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29 maio 2024

A LUTA DOS TRABALHADORES DA REVISTA "GENTE"

(Republicação)
29 de Maio de 1974. Os trabalhadores da revista "Gente" estavam em luta. A notícia que a noticiava (à luta) na edição de há 43 anos do Diário de Lisboa perdia-se, de resto, no meio de várias outras lutas semelhantes que haviam surgido com a percepção da alteração súbita do poder nas relações laborais, provocada pelo 25 de Abril (que ocorrera há pouco mais de um mês). E esse combate até se aplicava a uma revista de futilidades (burguesas) como era o caso da revista "Gente". Assim, os seus trabalhadores haviam ocupado a redacção da publicação e forçado uma reunião com Artur Anselmo, que era o administrador-delegado da empresa detentora do título. Dá-se a curiosidade do administrador ser uma daquelas jovens (34 anos) estrelas em ascensão da estrutura social que o 25 de Abril de 74 acabara de abalar até às fundações (abaixo vêmo-lo com Carlos Cruz numa aparição televisiva anterior a essa data). A descrição do processo negocial mostra que, como muitos outros na sua posição por aqueles dias, Artur Anselmo fora completamente ultrapassado pelos acontecimentos. A sua ameaça de que «os accionistas individuais se viessem a desinteressar da empresa» (i.e., que a fechassem), foi pura e simplesmente rejeitada «por maioria» numa votação dos trabalhadores (que, quase apostaria, terá sido de braço no ar...). Juntando o insulto à injúria, ficou prometido que Artur Anselmo ainda teria que se vir a haver com uma nova comissão recém nomeada, «destinada ao apuramento (...) das reivindicações do pessoal das outras secções da publicação», pessoal considerado ainda «mais desfavorecido». Até os próprios que a viveram já se terão esquecido do que então passaram, mas não era fácil ser-se patrão por aqueles dias. E visto pelos olhos da actualidade o que se descreveu parece "ficção científica".

03 maio 2024

OS «CRIMES» DO «INSPECTOR» VARATOJO

(Republicação a pretexto do cinquentenário da primeira publicação do anúncio do inspector Varatojo, desmentindo que a inspecção dele tivesse alguma coisa a ver com a PIDE)
Figura mediática (sobretudo televisiva) de antes do 25 de Abril, a imagem de Artur Varatojo (1926-2006) estava indissociavelmente ligada à criminologia e à literatura policial. Foi por isso com alguma surpresa que, nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril, os leitores dos jornais o viram a ele (entre muitos outros), a desmentir em anúncios pagos (abaixo) que alguma vez tivesse pertencido ou estado ligado à PIDE. Houve quem atribuísse essas preocupações ao epíteto forjado de inspector que adoptara por causa da sua imagem.
Porém, uma possível explicação alternativa, mais séria e mais elaborada, para o que parecia a defesa contra uma sanha persecutória contra o Varatojo podemos encontrá-la na capa de uma revista que foi publicada dois meses e meio depois do 25 de Abril e onde se empilham casualmente fichas de funcionários da PIDE e ali encontramos uma de um homónimo (assinalada a branco) do nosso amável investigador policial. Eram tempos de Liberdade, mas onde era impróprio usurpar títulos de inspector e possuir-se um apelido inconveniente
Este é um texto que, conjuntamente com o do Caçador de Pides mais abaixo e glosando mais uma vez José Carlos Ary dos Santos, poderá constituir uma série a que, pela imaginação e por isso orientadas para o céu, se pode dar o título de, em vez de portas, as mansardas que Abril abriu

30 abril 2024

SOBRE A CHEGADA DO 25 DE ABRIL AO CINEMA E A SUA (R)EVOLUÇÃO - DAS «PORTAS QUE ABRIL ABRIU» ATÉ ÀS «CUECAS QUE ABRIL DESPIU»...

