28 de Novembro de 1919. Ganhando uma eleição intercalar no círculo de Plymouth Sutton, Nancy Astor (1879-1964) torna-se na primeira mulher a tomar assento no Parlamento britânico. Convém esclarecer que Nancy Astor não foi a primeira mulher a ser eleita como deputada. Esse feito pertence a Constance Markievicz que fora eleita como nacionalista irlandesa por um círculo daquela ilha nas eleições que haviam sido realizadas em Dezembro do ano anterior. Só que, como aqui expliquei, os deputados nacionalistas do Sinn Fein que haviam sido eleitos naquela eleição não se reuniram em Londres, mas sim em Dublin, provocando uma crise política que prenunciou a secessão da Irlanda. Nancy Astor foi assim a primeira mulher que veio, de facto, a ocupar o seu lugar em Westminster depois de ter sido eleita. Refira-se que o deputado que ocupara o cargo até então havia sido o seu marido que, por força da morte do pai, fora obrigado a ocupar o lugar deste na Câmara dos Lordes. A eleição de Nancy Astor foi, assim e apesar do seu valor simbólico, um pouco obscurecida por essa condição de esposa do antecessor no cargo. Contudo, o mérito de ter mantido o lugar pelos 26 anos que se seguiram, até Julho de 1945, é inteiramente seu.
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28 novembro 2019
23 novembro 2019
«VAMOS PENDURAR A NOSSA ROUPA A SECAR NA LINHA SIEGFRIED»
Por uma associação de ideias, que me levou a ir a um daqueles estabelecimentos com máquinas de lavar e secar roupa, lembrei-me que em Novembro de 1939, o hit musical daquela época dos dois lados da Mancha era esta canção de encorajamento que, concebida em Inglaterra, fora rapidamente traduzida para benefício e regozijo conjunto com os aliados franceses. A canção tinha um título como só o clássico humor britânico pode conceber: «Vamos pendurar a nossa roupa a secar na Linha Siegfried», uma espécie de promessa de vitória que virá a ser cumprida, mas somente uns anos depois ao que os cantores de há oitenta anos poderiam estar à espera...
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14 novembro 2019
QUANDO O REGIME COMUNISTA CHINÊS ANUNCIOU QUE IRIA RESPEITAR A INTEGRIDADE DE MACAU
14 de Novembro de 1949. Desta vez o Diário de Lisboa podia falar daquilo que até aí fora um tema tabu na imprensa: o destino de Macau perante o avanço das tropas comunistas. Podia fazê-lo porque as notícias se apresentavam positivas, o que era um alívio para o governo português, que assistia impotente ao desenrolar dos acontecimentos. Os «chefes comunistas» faziam declarações em que se mostravam dispostos a respeitar a fronteiras das duas colónias (Hong-Kong e Macau), embora, mais adiante, se percebesse que isso tinha o preço das administrações coloniais não apoiarem as forças nacionalistas: «Os aviões e navios nacionalistas não podem reabastecer-se em Hong-Kong», lia-se no desenvolvimento da notícia, escamoteando mais uma vez que essa restrição acontecia também com Macau. Mas, a envergonhada discrição portuguesa a respeito de todo o problema, contrastava, com vantagem, com uma atitude exagerada de confrontação dos britânicos (abaixo), que, de tão exagerada, nem chegava para convencer os informados entre a sua própria opinião pública.
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31 outubro 2019
«ORDER! ORDER!»
Ele há pessoas que as circunstâncias, mas também eles próprios, os leva a transformar os cargos que circunstancialmente ocupam neles próprios. É extremamente difícil suceder a essas pessoas. John Bercow, o speaker da câmara dos Comuns britânica, é um caso flagrante disso, de alguém tão grande que vai demorar até aquele cargo se reduzir às suas verdadeiras dimensões. A identidade e a personalidade dos seus antecessores foram uma peculiaridade daqueles mais interessados pelos detalhes dos parlamentarismo britânico. Contudo, a conjugação da crise política aberta pelos resultados do referendo do Brexit com a personalidade de John Bercow tornaram este último numa verdadeira estrela mediática mundial. Hoje, dia do abandono da função que o celebrizou, vale a pena recordar o dia (22 de Junho de 2009) em que John Bercow foi eleito e tomou posse do cargo (acima). Quanto à sua carismática notoriedade internacional, proclamando aqueles famosos apelos à ordem (abaixo) num parlamento caótico a que ninguém conseguiu dar rumo, essa vai deixar muitas saudades!
