7 de Maio de 1824. Em Viena, no teatro de Kärntnertor (actualmente inexistente), tem lugar a estreia da 9ª Sinfonia de Beethoven. Apesar de estreada em Viena, onde o soberano era o imperador austríaco, a obra foi dedicada ao rei Frederico Guilherme III da Prússia (Beethoven nascera em Bona, na Alemanha ocidental). A extensa composição (dura aproximadamente uma hora e dez minutos a ser executada) foi a última obra completa do compositor, é a mais conhecida da sua autoria e é também uma das mais conhecidas do que se costuma designar por música clássica. Há várias histórias associadas a esta estreia, das quais prefiro reter para esta evocação a que refere que foi preciso que Beethoven - que já então estava completamente surdo e que, pretensamente, estava virado para a orquestra, dirigindo-a - fosse rodado por uma das intérpretes - a jovem Caroline Unger - para que, só então e de frente para o público, visse quanto o público aplaudia entusiasticamente a sua obra! Para benefício do leitor, reduzi a reprodução acima à passagem mais conhecida da obra - apenas três minutos! - a Ode à Alegria.
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07 maio 2024
20 junho 2023
COMBATE ENTRE FASCISMOS
20 de Junho de 1933. Na Áustria, o chanceler Engelbert Dollfuss (à esquerda) proscreve a ala austríaca do partido nazi. O governo encabeçado por Dollfuss estava no poder há pouco mais de um ano (desde Maio de 1932), mas sempre possuíra uma maioria extremamente frágil no parlamento. Um incidente parlamentar que ocorrera em Março de 1933 servira de pretexto a Dollfuss para o encerrar sem entretanto convocar novas eleições. O governo austríaco passara a governar por decreto e todas as iniciativas que Dollfuss adoptará, a partir daí, serão no sentido de transformar a Áustria num estado autoritário, corporativo e católico (em mais do que um aspecto semelhantes ao Estado Novo português). Em Maio de 1933 fundara uma Frente Patriótica, uma liga congregando todas as forças políticas da direita austríaca, e embrião de um partido único como a União Nacional. No final desse mesmo mês de Maio ele ilegalizara o partido comunista austríaco, que não tinha representação parlamentar sequer (0,6% dos votos nas eleições de 1930). Agora, três semanas depois, calhara a vez ao partido nazi, que também não tinha representação parlamentar (3,0% dos votos nas mesmas eleições de 1930), mas que era um partido suportado por Berlim (Hitler chegara ao poder em Janeiro de 1933) que se mostrava muito activo, como se pode ler acima nas notícias chegadas de Viena, há oitenta anos. Estamos perante uma guerra civil entre duas formações políticas da extrema direita fascista - uma quer preservar a independência austríaca, a outra não. Estes acontecimentos são ricos em significado mas tornam as narrativas necessariamente mais complexas - por isso, é mais fácil omiti-los, e a verdade é que poucos os conhecem e ainda menos os que realizam o que eles implicam: as elites políticas da extrema-direita austríaca não viam com grande entusiasmo a anexação pela Alemanha. Na versão encurtada, os nazis vão vencer, porque, para já nesta primeira fase, depois de um atentado falhado em Outubro de 1933, vão conseguir assassinar Dollfuss em Julho de 1934.
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06 junho 2023
SÓ NESTE PAÍS! É POR CAUSA DESTAS COISAS QUE ESTE PAÍS NÃO ANDA PARA A FRENTE!
