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03 maio 2024

OS «CRIMES» DO «INSPECTOR» VARATOJO

(Republicação a pretexto do cinquentenário da primeira publicação do anúncio do inspector Varatojo, desmentindo que a inspecção dele tivesse alguma coisa a ver com a PIDE)
Figura mediática (sobretudo televisiva) de antes do 25 de Abril, a imagem de Artur Varatojo (1926-2006) estava indissociavelmente ligada à criminologia e à literatura policial. Foi por isso com alguma surpresa que, nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril, os leitores dos jornais o viram a ele (entre muitos outros), a desmentir em anúncios pagos (abaixo) que alguma vez tivesse pertencido ou estado ligado à PIDE. Houve quem atribuísse essas preocupações ao epíteto forjado de inspector que adoptara por causa da sua imagem.
Porém, uma possível explicação alternativa, mais séria e mais elaborada, para o que parecia a defesa contra uma sanha persecutória contra o Varatojo podemos encontrá-la na capa de uma revista que foi publicada dois meses e meio depois do 25 de Abril e onde se empilham casualmente fichas de funcionários da PIDE e ali encontramos uma de um homónimo (assinalada a branco) do nosso amável investigador policial. Eram tempos de Liberdade, mas onde era impróprio usurpar títulos de inspector e possuir-se um apelido inconveniente
Este é um texto que, conjuntamente com o do Caçador de Pides mais abaixo e glosando mais uma vez José Carlos Ary dos Santos, poderá constituir uma série a que, pela imaginação e por isso orientadas para o céu, se pode dar o título de, em vez de portas, as mansardas que Abril abriu

27 abril 2024

OUTROS HERÓIS DE ABRIL – O CAÇADOR DE PIDES

(Republicação)
Na ressaca dos dias imediatos ao 25 de Abril de 1974, o Rossio e as outras mais frequentadas da baixa da Lisboa tornaram-se locais de um amplo trabalho de mobilização das massas populares. Ficaram famosos alguns trabalhos de cobertura fotográfica dessa mobilização com a identificação e prisão de agentes da PIDE ainda em liberdade em sequências que chegaram a ser publicadas em reputados órgãos de informação internacional (acima). Contudo, os 50 anos que entretanto decorreram podem permitir-nos vê-las, às fotografias, com uma atenção que o fervor revolucionário daquela época não possibilitava: dediquemo-nos ao militar assinalado (qual barão desarmado de Camões...) que, na última fotografia da série acima, arrasta para longe da fúria popular o pide ensanguentado.
A sua cara está apontada directamente para a objectiva e a sua expressão é indiscutivelmente triunfal, embora a exuberância do bigode, que não tardaria a banalizar-se num exército que passara a estar sempre, sempre ao lado do povo, nos comece a dar os primeiros sinais de suspeita, por não ter podido crescer até àquela exuberância anti-regulamentar nos escassos dias então decorridos depois do 25 de Abril... Melhor: o lídimo representante do MFA envergava uma das vulgares fardas de trabalho (designada por nº 2, salvo erro) onde coexistia uma barreta de condecorações com uma (condecoração) propriamente dita (o que nunca se faz) e esta era, nada mais, nada menos, do que uma cruz de guerra, que se atribui por feitos em combate. Isso não impedia que esse heroísmo redobrado coexistisse com uma notória falta de aprumo (uma camisa desbarrigada, um porta-chaves demasiado à vista), talvez explicável pelos dois números que faltariam ao blusão para que ele assentasse devidamente ao nosso herói. Nas suas platinas nem galões nem divisas, sugerindo que, apesar do ar de quem lidera o destacamento, se estava perante um soldado básico, um condutor de homens inato, mas modesto...
Naquele ano de 1974, a Páscoa fora recente, calhara a 14 de Abril, o Carnaval fora por isso em finais de Fevereiro mas, em finais de Abril parecia ainda haver quem se divertisse mascarado em pleno Rossio e – bónus suplementar para o folião – sem que ninguém desse ou se incomodasse com isso… Suspeito que faltaria ao criador original (José Carlos Ary dos Santos) a capacidade de saber rir deste caminho aonde o poderia levar a ironia dos seus próprios versos, mas creio que esta também foi mais uma das portas que Abril abriu

