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14 julho 2024

O APARECIMENTO DA QUINTA VÍTIMA DE JACK-THE-STRIPPER

Se quase todos ouvimos falar de Jack the Ripper (Jack o Estripador), um assassino em série que, em 1888, se notabilizou por assassinar e esventrar prostitutas em Londres, quase ninguém conhece esta história de um outro assassino em série que apareceu em Londres em 1964. O seu alvo eram também as prostitutas, só que, em vez de as estripar depois de mortas, estrangulava-as e depois despia-as, o que levou a imaginativa imprensa local a baptizá-lo de Jack the Stripper. Porém, a denominação menos imaginativa do caso que perdurou foi a de Hammersmith nude murders. E como o caso precedente do século XIX, a sucessão de assassinatos também parece ter cessado sem qualquer explicação e sem qualquer remota suspeita de quem possa ter sido o seu autor. Mas os contornos da história vieram a ser aproveitados para o argumento de um filme de Alfred Hitchcock.

06 julho 2024

A SENHORA LÁ ATRÁS QUE, DISCRETAMENTE, VALE € 767 MILHÕES

A esposa de ar macambúzio que agarra desajeitadamente um chapéu de chuva e que aparece por detrás de Rishi Sunak à despedida do nº10 de Downing Street tem uma fortuna pessoal estimada em € 767 milhões (é uma das herdeiras de um dos co-fundadores da Infosys). Apesar da cenografia calculada da ocasião, a verdade é que, para quem não esteja informado, as aparências podem iludir.

04 julho 2024

O FIM DE TODOS OS RACIONAMENTOS NO REINO UNIDO

4 de Julho de 1954. Só neste dia é que se assinala o fim do racionamento de qualquer produto no Reino Unido. Imposto por causa da Segunda Guerra Mundial, que durou seis anos (1939-45), prolongou-se por mais nove anos depois de ela ter terminado (1945-54).
Numa desforra apenas natural, dali por dez anos, em 1964, os mesmos britânicos elevavam esta outra canção ao seu top de vendas de discos, «Downtown» (a Baixa, em tradução muito livre), um verdadeiro hosana ao consumismo.
Como coincidência adicional, hoje os britânicos vão a votos depois de terem votado para sair da União Europeia em 23 de Junho de 2016, tendo abandonado essa mesma UE em 31 de Janeiro de 2020. O assunto parece encerrado.

02 julho 2024

SOBRE UMA CERTA MEDIOCRIDADE DO ACOMPANHAMENTO INFORMATIVO DE ELEIÇÕES ESTRANGEIRAS

Este Domingo houve eleições legislativas em França e na próxima Quinta-Feira havê-las-á no Reino Unido. Qualquer delas muito interessantes e importantes. Só que o acompanhamento que os canais informativos portugueses fazem destas eleições é... medíocre. A culpa nem é dos convidados. Alguns, nem todos, sugerem, pelas suas intervenções, quão aprofundados são os seus conhecimentos sobre a matéria. O problema é que eles são convidados pelos jornalistas do estúdio a reexplicar (pela enésima vez!) todas as particularidades daquele acto eleitoral - que são as mesmas dos actos eleitorais precedentes! É uma forma de se perder e de enxotar uma parte importante da audiência: os espectadores que sabem esses detalhes elementares mudam imediatamente de canal e só lá ficam a assistir aqueles que já se tinham esquecido do elementar. Forma-se assim um circuito fechado em que os comentadores portugueses em estúdio, uns mais esforçados, outros mais pedantes, dissertam sobre uns tópicos mais elementares, outros tópicos mais superficiais, para uma audiência que as circunstâncias do formato do programa tornaram pouco exigente: por exemplo, ficaram a saber que as eleições francesas são a duas voltas, e que tudo - a composição da Assembleia Nacional - só ficará decidido daqui por uma semana, mas da próxima vez que houver eleições em França eles já se esqueceram disso tudo. É que as últimas eleições legislativas francesas tinham sido apenas há dois anos...

