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13 junho 2024

AS ELEIÇÕES EM TRIESTE (MAS SÓ NA ZONA A)

(Republicação)
13 de Junho de 1949. Realizam-se eleições municipais no território livre de Trieste, região encravada entre a Itália e a Jugoslávia, mas na zona que era administrada pelos Aliados (Zona A). Trieste, cuja história do Século XX já aqui foi contada neste blogue. Na notícia do jornal, a vitória dos partidos italianos é apresentada como se eles se tivessem apresentado conjuntamente, o que não é verdade: os 63% que se mencionam resultam da adição da votação da Democracia Cristã (39%), Socialistas (6%), Neo-Fascistas (6%), Republicanos (5%), Liberais (5%), etc. De qualquer maneira, a maioria que exprimira a sua opção por uma futura reunião com a Itália era significativa, ainda que a eleição em si fosse meramente simbólica: a maioria das decisões administrativas pertenciam ao governo militar. Mas para os países ocidentais, a organização de eleições era um imperativo, na esperança que isso forçasse o padrão do comportamento dos ocupantes soviéticos, que nos países do Leste da Europa se actuasse da mesma forma. Mas não: é verdade que havia eleições, mas não livres. Quanto ao caso particular de Trieste, a situação veio a ficar resolvida em 1954 com a anexação da Zona A pela Itália e da Zona B pela Jugoslávia. Actualmente, os territórios que haviam pertencido a esta última Zona estão divididos, por sua vez, entre a Eslovénia e a Croácia.

09 novembro 2023

A DESTRUIÇÃO DA PONTE DE MOSTAR

(Republicação)

9 de Novembro de 1993. A ponte velha («stari most» em servo-croata), que ligava as duas partes da cidade herzegovina de Mostar e que fora construída no século XVI, é destruída pelo fogo da artilharia croata. O episódio, militarmente menor e que não ocasionou, felizmente, danos pessoais, vai contudo perdurar simbolicamente como um dos momentos emblemáticos da guerra civil que destroçou a Jugoslávia. A destruição da ponte tinha lugar quatro anos precisos após a queda do Muro de Berlim e parecia ser a demonstração que a criação de uma nova ordem internacional depois do desaparecimento dos dois blocos europeus não iria ser tão idílica quanto originalmente parecera. Caíam muros mas também caíam pontes. Esta foi reconstruida em 2004.

17 fevereiro 2023

A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»

A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos  países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.

06 abril 2022

O INÍCIO DA GUERRA DA BÓSNIA

6 de Abril de 1992. Início da Guerra da Bósnia, um conflito que se irá arrastar por três anos e meio envolvendo três beligerantes combatendo-se entre si - Bósnios (muçulmanos), Sérvios (cristãos ortodoxos) e Croatas (cristãos católicos). As referências religiosas são muito importantes para a identidade de cada grupo já que todos eles se exprimem num idioma mutuamente inteligível. O vídeo acima mostra a evolução das frentes de batalha. Há alguns aspectos semelhantes entre este conflito e a invasão russa da Ucrânia.