01 abril 2024

BRASIL EM FESTA - QUANDO O PODER POLÍTICO EMANA DO CANO DE UMA ESPINGARDA

(Republicação)
1 de Abril de 1964. Há precisamente 60 anos as altas patentes militares brasileiras desencadeavam um golpe de Estado que os tornava senhores do poder político. Acima, identificam-se (de binóculos) o general Costa e Silva que representava a facção mais radical entre os generais e, a seu lado e à civil, o general Castelo Branco, que encabeçava uma facção tida por mais moderada e que iria encabeçar o movimento revoltoso assumindo a Presidência pelos próximos três anos (1964-67). Entretanto, e para sustentar as aparências legais, os generais haviam incumbido os constitucionalistas Francisco Campos e Carlos Medeiros Silva de redigir um documento legitimador que ficou conhecido por Acto Institucional (mais tarde, como se seguiram outros, este acabou por receber o nº 1). É uma peça com passagens interessantíssimas, onde a tradicional esterilidade do «juridiquês» se combina com uma prosa de uma estética apelativa para quem professa a legitimação dos acontecimentos pela força dos meios, mais do que das convicções.
«(...) A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Os Chefes da revolução vitoriosa, graças à acção das Forças Armadas e ao apoio inequívoco da Nação, representam o Povo e em seu nome exercem o Poder Constituinte, de que o Povo é o único titular.(...)
(...) Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é que recebe deste Acto Institucional, resultante do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legitimação. (...)»
A legitimidade do novo poder é assim, e por muito que tenha sido portagonizada por generais, assumidamente revolucionária, e não parece despropositado emparceirar a linha de raciocínio acima com uma conhecida - e já então consagrada - frase de Mao Zedong, a de que o poder político emana do cano de uma espingarda. O poder dos generais era daí que vinha, era através dele que se tinha apoderado também, da opinião publicada (como se comprova acima). Confesso que - não concordando nada com o que lá está escrito! - gosto particularmente da redacção do Acto Institucional nº1. Também pelo seu significado e pelas suas implicações, parece-me ser um dos textos politicamente dialecticos mais interessantes que foram escritos em português e, não fora os preconceitos de esquerda, e fossem as palavras e os raciocínios em política para levar cartesianamente a sério, seria pacífico que o AI-1 tem muito mais valia literária que alguns livrinhos com máximas que, por aqueles anos, nos chegavam vindos da China.

04 março 2024

SOBRE O ABANDONO DAS SIGLAS PARA DESIGNAR OS PARTIDOS POLÍTICOS

(Republicação deste texto, originalmente de Junho de 2015, com a oportunidade do próximo acto eleitoral)
Confesso a minha vetustez por não me ter ainda adaptado a esta nova moda de designar as novas formações políticas. Ele é o Podemos, o Queremos, o Caímos, o Protestamos em vez dos tradicionais PDPs, PTPs, PQPs que se havia convencionado desde o 25 de Abril até há um punhado de anos. Quem queria fundar um partido, e para além de arranjar as indispensáveis 5.000 assinaturas, fundava-o e designava-o por aquilo que era: um partido. Quanto ao resto podia ser Humanista, dos Animais, Trabalhista, Liberal ou outra coisa qualquer, mas o que quer que fosse era designada pelas iniciais. Mesmo num gag humorístico como este abaixo do Herman Enciclopédia (1997), a piada era elaborada à volta do conteúdo malandro das siglas: PENIS ou PEIDA. Mas malandrices todas a começar por P. Divergência a esta norma só mesmo a destinada aos outros mais chiques: havia quem fundasse partidos a que se dava o nome de Movimento, um belo pretexto para aparecer a explicar porque é que o seu partido era um movimento: lembro os exemplos – transversais ao espectro político mas todos chiques – do MRPP, do MES ou do MIRN. Mas o emprego das siglas sempre foi de rigor. A expressão os comunas não é sinónima de PCP e jotas é um estado de irreverência irresponsável que designa todas ou uma juventude partidária em particular, mas não é o mesmo que, por exemplo, a JSD. Consequência de todas essas décadas de habituação, uma sigla tem a virtude de embotar o meu espírito crítico sobre uma formação política mesmo que a sigla do partido em causa seja PQP (que também pode significar puta que o pariu...) e onde o seu dirigente nacional seja José Manuel Coelho. Diz-me a habituação que é um partido canónico. Delirante mas canónico.

