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27 julho 2023

O ASSALTO À EMBAIXADA TURCA EM LISBOA

27 de Julho de 1983. A embaixada turca em Lisboa é assaltada por um comando terrorista arménio. Nunca se estabelecerá claramente o que terá acontecido para que os assaltantes tenham detonado prematuramente os explosivos que traziam consigo, matando-os, conjuntamente com a esposa de um dos membros da embaixada que havia sido tomada como refém e ainda um polícia português. Houve ainda mais dois feridos: um dos reféns e outro polícia português. Tudo se passou em menos de quatro horas. Quando se lê acima, que o comando fora dominado, faltava o esclarecimento que o comando se dominara a si próprio... Abaixo, um documentário evocativo transmitido há uma dúzia de anos pela SIC.

27 maio 2023

OS PROBLEMAS QUE SUBSISTEM DENTRO DA ÁREA DE INFLUÊNCIA RUSSA

Esta reunião teve lugar na passada Quinta-Feira, dia 25 de Maio, e agrupou, para além da Rússia tutelar, naturalmente representada por Vladimir Putin, os seus homólogos das antigas repúblicas soviéticas da Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão. O que a reunião teve de anómalo, quando estas cerimónias costumam ser cuidadosamente coreografadas, foi a intervenção inesperada do primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, que interrompeu Vladimir Putin quando este presidia, para ripostar às declarações prévias do presidente azeri, Ilham Aliyev, a respeito do conflito de Nagorno-Karabakh. É engraçado vermos Vladimir Putin, que gosta de organizar cerimónias do género onde aparece a falar grosso, a ter que assumir a voz da moderação quando são outros que aparecem a falar igualmente grosso, ainda para mais estragando-lhe a encenação da sua cerimónia. Os fracassos na Ucrânia parecem ter o seu preço...

22 outubro 2020

OS DOIS GENERAIS AMERICANOS DESAPARECIDOS NA TURQUIA

22 de Outubro de 1970. Esta notícia dos dois generais americanos que haviam desaparecido quando viajavam num avião no Leste da Turquia virá a ter um final mais feliz do que aquilo que se anteveria no momento em que a notícia foi publicada. Um final mais feliz, mas também inesperado. Assim, o pequeno avião Beechcraft, pilotado por um major americano que seguia de Erzurum para Kars com dois generais da mesma nacionalidade a bordo, e então dado como desaparecido, havia aterrado... mas no aeroporto de Leninakan, na Arménia, União Soviética (cidade hoje rebaptizada de Guiumri). As explicações dadas pelo piloto às autoridades soviéticas eram, no mínimo, estranhas, já que o plano de voo original previa uma viagem de apenas 175 km e o avião havia percorrido 125 km adicionais até ao local onde pousara... com o piloto completamente convencido que não se desorientara. Segundo as declarações que o piloto prestara, «ventos ascencionais haviam transportado o pequeno avião para cima das nuvens» e quando reatara a manobra de aproximação à pista continuava perfeitamente convencido de estar em espaço aéreo turco. Em plena Guerra-Fria fora um péssimo sítio para um avião militar americano com 3 oficiais a bordo (e mais um oficial turco de ligação) se desorientar, mas a boa notícia é que não havia vítimas a lamentar de um acidente aéreo - que fora a primeira hipótese a colocar-se. Quanto aos militares soviéticos, descontado o cepticismo quanto à versão do piloto, tiveram que render-se à evidência que a sua enorme incompetência como navegador (mapa abaixo) seria a explicação mais provável para o que sucedera: em alternativa, considerar a hipótese que o inimigo procedera a manobras de espionagem num avião ligeiro com dois oficiais generais a bordo seria uma hipótese ainda mais estúpida que a inicial. A 10 de Novembro, as autoridades soviéticas libertaram os 4 oficiais.

13 outubro 2018

A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA

13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
 
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
 
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.

