26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.
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26 julho 2022
12 abril 2020
O ÚLTIMO FEITO HERÓICO DE UM NAVIO DA MARINHA PORTUGUESA
Que a marinha portuguesa tem pergaminhos tão sólidos quanto antigos, desde a chegada de Vasco da Gama a Calicute em 1498, isso creio que é indiscutível. Porém, no que diz respeito à composição da nossa marinha mercante, muito longe vão os tempos do famoso Despacho 100, de Agosto de 1945, em que era o próprio Estado a definir a programação de toda a construção naval de grande porte para o decénio seguinte - previam-se 70 navios novos num total de 376.000 toneladas. O Despacho em questão, hoje tornado um marco da nossa política naval no século XX, tornou-se também famoso por ter sido a primeira ocasião em que o ministro da Marinha de então (o almirante Américo Tomás), deu expressão a uma vocação muito sua para um estilo de prosa e oratória que ainda hoje é famoso: numa certa passagem do preâmbulo lê-se que a «...promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número, não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriormente promulgados...».
É uma época que deixará saudades nos marinheiros, mas reconheça-se que, em contraste com o que acontecia há 75 anos, a construção, preservação e manutenção de uma frota mercante deixou de ser uma prioridade estratégica nacional. Com a globalização, ele há navios a operar quase em exclusivo para o nosso mercado ostentando bandeiras de conveniência, e, em contraste, há navios que exibem o nosso pavilhão e que raramente terão sulcado águas portuguesas. Esse será precisamente o caso deste RCGS Resolute da fotografia acima, fotografia essa que já foi recolhida depois dos acontecimentos que entretanto o celebrizaram, uma proeza que, apesar de cometida à sombra da nossa bandeira das quinas, permanece desconhecida por cá. O RCGS Resolute é um pequeno navio para cruzeiros construído em 1991 num estaleiro da Finlândia (este pormenor tornar-se-á importante mais adiante). Tem 125 metros de comprimento por 18 de largura, desloca 5.900 toneladas, uma tripulação de 125 e capacidade para acomodar até 184 passageiros. Ao longo dos 29 anos de serviço o navio já teve três nomes, e só passou a navegar com a bandeira portuguesa desde 2018. Nem sequer dá para o estimarmos e considerá-lo nosso, como um Obikwelu, é como se fosse um daqueles atletas naturalizados por conveniências do próprio.
O que não invalida, por muito espúrio que seja o seu lusitanismo, que contemos a sua história. Em 30 de Março passado, o navio de cruzeiro, com uma tripulação reduzida ao mínimo (32 membros), em viagem de Buenos Aires para Curaçao, derivava ao largo da Venezuela, mas, na sua versão, em águas internacionais, enquanto reparava uma das suas máquinas. Foi nessa altura contactado e interceptado pelo navio patrulha Naiguatá da marinha de guerra venezuelana (acima) que o mandou segui-lo até à sua base naval, sob o pretexto que estava a violar águas territoriais venezuelanas. Como reacção, o capitão do Resolute terá contactado o armador, que o mandou desobedecer. E foi a partir daí que tudo se desenrolou. Os venezuelanos assumiram uma posição de intimidação, há um video (abaixo) onde se vê um dos marinheiros a disparar uma rajada de AK-47 na direcção do navio que arvora o pavilhão português. Mas depois não há mais imagens disponibilizadas pela marinha venezuelana que mostrem os momentos e as condições precisas que conduziram ao abalroamento dos dois navios - apenas as suas consequências: aparecem imagens dos dois navios enlaçados, em que aparentemente o navio de guerra venezuelano está a realizar manobras para reverter essa situação.