A modernidade está a alterar isso tudo. Com o aparecimento de uma formação política com o nome de LIVRE nas últimas eleições europeias, sem que o LIVRE de Rui Tavares resultasse da mesma lógica do PENIS de Miguel Guilherme ou da PEIDA de Herman José (no vídeo acima), abandonou-se essa convenção e partiu-se para uma largesse poétique na designação das organizações políticas a que eu não me consigo acomodar e que receio bem não saber onde irá parar. Com uma propensão a cindirem-se e juntarem-se com grande desenvoltura, o LIVRE associou-se entretanto à candidatura cidadã Tempo de Avançar donde resultou uma coisa chamada LIVRE/Tempo de Avançar enquanto, em contraste, um outro grupo de amigos que se auto-designava por Juntos Podemos deu em separar-se para que, em não podendo juntos, só alguns pudessem criar um novo grupo com a designação de AGIR, ou mais imaginativamente AG!R. Passados à acção, ei-los que reaparecem nas notícias anunciando uma coligação eleitoral com partidos convencionais como o PTP e o PDA e mais outras formações de designação mais moderna e imaginativa como Nova Governação, Somos Santa Maria da Feira, Somos Lamas, Instituto dos Bairros Sociais, Movimento contra as SCUT, Movimento dos Brasileiros votantes em Portugal e, como convidados (até parece a ficha de uma série de televisão...), o Nós Cidadãos e o Partido Unido dos Reformados e Pensionistas. Em suma, considerando que ainda estamos a quatro meses das eleições e com esta dinâmica, quando dos tempos de antena da campanha eleitoral, mais do que anunciada, esta coligação vai ser declamada como um poema de poesia moderna e o boletim de voto deste ano vai certamente precisar de um desdobrável...

22 novembro 2023

CASEI COM UMA POETISA

(Republicação a assinalar o décimo aniversário do acontecimento)
Por causa da apresentação feita por Fernando Pinto do Amaral, ninguém deve ter saído da apresentação de Caminho dos Ossos com dúvidas que… Casei com uma Poetisa.

01 junho 2023

A VISITA DO PRIMEIRO MINISTRO

Não restam dúvidas que há cem anos a coreografia política era toda outra. A edição de 1 de Junho do Diário de Lisboa dava conta, numa pequena notícia do fundo da primeira página, que a redacção daquele jornal contara, naquele dia, com «a honra» da visita d«o sr. presidente do ministério» (António Maria da Silva) que lhes viera «significar os seus agradecimentos pelas felicitações» que o jornal lhe dirigira, «por ocasião do seu (51º) aniversário» (26 de Maio). Nesse dia, o Diário de Lisboa publicara uma pequena notícia, muito semelhante no formato à que se exibe acima, onde se podia ler: «Passa hoje o aniversário do sr. presidente do Ministério. O Diário de Lisboa envia-lhe as suas felicitações mais cordeais, fazendo votos para que a sua vida decorra serena e feliz, como desejam os que embora divergindo, num ou noutro ponto, da sua acção governativa, nem por isso deixam de prestar homenagem ás suas faculdades de trabalho e aos seus esforços patrióticos». É bonito! Assim como é bonito o visado ter passado dias depois pela redacção do jornal a agradecer! Mas esta não é apenas uma evocação, é também uma sugestão de uma cortesia que o José Manuel Fernandes poderia fazer aos microfones da sua rádio Observador por ocasião do próximo aniversário de António Costa. Ou então José Gomes Ferreira, nos ecrãs da SIC. Já não estamos longe: é a 17 de Julho que o primeiro-ministro completa 62 anos... Só para ver se António Costa retribui a cortesia como outrora o fez o seu antecessor António Maria da Silva... Embora haja que reconhecer que os aniversários da actualidade já não se celebram como há cem anos. Mais, a acreditar literalmente na poesia dessa época de Álvaro de Campos, e levantando a suspeita que era tudo encenado, nem mesmo os aniversários de há cem anos se celebravam como antigamente...