Antes que o leitor se arrependa de ter concordado instintivamente com a proclamação indignada do título acima, deixe-me esclarecê-lo que o país em questão é a Áustria. A Áustria compartilha com a maioria dos países da Europa setentrional a capacidade de contenção perante os escândalos mais inadmissíveis. Criam uma ilusão de eficiência, abafando as ineficiências: ninguém fala delas. Esta história que eu vou contar ainda só está disponível no canal euronews em língua alemão, mais de sete horas depois de conhecida. Em Portugal, ainda ninguém se lhe referiu. E vale a pena, tão ridícula é. Este fim de semana, o partido social democrata austríaco (conhecido pela sigla SPÖ) realizou um congresso, onde elegeu um novo líder. A eleição teve lugar este Domingo. Feito o escrutínio dos votos, foi anunciado que o candidato Hans Peter Doskozil vencera com 316 votos dos 601 delegados (53%), em vantagem sobre o seu antagonista Andreas Babler, que recebera apenas 279. Seguiu-se o costume destas ocasiões: o discurso do vencedor, a aceitação do vencido, entrevistas desses dois e de mais outros dirigentes do partido para a comunicação social, etc. Esta Segunda Feira houve um jornalista que pediu para confirmar ele próprio os dados do escrutínio e, ao fim desta tarde, já 24 horas depois dos acontecimentos, a responsável pelo escrutínio, Michaela Grubesa, aparece a dar uma conferência de imprensa onde, dando uma explicação que atribui a causa nebulosamente a «um erro técnico cometido por um colega na folha de Excel», vem confessar que os resultados anunciados no dia anterior são precisamente ao contrário do que fora a verdadeira contagem: o vencedor de Domingo fora o vencido, o vencido, Andreas Babler (acima, na foto) é afinal o vencedor e novo líder do SPÖ. Inacreditável! Se isto tivesse acontecido em Portugal teria sido uma paródia pegada, um pretexto para uma colecção de anedotas: alguém imagina o que isto não seria, caso tivesse acontecido num congresso do PS, o homólogo do SPÖ? (por exemplo: Seguro tinha sido reeleito, mas afinal quem tinha mesmo ganho era o Costa...) Agora fiquemos à espera da ressonância e das reacções que o episódio terá na Áustria... Recordo que este não é o primeiro episódio bizarro que eu aqui destaco sobre a política austríaca.
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17 fevereiro 2023
A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»
A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.
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16 outubro 2022
A AMEAÇA DA EXTREMA-CERVEJA
No passado Domingo, 9 de Outubro, houve eleições presidenciais na Áustria. O presidente Alexander van der Bellen foi reeleito logo à primeira volta. O candidato apresentado pelo FPÖ, formação normalmente conotada com a extrema direita, que havia estado quase prestes a conquistar a presidência em 2016, recebeu uns desapontadores 717 mil votos (17,7%). A surpresa do acto eleitoral foi o senhor da fotografia. Chama-se Dominik Wlazny, tem 35 anos (a idade mínima para concorrer às eleições presidenciais austríacas) e é um genuíno artista de variedades. É o líder - com o nome artístico de Marco Pogo - de uma banda de punk rock denominada Turbobier. Até aqui este episódio assemelhar-se-á às candidaturas presidenciais de Manuel João Vieira e os Ena Pá 2000, mas depois a coisa começa a sofisticar-se. Porque o candidato Wlazny (que é licenciado em medicina) acumula a liderança da banda rock com a dum partido satírico denominado Partido da Cerveja (Bierpartei). Este último havia recolhido uns míseros 5 mil votos nas últimas eleições legislativas austríacas de 2019, mas o candidato conseguiu reunir 6 mil assinaturas para se apresentar nestas eleições presidenciais de 2022. Onde - e, mais uma vez, a comparação com os casos portugueses fazem sentido - ao estilo Marcelo 2021, a reeleição do presidente van der Bellen estava praticamente garantida à partida e à primeira volta. E é assim que, concluído o escrutínio, aparece em terceiro lugar o candidato Dominik Wlazny do Partido da Cerveja, que recebeu 337 mil votos (8,3%)! Tratasse-se de uma formação de extrema direita e o desfecho eleitoral seria oportunidade para que se ouvissem pela enésima vez as vozes ultrajadas com mais esta ascensão da extrema direita... Mas desta vez não se deu mediaticamente por nada, porque neste caso se tratará da ascensão da extrema cerveja, uma ocasião em que se percebe que, mais do que a força da extrema direita, o que pareceu evidente foi a fraqueza do sistema democrático quando insiste em convocar actos eleitorais em que o eleitorado compreende bem demais que não há nada em disputa. E a reacção, quando não é de alheamento e abstenção, manifesta-se em votações significativas nestas formações políticas satíricas. No caso português: que é que os dois grandes partidos estão à espera para que desapareça aquela eleição intercalar, a brincar, do presidente português?...