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19 outubro 2019
A LIBERTAÇÃO DOS «QUATRO DE GUILDFORD»
19 de Outubro de 1989. Foi o dia da libertação, por anulação da sentença, dos quatro réus que haviam ficado conhecidos como os Quatro de Guildford. Guildford era a localidade (da Inglaterra) onde se localizavam dois pubs que haviam sido alvo de um atentado bombista conjunto em 5 de Outubro de 1974. Nele haviam morrido 5 pessoas, para além de 65 feridos. Os atentados representavam uma escalada da violência que então se registava na Irlanda do Norte: o IRA parecia pretender transportar o clima de insegurança que se vivia na Irlanda para a Inglaterra propriamente dita. Facto que poderá explicar a reacção pressionante das autoridades políticas britânicas não apenas sobre as investigações, como também sobre o aparelho judicial. Os culpados foram rapidamente descobertos, confessaram e um ano depois o julgamento concluía-se com a condenação dos quatro réus à prisão perpétua(!). Foi só depois, e por causa de uma campanha que clamava por justiça, que se começaram a perceber as incongruências do julgamento. Note-se que também era do interesse do IRA (que sabia muito bem quem haviam sido os verdadeiros autores do atentado!) dar a maior publicidade ao tremendo erro judiciário que se cometera, colocando em cheque o aparelho judicial do Reino Unido. A reversão das condenações que há 30 anos teve lugar, foi um gesto extremamente corajoso desse aparelho. Porque não estou a imaginar muitos outros aparelhos judiciais por esse mundo fora a assumirem os seus erros como aqui aconteceu. Como o tempo provará, a admissão do erro foi a decisão que politicamente se revelou a mais assisada para os interesses britânicos, transmitindo globalmente uma imagem de auto-correcção da sua justiça, mau grado todas as vicissitudes do processo. Em 1993, os acontecimentos foram transpostos para um filme intitulado Em Nome do Pai, onde se destacavam as interpretações de Daniel Day-Lewis e de Emma Thompson (abaixo, a reprodução das cenas finais de há 30 anos). O circuito das indemnizações e dos pedidos oficiais de desculpas seguiu um percurso complexo e tortuoso. Gerry Conlon (que é interpretado no filme por Day-Lewis e que acabou por se tornar a figura mais destacada dos quatro condenados), morreu em Dublin em 2014 com apenas 60 anos. E qualquer analogia que se possa fazer da evocação destas pesadas condenações com aquilo que acabou de acontecer em Espanha terá sido uma mera coincidência...
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14 outubro 2019
A LIBERTAÇÃO DE ATENAS
14 de Outubro de 1944. Os soldados britânicos sob o comando do general Ronald Scobie entram em Atenas, que havia sido evacuada apenas dois dias antes pelos alemães. As cenas da libertação que tanto se assemelham neste documentário às das outras capitais europeias escondem que se espera que os libertadores funcionem como uma força de interposição entre dois exércitos irregulares ansiosos por se confrontarem de armas na mão: o ELAS, militarmente mais forte, pró-comunista e o EDES, pró-republicano, que apesar de mais fraco gozava das simpatias britânicas. Estes últimos, falhos de uma leitura perspicaz da situação e de discernir o que era importante do que não o era, insistiam em adicionar o rei Jorge II à questão política, complicando-a. Estas celebrações que assinalavam a libertação de Atenas e as tréguas que se lhe seguiram duraram cerca de um mês e meio. Em 3 de Dezembro um ELAS cada vez mais desconfiado da parcialidade dos britânicos, desencadeava uma insurreição pelo controle de Atenas (Dekemvriana), onde o seu exército se viu obrigado a intervir para a suprimir. Ainda não terminara a Segunda Guerra Mundial, mas houve sítios onde a transição para a Guerra Fria foi abrupta.
