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18 agosto 2019

OS COMUNISTAS NÃO SÃO TODOS IGUAIS: HÁ UNS QUE SÃO MENOS IGUAIS QUE OS OUTROS

18 de Agosto de 1949. A edição do Diário de Lisboa desse dia dava uma atenção inesperada à Jugoslávia, país que ficara do lado de lá da Cortina de Ferro aquando da divisão da Europa em 1945, mas que por vezes mostravas assomos de uma independência que levava o Ocidente a questionar o formato do cortinado. A edição de há 70 anos colocava a hipótese de Estaline invadir a Jugoslávia, fruto da crescente tensão registada entre a União Soviética e aquele país, liderado por Tito. Por outro lado, numa página interior, assinalava-se a intenção dos Estados Unidos fornecer os materiais para a edificação de uma siderurgia, o aconteceria por uma primeira vez no caso de um país situado do outro lado. Para o leitor comum de um jornal português, submetido à propaganda dominante, a imagem era clara: que os comunistas não eram todos iguais, que, numa adaptação da imorredoura expressão de Orwell, havia uns que eram menos iguais que os outros.

27 março 2019

UM REVÉS DE PROPAGANDA QUE ERA SOBRETUDO O REQUIEM DOS CAÇAS FURTIVOS F-117


27 de Março de 1999. Ao terceiro dia da ofensiva aérea da NATO sobre a Sérvia, estes últimos conseguem um grande golpe de propaganda ao abater um F-117 da USAF, um tipo de aparelho que fora desde sempre muito gabado pela propaganda de guerra dos Estados Unidos, por causa da capacidade do avião em causa em permanecer invisível aos radares inimigos. A reputação do aparelho virava-se agora contra os construtores, potenciando o feito dos militares sérvios. A ironia de toda esta história, como os acontecimentos posteriores virão a comprovar e como eu já expliquei, aliás, aqui no Herdeiro de Aécio, é que o F-117 fora, desde o início, um projecto - o do avião invisível aos radares - conceptualmente mais do que duvidoso. Para os críticos, uma aeronave concebida para voar sobre território inimigo não podia assentar todos os seus meios de defesa na sua condição de furtiva: estaria à mercê de que um qualquer desenvolvimento tecnológico inesperado tornasse o aparelho obsoleto. É que a obsolescência de um F-117 não se comparava à de um outro aparelho equivalente do arsenal da USAF: por causa do material em que era construído, propositadamente destinado a absorver as ondas de radar, um F-117 era extremamente caro, custava o triplo do F-16, o aparelho de combate mais comum dessa mesma geração. A reacção dos defensores do F-117 às críticas consistiu em montar uma operação de relações públicas militares à volta do aparelho. Foi o único aparelho de combate do arsenal dos Estados Unidos que foi promovido com uma campanha teaser: foi colocado ao serviço em segredo (1983), embora não fosse secreto que era segredo... Só em 1988 é que se tornou oficial a sua existência. E quando da Guerra do Golfo (1991) as proezas das operações realizadas por aquele tipo de aparelho tinha direito a um tratamento diferenciado. Os Estados Unidos e os restantes países que englobavam a coligação empregavam uma dúzia, senão mais, de aviões diferentes (F-14, F-15, F-16, F/A-18, B-52 - e isto apenas entre os norte-americanos), mas as missões protagonizadas pelos F-117 eram objecto de um carinho noticioso que fazia lembrar o destaque que se dedica às proezas de um hipotético irmão deficiente quando em comparação com as dos irmãos saudáveis.
O significado militar do abate do F-117 de há precisamente vinte anos é que o bluff foi descoberto. E, paradoxalmente, nem foi preciso qualquer avanço tecnológico. O que foi preciso foi colocar o F-117 em combate contra um inimigo tecnologicamente qualificado, o que objectivamente não acontecera até aí. Os operadores sérvios dos misseis anti-aéreos SA-3 só se limitaram a estudar as possibilidades do equipamento de radar que tinham à sua disposição. Tratava-se de uma tecnologia - soviética - com mais de 25 anos de serviço, mas que eles usaram de uma forma imaginativa (usando um dos limites do espectro do radar) por forma a obter uma vaga imagem daquilo que supostamente era invisível. A carcaça do avião derrubado falava por si, quanto ao sucesso do expediente. Havendo um revés óbvio (veja-se o cartaz de propaganda dos sérvios), havia contudo um revés que ainda podia ser ocultado da opinião pública. Será desnecessário acrescentar que os F-117 desapareceram imediatamente da ordem de batalha sobre a Sérvia. Os F-117 só podiam operar, por muito furtivamente que fosse, em situações de superioridade aérea absoluta. O que é um contra-senso: se a superioridade aérea é absoluta, não precisa de ser furtiva. Mas a renúncia a um fiasco também pode ser bem encenada: deram-lhe mais dez anos de vida útil, o F-117 só foi oficialmente retirado do activo em 2009, depois de 26 anos de serviço. Parece razoável, se não levarmos em consideração que aparelhos equivalentes como o F-15, o F-16 e o F/A-18 são mais antigos do que o F-117 e continuam no serviço activo mais de quarenta anos depois da sua introdução. O que é engraçado é que, como avião, o F-117 veio a revelar-se uma aeronave carismática e misteriosa, cheia de admiradores, que imaginam fantasias a seu respeito. Mas como máquina de guerra foi, desde o princípio, um fiasco, como os documentos desclassificados pelo tempo entretanto transcorrido vieram comprovar: o ano passado soube-se que em 1986 os Estados Unidos quiseram vender alguns F-117 ao Reino Unido, que não os quiseram. (Quando a versão popular posta a circular nesse tempo era que o F-117 continha tecnologias tão secretas que os Estados Unidos não as compartilhavam com mais ninguém...)