12 fevereiro 2022

O INÍCIO DO JULGAMENTO DE SLOBODAN MILOSĚVIĆ

Haia, Países Baixos, 12 de Fevereiro de 2002. Início do julgamento de Slobodan Milošević. O antigo presidente da Sérvia e da Jugoslávia e réu comparece em tribunal acusado de: genocídio; cumplicidade em genocídio; deportação; assassinato; perseguições por motivos políticos, raciais e religiosos; actos desumanos e transferência forçada; extermínio; prisão; tortura; assassinato intencional; confinamento ilegal; causador intencional de grande sofrimento; deportação ou transferência ilegal; destruição extensa e apropriação de propriedade, não justificada por qualquer necessidade militar e realizada de forma ilegal e arbitrária; tratamento cruel; saque de propriedade pública e/ou privada; ataques a civis; destruição ou dano intencional a monumentos históricos e instituições dedicadas à educação ou religião; ataques ilegais a bens civis. A acusação desenrolar-se-á de acordo com a extensão de todas estas acusações que acima se podem ler e, como se imagina, tomará dois anos a concluir-se, depois do tribunal ouvir 295 testemunhas e de terem sido apresentadas mais de 5.000 provas. Por um princípio de equilíbrio, foi concedida à defesa um período de tempo idêntico para a sua tarefa. Não surpreende por isso saber que, mais de quatro anos depois, a 11 de Março de 2006, e quando ainda decorria o julgamento, o tribunal foi surpreendido pela morte súbita do réu, de ataque cardíaco. Foi um completo anti-clímax. Tantos cuidados se puseram no formalismo do funcionamento do tribunal que se perdeu completamente de vista a sua funcionalidade e o o objectivo do julgamento. Os factos haviam ocorrido primordialmente com a dissolução da Jugoslávia, que ocorrera em 1991, ou seja 15 anos antes... Uma efeméride para constatar que não é só por cá que este fenómeno acontece, nos casos de José Sócrates, Ricardo Salgado, etc., que, quando forem julgados, já as pessoas se esqueceram do porquê. 

01 dezembro 2021

O FIM DA «PRIMAVERA CROATA»

1 de Dezembro de 1971. Numa reunião alargada das cúpulas dirigentes da Liga dos Comunistas da Jugoslávia, realizada propositadamente na recatada Quinta de Karađorđevo (Voivodina), o presidente Tito põe fim a (mais) um daqueles desvios ideológicos que caracterizavam os países comunistas da Europa oriental do período da Guerra-Fria. Só que, como neste caso se tratava da frágil Jugoslávia, a questão das ideologias misturava-se com a dos nacionalismos. Ali, as aberturas da «Primavera» local haviam-se exprimido sobretudo na Croácia e haviam-se concretizado em maiores grau de autonomia para Zagreb, tanto no plano financeiro, quanto cultural. O problema é que as concessões de Belgrado pareciam ter desencadeado uma dinâmica reivindicativa - greve de 30.000 estudantes universitários - a que urgia pôr cobro. Significativamente, sabe-se hoje que Tito sinalizou previamente tanto Washington quanto Moscovo que o ia fazer. Esta reunião de Karađorđevo de há 50 anos serviu para purgar as cúpulas comunistas na Croácia e para dar "carta branca" aos novos empossados para reprimir os protestos em curso e os que inevitavelmente se seguiriam. A 2 de Dezembro, Tito (que era, ele próprio, um croata) anunciou as medidas adoptadas num discurso transmitido para toda a Jugoslávia. Contudo e paradoxalmente, considerando a ressonância mediática internacional que costumavam ter estas crises existenciais dos países comunistas, neste caso concreto da Jugoslávia os acontecimentos passaram quase completamente desapercebidos. Assim como a repressão que se seguiu. Por exemplo, esta notícia do Diário de Lisboa de então, é a primeira que esse jornal dedicou ao assunto, e isso aconteceu apenas em 13 de Dezembro de 1971, quase duas semanas depois dos factos aqui evocados. Considerada a sua posição neutral entre os dois blocos, a Jugoslávia era tratada a Ocidente como uma ditadura comunista, mas bastante fofinha.