A questão é que, por causa da nacionalidade do RCGS Resolute, o nosso Gabinete de Investigação de Acidentes Marítimos foi encarregue de esclarecer o que acontecera em paralelo com procedimento idêntico da parte venezuelana. E é esse relatório (aqui disponível) que torna pertinente o título irónico que escolhi para este poste: O ÚLTIMO FEITO HERÓICO DE UM NAVIO DA MARINHA PORTUGUESA. Segundo as conclusões do relatório foi o navio venezuelano que, de peito feito, se atravessou à frente do Resolute «colidindo com a amura de estibordo» deste. Azar dos venezuelanos o facto do navio com que se confrontavam ter sido construído na Finlândia, com especificações de uma proa particularmente reforçada, por causa das condições de navegação no Mar Báltico, que, com muita frequência, congela no inverno... O navio de guerra venezuelano afundou-se, com todo o seu arsenal, duas peças de artilharia, uma de 76 mm, outra de 35 mm, duas metralhadoras de 12,7 mm e... um casco mais frágil do que o do seu oponente. O episódio, não sendo propriamente um feito de armas da marinha mercante portuguesa (como aqui se ironiza), é, porém, um embaraçoso feito de armas para a marinha de guerra venezuelana, naquele que terá sido o primeiro embate decisivo naquelas águas em mais de 75 anos...
17 dezembro 2019
A INDEPENDÊNCIA DA (GRANDE) COLÔMBIA
17 de Dezembro de 1819. Simón Bolívar proclama-se presidente da Colômbia. Contudo, a Colômbia de que Bolívar se proclamou presidente - veja-se o mapa acima - era muito mais extensa - quase o dobro da área - do país que hoje mantêm o mesmo nome. Para os distinguir aqueloutro país costuma ser designado por Grande Colômbia e incluía, para além da Colômbia actual, também a Venezuela, o Equador e o Panamá. Essa Colômbia foi um projecto quimérico que subsistiu apenas por uma dúzia de anos (1819-1831) e que veio depois a fragmentar-se nas unidades constitutivas que já existiam no traçado da administração colonial espanhola. Tivesse subsistido, esse hipotético país contaria hoje com quase 100 milhões de habitantes (aproximadamente o dobro da população colombiana) e estaria entre os quinze maiores países do Mundo em termos demográficos (o segundo hispânico, depois do México). Pelo paralelo entre a evolução da América colonial espanhola e a da América colonial portuguesa, este exemplo demonstra que pugnar pela sua unidade foi um dos feitos mais importantes (e, por sinal, dos menos valorizados) da história do Brasil do século XIX.
27 maio 2018
PAÍSES EXEMPLARES ONDE SE VIVEM «AS MAIS AMPLAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS»
Com a participação - oficial - de apenas 46% dos eleitores e a recusa de 14 países da região em validar os resultados desse mesmo escrutínio, exemplar é o adjectivo apropriado que estava a faltar, capaz de honrar na desfaçatez o legado histórico de Álvaro Cunhal e a sua famosa expressão das «amplas liberdades democráticas». Olhem se os comunistas têm ganho em 25 de Novembro de 1975! Pelo padrão de exigência, que eleições exemplares teríamos tido cá em Portugal!
13 maio 2018
O PÉSSIMO ACOLHIMENTO QUE RICHARD NIXON RECEBEU NA VENEZUELA
13 de Maio de 1958. De visita oficial à Venezuela, o vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, é escandalosamente mal acolhido na sua chegada a Caracas. Os norte-americanos atribuem os incidentes a uma conspiração comunista, que terá levado os diversos partidos comunistas dos países latino americanos que Nixon visitaria ao longo da sua digressão (Uruguai, Argentina, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela), a organizarem-lhe «comités de acolhimento» em cada uma das escalas. O processo tornou-se hoje num clássico da luta política: recordemo-nos das recepções organizadas pelo sindicato dos professores à ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues quando das suas visitas às escolas. Mas pode voltar-se contra os organizadores, quando estes perdem o controlo sobre os manifestantes. Aí, o visado pode passar a ser a vítima. Foi o que aconteceu em Caracas. A verdade é que, tanto como a antipatia congénita dos latino-americanos pelos norte-americanos em geral (os gringos) e mais do que a hostilidade