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12 outubro 2019
COMO SE FOSSE UM MEGA JOGO DE BATALHA NAVAL
Há quatro meses eram dois petroleiros que eram atacados no Golfo de Omã, depois foi um petroleiro iraniano a ser arrestado pelos britânicos em Gibraltar, os iranianos, em retaliação, apreenderam dois petroleiros britânicos no Golfo Pérsico, há cerca de um mês foram as refinarias sauditas a ser atacadas por rebeldes iemenitas (que, afinal, são capazes de ter sido iranianos). Agora, são novamente os iranianos a queixarem-se de que um dos seus petroleiros foi atacado ao largo da Arábia Saudita (vídeo abaixo). Em tudo isto, que se assemelha a uma gigantesca batalha naval em que os canos dos barcos atingidos não interessam, apenas o conteúdo da carga (petróleo), há apenas um padrão discernível: o de que o preço do crude se mantenha adequadamente elevado devido às preocupações que os incidentes suscitam. Será bruxaria, como acima diz o capitão Haddock?... Talvez não.
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28 setembro 2019
OS FALSOS SIAMESES
A capa desta semana da revista britânica The Economist até tem a sua piada, mas é também mais um episódio do recorrente expediente que os ingleses usam (cansativamente...) para se arrogarem a importância mundial que não têm, usando os americanos como muleta. A verdade é que os britânicos, até agora, não elegeram Boris Johnson para coisa nenhuma. Ele ocupa o cargo que ocupa por causa do abandono de Theresa May e de umas eleições internas no partido conservador em que recebeu 92 dos 140 mil votos dos torys. Por outro lado, Boris Johnson é uma pessoa inteligente e cultivada ao mesmo tempo que é um aldrabão, a quem já se ouviu tudo e o seu contrário e que não tem o menor pejo em mentir descaradamente. Mas é apenas esta última falta de ética que irmana Boris Johnson a Donald Trump. Donald Trump é uma pessoa que não tem nem sequer laivos de cultura e que mostra uma estupidez difícil de conceber no cargo que ocupa. Mas é verdade: os americanos elegeram aquele cretino para ser seu presidente! É complicado, mas o povo americano tem que se olhar ao espelho e assumir as responsabilidades e consequências de ter colocado uma pessoa com o perfil de Donald Trump na Casa Branca. No caso do Reino Unido, as responsabilidades do povo britânico são outras e mais subtis: as de se terem esquecido de perguntar, junto de Boris Johnson e alikes, em que condições é que o Reino Unido sairia da União Europeia. Não ligaram ao assunto, confiaram no Boris e agora estão lixados. Mas são problemas completamente diferentes.
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16 setembro 2019
FOTOGRAFIAS ELOQUENTES
Fotografia que se arrisca a perdurar, simbolizando a situação para onde o Reino Unido se deixou arrastar por causa do Brexit. À direita, o primeiro-ministro luxemburguês aponta para aquele que não aparece na fotografia mas que, como se percebe pela disposição das bandeiras, a preenche: Boris Johnson, o primeiro-ministro britânico, que preferiu não comparecer por causa dos manifestantes que se se expressavam à distância, discordantes. O discurso do anfitrião luxemburguês, proferido em inglês (uma cortesia, já que o inglês não é um dos idiomas oficiais do Luxemburgo) e que é não propriamente muito macio para o ausente, pode ser ouvido no original aqui abaixo. Mas isso será o menos, pois se se dizia antigamente que quem vivia pela espada morria pela espada, nos dias que correm, são os que ascenderam pela imagem que pela mesma imagem se tornam mais vulneráveis.
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13 setembro 2019
A PONTE SOBRE O RIO KWAI
Um dos expedientes de que Boris Johnson se tem socorrido, neste tempos difíceis por que tem passado a governar o Reino Unido (em vias de se dissociar da União Europeia), é o de lançar foguetes com anúncios de projectos espampanantes, à espera que alguma imprensa acorra para ir apanhar as canas, e com isso aliviar a pressão política e mediática a que ele tem estado a ser submetido. É assim que o Channel 4 News teve acesso a documentos - imagine-se quem lhos facultou... - que demonstram que o actual governo britânico está a estudar a hipótese da construção de uma ponte que ligue a Escócia e a Irlanda do Norte! É um projecto que, de há algum tempo para cá, fascina o actual primeiro-ministro britânico e que, como se pode constatar num mapa, é uma obra ambiciosa,que terá de ter uma extensão mínima de uns 40 quilómetros. Claro que os custos do empreendimento são igualmente ambiciosos, estimados em 17 mil milhões de euros.