02 dezembro 2018

A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA

1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

21 julho 2018

A PRISÃO DE RADOVAN KARADZIC

21 de Julho de 2008. Depois de ter desaparecido em 1995, as autoridades sérvias anunciam a captura do antigo dirigente da comunidade sérvia da Bósnia, Radovan Karadžić. O foragido de treze anos, sobre o qual pendiam graves acusações por crimes de guerra e genocídio formuladas pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia, vivia em Belgrado, com uma falsa identidade e uma aparência retocada (acima). A protecção passiva de uma dúzia de anos de que gozara, por parte dessas mesmas autoridades sérvias que agora anunciavam a sua captura, só terá desaparecido quando estas se terão apercebido que o arrastamento da situação apenas estaria a penalizar a aceitação da Sérvia entre a comunidade internacional. O julgamento de Karadžić, repleto de incidentes causados pelo réu, demorou quase oito anos. Conclui-se em Março de 2016 com a sua condenação a 40 anos de prisão (abaixo). Também vale a pena contar as histórias em que os culpados pagam pelos seus crimes.

09 junho 2018

DEPOIS DO MAIO DE 68 EM PARIS... O JUNHO DE 68 EM BELGRADO

9 de Junho de 1968. Se as ondas de choque daquilo que acontecera em França se espalhara pela população estudantil de toda a Europa, países houve em que esse impacto se tornou mais efectivo como foi o caso da (então unida) Jugoslávia. A 2 de Junho de 1968 (já os acontecimentos em França estavam na sua fase descendente) e por um motivo perfeitamente pueril, a falta de bilhetes para um espectáculo teatral, produzira-se uma reedição em Belgrado do encadeado quotidiano de protestos estudantis e de enfrentamentos nas ruas dos estudantes com a polícia, à boa maneira das imagens do Quartier Latin que haviam corrido mundo. Depois os protestos haviam-se propagado de Belgrado às outras capitais jugoslavas, Zagreb, Sarajevo e Ljubljana, demonstrando-se o quanto a contestação era transversal às várias nacionalidades. Para além da França, outra fonte de inspiração dos manifestantes era a Checoslováquia e as reformas que ali se ensaiavam no monolítico regime comunista vigente, a denominada Primavera de Praga. A ameaça pairava mas, ao contrário de de Gaulle, Tito não foi apanhado desprevenido e, apesar dos seus 76 anos, não vacilou. Há precisamente 50 anos, era Domingo e a contestação tinha começado há precisamente uma semana, quando Tito apareceu na televisão com um discurso em que atribuía condescendentemente alguma razão aos estudantes enquanto lhes anunciava várias concessões (mesmo sem perceber o servo-croata, a linguagem corporal de Tito no tal discurso no vídeo abaixo mostra isso mesmo - e dá vontade de rir ouvi-lo a justificar o apartamento dos estudantes da actividade política, quando por cá os comunistas tinham organizações como a UEC...). A contestação estudantil na Jugoslávia perdeu gás, foi dominada e ficou esquecida, tirando aqueles que o poder considerou os cabecilhas e que foram depois discretamente apanhados (e sancionados) um a um. É o género de episódio que raramente aparece evocado e há várias razões para tal, embora nem todas sejam transparentes, uma delas será a cegueira ideológica - por exemplo, não existe uma página em francês na wikipedia evocando o assunto e Deus sabe como os franceses adoram gabar-se da influência que as suas revoluções têm por essa Europa fora... e nesta outra página da wikipedia, o caso da Jugoslávia nem sequer aparece mencionado.

05 abril 2018

O CERCO DE SARAJEVO

5 de Abril de 1992. As forças sérvias davam início ao cerco de Sarajevo, a capital da Bósnia Herzegovina. Fora por causa de um assassinato que ali ocorrera que começou a Primeira Guerra Mundial. Mas aprendera-se a lição, não seria pelo que ali se passará que as potências se envolveriam em nova guerra. Talvez antes pelo contrário. O cerco ir-se-á manter por quase quatro anos, até 29 de Fevereiro de 1996. Os combates nunca alcançarão grande intensidade - como em Leninegrado, não era intenção dos sitiantes conquistar a cidade, apenas pressionar as autoridades bosníacas - mas, mesmo assim, no fim, o número de mortos superará os 11.000. Isto aconteceu há 26 anos, em plena Europa, mas a transição do episódio das Notícias para a História terá falhado algures, pois a Memória que deixou é surpreendentemente fraca. Nada a permite comparar nas evocações e apenas para exemplo, com o início de outro cerco célebre, o de Constantinopla que também começou neste dia, mas de há 565 anos (1453). Para quem esteja interessado em saber mais sobre o que aconteceu em Sarajevo, existe este documentário que passou na RTP.