07 outubro 2021

O BOMBARDEAMENTO DE BANSKI DVORI

7 de Outubro de 1991. Começando por explicar em que consiste o alvo bombardeado, Banski dvori é um grande edifício histórico no centro de Zagreb, a capital da Croácia. Edificado nos primórdios do século XIX, o edifício fora, de 1809 a 1918, a residência oficial dos vice-reis da Croácia durante os tempos do império Austríaco e Austro-Húngaro. Mesmo depois de a Croácia ter passado a integrar a Jugoslávia, o Banski dvori continuava a ser um dos edifícios simbólicos da identidade nacional croata e, por isso, naqueles tempos atribulados de 1991 que assistiam ao desmembramento da Jugoslávia, foi o local escolhido por Franjo Tudjman para ali se instalar como primeiro presidente da nova República secessionista da Croácia. Quanto à data, 7 de Outubro de 1991 era a véspera do fim do prazo de uma moratória que havia sido negociada diplomaticamente para que se suspendessem as iniciativas para a concretização da independência croata. Franjo Tudjman, o presidente da nova Croácia, encontrava-se no edifício em conversações com o presidente da antiga Jugoslávia, Stjepan Mesić que, por acaso e pela ironia das regras do rotativismo obrigatório dos cargos na Jugoslávia, era também croata. Para os sérvios, defensores da manutenção da federação, e como se diria em linguagem de futebol, o árbitro estava comprado... E terá sido por isso que entre os militares sérvios mais extremistas se lembraram da ideia de promover um raid aéreo selectivo para os liquidar aos dois enquanto estavam em negociações. Quando os quatro aviões atingiram Zagreb, cerca das 3 da tarde, já os dois visados haviam abandonado o edifício há alguns minutos, depois de um almoço de trabalho. O ataque causou um morto e imensos estragos materiais (compare-se a fotografia do pátio interior acima com o esquema do edifício abaixo). O edifício só veio a ser recuperado quatro anos depois. Actualmente constitui a sede do governo croata. A operação foi, para Belgrado, um fiasco militar mas, ao entregar o papel de vítimas a Zagreb diante da comunidade internacional, foi um decisivo desastre político. A Croácia proclamou a sua independência no dia seguinte, com a benção de todas as potências - incluindo uma relutante (e ainda existente) União Soviética, que à última hora havia tentado anular a iniciativa sérvia.

29 junho 2021

O ALARMISMO DE UMA GUERRA COMO A DA COREIA, MAS NA EUROPA

29 de Junho de 1951. No jornal desse dia, mesmo ao lado das notícias a respeito da guerra da Coreia, cujo ritmo das operações militares se havia acalmado substancialmente, quando ela completara um ano, surgia um outro grito de alarme, este oriundo de Belgrado, a capital da Jugoslávia, anunciando uma pretensa concentração de tropas soviéticas nas suas fronteiras, naquilo que os jugoslavos de Tito pretenderiam que passasse por uma analogia com a invasão norte-coreana que ocorrera no ano anterior, e que fora a causa do conflito coreano. As duas notícias oriundas de Belgrado apresentam-se encadeadas de tal forma que as intenções dos jugoslavos se mostram límpidas: «O pedido da Jugoslávia aos Estados Unidos para fornecimento de armas». Adiante-se que o pedido jugoslavo vai ser satisfeito e que os Estados Unidos irão realmente fornecer material de guerra à Jugoslávia, apesar de se tratar de um país assumidamente comunista! Na fase que aqui estamos a cobrir, o fornecimento mais importante será o de 150 caças-bombardeiros P-47 Thunderbolt, que se podem ver nas duas fotografias abaixo, voando em formação à época, e exposto actualmente num Museu do Ar sérvio, com as estrelas vermelhas identificativas da força aérea jugoslava .

07 abril 2021

O «EMBAIXADOR FERIDO A TIRO»