Ainda há menos de um ano, na China, inaugurou-se uma ponte com 55 quilómetros de extensão que, atravessando o Delta do Rio das Pérolas, faz a ligação entre Hong Kong, Zhuhai e Macau. É a maior ponte do Mundo, custou também 17 mil milhões de euros e demorou nove anos a ser construída. Em comparação, a ponte sobre o Mar da Irlanda acarinhada por Boris Johnson, pareceria ser um galvanizante desafio britânico à proeza da engenharia chinesa. Contudo, para complicar a vida ao primeiro-ministro, existe um certo consenso entre a classe dos engenheiros locais sobre a inexequibilidade da obra. Entusiasmo e garantias quanto à viabilidade da mesma, só mesmo os vindos de arquitectos ou de políticos unionistas da Irlanda do Norte. Reconheça-se que a argumentação dos engenheiros britânicos faz algum sentido: os mapas que acompanham estas argumentações raramente expressam as profundidades das massas de água que as pontes atravessam, e foi por isso que eu fui pesquisar à internet mapas que as exprimissem, porque é precisamente para esse aspecto que os engenheiros chamam a atenção.
Enquanto que a ponte na China foi edificada na foz de um rio, onde as profundidades raramente ultrapassam os 20 metros, a ponte que hipoteticamente viria a ligar a Escócia e a Irlanda teria que atravessar uma falha (o dique de Beaufort) onde as profundidades atingem os 200 a 300 metros(!). Não é bem a mesma coisa em termos de engenharia e de custos. E, para acrescentar ainda mais dificuldades à concretização do projecto, essa falha foi usada no passado para despejar munições e material radioactivo(!). Ou seja, por detrás das aparências e por debaixo das águas, apresentam-se dificuldades e riscos que tornam a promoção da ideia tão fantástica que chega a tornar-se insensata. Estes argumentos já por várias vezes foram brandidos, mas nada parece demover Boris Johnson. Apesar dos elogios que por cá lemos a respeito da sua formação em Estudos Clássicos, é nestas circunstâncias que se percebe que a sensibilidade de Boris Johnson quanto a problemas do foro científico, assuntos que imponham rigor, a sua prestação é muito fraquinha, graças a Deus.
O que é um handicap para qualquer primeiro-ministro, admita-se. Mas, porque toda esta história gira à volta da construção de uma ponte, embora a ponte venha a revelar-se o menos importante para o enquadramento geral em que a acção decorre, lembrei-me do tenente-coronel Nicholson, a personagem quintessencialmente britânica criada por Alec Guiness para o filme A Ponte do Rio Kwai. Lembrei-me dele porque, tal como Boris Johnson, o coronel está tão obcecado com aquilo que considera a sua missão, missão essa que ele aceita ser o melhor dadas as suas circunstâncias (do cativeiro), que Nicholson não chega a compreender o quadro mais vasto que o envolve. Quando, no fim, o coronel morre destruindo a ponte, e apesar de se perguntar o que é que fez (What have I done?) para mim ainda é equívoco se o faz deliberada ou acidentalmente. E é desta mesma forma trágica que eu vejo Boris Johnson num futuro próximo: daqui por meses, de uma forma ou doutra, ele vai conseguir o seu Brexit; só não garanto que, para já, queira estar consciente das consequências do que vai desencadear.
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10 setembro 2019
FOGO «AMIGO»
10 de Setembro de 1939. Uma semana depois do início da guerra, a Royal Navy perde o seu primeiro submarino, o HMS Oxley (o primeiro da fotografia acima). Foi afundado... pelo HMS Triton, (abaixo) também da Royal Navy, que durante uma patrulha nocturna em alto mar o tomou por um U-Boot da Kriegsmarine, torpedeando-o. Morreram todos menos dois homens da tripulação (de 54) do Oxley. Estas primeiras semanas da guerra vão encontrar combatentes tão ansiosos quanto impreparados e, por causa disso, predispostos a disparar em qualquer circunstância. Quatro dias antes fora a RAF que registara as suas primeiras baixas num incidente semelhante, quando formações de Hurricanes (o primeiro da fotografia abaixo) e Spitfires se enfrentaram por engano sobre os céus de Inglaterra, e onde os segundos abateram dois Hurricanes, causando a morte de um piloto. Para completar o ridículo, a artilharia anti-aérea conseguiu abater um dos Spitfires... Quando de uma guerra em curso (seria o caso da guerra a decorrer no Leste, onde alemães e polacos se enfrentavam a sério), estes episódios embaraçosos conseguem ser disfarçados no quadro complexo das operações. Mas no caso do Ocidente, as hostilidades praticamente não existiam, e a justificação para tanto nervoso no gatilho era muito menos compreensível. Em Inglaterra, a batalha aérea de 6 de Setembro havia sido baptizada ironicamente de batalha de Barking Creek. Mas o afundamento do Oxley, atendendo ao elevado número de vítimas, foi completamente abafado quanto às verdadeiras causas. Só cerca de dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial é que se soube que fora afundado por um torpedo «amigo».