09 outubro 2017

O ASSASSINATO (EM FRANÇA) DO REI ALEXANDRE DA JUGOSLÁVIA


9 de Outubro de 1934. Nesse dia começaria a visita oficial que o rei Alexandre da Jugoslávia iria realizar a França. Recorde-se quanto há 83 anos estas visitas oficiais de chefes de Estado eram tão mais raras e por isso mais formais. A receber o monarca em Marselha estava o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, o veterano Louis Barthou de 72 anos. A parada que estava prevista para o rei e para Barthou, funcionando como anfitrião, não progrediu muito mais do que 100 metros. Alguém se destacou da multidão gritando «Vive le Roi!» e brandindo um grande ramo de flores que afinal escondia uma pistola Mauser. Com ela, o pistoleiro disparou sobre o motorista e sobre o rei. A viatura imobilizou-se diante de uma das câmaras encarregues de cobrir o acontecimento para as actualidades cinematográficas o que tornou todo o acontecimento no primeiro assassinato de um grande figura a ficar devidamente registado em filme. O próprio momento dos disparos iniciais não chega a ser mostrado, apenas as reacções confusas e descoordenadas que se seguem. Mas os olhos semiabertos e o rosto inexpressivo do rei, tal qual são captados pela câmara, não enganam quanto ao desfecho do atentado. Também o ministro francês ficou ferido na troca de tiros que se seguiu e vemo-lo a ser evacuado para o hospital. Quanto ao assassino, as imagens ainda o mostram a ser levado em muito mau estado pela polícia, depois de uma multidão descontrolada o ter sovado violentamente. Nenhum dos dois irá sobreviver. O último, um búlgaro de 37 anos chamado Vlado Chernozemski, terá morrido após duas horas sob custódia policial, sem ter chegado sequer a ser identificado pelos serviços de segurança franceses. E o ministro Barthou viria a morrer cerca de uma hora depois, em consequência da hemorragia causada pelo ferimento de uma bala que lhe trespassara um braço. No meio deste colossal monumento ao embaraço diplomático e à incompetência da Segurança francesa um pormenor capaz de o encimar dignamente permanecerá guardado durante os próximos 40 anos, a bem do amor próprio gaulês: a balística apurou que a bala que provocara a morte do ministro só pudera sair de uma arma de um dos agentes de segurança...

19 setembro 2016

QUANDO OS PAÍSES MÉDIOS - COMO PORTUGAL - SE MARIMBAM PARA AS DITAS POTÊNCIAS

Em Setembro de 1912 - há 104 anos - as ambições da Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia haviam-se concertado para a formação de uma aliança ofensiva para conquistar o resto dos territórios europeus do império Otomano. No meio dos acordos das chancelarias balcânicas, tudo havia sido feito para contornar as divergências entre os parceiros, nomeadamente o facto de que havia regiões a conquistar que eram cobiçadas por dois e mesmos três parceiros em simultâneo: era o caso da Macedónia, cobiçada por búlgaros, gregos e sérvios. Ainda não cheguei à eclosão da Primeira Guerra Balcânica propriamente dita, que começou a 8 de Outubro, mas o episódio que possui umas estranhas ressonâncias modernas é a tentativa concertada de última hora das capitais das «potências», Paris, São Petersburgo e Viena, em tentar refrear os seus aliados. Que, como a continuação da história demonstraria, se estiveram marimbando para essas tentativas. Em tempos de paz e mesmo se o assunto for a guerra, a influência das ditas potências é muito mais consentida pelos destinatários do que imposta. Foi a propósito disso que eu me lembrei da analogia com as fotografias exibindo Merkel, Hollande e Renzi juntos. Depois da saída do Reino Unido da União Europeia, continuará a existir o directório dos países maiores, mas estas operações de relações públicas já não conseguem esconder que, por exemplo na matéria sensível dos refugiados, a capacidade de influência de Berlim ou Paris sobre polacos ou húngaros é nula. Como a antiga ordem internacional que se desmoronou em 1914, também a que vigorou até agora na União Europeia parece preparar-se para se desagregar.

12 janeiro 2016

HÁ PRECISAMENTE CEM ANOS...

Depois de finalmente derrotado pelas invasões conjugadas da Áustria, Alemanha e Bulgária (setas vermelhas) numa campanha que durara pouco mais de dois meses (entre Outubro e Dezembro de 1915), o exército sérvio - recorde-se que fora nos Balcãs e por causa da defesa da Sérvia que começara a Primeira Guerra Mundial - acabou por retirar para a Albânia (tracejado laranja), país neutral no conflito. Segundo as Leis Internacionais, os combatentes sérvios deveriam ter sido desarmados e deveriam ter permanecido internados na Albânia até ao fim do conflito. Mas não foi propriamente isso que se passou...
A 12 de Janeiro de 1916 começaram os embarques dos cerca de 150.000 soldados sérvios no porto albanês de Durrës (que a Itália ocupara preventivamente no ano anterior...) numa frota de navios fretados por franceses, britânicos e italianos para os transportar (seta laranja) para a ilha grega de Corfu (assinalada a branco), onde seriam reequipados para os reengajar no combate contra as Potências Centrais, pela libertação do seu país ocupado. Vale a pena acrescentar que também a Grécia era então um país neutral, embora as potências aliadas tivessem disposto da ilha ignorando por completo a soberania grega.
Estes são aqueles episódios das grandes guerras que se tornam esquecidos mas não apenas por não terem grande relevância para a sua evolução e desfecho. Esquecem-se e/ou são citados superficialmente porque demonstram o quanto, nessas situação de conflito, os beligerantes tendem a não se preocupar com princípios morais. Só a História do conflito (a ser escrita posteriormente) irá distinguir os atropelos à legalidade de cada uma das partes, evidenciando os praticados pelos vencidos, esquecendo convenientemente - é o caso - os dos vencedores. O Direito Internacional é um conceito tão relativo que chega a ser pertinente perguntar se existe...

