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03 julho 2024

O PROJECTO «ITHACUS»

Entre os projectos militares mais surpreendentes que nunca avançaram conta-se este foguetão intercontinental de transporte que constituía notícia a 3 de Julho de 1964, após o encerramento da 1ª Reunião Anual do Instituto de Aeronáutica e Astronáutica. Será desnecessário explicar em que consistia a ideia: a notícia acima explica-o. Assim como se afigura óbvio que essa ideia estava muito longe de se concretizar: seria necessário esperar ainda uns dez a doze anos (1975) e investir os «fundos necessários» (que não são estimados sequer...). Mas o objectivo estratégico do foguetão «Ithacus» parecia límpido: como potência hegemónica, os Estados Unidos passariam a dispor de meios para colocar uma unidade militar de poder de fogo significativo em muito poucas horas em qualquer local do mundo onde Washington considerasse que os seus interesses estivessem a ser ameaçados: um golpe de estado hostil num país aliado, por exemplo.
O projecto e a ideia de «Ithacus», apesar de imaginativa e engenhosa, tinha dois óbices. O primeiro e mais imediato era o seu custo e a sua eficácia, quando comparado com uma operação aerotransportada mais convencional, que colocaria os mesmos efectivos e as mesmas cargas no mesmo local, só que uma dúzia de horas depois. Seria que os custos - astronómicos - do projecto valeriam essas escassas horas de antecipação? O segundo óbice era de cariz mais estratégico e os responsáveis militares e políticos norte-americanos só se vieram a aperceber dele depois de efectuarem vários outras intervenções no Mundo, como a do Vietname, do Iraque ou do Afeganistão. O problema principal para os Estados Unidos nunca se põe quanto à celeridade como chegam aos locais de intervenção, localizem-se eles onde for por esse Mundo fora; o grande problema dos Estados Unidos têm sido sempre as condições de dignidade como depois conseguem sair desses locais. No Afeganistão, por exemplo, passaram 20 anos (2001-21) por lá e os resultados finais foram os que foram...

19 junho 2024

AS PRIORIDADES DA POLÍTICA EXTERNA PORTUGUESA EM 1974 E A ATENÇÃO QUE OS ESTADOS UNIDOS LHES DISPENSAVAM

19 de Junho de 1974. No regresso de um périplo que o presidente norte-americano Richard Nixon dera por países do Médio Oriente, ocorre um encontro nos Açores entre ele e o novo presidente português, António de Spínola. A reunião durou uma hora e a atenção dispensada pelas duas partes ao encontro pode ser constatada pela importância noticiosa que lhe foi conferida dos dois lados do Atlântico (acima e abaixo). A fragilidade da Casa Branca por causa do Caso Watergate costuma ser uma explicação para o desinteresse inicial dos Estados Unidos pelas consequências previsíveis da descolonização, mas essa não parece ser a única explicação: os problemas de Nixon são independentes das decisões editoriais do New York Times, que parecem sintoma de um desconhecimento desinteressado dos problemas de Lisboa. Em contraste, as atenções dispensadas (e as expectativa postas) por Lisboa podem ainda hoje ser recordadas pela reportagem que a RTP realizou sobre a partida de António de Spínola.

09 junho 2024

A ALEMANHA SERÁ NEUTRALIZADA OU INCLUÍDA NO PACTO DO ATLÂNTICO?

(Republicação)
A edição de há setenta e cinco anos do Diário de Lisboa continha um importante artigo de Maurice Duverger (então jovem estrela em ascensão com 32 anos) que colocava a questão em título: qual o papel da Alemanha no futuro da Europa? Tinha uma chamada de primeira página. Não asseguro que o leitor comum do jornal da época se apercebesse da importância do tema, mas vale a pena ter a oportunidade de o reler com a presciência de conhecermos o futuro e sabermos as consequências das opções então tomadas.
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Todas as questões de pormenor que podem surgir na Conferência de Paris estão subordinadas á solução de um problema fundamental: a posição futura da Alemanha e o seu papel na rivalidade latente entre a Rússia e o Ocidente. A situação em Berlim, a fiscalização aliada, o regime de ocupação, a orientação da economia, tudo isso só será duradouramente resolvido se precisamente se esclarecer o fundo do debate em curso há quatro anos. E o debate consiste em saber se a Alemanha vai entrar na esfera de influência soviética, ingressar no Pacto do Atlântico ou ser neutralizada.
A escolha entre estas três soluções pode ser adiada. Mas impor-se-á mais cedo ou mais tarde. Todo o jogo diplomático a que assistimos não tem outro objectivo.