08 março 2022
EPISÓDIOS DO QUE FORA A VERDADEIRA ÁUSTRIA ANEXADA AO III REICH
8 de Março de 1947. A notícia, oriunda de Viena, dá conta do desmantelamento de uma rede secreta composta por antigos nazis, dirigida por um antigo Oberführer das SS, o austríaco Walter Rafelsberger (fotografia da esquerda), e que envolvia 57 implicados. Como se comprova, nos anos que se seguiram imediatamente ao fim da Segunda Guerra Mundial, a ressurgência do nazismo afigurava-se uma ameaça tão séria na Áustria, quanto o era na Alemanha. A versão adocicada do argumento do musical «Música no Coração», que sugeria que os austríacos tinham sido relutantemente anexados ao III Reich, só surgirá dali por uma dúzia de anos (1959). Uma versão que, de tão cândida, também teve a sua época, para acabar abruptamente na década de 80 com o escândalo do passado nazi de Kurt Waldheim.
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01 janeiro 2022
O EMBARAÇOSO FUTURO ESCÂNDALO DO SECRETÁRIO GERAL DA ONU
1 de Janeiro de 1972. Aos 53 anos, o diplomata austríaco Kurt Waldheim (1918-2007) tornava-se - «por aclamação», como se pode ouvir no vídeo acima - no quarto secretário-geral da ONU e iniciava nessa data o seu mandato. Contudo, guardado para o futuro estava a constatação que esta ocasião se virá a revelar um dos mais embaraçosos momentos da arquitectura da diplomacia internacional depois da Segunda Guerra Mundial. E não porque tivesse tido algum desfecho trágico em termos de conflitos internacionais. Felizmente. Só que, depois de cumprir dez anos e dois mandatos naquele cargo (1972-1981), Waldheim irá regressar ao seu país e candidatar-se-á à presidência da República, uma eleição que ele até virá a ganhar (1986) mas onde, durante a campanha eleitoral, virão a surgir revelações muito comprometedoras quanto ao que fora a sua conduta durante os anos em que a Áustria estivera anexada à Alemanha nazi (1938-1945). A biografia que Waldheim apresentara ao longo da sua anterior carreira revelava-se cheia de omissões e inconsistências que escondiam uma simpatia confessa pelo nazismo durante a sua juventude e, pior, a participação como militar em operações nos Balcãs contra populações suspeitas de albergar guerrilheiros e no transporte de judeus para os campos de extermínio.
Em retrospectiva, e mesmo que isso não tivesse acontecido anteriormente na própria Áustria, esses eram aspectos que deviam ter sido descobertos quando do escrutínio do seu CV por ocasião da sua candidatura ao cargo de secretário geral da ONU. Isso, por si, já era uma nota de uma enorme incompetência dos aparelhos diplomáticos e dos serviços de informações das principais potências mundiais (onde é que estivera o infalível Mossad?...). Mas pior, percebia-se também em retrospectiva, que a existência e ocultação desses episódios, haviam tornado o antigo secretário geral passível de ser eventualmente chantageado por quem os conhecesse de antemão (o que as investigações posteriores realizadas nos Estados Unidos parecem ter concluído que terá acontecido mesmo por parte da União Soviética, que conhecia o verdadeiro conteúdo do dossier Waldheim – vídeo intermédio). Este é um daqueles episódios em que, para além da desonra que recaiu sobre Waldheim (ostracizado à escala mundial), a culpa da incompetência parece ter morrido solteira. Uma boa explicação para isso poderá residir na solidariedade corporativa que, mesmo por detrás das rivalidades nacionais, dominava aquela instituição e a corporação dos diplomatas ali acreditados. Na fotografia abaixo, tirada quando Kurt Waldheim discursava por ocasião da sua posse (assinalado pelo rectângulo branco), podemos identificar (naturalmente) o seu antecessor, o birmanês U Thant (a laranja), mas também e significativamente aquele que virá a ser o seu sucessor dali por dez anos, o peruano Javier Pérez de Cuéllar (a amarelo).