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27 agosto 2019
DOIS ATENTADOS NA IRLANDA QUE NOS FAZEM PERCEBER A DISTINÇÃO ENTRE O QUE É POLÍTICO E O QUE É MILITAR
27 de Agosto de 1979. No mesmo dia, o IRA promove dois atentados na Irlanda. No mais sangrento dos dois, montam uma emboscada a uma coluna de soldados britânicos. O local fora cuidadosamente escolhido, mesmo em cima da fronteira que separa a Irlanda do Norte da Irlanda, assim como o fora o encadeado da emboscada: primeiro haviam sido atacada a viatura de uma coluna que patrulhava; da explosão haviam resultado seis mortos e vários feridos; daí por uma meia hora e no local onde o IRA antecipou que os britânicos iriam instalar um PC para coordenar a evacuação dos feridos, detonaram uma outra bomba, que matou outros doze militares britânicos, incluindo um tenente-coronel e um major que estavam a comandar as operações de salvamento. A emboscada foi mais do que uma mortandade, foi uma carnificina impressionante: o método empregue - bombas de 350 kg - fez com que desaparecessem os cadáveres de algumas das vítimas. E no entanto, do ponto de vista técnico, militar, o atentado foi um sucesso do IRA e a passagem de um enorme atestado de incompetência aos militares britânicos, apanhados completamente desprevenidos, com as suas próprias rotinas operacionais a serem usadas contra si. Mas, para o IRA, a emboscada parecia ser apenas um recado entre profissionais. Porque, no mesmo dia, a organização terrorista irlandesa montara um outro atentado em que o visado era um membro da realeza britânica: lorde Louis Mountbatten (1900-1979). Mountbatten morreu quando explodiu uma bomba - esta muito menor: só 25 kg - no seu barco de recreio, também ao largo da Irlanda. Com Mountbatten morreram também três dos seus acompanhantes e outros três ficaram seriamente feridos (a imagem acima é de uma reconstituição feita para um documentário). Mas, como parecia ter sido a intenção inicial do IRA, estas últimas, não os soldados, é que foram as vítimas politicamente relevantes e aquelas que a comunicação social deu destaque - especialmente lorde Mountbatten. Se a emboscada de Warrenpoint era um aviso para os profissionais, a bomba que visou Mountbatten era um aviso ás elites britânicas quanto elas não se podiam considerar a salvo. Quando do 40º aniversário dos dois atentados convém recordar o quanto o jornalismo frequentemente perde o que é mais interessante e importante numa história.
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12 agosto 2019
O PRIMEIRO DIA DA «BATALHA» DE BOGSIDE
12 de Agosto de 1969. O primeiro dia da «batalha» de Bogside, uma batalha que verdadeiramente não o foi, tratou-se apenas um prolongado tumulto de protesto ao longo de três dias e que foi protagonizado pelos membros da comunidade católica (maioritária) da cidade irlandesa de Derry contra as autoridades policiais, não por acaso completamente conotadas com os protestantes. E as imagens televisivas dos protestos revelavam-se espectaculares em termos noticiosos, a fazer lembrar o famoso Maio de 68 em Paris. A «batalha» de Bogside (Bogside é um dos bairros católicos da cidade), acabou sem mortos, felizmente, mas demonstrou a incapacidade técnica e política da polícia local (RUC), o que conduziu à convocação dos militares britânicos como força de intermediação para a substituir. Resolveu-se o problema técnico, mas o político continuou a subsistir, pois a desconfiança dos católicos quanto à imparcialidade dos soldados recém-chegados permaneceu precisamente a mesma que estivera na origem dos tumultos.
