aliviassem uma situação política incómoda ao governo, como se percebe das conclusões e recomendações finais: as demissões do Chefe de Estado-Maior do Tsahal**, dos dois responsáveis principais das Informações do Estado-Maior, a aposentação compulsiva do comandante da Frente do Sinai (que combateu contra o Egipto) e a transferência compulsória de outros oficiais de informações de patente inferior.

No entanto, as conclusões do relatório, saído em Abril de 74, foram consideradas como demasiado benignas quanto às responsabilidades políticas atribuíveis quer à primeira-ministra Golda Meir, quer ao ministro da Defesa, Moshe Dayan. O facto acabou por provocar um efeito de ricochete e os dois políticos tiveram que se demitir. E assim se criou o precedente de que relatórios de objectivo semelhante ultrapassassem a fronteira da avaliação técnica dos acontecimentos para se pronunciarem também sobre a responsabilidade política.

Quanto às lições estratégicas de Outubro de 1973, elas foram absorvidas e parcialmente solucionadas com a redução dos inimigos externos de Israel, através da assinatura dos Tratados de Camp David entre Israel e o Egipto (1978). Meia dúzia de anos depois da Guerra do Yom Kippur (1973) e uma dúzia depois da dos Seis Dias (1967), Israel havia estabelecido acordos e um modus vivendi com dois dos três países inimigos com cujos exércitos o seu se confrontara naquela altura (Egipto e Jordânia).

Na perspectiva israelita, apenas restava o problema civil dos palestinianos dentro das fronteiras de segurança de Israel e o militar dos dois países do Norte de Israel, Síria e Líbano, muito embora o problema do segundo fosse passível de gestão através de um sistema de apoios e equilíbrios entre as facções militares em que o poder libanês se decompusera no seguimento da Guerra Civil libanesa de 1975. No entanto, o status quo foi considerado insatisfatório por Israel em 1982, quando o Tsahal invadiu o Líbano, para desalojar dali os guerrilheiros da OLP, que flagelavam o norte de Israel.A invasão do Líbano em Junho de 1982 tornou-se o padrão dos novos conflitos para onde Israel se tem visto arrastado, onde não existe uma verdadeira contestação ao seu poder militar mas onde os seus oponentes se evadem a reconhecer-lhe politicamente as vitórias militares, fazendo o tempo arrastar-se a seu favor. Entretanto, enquanto se espera, a disputa transfere-se para a conquista das simpatias da opinião pública. Foi o que fizeram Yasser Arafat e a OLP naquela altura, cercados pelo Tsahal em Beirute.

Do ponto de vista militar o Tsahal invadiu o Líbano pelo Sul, derrotou os dispositivos militares que se lhe opuseram, chegou até Beirute onde cercou a OLP, podê-la-ia ter eliminado militarmente. Mas a solução política para a disputa já se arrastava há três meses quando Israel deixou que se cometesse uma manobra colateral por parte de milícias libanesas suas aliadas que ficou conhecida pelo Massacre de Sabra e Chatila*** (acima) e que se tornou para si num completo desastre em termos mediáticos.

Também nesta ocasião se formou posteriormente uma Comissão (Kahan) que, a propósito das responsabilidades israelitas no referido massacre, analisou também o beco estratégico para onde Israel fora conduzido com a invasão do Líbano. Dados os precedentes, a Comissão foi severíssima nas conclusões do seu relatório, recomendando a demissão do ministro da Defesa (Ariel Sharon), do responsável dos serviços de informações do Estado-Maior e a despromoção efectiva do oficial responsável pelo comando em Beirute.

É irónico como o conteúdo do relatório chegou mesmo ao limite de sugerir que Sharon não devesse voltar a ocupar mais cargos como governante israelita para o futuro… Mas também é simbólico como, após o precedente da Comissão Agranat, esta Comissão quis evitar o erro da redacção de um relatório anódino e, na dúvida, preferisse arriscar pelo excesso. Na realidade, essa sugestão da Comissão Kahan não teve efeito e Ariel Sharon veio mesmo a tornar-se primeiro-ministro de Israel…
Recordando os acontecimentos da invasão do Líbano de 1982, foi impressionante quanto a de 2006 repetiu precisamente os mesmos erros estratégicos de 24 anos antes, até nos pretextos demasiado despropositados para justificar o começo das operações****, e apenas tendo mudado o oponente, da OLP para o Hezbollah. Pior, o dispositivo táctico de defesa do terreno do Hezbollah havia evoluído comparativamente melhor com o estudo da invasão precedente do que parecia ter acontecido com as tácticas ofensivas de Israel…