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15 outubro 2021
A DETENÇÃO DO HOMEM QUE FAZIA DESCARRILAR OS COMBOIOS
15 de Outubro de 1931. Embora a data permaneça controversa (7, 10 ou 15 de Outubro) esta é uma das datas possíveis em que se realizou finalmente a prisão de Szilveszter Matuska. Matuska era um húngaro (embora nascido em território que hoje faz parte da Sérvia), que se celebrizou por, num determinado período de apenas dois meses (Agosto-Setembro) de 1931, ter sido o autor de dois descarrilamentos de importantes comboios que ligavam capitais da Europa central (Basileia-Berlim e Budapeste-Viena). As repercussões dos actos tornaram-se mais importantes que as consequências dos próprios e um prémio de 100 mil marcos foi atribuído à captura do homem que fazia descarrilar os comboios. A investigação revelou-se até rápida. Matuska foi capturado em Viena de Áustria (onde vivia), confessou os atentados, e aí foi condenado a seis anos de prisão, dos quais cumpriu quatro, tendo sido depois transferido para a Hungria, onde ocorrera o atentado mais grave (22 mortos), país que o condenou por sua vez a prisão perpétua. No entanto, em Dezembro de 1944, a prisão onde Matuska estava preso libertou todos os seus prisioneiros diante do avanço do Exército Vermelho. Matuska desapareceu a partir daí, dando uma nova vida à lenda da sua pessoa, para a qual nunca se arranjou uma explicação razoável para ter feito o que fez. Tão forte era esse mito que cerca de 40 anos depois, ainda se fazia uma BD contando a sua história (abaixo) e, mais de 50 anos depois (1983), um filme.
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25 maio 2021
A FRAGILIDADE EUROPEIA
Duas pequenas notícias de 25 de Maio de 1946 dão-nos uma perfeita ideia do que era a fragilidade da Europa de há 75 anos. Alguns dos pequenos países vencidos (como a Áustria, na notícia da esquerda) mostravam-se incapazes de se alimentar e quanto aos grandes países, mesmo teoricamente vencedores (como a França, na notícia da direita), exibiam a sua completa dependência financeira dos Estados Unidos.
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03 maio 2020
O APARECIMENTO DA EFTA
3 de Maio de 1960. Quatro meses depois da assinatura do tratado em Estocolmo, a EFTA (European Free Trade Association) entra em vigor, associando a Áustria, a Dinamarca, a Noruega, Portugal, o Reino Unido, a Suécia e a Suíça. À época, a nova organização apresentava-se como uma espécie de CEE alternativa.
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02 abril 2020
INÍCIO DA OFENSIVA SOVIÉTICA SOBRE VIENA
2 de Abril de 1945. Os exércitos soviéticos da 2ª e 3ª Frentes da Ucrânia desencadeiam uma ofensiva sobre a Áustria tendo como objectivo principal a conquista da cidade de Viena. As conclusões da Conferência de Yalta, que tivera lugar em Fevereiro daquele ano, havia deixado várias áreas cinzentas quanto ao destino a dar a alguns territórios no após-guerra. Um desses casos era a Áustria, anexada pela Alemanha em 1938 e cuja evolução política, depois de novamente autonomizada, ficara apenas definida por uma vaga declaração de princípios. Estaline, que foi sempre um adepto das negociações assentes em factos concretos, pôs assim a sua máquina militar a desencadear esta ofensiva periférica - o objectivo principal dos russos era conquistar Berlim - para posteriormente conseguir negociar a Áustria - ocupada na sua maioria pelos seus exércitos - com os aliados ocidentais. Conseguiu-o. A conquista da segunda capital do III Reich estava concluída por volta de 15 de Abril. E a ocupação soviética da Áustria só terminou em 1955 e, embora o país estivesse politicamente do lado de cá da Cortina de Ferro (ou seja, vigorava um regime verdadeiramente democrático), os soviéticos conseguiram neutralizar a Áustria para a contagem de aliados dos dois lados durante os anos da Guerra Fria. Nas duas fotografias exibidas, as placas dizem, respectivamente, Áustria e Viena.