O Reich na esfera de influência russa
Se a Alemanha se comunizar, a segunda guerra mundial terminará por uma derrota esmagadora das democracias ocidentais. Para estas a situação será pior do que em Setembro de 1939. Hitler era menos perigoso do que Estaline, precisamente porque na retaguarda do primeiro estava o segundo e na retaguarda do segundo não está ninguém. Até Hong-Kong, até Singapura, não há contrapeso para o poder da URSS.
Nessa hipótese, a terceira guerra mundial será inevitável. Trata-se apenas de aguardar a data da sua eclosão.
Esta solução está, naturalmente, afastada, não em nome de um anti-comunismo obtuso e sistemático, mas por uma preocupação compreensível de salvaguardar a paz. Evitar que a Alemanha ingresse na esfera de influência soviética é um imperativo da diplomacia ocidental.
Praticamente, restam portanto, duas soluções possíveis: a neutralização ou a “atlantização” dos vencidos.
Por muito dolorosa que a segunda pareça aos olhos dos povos da Europa, sobretudo daqueles que ainda recentemente suportaram os horrores da ocupação, é inútil dissimular a sua importância, pois, ninguém certamente terá dúvidas de que vão para ela as boas graças da poderosa América.


Os perigos da “atlantização”
Não falta quem, com certo fundamento, evoque sempre que se põe o problema da “atlantização” da Alemanha, o risco de um renascimento do militarismo e do expansionismo germânicos. A assinatura do Reich ao Pacto do Atlântico implica automaticamente o seu rearmamento.
“A Alemanha no Pacto do Atlântico? Nunca!” Tal era a expressão empregada ainda não há muitos dias por uma personalidade respeitável da política francesa.
Mas, se há quem pense assim, vamos nós, que já fizemos a guerra de 1939 com a estratégia de 1914, fazer a paz de 1949 com a diplomacia de 1919?
A entrada da Alemanha na comunidade atlântica podia ser o epílogo da rivalidade franco-alemã. A ideia de guerra e de invasão entre a França e a Alemanha tornar-se-ia anacrónica. Franceses e alemães tornar-se-iam aliados amanhã, como hoje já o são franceses e ingleses.
Para os franceses esta transformação não seria mais profunda do que aquela que se registou em 1815, no Congresso de Viena. Há apenas a objectar que uma tal aliança teria que ser cuidadosamente vigiada. A Alemanha apoiada pela América tornar-se-ia rapidamente a nação preponderante na Europa.
Se a Alemanha, depois do rearmamento, quisesse um dia retirar-se do pacto, a França poderia continuar a contar com a protecção americana? O problema da “atlantização” da Alemanha deve por isso considerar-se pelo prisma das sua possíveis repercussões no equilíbrio europeu, na paz do Mundo e não pelo prisma da luta secular entre franceses e alemães, a qual pertence a uma época já ultrapassada.


O ponto de vista anti-comunista
Do ponto de vista da defesa armada da Europa contra a propagação do comunismo, a adesão da Alemanha ao sistema atlântico oferece incontestáveis garantias.
É certo que a eficácia militar do pacto é por enquanto limitada e que continuará a sê-lo enquanto a Europa não começar a receber as armas de procedência americana. Mas a inclusão permitirá precisamente encurtar esse prazo de espera, graças á contribuição que a indústria alemã pode prestar para o rearmamento dos países ocidentais.
Assim, a retirada das forças de ocupação ocidentais ficaria ligada ao restabelecimento de uma força militar alemã, pois as tropas anglo-saxónicas e francesas que estacionam naquele país passariam automaticamente a ser aliadas do exército alemão reconstituído.
A missão dessas forças não consistiria em vigiar para que a ordem fosse mantida no interior da Alemanha, mas para que a sua fronteira continuasse inviolada. Completar-se-ia assim uma evolução iniciada com o bloqueio de Berlim. A pressão russa não encontraria na sua frente o vácuo, mas uma resistência organizada.


A ideia da neutralização
É certo que a ideia da neutralização, com uma garantia conjunta dos Estados Unidos e da URSS nos termos da qual a neutralidade alemã não poderia ser violada por aquelas potências ou por qualquer outra pode conduzir ao mesmo resultado. Mas não devemos esquecer que nessa garantia o factor russo seria muito mais importante do que o americano, dada a proximidade da URSS e o afastamento dos Estados Unidos. É, portanto, legítimo perguntar se a exclusão da Alemanha do Pacto do Atlântico o não enfraquece e se a defesa efectiva da Europa não está de antemão comprometida se for organizada no Reno em vez de ser organizada no Elba.
Tendo apenas em conta os dados militares da situação não há dúvida de que assim é.
Mas a experiência destes últimos anos demonstra que a infiltração política é mais frequente do que a invasão armada é tão perigosa quanto ela. É, portanto, em função da primeira e não da segunda que devem considerar-se as vantagens relativas das duas soluções propostas: a neutralização e a “atlantização”. De momento, julgamos impossível dizer qual delas é preferível.
Quer se trate do Pacto do Atlântico, quer de um tratado garantindo a neutralidade da Alemanha, não será possível definir, com suficiente rigor, uma fórmula que permita fechar completamente a porta a todas as tentativas de infiltração. Haverá sempre maneira para aqueles que não quiserem cumprir lealmente os seus compromissos, de as iludir ou ladear.
Esta realidade é demasiado complexa e movediça para ser condicionada.
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18 maio 2024