Depois de um mês (entre Julho e Agosto de 2006) em que Israel progredia penosamente no terreno e andava à procura de um interlocutor válido que lhe fizesse concessões políticas rapidamente, mas sem o encontrar (sempre o factor tempo…), houve que apelar para a ONU, para as tais forças de interposição robustas e para o seu bluff (pífio) que Israel ainda podia desencadear uma escalada militar – como se Israel se dispusesse a sofrer uma outra degradação da sua imagem com as vitimas da escalada, igual à das vítimas do massacre de 1982…

A Comissão Winograd, cujas conclusões foram recentemente tornadas públicas, em 30 de Abril de 2007, foi constituída precisamente para se pronunciar sobre o conflito travado no Verão passado. Neste caso – e não surpreendentemente, conhecidas as conclusões das suas antecessoras – a Comissão concluiu por críticas severas à conduta do primeiro-ministro Ehud Olmert, à do ministro da Defesa Amir Peretz e à do Chefe de Estado-Maior do Tsahal, Dan Halutz.

Há que reconhecer que escrever postes pode implicar um exercício de simplificação. No entanto esse exercício não pode ser levado a extremos que deturpem a essência das ideias. Por tudo aquilo que escrevi atrás, considero que tentar associar e equiparar, ainda que subtilmente, as conclusões das Comissões Agranat e Winograd além das guerras que as antecederam, para além de platitudes que sempre se podem escrever a esse propósito (ambas serem israelitas ou terem sido presididas por juízes...), é um exercício descabido, como o que José Pacheco Pereira fez no seu blogue, num poste do passado dia 6 de Maio*****.
José Pacheco Pereira excede-se tanto na imagem de erudição que cultiva tão cuidadosamente para o exterior que, às vezes, mesmo involuntariamente e por falha nossa, somos levados por ela. Ele não é obrigado a saber tudo. Ele nem sequer é obrigado a saber muito. Mas talvez devesse reconhecer que há assuntos em que o radicalismo das suas opiniões o leva a escrever demais sobre assuntos em que afinal parece saber pouco. Talvez este seja um desses casos… Podemos compartilhar a sua simpatia por Israel, como bastião do ocidentalismo numa terra que o não é, não podemos é adoptar uma atitude de simpatia e tolerância acrítica (qual nacionalismo emprestado…) em relação aos erros estratégicos que comete…

*Today we were unlucky, but remember we only have to be lucky once. You will have to be lucky always.
** Tsahal – Tsva Hahagana LeYisrael (Forças de Defesa de Israel), Forças Armadas israelitas
*** Campos de refugiados palestinianos situados no Líbano.
**** Em 1982 foi uma tentativa de assassinato de um grupo terrorista radical (Abu Nidal) ao embaixador israelita em Londres, em 2006 foi o rapto de dois soldados israelitas.
*****O recente relatório Winograd sobre a Segunda Guerra do Líbano, muito crítico do governo de Olmert e da liderança militar, não é inédito na tradição da democracia israelita. A Comissão Agranat, analisando a guerra conhecida como a do Yom Kippur, por se ter iniciado nesse dia de feriado judaico em 1973, foi também um documento duríssimo, que levou ao afastamento de alguns dos militares mais prestigiados do exército israelita, como o general Elazar e o chefe dos serviços de informação militar, e atingiu Moshe Dayan e Golda Meir, respectivamente Ministro da Defesa e Primeiro-Ministro. O Relatório Agranat (como o Relatório Winograd) gerou manifestações violentas contra a liderança política e militar de Israel e acabou por ter consequências políticas a médio prazo muito significativas.
E no entanto... os israelitas ficaram a um passo de ganhar a guerra e colocar os seus tanques nos arrabaldes de Damasco e do Cairo e só não foram mais longe porque os americanos lhes fizeram um ultimato, obrigando-os a parar. (…)

05 maio 2007

DO FACCIOSISMO IDEOLÓGICO (ACTUALIZADO)

A vida política é lixada, como muito bem assinala José Pacheco Pereira a propósito dos comentários criticando a conduta de Luís Marques Mendes a respeito do assunto da Câmara Municipal de Lisboa apenas porque sim. É o facciosismo inerente à disputa política que nem precisa de lógica nem de argumentação consequente para a produção das críticas: no caso de Marques Mendes, nada havendo a apontar à sua decisão, critica-se o seu atraso… E é sobre este facciosismo do dá e leva corriqueiro do quotidiano político que parecem pairar as (normalmente boas) análises daquele nosso analista político, também historiador.


