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27 março 2024

UM REVÉS DE PROPAGANDA QUE ERA SOBRETUDO O REQUIEM DOS CAÇAS FURTIVOS F-117

(Republicação)
27 de Março de 1999. Ao terceiro dia da ofensiva aérea da NATO sobre a Sérvia, estes últimos conseguem um grande golpe de propaganda ao abater um F-117 da USAF, um tipo de aparelho que fora desde sempre muito gabado pela propaganda de guerra dos Estados Unidos, por causa da capacidade do avião em causa em permanecer invisível aos radares inimigos. A reputação do aparelho virava-se agora contra a propaganda dos seus construtores, ampliando o feito dos militares sérvios. A ironia de toda esta história, como os acontecimentos posteriores virão a comprovar e como eu já expliquei, aliás, aqui no Herdeiro de Aécio, é que o F-117 fora, desde o início, um projecto - o do avião invisível aos radares - conceptualmente mais do que duvidoso. Para os críticos, uma aeronave concebida para voar sobre território inimigo não podia assentar todos os seus meios de defesa na sua condição de furtiva: estaria à mercê de que um qualquer desenvolvimento tecnológico inesperado tornasse o aparelho obsoleto. É que a obsolescência de um F-117 não se comparava à de um outro aparelho equivalente do arsenal da USAF: por causa do material em que era construído, propositadamente destinado a absorver as ondas de radar, um F-117 era extremamente caro, custava o triplo de um F-16, o aparelho de combate mais comum dessa mesma geração. A reacção dos defensores do F-117 às críticas consistiu em montar uma gigantesca operação de relações públicas militares à volta do aparelho. Foi o único aparelho de combate do arsenal dos Estados Unidos que foi promovido com uma campanha teaser: foi colocado ao serviço em segredo (1983), embora não fosse secreto que era segredo... Só em 1988 é que se tornou oficial a sua existência. E quando da Guerra do Golfo (1991) as proezas das operações realizadas por aquele tipo de aparelho tinha direito a um tratamento diferenciado. Os Estados Unidos e os restantes países que englobavam a coligação empregavam uma dúzia, senão mais, de aviões diferentes (F-14, F-15, F-16, F/A-18, B-52 - e isto apenas entre os aparelhos de origem norte-americana), mas as missões protagonizadas pelos F-117 eram objecto de um carinho noticioso que fazia lembrar o destaque que se dedica às proezas de um hipotético irmão deficiente quando em comparação com as dos irmãos saudáveis.
O significado militar do abate do F-117 de há precisamente vinte e cinco anos é que o bluff fora descoberto... E, paradoxalmente, nem fora preciso qualquer avanço tecnológico. O que foi preciso foi colocar o F-117 em combate contra um inimigo tecnologicamente qualificado, o que objectivamente não acontecera até aí. Os operadores sérvios dos misseis anti-aéreos SA-3 só se limitaram a estudar as possibilidades do equipamento de radar que tinham à sua disposição. Tratava-se de uma tecnologia - soviética - que já tinha mais de 25 anos de serviço, mas que eles usaram de uma forma imaginativa (usando um dos limites do espectro do radar) por forma a obter uma vaga imagem daquilo que supostamente seria invisível. A carcaça do avião derrubado falava por si, quanto ao sucesso do expediente. Havendo um revés óbvio (veja-se o cartaz de propaganda dos sérvios), havia contudo um revés que ainda podia ser ocultado da opinião pública. Será desnecessário acrescentar que os F-117 desapareceram imediatamente da ordem de batalha sobre os céus da Sérvia!... Os F-117 só podiam operar, por muito furtivamente que fosse, em situações de superioridade aérea absoluta. O que é um contra-senso: se a superioridade aérea é absoluta, não precisa de ser furtiva. Mas a renúncia a um fiasco também pode ser bem encenada: deram-lhe mais dez anos de vida útil, o F-117 só foi oficialmente retirado do activo em 2009, depois de 26 anos de serviço. Parece razoável, se não levarmos em consideração que aparelhos equivalentes como o F-15, o F-16 e o F/A-18 são mais antigos do que o F-117 e continuam no serviço activo mais de quarenta anos depois da sua introdução. O que é engraçado é que, como avião, o F-117 veio a revelar-se uma aeronave carismática e misteriosa, cheia de admiradores, que imaginam fantasias a seu respeito. Mas como máquina de guerra foi, desde o princípio, um fiasco, como os documentos desclassificados pelo tempo entretanto decorrido vieram comprovar: há meia dúzia de anos soube-se que em 1986 os Estados Unidos quiseram vender alguns F-117 ao Reino Unido, que não os quiseram. (Quando a aldrabice posta a circular nesse tempo era que o F-117 continha tecnologias tão secretas que os Estados Unidos não as queriam compartilhar com mais ninguém... - a verdade é que ninguém de juízo queria operar aquele fiasco anunciado)