24 março 2023

CELEBRAÇÕES TARDIAS A PRETEXTO DO DIA MUNDIAL DA POESIA

No passado dia 21 de Março celebrou-se o dia mundial da poesia. E houve quem se dispusesse a assinalar a data escrevendo um poema. Pior: publicou-o numa das redes sociais. A poesia não merecia.

04 novembro 2020

15º ANIVERSÁRIO

Porque é que os adereços de aniversário costumam ser sempre ridículos, como as cartas de amor escritas e descritas por Fernando Pessoa? Será porque também os aniversários não se podem celebrar sem serem ridículos?

14 setembro 2020

A INSUSTENTÁVEL DESENVOLTURA DE ESCREVER EM IDIOMAS ALHEIOS E A POESIA «ADICIONAL» DE FERNANDO PESSOA

Recentemente, porque me envolvi numa troca de comentários mais acesa num idioma que não o meu (francês - com a atrapalhação consequente), lembrei-me, e fiquei com muita inveja, de Milan Kundera que, apesar da nacionalidade checa, escreve com a desenvoltura que aqui se pode apreciar todas estas coisas bonitas em idiomas que nos são mais acessíveis que o seu checo nativo (inglês, francês), facilitando-nos, não só a mais fácil compreensão dos seus pensamentos, como também tendo o cuidado de os publicar de forma manuscrita, personalizada, mas sempre legível, muito embora o estilo da letra divirja conforme o idioma em que se exprime. Deve ser uma questão da caligrafia de Milan Kundera se personalizar conforme o idioma em que escreve. (Note-se que é sabido que Kundera se exprime fluentemente em francês.)
Por associação de ideias a esta sofisticação da caligrafia com o idioma, a publicação dos heterónimos de Fernando Pessoa seriam «peanuts» (perdão «arašídy», como escreveria um Kundera preocupado em voltar a escrever na sua língua materna!). Especialmente quando o heterónimo de Fernando Pessoa é tão heterónimo (abaixo) que o próprio Fernando Pessoa nem o chegou a conhecer, muito menos ao poema a que apuseram o seu nome no fim e que, por acaso, é de um autor brasileiro chamado Fernando Sabino. Como consolo a todos aqueles que o divulgaram como pessoano pelas redes sociais, constate-se que, assim como há os bilhetes da lotaria que se pagam a si mesmos por terem a terminação, aqui também acertaram no primeiro nome do autor... Enfim, o que se percebe em todas estas deambulações literárias é que as redes sociais palpitam de excelência prosadora e de apreço pela poesia pura.

05 novembro 2019

ANIVERSÁRIO

Apercebo-me, com um sentimento que não consigo descrever, que aquilo que há noventa anos Fernando Pessoa escrevera e descrevera do seu heterónimo Álvaro de Campos, também se pode aplicar aos blogues, quais heterónimos modernos das nossas modestas expressões pessoais. Se o aniversário de Álvaro de Campos se deixara de festejar, também os aniversários dos blogues fluem perante a indiferença dos seus próprios criadores. O Herdeiro de Aécio celebrou ontem (4 de Novembro) o seu 14º aniversário e eu nem me lembrei disso! As características das redes sociais mudaram tanto desde essa altura que o conhecido poema de Pessoa acaba por fazer sentido, ainda que bizarro, quando invocado.