Indo recuperar aqueles que, a meio da narrativa precedente já se tinham ido embora, cansados de ouvir lugares comuns, vamos encontrá-los durante estas noites eleitorais nos canais mais elevados e escondidos das grelhas, acompanhando a informação e a opinião junto de fontes mais originais (no duplo sentido da palavra...). Foi assim no Domingo passado (França) e irá ser assim na Quinta-Feira (Reino Unido) e no Domingo próximos (outra vez em França). Confesso que fico bastante intrigado quando vejo certos comentadores televisivos domésticos de assuntos internacionais a mostrarem-se tão cheios de si próprios.   

28 junho 2024

O CUMPRIMENTO PROTOCOLAR QUE «FUGIU» AO PROTOCOLO

28 de Junho de 2019. Esta fotografia protocolar dos tradicionais cumprimentos entre os dirigentes presentes na cimeira do G20 que decorreu na cidade japonesa de Osaka correu mundo. E correu mundo porque a fotografia fugiu ao protocolo. Era mesmo para fugir ao protocolo. Ao afixar aquelas trombas de quilómetro a primeira-ministra britânica estava a dar satisfação à opinião pública e publicada do seu país, que se mostrava indignada com o facto de os russos andarem a promover operações «à James Bond» no país do próprio James Bond. Envenenando exilados políticos russos. Não se sabia então, mas esse viria a ser apenas o preâmbulo de uma progressiva antipatia das opiniões públicas e publicadas ocidentais por Vladimir Putin. Finalmente, e só para constatar que, não sendo nada fotogénica, Theresa May podia afixar outras expressões para a ocasião, duas fotografias dela, uma delas na mesma cimeira, mas cumprimentando o anfitrião Shinzo Abe, e outra com o mesmo Putin, mas numa outra cimeira em 2016.

23 junho 2024

UM EXEMPLO DO QUE DEVE SER O VERDADEIRO JORNALISMO

Na campanha eleitoral em curso no Reino Unido, o primeiro-ministro Rishi Sunak foi dizendo que «...não admira que a Grã-Bretanha depois do Brexit ultrapassou a França, o Japão e a Holanda para se tornar no quarto maior exportador do Mundo

Suponho que não será preciso saber inglês - os gráficos da SkyNews são suficientemente claros - para compreender o significado da explicação do jornalista, desmontando o enviesamento da argumentação de Sunak. Confrontando com os números de anos anteriores, a economia britânica já alcançara aquela posição no comércio internacional, tanto antes como depois do Brexit. Uma coisa é certa: é o jornalismo deste cariz que força os protagonistas políticos a acautelarem-se nesta fase em que se diz tudo e se promete tudo. Como alguém comentou comigo: «É para isto que servem os jornalistas». Prefiro os factos, dispenso opiniões. Eu chego às minhas conclusões sem a ajuda desses ditos outros jornalistas (como João Miguel Tavares se atreve a classificá-los).

20 junho 2024

«SÓ DE PENSAR EM TI»

20 de Junho de 1934. Esta é a versão original de «The very thought of You», uma canção que veio a ser interpretada por Bing Crosby, Billie Holliday, Doris Day, Nat King Cole, Frank Sinatra, Natalie Cole, Elvis Costello ou Brian Ferry. Contudo, a canção foi originalmente lançada em disco em Inglaterra há 90 anos, interpretada por Al Bowlly (1898-1941), um cidadão do mundo, filho de pai grego e mãe libanesa, nascido em Lourenço Marques (Moçambique), crescido na África do Sul, músico e intérprete de jazz em tournées. Veio a ser uma das vítimas da Blitz em Abril de 1941. Apesar da sua morte prematura, aos 43 anos, Bowlly possui uma imponente discografia, que é completamente desconhecida porque a sua carreira decorreu muito antes da fase de promoção do negócio discográfico.