7 de Abril de 1971. Aquilo que se pode ler na notícia do Diário de Lisboa sobre o que acontecera na embaixada da Jugoslávia em Estocolmo era pouco e era propositadamente vago. Por exemplo, já se sabia (embora a notícia não o mencione) que os «dois terroristas armados com revólveres» eram nacionalistas croatas porque os dois haviam-no proclamado audivelmente em frente às câmaras de televisão quando eram transportados algemados depois de presos (no vídeo abaixo), gritando vivas ao Estado Independente da Croácia e a Ante Pavelić. Pela concisão, notava-se que não houvera muito empenho em desenvolver a notícia. Especular sobre o que motivara a acção. E havia imensos aspectos de interesse. A escolha da embaixada entre as várias que a Jugoslávia possuía na Europa Ocidental não fora acidental: o embaixador, Vladimir Rodović, um montenegrino, era um coronel da polícia política jugoslava e dirigira um campo de concentração de presos políticos. E andava normalmente armado. Ele ainda tentou reagir aos dois assaltantes, mas estes dominaram-no e manietaram-no. Depois executaram-no, no quadro da guerra suja que se travava entre a organização terrorista croata e os serviços secretos jugoslavos. Morreria dali por uma semana. O terrorismo croata era, contudo, um assunto chato de abordar. Em primeiro lugar porque as suas acções visavam destruir a Jugoslávia e com ela, o equilíbrio europeu, e isso não interessava nada. Em segundo lugar porque a organização que promovia esse terrorismo estava historicamente conotada com o fascismo e também não convinha recordar isso. E em terceiro lugar porque o país que dava santuário a essa organização era a Espanha franquista. Além disso, o assunto ocorrera na Suécia, com quem Portugal não mantinha as melhores da relações - apoiavam as organizações nacionalistas africanas das colónias portuguesas - e onde se falava uma língua que ninguém percebia (ouça-se o vídeo abaixo...). Portanto, quanto menos se falasse do assunto, melhor: oito linhas tem a notícia. Os dois terroristas croatas vieram a ser condenados a prisão perpétua, mas depois libertados pouco mais de um ano depois do acontecimento, em Setembro de 1972, na sequência do sequestro de um avião da SAS, organizado mais uma vez pela sua organização.

01 março 2021

O RECENSEAMENTO NA JUGOSLÁVIA

1 de Março de 1971. Num artigo originário do jornal parisiense Le Monde (mas assinado por um autor com um apelido de nítida ressonância sérvia - Yankovic), podiam ler-se os complexos problemas que se levantavam por causa da realização do próximo recenseamento na Jugoslávia. «Contrariamente ao que, em geral, se pensa no estrangeiro, a Jugoslávia socialista e federal não é o país dos jugoslavos. (...) Dentro do país (e a lei é precisa a esse respeito) pertence quer a um dos povos de uma República Federal, quer a uma das minorias nacionais... ou então não tem nacionalidade.» Os povos, prosseguia, eram seis («sérvios, croatas, eslovenos, macedónios, montenegrinos e muçulmanos») e as minorias nacionais eram «numerosas» («albaneses, húngaros, eslovacos, turcos, italianos, romenos, checos , búlgaros, etc»). O artigo prolongava-se e ia acabar numa outra página mais adiante. Era um daqueles artigos só mesmo para interessados por minudências da composição étnica de países estrangeiros. Era assim que há cinquenta anos era considerada a heterogeneidade da Jugoslávia de Tito: um detalhe da ordem internacional. Vinte anos depois, quando as circunstâncias envolventes se alteraram e acabou a Guerra Fria, deu para perceber que não era bem assim: o problema havia estado apenas dormente.

14 dezembro 2020

A RATIFICAÇÃO FORMAL DO FIM DA JUGOSLÁVIA

14 de Dezembro de 1995. Assinatura formal em Paris, por parte dos presidentes da (da esquerda para a direita) Sérvia, Bósnia e Croácia, dos denominados Acordos de Dayton. Por um lado, é um acordo de cessar-fogo e o fim das intenções de qualquer das partes signatárias em continuar a rectificar as fronteiras já demarcadas a tiro. Por outro, mais significativo, é o dobre de finados de uma ideia do início do século XX de juntar os eslavos da região num mesmo país, qual versão sucedânea, reduzida e mais homogénea do antigo império Austro-Húngaro. Como o predecessor, também a Jugoslávia se revelou uma construção política que não sobreviveria às (novas) circunstâncias.