(Republicação a pretexto do dia do cinquentenário da estreia em Portugal de «O Último Tango em Paris»)
Em termos cinematográficos o 25 de Abril ficou também para sempre associado a O Último Tango em Paris. Estreado a 30 de Abril de 1974 no Monumental (acima), uma das primeiras constatações concretas pelos portugueses do que era o usufruto da Liberdade: assistir a um desses filmes bem condimentados (mas intelectuais) sem quaisquer cortes da censura, como acontec(er)ia por essa Europa fora… Não era bem verdade, mas isso então não interessava nada¹. Tratava-se de toda uma nova relação do espectador português com a arte

Que se exprimiu de imediato, na forma oportunista que caracterizava o teatro de revista, com a aparição de uma peça intitulada O Último Fado em Lisboa, uma enorme salada russa, incluindo danças e cantares dessa mesma proveniência, a que se juntava umas danças do ventre e uns nus artísticos de umas artistas que já se haviam deixado ver em melhores dias. Não deixa de ser irónico que vanguardistas concorrentes como César de Oliveira, Filipe La Féria (esse!), Graça Lobo e Mário Viegas tenham boicotado revolucionariamente a peça...
Nesses tempos heróicos, em paralelo com referências como O Couraçado Potenkin ou então O Destacamento da Guarda Vermelha, a educação do típico espectador português em transição para o socialismo também se fazia no segmento do Último Tango: filmes europeus com muita conversa intelectual mas acompanhada de coboiada. O apogeu desses filmes terá sido o estreado a 2 de Janeiro de 1975 no Império (acima) com um título intraduzível (La maman et la putain²) e um apelo descarado ao voyeurismo, veja-se o cartaz abaixo.
Infelizmente, e apesar da ousadia do título, o filme revelava-se uma pastilha comprida e chata com 3 horas e 37 minutos de duração, conversa demais e muito pouca acção para o que era sugerido como se antecipa abaixo. Apesar do impacto da altura, actualmente o filme estará praticamente esquecido e os gostos dos espectadores portugueses começaram a clarificar-se, separando-se aqueles que preferiam os enredos dirigidos então por Ingmar Bergman dos que preferiam os enredos protagonizados por Linda Lovelace

¹ O filme não fora estreado em Espanha, em Itália o realizador (Bernardo Bertolucci) fora levado a Tribunal, etc. ² Para os menos dotados para línguas a tradução para português é: a mamã e a puta.

27 abril 2024

O 25 DE ABRIL E AS PARTICIPAÇÕES DE CADA UM DOS RAMOS DAS FORÇAS ARMADAS

(Republicação de 25 de Abril de 2016)
Se analisarmos a participação de cada um dos ramos das Forças Armadas com os seus meios próprios no movimento de 25 de Abril, para além da participação mais óbvia, dir-se-ia mesmo omnipresente, do Exército, começando pela da coluna da Escola Prática de Santarém, acaba por se descobrir que o momento mais significativo da participação da Armada terá sido... a não participação da fragata Almirante Gago Coutinho, quando se recusou a obedecer às ordens de fazer fogo sobre as forças rebeldes que ocupavam o Terreiro do Paço (na foto acima, de Alfredo Cunha). Por outro lado, a respeito da participação da Força Aérea, cuja participação nas operações daquele dia, em apoio de qualquer dos lados, não me recordo de alguma vez terem sido referidos, vim a surpreender-me, muitos anos depois com esta fotografia abaixo de Jorge Horta, onde se vê um helicóptero voando sobre a Baixa naquele dia, não sei a que horas nem sei com que propósito, se em manobra de intimidação,...
...e aí de quem sobre quem, se apenas em manobra de observação de como pairavam as coisas... Há ainda quem levante a hipótese do helicóptero ter vindo ver da (im)possibilidade de evacuar Marcello Caetano cercado no Quartel do Carmo. Isso combinaria com a cronologia que consultei. Ali, a primeira vez que se menciona a adesão de unidades militares da Força Aérea é às 20H00 de dia 25 de Abril, precisamente a mesma hora em que se tornam a mencionar unidades da Armada. Nessa altura, já Marcello Caetano se rendera. Esta última fotografia abaixo de Alfredo Cunha, feita na sede da PIDE com um fuzileiro de guarda e o retrato oficial de Marcello Caetano pelo chão, mas feita já a 26 de Abril, parece ser icónica por mais do que aquela razão aparente pela qual a fotografia é tão conhecida: o regime caíra; e mal se dera por ela no dia decisivo, mas no dia seguinte a Marinha já se tornara no ramo mais revolucionário das Forças Armadas. Iria manter essa vantagem nos 19 meses que se seguiriam...