11 junho 2024

UM «CHEIRINHO» DA VELHA GUERRA FRIA

(Republicação)
11 de Junho de 1999. Nesse dia terminava a Guerra do Kosovo. Com a entrada em vigor do cessar fogo, fora previsto que uma força conjunta de manutenção de paz, composta por unidades militares de países da NATO e também russas, se instalassem na antiga região autónoma jugoslava. Os russos haviam querido um sector independente, mas os Estados Unidos, assim como os restantes países europeus da NATO, haviam rejeitado a ideia, com receio que isso predispusesse os russos a dividirem o Kosovo em duas regiões, uma menor de maioria sérvia a norte e a restante, de maioria albanesa, uma espécie de mini Alemanha Oriental balcânica, que esses bons velhos hábitos nunca saem de moda. Mesmo que não fosse essa a ideia dos russos, a sua posição negocial parecer-lhes-ia demasiado frágil na conjuntura da substituição das forças combatentes (sérvios e albaneses), e os russos decidiram-se a um golpe sujo: pela calada da noite de 11 de Junho, pegaram num destacamento seu estacionado na Bósnia vizinha, e mandaram-no percorrer os 600 km que os separavam da capital do Kosovo para ocuparem o aeroporto local, tudo isso sem passar cartão a ninguém da NATO. Apesar de comandado por um general, o destacamento russo era pequeno: cerca de 200 homens e umas 30 viaturas, sem grande potencial de combate. Mas isso seria irrelevante. Aquela era uma guerra para ser travada à frente das câmaras de televisão (acima). Quando as unidades da NATO encarregues dessa mesma missão chegaram, o aeroporto estava ocupado pelos russos, a CNN também já lá estava, ninguém se dispôs a facilitar a vida aos outros, e começava a crise. Era uma coisa nova, depois de dez anos (1989-1999) em que os russos haviam sido nossos amigos. Recorde-se que a Rússia de então era ainda dirigida por um sujeito pachola, permanentemente embriagado que dava pelo nome de Boris Yeltsin (Vladimir Putin só apareceu um ano depois). Mas a gestão de todo o incidente serviu também para exibir outras fracturas, não só as entre o Ocidente e o Leste, como também as entre a América e a Europa, dentro do Ocidente e da NATO. À atitude mais bélica do comando supremo americano da operação, contrapôs-se uma aproximação bem mais pragmática do comando militar britânico que estava no terreno. Apesar daquilo que parecia estar a acontecer na CNN, os 200 russos estavam isolados e impedidos pela aviação da NATO de serem reforçados e de se reabastecerem sequer. O único perigo da situação era ela detonar acidentalmente. Para a NATO, o tempo encarregar-se-ia de solucionar a questão. Foi o que aconteceu: os russos acabaram por ter que ser abastecidos de água e comida pela logística das unidades da NATO que eles não queriam deixar entrar no aeroporto. O impasse durou duas semanas, a Rússia acabou por salvar a sua face politicamente, e o susto passou.

08 junho 2024

A AUSÊNCIA DE RISHI SUNAK DAS CERIMÓNIAS DA NORMANDIA QUE O DEIXOU POLITICAMENTE ENTALADO

Grassa a indignação entre a opinião publicada britânica, por causa do gesto do seu primeiro-ministro, que se ausentou de uma parte das cerimónias que assinalaram o 80º aniversário do desembarque aliado na Normandia. Na fotografia acima temos uma fotografia de conjunto onde, ao lado do chanceler alemão e dos presidentes de França e dos Estados Unidos, aparece em representação do Reino Unido o ministro dos Estrangeiros, David Cameron, quando Rishi Sunak já se desenfiara. Esta é uma fotografia que dispensa legenda, é daquelas que dá mau aspecto sem ela. Pior do que isso, algum amigo da onça de Sunak esclareceu a opinião publicada a razão para a sua partida antecipada: muito provavelmente no quadro da campanha para as eleições gerais que se realizarão no princípio do próximo mês, o primeiro ministro fora dar uma entrevista pré gravada ao canal televisivo ITV News (por coincidência, o canal de onde foi retirada a imagem acima). Foi mau: deu muito mau aspecto. Rishi Sunak apressou-se a pedir desculpas, mas o mal já estava feito. Vêmo-lo a apanhar pancada de todos os lados: da oposição trabalhista que lhe bateria de qualquer maneira, mas também do campo nacionalista da direita e da extrema-direita, onde quero destacar a habilidade performativa de Nigel Farage (abaixo) que consegue insinuar, sem nunca o dizer, que a ascendência indiana pesa a Rishi Sunak na sua falta de afirmação como um verdadeiro líder patriótico...
Entre nós, seja pelo estilo pessoal de cada um, seja por adaptação a perfis diferentes de eleitorados, André Ventura emprega um estilo um pouco menos subtil...