20 junho 2016

1991 - O ANO DE TODOS OS REFERENDOS

Porque já se passaram 25 anos é natural o esquecimento, mas, a propósito do desta semana no Reino Unido, lembre-se que 1991 foi o ano de todos os referendos. Houve-os para todos os gostos em terras que a eles não estariam habituados. As três repúblicas do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, que faziam então parte da União Soviética, organizaram em Fevereiro e Março desse ano referendos em que se questionava a continuação desse estatuto versus a independência. A ideia fora anteciparem-se a um outro referendo, realizado na própria União Soviética em prol da sua preservação. Este último foi boicotado não apenas nas três repúblicas bálticas acima mencionadas, como também na Geórgia, na Arménia e na Moldávia. Onde se organizaram posteriormente os seus referendos que apuraram precisamente o contrário daquilo que o da União pretendia. Precipitada pela tentativa de golpe de Estado de Agosto, a dinâmica de decomposição da União Soviética parecia imparável, que veio a ser complementada por mais referendos em outras repúblicas, casos do Azerbaijão, do Uzbequistão ou da Ucrânia. A URSS desapareceria ainda antes do fim do ano.

Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, para voltar ao tema por onde havia começado o parágrafo anterior, não me recordo de ter ouvido muitas Cassandras económicas em 1991. Havia efectivamente muitas vozes agoirentas - há-as sempre - mas sempre no quadro do problema político e estratégico. Porque de um problema político se tratava, embora com enormes repercussões económicas. Neste caso do referendo britânico o que eu tenho estado a assistir é à subversão do que é a causa e do que é a consequência, do que é primordial e do que é acessório. Os britânicos, tal como outrora os lituanos e os restantes povos soviéticos o fizeram, decidirão da sua continuação na União Europeia por variadíssimas razões. Algumas até erradas; outras insignificantes; a económica será uma delas, mas não sei aquilatar da sua importância no computo global. Sei que no caso da dissolução da União Soviética não pesou grandemente, pois o impacto negativo nas economias das republicas era antecipável e não foi determinante. Mas, por causa do que me parece um expediente argumentativo, confesso que me tenho dedicado a um exercício que me tem divertido imenso e que aqui quero compartilhar com o leitor: quando se depararem com alertas quanto à evolução económica desfavorável no caso do Reino Unido abandonar a União Europeia, perguntem-se - e normalmente é fácil adivinhar a resposta... - se aquela mesma pessoa seria capaz de apresentar o mesmo género de argumentos - os prejuízos económicos - se ele fosse para ser utilizado como argumento em prol da continuação da União Soviética...

24 novembro 2011

O ÚNICO CENSO RUSSO DA ERA IMPERIAL


A música para ir acompanhando a leitura é do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881): Quadros duma Exposição (1874)