popular devidamente organizada pela estrutura comunista local, havia uma outra hostilidade institucional das autoridades venezuelanas para com as americanos. Isso é compreensível quando se lê abaixo a notícia de então, em que as próprias autoridades municipais de Caracas se recusavam receber o visitante. Não é abusivo deduzir que o espírito não cooperativo seria extensível às forças de segurança que estavam encarregues de proteger o visitante. E também é importante recordar que a Venezuela de então era uma sociedade habituada a regimes híbridos entre a democracia e a ditadura, de uma brutalidade imposta nas suas relações com os cidadãos. Não havia subtilezas na forma como o Poder reprimia nas ruas aquilo que ele não queria que acontecesse. Os acontecimentos só alcançaram aquelas proporções porque as autoridades venezuelanas se demitiram desde o princípio de os limitar. Os resultados concretos da violência são os que se podem apreciar no vídeo acima, uma péssima propaganda para a Venezuela do ponto de vista diplomático, a suscitar várias reacções institucionais nos Estados Unidos - por exemplo, foi concedida tolerância de ponto a todos os funcionários públicos de Washington D.C. para que fossem ao aeroporto acolher o vice-presidente de regresso desta viagem, tornada épica! Quanto à «interpretação dada pelos americanos à hostilidade de que Nixon foi alvo» (abaixo), as razões podiam ser económicas, dada a mais do que evidente disparidade dos padrões de vida entre a América do Norte e a do Sul, mas repare-se como o último parágrafo do texto remete para «a ofensiva de penetração económica soviética». Está explicado! Refira-se finalmente que há apenas um artigo, e em inglês, na wikipedia referindo este incidente de há 60 anos (nenhum em castelhano, ao contrário do que se poderia esperar tenho em conta o histórico recente das relações entre os dois países), e como ele mantêm, nos seus traços gerais, essa mesma explicação simplista.
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10 novembro 2017
« ¿¿POR QUÉ NO TE CALLAS?? »
10 de Novembro de 2007. As cerimónias finais da XVII Cimeira Iberoamericana e a famosa frase do rei Juan Carlos a Hugo Chávez completam hoje o seu décimo aniversário. Mas é interessante rever uma pequena parte do incidente para perceber como a substância do mesmo - se alguma terá tido - repousa no discurso do primeiro-ministro espanhol e não na reacção pirotécnica do monarca - porém, foi esta última que tornou o incidente memorável, ainda hoje digno de evocação. E simbólico deste mundo informativo moderno o quanto ele não se mostra interessado em difundir os considerandos do que se diz, preferindo os repentes. Por outro lado, se se percebia que Zapatero estivera ali a defender Aznar por razões institucionais e de princípio, apesar da sua estima pessoal pelo antecessor alvo das críticas de Chávez ser bem pouca, em Espanha e apesar de se ter percebido claramente o frete evidenciava-se o quanto a política tende a ser ingrata. Em Madrid, numa conferência de imprensa, Gabriel Elorriaga, que era o secretário de comunicação do PP (o partido de Aznar), fazia um rasgado elogio ao rei («...teve que ser o chefe de Estado, com a sua atitude de firmeza (...) que soube dar uma resposta adequada aos gravíssimos insultos que todos os espanhóis estavam a receber pela boca de Hugo Chávez...») enquanto não poupava críticas ao primeiro-ministro («...consequência (...) da imprevisão, da negligência e da falta de capacidade de actuação...» do chefe do governo). O que vale é que, do outro lado, criticava-se o rei...
E contudo, dez anos passados, Zapatero será, de todos os protagonistas, aquele que aguentou melhor o passar do tempo. Chávez entretanto morreu e o regime que deixou à Venezuela mostra-se no estertor de uma lenta agonia política, económica e social. Juan Carlos, apanhado a caçar elefantes em África num momento em que o seu povo padecia na Europa, viu-se compelido a abdicar. E quanto a Aznar, o pomo da discórdia, a sua reputação afundou-se até ser usado em programas cómicos de televisão como pretexto para abalar as convicções mais profundas dos mais convictos republicanos espanhóis...