29 maio 2023

O CONCURSO DE «MISS SARAVEJO CERCADA»

29 de Maio de 1993. Tem lugar em Saravejo, capital da Bósnia, cercada pelo exército sérvio, um concurso de beleza sui-generis, intitulado «Miss Saravejo cercada». Na cerimónia final de consagração da rainha de beleza, uma jovem de 17 anos chamada Inela Nogić, em vez da coroa, ceptro e faixa, que são tradicionais na ocasião, foi exibida a faixa que se vê acima, onde se lê, em inglês, «Não os deixem matar-nos», referindo-se aos contínuos bombardeamentos de artilharia do exército sérvio que cercava a cidade há 14 meses. Embora noticiado na época, o episódio só veio a receber uma verdadeira promoção mundial dali por dois anos, por causa de uma canção intitulada Miss Saravejo juntando as interpretações de Bono (dos U2) e de Luciano Pavarotti. Mas as últimas palavras deste poste guardo-as para a própria Inela e para a honestidade da sua resposta quando perguntada acerca da canção que a celebrizou:

16 abril 2023

A APROVAÇÃO DA RESOLUÇÃO 819 DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

16 de Abril de 1993. O Conselho de Segurança da ONU aprova por unanimidade dos seus 15 membros (entre os quais se contam dois países de expressão portuguesa, Brasil e Cabo Verde) a sua resolução 819. Nela se reafirmam resoluções prévias sobre o mesmo tema, e o Conselho expressa a sua preocupação com as acções das unidades paramilitares sérvias nas cidades e vilas do Leste da Bósnia-Herzegovina, incluindo ataques a civis, às forças de das Nações Unidas e à interrupção de comboios de ajuda humanitária. Apesar da assertividade da redacção do texto, a falta de meios e de atitude das tropas de interposição no terreno para intimidarem uma das facções (precisamente as unidades paramilitares sérvias), veio a resultar no massacre de mais 8.000 pessoas em Srebrenica em Julho de 1995. Foi uma grande lição de modéstia para aquela bolha de diplomatas que vive na ilusão de que a diplomacia é um fim e não apenas um meio. Afinal, quando os agentes de mediação não tem meios de intimidar as partes desavindas, o mais prudente é estarem quietos e pouparem-se a fazer figura de parvos.

12 março 2023

O ASSASSINATO DO PRIMEIRO MINISTRO SÉRVIO

12 de Março de 2003. O primeiro-ministro da Sérvia, Zoran Đinđić é assassinato a tiro por um atirador emboscado que aguardava a sua chegada à sede do governo em Belgrado. Apesar da sua entrada por uma porta discreta (veja-se o desenho abaixo), um único tiro de precisão de uma G-3 a 180 metros acertou-lhe no coração e causou-lhe morte imediata. À frente do governo sérvio desde há dois anos, Zoran Đinđić havia criado imensos inimigos domésticos devido às suas iniciativas para desmontar o aparelho que se formara naquele país durante o extenso período de governo (1991-2000) do seu antecessor, Slobodan Milošević, que ele entretanto prendera e extraditara para ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia. Uma parte desse aparelho tornara-se entretanto clandestino e já por outras vezes, Đinđić fora alvo de atentados contra a sua vida. Uma das ironias finais deste episódio é que Đinđić tinha uma reunião marcada com Anna Lindh, a ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, que virá a ser assassinada - e por um sueco de ascendência sérvia! - dali por seis meses.