O primeiro e único censo demográfico realizado no Império Russo teve lugar em Janeiro de 1897. Aquele que se lhe seguiria, em 1915, não chegou a acontecer por causa da eclosão da Primeira Guerra Mundial, e aquele que efectivamente se veio a realizar só teve lugar dali por mais 29 anos, em 1926, quando o Império Russo já se chamava uma outra coisa… Ao atingir-se o final do Século XIX, contaram-se então 125,6 milhões de súbditos do Czar. Tratava-se, como seria de prever, considerada a escala, de uma população muito heterogénea (85 grupos linguísticos distintos) embora os critérios de classificação dos resultados estivessem politicamente orientados para não o evidenciar. Assim, o núcleo central da população era composto por russos, embora o conceito de russos – ou melhor, de falantes da língua russa, porque a classificação era feita pelo idioma, não pela nacionalidade de origem – era bastante elástico. Assim, ao lado dos russos tradicionais, reclassificados para propósitos de contagem como grandes russos, que eram 55,7 milhões e representavam 44,3% da população total, havia os pequenos russos, que hoje são conhecidos por ucranianos (22,4 milhões e 17,8% da população), e os russos brancos, hoje conhecidos por bielorrussos (5,9 milhões e 4,7%). A adição era plausível mas obviamente forçada: actualmente são três países distintos…
Apenas através deste artifício o Império Russo podia apresentar a imagem de um núcleo central maioritário eslavo de religião ortodoxa constituído por ⅔ da população. Com o resto da população eslava não se podia contar: havia 7,9 milhões de polacos (6,3%) de confissão católica romana concentrados num Reino da Polónia de que o Czar era o monarca e que fora criado em 1815 (ver mapa acima). Mas a história dessa Polónia dual ao longo do Século XIX era a de um sucesso económico (Varsóvia era a terceira cidade do Império depois de São Petersburgo e de Moscovo) mas de uma contínua instabilidade política onde as revoltas polacas (1830, 1863) eram seguidas por ferozes repressões russas. Um outro grupo importante na Polónia e também nas regiões ocidentais do Império era o dos judeus: havia 5,1 milhões de falantes de ídiche (4,0%), um idioma germânico que se escreve em alfabeto hebreu. A importância da comunidade era acrescida pela sua sobre-representação entre a população urbana. Por exemplo, numa cidade como Brest, hoje localizada na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os judeus constituíam ⅔ da população de 45.000 habitantes. Seria, a par dos polacos, finlandeses ou alemães, uma das nacionalidades mais evoluídas mas também uma das que mostraria uma maior resistência àquilo que as autoridades imperiais qualificariam como assimilação…
Contudo, havia outros grupos nacionais a Ocidente com histórias de sucesso na sua integração sem assimilação no quadro imperial: a Finlândia, que era um Grão-Ducado que gozava de uma ampla autonomia, era um desses casos (os finlandeses eram 2,5 milhões – 2,0%). E embora com muito menos autonomia, algo de semelhante acontecia na região do Báltico, onde as populações estónias (1,0 milhão), letãs (1,4 milhão) e lituanas (1,6 milhão), ou seja cerca de 3,2% da população total, eram controladas por uma elite de ascendência alemã (que constituíam 1,8 milhão em todo o Império – 1,4%), uma das mais fiéis a São Petersburgo, uma ironia dada a história futura da relação entre alemães e russos. Essas eram as fronteiras pacíficas do Império Russo. As outras eram regiões de expansão, turbulentas como as populações que nelas habitavam. Na que confinava com os Balcãs, onde as potências rivais haviam incentivado a criação da Roménia de língua latina (1878) para obstar à expansão dos russos para as regiões dos eslavos no Sul da Europa, existia, apesar disso, uma minoria (1,1 milhão – 0,9%) que falava o romeno. Outras fronteiras meridionais da Rússia eram povoadas por uma confederação de nacionalidades que o Censo classificou demasiado genericamente de Turco-Tártara, que se estendia do Mar Negro ao Pacífico, composta por 13, 4 milhões de pessoas (10,6%).
Uma apreciável parte deles eram descendentes de tribos nómadas que, sob a bandeira mongol, haviam conquistado a Rússia no Século XIII e muitos continuavam os hábitos nómadas de outrora (acima), embora houvesse outros que haviam assentado (abaixo). Porém, quase todos professavam o Islão, que era a religião de 13,9 milhões dos súbditos do czar (11,1%). A maior concentração de muçulmanos localizava-se na Ásia Central (7,7 milhões), onde a administração russa funcionava segundo um modelo colonial clássico. Os soviéticos reorganizaram depois a região nas cinco repúblicas que são as que hoje perduram: Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Quirguízia. Uma segunda região muçulmana, que começara a ser integrada no Império já a partir de meados do Século XVII, estendia-se desde a Península da Crimeia até ao curso inferior do Rio Volga. Ao contrário da Ásia Central, neste caso a imigração dos russos alterara o panorama demográfico, fazendo com que a população muçulmana fosse significativa mas não predominante. Exemplo: ainda hoje há quase tantos russos quanto tártaros no Tartaristão. Finalmente havia uma terceira região de predomínio muçulmano: o Cáucaso. A região é célebre pela complexidade do seu relevo que interfere na distribuição e classificação das suas etnias que desafia as descrições simplificadas que se tentem conceber...
Contornando isso, há que referir que, apesar do carácter tradicionalmente combativo dos povos do Cáucaso que muitos problemas militares causara, o Império Russo contava ali com dois aliados sólidos, tanto os georgianos (1,4 milhões – 1,1%) como os arménios (1,2 milhões – 1,0%) eram povos de confissão cristã numa região que lhes era francamente hostil: já houvera príncipes georgianos a comandar exércitos russos contra Napoleão e, quanto ao futuro, Stalin, quase todos o saberão, era georgiano. O Censo de 1897, mau grado a manipulação a que foi sujeito, foi um instrumento único na identificação das minorias relevantes dentro do Império Russo. Dá para perceber que, como regra geral, o tratamento dado por São Petersburgo a cada minoria variava em função, não apenas da cumplicidade recíproca entre minoria e poder central, mas também na razão inversa da sua sofisticação cultural: quando maior esta, também maior era a hostilidade imperial. Mas, com essa notável excepção dos polacos, cuja direcção política clandestina nunca se terá disposto a reivindicar nada menos que a independência total, há que reconhecer que em 1897 a questão das nacionalidades ainda não seria um problema sério para a subsistência do Império. A Revolução de 1905, que irá ter lugar dali por oito anos, abanando o regime, deverá ser analisada sobretudo – senão exclusivamente – pela sua componente social.

