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30 outubro 2020

O SEGUNDO REFERENDO SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO QUÉBEC

30 de Outubro de 1995. No referendo sobre a independência do Québec, esta última é recusada por uma margem de 54.000 votos (1,2%). Trata-se apenas de uma evocação por ocasião do 25º aniversário, já que o assunto - este referendo e também o anterior, em Maio de 1980 - já foi explicado sucintamente aqui no Herdeiro de Aécio, na altura (Setembro de 2014) para melhor compreensão do referendo semelhante que viria a ter lugar na Escócia.

20 maio 2020

REFERENDO DO QUÉBEC (1980)

20 de Maio de 1980. Na província canadiana do Québec realiza-se um referendo incidindo sobre a soberania daquela província no quadro da confederação do Canadá. Na prática, patrocinado pelas forças separatistas francófonas locais, tratava-se de um primeiro passo para a secessão do Québec. Os eleitores quebequenses rejeitaram a proposta por uma maioria de 60%.

07 julho 2019

CANADÁ VERDADEIRAMENTE BILINGUE

7 de Julho de 1969. Foi apenas há cinquenta anos, através das aprovação da Lei sobre as línguas oficiais que o Canadá se tornou um país oficial e completamente bilingue, com os idiomas inglês e francês a serem reconhecidos com um mesmo estatuto equivalente. Sendo então um país já centenário (fundado em 1867), o Canadá andava ainda em busca da sua identidade simbólica: a bandeira nacional canadiana, por exemplo, tinha apenas quatro anos. E quanto ao hino, ainda havia que aguardar mais onze anos até ele ser oficialmente adoptado (com duas letras!). E vale a pena evocar este fenómeno porque há um paralelo interessante entre o que acontece com o Canadá, o Quebec e os francófonos e o que acontece aqui ao lado com a Espanha, a Catalunha e os catalães. Estão muito iludidos os castelhanos que pensam que o problema se consegue varrer para debaixo do tapete...

24 julho 2017

«VIVE LE QUÉBEC LIBRE!»


24 de Julho de 1967. Charles de Gaulle está em Montreal numa visita oficial ao Canadá e resolve cometer uma das maiores gaffes diplomáticas do Século XX, apelando descaradamente ao separatismo de uma parcela do país que o acolhe. A visita acabou bruscamente. Já tive oportunidade de contar uma síntese do episódio aqui no blogue vai para 10 anos e, se a recupero para efeméride de hoje (pelo seu cinquentenário), é só para recordar que, mau grado a completa falta de jeito que já demonstrou ter nas relações com o exterior, Donald Trump ainda nada fez de verdadeiramente grave nesse panteão das colossais gaffes diplomáticas.