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

(Republicação)
18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

16 abril 2024

O ÚLTIMO RETOQUE NA «TEIA» DE TRATADOS DE AMIZADE E COOPERAÇÃO DO LESTE EUROPEU

Praga, 16 de Abril de 1949. Como dá conta a notícia do New York Times, Antonin Zapotocky pela Checoslováquia (à esquerda) e Istvan Dobi pela Hungria (à direita) assinavam naquela cidade um daqueles tradicionais tratados de amizade e cooperação que os países comunistas costumavam assinar entre si durante o período da Guerra Fria. Como o jornal americano fazia questão de frisar, este era o vigésimo primeiro e último tratado de uma rede de tratados do mesmo género que interligavam entre si a União Soviética e os seis países - o jornal empregava a expressão "democracias populares" entre aspas - do Leste da Europa. De fora, ficara apenas a Albânia e a Finlândia, concluía-se no jornal. Na Primavera de 1949 e ao mesmo tempo da constituição da NATO, aquele que costuma ser denominado por Bloco Leste - a esfera de influência russa até ao centro da Europa - estava tão formalmente definido quanto o seu rival ocidental. O exercício argumentativo a que os comunistas muito tempo se dedicaram a invocar depois disso, que o Pacto de Varsóvia só havia surgido seis anos depois da NATO, é apenas isso: um exercício argumentativo. Como se percebe aqui, os blocos já estavam claramente formados em 1949: a constituição do Pacto de Varsóvia em Maio de 1955 é apenas a criação de uma organização militar simétrica à NATO.

07 abril 2024

O DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DA »TEORIA DO DOMINÓ»

7 de Abril de 1954. Numa «conferência de imprensa» que foi televisionada e radiodifundida (abaixo), o presidente norte-americano, Dwight Eisenhower, confere uma perspectiva estratégica às consequências de uma derrota ocidental na Indochina (Vietname), derrota essa que cada vez mais se tornava provável. Segundo as explicações que dera, a queda da Indochina poderia arrastar atrás de si as regiões adjacentes na Ásia: Tailândia, Malásia, Filipinas, Coreia, Japão, etc. No dia seguinte o New York Times publicava um mapa esclarecedor (acima) e algum tempo depois o discurso e o conceito ganharam uma designação identificativa por causa de uma passagem mais imaginativa do discurso: a teoria do dominó. O «efeito dominó» veio a permitir que as administrações norte-americanas apresentassem como indispensáveis intervenções em locais que não ameaçavam directamente os interesses dos Estados Unidos, locais esses que a sua opinião pública não fazia ideia de onde ficavam, mas que, por efeito de contágio, podiam tornar-se muito perigosos. Como veio a ser o caso mais flagrante do Vietname.

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

14 março 2024

OS PRIMÓRDIOS DA NATO E A IMPORTÂNCIA RELATIVA DE QUEM A VIRIA A INTEGRAR

(Republicação)
14 de Março de 1949. Tendo-se os Estados Unidos decidido a criar uma Organização político-militar em parceria com os seus aliados europeus, e estando em pleno curso as negociações para a constituição daquilo que viria a ser a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), eram notórias, porém encapotadas, as intenções da diplomacia portuguesa, expressas, de resto, nas notícias que ela soprava para os jornais da época e que só a distância histórica nos permite hoje ler com uma outra transparência.
Assim, a primeira página do Diário de Lisboa de há 75 anos dava destaque em primeira página ao facto da «Islândia não aceitar que fossem instaladas bases militares no seu território». Na última página, mencionava-se que «a adesão da Dinamarca ao Pacto do Atlântico estava a ser negociada». A edição do dia seguinte referia-se, com igual destaque, a que «a melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Espanha depende da medida em que Franco tornar mais liberal o seu regime.» De uma penada, varriam-se os outros países com presença insular a meio do Atlântico Norte.
As preocupações e intenções portuguesas percebiam-se nitidamente na passagem sublinhada: «Na hipótese da Dinamarca e Islândia aderirem ao Pacto do Atlântico, o único país fora desse Pacto com ilhas importantes no Atlântico será Portugal que possui o arquipélago dos Açores. Não são ainda conhecidas as intenções do governo de Portugal, embora em Washington conste não haver informações substanciais de que Portugal não deseje, eventualmente, alinhar com as outras potências ocidentais.» Lido assim, até parece que Portugal estava a fazer um favorzinho aos outros...