24 maio 2024

«TO BOOST THE MORALE»

(Republicação)

24 de Maio de 1944. O rei Jorge VI realiza uma visita de inspecção àquela que viria a ser a frota de invasão no Dia D - pelo menos à sua componente britânica, que estava então estacionada numa base naval perto de Southampton, aguardando pelo grande dia. A visita recebeu um nome de código, como se se tratasse de uma operação naval: Aerolite. O monarca passou em revista imensas guarnições, cumprimentou um número infindável de oficiais e saudou várias formações navais que desfilaram perante si. E tudo isso foi fotografado, abaixo está apenas uma pequena amostra, um exercício que os britânicos denominam por «to boost the morale».

06 maio 2024

A INAUGURAÇÃO DO TÚNEL SOB O CANAL DA MANCHA

6 de Maio de 1994. Com a presença dos dois chefes de Estado, tem lugar a inauguração do túnel sob o canal da Mancha. Um momento histórico concretizando uma ideia tão antiga que até ocorrera ao próprio Obélix!

04 maio 2024

UMA DISCRETA GUERRA COLONIAL E CIVIL EM CURSO

4 de Maio de 1964. No New York Times (acima, à esquerda, clique em cima da imagem para a ampliar e poder ler) e no Diário de Lisboa do dia seguinte (embora esta de forma mais sucinta) dá-se conta do agravamento da situação militar na colónia britânica de Aden, no Iémen do Sul. Já aqui neste blogue se falou desta guerra esquecida. E também já aqui se mencionou a capacidade britânica de disfarçar pela semântica e por uma atitude política distanciada - a famosa fleuma britânica - da gravidade das situações em que aquele país se envolve. No caso da nomenclatura, volto a lembrar aquela constante de que as guerras coloniais de libertação que envolveram as colónias britânicas nunca se chamaram... guerras coloniais: esta era uma insurgência (abaixo), na Palestina fora outra insurgência, na Malásia uma emergência, em Chipre outra emergência, no Quénia uma revolta (uprising). Em suma, os britânicos nunca travaram nenhuma guerra colonial e por isso, ao contrário de franceses, portugueses ou holandeses, eles nunca perderam nenhuma guerra colonial. Esse discurso político não é lá muito compatível com os relatos da actividade militar porque, não tendo havido guerras, torna-se difícil explicar porque é que terá havido campanhas e operações militares, como se pode ler abaixo... Quanto à famosa fleuma britânica, ela está patente no desprendimento constante da notícia do Diário de Lisboa, a disponibilidade veiculada pelo jornal londrino Times para que os britânicos abandonassem Aden e o Iémen do Sul. Era ainda mais uma maneira de desviar atenções daquilo que estava verdadeiramente em disputa. É que as guerras coloniais não se travam apenas para manter a autoridade política nas colónias, as potências coloniais também as travam para gerirem o processo de transferência de poderes e o futuro regime do novo país independente. Era o que os britânicos pretendiam para o Iémen do Sul, e que hoje se sabe, então guardado para dali a três anos e meio de distância no futuro, que os britânicos falharam redondamente. (Já aqui me referi mais longamente no Herdeiro de Aécio a esta guerra colonial com outro nome)