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03 novembro 2018
O ARMISTÍCIO DE VILLA GIUSTI
3 de Novembro de 1918. Se a Itália foi a última das grandes potências europeias a entrar na Grande Guerra, também se vai destacar por ser a primeira delas a sair dela. Há precisamente cem anos, numa Vila dos arredores de Pádua, os italianos, devidamente acompanhados dos seus aliados, assinaram um armistício contra o adversário que verdadeiramente lhes interessava, o Império Austro-Húngaro, a passar então por um processo acelerado de desagregação nas suas entidades nacionais constitutivas. O armistício foi assinado um pouco depois das três da tarde embora o quadro abaixo, evocativo da cerimónia, mostra o acto a ter lugar ao redor de uma mesa muito maior do que a verdadeira e sob a artificialidade da luz eléctrica, sugestivo de complicadas e prolongadas negociações que, na verdade, não ocorreram - bastou aos italianos a ameaça de romperem as negociações para que a aristocracia austro-húngara se precipitasse a assinar, na esperança de ainda salvar o que pudessem do seu império.
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12 maio 2018
A CONFERÊNCIA DE SPA
12 de Maio de 1918. Spa é uma aprazível vila termal do Leste da Bélgica onde, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães instalaram o seu quartel-general para as operações na Frente Ocidental. Foi aí que teve lugar há precisamente cem anos a conferência que reuniu os dois imperadores dos impérios centrais - acima, numa fotografia desse dia, Guilherme II, com o identificativo pickelhaube prussiano à esquerda e Carlos I, também facilmente identificável pelo característico feldkappe austro-húngaro. Infelizmente para o segundo, o equilíbrio aparente que era granjeado pela exuberância dos ornamentos das cabeças (coroadas), não tinha qualquer correspondência com as realidades políticas e militares. Depois de quase quatro anos de conflito, o império austro-húngaro do imperador Carlos estava nas vascas da agonia e a prioridade passara a ser a de preservar a coesão do império por sobre a vitória. Em contraste, o império alemão de Guilherme II, que inicialmente quase dera um boi para não entrar na briga, agora via-se na situação do mineiro que dava uma manada para não sair dela. Com perspectivas divergentes, imperava a desconfiança entre os dois aliados, a que se somou aquela etiqueta tipicamente germânica - nunca nos esqueçamos dos exemplos bem recentes de Wolfgang Schäuble! - de nem sequer dissimular a animosidade durante a conferência. Considerada a desproporção do poder e, sobretudo, do ânimo para prosseguir com a Guerra, os alemães impuseram todos os seus pontos de vista políticos e militares, reduzindo a Áustria-Hungria à condição de um satélite contrariado até ao fim da Guerra. Outras três conferências, já sem imperadores, realizar-se-ão posterirmente no mesmo local em Julho, Agosto e Setembro de 1918, mas a cenografia do que se seguiria fora estabelecida por esta primeira: os alemães diziam como é que se havia de fazer, os austro-húngaros sabotavam as decisões alemãs com que não concordavam como podiam.
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28 abril 2018
A MORTE DO «CAUSADOR» DE TANTAS MORTES
28 de Abril de 1918. Foi também há cem anos que, neste dia, morreu Gravilo Princip, o sérvio da Bósnia que se celebrizara por ter assassinado o arquiduque Francisco Fernando e a esposa a 28 de Junho de 1914 em Saravejo, acontecimento que estivera, pelo menos formalmente, na origem da Grande Guerra que então ainda se travava. Contrariamente ao que se esperaria, Princip não fora executado, tinha apenas 19 anos e uma idade inferior a uma tal pena, de acordo com o que dispunha o código imperial, e acabara sendo condenado à pena de prisão máxima aceitável nessas circunstâncias: 20 anos. Cumpria a sua pena em Theresienstadt (mais tarde famosa por albergar um campo de concentração), mas nos três anos e dez meses decorridos desde o assassinato, as condições deliberadamente adversas da detenção, terão feito com que ele contraísse tuberculose óssea. Quando morreu, o recluso Gravilo Princip, apesar dos seus 23 anos, pesava apenas uns 40 kg e já sofrera a amputação do braço direito. Morrera aos poucos. Mas não deixa de ser surpreendente saber que ele sobrevivera a tantos milhões que já haviam perecido naquela guerra que ele contribuíra, como mais ninguém, para desencadear.