19 fevereiro 2024

A TRANSFERÊNCIA DA CRIMEIA DA RÚSSIA PARA A UCRÂNIA

A 19 de Fevereiro de 1954, o Presidium do Soviete Supremo da União Soviética, sedeado em Moscovo no Kremlin (como se pode ler na área assinalada do documento acima), «tendo em consideração a integração económica da região, a proximidade territorial e os estreitos laços económicos e culturais entre a província da Crimeia e a República Socialista Soviética da Ucrânia», emite um Decreto transferindo a província da Crimeia da soberania da República Socialista Federativa Soviética Russa para a jurisdição da República Socialista Soviética da Ucrânia. À época, esta transferência teve um significado mais simbólico que substantivo: Ucrânia e Rússia faziam parte da mesma entidade política, a União Soviética, esta transferência era apenas uma mudança de uma fronteira interna do grande país. O problema passou a colocar-se de outro modo quando da desagregação da União Soviética em 1991 em que Rússia e Ucrânia se tornaram países distintos. E aí na Rússia mostrou-se a intenção de recuperar a Crimeia, tanto mais que a esmagadora maioria dos habitantes da península são russófonos. Foi o que aconteceu entre Fevereiro e Março de 2014. À época, a iniciativa de força por parte da Rússia provocou as suas ondas de choque, mas vale a pena recordar que ocorreu numa conjuntura em que uma iniciativa de cariz muito semelhante ocorrera numa outra parte da Europa e com o patrocínio dos Estados Unidos: a extracção do Kosovo à soberania sérvia. Não havia muita moralidade para se andarem a recriminar uns aos outros. Só que o assunto apresentava-se como encerrado na antiga Jugoslávia e está muito longe de assim ser com a Rússia nas suas fronteiras. A Rússia não se ficou pela Crimeia e invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022 e hoje os dois países continuam em guerra. Como outrora aconteceu com a França do século XIX e a Alemanha do século XX, as ambições expansionistas da Rússia do século XXI são uma incógnita e um receio. Os outros países vizinhos da Rússia olham-na quase todos de viés. Contudo, paradoxalmente, registe-se que este gesto de há setenta anos havia sido apenas um expediente politico, sem se antever todas estas consequências.

08 fevereiro 2024

A BATALHA DE PORTO ARTHUR

Porto Arthur - que hoje é conhecida por Lüshunkou - era uma cidade portuária do norte da China que os russos haviam ocupado para a transformar numa base naval para a sua frota do Extremo Oriente. E não haviam sido os únicos a fazê-lo. Como se depreende do mapa acima, outras potências - a Alemanha (Tsingtao), o Reino Unido (Weihaiwei) e o Japão (Seul) - haviam feito o mesmo. E todas se vigiavam reciprocamente num ambiente tenso. A 8 de Fevereiro de 1904, os nipónicos decidiram tomar a iniciativa e - sem qualquer declaração prévia de guerra - a sua frota atacou a sua homóloga russa ancorada em Porto Arthur. O ataque foi desencadeado pela calada da noite e a acção preponderante dos atacantes foi o lançamento de torpedos visando os navios russos acostados. Mas só 3 dos 16 torpedos lançados atingiram alvos. A frota japonesa afastou-se para depois regressar já de dia, por causa de relatos optimistas demais do sucesso do primeiro ataque. E aí passou um mau bocado, devido ao efeito combinado da frota russa e das suas baterias costeiras que protegiam o porto. No computo global os russos sofreram cerca de 150 mortos, os japoneses 90, e as imagens da acção exibidas abaixo pela propaganda japonesa não têm nada a ver com o que aconteceu. Para os especialistas a batalha saldou-se por uma vitória táctica para os russos, mas uma vitória estratégica para os japoneses, já que a frota russa do Extremo Oriente ficou paralisada no porto, tornando-se, em vez de um activo, um fardo para o esforço de guerra russa. Essa e muitas outras lições se iriam extrair da guerra russo-japonesa que então começava e que só terminaria no ano seguinte com a vitória japonesa. Mas duas lições se extraem desta iniciativa do Japão: em primeiro lugar, que eles eram capazes de atacar quem considerassem inimigo sem qualquer pré-aviso formal (como tornariam a fazer em 1941 em Pearl Harbor); em segundo lugar, que conseguiam ser de um optimismo delirante quando avaliavam as baixas causadas ao inimigo (isso iria ser um erro recorrente de todas as batalha aeronavais que travaram durante a Guerra do Pacífico).