Mas suponho que haja um outro tipo de facciosismo, de que o distanciado comentador parece ser vítima e que se costuma detectar doutra forma, pela omissão no tratamento de assuntos que colidem claramente com aquilo que foi opinado no passado. É que face à liberdade de cada um escrever sobre o que quer, existe a liberdade de cada outro poder interpretar a forma como o cada um exerce essa liberdade… E como se dá a circunstância de José Pacheco Pereira ter uma profusão tal de colaborações escritas (Público, Sábado, o próprio Abrupto) e faladas (Quadraturadocírculo, na SIC Notícias), a sua intervenção pública pode ser avaliada como uma verdadeira agenda, com as suas próprias inserções, distorções e omissões, da mesma forma como ele gosta, aliás, de apreciar na comunicação social.
E convido o leitor a uma visita aos postes do Verão passado do Abrupto e/ou a um esforço de memória recordando a profusão de artigos e comentários em revistas e jornais do autor daquele blogue sobre a guerra que se travava no sul do Líbano entre o Tsahal e o Hezbollah. E como as suas posições se manifestavam inequivocamente a favor de Israel, embora pelo trajecto tortuoso de criticar a benignidade com que a propaganda do Hezbollah passava na nossa comunicação social, o que, sendo verdade, era uma meia verdade de uma disputa que não tem nem nunca teve inocentes, como José Pacheco Pereira muito bem sabe. Ingénua foi a sua crença na propaganda israelita que o Tsahal não fazia mais estragos porque se estava a conter e não em dificuldades em desalojar o Hezbollah.

Se as suas opiniões eram tão inequívocas e assertivas em prol de Israel na altura e o assunto lhe parecia despertar assim tanto interesse imaginem a minha curiosidade sobre qual seria a sua reacção quando descubro que, por coincidência, José Pacheco Pereira parecia estar de visita em Israel precisamente na altura em que se tornou público o teor de um relatório de uma Comissão constituída para o efeito, que é fortemente condenatório sobre a forma como foram dirigidas política e militarmente a ofensiva contra o Hezbollah no Líbano. O que nem tem nada de novo, se recordarmos o que especialistas portugueses já tinham afirmado na altura, como foi o caso do General Loureiro dos Santos.

Mas, pelos vistos, nem mesmo a proximidade geográfica dos acontecimentos serviu agora de catalisador para uma reflexão sobre o que escrevera. Já no Verão, me apercebera que Pacheco Pereira franqueia por vezes francamente a fronteira entre aquilo sobre que opina e sobre aquilo de que percebe - de que a confusão que lhe ouvi entre uma companhia e um regimento de engenharia foi apenas um indício revelador… Tudo aquilo que escreveu se assemelha agora, substantivamente, a uma defesa à outrance* da posição política do Estado de Israel. Só que agora parece ter ficado comprovado que não era preciso gostar do Hezbollah para achar que a condução israelita daquela guerra estava a ser um disparate…

José Pacheco Pereira pode discordar das conclusões do relatório mas aí conviria que nos explicasse porquê. Contudo, na minha interpretação, este silêncio parece-me apontar para uma outra direcção... Mas ainda vai a tempo e ficará bem a José Pacheco Pereira reconhecer que todo o assunto mereceria uma reapreciação… Era ideologicamente muito menos faccioso... Era de historiador!

* Expressão francesa que se pode traduzir por a todo o transe e que classificava o tipo de atitude a assumir nas ofensivas pela doutrina militar francesa de 1871 a 1914. Também se emprega a expressão associada à defesa, mas em sentido irónico, quando esta vai para além de tudo o que é razoável…

ADENDA: Posteriormente à publicação deste poste, José Pacheco Pereira inseriu no Abrupto um poste que ainda não concluiu, onde creio que pretende estabelecer um paralelo entre a utilização política do recente Relatório Winograd e a de um outro Relatório (Agranat) publicado na sequência da Guerra do Yom Kippur de 1973. Para já, parece-me que a analogia da utilização política dos dois relatórios não se pode estender às condições estratégicas em que as duas guerras foram travadas e, consequentemente, ao conteúdo das críticas dos dois relatórios, como se poderia deduzir de uma leitura descuidada do que José Pacheco Pereira até agora escreveu. Mas fico à espera da suas conclusões e saúdo o facto de afinal me ter enganado, e de ele não ter andado distraído por Israel...