16 maio 2019

O PARLAMENTARISMO BRASILEIRO


Abraham Weintraub é o nome um pouco arrevesado do actual ministro da Educação brasileiro. Já é o segundo ministro da pasta nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro, e este só tomou posse há quatro meses e meio. O novo ministro compareceu recentemente numa audição parlamentar na Câmara dos Deputados e o vídeo acima é um resumo de cerca de 15 minutos dessa audição. Resumo que me parece simbólico de como é a dinâmica do parlamentarismo no nosso grande país irmão, agora potenciado por um governo de extrema-direita. Em vez de esperar que seja a oposição a partir a loiça, como é tradicional noutros parlamentos, aqui são as próprias bancadas governamentais a tomar a iniciativa de desencadear a baderna. Para os mais atentos e inquisitivos, esclareço que o deputado Alexandre Frota que ali aparece (com óculos!) é esse mesmo que estão a pensar: ex-actor, ex-director, ex-actor pornô, ex-modelo, ex-comediante, ex-jogador de futebol americano, ex-apresentador, ex-marido de Cláudia Raia, empresário e agora político (pelo menos, é assim que ele é apresentado na wikipedia e todos esses atributos, presentes e pretéritos, não contrastam com o ambiente). A próxima vez que houver outra sessão de impeachment naquela casa, que os comentadores das redes sociais não se indignem tanto, porque tudo aquilo é trivial, ou para citar um imorredouro verso de Manuel Alegre: Tu não viste nada em Nambuangongo!

04 novembro 2018

A MORTE DE WILFRED OWEN

4 de Novembro de 1918. Há cem anos morria em combate o tenente Wilfred Owen (1893-1918) durante a Batalha do Sambre. A Grande Guerra estava a uma semana do seu término, mas isso não sabiam ele e os homens do seu pelotão que nesse dia se dispuseram a atravessar o canal que liga o Sambre ao Oise sob fogo inimigo. O tenente Owen ficou mais conhecido como poeta de guerra. Já aqui publiquei um poema seu na versão original. Hoje, atrevi-me a traduzi-lo.


Encolhidos, quais mendigos velhos envergando sacos,
Arrastando os pés, tossindo compulsivamente, atravessamos o lamaçal,
Virando costas à luz bruxuleante dos sinalizadores
E começámos a caminhada para a retaguarda distante.
Homens marchavam adormecidos. Muitos haviam perdido as suas botas
Mas lá continuavam, pés em sangue. Tudo seguia alquebrado; cego;
Bêbado de fadiga; surdo e desinteressado para o rugido
Dos obuses de gás que discretamente explodiam lá para trás.

Gás! GÁS! Rápido, malta! – O alívio de conseguir ajustar, atabalhoadamente, aquelas máscaras desajeitadas a tempo;
Mas alguém urrava e caindo,
Debatia-se como se estivesse em chamas ou sob cal viva...
Embaçado, através das enevoadas lentes da máscara e de uma grossa luz verde;
Como se estivesse debaixo de um mar verde, vi-o a afogar-se.

Em todos os meus sonhos e diante de meus olhos impotentes,
Ele atira-se a mim, sorvendo o ar, asfixiando-se, afogando-se.

Se, em algum sonho sufocante, também pudesses ali estar
Por detrás da carroça em que o arremessamos.
E observasses os olhos brancos contorcidos na sua face,
A sua cara dependurada, como a de um demónio que se cansara de pecar.
Se pudesses ouvir, a cada solavanco, o sangue
Gargarejar espumoso dos seus pulmões corrompidos,
Obsceno como um cancro, amargo como a bílis regurgitada que provoca feridas incuráveis em línguas que não têm culpa alguma.
Meu amigo, não irias, com tão grande zelo, contar
A crianças ansiosas por alguma glória desesperada,
A velha Mentira: Dulce et decorum est pro patria mori.

06 agosto 2018

MANDOU UMA CARTA EM PAPEL PERFUMADO E COM LETRA BONITA, ELE DIZIA QUE ELE TINHA...