17 fevereiro 2023

A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»

A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos  países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.

06 abril 2022

O INÍCIO DA GUERRA DA BÓSNIA

6 de Abril de 1992. Início da Guerra da Bósnia, um conflito que se irá arrastar por três anos e meio envolvendo três beligerantes combatendo-se entre si - Bósnios (muçulmanos), Sérvios (cristãos ortodoxos) e Croatas (cristãos católicos). As referências religiosas são muito importantes para a identidade de cada grupo já que todos eles se exprimem num idioma mutuamente inteligível. O vídeo acima mostra a evolução das frentes de batalha. Há alguns aspectos semelhantes entre este conflito e a invasão russa da Ucrânia.

12 fevereiro 2022

O INÍCIO DO JULGAMENTO DE SLOBODAN MILOSĚVIĆ

Haia, Países Baixos, 12 de Fevereiro de 2002. Início do julgamento de Slobodan Milošević. O antigo presidente da Sérvia e da Jugoslávia e réu comparece em tribunal acusado de: genocídio; cumplicidade em genocídio; deportação; assassinato; perseguições por motivos políticos, raciais e religiosos; actos desumanos e transferência forçada; extermínio; prisão; tortura; assassinato intencional; confinamento ilegal; causador intencional de grande sofrimento; deportação ou transferência ilegal; destruição extensa e apropriação de propriedade, não justificada por qualquer necessidade militar e realizada de forma ilegal e arbitrária; tratamento cruel; saque de propriedade pública e/ou privada; ataques a civis; destruição ou dano intencional a monumentos históricos e instituições dedicadas à educação ou religião; ataques ilegais a bens civis. A acusação desenrolar-se-á de acordo com a extensão de todas estas acusações que acima se podem ler e, como se imagina, tomará dois anos a concluir-se, depois do tribunal ouvir 295 testemunhas e de terem sido apresentadas mais de 5.000 provas. Por um princípio de equilíbrio, foi concedida à defesa um período de tempo idêntico para a sua tarefa. Não surpreende por isso saber que, mais de quatro anos depois, a 11 de Março de 2006, e quando ainda decorria o julgamento, o tribunal foi surpreendido pela morte súbita do réu, de ataque cardíaco. Foi um completo anti-clímax. Tantos cuidados se puseram no formalismo do funcionamento do tribunal que se perdeu completamente de vista a sua funcionalidade e o o objectivo do julgamento. Os factos haviam ocorrido primordialmente com a dissolução da Jugoslávia, que ocorrera em 1991, ou seja 15 anos antes... Uma efeméride para constatar que não é só por cá que este fenómeno acontece, nos casos de José Sócrates, Ricardo Salgado, etc., que, quando forem julgados, já as pessoas se esqueceram do porquê. 

01 dezembro 2021

O FIM DA «PRIMAVERA CROATA»