04 abril 2007

A PEDIDO DE VÁRIAS FAMÍLIAS…

Suspeito que haverá alguns professores maldosos no Brasil que encarregaram os seus alunos de fazer trabalhos sobre as religiões existentes nos territórios que outrora formaram o Império Romano do Oriente. Não exagerarei quando disser que já encontrei pelo menos uma dezena de visitantes que aqui vieram ao blogue à procura especificamente dessa informação. E, em atenção a essas variadas famílias brasileiras aí vai uma pequena história do Império Romano do Oriente e das suas religiões actuais.

Se a história é – como qualquer poste de blogue – necessariamente breve, a duração do Império não o é. O Império Romano do Oriente, que corresponde à metade oriental do Império Romano conforme se observa no primeiro mapa, teve uma duração que superou os 1.000 anos: de 395 d.C. até 1453 d.C. Para os padrões medievais europeus era um estado de uma complexidade e sofisticação muito avançada, assente em três parâmetros identificativos: direito romano, cultura grega e religião cristã ortodoxa.

Mas não começou assim. Ao princípio, logo depois da separação do Ocidente (e da subsequente queda deste) era um verdadeiro Império, aglomerando a heterogeneidade e rivalidade das três grandes regiões que, mesmo assim o compunham, cada qual com a sua metrópole: o Egipto e a sua capital Alexandria, o Oriente e a sua grande cidade comercial, Antioquia, e finalmente os Balcãs e a Ásia Menor, conectados pela grande capital do Império, Constantinopla.
Cada uma daquelas três regiões, embora a maioria da população se tivesse tornado cristã, acabaram a distinguir-se entre si por ela professar ritos religiosos distintos: designados por coptas no Egipto, por jacobitas na Síria e por ortodoxos em Constantinopla. E, mesmo quando o Império Romano se reexpandiu para Ocidente no reinado de Justiniano no Século VI (mapa acima), a anexação ainda adicionou o catolicismo romano àquele, já complexo, puzzle religioso.

As divergências acabavam por não representar nada de substantivamente diferente quanto ao essencial da mensagem cristã (tal qual havia sido definida no Concílio de Niceia em 325). Mas, quando são utilizadas para fins políticos, as pequenas diferenças doutrinárias podem parecer abismos impossíveis de transpor: vejam-se, por exemplo, as rupturas no movimento comunista internacional do Século XX entre leninistas, trotskistas ou maoistas. Algo semelhante aconteceu naquela época, só que associado à natureza de Cristo e à procedência do Espírito Santo

A disputa política – disfarçada de teológica – foi levada a extremos tais dentro do Império Romano do Oriente que frequentemente Alexandria e Antioquia, como capitais regionais, procuravam ser neutrais nas disputas de Constantinopla com os seus inimigos externos, quando não mesmo se opunham aos interesses do centro do Império. E no Século VII, por ocasião da expansão islâmica, a adesão dos cristãos não ortodoxos à nova ordem dos invasores foi maciça, onde passaram – convertidos à nova fé ou não – a constituir a maioria dos quadros não militares.
Havendo vantagens materiais para o fazer, normalmente nunca houve coacção para que houvesse uma conversão do cristianismo para o islamismo entre as populações dos países que hoje são o Egipto, a Jordânia, Israel, o Líbano ou a Síria. Ela foi-se processando gradualmente. Actualmente em todos eles (com excepção de Israel, cujo povoamento é resultante da imigração maciça moderna de judeus, mas a realidade entre a população palestiniana é idêntica à dos outros países mencionados) há minorias cristãs, que podem variar entre os 5 (Jordânia) e os 35% da população (Líbano). Mas a sua proporção tem vindo a baixar no último século, porque a tendência para emigrar é muito superior entre os cristãos: na Síria, por exemplo, a proporção de cristãos baixou de 17% (1958) para 10% (2001).

Regressando ao passado, o Império Romano conseguiu a proeza notável de resistir ao impacto da expansão islâmica (acima) que alcançou tanto a França como a Índia, embora ficasse mais reduzido em extensão, mas com a vantagem de ser tornado muito mais coeso, englobando apenas a Ásia Menor e as regiões europeias, onde apenas predominava o cristianismo ortodoxo. As maiores pressões que o Império passou a sofrer vinham agora das regiões europeias, onde os povos eslavos (búlgaros, sérvios) estavam a procurar criar estados de confissão ortodoxa mas independentes da tutela imperial de Constantinopla.