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25 julho 2019
OPERAÇÃO GAFF(E)
Na história dos grandes conflitos, as pequenas operações bem sucedidas podem tornar-se em sucessos de propaganda. Mas as pequenas operações que, pelo contrário, tenham sido mal sucedidas têm o destino traçado para o oblívio, a não ser que alguém, a bem da verdade, as pretenda depois recuperar. É o que se faz aqui com uma Operação que recebeu o nome de Gaff, e cujo desfecho, como iremos ver, a presta ao trocadilho mais do que evidente com gaffe. Regressemos a 25 de Julho de 1944, completam-se hoje 75 anos. Os exércitos aliados ainda tentavam romper a resistência que os alemães lhes opunham na Normandia mas, nesse dia e por detrás das linhas alemãs, um comando especial do SAS britânico foi lançado clandestinamente em pára-quedas nos arredores de Orleães. A missão dos seis homens que o compunham era (como se pode ler no documento acima): «Matar, ou raptar e levar para Inglaterra, o Marechal de Campo ROMMEL, ou qualquer dos membros mais importantes do seu estado-maior». Com tanto azar que, desconhecido do comando e dos aliados, o alvo (Rommel) já fora neutralizado dias antes (17 de Julho), quando a sua viatura fora atacada por aviões da RAF, num episódio de onde ele saíra ferido com gravidade. Quando o comando descobriu isto, três dias depois da chegada, já há muito que Rommel fora hospitalizado e evacuado para a Alemanha. O comando de potenciais assassinos/raptores regressou assim às linhas aliadas, aonde chegou dia 12 de Agosto, conforme o relatório abaixo. Rico em detalhes insignificantes de acções onde se engajou em apoio da resistência francesa, o que é omisso em toda a documentação, é o detalhe do teor das comunicações trocadas entre Londres e o comando, sem responder à pergunta se se chegou a colocar a hipótese de remontar toda a operação, agora tendo como alvo alternativo o Marechal de Campo von Kluge, que era o sucessor de Rommel nas funções.
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07 julho 2019
O DISCURSO DOS «RIOS DE SANGUE»
Lembrei-me do discurso dos «Rios de Sangue» de Enoch Powell por causa do artigo de opinião (Podemos? Não, não podemos) de Fátima Bonifácio, este Sábado, no Público. Enoch Powell era um deputado conservador britânico que se celebrizou por há cerca de cinquenta anos ter proferido um discurso numa reunião política do seu partido em Birmingham em que se mostrava particularmente crítico e alarmista para com as consequências da imigrações negra e indiana que então começavam a fazer sentir significativamente o seu peso na sociedade britânica. A expressão que lhe granjeou o título não é expressamente usada no discurso, mas Erich Powell, que fora um erudito, antigo professor de grego clássico (e, nesse aspecto, não muito diferente de Fátima Bonifácio...), socorre-se de uma passagem da Eneida de Virgílio, numa passagem em que este descreve o Tibre espumando com o sangue em consequência das guerras civis. O discurso de Powell é extenso, bem mais extenso do que o artigo de Fátima Bonifácio, mas os dois compartilham a mesma presunção arrogante de que há comunidades que não são assimiláveis, e ambos o dizem com uma crueza que induz a uma reacção proporcionada da parte de quem lê/ouve e discorda do conteúdo. O estilo é bruto e predispõe a uma reacção também bruta. Não sei se a reacção ao texto de Fátima Bonifácio terá uma repercussão maior, mais significativa e mais duradoura do que as tradicionais ressonâncias das redes sociais. Até pode ser que, depois da animação de fim de semana, tudo já esteja esquecido lá pela quarta-feira de cinzas.