07 fevereiro 2024

UM PEQUENO FIASCO VISUAL DA CERIMÓNIA DE ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE SOCHI

7 de Fevereiro de 2014. Têm início os Jogos Olímpicos de Inverno, organizados pela Rússia na cidade de Sochi. Durante a extensa cerimónia de abertura (3h30), houve um pequeno incidente quando um dos anéis olímpicos falhou (acima). O pormenor, incluindo o processo soviético como ele não foi retransmitido para os espectadores russos, tornou-se o tema favorito como a generalidade da comunicação social ocidental cobriu o acontecimento. O destaque dado ao incidente afigurava-se excessivo, intolerante, mas a distância do decénio que entretanto decorreu torna-o simbólico e premonitório do que era a progressiva dissociação entre a Rússia e os restantes países ocidentais, que tinha razões muito mais profundas do que coreografias falhadas. Dali por apenas 15 dias, a 22 de Fevereiro de 2014, o parlamento ucraniano irá votar a deposição do presidente (pró-russo) Viktor Ianukovytch. Moscovo irá retaliar com a realização de um referendo e a anexação da Crimeia logo no mês seguinte (Março de 2014). Em 24 de Março daquele ano, o G7, as sete maiores economias ocidentais, que se transformara em G8 com o convite feito à Rússia em 1997, reverte à sua forma original - sem Rússia. Isso era muito mais significativo do que o anel que não funcionou...

05 fevereiro 2024

UMA HISTÓRIA MUITO BEM EXPLICADA, MAS ONDE FALTAVA A INCLUSÃO DE UM DETALHE IMPORTANTE

5 de Fevereiro de 1949. Esta notícia de há precisamente 75 anos é de um detalhe impressionante. A única coisa que se esqueceram de explicar foi a motivação para que o ministro dos Estrangeiros se dispusesse a visitar inesperadamente Washington mesmo sem qualquer convite feito. AS razões só se perceberão na edição do dia seguinte: a União Soviética, que então ainda era dirigida por Estaline, na perspectiva da formação de uma aliança militar de países europeus com os Estados Unidos (que virá a ser a NATO), aliança essa para que a Noruega fora convidada, começara a enviar insistentemente notas diplomáticas convidando este país - que faz fronteira com a União Soviética no Ártico - assinasse um pacto de não agressão. Daí a urgência do ministro norueguês em visitar os Estados Unidos: é que havia - e continua a haver - toda uma eloquência implícita quando a União Soviética - e agora a Rússia - insistem em ser não agressivas...

27 janeiro 2024

O AIATOLÁ, OS GENERAIS E OS MÍSSEIS LÁ ATRÁS

Esta fotografia foi tirada há dois meses, em 19 de Novembro de 2023, por ocasião da visita do Líder Supremo da Revolução Islâmica, o Aiatolá Ali Khamenei, ao Comando Aeroespacial dos Guardiões da Revolução Islâmica (o corpo de elite das forças armadas iranianas). Foi visivelmente posada e a intenção dessa pose é transparente: pretende reconfortar a opinião pública doméstica e transmitir uma imagem ameaçadora para as opiniões públicas internacionais, nomeadamente a dos Estados Unidos e as europeias. O destaque vai naturalmente para o Aiatolá, ao centro e parecendo estar a usar da palavra, na primeira fila imediatamente por detrás dele aparece um sortido de generais (só na fila seguinte aparecem os civis...), mas a imagem é dominada por um outro sortido, o de misseis, que, em fundo e em cores distintas, sugerindo funcionalidades diferentes, aparecem dispostos a apontar ameaçadoramente para cima, como prontos a ser utilizados. A imagem que estas potências muçulmanas pretendem promover no exterior passou a ser uma de tecnologia sofisticada e já não a de grandes multidões eivadas de fé religiosa. Uma nota irónica final: apesar de bem encenadas, estas coreografias do Irão parecem não impressionar os dirigentes de outras potências muçulmanas rivais, como se percebeu pelos incidentes de há pouco mais de uma semana com o Paquistão (abaixo).

02 dezembro 2023

A DOUTRINA MONROE

(Republicação por ocasião do bicentenário do discurso)
Entre os 25 senhores que constam deste quadro acima, o do canto superior direito e que foi o quinto presidente dos Estados Unidos entre os anos de 1817 e 1825 chamava-se James Monroe (1758-1831). À sua maneira, James Monroe (retratado mais em exclusivo no quadro abaixo) tornou-se famoso quando se associou o seu nome a uma doutrina apresentada por si e que se tornou depois famosa muitos anos mais tarde sob a designação de Doutrina Monroe.
Numa tradução muito livre daquilo que Monroe disse(*) ao Congresso em 2 de Dezembro de 1823 no seu discurso do estado da União, e que veio a constituir doutrina, os dois continentes americanos, pelas condições de liberdade e independência que conquistaram e asseguraram, não serão doravante passíveis de uma futura (re)colonização por qualquer Potência Europeia. Para a época, era uma proclamação tão grandiloquente quanto, pronunciada pelo representante dos Estados Unidos, um pouco insolente
Numa avaliação crua da balança do poder das potências naquela altura, os Estados Unidos eram ainda um pigmeu quando comparados, por exemplo, com a grande potência marítima da época, o Reino Unido. Quando Monroe engrossou a voz, ainda não haviam decorrido 10 anos desde a última vez que a ex-colónia e a ex-metrópole se haviam envolvido mais uma vez numa Guerra (1812-14). Desta vez pela liberdade do comércio marítimo mas desta vez vencida pelos britânicos.
Os britânicos podiam não ter tido meios para impor a autoridade colonial aos Estados Unidos, e por isso perderam a Guerra da Independência (1775-83), mas tinham-nos para impor um severo bloqueio comercial às suas antigas colónias e para desembarcar expedições com a intenção de destruir os objectivos em terra que escolhessem. Em Agosto de 1814, uma dessas expedições atingiu Washington, a capital federal, incendiando os seus edíficios principais (abaixo) e fazendo fugir Madison, o antecessor de Monroe.
Por isso, não fora a concordância tácita dos britânicos em preservar o estatuto dos vários países que se haviam tornado recentemente independentes na América Latina, conjugada com a impotência espanhola e portuguesa em recuperar os seus impérios americanos, e a Doutrina Monroe, na altura em que foi proclamada, não teria passado de… letra morta. Na realidade, quando os americanos puderam impor autonomamente a sua Doutrina, já o seu autor morrera há muito (1831)…