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15 outubro 2017
AS INDIGNAÇÕES ANTIFASCISTAS EXIBEM-SE EM ESCALA SUPORTÁVEL E APENAS NOS PAÍSES CONVENIENTES
As eleições legislativas austríacas tiveram lugar hoje e os resultados vão-se saber daqui a um bocado. As últimas sondagens davam maioritariamente a vitória aos conservadores do ÖVP (~32%), mas a grande surpresa era o potencial segundo lugar que poderia ser alcançado pelo FPÖ de extrema-direita (~26%) que ultrapassaria o SPÖ (~24%), o outro partido histórico austríaco, de cariz social-democrata. As estimativas, como se percebe pelo gráfica acima, resultam das sondagens dos últimos 15 dias. E o que é que, nas redes sociais, a esquerda activamente preocupada, se tem falado nisso? Onde é que pararam os ultrajes pré-eleitorais equivalentes aos manifestados no princípio deste ano a respeito de Marine Le Pen (em França) ou de Geert Wilders (na Holanda)? Não dei por eles, o que é tanto mais estranho quanto a votação que aparece prevista para o FPÖ (26%) corresponde ao dobro da que foi alcançada pelo PVV na Holanda ou, mais recentemente, também pela que foi obtida pelo AfD na Alemanha. Ou seja, se há país europeu onde a extrema-direita tem uma posição das mais reforçadas é a Áustria. Mas nunca se fala nisso... nem sequer se admite uma piadita sobre as origens (austríacas) de Adolf Hitler.
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15 março 2017
CONSIDERAÇÕES SOBRE AS RAZÕES PARA O EMPREGO DA PALAVRA «ANSCHLUSS»
15 de Março de 1938: Adolf Hitler entra em Viena sob o ambiente entusiástico que as imagens acima mostram. O embaraço de qualificar politicamente o que acabara de acontecer - invasão, anexação, conquista da Áustria - leva à adopção por todos de uma palavra específica da língua alemã para designar o que estava a acontecer: Anschluß (conexão). É inverosímil empregar a designação de invadidos, anexados ou conquistados a quem demonstra este entusiasmo exuberante pelos invasores. Claro que, sete anos depois (Abril de 1945) quando a mesma Viena foi, aí sim, conquistada, mas pelos soviéticos, as imagens foram outras, enquanto as deste caloroso acolhimento a Adolf Hitler se tornaram num inconveniente embaraço. Mas isso é toda uma outra história, que incluiu a reescrita desta que se viveu em 1938.
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06 julho 2016
A EXTREMA IMPORTÂNCIA DE ALGUMAS NOTÍCIAS QUE NÃO CHEGAM A EXISTIR
Se só a maturidade me despertou a atenção para as notícias que se destacam por inexistir, a veterania e a mudança do paradigma noticioso do Século XXI está a fazer-me prestar cada vez mais atenção a esse outro género de notícias - as notícias que deveriam existir e não existem e que se percebe que só existiriam se o protagonista fosse outro. Tomemos o caso da decisão do Supremo Tribunal austríaco de anular e fazer repetir a segunda volta das eleições presidenciais. O que parece estar a faltar à volta daquela notícia? O escândalo! Então um país da Europa civilizada tem uma prática de escrutinar os seus votos que é desautorizada pelo seu próprio tribunal supremo e ninguém comenta negativamente o incidente? À sua escala, é uma repetição do incidente Bush/Gore na Florida em 2000 com uma terceira entidade a certificar que, sim senhor, ali houve uma martelada capaz de influenciar o desfecho do escrutínio. Mas repare-se como, na comunicação social não se encontra qualquer insinuação de que pudesse ter havido viciação deliberada dos resultados. Teria sido também assim se o vencedor das eleições tivesse sido o candidato da extrema-direita? Provavelmente não, que as viciações dos votos em prol de candidatos da extrema-direita são sempre intrinsecamente más, mas as contra são por uma boa causa. E para mais, todas as notícias são enfáticas em esclarecer-nos que não houve viciação, o que houve foi negligência como se lê na notícia acima, ou então, ainda melhor, se escuta na notícia abaixo transmitida pelo euronews a dar-nos a perspectiva europeia: os juízes afirmam não ter encontrado fraudes ou manipulações (...) porém as investigações realizadas permitem concluir que várias dezenas de milhares de boletins da votação por correspondência foram contados de forma irregular. Para quem gosta de formulações eufemísticas - dezenas de milhares de votos contados de forma irregular - tem aqui uma figura do estilo. Suspeito que não adianta perguntar porque não foram essas dezenas de milhares de votos pura e simplesmente anulados do escrutínio - provavelmente porque com isso o vencedor passaria a ser o candidato da extrema direita... É pensando na expressão branqueamento que a fotografia inicial, com as paredes brancas do tribunal austríaco, pode assumir todo o seu significado irónico; e que os dizeres que se podem ler por cima do juiz (IHR RECHT GEHT VOM VOLK AUS, numa alusão à emanação popular do Direito que ali se decide) complementam superiormente na ironia.
25 abril 2016
O PRÓXIMO PRESIDENTE AUSTRÍACO
A importância do cargo de presidente da Áustria tem várias semelhanças ao português. Também é eleito por sufrágio universal embora os mandatos sejam de seis anos e não cinco, como em Portugal. Mas, por outro lado, também por lá um presidente também só pode só ser reeleito para mais um mandato consecutivo. Uma análise comparativa do âmbito das funções presidenciais num país e noutro levar-nos-ia demasiado longe para os propósitos deste poste. A grande diferença será que a história presidencial democrática da Áustria é 30 anos mais antiga que a nossa, pois recomeçou em 1945, depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E logo com algumas tradições surpreendentes: os presidentes que foram sendo sucessivamente eleitos nunca tinham nascido na Áustria propriamente dita e, por outro lado, com tanto azar que morriam todos em funções. Aconteceu isso com Karl Renner, presidente de 1945 a 1950 e que nascera na República Checa, aconteceu com o sucessor Theodor Körner, presidente de 1951 a 1957 e que nascera na Hungria, aconteceu ainda com Adolf Schärf, presidente de 1957 a 1965 e que também nascera na República Checa, e aconteceu finalmente com Franz Jonas, que foi presidente de 1965 a 1974 que, embora sendo vienense, pertencia a uma família originária da Morávia. Foi só com Rudolf Kirschläger, presidente de 1974 a 1986 que se assiste ao fenómeno de um presidente de raízes austríacas e que conseguiu completar o duplo mandato por doze anos até ao fim! O seu sucessor, Kurt Waldheim, eleito em 1986, terá sido o presidente austríaco de maior notoriedade internacional por uma boa e por uma má razão: por ter sido secretário-geral da ONU entre 1972 e 1981 e também por se ter descoberto que mentira sobre a sua participação como oficial da Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. O escândalo tê-lo-á forçado a não se apresentar à reeleição em 1992. Nesse ano foi eleito o vienense Thomas Klestil, que teria sido o segundo presidente austríaco a conseguir cumprir os dois mandatos encadeados (1992-2004), não tivesse morrido de ataque cardíaco a dois dias de terminar o mandato! O sucessor é o actual presidente, Heinz Fischer, que, depois de reeleito em 2010 e, se tudo correr bem que a profissão parece ser de alto risco, se apresta para terminar o seu segundo mandato no próximo dia 8 de Julho. Já se realizou o primeiro turno das eleições para o substituir. E o candidato mais votado nessas eleições foi o senhor da fotografia acima, Norbert Hofer, apoiado pelo FPÖ, o partido da extrema-direita austríaca. Recebeu 35% dos votos e apresenta-se bastante bem colocado para ganhar as eleições. Pelo menos, mais bem colocado na primeira volta que um outro austríaco famoso que, nas únicas eleições presidências que disputou em 1932, só obteve 30% dos votos. Mas o mais interessante será seguir que género de cobertura a comunicação social europeia irá dar a estas eleições. A causa para a subida eleitoral destas formações xenófobas será a mesma, mas estou preparadíssimo para ouvir explicações imaginativas por que os partidos da direita nacionalista são perigosos na Hungria ou na Polónia, mas na Áustria não...