1 de Dezembro de 1971. Numa reunião alargada das cúpulas dirigentes da Liga dos Comunistas da Jugoslávia, realizada propositadamente na recatada Quinta de Karađorđevo (Voivodina), o presidente Tito põe fim a (mais) um daqueles desvios ideológicos que caracterizavam os países comunistas da Europa oriental do período da Guerra-Fria. Só que, como neste caso se tratava da frágil Jugoslávia, a questão das ideologias misturava-se com a dos nacionalismos. Ali, as aberturas da «Primavera» local haviam-se exprimido sobretudo na Croácia e haviam-se concretizado em maiores grau de autonomia para Zagreb, tanto no plano financeiro, quanto cultural. O problema é que as concessões de Belgrado pareciam ter desencadeado uma dinâmica reivindicativa - greve de 30.000 estudantes universitários - a que urgia pôr cobro. Significativamente, sabe-se hoje que Tito sinalizou previamente tanto Washington quanto Moscovo que o ia fazer. Esta reunião de Karađorđevo de há 50 anos serviu para purgar as cúpulas comunistas na Croácia e para dar "carta branca" aos novos empossados para reprimir os protestos em curso e os que inevitavelmente se seguiriam. A 2 de Dezembro, Tito (que era, ele próprio, um croata) anunciou as medidas adoptadas num discurso transmitido para toda a Jugoslávia. Contudo e paradoxalmente, considerando a ressonância mediática internacional que costumavam ter estas crises existenciais dos países comunistas, neste caso concreto da Jugoslávia os acontecimentos passaram quase completamente desapercebidos. Assim como a repressão que se seguiu. Por exemplo, esta notícia do Diário de Lisboa de então, é a primeira que esse jornal dedicou ao assunto, e isso aconteceu apenas em 13 de Dezembro de 1971, quase duas semanas depois dos factos aqui evocados. Considerada a sua posição neutral entre os dois blocos, a Jugoslávia era tratada a Ocidente como uma ditadura comunista, mas bastante fofinha.

07 outubro 2021

O BOMBARDEAMENTO DE BANSKI DVORI

7 de Outubro de 1991. Começando por explicar em que consiste o alvo bombardeado, Banski dvori é um grande edifício histórico no centro de Zagreb, a capital da Croácia. Edificado nos primórdios do século XIX, o edifício fora, de 1809 a 1918, a residência oficial dos vice-reis da Croácia durante os tempos do império Austríaco e Austro-Húngaro. Mesmo depois de a Croácia ter passado a integrar a Jugoslávia, o Banski dvori continuava a ser um dos edifícios simbólicos da identidade nacional croata e, por isso, naqueles tempos atribulados de 1991 que assistiam ao desmembramento da Jugoslávia, foi o local escolhido por Franjo Tudjman para ali se instalar como primeiro presidente da nova República secessionista da Croácia. Quanto à data, 7 de Outubro de 1991 era a véspera do fim do prazo de uma moratória que havia sido negociada diplomaticamente para que se suspendessem as iniciativas para a concretização da independência croata. Franjo Tudjman, o presidente da nova Croácia, encontrava-se no edifício em conversações com o presidente da antiga Jugoslávia, Stjepan Mesić que, por acaso e pela ironia das regras do rotativismo obrigatório dos cargos na Jugoslávia, era também croata. Para os sérvios, defensores da manutenção da federação, e como se diria em linguagem de futebol, o árbitro estava comprado... E terá sido por isso que entre os militares sérvios mais extremistas se lembraram da ideia de promover um raid aéreo selectivo para os liquidar aos dois enquanto estavam em negociações. Quando os quatro aviões atingiram Zagreb, cerca das 3 da tarde, já os dois visados haviam abandonado o edifício há alguns minutos, depois de um almoço de trabalho. O ataque causou um morto e imensos estragos materiais (compare-se a fotografia do pátio interior acima com o esquema do edifício abaixo). O edifício só veio a ser recuperado quatro anos depois. Actualmente constitui a sede do governo croata. A operação foi, para Belgrado, um fiasco militar mas, ao entregar o papel de vítimas a Zagreb diante da comunidade internacional, foi um decisivo desastre político. A Croácia proclamou a sua independência no dia seguinte, com a benção de todas as potências - incluindo uma relutante (e ainda existente) União Soviética, que à última hora havia tentado anular a iniciativa sérvia.