Pedro Santana Lopes é uma espécie de Madonna da política portuguesa. Os dois não têm talento algum a não ser que talento seja uma indiscutível capacidade para se imporem nas notícias. Porém, como não têm talento, aquilo que se noticia a respeito deles não são verdadeiras notícias mas coisas que se escrevem a seu respeito. Contudo, para que essas banalidades passem impunes, têm que contar com a negligência cúmplice da opinião publicada para que esta não diga o que muitas vezes é óbvio. Por exemplo, este fim de semana Pedro Santana Lopes escreveu uma carta de despedida aos militantes do PPD/PSD. Muitos órgãos de informação se referiram à carta, mas só o Observador a publicou na íntegra. Ninguém estará interessado em lê-la. E, como recorda a letra de Viriato do Cruz na inesquecível canção de Fausto, Namoro, o que é mais importante numa carta como essas é que ela seja em papel perfumado e escrita com letra bonita. Quanto ao que contém, isso será o menos. Eu também confesso que não lhe prestei atenção, até alguém me ter alertado de como uma das suas passagens passaria por um símbolo perfeito do que é o estilo Santana Lopes...Na área do texto assinalada acima, veja-se como Pedro Santana Lopes nos diz que «quer sublinhar quatro áreas», para, logo no parágrafo que se segue, enumerar cinco! Não dei por que alguém mencionasse o lapso, que me fez lembrá-lo na cerimónia de posse do seu governo em Julho de 2004, a passar aceleradamente as páginas do seu discurso sem as ler, só porque estava muito calor. Não sendo má pessoa, o homem não tem categoria nem emenda...
Adenda:

17 junho 2018

O «SOPHIA» QUE TRANSPORTOU A SOFIA

Permitam-me chamar-vos a atenção para as publicações da concorrência, especificamente o Defender o Quadrado, que está a publicar uma série de crónicas de viagem, de que se assinalam aqui alguns notáveis exemplos (1),(2) ou (3). Mas, como na Bíblia, tudo tem uma génese, e a desta viagem por uma França em guerra, começou por uma viagem num A-319 da TAP com o poético nome de «Sophia de Mello Breyner», um excelente presságio, a excitar-nos a imaginação de que, por uma vez, em vez da conversa tradicional da localização das portas de socorro, das máscaras de oxigénio e do enchimento dos coletes de salvação, o pessoal de bordo, instalado em pleno corredor, declamasse em uníssono, com outros gestos exuberantes como os do costume:

«Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
»

30 abril 2018

BRASIL TRABALHADOR...

...com mês de Abril com 31 dias. Como prometia Chico Buarque, «aquela terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal».

19 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (3)

Talvez para contrastar com o clima ameno do Egipto, a acção decorre explicitamente no Inverno e a aldeia gaulesa é desenhada sob um nevão. Quanto ao trocadilho, ele faz sentido no original (abaixo), porque alexandrino designa simultaneamente um natural de Alexandria e um verso clássico de doze sílabas, precisamente as contidas na saudação de Numerobis. O tradutor português limitou-se a traduzir o sentido da frase sem atender à métrica, o que torna o trocadilho (para quem perceber a sua sugestão...) anacrónico.

26 março 2017

O COMBATE DOS CHEFES (19)

Dulce et decorum est pro patria mori é uma citação clássica de Horácio. Muito recentemente tornei a ouvi-la, citada por alguém embevecido pelo seu significado (É doce e honroso morrer pela Pátria), esclarecendo-me que se tratava da divisa da Academia Militar portuguesa. Sabia-a constante de um outro famoso poema da Grande Guerra de Wilfred Owen, onde o seu significado é retorcido para se transformar na grande Mentira (old Lie). Mas só Goscinny para a parodiar através de uma das suas personagens que, de cabeça para baixo, coze lentamente num caldeirão.

08 janeiro 2017

«O» 125 AZUL

Uma boa ocasião para escutar e ler a verdadeira poesia de Luís Represas. Que não se confunde com a de Florbela Espanca. E quem terá sido «o» 456 durante nove anos não estranhará que receba a propósito dessa sua confusão, a alcunha apropriada de «o» 125 Azul.