28 outubro 2015

UMA OFERTA QUE ATÉ UM REI NÃO DEVIA TER RECUSADO

Já tive oportunidade de escrever uma apreciação aqui no Herdeiro de Aécio a este livro, Os Sonâmbulos. Mas, se regresso a ele, é porque me quero referir a um outro aspecto seu, o seu capítulo inicial que, como expectável, remete para os Balcãs, o berço conhecido dos antagonismos que levaram ao início da Primeira Guerra Mundial, mas onde o autor nos surpreende com a data e o acontecimento. Em vez do canónico assassinato do arquiduqueFrancisco Fernando e de sua mulher em Sarajevo a 28 de Junho de 1914, Christopher Clark remete-nos para a narrativa de um outro assassinato régio anterior, o do rei Alexandre I Obrenovic da Sérvia e de sua mulher Draga (abaixo) que ocorrera em Belgrado a 11 de Junho de 1903. Tinha sido perto das duas da manhã que um grupo de conspiradores formado por 28 oficiais sérvios havia atacado o palácio real, derrotado e desarmado as sentinelas e a guarnição depois de uma intensa mas breve troca de tiros.
As buscas pelo palácio demoraram quase duas horas até os descobrirem um pequeno quarto anexo cuja porta estava coberta por uma tapeçaria suspensa, onde ambos se haviam refugiado. Os conspiradores executaram o casal quase imediatamente depois de descoberto, primeiro a tiro, depois à espadeirada, mutilando os cadáveres (a ilustração abaixo, publicada no Le Petit Journal parisiense de 28 de Junho não é muito rigorosa quanto a esse aspecto...). Simultaneamente, nessa mesma madrugada, outros correligionários seus estiveram activos, assassinando os dois irmãos da rainha, oficiais do exército sérvio como os conspiradores, mas a quem se atribuía ambições de virem a suceder ao cunhado. Assassinados em sua casa foram também o primeiro-ministro Cincar-Markovic e o ministro da Guerra Pavlovic – este com o pormenor macabro de ter sido executado com 25 tiros dentro de uma arca de madeira onde se escondera. O ministro do Interior Todorovic também foi executado, mas foi mal executado – deixaram-no por morto, mas sobreviveu até 1922.
Porque já não é importante para o que quer contar, Christopher Clark não dá qualquer destaque à indignação internacional que estes acontecimentos provocaram. Mas os protestos foram tão abrangentes quanto veementes. Envolveram tanto a Rússia quanto a sua rival Austro-Hungria (que viriam a ser os antagonistas na raiz da Grande Guerra), mas também potências distantes como o Reino Unido. O ostracismo a que foi votado o novo regime sérvio fez com que, em meses, só os gregos e os otomanos estivessem representados ao nível de embaixador presente em Belgrado, numa pressão diplomática muito desconfortável. Mas depois da tempestade veio a bonança da realpolitik. Um novo rei da Sérvia, Pedro I, do clã rival (os Karadjordjevic) foi coroado em Setembro de 1904. E, se esquecermos essas coisas das pomposidades das realezas e dos governos, tudo não passara de um necessário ajuste de contas entre famiglias, mesmo ao jeito das cenas de O Padrinho.

09 outubro 2015

A QUEDA DE BELGRADO

Há precisamente cem anos (9 de Outubro de 1915), três divisões do exército austro-húngaro, complementadas por mais duas do exército alemão, conseguiam finalmente penetrar em Belgrado, a capital da Sérvia, defendida por 16.000 homens e 77 canhões (o equivalente a uma divisão reforçada), na frente de combate que fora a origem do conflito que se transformara depois na Primeira Guerra Mundial.
Sinal do quanto a História pode ser ingrata mesmo para os feitos de armas mais valorosos desde que o desfecho tenha sido a derrota, ninguém, com excepção dos sérvios, realça actualmente o facto da resistência da sua capital ter perdurado por catorze meses, para mais tomando em conta que o território austríaco se situava à distância de um rio, o Danúbio (veja-se a inserção no canto inferior direito do mapa inicial).

17 março 2014

A MEMÓRIA E A COERÊNCIA


Ontem, para além do exaustivamente coberto referendo na Crimeia, tiveram lugar eleições legislativas na Sérvia. As notícias, discretas, dão conta de uma eleição sem história (o PSD local, intitulado SNS obteve uma expressiva maioria de votos e uma maioria absoluta de lugares no parlamento) e sem controvérsias, como se espera que aconteça nos países genuinamente democráticos. Porém, as eleições não tiveram lugar no Kosovo. Em 1999 os Estados Unidos intervieram ali invocando motivos humanitários, arrastando atrás de si a NATO e, aproveitando-se do facto da grande...
...maioria da população kosovar ser albanesa, geriram o processo de secessão do Kosovo da Sérvia até à sua declaração de independência em 2008. Hoje o Kosovo é reconhecido por 108 dos 193 membros da ONU. Ao longo de toda a década em que decorreu o processo os russos sempre foram transparentes na ameaça como invocariam aquele caso como precedente para os casos em que isso lhe viesse a ser conveniente. Foi o que aconteceu ontem na Crimeia. O que fica das reacções indignadas que se ouvem é jornalismo ridículo mesclado de ignorância e facciosismo.