29 julho 2011

OS MERIDIONAIS

Datada de 1925, não fosse a presença do facilmente reconhecível Stalin e a fotografia pareceria ser uma fotografia de família. De certa maneira é uma fotografia de família, a dos dirigentes bolcheviques de origem meridional (do Cáucaso): da esquerda para a direita, o arménio Anastas Mikoyan e os georgianos Iossif Djugashvíli (Stalin) e Grigol Sergo Ordzhonikidze. Manobravam politicamente de forma concertada ao contrário do outro grupo minoritário entre os velhos dirigentes bolcheviques, os de origem judaica como Trotsky, Kamenev, Zinoviev, Litvinov ou Kaganovich. Pode ser uma explicação simplista, mas não desprovida de verdade, para explicar o sucesso da ascensão de Stalin ao poder absoluto na União Soviética.

27 agosto 2009

MÚSICAS MISTERIOSAS

Houve uma época, já faz muito tempo, em que as notas espanholas de 100 pesetas eram decoradas com a efígie de um senhor de aspecto esquisito (acima). Com uma cabeça redonda e enorme para o pescoço que a sustentava, parecendo um pássaro ou – imagem que só me veio a ocorrer posteriormente – um extraterrestre, descobri depois que o senhor se chamava Manuel de Falla (1876-1946), era um compositor famoso e que a sua obra mais conhecida era uma peça musical chamada Dança Ritual do Fogo.
Como peça musical, a Dança Ritual do Fogo (acima) parece conter um característico travo misterioso daquela magia de origens populares, das bruxas e videntes que instintivamente sempre provocaram a nossa curiosidade. Não será precisamente isso, mas será algo de muito parecido, igualmente misterioso e popular, que caracteriza por sua vez uma outra peça musical também muito conhecida que se chama a Dança do Sabre (abaixo), da autoria do compositor arménio Aram Khachaturian (1903-1978).

Manuel de Falla e Aram Khachaturian, embora tornados compositores consagrados, foram também dois desiludidos políticos: o primeiro, apesar de incensado pelo regime vencedor, veio a abandonar a Espanha em 1939 depois da vitória das forças nacionalistas de Franco na Guerra Civil (1936-39) e o segundo, que fora um entusiasmado militante comunista na sua juventude, viu-se mais tarde (1948) na contingência de ter de pedir desculpas públicas pelo carácter burguês e antipopular das suas composições…