14 junho 2015
A ESQUERDA QUE NÃO É PARECIDA COM A OUTRA ESQUERDA
As peripécias associadas à recente visita de Felipe Gonzalez à Venezuela (acima) são uma recordação de uma verdade recorrente, de como, quando se chega a certos princípios e liberdades fundamentais, continua a ser fundamental fazer a distinção entre a esquerda democrática e a outra que o não é. Para evidenciar a distinção, mas cingindo-nos a exemplos sul-americanos, compare-se a conduta recente de Maduro e do seu governo na Venezuela com a de Allende e o seu governo de Unidade Popular no Chile, quando a extrema-esquerda do MIR o resolveu desafiar frontalmente (abaixo, a notícia é do Diário de Lisboa de então – edição de 7 de Agosto de 1972). Foram episódios entretanto convenientemente enterrados por detrás do infeliz e injusto destino de Allende em Setembro de 1973 às mãos de Pinochet, mas que não deixaram de existir, apesar da sua inconveniência actual.
Fosse Salvador Allende de uma certa outra esquerda e a ocasião e o pretexto teriam sido mais do que propícios para esmagar os rivais, num processo que em muito se assemelharia ao que Lenine havia feito a partir de 1918 na Rússia aos sociais-revolucionários ou aos mencheviques e tantas outras vezes repetidos noutros lugares. Mas não, aquilo que a tal outra esquerda designaria por os desvios do MIR, foram tolerados. Em prática de tolerância é um contraste colossal com o que hoje parece existir na Venezuela, 43 anos depois, naquela recepção a um antigo e prestigiado secretário-geral de um grande partido socialista europeu (PSOE), que se tornou numa vergonha. Creio que é importante recordar mais uma vez isto, quando até um jornal de direita como o i faz uma reportagem de rua a pretexto dos dez anos do seu falecimento e quase transforma Álvaro Cunhal num avozinho simpático.
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16 setembro 2008
A OUTRA AMÉRICA
A América do Sul não goza do destaque mediático da sua irmã setentrional. Apesar de ali termos tido a nossa maior e mais importante colónia e do Brasil se afirmar cada vez mais como a potência hegemónica do continente, a nossa ignorância sobre o que ali se passa e sobre o que ali se passou costuma ser muito grande. E nem nos deve servir de consolação o facto de, compartilhando a mesma língua, essa ignorância sobre os problemas brasileiros e sul-americanos ser muitas vezes recíproca, quanto ao que no Brasil se atenta aos problemas portugueses e europeus.
O mapa abaixo é um desses pormenores desconhecidos do passado, e mostra-nos como o continente foi atravessado ao longo do Século XIX por inúmeras disputas fronteiriças entre os países que se haviam tornado independentes de Espanha e de Portugal durante o primeiro quartel do século. Como o Brasil tem fronteiras com quase todos os países sul-americanos (salvo com o Chile e com o Equador) quase só por excepção é que o Brasil não esteve envolvido nas rectificações fronteiriças (algumas delas violentas) que ali vieram a ter lugar.
Mas a maioria dos conflitos que estão mais acima assinalados é-nos desconhecida, assim como nos é também desconhecida a única guerra convencional de alguma envergadura que se travou no continente durante o Século XX e que ficou conhecida pela Guerra do Chaco (acima), que opôs o Paraguai e a Bolívia entre 1932 e 1935, a pretexto de uma enorme região árida e despovoada designada pelo nome de Chaco Boreal. Foi uma guerra peculiar, opondo interesses comerciais antagónicos, mais do que os países participantes.
Do lado boliviano estava a Standard Oil norte-americana e do paraguaio a Royal Dutch-Shell anglo-holandesa e no meio as suspeitas que sob o Chaco estariam alguns dos campos petrolíferos mais ricos descobertos até então. Não fosse a memória dos 100.000 mortos causados pelo conflito (a maioria por doença) e a síntese da sua história poderia ser perfeitamente dada pela descrição que dela faz Hergé no livro de BD de Tintin, A Orelha Quebrada (acima), onde nos faz a apresentação do típico oficial sul-americano, o General Alcazar (abaixo)
Para a História, e apesar dos muitos erros militares acumulados pelos dois antagonistas, a vitória veio a pertencer ao Paraguai que veio a receber quase todo o território do Chaco que estava em disputa. Foi a terceira derrota consecutiva da Bolívia nestes conflitos fronteiriços. Ela já havia perdido a saída para o mar para o Chile e também os seringais de borracha do território do Acre para o Brasil. Contudo, desta vez, a Shell acabou por ficar desapontadíssima com o que ganhara porque o Chaco afinal não se veio a revelar aquele mar de petróleo que se imaginava.