Mas, porque o discurso dos Rios de Sangue teve uma continuação, vale a pena contá-la. O líder (Edward Heath) e a direcção dos conservadores da época ostracizaram ostensivamente Enoch Powell, muito embora sondagens lhe dessem uma grande popularidade. Em 1974, não o deixaram apresentar-se pelo seu círculo tradicional de Wolverhampton South West. Mas Powell acabou por ser eleito por um círculo unionista da Irlanda do Norte. Entretanto, com a entrada da década de 80, aproximaram-se os prazos de 15 a 20 anos em que ele previra a existência de uma ingerível massa de três milhões e meio de imigrantes vindos de países da Commonwealth que iria fazer desmoronar a sociedade do Reino Unido. Houve muitas outras convulsões sociais naquele país (as greves dos mineiros), mas não as de cariz racial que ele previra. Perdeu a eleição em 1987 e não voltou a apresentar-se. Morreu em 1998. Num retoque final de ironia, e na primeira vez que aquele que fora o seu círculo tradicional de Wolverhampton South West foi recuperado pelos conservadores, em 2010, o candidato conservador eleito para o lugar que fora de Powell chamava-se Paul Singh Uppal, um sique cuja família imigrara da África Oriental britânica. Os siques haviam sido uma das comunidades visadas expressamente por Enoch Powell no seu famoso discurso: «'The Sikh communities' campaign to maintain customs inappropriate in Britain is much to be regretted.» Não sei se o artigo de Fátima Bonifácio chega a merecer ser esquecido com esta mesma pompa...
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30 junho 2019
O MUNDO DO AVESSO?
Dia 30 de Junho. De 1939 e de 1969. Nas notícias do primeiro desses dias, noticiava-se o terrorismo na Palestina. Só que as vítimas dos atentados eram árabes e os seus autores israelitas. E era sobre estes que a repressão incidia (a autoridade tutelar da Palestina era o Reino Unido). Nas notícias do segundo desses dias, os britânicos mostravam-se ansiosos por entrar para a Comunidade Económica Europeia; esperavam que a recente eleição de Georges Pompidou provocasse uma inflexão da atitude francesa que, com Charles de Gaulle, já por duas vezes vetara a admissão do Reino Unido. Que estas duas notícias são o oposto do que se passa na actualidade não restam dúvidas, mas, a tratar-se do Mundo do avesso, com israelitas a aterrorizar árabes com bombas e a serem presos, e britânicos a exercerem todas as pressões possíveis para se juntarem à Europa, qual é o avesso, qual é o direito?
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29 junho 2019
«HAMMERTRUMP»
O comportamento abusivo, errático, por vezes inexplicavelmente incoerente, como Donald Trump tem vindo a gerir a política externa dos Estados Unidos, corroborada mais uma vez através dos inúmeros pequenos episódios por ele protagonizados durante a cimeira do G20 no Japão, fez-me lembrar aquele aforismo que estabelece que aqueles que escolhem equipar-se com martelos desenvolvem uma tendência para lidar com o que os confronta como se fosse tudo cabeças de prego. Como Trump abdicou dos fingimentos de que há algum género de multilateralismo na ordem internacional, perde-se o sentido de convocar reuniões deste género em que, com tudo discutido à martelada, uma boa parte dos participantes só lá está a fazer figuração.
É apenas a inércia que empurra ainda para destaque as fotografias de conjunto, mas o teor do que se relata assenta quase exclusivamente no que acontece nos encontros bilaterais, nomeadamente entre Trump e Xi, com a coreografia correspondente, de que está a correr tudo bem. Por exemplo, no caso da fotografia acima, em que não reconhecemos metade dos presentes e em vez dos sorrisos e acenos generalizados, a imprensa norte-americana destacará o passou bem atencioso que é endereçado por Trump ao esquartejador-mor da Arábia Saudita, enquanto a imprensa europeia preferirá concentrar-se na expressão insatisfeita de Jean-Claude Juncker, indício provável que a fotografia foi tomada antes do jantar e que não serviam aperitivos.
Em contrapartida, esta última fotografia é um excelente exemplo de Theresa May a dar satisfação à opinião pública e publicada do seu país, indignada com o facto de os russos andarem a promover operações «à James Bond» no país do James Bond. O desdém exibido por May pelo seu interlocutor, conjugando-se com o facto de ela estar de saída do cargo (algo que a Putin nem lhe passará pela cabeça...), tornou a ocasião única, e a capacidade de reacção das partes assimétrica. Os britânicos, de resto, não deixaram passar a ocasião e um pequeno incidente de Putin andar a beber por um copo próprio, para deixar entendido que envenenamentos e operações afins, tal qual aconteceu no Reino Unido, são receios levados muito a sério pelos dirigentes russos.