29 junho 2021

O ALARMISMO DE UMA GUERRA COMO A DA COREIA, MAS NA EUROPA

29 de Junho de 1951. No jornal desse dia, mesmo ao lado das notícias a respeito da guerra da Coreia, cujo ritmo das operações militares se havia acalmado substancialmente, quando ela completara um ano, surgia um outro grito de alarme, este oriundo de Belgrado, a capital da Jugoslávia, anunciando uma pretensa concentração de tropas soviéticas nas suas fronteiras, naquilo que os jugoslavos de Tito pretenderiam que passasse por uma analogia com a invasão norte-coreana que ocorrera no ano anterior, e que fora a causa do conflito coreano. As duas notícias oriundas de Belgrado apresentam-se encadeadas de tal forma que as intenções dos jugoslavos se mostram límpidas: «O pedido da Jugoslávia aos Estados Unidos para fornecimento de armas». Adiante-se que o pedido jugoslavo vai ser satisfeito e que os Estados Unidos irão realmente fornecer material de guerra à Jugoslávia, apesar de se tratar de um país assumidamente comunista! Na fase que aqui estamos a cobrir, o fornecimento mais importante será o de 150 caças-bombardeiros P-47 Thunderbolt, que se podem ver nas duas fotografias abaixo, voando em formação à época, e exposto actualmente num Museu do Ar sérvio, com as estrelas vermelhas identificativas da força aérea jugoslava .

07 abril 2021

O «EMBAIXADOR FERIDO A TIRO»

7 de Abril de 1971. Aquilo que se pode ler na notícia do Diário de Lisboa sobre o que acontecera na embaixada da Jugoslávia em Estocolmo era pouco e era propositadamente vago. Por exemplo, já se sabia (embora a notícia não o mencione) que os «dois terroristas armados com revólveres» eram nacionalistas croatas porque os dois haviam-no proclamado audivelmente em frente às câmaras de televisão quando eram transportados algemados depois de presos (no vídeo abaixo), gritando vivas ao Estado Independente da Croácia e a Ante Pavelić. Pela concisão, notava-se que não houvera muito empenho em desenvolver a notícia. Especular sobre o que motivara a acção. E havia imensos aspectos de interesse. A escolha da embaixada entre as várias que a Jugoslávia possuía na Europa Ocidental não fora acidental: o embaixador, Vladimir Rodović, um montenegrino, era um coronel da polícia política jugoslava e dirigira um campo de concentração de presos políticos. E andava normalmente armado. Ele ainda tentou reagir aos dois assaltantes, mas estes dominaram-no e manietaram-no. Depois executaram-no, no quadro da guerra suja que se travava entre a organização terrorista croata e os serviços secretos jugoslavos. Morreria dali por uma semana. O terrorismo croata era, contudo, um assunto chato de abordar. Em primeiro lugar porque as suas acções visavam destruir a Jugoslávia e com ela, o equilíbrio europeu, e isso não interessava nada. Em segundo lugar porque a organização que promovia esse terrorismo estava historicamente conotada com o fascismo e também não convinha recordar isso. E em terceiro lugar porque o país que dava santuário a essa organização era a Espanha franquista. Além disso, o assunto ocorrera na Suécia, com quem Portugal não mantinha as melhores da relações - apoiavam as organizações nacionalistas africanas das colónias portuguesas - e onde se falava uma língua que ninguém percebia (ouça-se o vídeo abaixo...). Portanto, quanto menos se falasse do assunto, melhor: oito linhas tem a notícia. Os dois terroristas croatas vieram a ser condenados a prisão perpétua, mas depois libertados pouco mais de um ano depois do acontecimento, em Setembro de 1972, na sequência do sequestro de um avião da SAS, organizado mais uma vez pela sua organização.