(*) Na verdade, acredita-se hoje que aquelas passagens do discurso foram escritas pelo então Secretário de Estado, John Quincy Adams, que, curiosamente, viria a ser depois o sexto Presidente dos Estados Unidos, entre 1825 e 1829.

22 outubro 2023

EXERCÍCIO "BIG LIFT"

22 de Outubro de 1963. Por uma primeira vez, os Estados Unidos transportaram uma divisão completa do seu exército numa enorme ponte aérea sobre o Oceano Atlântico, dos seus aquartelamentos de origem para a Europa. No total tratou-se de 15.358 efectivos pertencentes à 2ª Divisão Blindada, que eram acompanhados de 504 toneladas de material de guerra e que foram transportados em 204 aviões desde oito bases situadas no sul e no sudoeste dos Estados Unidos, tendo como destino bases situadas na França e na Alemanha. Durante o exercício, que durou dois dias e meio, os aviões de transporte foram escoltados por 116 caças tácticos que os acompanharam sobre o Atlântico. Como aviões de transporte foram utilizados tanto Boeings C-135, que realizavam a viagem de 5.600 milhas em 10 horas e meia sem qualquer escala, como Douglas C-124, que eram substancialmente mais lentos, e que precisavam de se reabastecer nas Bermudas e nos Açores. O trajecto destes últimos não aparece no quadro acima, porque o propósito principal do exercício era o de propaganda: exibir a rapidez como o exército norte-americano conseguiria deslocar uma divisão de combate para a Europa no cenário de uma potencial invasão soviética. Após as manobras terrestres de Outono da NATO na Europa, as tropas foram transportadas de volta para os Estados Unidos a partir de 21 de Novembro de 1963.

17 outubro 2023

O EMBARGO DO PETRÓLEO ÁRABE

17 de Outubro de 1973. Reunidos no Koweit, os representantes dos países árabes produtores de petróleo anunciam um aumento de 17% do preço do produto sem quaisquer negociações prévias com as grandes petrolíferas. Mais do que isso, anunciaram a realização de uma nova reunião em que discutiriam o emprego dos fornecimentos do produto como arma negocial no quadro da guerra do Yom Kippur então em curso. Este é o exemplo típico da notícia cujas consequências não são completamente digeridas no momento da sua publicação. A primeira página do Diário de Lisboa do dia dedica apenas um espaço no seu canto inferior direito às conclusões da reunião (esquerda). Mas a edição do dia seguinte voltava ao tema, sobretudo interrogando-se quanto às suas repercussões para todos os países ocidentais: Estados Unidos, Grã-Bretanha e também Portugal.
A verdade é que o desenvolvimento técnico dos automóveis pouco apostara até aí na redução dos consumos de combustível, considerado um recurso abundante e relativamente pouco dispendioso. Pode-se apreciar nesta segunda fotografia, o impacto que as medidas de racionamento podiam vir a ter num proprietário de um banal VW Carocha familiar: os 10 galões autorizados por cliente (cerca de 38 litros) que se lê no cartaz, dar-lhe-iam para andar um pouco mais de 400 km. Todas essas motorizações sedentas de combustível foram rapidamente ultrapassadas por outras bem mais parcimoniosas.

10 outubro 2023

ATÉ QUANDO SE CONTINUARÁ A COBRIR MEDIATICAMENTE A GUERRA DA UCRÂNIA?

Ontem, o jornal Observador era uma das raras publicações a dar ainda algum destaque à guerra na Ucrânia, que ia já no seu 593º dia. Porque se trata do 593º dia, já estará a cansar as pessoas. Israel é a nova coqueluche do conflito armado. Até a fotografia escolhida pelo jornal era sugestiva da transição mediática que se está a impor, com o destaque dado às bandeiras israelitas que foram afixadas nalgumas montras de Kiev. Por sinal, considero que aquilo que se passa na Ucrânia é mais importante do que o que se passa e se possa vir a passar em Israel em termos de segurança europeia. Mas isso é só uma questão de segurança, não é uma questão de entretenimento.