Da batalha de Manzikert (1071), travada no século XI entre romanos* e turcos, ficou o simbolismo do início da perda progressiva da influência do velho Império nas regiões da Ásia Menor perante a constante pressão dos povos turcos, de religião islâmica. Mas também a população local, sujeita ao poder turco, se foi convertendo progressivamente. Nos últimos grandes momentos do Império (meados do século XIII - abaixo em azul), ele agrupou-se à volta do Mar Egeu, tanto nas suas costas europeias (onde se situa a Grécia moderna) como nas asiáticas, numa disposição parecida com a do período áureo da civilização da Grécia Clássica**.
O Império Romano do Oriente extinguiu-se quando Constantinopla foi tomada pelos turcos em 1453, enquanto o Império Otomano por eles fundado continuou a expandir-se pela Europa balcânica convertendo alguns dos povos conquistados (albaneses e bósnios) à religião muçulmana. O retrato religioso do Império Otomano (abaixo a sua configuração no apogeu de 1580) que, em mais do que um aspecto, pode ser considerado sucessor do Império Romano do Oriente, é bastante complexo, com cristãos e muçulmanos coexistindo em todo os lados, os primeiros geralmente em maioria na Europa, os segundos na Ásia.
Só no princípio do Século XX, através de um gigantesco (e pouco divulgado) processo de transferência recíproca de populações a Grécia e a Turquia modernas adquiriram uma verdadeira homogeneidade religiosa – assunto aqui tratado num poste anterior. De resto, todos os outros países que pertencem a regiões que fizeram parte outrora do Império Romano do Oriente ainda aqui não mencionados, quando são maioritariamente cristãos (Sérvia, Bulgária, Chipre) têm minorias muçulmanas, e quando são maioritariamente muçulmanos (Albânia), têm minorias cristãs.
Como é que é? Deu ajuda no trabalho? As respostas podem endereçar-se para o meu correio: herdeirodeaecio@hotmail.com

* Note-se que entre os historiadores ocidentais se criou o hábito de designar os romanos por bizantinos, para fazer esquecer que eram eles eram os verdadeiros e legítimos – sem interrupções! – herdeiros das instituições políticas romanas. Aliás, árabes e turcos, para quem essas controvérsias eram irrelevantes, designavam os habitantes do Império colectivamente pelo nome de Rum.
** Uma fracção apreciável das cidades da Grécia clássica – a começar pela famosa Tróia – situa-se na actual Turquia ocidental.

10 setembro 2006

NÃO HÁ RECEITAS PARA DESCOLONIZAÇÕES

Quando, em meados do século passado, três potências europeias se retiraram de três das suas possessões coloniais importantes, episódios esses que ocorreram com um intervalo de seis anos, houve duas dessas potências que deram um tratamento discriminatório (no bom sentido) às minorias religiosas existentes nas suas colónias, criando países independentes para elas, enquanto houve uma delas que escolheu não o fazer.

Identificando-as, percebe-se que, em termos de descolonizações não parecem existir soluções ideais, pois qualquer dos casos e das regiões foram e têm continuado desde aí a ser presenças frequentes nos noticiários internacionais: a França concedeu a independência à Síria e ao Líbano em 1943, o Reino Unido fez o mesmo com a Índia e o Paquistão em 1947 e em 1949 os Países Baixos preferiram manter a Indonésia com a estrutura unificada que havia sido formada nos tempos coloniais.

O Líbano era um território onde, à data de independência, existia uma maioria cristã, distinta da da Síria onde predominava o islamismo, o Paquistão foi formado pelas regiões indianas onde existia uma maioria de população muçulmana, distinta da maioria da da União Indiana, que professava o hinduísmo, e o mesmo poderia ter sido feito na Indonésia, onde, da maioria muçulmana, se destacaria, por exemplo, o arquipélago ocidental das Molucas, onde existia uma maioria cristã.

Actualmente, sobre a Indonésia pende a espada de Dâmocles do separatismo, que se manifesta de diversas formas e em diversos locais, dispensando até a religião quando esta não serve de elemento diferenciador que o exprima. A mesma espada pende, mas por razões diferentes, sobre os países que se individualizaram (Líbano, Paquistão), através das relações contraditórias de atracção e repulsão que mantêm com os (proporcionalmente) grandes vizinhos de que se separaram.

