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27 junho 2024

DE UM VALEDERO DE FICÇÃO A UM ÁRBENZ REAL

(Republicação a pretexto de que hoje, 27 de Junho, se completam 70 anos sobre a renúncia de Jacobo Árbenz à presidência da Guatemala)
aqui falei de O Regresso do Fantasma, uma história de BD de Hermann & Greg de 1973. Recontando a síntese do enredo, o presidente (Juan Enrique Valedero) de uma República latino-americana (Monteguana) é vítima de um atentado que destrói o seu iate de cruzeiro e ao qual ele escapa por acaso. O navio dos nossos heróis (o Cormoran), acidentalmente por perto, recolhe-o, assim como aos seus dois guarda-costas, os únicos sobreviventes da tragédia. Antes de o poder comunicar, Valedero apercebeu-se que o atentado se tornara um pretexto para que houvesse um golpe de estado em Monteguana.
A morte do presidente já fora anunciada pela comunicação social de Monteguana sem que tivesse havido qualquer pedido de socorro, tanto do iate como do Cormoran. Os nossos heróis vêm-se assim associados aos esforços do presidente fantasma para recuperar o poder, enquanto os golpistas tentam eliminá-los a todos, tornando real a verdade oficial que fora entretanto antecipadamente proclamada. É nessa viagem para recuperar o poder que Valedero, um intelectual de ascendência europeia oriundo das elites do país, se apercebe que a realidade política do seu país é muito diferente da que imaginava…
A história acaba bem, com um presidente mais lúcido de um país retrógrado – veja-se como o soldado na imagem acima apenas o reconhece por causa dos selos do correio… Em O Regresso do Fantasma nota-se tanto a inspiração histórica do exemplo de Jacobo Árbenz, o presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, como uma certa perspectiva ideológica europeia¹ que acreditava que o despotismo esclarecido bem intencionado de alguns dos membros das elites tradicionais poderia ser o catalisador para transformações sociais que derrubassem as oligarquias locais tradicionalmente apoiadas pelos norte-americanos.
Jacobo Árbenz (1913-1971) havia nascido de uma dessas famílias guatemaltecas, no caso de ascendência suíça e a natureza dotou-o, como se nota, com a pose aristocrática indispensável a quem pretende pertencer às elites. Por força das circunstâncias (o pai suicidara-se e a família passava por dificuldades financeiras) veio a matricular-se e graduar-se como oficial do exército em 1935 com um percurso académico brilhante. Dois anos depois tornava-se ali professor. E nos inícios de 1939 casava na sua classe, com uma filha de uma família de latifundiários salvadorenha. Entretanto começara a Segunda Guerra Mundial.
Os anos finais da Guerra foram um período de liberalização do continente, substituindo os regimes despóticos anacrónicos que os Estados Unidos haviam protegido, como era o caso do guatemalteco do General Ubico. O Capitão Árbenz, apesar da juventude (31 anos), já aparece associado aos movimentos militares que em 1944 vão acabar por conduzir à realização das primeiras eleições razoavelmente livres da História da Guatemala, que foram ganhas de uma forma esmagadora (cerca de 85% dos votos) por Juan José Arévalo, um académico intelectual, professor universitário e doutorado em Filosofia.
O período de seis anos (1945-51) da presidência de Arévalo foi uma época impar do usufruto de liberdades políticas na Guatemala que criaram condições para que a disputa política quanto à sua sucessão se tivesse travado nas urnas e não com armas como era a tradição do continente. Defrontavam-se a facção radical de inspiração marxista do movimento que colocara Arévalo no poder e a facção conservadora desse mesmo movimento, que pretendia estancar por ali a dinâmica entretanto criada. A primeira facção, protagonizada por Jacobo Árbenz, venceu as eleições presidenciais de 1951 com cerca de 60% dos votos.
A eleição de um esquerdista teve o condão de colocar a até então ignorada Guatemala no mapa das preocupações norte-americanas, atenta ao que a então recém-criada CIA designava por penetração soviética na América Latina. O detonador das inquietações foi a intenção, manifestada por Árbenz, em realizar uma Reforma Agrária², problema capaz de desencadear um conflito entre os interesses guatemaltecos e norte-americanos, com a multinacional United Fruit Company (a maior empresa mundial de comércio de frutos tropicais) de permeio como a maior empregadora e a maior latifundiária do país.
As operações da CIA que conduziram ao derrube de Árbenz, criando e treinando um exército dito rebelde, promovendo uma guerra de propaganda e algumas manobras de diplomacia de canhoneira tornaram-se exemplos das guerras sujas desenvolvidas por aquela organização para estes casos. O regime acabou por cair com uma facilidade que desmentia as conexões soviéticas. A Jacobo Árbenz foi-lhe permitido partir para o exílio no México mas, derradeira humilhação, foi-lhe exigida uma revista metódica na alfândega. Até ao fim, mesmo fotografado de cuecas, Árbenz mostrou ser o perfeito aristocrata…
¹ Essa perspectiva no Século XX é exclusivamente de esquerda, onde a referência obrigatória é Fidel Castro, mas no Século XIX, como se vê pelo caso da intervenção do Imperador Napoleão III no México (1862-67), mostra como aquela perspectiva ideológica era abrangente.
² Tratava-se de uma verdadeira Reforma Agrária, envolvendo a expropriação de parte das terras dos latifundiários para que elas fossem repartidas e redistribuídas entre os camponeses pobres. Não confundir com a colectivização das terras ocupadas e/ou expropriadas, processo a que os comunistas portugueses em 1975 deram o mesmo nome.