08 outubro 2023

OS HERÓIS E OS SUPER HERÓIS, QUE SÓ ÀS VEZES CONSEGUEM QUE OS HERÓIS NÃO COMETAM DISPARATES

8 de Outubro de 1943. A entrada do diário desse dia do general Alan Brooke mostra-o desesperado com Winston Churchill. Nos últimos dias, o primeiro-ministro britânico aderira entusiasticamente - como era sempre seu timbre - a um novo projecto que passava por invadir a ilha grega de Rodes (assinalada a vermelho no mapa mais abaixo). Além do projecto ser um despropósito do ponto de vista militar (confira-se com as setas que assinalam a progressão dos exércitos aliados pela península italiana), só a insistência por parte de Churchill arriscava-se a indispor os aliados norte-americanos, que viam nestas maquinações a intenção britânica de os arrastar para um envolvimento nos Balcãs - desconfianças que o próprio Alan Brooke confessava não serem descabidas. No final, embora os livros de história sejam muito discretos quanto ao assunto, Alan Brooke não conseguiu amansar Winston Churchill e o resultado foi um fiasco. Este é mais um dos exemplos históricos de que as grandes proezas históricas podem, por vezes, não consistir naquilo que foi feito, mas precisamente naquilo que se conseguiu impedir que se fizesse, porque se tratava de um completo disparate. Aliás, não foi em vão que um dos mais inteligentes assassinatos de carácter foi perpetrado por Alan Brooke precisamente a respeito de Churchill, de quem disse que ele tinha muitas, uma dezena de ideias por dia, que uma delas era boa, só que o próprio Churchill não conseguia saber qual... Mas, porque as melhores histórias não precisam de narrar aquilo que de facto aconteceu é que uma biografia de Winston Churchill tem muito mais saída do que uma de Alan Brooke. As fotografias dos dois foram feitas também há quase precisamente oitenta anos, pelo fotógrafo canadiano Yousuf Karsh, que estava então em Londres. Lê-se no mesmo diário que a sessão com Alan Brooke (de onde saiu a fotografia abaixo, de mapa da Europa em fundo) teve lugar a 13 de Outubro.

06 outubro 2023

PORTUGAL, A BASE DAS LAJES E A GUERRA DO YOM KIPPUR

6 de Outubro de 1973. Foi o dia do início da Guerra do Yom Kippur: egípcios e sírios atacaram de surpresa e simultaneamente os israelitas num dia feriado para os últimos. Mas as vicissitudes dessa guerra só nos interessem colateralmente, e nem sequer ainda haviam chegado às redacções dos jornais em qualidade e quantidade para aparecerem com o devido destaque na edição desse dia (canto inferior direito). Em contraste, o que nessa edição de há 50 anos se pode perceber muito claramente é o recado público que a diplomacia portuguesa, encabeçada pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Patrício, pretendia transmitir ao Departamento de Estado norte-americano. Aproveitando a estadia daquele na ONU, em Nova Iorque, os portugueses não escondiam a sua diplomática irritação com o desinteresse demonstrado pelo outro lado com a renegociação atempada do acordo que lhes permitia a utilização da base das Lajes nos Açores. «Portugal não deseja renovar o arrendamento da base aérea americana dos Açores (...) o arrendamento termina dentro de três meses e, até agora, não se realizaram quaisquer negociações tendo em vista a renovação do contrato» são as palavras atribuídas a Rui Patrício. E, num desdém ostensivo pelas cláusulas vigentes, prosseguia: «dos 436 milhões de dólares prometidos por Washington (...), Portugal recebera apenas um pequeno navio de investigação oceanográfica e um milhão de dólares destinados a bolsas para estudantes portugueses que desejassem frequentar as universidades americanas.»
Um mau negócio: «(...) o seu governo não utilizou os 400 milhões de dólares de créditos (bancários) para a compra de produtos americanos, pois encontrara na Europa melhores condições». Em suma, se os Estados Unidos não se mostravam interessados em preservar as facilidades da base das Lajes, Portugal também não se mostrava interessado nas contrapartidas recebidas até aí pela concessão dessas mesmas facilidades. Mas em breve tudo isso se iria alterar radicalmente da parte dos Estados Unidos. À medida que a guerra do Yom Kippur evoluía, mais Israel se via à beira do colapso militar. A seu pedido, os Estados Unidos iniciaram uma vasta ponte aérea transportando material de guerra que substituísse aquele que estava a ser perdido na frente de combate. O vídeo abaixo dá uma versão estupidamente ingénua desse auxílio, embora a pretensa ingenuidade bíblica e o papel salvífico de Richard Nixon, não lhes dê, aos autores, para querer ressalvar também a importância geográfica única da base das Lajes para a montagem dessa ponte aérea que viria a ligar os Estados Unidos a Israel, salvando os seus cidadãos. A anuência portuguesa foi preciosa, tanto mais que ela contrastou com a posição da esmagadora maioria dos restantes países europeus, que procuraram preservar a sua neutralidade no conflito israelo-árabe. E, por uma (primeira?) vez, os americanos perceberam o valor da localização da base das Lajes. Claro que o acordo, tão periclitante que estava, acabou por ser renovado e que o trabalho negocial da nossa diplomacia veio a ser muito facilitado...