02 dezembro 2018

A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA

1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

09 junho 2018

DEPOIS DO MAIO DE 68 EM PARIS... O JUNHO DE 68 EM BELGRADO

9 de Junho de 1968. Se as ondas de choque daquilo que acontecera em França se espalhara pela população estudantil de toda a Europa, países houve em que esse impacto se tornou mais efectivo como foi o caso da (então unida) Jugoslávia. A 2 de Junho de 1968 (já os acontecimentos em França estavam na sua fase descendente) e por um motivo perfeitamente pueril, a falta de bilhetes para um espectáculo teatral, produzira-se uma reedição em Belgrado do encadeado quotidiano de protestos estudantis e de enfrentamentos nas ruas dos estudantes com a polícia, à boa maneira das imagens do Quartier Latin que haviam corrido mundo. Depois os protestos haviam-se propagado de Belgrado às outras capitais jugoslavas, Zagreb, Sarajevo e Ljubljana, demonstrando-se o quanto a contestação era transversal às várias nacionalidades. Para além da França, outra fonte de inspiração dos manifestantes era a Checoslováquia e as reformas que ali se ensaiavam no monolítico regime comunista vigente, a denominada Primavera de Praga. A ameaça pairava mas, ao contrário de de Gaulle, Tito não foi apanhado desprevenido e, apesar dos seus 76 anos, não vacilou. Há precisamente 50 anos, era Domingo e a contestação tinha começado há precisamente uma semana, quando Tito apareceu na televisão com um discurso em que atribuía condescendentemente alguma razão aos estudantes enquanto lhes anunciava várias concessões (mesmo sem perceber o servo-croata, a linguagem corporal de Tito no tal discurso no vídeo abaixo mostra isso mesmo - e dá vontade de rir ouvi-lo a justificar o apartamento dos estudantes da actividade política, quando por cá os comunistas tinham organizações como a UEC...). A contestação estudantil na Jugoslávia perdeu gás, foi dominada e ficou esquecida, tirando aqueles que o poder considerou os cabecilhas e que foram depois discretamente apanhados (e sancionados) um a um. É o género de episódio que raramente aparece evocado e há várias razões para tal, embora nem todas sejam transparentes, uma delas será a cegueira ideológica - por exemplo, não existe uma página em francês na wikipedia evocando o assunto e Deus sabe como os franceses adoram gabar-se da influência que as suas revoluções têm por essa Europa fora... e nesta outra página da wikipedia, o caso da Jugoslávia nem sequer aparece mencionado.

31 março 2018

A OFENSIVA DIPLOMÁTICA DO III REICH NA PRIMAVERA DE 1943

31 de Março de 1943. Adolf Hitler recebe o rei Bóris III da Bulgária (acima). Essa vai ser a primeira visita de um dos seus aliados europeus, na ofensiva diplomática que o III Reich irá desencadear na Primavera de há 75 anos, exibindo um bloco coeso de parceiros. Os ventos da Guerra mostravam-se agora potencialmente adversos para as armas alemãs e, para além de Bóris, ao longo do mês que se seguirá, Hitler ir-se-á encontrar com o duce Benito Mussolini de Itália (7 de Abril), com o conducator Ion Antonescu da Roménia (14 de Abril), com o regente Miklós Horthy da Hungria (16 de Abril), com monsenhor Jozef Tiso da Eslováquia (23 de Abril), com o poglavnik Ante Pavelić da Croácia (27 de Abril) e, finalmente, com o chefe do governo do Estado francês, Pierre Laval (29 de Abril). Os resultados podiam parecer ressonantes, se se acreditasse naquilo que as máquinas de propaganda então produziam (abaixo), mas a intuição geral da esmagadora maioria dos observadores apontava para que as vantagens iam agora todas para o lado dos Aliados.