25 novembro 2022

«SAUDADES» DA «INFORMAÇÃO» DOS JORNAIS COMUNISTAS!

Quinta Feira, 25 de Novembro de 1982, parece-me uma data apropriada para evocar graficamente como se noticiavam comparativamente num jornal comunista (Diário de Lisboa) a presença americana em El Salvador e a presença soviética no Afeganistão. Note-se o espaço, o detalhe e a terminologia distintas que são dedicados pelo jornal às duas realidades, apesar da sua semelhança. No caso de El Salvador «os americanos» aparecem logo no cabeçalho, mas no caso do Afeganistão só no detalhe é que se percebe que «a intervenção estrangeira» é protagonizada... pelos soviéticos. A reputação da imparcialidade não parecia ser uma grande preocupação destes jornalistas militantes.

02 dezembro 2020

AS ÚLTIMAS INDIGNAÇÕES DA POLÍTICA EXTERNA DA ADMINISTRAÇÃO CARTER

2 de Dezembro de 1980. Em El Salvador, onde então grassava uma guerra civil, três freiras católicas e uma assistente laica, todas de nacionalidade norte-americana, são sequestradas, violadas e assassinadas quando regressavam do aeroporto. Os corpos só vieram a ser descobertos dois dias depois, mas o modus operandi apontava, desde o início, para um esquadrão da morte, que as investigações subsequentes, levadas a cabo por pressão americana, rapidamente associaram a membros das próprias forças armadas governamentais salvadorenhas. Em Washington, a administração Carter (de saída, depois da vitória de Ronald Reagan) viu-se dividida entre o apoio tradicional às ditaduras latino-americanas e o ultraje que o episódio provocara na sua opinião pública. De acordo com o discurso tradicional, os comunistas é que eram contra a religião; no caso, os presumíveis culpados estavam do lado apoiado pelos americanos. O dilema veio a ser rapidamente ultrapassado pela equipa da administração Reagan: Jeane Kirkpatrick, a futura embaixadora dos Estados Unidos na ONU, foi citada, considerando que «as freiras não eram apenas freiras. As freiras eram também activistas políticas (...) em prol da Frente (FMLN). (...) Não, não penso que o governo tenha sido responsável» (pelas suas mortes). Cá em Portugal sabia-se bastante bem que a actividade missionária nem sempre se comporta de forma neutral em zonas de conflito, valia o exemplo do que acontecera meia dúzia de anos antes em Moçambique, quando várias organizações missionárias a operar ali haviam sido acusadas de parcialidade pró-Frelimo pelas autoridades coloniais portuguesas. Mas a analogia termina aí: os portugueses expulsaram-nos, não os mataram como os salvadorenhos fizeram às freiras... descontando o resto das sevícias. E a tolerância oficial americana para com os responsáveis pela execução destas suas quatro compatriotas ainda hoje é uma daquelas manchas indeléveis da política externa norte-americana. O filme abaixo é uma reconstrução dos acontecimentos feita no filme Salvador (1986).

14 julho 2019

PELO CINQUENTENÁRIO DE UMA (DAS) GUERRA(S) DO FUTEBOL

14 de Julho de 1969. Com a invasão das Honduras, El Salvador desencadeava aquela que viria a ser conhecida como a Guerra do Futebol ou Guerra das Cem Horas. Já por aqui publiquei uma versão sintética do que aconteceu, as verdadeiras razões para a hostilidade entre aqueles dois países centro-americanos. Acolhido à época com um abanar de cabeça repreensivo pela comunidade intenacional e as respectivas opiniões públicas, desde essa época para cá despontaram razões poderosas para que o futebol passasse a ser um casus belli doméstico, detonador de verdadeiras guerras civis que se travam exuberantemente em todos os nossos canais de televisão.