21 abril 2016
BILHETE POSTAL PRÉ IMPRESSO: O «SKYPE» DE HÁ CEM ANOS
Se há cinquenta anos a forma consagrada para os soldados destacados se corresponderem para casa eram os aerogramas, cinquenta anos antes disso, durante a Primeira Guerra Mundial, o instrumento mais comummente posto à disposição dos soldados eram estes bilhetes postais com as novidades pré impressas que a alfabetização era mais gabada que efectiva. Este bilhete-postal, distribuído às tropas do Império Austro-Húngaro nesses anos, contém a curiosidade adicional de estar escrito em várias línguas, dado o carácter multinacional daquele império. Nove idiomas, para ser exacto, e a ordem como elas estão dispostas no bilhete corresponderá, não por acaso, à hierarquia da sua importância no xadrez político e não ao seu peso demográfico: alemão, húngaro, checo, polaco, ucraniano, italiano, esloveno, croata e romeno. Mesmo sem se ser um poliglota compreende-se que o conteúdo da mensagem em qualquer dos idiomas é monotonamente apaziguador: estou bem e de boa saúde. Com uma pitada de humor poder-se-ia acrescentar: E se me acontecer qualquer coisa vão receber outro postal pré-impresso, mas com uns dizeres diferentes...
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Áustria,
Hungria,
Primeira Guerra Mundial
11 março 2016
NO PAÍS NATAL DE ADOLFO HITLER
A política austríaca é interessantíssima de encapotada. Existe um partido da (extrema) direita nacionalista que, no jogo das denominações, se disfarça deixando-se designar por liberal (FPÖ - Freiheitliche Partei Österreichs), quando de liberal não tem nada e de liberdades (freiheit) é como as mais amplas liberdades democráticas dos comunistas - o melhor é mesmo não as experimentar... O FPÖ recebeu cerca de 20% dos votos nas últimas eleições (2013) e actualmente ocupa um pouco mais do que isso (40 lugares em 183) no parlamento austríaco, ao contrário do que acontece com a muito mais popularizada (e temida) extrema direita nacionalista francesa (FN - Front National) cuja expressão eleitoral (13,5% em 2012) está patentemente subrepresentada no seu parlamento (0,3%). Mas o que eu queria chamar a atenção com estes dois cartazes eleitorais é que, ao contrário do que acontece com os franceses, estes austríacos não se ensaiam nada quando da selecção dos alvos da sua xenofobia. Num deles reclama-se que Viena não se deve tornar numa Chicago, noutro que Viena não se deve tornar numa Istambul,...
...num emparelhamento que transmite uma curiosa visão - quiçá estereotipada - da América dos anos 30, a época em que, por coincidência, o compatriota Adolfo tomava o poder no Reich vizinho. Em jeito de remate, no cartaz de baixo, escreve-se até que aquilo que é dito é o que Viena pensa. Apetece ironizar se em vez de Chicago ou Istambul, a Viena desejada pelos eleitores do FPÖ não se parecerá com uma nova Nuremberga... Claro que propaganda eleitoral é isso mesmo, propaganda, e não deverá ser para levar escrupulosamente a sério, mas continuando no mesmo clima da franqueza grosseira que é um apanágio germânico, um país onde um em cada cinco eleitores se deixa seduzir por discursos daquele género ou é porque a sociedade está sociologicamente instável ou então por estar psicologicamente doente (veja-se mais abaixo). Pode ter até as contas públicas num mimo e, nesse sentido, a Áustria pode ser um dos apoiantes mais entusiastas da corrente disciplinadora da União, encabeçada por Herr Schäuble, mas isso apenas reforçará a classificação da Áustria entre os países que nos são menos simpáticos dentro da União.
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