OUTROS HERÓIS DE ABRIL – O CAÇADOR DE PIDES

(Republicação)
Na ressaca dos dias imediatos ao 25 de Abril de 1974, o Rossio e as outras mais frequentadas da baixa da Lisboa tornaram-se locais de um amplo trabalho de mobilização das massas populares. Ficaram famosos alguns trabalhos de cobertura fotográfica dessa mobilização com a identificação e prisão de agentes da PIDE ainda em liberdade em sequências que chegaram a ser publicadas em reputados órgãos de informação internacional (acima). Contudo, os 50 anos que entretanto decorreram podem permitir-nos vê-las, às fotografias, com uma atenção que o fervor revolucionário daquela época não possibilitava: dediquemo-nos ao militar assinalado (qual barão desarmado de Camões...) que, na última fotografia da série acima, arrasta para longe da fúria popular o pide ensanguentado.
A sua cara está apontada directamente para a objectiva e a sua expressão é indiscutivelmente triunfal, embora a exuberância do bigode, que não tardaria a banalizar-se num exército que passara a estar sempre, sempre ao lado do povo, nos comece a dar os primeiros sinais de suspeita, por não ter podido crescer até àquela exuberância anti-regulamentar nos escassos dias então decorridos depois do 25 de Abril... Melhor: o lídimo representante do MFA envergava uma das vulgares fardas de trabalho (designada por nº 2, salvo erro) onde coexistia uma barreta de condecorações com uma (condecoração) propriamente dita (o que nunca se faz) e esta era, nada mais, nada menos, do que uma cruz de guerra, que se atribui por feitos em combate. Isso não impedia que esse heroísmo redobrado coexistisse com uma notória falta de aprumo (uma camisa desbarrigada, um porta-chaves demasiado à vista), talvez explicável pelos dois números que faltariam ao blusão para que ele assentasse devidamente ao nosso herói. Nas suas platinas nem galões nem divisas, sugerindo que, apesar do ar de quem lidera o destacamento, se estava perante um soldado básico, um condutor de homens inato, mas modesto...
Naquele ano de 1974, a Páscoa fora recente, calhara a 14 de Abril, o Carnaval fora por isso em finais de Fevereiro mas, em finais de Abril parecia ainda haver quem se divertisse mascarado em pleno Rossio e – bónus suplementar para o folião – sem que ninguém desse ou se incomodasse com isso… Suspeito que faltaria ao criador original (José Carlos Ary dos Santos) a capacidade de saber rir deste caminho aonde o poderia levar a ironia dos seus próprios versos, mas creio que esta também foi mais uma das portas que Abril abriu