23 janeiro 2013

O ARMAMENTO DA GUERRILHA SALVADORENHA

Embora limitado ao mundo dos entendidos, a Guerra Fria e as guerrilhas que, à sua sombra, proliferaram pelo Mundo, também pode ser acompanhada no campo do armamento individual empunhado pelos combatentes. Já aqui fiz menção a esse aspecto técnico da História. Que, embora só interesse a alguns, ainda tem coisas para se descobrir, como aconteceu comigo recentemente, a propósito do armamento individual que equipou a guerrilha salvadorenha. A Guerra Civil de El Salvador, país da América Central, começou em 1979 e prolongou-se até à Queda do Muro e ao fim da União Soviética, em 1992. A sua erupção foi uma consequência do sucesso da Revolução Sandinista (1978-79), que conseguira depor a ditadura dos Somozas na vizinha Nicarágua, e do esforço que soviéticos e cubanos decidiram investir na América Central após isso, numa região que os Estados Unidos consideravam coutada sua, mas que também era uma região madura para revoluções por causa das gritantes injustiças sociais.
Se a referência revolucionária nicaraguenha fora um mártir histórico da revolução chamado Augusto Sandino (um líder guerrilheiro assassinado em 1934), com a organização revolucionária a denominar-se em sua homenagem Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), a inspiração tornava-se evidente em El Salvador, substituindo-se apenas o nome do mártir, agora Farabundo Martí (outro líder guerrilheiro local, assassinado em 1932) e a correspondente Frente a denominar-se, por sua vez e sem surpresa, Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Mas as semelhanças não terminavam aí: as fotografias de guerrilheiros centro-americanos que apareciam publicadas na comunicação social mostravam uma alta percentagem de mulheres combatentes (como se pode apreciar pelos exemplos que aqui se publicam) e exibindo um armamento que, contrariamente ao que acontecia com outras guerrilhas e como os entendidos podiam facilmente identificar, era normalmente de origem ocidental.
A ideia, que se revelou bem-sucedida, era a de sugerir as raízes populares da insurreição, a escassez de meios e a independência de apoios internacionais de um movimento popular que se arma apenas com o material que consegue capturar. Só vinte anos depois do fim do conflito é que vim a descobrir como ela não passava de um embuste: as FN FAL belgas, de que vemos um exemplar encostado junto à senhora que cose roupa, eram de origem cubana, vendidas por aquele país a Cuba ainda antes da ascensão de Fidel Castro ao poder (1959) conforme se identificava pelos seus números de série; quanto às M-16 norte-americanas que se vêem nas outras fotos, tinham vindo, na sua esmagadora maioria, do Vietname, que possuía milhares delas depois da sua vitória de 1975, altura em que se apoderara dos paióis sul-vietnamitas. Só por curiosidade, refira-se que, como fornecedor, Portugal também participou no conflito, vendendo alguns dos milhares de G-3 que possuía em excesso ao outro lado, ao exército salvadorenho.

02 dezembro 2012

UMA DEMONSTRAÇÃO DAS VIRTUDES RELATIVAS DO TRABALHO ASSISTENCIAL

Hoje completam-se 32 anos que um esquadrão da morte salvadorenho, agindo sob instruções superiores (os mandantes nunca chegaram a ser devidamente identificados), torturou, violou e assassinou quatro freiras norte-americanas (fotografias acima¹) que realizavam trabalho assistencial em El Salvador. O país acabara de entrar numa verdadeira guerra civil (1979-1992), opondo o governo controlado pela oligarquia tradicional aos rebeldes armados de esquerda da FMLN mas tratou-se de um daqueles crimes extremos: pela violência desmesurada (violação e assassinato de freiras…), pelas repercussões (… norte-americanas…), pela inutilidade (…que poderiam ter sido expulsas do país) e pelas consequências adversas para quem o praticou: perante as quatro fotografias acima e sem dúvidas da origem dos autores², uma maioria da opinião pública norte-americana, que antes nem saberia onde se situava El Salvador (abaixo), com a simplicidade de faroeste que a caracteriza, passou a considerar que os governamentais salvadorenhos eram os maus daquele enredo.
Não considero arriscado especular que, ocorresse aquele episódio num país submetido a um regime latino-americano que os Estados Unidos considerassem hostil, o assassinato destas quatro freiras teria sido um pretexto perfeito para uma invasão militar norte-americana que o derrubasse. Mas não foi assim, pelo contrário, o regime aguentou-se ao longo dos treze anos de guerra civil muito por causa do apoio norte-americano. E foi também muito e apenas por causa da pressão norte-americana que os executantes dos assassinatos foram levados a tribunal e condenados a 30 anos de prisão em 1984. Os mandantes permaneceram incólumes. Vem a propósito evocar o aniversário associando-o à mistura entre a política e a actividade assistencial a pretexto das recentes declarações de Isabel Jonet. Disse-se então imensa coisa a favor e contra a própria e a actividade que desenvolve a organização que dirige que, tenho a certeza, bem poderiam ter ficado por dizer, bastava conhecer casos de uma disposição política diversa dos protagonistas, como este caso de El Salvador…  
¹ Da esquerda para a direita: Dorothy Kazel, Ita Ford, Jean Donovan e Maura Clarke.
² Oito meses antes, Óscar Romero, o arcebispo de San Salvador e a mais alta figura da hierarquia católica do país, fora assassinado por um outro esquadrão da morte.