20 julho 2011

SREBRENICA, JULHO DE 1995

A pretexto do anúncio da captura de Goran Hadzic, o último dos grandes criminosos de guerra sérvios que eram reclamados pelo Tribunal Penal Internacional (sedeado em Haia, nos Países Baixos), creio que vale a pena relembrar os acontecimentos de há 16 anos atrás, em Srebrenica, na Bósnia, envolvendo precisamente os sérvios, os bósnios… e também os holandeses. Em Abril de 1993, a Resolução 819 do Conselho de Segurança da ONU fora aprovada por unanimidade, estabelecendo uma zona de segurança em redor de Srebrenica, uma cidade de maioria muçulmana situada no Leste da Bósnia-Herzegovina (abaixo).
Para a verificar e implementar no terreno essa zona de segurança a cidade recebeu então uma guarnição de um batalhão de cerca de 600 capacetes azuis, sob a égide da ONU, uma unidade militar de origem holandesa. Em Julho de 1995, no quadro geral da Guerra Civil que dilacerava as regiões constituintes da antiga Jugoslávia, as forças sérvias da Bósnia sob o comando do General Ratko Mladić invadiram a zona de segurança de Srebrenica neutralizando as unidades holandesas ali destacadas. Cerca de 40.000 civis que aí se haviam refugiado foram expulsos e mais de oito mil homens (militares e civis) foram executados. Por causa desse genocídio, Ratko Mladić (acima) foi considerado um criminoso de guerra, capturado há cerca de dois meses e aguarda a sentença de um julgamento que só recentemente começou. O Mundo ainda não esquecera infelizmente outros episódios do mesmo género desde os que haviam sido perpetrados, por exemplo, pelas SS no decurso da Segunda Guerra Mundial. O que constituiu uma novidade no Massacre de Srebrenica é que ele tivera lugar diante de uma unidade militar que fora destacada, entre várias missões, para impedir que isso mesmo acontecesse – pelo menos, assim fora explicado à opinião pública!
A controvérsia à volta da cumplicidade (por omissão) dos holandeses veio a ultrapassar a da responsabilidade – inequívoca! – dos sérvios bósnios. Correu Mundo uma fotografia em que o comandante holandês, o Tenente-Coronel Thomas Karremans (acima, ao centro) bebia um copo com Mladić (à esquerda). Para se justificarem, os militares holandeses procuraram transferir as responsabilidades para o poder político e para as directivas dele emanadas que lhes limitaram a capacidade de actuação. Na política doméstica ainda vingou essa versão: o 1º Ministro Wilhem Kok demitiu-se em 2002 por causa dessas acusações.
Em termos internacionais e entre os homólogos das outras Forças Armadas, a começar pelos aliados da NATO, o desempenho do exército holandês do Massacre de Srebrenica foi acolhido no meio de um silêncio que teve tanto de cúmplice quanto de eloquente… Se há algo que torne as Forças Armadas dos Países Baixos quase únicas no Mundo é a força negocial das suas associações sócio-profissionais e sindicais (também o pioneirismo na aceitação de homossexuais nas fileiras). Claro que isso terá os seus custos na operacionalidade, a ponto se dizer ironicamente que ali a próxima Guerra não pode começar ao fim-de-semana - não está ninguém no quartel...

14 junho 2009

HEI ESLAVOS!

Hei Eslavos! é uma composição cujo compositor se desconhece, que é conhecida em quase todos os países eslavos da Europa de Leste, embora com letras diferentes, e que veio mesmo a ser adoptada como hino nacional por algumas delas: na Polónia (desde 1926), na Eslováquia independente do período da Segunda Guerra Mundial (de 1939 a 1945), na Jugoslávia do após Guerra (de 1946 a 1991, acima) e na federação da Sérvia com o Montenegro depois disso, até ela se dissolver em 2003.

Embora a nossa condição de latinos não nos torne propensos a emocionarmo-nos com os apelos à liberdade dos eslavos que constam da maioria das letras do hino, os nossos ouvidos, mesmo latinos, não podem evitar que os nossos corações se partam ao ouvirmos esta interpretação infeliz duma banda militar sérvia…

10 fevereiro 2009

F – 117 O FIASCO FURTIVO

Uma produção típica da Guerra-Fria, o F – 117 foi o resultado de um daqueles programas ultra-secretos dos Estados Unidos, cujo objectivo foi o de criar um avião de caça furtivo que, atacando de noite, fosse praticamente impossível de ser detectado pelos radares inimigos. Para o construir, recorreu-se a uma tecnologia que estava então (anos 70) em fase embrionária e que permitia absorver as ondas de radar. O resultado foi o avião que se pode aqui ver, de uma cor preta discreta e um aspecto bizarro.
A contrapartida a pagar pelo resultado eram, não só custos proibitivos de produção (*), como uma enorme lista de limitações para que o F – 117 mantivesse a capacidade de não ser visto pelos radares inimigos: por um lado, não podia atingir grandes velocidades (no máximo 1.000 km/h) mas era extremamente instável quando em baixas; não podia possuir um radar próprio para localizar os alvos senão seria imediatamente identificado, etc. Terá sido por isso que permaneceu um projecto secreto?…
Entre 1983 e 1988 a USAF entregou-se a um interessante jogo, negando a existência de um avião com tais características, excitando a curiosidade pública. Quando foi utilizado pela primeira vez em operações durante a Guerra do Golfo (1991) e, como costuma acontecer quando há um filho deficiente na família, foi dado um destaque desmesurado às proezas realizadas pelos F – 117 (normalmente bombardeamento de alvos) quando em comparação com o desempenho dos outros tipos de aeronaves norte-americanas.
As suas insuficiências só vieram ao de cima quando pela primeira vez teve que enfrentar um inimigo que, para além de equipado, era também qualificado: o exército jugoslavo (1999). É que experimentalmente os jugoslavos vieram a descobrir que usando os seus sistemas de radares soviéticos mesmo obsoletos em comprimentos de onda extra-longos conseguiam detectar a localização do tal avião que fora concebido para não ser detectado… E o F – 117 nem sequer fora concebido para detectar que fora detectado…
Houve apenas um F – 117 a ser abatido sobre a Jugoslávia em Março de 1999. Foi-o até por um míssil terra-ar SA-3 de concepção soviética (acima), um venerável sistema de armamento originalmente concebido em 1963… Mas esse abate bastou para ser o fim de um enorme bluff concebido pela USAF, embora a retirada dos F – 117 do serviço activo se tenha processado com a mesma panache que acompanhara a sua introdução: apenas em Abril de 2008 é que isso finalmente aconteceu (**)...

(*) Cada F - 117 teve um custo de produção unitário três vezes superior ao de um F-16, um outro avião de caça norte-americano seu contemporâneo, que ainda é hoje utilizado pela Força Aérea Portuguesa e pela maioria das Forças Aéreas da NATO.
(**) Enquanto o F - 117 (1983) saía de serviço, outros aparelhos de caça mais antigos continuam ao serviço da USAF, como são os casos do F-15 (1976) ou do F-16 (1978).