26 abril 2024

ZERO DE ABRIL

(Republicação destacando o 10º aniversário de um daqueles costumeiros disparates de Vasco Pulido Valente a que as/os groupies do sujeito davam grande publicidade, numa demonstração viva que o 25 de Abril também se fez para que os aldrabões das histórias recebessem uma promoção imerecida)
Muito mais instrutivo do que o título que a entrevistadora (Ana Sá Lopes) escolheu para a entrevista que fez a Vasco Pulido Valente acerca da forma como este terá vivido o dia 25 de Abril de 1974 (e os dias que se seguiram), será o exercício de comparar as declarações que ele ali lhe prestou com a visão que Maria Filomena Mónica dá desse dia e desses mesmos acontecimentos no seu livro Bilhete de Identidade (pp. 315-319). Ambos concordam ter passado o dia com o outro (Fui acordado de manhã e depois fui com a Maria Filomena Mónica para a rua. Fomos ao Largo do Carmo, andámos por ali. – ele – A 25, pelas dez horas da manhã, (o Vasco) chegou a minha casa. Dirigimo-nos para o Largo do Carmo. – ela). Ela mais superficial e evocativa do tempo ou do que vestia (…estava uma manhã cinzenta e com nortada. Lembro-me de ter saído de casa com uma camisa branca sob um casaco verde.), ele mais chão nesse tipo de memórias avulsas (...fui almoçar a um restaurante pegado ao elevador da Glória). Mas verificam-se algumas contradições evidentes nas duas histórias: Ela queria ir à PIDE, mas eu disse que era melhor não irmos. (…) Aquilo devia ter sido um ponto estratégico se o Movimento das Forças Armadas tivesse sido conduzido por alguém com alguma inteligência.... Maria Filomena Mónica ter-se-á marimbado para a hipotética inteligência estratégica do companheiro e tê-lo-á arrastado: Ao princípio da tarde, fomos até à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. (…) reinava a paz dos sepulcros.

Mas o mais estranho que terá escapado a Maria Filomena Mónica foi o verdadeiro prodígio da electrónica realizado naquela tarde histórica de Abril, quando Vasco Pulido Valente voltou ...para o carro e consegui(u) ouvir – porque se ouvia nas telefonias dos carros – a banda de rádio da GNR. (…) O comandante a dizer: «É melhor acabarmos com isto senão isto ainda vai dar uma chatice.» Vasco Pulido Valente considera esta última frase inesquecível. Eu considero – para além da coincidência do Vasco ter apanhado a parte mais sumarenta do diálogo – todo o processo da escuta tecnicamente brilhante. Basta pensarmos como Garcia dos Santos teria andado no quartel da Pontinha a montar um complexo sistema de intercepção de comunicações para aquele dia, quando o Vasco Pulido Valente lhe poderia ter resolvido boa parte do problema só com o rádio do carro… Para além da verosimilhança, a versão daqueles dias escrita por Maria Filomena Mónica tem a vantagem de ser, não só mais desenvolvida, mas também intelectualmente mais modesta (Os dias que se seguiram foram passados na companhia do Vasco, tão surpreendido quanto eu com o que se estava a passar) e de ser ilustrada com uma fotografia (tirada pela Micuxa Galvão Teles) de uma honestidade simbólica: nela se vêem os dois a zero, coscuvilheiros, com Vasco Pulido Valente apropriada e simbolicamente nos bicos de pés atrás da multidão, a tentarem ainda assim perceber o que se estaria a passar.
Tomando por inspiração aquilo que Vasco Pulido Valente diz(ia) que devemos aos capitães de Abril, também aquilo que ele narra(va) sobre a forma como vive(ra) aqueles dias é de fidedignidade zero - como quase tudo o que Vasco Pulido Valente escrevia, de resto...

24 abril 2024

EM DEMOCRACIA, O PASSADO NÃO SE CONSEGUE REESCREVER A GOSTO

Em vésperas do cinquentenário do 25 de Abril, surge-nos esta tentativa subtil do presidente da República de tentar recontar a narrativa do episódio das gémeas que o chamuscou. Este é um exemplo oportuno das mansardas que Abril abriu, a separação cristalina entre a Democracia e a ditadura (sejam elas de que sinal forem...). Em Democracia, o protagonista político que tenta reescrever o passado conforme lhe conviria acaba sendo ridicularizado por isso.