22 abril 2024

AS OFENSIVAS DIPLOMÁTICAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

(Republicação)
22 de Abril de 1944. Um par de notícias de conteúdo aparentemente anódino numa das páginas centrais da edição do jornal desse dia, dá conta daquilo que era uma discreta, mas violenta, ofensiva diplomática por parte dos Aliados para que alguns países neutrais cortassem o fornecimento de alguns itens considerados vitais para a indústria de armamentos do III Reich. Numa das notícias, originária de Ancara, dava-se conta da reacção da Turquia a essas pressões, suspendendo as exportações de minério de crómio para a Alemanha, invocando a sua própria condição de aliada da Inglaterra. Noutra, oriunda de Londres, era a Suécia que ainda não respondera à nota dos Aliados, em que se lhe era pedido que suspendesse as exportações de esferas de rolamentos para a Alemanha. Havia uma campanha de bombardeamento em curso para destruir a capacidade de as produzir no próprio território alemão, e a indústria de armamentos alemã havia recorrido ao reforço das importações da Suécia para suprir as carências. A resposta sueca irá ser tão evasiva que a importância e as consequências dessa decisão ainda hoje são objecto de discussão académica: a Suécia colaborou ou não com a Alemanha? Contudo, a Turquia e a Suécia não eram os únicos países neutrais a serem pressionados naquela altura pelos Aliados: dali por mês e meio, na edição de 7 de Junho, era ocasião para ser notícia o anúncio pelo governo português da suspensão das exportações de volfrâmio para os países beligerantes. Fazia-o a pedido da Grã-Bretanha. Repare-se como os Estados Unidos pareciam nunca aparecer nestas iniciativas...

17 abril 2024

UM DOS RIVAIS DE SALAZAR NAS CONTAS EQUILIBRADAS...

17 de Abril de 1934. Neville Chamberlain, que era na época o chanceler do Tesouro (ministro das Finanças) britânico, apresenta o seu orçamento para 1934 - representado simbolicamente pela mala que o vemos a empunhar na fotografia acima. Quanto ao conteúdo daquele orçamento, há o desapontamento dos norte-americanos (à direita) por nada ter sido providenciado em termos da amortização das dívidas de guerra que os britânicos haviam contraído em 1914-18. Contudo, e como se pode comprovar abaixo, o chanceler mostrava-se particularmente orgulhoso pelo facto do seu orçamento prever um superavit de 796 mil libras. Aquela foi uma época em que, não apenas em Portugal com Salazar, esteve na moda aparecerem políticos que se exibiam apresentando contas públicas equilibradas. Neste caso do Reino Unido foi uma infelicidade para eles, pois Chamberlain acabou sendo promovido, em Maio de 1937 ao seu nível de incompetência de Peter, o de primeiro-ministro.
Entretanto por cá e na mesma altura, predominava a impressão (ignorante e provinciana) que Salazar era figura única e sem rival, era o mago das finanças. Ora, como se percebe, houve vários outros magos: Chamberlain também endireitou as finanças do Reino Unido. Aquilo em que, paradoxalmente, Salazar o supera é em política externa: foi um campo em que, ao contrário do seu colega britânico e tendo tido a sorte do seu lado, o português nunca se mostrou ingénuo.

11 abril 2024

OS CASOS «INAUDITOS» QUE ESTÃO SEMPRE A SER «INAUDITOS», DE CADA VEZ QUE SE REPETEM

Há cem anos - 11 de Abril de 1924 - era notícia uma cena de pugilato entre dois parlamentares britânicos, o conservador Leo Amery (1873-1955) e o trabalhista escocês George Buchanan (1890-1955). Não se sabe qual terá sido o desfecho da «violenta luta de pugilato» mas, pelo menos teoricamente, a vantagem tenderia a pender para o segundo (fotografia da direita), então com 33 anos e 17 anos mais novo do que o opositor. O que interessa destacar do pequeno apontamento, contudo, é a hipocrisia implícita nas considerações prévias como o caso é apresentado ao leitor. Então, numa Câmara composta por centenas e centenas de membros e com uma história já com séculos de trabalhos parlamentares, têm o descaramento de considerar que este foi o primeiro caso ("inaudito"!) de violência parlamentar?... Percebe-se aqui como é que os britânicos preservam uma certa imagem das suas instituições parlamentares: quando lhes convém, tudo acontece pela primeira vez depois da última vez que aconteceu. Os deputados deles raramente andam à pancada e, quando o fazem, é noticiado como se fosse sempre pela primeira vez. Noutros países, com histórias mais recentes de Democracia, mas onde as democracias são menos hipócritas, nem sempre é assim... Os casos "inauditos" repetem-se com alguma frequência... e exuberância!