29 abril 2008

KOSOVO – O GENERAL QUE NÃO VAI SER CONDECORADO

A TSF deu hoje grande relevo às declarações do Major-General Raul Cunha a respeito da política prosseguida pela União Europeia em relação ao Kosovo. A posição do entrevistado, que é o principal conselheiro militar da Missão da ONU estacionada naquele novo país, é extremamente crítica quanto ao comportamento que tem sido assumido por alguns dos países membros da União Europeia, nomeadamente os maiores países que a constituem.
Posso questionar-me, de forma cínica, que factor poderá estar por detrás da notoriedade dada precisamente nesta altura às opiniões daquele militar português. Tenho contudo de reconhecer que o Major-General não tem guardado as suas opiniões apenas para ele: já na altura da declaração unilateral da independência do Kosovo, em Dezembro de 2007, ele afirmara na SIC-Notícias que considerava o novo país economicamente inviável.
Admito que os interesses da ONU, cuja Missão militar Raul Cunha chefia e defenderá, coincidam apenas nos aspectos mais gerais mas não rigorosamente com os prosseguidos pela União Europeia. Mas a sua denúncia é que estes últimos, enquanto tal, parecem não existir sequer: o que existirá é um somatório de interesses geoestratégicos das maiores potências europeias, que estarão descoordenados e serão até provavelmente concorrentes entre si.
É muito provável que os próceres da integração europeia em Portugal não se mostrem muito interessados em refutar (pelo menos nas mesmas bases concretas...) as críticas produzidas pelo Major-General. Há escolhas de carreira óbvias: ao proferir aquelas declarações, aquele oficial general já deve estar desconfiado que terá prescindido de uma condecoração europeia idêntica à que distinguiu recentemente a emérita jornalista Teresa de Sousa...

21 novembro 2007

SÉRVIOS: DE CARRASCOS A VÍTIMAS?

As políticas externas das potências nunca foram coerentes. Quem se dedicar a buscar contradições entre os seus discursos e as suas práticas, ou a descobrir inconsequências nos argumentos que as suas chancelarias invocam a propósito de cada crise internacional tem tarefa semelhante à de contar grãos de areia numa praia…Mas há potências que são simultaneamente países com uma opinião pública que funciona…

São limitações provocadas pela sua existência que, por exemplo, mantiveram por mais de 30 anos uma enorme contradição entre o discurso e a prática dos países ocidentais quanto ao regime da África do Sul. Nalguns casos, ou certas atitudes são insustentáveis, ou não se pode abusar das incoerências, ou não se pode encadear com demasiada proximidade temporal inflexões radicais nos princípios invocados previamente...

Este preâmbulo justifica-se por causa daquilo que está a acontecer no Kosovo. A vitória dos independentistas nas eleições de Sábado passado e a sua anunciada intenção de proclamarem a independência do Kosovo já no próximo dia 10 de Dezembro arrisca-se a pulverizar toda a teia argumentativa que teve de ser tecida pelas diplomacias naquela região ao longo de mais de dez anos com a intenção de a poder pacificar.

Há que recordar que, no princípio, quando os maus eram os sérvios (que, sendo maus, não eram os únicos maus…) que queriam redesenhar as fronteiras de acordo com a residência das populações, englobando os sérvios que viviam em regiões doutras antigas repúblicas jugoslavas, nomeadamente na Bósnia, as potências acabaram por estabelecer a regra que não se podiam alterar essas fronteiras internas da Federação Jugoslava.

Por isso, se bem se recordam, nos Acordos que encerraram os tempos mais tenebrosos pós- cisão da Jugoslávia, não se falava em autodeterminação dos povos, nem em referendos para que as populações decidissem o seu futuro, como costuma ser a doutrina oficial da ONU nestas ocasiões... Não dava jeito que se aplicasse aos Balcãs: há milhões de sérvios fora das fronteiras da Sérvia que se mostravam desejosos de nela se integrarem…

Com a independência do Montenegro da Sérvia em 2006 a regra da transformação das fronteiras internas da antiga Jugoslávia em fronteiras internacionais foi levada à categoria de axioma: todas as antigas repúblicas federadas da antiga Jugoslávia tornaram-se independentes segundo as fronteiras que possuíam em 1992, independentemente das minorias étnicas que existissem dentro dessas fronteiras.

E é precisamente essa regra de ouro que os albaneses do Kosovo pretendem agora quebrar ao proclamarem a independência, porque o Kosovo era parte da Sérvia jugoslava… Se isso acontece, mudam as regras, passam a valer as nacionalidades, e também os sérvios podem invocar várias regiões adjacentes (nomeadamente na Bósnia) onde as populações locais não se sentem satisfeitas no país a que agora pertencem…

A verdade é que, mudando a metáfora das teias para a da carpintaria, a maioria das soluções dos Balcãs estão presas por arames… Por muito antipática que tenha sido descrita no passado a sua causa, a anuência dos sérvios a jogarem segundo as regras do jogo impostas pela comunidade internacional (as potências das bandeiras lá de cima...) parece não lhes ter propiciado um tratamento justo. E as injustiças sempre foram fenómenos que geraram simpatias nas opiniões públicas…

12 maio 2007

O PAÍS A QUE CHAMAM FYROM

Por anos a fio, e até hoje em alguns casos (a União Europeia é um deles), a obstinação grega obrigou que uma das antigas unidades da federação jugoslava fosse designada pelo acrónimo bizarro de FYROM, que corresponde, em inglês, a Former Yugoslav Republic Of Macedonia (Antiga República Jugoslava Da Macedónia). A objecção grega está associada ao que os gregos consideram a sua posse histórica do nome de Macedónia, desde a Antiguidade e do reino de Filipe e Alexandre. Aliás, imediatamente ao Sul da república que se separou da federação jugoslava, existem três distritos gregos usando esse nome: a Macedónia Central, a Macedónia Ocidental e a Macedónia Oriental e Trácia.