São três casos engraçados que valerá a pena vir a desenvolver individualmente aqui em posts futuros. Mas que, quando comparados, nos ficam de alerta para os revisionismos de direita sobre as descolonizações que poderiam ter sido feitas se… e os revisionismos de esquerda sobre as culpas que os colonizadores carregarão até ao fim da história…

01 setembro 2006

TEM TODA A RAZÃO!


Com a devida vénia aqui transcrevo um poste do blogue de José Pacheco Pereira, intitulado DEVE HAVER CONFUSÃO COM A RESOLUÇÃO 1701… da autoria do próprio:

Fico a saber que a força que vai para o Líbano é uma companhia de engenharia, e segundo o ministro foi enviada num contexto humanitário. Sempre apoiei o envio de tropas da UE, a começar pelas portuguesas, para implementar a Resolução 1701 das Nações Unidas... mas tanto quanto eu sei a missão da UNIFIL não é propriamente humanitária, nem tem como objectivo "reconstruir" o Sul do Líbano. O seu objectivo não é construção civil, mas garantir que o Governo do Líbano exerça a soberania plena de modo a que não haja aí armas sem consentimento do Governo do Líbano, e o desarmamento de todos os grupos armados no Líbano (…) de modo a que não haja armas ou autoridade no Líbano que não sejam as do Estado Libanês.

Alheando-nos do modo a roçar o sarcástico como se refere à decisão da participação portuguesa na UNIFIL – merecedor de resposta no mesmo tom no post seguinte deste blogue – não haja quaisquer dúvidas que lhe assiste toda a razão ao assinalar as significativas divergências entre a redacção original da resolução da ONU e a forma como se estão a anunciar a constituição das forças que irão compor a UNIFIL na realidade.

Vendo assim José Pacheco Pereira a assumir como suas, as penas do embuste para o qual a ONU terá arrastado Israel, será de perguntar se o mesmo José Pacheco Pereira já se terá perguntado porque é que os principais interessados no mesmo assunto – os dirigentes israelitas – não têm dado a devida publicidade a essa mesma razão de queixa? Ou interessar-lhes-á que lá esteja uma força de interposição – qualquer força de interposição – mesmo que esteja armada de retro-escavadoras em vez de blindados?

Se for este o caso, então houve uma grande mudança de opinião dos responsáveis em Israel, desde aquela bravata de quem se queixava que a resolução 1701 os iria impedir de concluir a operação de erradicação do Hezbollah que estava em curso no sul do Líbano!...

Se não for, então haverá uma alta probabilidade de que Israel se esteja a preparar para romper o cessar-fogo, razão suplementar para se ser extremamente cauteloso, cuidadoso e ponderado nas apreciações ao tipo de forças militares que Portugal deverá enviar para fazerem parte da UNIFIL...

O TENENTE-CORONEL PACHECO PEREIRA

Suponho que, por vezes, apenas a ironia pode dar expressão à resposta a uma certa superficialidade ou a um certo sarcasmo com que são apreciadas certas decisões que podem vir a envolver situações de risco de vida a compatriotas nossos que também são subordinados daqueles que têm de assumir a responsabilidade por tomar essas decisões.

Se, como se vê no post acima, as tarefas de construção civil no Líbano não parecem merecer o agrado de José Pacheco Pereira, é razoável propor-lhe que, da actual patente que tiver, depois de ter cumprido o SMO* (se o tiver cumprido...), ele seja graduado no posto de Tenente-Coronel, para vir a comandar um novo Batalhão Académico (na senda do seu homónimo do século XIX) que, composto por si e pelos intelectuais voluntários que com ele compartilham o sentido principal da função das forças de interposição a mandar para o Líbano, possa vir a efectuar integralmente o desarmamento do Hezbollah. Acessoriamente, esse doutrinado batalhão de intelectuais voluntários, comandados por JPP, poderá substituir a mísera companhia de engenharia que os poderes decidiram enviar como participação portuguesa na UNIFIL.

As inscrições de voluntários (só intelectuais) podem ser feitas no blogue Abrupto.

Já aqui referi como é ridícula a belicosidade do General travando as suas batalhas na Sala dos Mapas. Parece que este século XXI tornou a dar relevo à figura patética do intelectual belicoso, seja ao teclado do seu computador, seja em presenças em estúdios de televisão. Mas não é figura nova: lembre-se em A Oeste nada de novo, de Erich Maria Remarque, o professor que arrastou os seus alunos para o centro de mobilização em 1914...