Paradoxalmente, os grandes depósitos de hidrocarbonetos que o território boliviano escondia afinal eram de gás natural e situavam-se um pouco mais a Norte da área disputada, na província de Santa Cruz, precisamente aquela que hoje lidera o processo autonomista/separatista que tem dividido a Bolívia. E, mais uma vez, embora a voz dominante seja a do costumeiro presidente venezuelano, Hugo Chavez, o tal que não se cala, adivinham-se, mais do que se vêm, os omnipresentes interesses brasileiros no acompanhamento da crise. 16 março 2008
TINTIN E OS CHÁVEZ
No último álbum completo da série, baptizado Tintin e os Pícaros (1976), Hergé faz com que o seu herói acabe por fomentar um golpe de estado num hipotético (mas característico) país latino-americano baptizado de San Theodoros, mas isso apenas acontece para que os amigos do protagonista possam ser libertados da prisão onde estavam. Quando abandonam o país, este está entregue a um novo regime, mas à mesma sorte de sempre.
Sendo um idealista em muitas outras causas, Hergé passa aqui por um cínico, ao poupar o seu ícone Tintin às causas magnas que orientaram a vida de um outro ícone mundial, Ernesto Che Guevara. Se à chegada, na gravura de baixo (p.11), os polícias patrulham os bairros da lata dos arredores da capital com um fardamento parecido com o chileno, na gravura mais abaixo, à partida (p.62), o fardamento já mudou e agora parece cubano. As pistolas e cassetetes mantêm-se...
E alguns dos resultados alcançados pela Revolução Bolivariana do Tenente-Coronel Hugo Chávez parecem estar a dar razão a Hergé. No meio de uma profusão de indicadores económicos que poderiam ser utilizados para extrair conclusões diametralmente opostas impressionou-me aquele que mede a redistribuição da riqueza, chamado Coeficiente de Gini* que aumentou a assimetria dos 0,44 em 2000 para os 0,48 em 2005.
Como diz um amigo meu, recentemente regressado (e esclarecido) de terras cubanas, onde vigora o regime socialista há quase 50 anos, o que parece mudar é a predisposição para analisar os mesmos fenómenos. Por exemplo, em países capitalistas como o Brasil, há racismo e discriminação contra os negros, mas em Cuba dá-se apenas a coincidência dos que desempenham os cargos menos qualificados serem mais escuros…* O Coeficiente de Gini (veja-se a explicação), quando aplicado aos rendimentos, pode variar entre os valores extremos de 0 (onde todos recebem o mesmo rendimento) e o valor de 1 (correspondente a alguém que acumula todo o rendimento, deixando os restantes sem nada). Tanto o valor é mais alto, tanto mais desigual é a sociedade. No caso venezuelano, sob Chávez e surpreendentemente em função do discurso do regime, subindo de 0,44 para 0,48 (dados do seu próprio Banco Central) afinal têm-se estado a acentuar as desigualdades de rendimentos.
10 novembro 2007
CHAVEZ: UMA INSOLÊNCIA À MCENROE…
John McEnroe foi um tenista que, no seu apogeu, no princípio dos anos 80, terá sido um dos melhores, senão mesmo o melhor jogador de ténis do mundo. E tornou-se desmesuradamente popular em relação aos seus rivais mais directos, mas não por ser assim tão melhor que eles, antes porque se mostrava em campo de um comportamento imprevisível que não demorou a tornar-se insuportável…
Tanta era a sua reputação que as impertinências de McEnroe se tornaram notícias autónomas dentro da cobertura tradicional dos Torneios de Ténis onde participava: discussões com o árbitro, atirar com a raquete, etc. É algo parecido ao que parece ter acontecido a Hugo Chávez, o Presidente venezuelano, na Cimeira Ibero-Americana a decorrer no Chile, quando vários países apanharam com as suas insolências…
Apanharam a Espanha e o Brasil, a Argentina e o Uruguai também levaram. Segundo dizem as notícias, Portugal safou-se… Em abstracto, devo dizer que a causa originalmente proclamada por Hugo Chávez sempre me pareceu simpática: a de tentar equilibrar a distribuição da riqueza num país como a Venezuela, onde a dimensão (enorme) das assimetrias económicas pode ser sintetizada em imagens simples como esta fotografia aérea de uma área da sua capital Caracas (abaixo).