O ministro dos negócios estrangeiros grego, quando enviado a Portugal no princípio do diferendo (1992) para nos conquistar para a sua causa, arranjou uma analogia bastante imbecil, envolvendo-nos com uma Espanha a decompor-se, numa demonstração que o trabalho dos membros da sua Embaixada em Lisboa tinha uma grande margem de progressão… A analogia envolvia a independência da província espanhola da Extremadura e do incómodo que isso nos causaria por causa da semelhança do nome desse país hipotético com a nossa província da Estremadura, que nem sequer lhe fica contígua… E, contudo, com o mesmo uso do hipotético teria sido bem simples e eficaz sensibilizar-nos: se a Andaluzia se separasse de Espanha e adoptasse o nome histórico de Algarve, como nos sentiríamos?...
Politicamente, Macedónia é uma designação cheia de potencial para se transformar numa tremenda trapalhada. Pode ser uma região histórica, sem significado actual, ou pode ser uma região geográfica, passível de ser organizada politicamente das maneiras mais diversas, pode também ser apenas um subgrupo cultural de entre os eslavos dos Balcãs, mas poderá ser uma verdadeira nação separada, será praticamente tudo o que dela quisermos fazer. Ao mesmo tempo, podem-se percorrer os países vizinhos (Sérvia, Bulgária e Grécia) e encontrar ali alguma unanimidade de opiniões em como não existem razões suficientemente válidas para que exista uma identidade macedónia própria que justifique a existência de um país independente.

A argumentação que sustenta a existência de um idioma macedónio autónomo é peça importante para a afirmação da existência de uma nacionalidade macedónia. Todos os idiomas eslavos dos Balcãs se assemelham e as várias formas faladas que se empregam na Macedónia tanto se distinguem entre si como das variantes empregues nas regiões adjacentes dos vizinhos da Sérvia e da Bulgária. Mas as referências usadas no macedónio literário aproximam-no daquelas que caracterizam o búlgaro, embora privilegiem os padrões do búlgaro empregue nas regiões ocidentais da Bulgária, enquanto o próprio búlgaro literário o faz com os padrões da Bulgária oriental, onde se situa Sófia, a capital.

A maioria dos macedónios são cristãos ortodoxos, organizados numa Igreja Ortodoxa Macedónia autónoma que foi recriada (ou criada, conforme as versões…) em 1958. Pôde-se notar o apoio discreto do governo federal jugoslavo na sua fundação e a Igreja Macedónia ainda hoje é proscrita na comunidade das Igrejas Ortodoxas. Existe uma minoria muçulmana, embora haja uma enorme certa complexidade em classificá-la: há os que são de cultura albanesa, outros são classificados como bósnios ou mesmo turcos e há ainda a categoria dos muçulmanos de cultura macedónia. Num exemplo flagrante como os resultados dos censos podem ser trabalhados, o último grupo cresceu de 1.600 pessoas no recenseamento de 1953 para 39.500 no de 1981…
Pelo que ficou escrito nos dois últimos parágrafos deste poste, é fácil perceber a importância da acção do governo jugoslavo do pós-guerra, chefiado por Tito, um croata, na promoção da constituição de uma nacionalidade macedónia distinta que enfraquecesse a Sérvia (a comunidade mais numerosa da Jugoslávia) e assim facilitasse o estabelecimento dos indispensáveis equilíbrios internos entre sérvios e croatas dentro da federação jugoslava. Foi uma manobra superiormente bem feita, porque, para além dessa componente de equilíbrio interno, a criação de uma nação macedónia neutralizou as aspirações da Bulgária que os queria considerar búlgaros além de que a escolha do nome se tornou uma potencial ameaça para a Grécia numa eventual disputa de um acesso para o mar…

Mas toda a beleza maquiavélica da criação da Macedónia assentava no pressuposto que ela continuaria a ser uma das unidades constitutivas de uma federação… Agora que se tornou independente, isolada do mar e rodeada de vizinhos hostis (Albânia, Sérvia, Bulgária e Grécia), a Macedónia é um verdadeiro problema político em potencial para a União Europeia, mais um par de botas balcânico, tipificado naquela proibição formal do país usar o seu próprio nome e na manutenção, ainda hoje, de um Quartel-General da NATO em Skopje, capital da Macedónia, não venha a acontecer qualquer coisa de inesperado…

04 abril 2007

A PEDIDO DE VÁRIAS FAMÍLIAS…

Suspeito que haverá alguns professores maldosos no Brasil que encarregaram os seus alunos de fazer trabalhos sobre as religiões existentes nos territórios que outrora formaram o Império Romano do Oriente. Não exagerarei quando disser que já encontrei pelo menos uma dezena de visitantes que aqui vieram ao blogue à procura especificamente dessa informação. E, em atenção a essas variadas famílias brasileiras aí vai uma pequena história do Império Romano do Oriente e das suas religiões actuais.

Se a história é – como qualquer poste de blogue – necessariamente breve, a duração do Império não o é. O Império Romano do Oriente, que corresponde à metade oriental do Império Romano conforme se observa no primeiro mapa, teve uma duração que superou os 1.000 anos: de 395 d.C. até 1453 d.C. Para os padrões medievais europeus era um estado de uma complexidade e sofisticação muito avançada, assente em três parâmetros identificativos: direito romano, cultura grega e religião cristã ortodoxa.