25 abril 2021

RECORDE-SE QUE TAMBÉM ERAM 89 OS PIDES QUE FUGIRAM DE ALCOENTRE...

Em dia de comemoração de Abril, e olhando para a primeira página da edição do dia do Correio da Manhã, convém recordar que, por coincidência, também foram 89 os Pides que fugiram de Alcoentre, num famoso episódio, também de Abril, de falta de vigilância revolucionária. Mudam-se os tempos e o teor das lutas, e agora é a PSP que se encarrega de travar «as orgias», que agora são sexuais e que outrora haviam sido reaccionárias. «Que se passa? Então isto não é uma ameaça?...»
Remate-se, em jeito de distinção, que a festa de 2021 era de «swing», e que aos Pides de 1974 não lhes foi permitido o «swing» - ao contrário do que aconteceu com tantos outros...

25 abril 2017

AS PORTAS QUE ABRIL (NÃO) ABRIU

Durante precisamente 40 anos, de 25 de Novembro de 1975 a 26 de Novembro de 2015, o discurso político do PCP foi o que se pode sintetizar pela frase que aparece destacada acima, proferida originalmente (como não poderia deixar de ser...) por Álvaro Cunhal. "O actual Governo é o pior desde o 25 de Abril" Por quatro décadas este exagero foi dito e repetido à exaustão como um dogma. O alvo foram 20 governos das composições mais distintas, 12 primeiros ministros diferentes. Cada um deles o pior desde o 25 de Abril na época em que exerceu funções, Soares e Cavaco, Guterres e Barroso, o discurso permaneceu por 40 anos obtusa e tacticamente coerente. Foi preciso atingir-se um governo que fosse, a sério, o pior desde o 25 de Abril, acumulado com o perigo de que a mesma equipa governamental e a mesma ideologia liberal prosseguisse no poder para que o PCP arrepiasse caminho e contribuísse positivamente pela primeira vez em 40 anos para uma solução governamental. Devemos tratar as histórias dos 43 anos de Democracia da mesma forma como no PCP gostam que se tratem as dos 48 anos de Ditadura. Fazer por não as esquecer.

24 abril 2016

OS CRAVOS NÃO TÊM DONO

Quanto mais o tempo passa, mais o que aconteceu se esvanece e mitifica e mais importante se torna recordar o que é essencial, que o 25 de Abril se fez por todos e para todos os portugueses, mesmo para a liberdade daqueles que preferem não o celebrar, em suma, que os cravos não têm dono. Abaixo, recorda-se uma notícia publicada pelo Diário Popular em 19 de Maio de 1975 a pedido de José Afonso, mostrando como os ídolos (também) tiveram pés de barro e por que terá sido preciso, mesmo indispensável, um 25 de Novembro de 1975. Tanto houve (e continua a haver) os que não queriam andar de cravo ao peito como houve (e não os continuará a haver?) os que queriam selecionar quem poderia cantar o «Grândola, Vila Morena».
«Tendo lido nos jornais diários a notícia de que, no decurso de um comício - piquenique, promovido no passado dia 11, pelo P.P.D., teria sido cantada em coro a canção «Grândola, Vila Morena», venho por este modo reafirmar que, muito embora considere a canção desvinculada de qualquer ideia de autoria, a fiz em tempos (há cerca de 12 anos) fora de imaginar qualquer abusiva apropriação cantante por parte de grupos ligados ao capital deste ou de qualquer outro país.
Considero pois abuso ou despudor, dadas as características populares com que no início da sua história como canção, foi «utilizada» em ambientes e situações de luta, que os mesmos indivíduos que designam para os representar à Assembleia Nacional Constituinte defensores da censura fascista e continuadores da ordem colonial, se sirvam dela para lançar poeira aos olhos dos incautos.
Tomo ainda a liberdade de lembrar o significado dos factos que recentemente se verificaram em Setúbal, dos quais fui parcialmente testemunha, onde comprovadamente se mostrou inequívoco o papel repressivo que o P.P.D. adoptou contra as massas populares, de que resultaram ferimentos em 20 pessoas (9 baleadas) e a morte do jovem João Manuel».
Lisboa, 14 de Maio de 1975,
Respeitosamente, José Afonso

20 abril 2016

VITORIA. ABAIXO O FACISMO (sic). 48 ANOS DE TERROR

...não esqueço o levantamento popular que consolidou a revolução.