09 setembro 2014

OS REFERENDOS SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO QUÉBEC

A realização do próximo referendo sobre a independência da Escócia é um bom pretexto para recordar o caso do Québec, única província canadiana onde existe uma maioria francófona, e onde já se realizaram dois referendos (em 1980 e 1995) questionando a sua independência do Canadá. O impacto de uma eventual secessão quebequense no Canadá seria muito superior ao caso da secessão escocesa no Reino Unido. Começando pela geografia e olhando para o mapa acima, percebe-se como, ao contrário do que sucede com a Escócia que ocupa o Norte da ilha, uma eventual independência quebequense deixaria o Canadá dividido, com quatro das dez províncias (e 7% da população) a ficarem isoladas na fachada Atlântica, a Oeste, do resto do país onde residem os restantes 70% dos canadianos. A população do Québec – os 23% em falta nas contas acima – quase atinge actualmente os oito milhões (para comparação, refira-se que os escoceses são um pouco mais de cinco milhões e menos de 9% da população total do Reino Unido).
Adiante-se, para preâmbulo das condições que presidiram ao primeiro referendo, que a questão da francofonia e dos direitos dos francófonos no Canadá se mantivera uma questão pesada ao longo de todo o Século XX. Já aqui contei no blogue um episódio mais vivido dessa questão de Julho de 1967, quando de Gaulle foi expulso do Canadá por comportamento indecente (ao gritar Vive le Québec Libre!), por muito presidente de França que ele fosse. No ano seguinte formava-se o Parti Québécois independentista, em 1976 o PQ ganhava as eleições provinciais e formava o primeiro governo pró-independência e foi sob a égide desse governo que o referendo foi convocado para Maio de 1980. Prolongando a dinâmica de uma época em que houvera uma avalancha de independências por todo o Mundo (64 entre 1957 e 1975), a ponto de o discurso político confundir regularmente a autodeterminação com a independência, a do Québec parecia um caso consumado. Mas não foi. O Não venceu com 59,5% dos votos e uma maioria robusta de mais de 700 mil votos sobre o Sim.
O mito simplista (muito propagandeado na Europa a partir de Paris) que o Québec francófono só permanecia agarrado ao Canadá anglófono porque nunca fora consultado desmoronou-se com fragor nessa Primavera de 1980. Depois disso, o PQ abandonou o poder em 1985 para só regressar em 1994. A proposta que foi apresentada a referendo em Outubro do ano seguinte era muito mais moderada do que a anterior, capaz de captar os moderados que, pugnando por maior autonomia, se mostravam cautelosos com as consequências de uma independência. E, considerando a robustez da maioria alcançada quinze anos antes, quem se terá apresentado com confiança excessiva ao acto eleitoral foram os partidários do Não. Dessa vez o Não venceu mas por uma unha negra: 50,6% da votação, a maioria reduzida a 54 mil votos. Embora o PQ já tenha regressado ao poder por uma terceira vez entre 2012 e 2014, fê-lo com um governo minoritário e, por isso, sem condições políticas para organizar mais um referendo para alcançar aquele que é o seu objectivo último confesso: a independência do Québec.

04 julho 2010

CADÁVERES NA BAGAGEIRA

No submundo criminoso, especialmente no norte-americano, deixar o cadáver na bagageira de um carro tornou-se um gesto consagrado depois do fim da Guerra (quando as bagageiras passarem a ter espaço para acomodá-los…) de dar publicidade a um assassinato sem que os seus autores se expusessem em demasia (acima, um caso desses em 1955 em Chicago): a polícia era anonimamente informada onde é que podia ir levantar a encomenda
Depois, os grupos terroristas urbanos, activos nos países ocidentais durante as décadas de 60 e 70, apropriaram-se do método quando precisaram de dar publicidade às execuções dos reféns que haviam raptado. O primeiro caso (acima) foi o do ministro canadiano Pierre Laporte, raptado e posteriormente executado por um comando da Frente de Libertação do Quebec (FLQ) em Outubro de 1970. Seguiu-se o caso de Hans-Martin Schleyer em Outubro de 1977.
Schleyer era o presidente da confederação patronal da Alemanha Federal. Os autores do seu rapto e execução pertenciam à RAF (Fracção do Exército Vermelho), também conhecida por Grupo Baader-Meinhoff, a que já aqui me referi. Sete meses depois disso, em Maio de 1978, foi a vez doutro caso também muito mediático: Aldo Moro, um antigo primeiro-ministro italiano, que foi raptado e executado pelos membros da Brigadas Vermelhas.
Por curiosidade, veja-se o contraste entre as bagageiras escolhidas pelos terroristas alemães (a de um Audi 100) e italianos (a de uma Renault 4)... Isto para não referir já o aparente rigor científico (fotográfico, nos caso) que parece rodear a investigação do primeiro quando em comparação com o exuberante caos que parece estar estabelecido à volta da segunda…

09 maio 2007

VIVA O QUÉBEC LIVRE!!!

Uma das melhores provas da sabedoria e agilidade política do imperialismo britânico vê-se na forma como conseguiu criar regimes de funcionamento excepcionais que acomodassem satisfatoriamente a existência dentro das fronteiras coloniais de minorias europeias, brancas e não anglo-saxónicas. Foi o caso dos africânderes da África do Sul e dos franceses do Canadá. Embora semeado de incidentes, a história da presença daqueles dois grupos no seio do império britânico é globalmente pacífica.

Por outro lado, o tempo é um poderoso elemento que contribui para o esquecimento de como as grandes figuras do passado que hoje reverenciamos também tiveram os seus momentos maus e, não fosse a tecnologia moderna que os preserva, alguns haveria que hoje teríamos por inacreditáveis. Charles de Gaulle é um desses monstros da história do Século XX que, quando se aprontava para dizer umas palavras de improviso à multidão era uma verdadeira caixinha de surpresas.