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

02 abril 2024

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL 1939-49

2 de Abril de 1949. Foi só neste dia que se recuperou a prática de iluminar as cidades britânicas como se fizera até à eclosão da Segunda Guerra Mundial no Outono de 1939. Para as crianças britânicas era uma verdadeira novidade os anúncios luminosos nas fachadas dos edifícios das zonas centrais das cidades; para os adultos - que, como se vê acima, se concentraram para os rever - aqueles anúncios eram uma saudade. É por isso que, do ponto de vista da iluminação pública, se pode dizer que o Reino Unido esteve em guerra de 1939 a 1949.

31 março 2024

TERRANOVA: A INDEPENDÊNCIA QUE DESCAMBOU NUM FIASCO…

(Republicação por ocasião do 75º aniversário da adesão da Terranova ao Canadá)
A Terranova, que é actualmente designada por Terranova e Lavrador (Newfoundland and Labrador, no original) é a décima província do Canadá. No entanto, poucos serão os que saberão que, embora o núcleo inicial de colónias canadianas se haja formado em 1867, a adesão da Terranova ao Canadá só ocorreu em 1949, ou seja, já depois do fim da Segunda Guerra Mundial e que, antes disso, o Canadá e a Terranova haviam trilhado percursos históricos distintos.

Depois das tentativas de colonização dos vikings no Século XI, no Século XV houve vários navegadores portugueses envolvidos na exploração daquelas terras. Mas estes mostraram-se mais interessados na exploração da riqueza dos bancos piscícolas adjacentes (especialmente na pesca do bacalhau) do que propriamente no assentamento em regiões meteorologicamente muito adversas, ainda para mais para quem estava habituado aos climas mediterrânicos.

Embora os portugueses tivessem acabado rapidamente por abdicar da disputa da posse daquelas costas da América, a sua participação inicial manteve-se viva na toponímia de Terranova (de que Newfoundland é uma tradução directa) e Labrador (por causa do descobridor, João Fernandes Lavrador). E, durante séculos, a região foi local de visita de pescadores vindos do outro lado do Atlântico: ingleses, franceses, irlandeses, escoceses, portugueses, bascos, castelhanos, bretões, etc.

Os britânicos acabaram por impor a sua hegemonia embora entre a população local se contasse uma contribuição importantíssima das minorias célticas britânicas(*), em comparação com os ingleses propriamente ditos. Não tendo feito parte inicialmente do Canadá, nem aderido posteriormente (em 1892, isso esteve quase a acontecer), em 1907, a Terranova recebeu, conjuntamente com a Nova Zelândia, um estatuto de quase completa autonomia, que se designava por Dominion.

Com uma população rondando os 175.000 habitantes e com uma próspera economia de exportação, assente na pesca e na indústria do papel e mineira, o país viveu então nas duas décadas seguintes a sua época de ouro. Para tudo entrar em descalabro com a Crise de 1929… Completamente dependente do exterior por causa da dimensão diminuta da sua procura interna, não só a economia de Terranova entrou em colapso(**), como também o mesmo aconteceu com as finanças do Dominion

Para entrar com os meios para as reequilibrar, a metrópole britânica colocou a condição de reinstalar o seu domínio sob o aspecto de uma Comissão Governamental que seria responsável perante o Governo de Londres. Em 1934, em tudo, excepto na forma, havia-se extinguido a independência da Terranova… Mas a questão voltou a colocar-se logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido entrou por sua vez em dificuldades financeiras e se quis ver livre destes fardos

As opções que se colocavam para a decisão do futuro da Terranova eram: a continuação da administração britânica; a recuperação do estatuto de Dominion; a adesão ao Canadá; a adesão aos Estados Unidos. Na primeira nem Londres estava interessada e a última nem apareceu nos boletins de voto… Depois de um primeiro referendo inconclusivo, em que a hipótese de Dominion obteve uma vantagem de 44,5% a 41,1% sobre a adesão ao Canadá, num segundo, esta última ganhou com 52% dos votos.