06 abril 2021

A INVASÃO SIMULTÂNEA DA GRÉCIA E DA JUGOSLÁVIA

6 de Abril de 1941. A Alemanha invade simultaneamente a Jugoslávia e a Grécia. Não se trataria de uma notícia surpreendente, se se atentasse à impaciência da Alemanha com o comportamento pouco conforme à sua hegemonia continental que estava a ser assumido por qualquer daqueles dois países (como aqui já mencionáramos). Mas, mesmo assim, a notícia de mais um alargamento da Segunda Guerra Mundial não deixa de constituir um choque. E, por se tratar de um Domingo, toda a primeira página do Diário de Lisboa é dedicada ao acontecimento. Abaixo, o mapa das operações. Invadida a partir de cinco dos sete países com que a Jugoslávia fazia fronteira (Itália, Áustria, Hungria, Roménia e Bulgária), o país é indefensável nos moldes clássicos da constituição de frentes de combate e cairá rapidamente (pouco mais de uma semana), numa nova reedição da «blitzkrieg». Um pequeno contingente britânico ainda participará em assistência aos gregos, mas o desfecho foi o mesmo: como se pode perceber pelas datas do mapa abaixo, a resistência grega no continente terminará ainda antes do final do mês de Abril.

27 março 2021

O GOLPE DE ESTADO NA JUGOSLÁVIA

Depois de dois dias antes ter assinado a sua adesão ao Pacto Tripartido e de se ter alinhado com a Alemanha, o governo da Jugoslávia é derrubado por um golpe de Estado, protagonizado por militares de pendor pró-britânico (relembremos que o aliado tradicional da Sérvia, a Rússia, nesses tempos ainda era aliado da Alemanha...). O país torna a esgaçar-se, dividido entre duas condutas possíveis para se conduzir entre os meandros cada vez mais complexos da situação política balcânica. Prova de que os grandes feitos da História dependem sempre e muito das circunstâncias, até mesmo Salazar, se estivesse em Belgrado, não teria conseguido preservar a neutralidade jugoslava.

25 março 2021

A JUGOSLÁVIA ADERE AO PACTO TRIPARTIDO

25 de Março de 1941. Depois de fortemente pressionado, tanto por Berlim como por Londres, o governo jugoslavo lá se decidiu a aderir ao Pacto Tripartido. A cerimónia de assinatura realizou-se em Viena e contou com a presença do próprio Adolf Hitler. Parecia a decisão final - mas não era! - do jogo de alianças em que Belgrado se vira envolvida, contra vontade própria.

01 março 2021

O RECENSEAMENTO NA JUGOSLÁVIA

1 de Março de 1971. Num artigo originário do jornal parisiense Le Monde (mas assinado por um autor com um apelido de nítida ressonância sérvia - Yankovic), podiam ler-se os complexos problemas que se levantavam por causa da realização do próximo recenseamento na Jugoslávia. «Contrariamente ao que, em geral, se pensa no estrangeiro, a Jugoslávia socialista e federal não é o país dos jugoslavos. (...) Dentro do país (e a lei é precisa a esse respeito) pertence quer a um dos povos de uma República Federal, quer a uma das minorias nacionais... ou então não tem nacionalidade.» Os povos, prosseguia, eram seis («sérvios, croatas, eslovenos, macedónios, montenegrinos e muçulmanos») e as minorias nacionais eram «numerosas» («albaneses, húngaros, eslovacos, turcos, italianos, romenos, checos , búlgaros, etc»). O artigo prolongava-se e ia acabar numa outra página mais adiante. Era um daqueles artigos só mesmo para interessados por minudências da composição étnica de países estrangeiros. Era assim que há cinquenta anos era considerada a heterogeneidade da Jugoslávia de Tito: um detalhe da ordem internacional. Vinte anos depois, quando as circunstâncias envolventes se alteraram e acabou a Guerra Fria, deu para perceber que não era bem assim: o problema havia estado apenas dormente.