Em 1967, o líder francófono do governo estadual do Québec no Canadá, de seu nome improvável Daniel Johnson*, na sua luta contra o governo federal canadiano de Ottawa pela cessão de maior autonomia, fora a Paris pedir o apoio do grande Charles à causa da francofonia. E de Gaulle mostrou-se disponível para ajudar: a pretexto da grande exposição Expo 67, que iria ter lugar em Montreal, a capital do Québec e a maior cidade canadiana, o presidente francês faria uma visita oficial, que seria mais centrada no Québec do que em Ottawa, a pequena capital federal…

Valha a verdade que o governo federal canadiano, conhecendo de Gaulle, já estava à espera de sarilhos. Era e é perfeitamente possível lidar com os problemas da autonomia e das especificidades da comunidade francófona do Québec (onde ela é francamente maioritária - cerca de ¾) no quadro do Canadá federal. Uma outra coisa são as consequências do separatismo: um Québec independente dividiria o Canadá em duas metades descontínuas, com quatro pequenas províncias Atlânticas e as restantes obrigatoriamente orientadas para o Pacífico, como se depreende do mapa abaixo.
A 24 de Julho de 1967, à chegada a Montreal e mesmo já atrasado em relação ao programa, de Gaulle resolveu dizer umas palavrinhas a uma multidão de 10 a 15 mil pessoas que o aguardava. Eis o conteúdo aproximado do que disse, numa tradução minha, bastante livre (pode-se escutá-lo no vídeo do discurso):

Uma imensa emoção enche-me o coração ao ver diante de mim a cidade de Montreal… francesa!! Em nome do velho país, em nome da França, saúdo-vos! Saúdo-vos do fundo do meu coração!
Vou-vos confiar um segredo que não irão divulgar... Aqui, esta tarde e ao longo da viagem que fiz até aqui chegar, encontrei uma atmosfera parecida com a da Libertação**!! Além disso, ao longo da minha viagem, constatei o imenso esforço de progresso e desenvolvimento e, por consequência, de libertação, que vocês estão aqui a realizar e é em Montreal que é preciso que eu diga isso, porque se há no mundo uma cidade exemplar pelos seus feitos de modernidade é a vossa! Digo é a vossa e permito-me acrescentar: é a nossa!

Se vocês soubessem a confiança que a França, atenta depois de imensos sacrifícios, tem agora em vós, se soubessem a afeição que ela recomeça a sentir pelos franceses do Canadá e se soubessem a que ponto ela se sente obrigada a colaborar na vossa marcha para o progresso… É por isso que ela assinou com o governo do Québec, o do meu amigo Johnson, acordos para que os franceses de um e outro lado do Atlântico trabalhem em conjunto para um mesmo objectivo comum francês. E, para além disso, todos os esforços que a França, todos os dias um pouco mais, aqui irá desenvolver, ela própria sabe que lhos serão devolvidos, porque vós estais a constituir aqui elites, fábricas, empresas, laboratórios que provocarão a admiração de todos e que, um dia, tenho a certeza, permitir-vos-ão ajudar a França.

Eis o que vim dizer-vos esta tarde acrescentando que levo desta ocasião espantosa de Montreal uma recordação inesquecível! A França inteira sabe, vê, escuta o que aqui se passa e posso-vos dizer que beneficiará com isso!

Viva Montreal! Viva o Québec!... Viva o Québec… livre!!!
Viva o Canadá francês! E viva a França!!!***

A França e o Canadá eram aliados antigos, os dois países faziam parte da NATO, mas para o governo federal canadiano a visita presidencial de Charles de Gaulle terminou ali… Foi o episódio que mais se aproximou, compreendendo as civilidades e cortesias excessivas características da diplomacia, com a expulsão pura e simples pelo país anfitrião de um chefe de estado estrangeiro na situação de visitante oficial…

*O pai de Johnson era de origem irlandesa e a mãe de origem canadiana francófona. Era bilingue, mas a sua formação académica fizera-se em francês.
** Estava, obviamente, a referir-se à libertação de França em 1944.
*** Versão definitiva, revista por quem sabe, com os meus profundos agradecimentos.