Em 31 de Março de 1949 a Terranova juntou-se ao Canadá, tornando-se na sua décima província. Actualmente, com um pouco mais de 500.000 habitantes e uma área de 405.000 km², a província representa apenas 1,6% da população canadiana, 4% da sua área total e 1,3% da sua economia (em 2006). Contudo, a descoberta recente de novas jazidas de petróleo na plataforma continental, faz prever que a província poderá vir a gozar de um novo período dourado, um século depois do primeiro…

(*) – Irlandeses, escoceses e galeses.
(**) – Um cenário com bastantes semelhanças com o que aconteceu quase 80 anos depois à Islândia.

24 março 2024

PREPARANDO O NASCIMENTO DA «BRITISH AIRWAYS»

24 de Março de 1974. Preparando o nascimento da British Airways, que seria a nova companhia aérea de bandeira britânica e que resultava da fusão da BOAC e da BEA, aparecia uma enorme campanha publicitária prévia, que também chegava à imprensa portuguesa (à esquerda). O nascimento oficial da nova companhia estava marcado para dia 31 de Março e o mesmo anúncio ir-se-ia repetir quotidianamente nas futuras edições do jornal. Para quem se dispusesse a reflectir sobre o seu significado, o gesto - decidido por um parlamento de maioria conservadora em 1971 - representava a desistência pelo Reino Unido de um modelo de organização das suas linhas aéreas correspondente às suas pretensões imperiais: uma empresa responsável pelas ligações com a Europa (BEA) e outra (BOAC) com o antigo império (Canadá, Austrália, Índia, África do Sul, etc.). As realidades do que acontecera depois de 1945 tornara aquelas pretensões obsoletas. Com a adesão à CEE, o Reino Unido apostara a fundo na integração europeia. E, como quase todos os países europeus haviam feito, com a Lufthansa, a Air France ou a Alitalia, também o Reino Unido adoptava agora o modelo de uma grande companhia aérea de bandeira.

20 março 2024

COMO SE FAZ UMA NOTÍCIA A PARTIR DE UMA PASSAGEM DE UMA ENTREVISTA QUE SE SABIA À PARTIDA MEDÍOCRE

A história que precede este comentário sintetiza-se assim: Donald Trump deu uma entrevista a Nigel Farage num canal qualquer de televisão do Reino Unido do qual eu nunca tinha ouvido falar. À wikipedia só lhe falta dizer por extenso que o canal é uma merda, com vários incidentes de parcialidade descarada (ainda aqui, um video sobre o canal). O entrevistador e o entrevistado são, como demagogos, uma outra merda. E a qualidade do que dali poderia sair é uma terceira merda: além de não ser jornalista profissional e de não ter jeito, sequer, para fazer perguntas e para saber ouvir as respostas, a parcialidade de Nigel Farage por Donald Trump é mais do que conhecida - para os mais distraídos, abaixo podemos vê-lo a discursar num comício da campanha eleitoral do segundo. À primeira vista, esta parecia uma entrevista destinada àqueles trumpistas incondicionais existentes no Reino Unido (a estupidez e a admiração por estúpidos é como aquelas doenças que não se conseguem erradicar apesar da expansão da vacinação). Porém, como quase ninguém iria ver aquilo, a maneira de conferir notoriedade à banalidade é destacar uma passagem em que Donald Trump insulta um antigo primeiro-ministro australiano (Kevin Rudd) que agora é o embaixador do seu país em Washington. Na verdade, trata-se de uma retaliação: logo em Novembro de 2020, na sequência das eleições que Trump se recusou a aceitar, Rudd disse de Trump aquilo que ele considera que ele é. Opinião em que está muito bem acompanhado (onde eu me incluo). Todavia, noticiosamente este é um mundo cada vez mais peculiar: por muito que se acumulem cada vez mais pessoas a dizer o pior possível de Donald Trump isso nunca chega a ser notícia destacável; o que o é - notícia destacável - é quando Donald Trump diz mal de alguém - mesmo que isso aconteça na mais medíocre entrevista que lhe possam fazer.

Tenham lá paciência, os jornalistas deixem-se eles de merdas, mas não me convencem que isto não acontece por interesse do público (que é como os paladinos da classe costumam sempre explicar estes fenómenos inexplicáveis).