14 dezembro 2020

A RATIFICAÇÃO FORMAL DO FIM DA JUGOSLÁVIA

14 de Dezembro de 1995. Assinatura formal em Paris, por parte dos presidentes da (da esquerda para a direita) Sérvia, Bósnia e Croácia, dos denominados Acordos de Dayton. Por um lado, é um acordo de cessar-fogo e o fim das intenções de qualquer das partes signatárias em continuar a rectificar as fronteiras já demarcadas a tiro. Por outro, mais significativo, é o dobre de finados de uma ideia do início do século XX de juntar os eslavos da região num mesmo país, qual versão sucedânea, reduzida e mais homogénea do antigo império Austro-Húngaro. Como o predecessor, também a Jugoslávia se revelou uma construção política que não sobreviveria às (novas) circunstâncias.

11 julho 2020

O MASSACRE DE SREBRENICA

11 de Julho de 1995. É a data em que se considera que terá começado o massacre dos prisioneiros (mas também civis) bósnios que as tropas sérvias haviam capturado por ocasião da conquista da pequena povoação de Srebrenica, que tivera lugar alguns dias antes. Não me interessa contar aqui o que aconteceu, apenas as lições que se podem extrair do que aconteceu. No final da guerra, mais de 8.000 corpos serão exumados de valas comuns e uns 6.000 serão identificados, constando os seus nomes de um memorial (fotografia acima). Se a História tiver servido para ensinar alguma coisa aos vindouros, deste (verdadeiro) Massacre, ocorrido há 25 anos, pode concluir-se:

a) Que os militares sérvios eram comandados não apenas por criminosos, mas por criminosos imbecis que nunca conseguiram explicar qual a vantagem militar ou outra de assassinar 8.000 pessoas naquelas circunstâncias; contudo, o enorme preço político que a Sérvia paga até hoje é que os sérvios são considerados internacionalmente como os nazis maus de um conflito (a cisão da Jugoslávia) que não foram eles a desencadear, nem teve inocentes;

b) Que, quando as coisas se põem feias, é que se percebeu que as forças de interposição da ONU - os conhecidos capacetes azuis - estão lá apenas para enfeitar: a vergonha recaiu especificamente sobre os holandeses, que eram os que estavam em Srebrenica e que foram as testemunhas passivas do que aconteceu, mas o Massacre serviu como uma parada de poker em que alguém paga para ver, e se vem a descobrir que não há nenhum contingente daquelas tropas que se disponha a sofrer baixas por causas altruistas;

c) Que para os padrões da nossa simpatia solidária, ele há vítimas... e vítimas. Este caso dos bósnios muçulmanos é de escalão intermediário - são caucasianos (um ponto a favor), mas não professam a melhor das religiões. Um pormenor engraçado é aquele que destaca o facto de nas tropas sérvias se contarem algumas centenas de voluntários russos, extremistas ortodoxos, ao mesmo tempo que se esquece o facto de que havia também algumas centenas de gregos nas mesmas condições. Afinal a Rússia ainda é um inimigo tradicional do Ocidente, enquanto a Grécia faz parte da NATO e da União Europeia.

02 dezembro 2018

A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA

1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

21 julho 2018

A PRISÃO DE RADOVAN KARADZIC

21 de Julho de 2008. Depois de ter desaparecido em 1995, as autoridades sérvias anunciam a captura do antigo dirigente da comunidade sérvia da Bósnia, Radovan Karadžić. O foragido de treze anos, sobre o qual pendiam graves acusações por crimes de guerra e genocídio formuladas pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia, vivia em Belgrado, com uma falsa identidade e uma aparência retocada (acima). A protecção passiva de uma dúzia de anos de que gozara, por parte dessas mesmas autoridades sérvias que agora anunciavam a sua captura, só terá desaparecido quando estas se terão apercebido que o arrastamento da situação apenas estaria a penalizar a aceitação da Sérvia entre a comunidade internacional. O julgamento de Karadžić, repleto de incidentes causados pelo réu, demorou quase oito anos. Conclui-se em Março de 2016 com a sua condenação a 40 anos de prisão (abaixo). Também vale a pena contar as histórias em que os culpados pagam pelos seus crimes.