Lido há dias por aí, nas redes sociais, a propósito de mais uma controvérsia envolvendo militares e no seguimento à evocação da sua contribuição para o 25 de Abril. Pelos vistos, os 42 anos transcorridos levaram à escrita (para alguns) de um novo enredo da Revolução. Nesse outro país, terá ocorrido um levantamento popular que consolidou a revolução. Os militares foram um estopim e um acessório. No fundo, teriam sido dispensáveis. Pena (digo eu) que não tivesse sido ao contrário: começava por se fazer o levantamento popular que o governo de Marcello Caetano, só com a vergonha, teria caído logo ali, e o regime com ele. Se preciso fosse consolidar a revolução popular, aí é que se iriam incomodar os soldados lá em Santarém, em Estremoz, para virem para Lisboa. Já nem teria sido preciso que os soldados estivessem sempre, sempre, ao lado do povo. Estariam atrás do povo...

Recorramos então a uma fotografia de rua daquele dia 25 de Abril de 1974 para o mostrar, a esse tal levantamento consolidante. Como acontecerá certamente com este senhor que acima empunha orgulhoso um jornal onde escreveu VITORIA e ABAIXO O FACISMO. Decididamente ele já terá identificado vencedores e vencidos da jornada mas, porque apenas terá apanhado de ouvido a designação do regime derrubado, ainda não o sabe escrever lá muito bem... Daí por poucos dias, com a luta mais organizada, os cartazes empunhados melhoraram em todos os sentidos: gramaticalmente, ideologicamente e os próprios materiais de que eram feitos. O fascismo (agora bem escrito) era explicado às massas populares: haviam sido 48 ANOS DE TERROR. Para a lenda, andávamos todos aterrorizados...com o facismo.

08 novembro 2014

AUTOCRÍTICA REVOLUCIONÁRIA EM HOMENAGEM AO DERRUBE DO MURO DE BERLIM

É verdade que os grandes textos canónicos da doutrina se concentram nos vastos anseios das classes operárias e do povo trabalhador, mas o que o desmoronamento de há 25 anos demonstrou é que o povo o que gosta mesmo é de ser cusco, péla-se pelas historietas individuais, enterrou Marx. Engels, Lenine e os outros maçadores dialécticos. Se eu tivesse tido cuidado em tornar o poste imediatamente abaixo mais palatável, teria contado as pequenas histórias de quem lá aparece. Numa atitude de autocrítica revolucionária e seguindo o mosaico abaixo desde o canto superior esquerdo, no sentido do curso dos ponteiros do relógio, temos então:
Marina Ginestà tinha 17 anos quando a fotografia sobre Barcelona foi tirada. Era filha de espanhóis emigrados em França onde de resto nascera e para onde regressará depois da derrota republicana na guerra civil espanhola, adoptando a nacionalidade francesa. Simone Segouin tinha 18 quando foi fotografada por ocasião dos combates pela libertação de Paris. Usava o pseudónimo de Nicole Minet e pertencia aos FTP, a organização da resistência conotada com os comunistas franceses. Erika Szeles é a mais nova de todas: tinha apenas 15 anos quando da foto entre os combatentes de Budapeste. E é a única que morreu durante a insurreição que lhe trouxe a celebridade. Não se sabe a idade precisa de Caroline de Bendern (cerca de 20 anos em Maio de 68), mas sabe-se que era inglesa, de origem aristocrática e modelo e que a sua pretensa militância (a bandeira que empunha era a do vietcong) era apenas circunstancial. Ao invés sabe-se a idade (18 anos) e mesmo o local da fotografia da combatente vietnamita (província de Sóc Trăng, no delta do Mekong) mas o nome afigura-se pseudónimo conveniente para efeitos de propaganda: Lâm Thị Đẹp (Đẹp quer dizer bonita¹). E Nora Astorga é a mais velha do conjunto: já tinha 30 anos e dois filhos por ocasião da foto. Nora era oriunda da aristocracia nicaraguana, estudara nos Estados Unidos e em Itália antes de, já como advogada, aderir à guerrilha sandinista.
Permitam-me acrescentar quanto no conjunto há fotografias que parecem ter sido de ocasião – será o caso da de Caroline de Bendern, talvez o de Erika Szeles – mas as outras mostram-se devidamente encenadas, escolhido tanto o modelo quanto a pose. Da sessão fotográfica com Simone Segouin existem outras fotos, como esta acima, onde ela aparece enquadrada por dois camaradas progredindo por uma rua de Paris. Ambos armados com espingardas². Simone é a única que empunha uma arma automática (uma MP-40 de origem alemã), quando, se fosse a sério, seria mais do que improvável que se confiasse a arma mais eficaz das três à miúda de 18 anos...