02 março 2016

A CROÁCIA DE ANTE PAVELIC

Ante Pavelić (1889-1959). Esta pouco simpática, pouco fotogénica e pouco carismática pessoa foi o líder do Estado Independente da Croácia entre 1941 e 1945. Frequentemente referido pelas iniciais da sua designação em croata, NDH (Nezavisna Država Hrvatska), essa Croácia dos meados do Século XX representava uma construção artificial patrocinada pelos dois países do Eixo. Era um estado-satélite que fora construído a partir do fraccionamento da Jugoslávia e destinado a aliciar o nacionalismo croata, incorporando regiões habitadas maioritariamente por bósnios e por sérvios. Apesar de possuir teoricamente uns 7 milhões de habitantes em 115.000 km² (muito equivalentes aos 7,7 milhões em 92.000 km² do Portugal de então), a Croácia de Pavelić era um projecto frágil, assente numa multitude de anacronismos. Era, por exemplo, uma monarquia, onde o monarca designado, um príncipe da Casa Real Italiana a quem fora atribuído o nome histórico de Tomislau II, nem se dispusera a morar em Zagreb, a capital. Abdicou em 1943. O poder real (se algum sobrava do que era detido sobretudo pelos alemães...) pertencia ao poglavnik (réplica croata equivalente às designações de duce e führer). E esse era Ante Pavelić - que não ficou recordado para a História pela sua habilidade política. Sobre ele escreveu Ante Ciliga (1898-1992), um seu compatriota contemporâneo, vindo do comunismo para o nacionalismo croata e transitoriamente seu aliado durante aqueles anos: ...com as suas políticas e em muito poucas palavras, Pavelić conseguiu desunir os croatas, unir os sérvios, dar força aos partisans comunistas e atrelar cegamente a causa croata àqueles que estavam destinados a perder a guerra. É difícil conceber uma política mais suicida. Em baixo, pode ver-se um documentário em croata mostrando uma visita sua a Berlim. Era para passar em Zagreb; em Berlim o assunto mereceria o interesse sintético da fotografia que se segue. São imagens que a Croácia moderna, apesar de muito europeísta, não terá grande interesse em recordar.

Tudo isto para recordar o passado longínquo da Croácia, mas também o mais recente de Portugal, lembrando que há imagens que parecem ser vantajosas numa época precisa e que o vão perdendo, ao interesse e à conveniência, há medida que o tempo passa...

10 dezembro 2015

...POR UM CINTO

Alegadamente, segundo a famosa peça de William Shakespeare, foi por um cavalo que Ricardo III terá perdido o seu reino. Mas foi por uma cabeça (de um outro cavalo) que Carlos Gardel perdeu a aposta na corrida de cavalos que ele canta naquele que se tornou possivelmente no seu mais famoso tango. Finalmente, foi por um cinto (e já não envolvendo quaisquer cavalos...) que Ivan Čičak (pronuncia-se Ivã Jijaque), um político croata de 68 anos, perdeu a decência numa cerimónia solene em que era o homenageado na presença da própria presidente do país, Kolinda Kitarović.
Houvesse cinto (ou suspensórios, que nestas coisas há que mostrar ser eclético...) a segurar aquelas calças e a cerimónia de Zagreb teria sido mais uma das milhares de cerimónias protocolares de ontem sem direito a que a notícia sequer franqueasse as fronteiras croatas, tal o seu evidente desinteresse. Mas tal como aconteceu, as cuecas azul-celeste do homenageado tiveram direito, pelo ridículo, à sua volta ao Mundo, numa prova provada que não é preciso ser-se Donald Trump e norte-americano para suscitar a atenção mediática.

26 julho 2015

OS ALIADOS

Ao contrário do que possa ser a imagem predominante nos dias que correm, nem toda a colaboração que a Alemanha e Adolf Hitler obtiveram durante a Segunda Guerra Mundial resultou de coacção. Houve países onde se apostou deliberadamente no sucesso do Eixo. Da esquerda para a direita, Ion Antonescu (1882-1946) da Roménia, Miklós Horthy (1868-1957) da Hungria, Carl Gustaf Mannerheim (1867-1951) da Finlândia e Ante Pavelic (1889-1959) da Croácia. Não é por coincidência que todos aparecem uniformizados como também não será por coincidência que, à excepção de Antonescu, que foi fuzilado no seu país natal em 1946, todos os outros morreram no exílio em países que haviam permanecido neutrais durante a Guerra: Horthy em Portugal, Mannerheim na Suíça e Pavelic em Espanha.