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28 junho 2019
O CENTENÁRIO DA ASSINATURA DO TRATADO DE VERSAILLES
28 de Junho de 1919. Na mesma galeria dos espelhos que assistira à proclamação do Império alemão em 1871, mas agora propositadamente remodelada para o efeito (acima), tem lugar, a partir das 3 da tarde, a cerimónia da assinatura do Tratado que punha fim ao conflito entre as potências vencedoras e a Alemanha. A dias da cerimónia e perante a relutância do governo alemão em assinar o documento, as potências aliadas endereçaram-lhe um ultimato. Os alemães assinaram resignados, vencidos mas não convencidos, e dispostos a sabotar todas aquelas cláusulas injustas a que se pudessem furtar.
Mas as atenções da ocasião foram todas para os signatários vencedores (abaixo). Mas trata-se de uma excelente ocasião, para mais carregada de simbolismo, para recordar que o jornalismo é apenas... jornalismo, e que os jornalistas...
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16 junho 2019
OS ALIADOS ENDEREÇAM UM ULTIMATO À ALEMANHA
Versailles, 1919. Acima vemos Clemenceau, com a cartola levantada, Wilson, preparando-se para a levantar, e Lloyd George, que, de sorriso malandro e agarrado à bengala, parece não fazer tenção de saudar os presentes como os seus homólogos. Apesar da cortesia sugerida pela imagem, a 16 de Junho de 1919, há precisamente cem anos, os Aliados endereçaram um ultimato à Alemanha: em Berlim tinham cinco dias para se decidirem a aceitar incondicionalmente os termos do Tratado que viera a ser negociado até aí. Negociado sobretudo entre os vencedores, entenda-se. Se Berlim não o fizesse, os Aliados ameaçavam revogar as condições de armistício que se mantinham desde 11 de Novembro de 1918, o que constituía uma forma eufemística e rebuscada de invocar o reinício das operações militares e da ocupação da Alemanha, num momento em que a Alemanha se desmoronara militarmente por dentro. Mas mesmo desmoronada, as reacções populares na Alemanha sobre o assunto eram as que se podem deduzir pela fotografia abaixo, de uma manifestação de protesto diante do Reichstag (de uma certa forma irónica, muito idênticas às que os gregos faziam aqui há uns poucos de anos na praça Sintagma de Atenas). Mas, acompanhado da ameaça expressa que a situação só podia piorar, a aceitação do Tratado lá acabou por passar com uma votação de 237 votos favoráveis versus 138. O Tratado foi assinado dia 28 de Junho, mas o que nos interessa aqui são os bastidores da História.
ADENDA: Nem de propósito e a coincidir com o centenário do ultimato, numa daquelas coincidências que torna a opinião expressa ainda mais ridícula, temos um dos mais desastrados opinadores das colunas de opinião da imprensa portuguesa ((1),(2),(3)), a desprezar os ensinamentos do passado, para reencenar a actualidade, agora com Londres no lugar que há cem anos era de Berlim. A estes opinadores a História não ensina nada, mas creio que eles também não andam nisto para aprender, muito menos ensinar, resume-se a uma questão, como escrevia ontem João Miguel Tavares, de nos fornecer «chaves de interpretação»... embora desconfie que as «portas» onde essas «fechaduras» estão aplicadas, guardam salas onde o conhecimento não é a preocupação principal.
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12 junho 2019
PAPELINHOS AO VENTO EM MÃOS DE POLÍTICOS DESACREDITADOS
É nestas ocasiões que se percebe a dimensão da ignorância de Donald Trump quando acompanhada da sua presunção de que a política só terá começado com a sua chegada à Casa Branca. Não fosse assim e ele teria evitado brandir um papelinho ao vento com um tratado qualquer com o México que daqui por duas semanas já ninguém recordará. É que ele há o precedente histórico igualzinho de um outro político desacreditado a tentar correr atrás dos acontecimentos, brandindo o seu papel (abaixo), pedindo-nos que acreditássemos que aquilo era a paz para o tempo deles. Não foi. Registo porém o quanto a natureza foi generosa para com Trump, ao contrário do que aconteceu com Chamberlain: o vento absteve-se de soprar quando o exibiu, dobrando o papel a que ambos os protagonistas atribuem tanto valor, o que acentua subliminarmente a imagem de fragilidade do troféu exibido.
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