Mas a bondade dos objectivos proclamados não pode perdoar tudo. O próprio John McEnroe descobriu que as suas atitudes modificaram a sua audiência nos campos, daqueles que iam lá para o apoiar, para aqueles que iam para o ver dar barracada… Com o tempo, também McEnroe parece ter aprendido e hoje, 25 anos passados, tenista veterano e grisalho (abaixo), mostra-se muito mais calmo em campo... Não sei é se a política latino-americana dará esse mesmo tempo a Chávez…
A tradição do continente é que quem comete destes erros de isolamento e arrisca assim hostilidades tão fortes, também corre um risco sério de não chegar a veterano… 12 janeiro 2007
A REELEIÇÃO DE ALCAZAR
A última obra de Hergé, chamada Tintin e os Pícaros, consta de uma história onde Tintin, para salvar os seus amigos, tem de promover um golpe de estado num país sul-americano, substituindo um ditador, o general Tapioca, cujo regime havia condenado à morte os seus amigos, por um outro, um conhecido seu, o general Alcazar, que naturalmente, tão logo chegou ao poder, anulou as condenações.A moral da história – se a tiver - está repleta de um cinismo de Guerra-Fria idêntico ao da famosa frase atribuída ao presidente norte-americano Harry Truman: Fulano – era um qualquer ditador manhoso sul-americano, talvez Somoza, da Nicarágua - é um filho da puta? Claro que é um filho da puta! Mas é o nosso filho da puta! Neste caso é Alcazar que faz o papel do filho da puta do, por esta vez, amoral Tintin.
Em imagens, a síntese disto faz-se em duas imagens de fundo de página. Na primeira (p.11), a propósito da aterragem do avião que traz Tintin, vê-se uma patrulha de dois homens a passear-se por um bairro de lata, onde está afixado um cartaz de propaganda (Viva Tapioca), na segunda (p.62), o pretexto é a descolagem do avião que leva Tintin, a patrulha lá continua embora com novas fardas, e com o cartaz mudado (Viva Alcazar).
Não deve ter sido coincidência que os capacetes usados pelos polícias durante o regime de Tapioca fizessem lembrar os do exército chileno sob o regime de Pinochet (por sua vez inspirados nos usados pelos alemães durante a Segunda Guerra), nem que os barretes dos polícias do novo regime de Alcazar fossem quase decalcados do modelo usado por Fidel Castro e pelos cubanos.
Em suma e, embora com algumas variações por detrás*, Hergé como que atribuiu a Tapioca o papel do ditador sul-americano de direita e a Alcazar o de ditador sul-americano de esquerda. O fim da história (com uma vitória de Alcazar) é uma novidade porque, à data da sua publicação (1976), a única ditadura latino-americana esquerdista que existia efectivamente era a cubana. Os Estados Unidos asseguravam-se que era assim e que assim continuaria a ser...
Pelos vistos, o fim da Guerra-Fria permitiu que aparecessem novos Alcazares, como o presidente venezuelano Hugo Chavez, que recentemente, ao tomar posse para mais um mandato, fez mais uma das suas profissões de fé onde costuma misturar citações de Lenin, Jesus Cristo, Mao Zedong, Lincoln, Martin Luther King, Ho Chi Min, Che Guevara, Mitterrand, Fidel Castro e, claro, o seu preferido, Simão Bolívar.
E muitas medidas por ele decididas estão a tornar-se deveras preocupantes, como muito bem assinala neste poste Pedro Correia, do Corta-Fitas. Mas, não me colocando na defesa das acções dos Alcazares como Chavez, na Venezuela ou Morales, na Bolívia, muito gostaria de ver os Tapiocas do continente sujeitos a igual escrutínio mediático. Ou será que a Colômbia, o Peru, o Equador ou o Paraguai são todas democracias consolidadas?