18 novembro 2009

A(S) GUERRA(S) DO FUTEBOL (A DE 1969)

Antes de se saber qual será o resultado do jogo de hoje entre Portugal e a Bósnia, e as consequências imprevisíveis para a paz e segurança na Europa que os quatro jogos de apuramento que hoje se disputam poderão provocar (Bósnia – Portugal, França – Irlanda, Eslovénia – Rússia e Ucrânia – Grécia), para não falar já do que poderá acontecer à África do Norte na sequência do Argélia – Egipto a disputar em Cartum, no Sudão, lembrei-me de evocar um acontecimento de há 40 anos atrás, que ficou conhecido como a Guerra do Futebol ou a Guerra das 100 Horas, uma guerra travada entre as Honduras e El Salvador, um conflito militar a sério que teve por pretexto próximo, precisamente como aqui, uma eliminatória de apuramento para um Campeonato Mundial de Futebol – no caso o de 1970, que se iria disputar no México.
A história aparente do conflito começa a 8 de Junho de 1969 quando, em partida disputada em Tegucigalpa, capital das Honduras, a selecção local ganhou à de El Salvador por 1-0. Na véspera, os hondurenhos haviam montado um comité à volta do hotel onde a comitiva salvadorenha se havia alojado, que passou a noite a fazer barulho impedindo os visitantes de descansarem. Uma semana depois, os salvadorenhos, feitos agora anfitriões retribuíram, com mais alguns requintes de maldade, incendiando, por exemplo, 150 carros de hondurenhos que haviam vindo ver o jogo a Salvador. Nesta segunda mão El Salvador veio a ganhar por 3-0 e foi preciso um jogo desempate, que se disputou em campo neutro a 27 de Junho na cidade do México onde a selecção de El Salvador veio a ganhar após prolongamento por 3-2.
Mas, no dia anterior ao jogo, que contou com a assistência de 5.000 polícias mexicanos, já o governo salvadorenho havia rompido as relações diplomáticas com o seu homólogo hondurenho e, de gesto ameaçador em gesto ameaçador de parte a parte, em 14 de Julho os dois países estavam envolvidos numa Guerra que tinha por causa mais profunda o contraste social entre os dois países vizinhos da América Central, onde em El Salvador havia gente de mais para terra de menos (uma densidade média de 154 habitantes por km²) ao invés da situação nas Honduras (com 18 habitantes por km²), onde sobrava terra e havia uma comunidade imigrante salvadorenha crescente. Quanto ao conflito propriamente dito, El Salvador, com um exército mais poderoso, assumiu a ofensiva e invadiu as Honduras, mas as operações acabaram por durar apenas 4 dias.
Para além dos três milhares de mortos, na sua grande maioria civis e hondurenhos, a 2 de Agosto de 1969, através dos ofícios dos intermediários da OEA (Organização dos Estados Americanos), o exército salvadorenho regressara às suas posições originais na fronteira, enquanto o governo hondurenho se preparava para expulsar as centenas de milhares de imigrantes ilegais salvadorenhos do seu território, acicatando as tensões sociais que estariam por detrás da Guerra Civil salvadorenha que se desencadearia dali por dez anos. Mas, esclarecendo o que normalmente mais interessa aos verdadeiros adeptos do desporto, depois destes jogos de apuramento, El Salvador veio a participar no Campeonato Mundial de 1970, perdendo os três jogos que disputou sem marcar sequer um golo: 0-3 contra a Bélgica, 0-4 contra o México e 0-2 contra a União Soviética…