Foi sem mais nem menos
Que um dia selei a 125 azul
Foi sem mais nem menos
Que me deu para arrancar sem destino nenhum

Foi sem graça nem pensando na desgraça
Que eu entrei pelo calor
Sem pendura que a vida já me foi dura
P'ra insistir na companhia

O tempo não me diz nada
Nem o homem da portagem na entrada da auto-estrada
A ponte ficou deserta nem sei mesmo se Lisboa
Não partiu para parte incerta
Viva o espaço que me fica pela frente e não me deixa recuar
Sem paredes, sem ter portas nem janelas
Nem muros para derrubar

Talvez um dia me encontre
Assim talvez me encontre

Curiosamente dou por mim pensando onde isto me vai levar
De uma forma ou outra há-de haver uma hora para a vontade de parar
Só que à frente o bailado do calor vai-me arrastando para o vazio
E com o ar na cara, vou sentindo desafios que nunca ninguém sentiu

Talvez um dia me encontre
Assim talvez me encontre

Entre as dúvidas do que sou e onde quero chegar
Um ponto preto quebra-me a solidão do olhar
Será que existe em mim um passaporte para sonhar
E a fúria de viver é mesmo fúria de acabar

Foi sem mais nem menos
Que um dia selou a 125 azul
Foi sem mais nem menos
Que partiu sem destino nenhum
Foi com esperança sem ligar muita importância àquilo que a vida quer
Foi com força acabar por se encontrar naquilo que ninguém quer

Mas Deus leva os que ama
Só Deus tem os que mais ama

02 janeiro 2017

De novo...

Apesar do resto da mensagem ser mais bombástica, a sua parte mais significativa é aquela expressão inicial de novo... Entre a utilização anterior e esta repetição que agora se lê acima, alguém (eu) explicou ao autor da mensagem, Marco Silva, a diferença entre Luís Represas, o intérprete da expressão sobre a qual ele faz o trocadilho (...e é amar-te assim, perdidamente...) e a sua verdadeira autora, Florbela Espanca. Presumo que a explicação tenha sido lida... e rejeitada. Subtilmente, da primeira vez para esta, haverá assim a alteração do paradigma da ignorância, desde a presumível ignorância primária sobre a identidade da autora do verso à ignorância estrutural sobre a quem se deve atribuir preferivelmente a autoria desse mesmo verso. Penso que será isto que José Pacheco Pereira designou, na sua última crónica, como a nova ignorância.
A ser essa ignorância nova e pelo que se vê, descubro ser um fenómeno mais social do que cultural. A ignorância é velha, a atitude nova. Nada tem a ver com o conhecimento propriamente dito, antes tem a ver com a modéstia de cada um reconhecer os limites dos seus próprios conhecimentos. Mas, para regressar ao caso concreto e à poesia, campo onde o comentador económico Marco Silva mostra não se sentir muito à vontade (embora saiba parafrasear Luís Represas...), vale a pena terminar o texto com uma outra adaptação, esta dos famosos versos finais do poema Liberdade de Fernando Pessoa:
E mais do que isto,
é Marco Silva,
que não sei se perceberá assim tanto de finanças,
mas que consta não possuir biblioteca
(e sobretudo tem vergonha de o confessar...)

13 outubro 2016

GOSTEI DA IDEIA. MENOS DO PREMIADO

Pelo menos, ao saber-se que a distinção veio a recair em Bob Dylan, agora percebe-se a razão para a controvérsia que terá levado a que o anúncio do Prémio Nobel da Literatura tivesse sido adiado. Foi uma decisão arrojada. Não sei se foi uma decisão assisada. Reconheça-se que não tenho memória de um outro galardoado na mesma categoria que, nos últimos cinquenta anos, tenha sido tão idolatrado pelos seus fãs como o vencedor deste ano*. (Refira-se que a fotografia acima é de Barry Feinstein e também tem 50 anos). Quanto à avaliação poética do que Robert Zimmermann terá escrito, não me considero habilitado para a fazer ao nível de saber se a sua obra será nobelitável ou não; mas, ainda a esse respeito, gostei do precedente e confesso-me admirador de um outro artista que, a partir de agora, considero passível de também vir a ser galardoado por uma das academias de Estocolmo: Hugh Laurie. Talvez com o Prémio Nobel da Medicina como dr. House...

* A quem tenha pensado em Jean-Paul Sartre esclareça-se que o seu prémio (recusado) data de 1964.