Uma coisa une esse tipo de intelectuais, de ontem e de hoje: as decisões são muito mais fáceis de recomendar quando não existe qualquer responsabilidade sobre as suas consequências futuras. E, que eu saiba, se houver baixas a lamentar, para além dos pesâmes de cortesia, nem a Quadraturadocírculo, nem o blogue Abrupto, são órgãos inseridos em qualquer linha de comando da hierarquia das Forças Armadas portuguesas…

* Serviço Militar Obrigatório

30 agosto 2006

AS VAIAS A KOFI ANNAN

O Hezbollah, que tanto se tem esmerado na forma como tem gerido a imagem de si que passa para o exterior, destas vez cometeu ou deixou cometer o erro de apupar o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annam, quando este estava de visita a Beirute. A contagem de opiniões que nos permite atribuir ao Hezbollah a vitória junto da opinião pública depois do conflito recente não é feita das que são expressas por aqueles que são desesperadamente indefectíveis de um dos lados ou do outro. Esses têm a seriedade de parecerem estar sentados nas bancadas de um estádio de futebol quando já desenvolveram uma espécie de autismo que só os deixa ver os erros do adversário (e do árbitro).

Mas, para os que ficaram no centro, que normalmente concluem o que concluem baseados nos dados escassos a que prestam atenção (imagens, pequenos trechos de discursos), e que haviam sido tocados pelas imagens de sofrimento da parte libanesa, é eloquente a ingratidão expressa pela visão de um pequeno trecho de imagens em que uma multidão é visual e audivelmente hostil e ainda ameaçadora para com um dos maiores responsáveis internacionais que teve a atenção (rara) de os vir visitar. Não sei se os serviços secretos israelitas não colaboraram no evento mas, se não o fizeram, não o desdenhariam ter feito.

O destino do Médio Oriente não está dependente do timbre dos assobios, nem a maior ou menor simpatia das opiniões públicas ocidentais terão um efeito imediato na actuação dos seus governos quanto à resolução do mesmo. Mas, talvez por estarem destreinados por não possuírem um governo (a sério) há muito tempo, estes libaneses parecem ter esquecido uma das lições elementares que um habitante de um bairro de barracas de um país ocidental conhece de ginjeira: convém não vaiar o governante que faz uma visita televisionada ao seu bairro porque diminui exponencialmente a possibilidade de vir a receber uma casinha de habitação social…

27 agosto 2006

A Palestina: um problema superficial?

É sempre difícil falar de violência com um militar. Para ele, conceptualmente, a expressão da violência é um fenómeno que se manifesta de uma forma colectiva e ritualizada. Ele até pode compreender – e participar… – em expressões individuais de violência, envolvendo-se pessoalmente à pancada com alguém, mas toda a sua formação intelectual e preparação psicológica está dirigida para uma outra realidade que o domina.

Clausewitz, que era um militar, criou uma frase famosa segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios. O que é verdade, mas apenas segundo uma certa lógica, a lógica de um militar. Por isso se torna necessário explicitar na análise dos conflitos quando se trata da intervenção de um agente clausewitziano. Por exemplo, dois miúdos engalfinhados à tareia no recreio da escola não são agentes clausewitzianos

Tenho o mesmo problema, que acima expliquei quanto aos militares, à violência e à guerra quando se fala de sacerdotes, da fé e da religião. Por muito que o negue, também o sacerdote, por causa da sua formação, tem essa mesma tendência a conceber predominantemente a religião como um fenómeno colectivo e ritualizado. Ora, tal como a violência pode ser individual, também considero que a relação com o divino o possa ser.

E é por causa desse hiato conceptual que procuro ser cuidadoso na forma como abordo artigos assinados quer por militares, quer por sacerdotes. Mas aquele que hoje é assinado pelo padre Anselmo Borges, no Diário de Notícias (p.5), intitulado A Palestina: um problema teológico?, além de dele discordar, enferma, quanto a mim, de um grande erro, discreto mas muito importante e que fica muito para além do campo dos conceitos.

No seu artigo, o autor data a chegada dos árabes à Palestina fazendo-a coincidir com o início do domínio muçulmano (636 d.C.). Ora os povos árabes sempre coexistiram com os judeus na região e vieram até a ocupar o espaço vago deixado por eles por altura da sua expulsão no reinado do imperador romano Adriano (135 d.C.). A população árabe do Império, além de lhe ter dado um imperador, Filipe (244-49), nos séculos IV, V e VI contava-se entre as populações mais evangelizadas do império.