¹ Uma prática extremamente comum no Vietname: o conhecido Hồ Chí Minh (o que foi esclarecido) nasceu com o nome de Nguyễn Sinh Cung e adoptou ao longo da vida vários pseudónimos como Nguyễn Tất Thành ou Nguyễn Ái Quốc.
² Uma Lebel 1886 (o da esquerda) e uma MAS-36 (o que vem atrás).

28 abril 2014

CARICATURAS DE REGIME

Assim como Rafael Bordalo Pinheiro foi o responsável pela caricatura simbólica do período final da monarquia constitucional com a sua Grande Porca (acima), Herman José sê-lo-á pela equivalente deste regime (embora com a ajuda involuntária de Baptista Bastos), enquanto houver quem, com eles, compartilhar a preocupação de se saber onde é que se estava no 25 de Abril

25 abril 2014

25 DE ABRIL SEMPRE!


Já foi tempo em que era moda citá-lo de Marx, mas agora será mais fino fazê-lo de Žižek, embora o princípio permaneça inalterado: aquilo que primeiro foi tragédia repete-se depois em farsa, e foi preciso que isso acontecesse com o slogan 25 de Abril Sempre! para que cumprisse o seu ciclo determinístico histórico e eu passasse a acarinhá-lo de outro modo.

24 abril 2014

UMA CERTA IDEIA DE PORTUGAL¹

Ainda na continuidade de algumas ideias para postes que me ocorreram a pretexto do 25 de Abril (uma série que que baptizei por as mansardas que Abril abriu), adiciono esta que tem por personagem central António de Spínola (1910-1996), exibindo-lhe em primeiro lugar o pensamento (Portugal e o Futuro) e depois a sua consagração nas capas das revistas internacionais de Maio de 1974 logo a seguir ao golpe. Mas somando um e a outra, a devoção pessoal que o próprio suscitava entre os seus seguidores e ainda a certeza messiânica de se ter uma certa ideia do seu país, o julgamento da História é implacável na distinção do quanto é diferente ter tido isso tudo e ter conseguido resultados. Pode concluir-se do trajecto de Spínola depois de 1974 que ser-se general e ter uma ambição política equivalente não chegou para se ser um outro de Gaulle.
¹ Alusão a uma passagem célebre das Memórias de Charles de Gaulle: Il est tout à fait vrai - je dirais que c'est ma raison d'être - que depuis toujours, et aujourd'hui, je me fais de la France, en effet, une certaine idée… (É realmente verdade - posso dizer que é mesmo a minha razão de ser - que desde sempre, até agora, sempre tive da França, efectivamente, uma certa ideia...)