26 setembro 2023

O DIA EM QUE NÃO COMEÇOU A III GUERRA MUNDIAL

(Republicação)
Existem vários livros e filmes contando os dias quentes do Outono de 1962 em que, por causa da colocação dos mísseis soviéticos em Cuba, Kennedy e Khrushchev (os dois Ks), os Estados Unidos e a União Soviética estiveram à beira de uma Guerra Mundial que provavelmente degeneraria num conflito nuclear. Em contraste, quase ninguém terá ouvido falar do Tenente-Coronel Stanislav Petrov, um oficial do Ramo da Defesa Aérea soviética (ПВО) que evitou que aquelas mesmas duas superpotências se tivessem envolvido acidentalmente num outro conflito nuclear em 26 de Setembro de 1983

Este outro Outono quente de 1983 começara a aquecer a 1 de Setembro em consequência do episódio em que interceptores soviéticos haviam abatido um Boeing 747 da companhia aérea sul-coreana que, vindo dos Estados Unidos para a Coreia, se desviara da rota, o que causou a morte das 269 pessoas que seguiam a bordo (23% eram norte-americanas). É fácil imaginar quais as consequências que este acontecimento provocou nas relações – sempre tensas! – entre os dois países e a tensão acrescida que ainda pairaria no ar na noite de 25 para 26 de Setembro de 1983, quando o tenente-coronel Petrov entrou de serviço.

Costuma ser assim: muitas vezes, os acontecimentos importantes são condicionados por pormenores irrelevantes: Petrov não devia ali estar, mas fora convocado à última da hora para substituir um camarada que adoecera. As suas funções, enquanto estava de turno, eram vigiar uma panóplia de ecrãs mostrando imagens em directo (via satélite) das regiões do Midwest dos Estados Unidos onde estavam localizados os silos com os mísseis transportando as armas nucleares do inimigo e reportar mal acontecesse alguma anomalia: o tempo que medeia entre a descolagem e o impacto no destino ronda os 12 minutos!

Meia hora depois da meia-noite, aquilo que se imagina que os profissionais do ramo mais devem temer aconteceu mesmo: um aviso luminoso vermelho a piscar conjugado com um ensurdecedor sinal sonoro! O computador acabara de o informar que, de acordo com as informações disponíveis, nos Estados Unidos tinham acabado de lançar um ICBM¹. Ainda Petrov, tão assustado quanto intrigado (parecia haver algo de errado nas imagens que lhe chegavam via satélite), avaliava a situação e já dois, três, quatro, cinco avisos disparavam por sua vez, correspondentes à saída de outros tantos ICBMs.

O que estava a faltar na colecção de sinais dos outros monitores diante de Petrov eram as imagens térmicas que assinalariam a combustão dos mísseis recém-lançados… Ou seja, os outros indicadores à sua disposição estavam a mostrar que nada acontecera... Por outro lado, os segundos continuavam a passar e os americanos não haviam lançado mais nenhum ICBM para além dos cinco assinalados, o que contrariava todos os preceitos que haviam ensinado a Petrov no caso de haver um primeiro ataque nuclear: o atacante iria empregar todos os meios que pudesse, antes que eles fossem sujeitos a retaliação.

Se os Estados Unidos tinham centenas de mísseis, porque iriam começar uma Guerra lançando apenas cinco? – perguntou-se. Numa sociedade que em nada encorajava a tomada de decisões e num regime famoso por executar quem as tomava erradas, há algo de milagroso na decisão rápida do Tenente-Coronel Stanislav Petrov, considerando que o incidente não passava de um falso alarme do sistema de alerta nuclear soviético. As dúvidas tiraram-se dez minutos depois e, mais do que os imaginar, é possível ver uma réplica de como eles poderão decorrido, a partir da cena abaixo, retirada do filme WarGames...


Trata-se de uma coincidência mas, nesse mesmo Outono de 1983 estava a ser lançado o filme WarGames onde o enredo gira precisamente à volta dos problemas de um sistema de alerta nuclear norte-americano... Como é tradicional nos filmes de Hollywood, o filme acaba bem. A carreira do tenente-coronel Petrov é que nem por isso: veio a aposentar-se prematuramente. E o Outono de 1983 manteve-se quente até ao fim, até à realização dos exercícios Able Archer 83 pela NATO, que simulavam precisamente um engajamento nuclear, e se desenrolaram perante membros do Pacto de Varsóvia de sobrolho franzido.

¹ Acrónimo em inglês para Míssil Balístico InterContinental.