É um erro grosseiro, involuntário decerto, mas significativo, o de confundir a chegada das populações com a das religiões, e datar pela instalação do domínio muçulmano na Palestina em 636 a presença do povo árabe. Ora o povo árabe da Palestina já foi predominantemente cristão e ainda hoje uma minoria (estimada entre os 10 a 15%) ainda o é. É verdade que o predomínio político daquela região nunca mais foi recuperada para outra religião – salvo durante o breve período das Cruzadas (1099-1187) – até à instalação da administração britânica em 1919, seguida da fundação do Estado de Israel em 1948.

Em Israel, como no Líbano vizinho, mesmo na actualidade, quase todas as clivagens políticas podem ser interpretadas segundo fracturas étnicas e religiosas. E o padre Borges disso saberá com certeza, quando se esteve a documentar sobre a história recente da região para a redacção do seu artigo, nomeadamente para aquele período que antecedeu a independência de Israel em 1948. Se preferiu não o mencionar e se, em vez disso, escolheu mensagens bíblicas e corânicas de conteúdo pacífico, terá sido por opção sua…

Também mostro muito respeito pelas duas volumosas obras fundamentaisO Judaísmo e O Islão – referidas, da autoria do teólogo Hans Kung (que confesso não ter lido), mas desconfio que não as vou ler, se a mensagem essencial que delas se extrai for a seleccionada pelo padre Anselmo Borges para o seu artigo: Não haverá paz enquanto os membros das três religiões monoteístas, que se reclamam de Abraão, se não tornarem activos politicamente, impedindo o fanatismo religioso.

Não questionando a bondade (e a evidente ingenuidade) da sua redacção, tudo aquilo pode ser muito bem intencionado, mas é perfeitamente superficial. Ao longo de toda a sua história, qualquer daquelas três religiões têm sido usadas para facilitar a actividade política dos seus fanáticos – quando são do nosso lado designam-se por pessoas com muito fervor religioso… – que querem dominar naquela que designaram por Terra Santa.

Não haverá melhor sítio no Mundo onde se possa parafrasear a famosa frase de Clausewitz: a religião é a continuação da política por outros meios…

25 agosto 2006

O FILHO DA MONTANHA

Suponho que será sempre um esforço baldado que se preconize modéstia e contenção aos dirigentes franceses. Estar-lhes-á na massa do sangue, mas, apesar de me considerar um latino, tenho tendência a compartilhar com anglo-saxónicos e germânicos o desdém para com as atitudes grandiloquentes mas inconsequentes que volta e meia caracterizam a política francesa.

São os primeiros que costumam usar uma expressão idiomática – adicionar o insulto à injúria – que pode muito bem ser adaptada para comentar a prestação protagonizada ontem por Jacques Chirac na televisão. Não bastando passar por toda aquela vergonha, o governo francês ainda pretendeu insultar a opinião pública mundial, tentando dar um cunho de grandioso a um episódio em que se devia estar a desculpar.

Afinal, a França não impediu que se falasse de uma força de interposição rápida e robusta sob o seu comando no Líbano, para a qual contribuiria com 5.000 efectivos... Depois, escutando o discurso do presidente francês ontem, conclui-se que os 5.000 se reduziram a 2.000 e que a rapidez aplicar-se-á a… 200 deles. E pelos vistos, a questão do comando da força, falta de qualquer vergonha na cara e da falha de alternativas à excepção da italiana, fica em aberto…

A França republicana na sua história recente já ouviu os seus dirigentes proferir discursos penosos e de mau presságio (É com o coração despedaçado que informo que se deve pôr termo ao combate…*) e mesmo grandes aldrabices (Compreendi-vos!**). Não será, por isso, pela falta de qualidade e sinceridade dos seus discursos que Chirac terá caído no descrédito em que caiu.

Mas, quem quer que manifeste o seu desconforto pelo actual inquilino da Casa Branca, tem, em consciência, que manifestar um desconforto parecido com este ocupante do Eliseu…

* Discurso proferido por Pétain em Junho de 1940, antecipando a necessidade de assinar um armistício com a Alemanha. Depois da sua assinatura, Pétain viria a encabeçar o chamado Regime de Vichy, colaborante com a Alemanha.

** Discurso proferido por de Gaulle em 1958 em Argel, diante da multidão que se manifestava pela manutenção da Argélia francesa. A partir de 1960, de Gaulle deu início às negociações que culminariam com a independência da Argélia em 1962.