Ou, alternativamente, porque serão apenas os projectos de poder pessoal de Hugo Chavez a merecer a nossa melhor atenção?
* O regime europeu que apoia Tapioca, o da Bordúria, havia servido numa história anterior (O Caso Tournesol) como exemplo para retratar os regimes socialistas (e muito pouco democráticos…) do Leste europeu do pós-guerra.
* O regime europeu que apoia Tapioca, o da Bordúria, havia servido numa história anterior (O Caso Tournesol) como exemplo para retratar os regimes socialistas (e muito pouco democráticos…) do Leste europeu do pós-guerra.
29 setembro 2006
13 maio 2006
UM FREI TOMÁS DE SOMBRERO
O México tem um presidente, Vicente Fox de seu nome, conhecido por usar umas botas castiças de vaqueiro e por ter trabalhado para a Coca-Cola Company, o que deve fazer dele um paladino do liberalismo.Pelo menos isso se deve julgar; foi um dos chefes de estado que, na recente cimeira de Viena, entre os líderes da União Europeia e da América Latina, mais se destacou nas censuras à Venezuela e à Bolívia, nomeadamente à decisão recente do presidente boliviano Morales de nacionalizar os seus recursos energéticos.
O que Fox se deve ter esquecido, provavelmente por distracção, é que Morales está a tomar uma atitude (criticável, segundo os seus comentários) idêntica à que o seu longínquo antecessor Lázaro Cárdenas tomou em 1938, quando nacionalizou os petróleos mexicanos às companhias estrangeiras e fundou a PEMEX (Petróleo Mexicanos), a actual monopolista mexicana do sector.
Pode ter sido a antiguidade do acontecimento (68 anos!), a responsável pelo lapso, mas é conveniente que o presidente mexicano recupere intelectualmente alguma agilidade, o que é, aliás, o apanágio de um dos seus compatriotas mais famosos: Speedy Gonzalez.
02 maio 2006
NACIONALIZAÇÕES
Há muito tempo que o verbo nacionalizar, ou um dos seus derivados, não aparecia assim num cabeçalho de jornal. Já ninguém nacionaliza, a nacionalização tinha saído de moda, tudo o que é público destinava-se a vir a ser privatizado, porque os privados, e o Fernando Pinto da TAP, é que sabem como gerir mais eficientemente as empresas.E o poder, contrariamente ao que se andava a dizer por aí, parecia estar na ponta do cifrão, que a das armas está entupida com todos os cravos que lá puseram. E, importantíssimo, tudo isto se está a passar em sintonia com as grandes correntes internacionais da globalização, a tal a que não nos podemos furtar.
Eis senão quando um senhor de aspecto índio e de nome Evo Morales, presidente da Bolívia (em cima na fotografia à esquerda de Hugo Chavez, presidente da Venezuela) deu em nacionalizar o sector da produção do petróleo e gás natural boliviano, acompanhando o gesto de uma ocupação das instalações por destacamentos das forças armadas bolivianas.
Não existissem arquivos e até pensaríamos estar a assistir a algo de radicalmente novo. Não é. Todos os grandes países produtores da OPEP negociaram no passado com as petrolíferas em posição de força e de coação (a expropriação), de forma a vergá-las negocialmente. O que parece ser precisamente o objectivo anunciado por Morales.
Estes novos eixos que se andam a formar pela América Latina (Cuba, Venezuela, Bolívia), que se reclamam da figura de Simon Bolívar mas onde Che Guevara seria um ícone mais apropriado, têm o cimento frágil da hostilidade comum aos Estados Unidos e ao seu comportamento histórico naquela região mas têm as suas potencialidades de manobras multiplicadas pela riqueza da alta do preço do petróleo de que a Venezuela é um grande produtor.
Só a auto-confiança venezuelana transposta para um apoio incondicional de Chavez a Morales pode explicar a ousadia de um pequeno país como a Bolívia romper um status quo de cerca de 25 anos e regressar, embora circunstancialmente, à trilha das boas e velhas nacionalizações. Sem golden shares ou outras legislações específicas e manhosas.
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