Mas não começou assim. Ao princípio, logo depois da separação do Ocidente (e da subsequente queda deste) era um verdadeiro Império, aglomerando a heterogeneidade e rivalidade das três grandes regiões que, mesmo assim o compunham, cada qual com a sua metrópole: o Egipto e a sua capital Alexandria, o Oriente e a sua grande cidade comercial, Antioquia, e finalmente os Balcãs e a Ásia Menor, conectados pela grande capital do Império, Constantinopla.
Cada uma daquelas três regiões, embora a maioria da população se tivesse tornado cristã, acabaram a distinguir-se entre si por ela professar ritos religiosos distintos: designados por coptas no Egipto, por jacobitas na Síria e por ortodoxos em Constantinopla. E, mesmo quando o Império Romano se reexpandiu para Ocidente no reinado de Justiniano no Século VI (mapa acima), a anexação ainda adicionou o catolicismo romano àquele, já complexo, puzzle religioso.

As divergências acabavam por não representar nada de substantivamente diferente quanto ao essencial da mensagem cristã (tal qual havia sido definida no Concílio de Niceia em 325). Mas, quando são utilizadas para fins políticos, as pequenas diferenças doutrinárias podem parecer abismos impossíveis de transpor: vejam-se, por exemplo, as rupturas no movimento comunista internacional do Século XX entre leninistas, trotskistas ou maoistas. Algo semelhante aconteceu naquela época, só que associado à natureza de Cristo e à procedência do Espírito Santo

A disputa política – disfarçada de teológica – foi levada a extremos tais dentro do Império Romano do Oriente que frequentemente Alexandria e Antioquia, como capitais regionais, procuravam ser neutrais nas disputas de Constantinopla com os seus inimigos externos, quando não mesmo se opunham aos interesses do centro do Império. E no Século VII, por ocasião da expansão islâmica, a adesão dos cristãos não ortodoxos à nova ordem dos invasores foi maciça, onde passaram – convertidos à nova fé ou não – a constituir a maioria dos quadros não militares.
Havendo vantagens materiais para o fazer, normalmente nunca houve coacção para que houvesse uma conversão do cristianismo para o islamismo entre as populações dos países que hoje são o Egipto, a Jordânia, Israel, o Líbano ou a Síria. Ela foi-se processando gradualmente. Actualmente em todos eles (com excepção de Israel, cujo povoamento é resultante da imigração maciça moderna de judeus, mas a realidade entre a população palestiniana é idêntica à dos outros países mencionados) há minorias cristãs, que podem variar entre os 5 (Jordânia) e os 35% da população (Líbano). Mas a sua proporção tem vindo a baixar no último século, porque a tendência para emigrar é muito superior entre os cristãos: na Síria, por exemplo, a proporção de cristãos baixou de 17% (1958) para 10% (2001).

Regressando ao passado, o Império Romano conseguiu a proeza notável de resistir ao impacto da expansão islâmica (acima) que alcançou tanto a França como a Índia, embora ficasse mais reduzido em extensão, mas com a vantagem de ser tornado muito mais coeso, englobando apenas a Ásia Menor e as regiões europeias, onde apenas predominava o cristianismo ortodoxo. As maiores pressões que o Império passou a sofrer vinham agora das regiões europeias, onde os povos eslavos (búlgaros, sérvios) estavam a procurar criar estados de confissão ortodoxa mas independentes da tutela imperial de Constantinopla.

Da batalha de Manzikert (1071), travada no século XI entre romanos* e turcos, ficou o simbolismo do início da perda progressiva da influência do velho Império nas regiões da Ásia Menor perante a constante pressão dos povos turcos, de religião islâmica. Mas também a população local, sujeita ao poder turco, se foi convertendo progressivamente. Nos últimos grandes momentos do Império (meados do século XIII - abaixo em azul), ele agrupou-se à volta do Mar Egeu, tanto nas suas costas europeias (onde se situa a Grécia moderna) como nas asiáticas, numa disposição parecida com a do período áureo da civilização da Grécia Clássica**.
O Império Romano do Oriente extinguiu-se quando Constantinopla foi tomada pelos turcos em 1453, enquanto o Império Otomano por eles fundado continuou a expandir-se pela Europa balcânica convertendo alguns dos povos conquistados (albaneses e bósnios) à religião muçulmana. O retrato religioso do Império Otomano (abaixo a sua configuração no apogeu de 1580) que, em mais do que um aspecto, pode ser considerado sucessor do Império Romano do Oriente, é bastante complexo, com cristãos e muçulmanos coexistindo em todo os lados, os primeiros geralmente em maioria na Europa, os segundos na Ásia.
Só no princípio do Século XX, através de um gigantesco (e pouco divulgado) processo de transferência recíproca de populações a Grécia e a Turquia modernas adquiriram uma verdadeira homogeneidade religiosa – assunto aqui tratado num poste anterior. De resto, todos os outros países que pertencem a regiões que fizeram parte outrora do Império Romano do Oriente ainda aqui não mencionados, quando são maioritariamente cristãos (Sérvia, Bulgária, Chipre) têm minorias muçulmanas, e quando são maioritariamente muçulmanos (Albânia), têm minorias cristãs.
Como é que é? Deu ajuda no trabalho? As respostas podem endereçar-se para o meu correio: herdeirodeaecio@hotmail.com

* Note-se que entre os historiadores ocidentais se criou o hábito de designar os romanos por bizantinos, para fazer esquecer que eram eles eram os verdadeiros e legítimos – sem interrupções! – herdeiros das instituições políticas romanas. Aliás, árabes e turcos, para quem essas controvérsias eram irrelevantes, designavam os habitantes do Império colectivamente pelo nome de Rum.
** Uma fracção apreciável das cidades da Grécia clássica – a começar pela famosa Tróia – situa-se na actual Turquia ocidental.