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29 junho 2024

A ESTE JÁ O VIMOS PRESTAR-SE A TUDO POR UM POUCO DE ATENÇÃO

Se há coisa de que me felicito foi ter criado, mais recentemente, esta etiqueta no Herdeiro de Aécio evocando acontecimentos com cinco anos. Aplicados criteriosamente, cinco anos passados podem possuir aquela magia de despojar aquilo que seriam actualidades no ridículo de gestos que agora se percebem ser completamente desprovidos de conteúdo, interesse e consequência. É terrível para quem nunca o teve: ao conteúdo. São os órgãos de comunicação social a escolher o que terá interesse. Mas compete-nos a nós seleccionar e reter o que dali teve verdadeiramente alguma consequência. A 29 de Junho de 2019, montado em cima de uma mota, Pedro Santana Lopes, ia «recolher contributos para o programa eleitoral» da Aliança (o partido que fundara e que entretanto já abandonou). Logo ele, que nunca tivera nenhuma ideia, e a quem se notava o embaraço quando se punha a fingir que as tinha (ideias). Portanto, quando estas mediocridades se põem a pavonear por aí, há uma quota parte da responsabilidade de os manter «por aí» que também é nossa. 

28 junho 2024

O CUMPRIMENTO PROTOCOLAR QUE «FUGIU» AO PROTOCOLO

28 de Junho de 2019. Esta fotografia protocolar dos tradicionais cumprimentos entre os dirigentes presentes na cimeira do G20 que decorreu na cidade japonesa de Osaka correu mundo. E correu mundo porque a fotografia fugiu ao protocolo. Era mesmo para fugir ao protocolo. Ao afixar aquelas trombas de quilómetro a primeira-ministra britânica estava a dar satisfação à opinião pública e publicada do seu país, que se mostrava indignada com o facto de os russos andarem a promover operações «à James Bond» no país do próprio James Bond. Envenenando exilados políticos russos. Não se sabia então, mas esse viria a ser apenas o preâmbulo de uma progressiva antipatia das opiniões públicas e publicadas ocidentais por Vladimir Putin. Finalmente, e só para constatar que, não sendo nada fotogénica, Theresa May podia afixar outras expressões para a ocasião, duas fotografias dela, uma delas na mesma cimeira, mas cumprimentando o anfitrião Shinzo Abe, e outra com o mesmo Putin, mas numa outra cimeira em 2016.

25 junho 2024

«CAPITÃO DE ABRIL, CONSTRUTOR DA DEMOCRACIA, COMBATENTE PELA PAZ»... MAS TAMBÉM "DESTRUIDOR" DO REGIME NOVEMBRISTA

25 de Junho de 1984. Por ocasião da realização do 2º Congresso Regional da UDP no Machico (Madeira), o dirigente nacional Mário Tomé destacava-se pelo tom inflamado e radical do seu discurso opinando que a única saída para a situação política económica e social de então seria «a destruição daquele regime reaccionário novembrista» (referência ao 25 de Novembro de 1975). A solução seria a instauração em Portugal da «República Popular», única que «permitiria ao povo a mais ampla liberdade para se organizar e lutar». Também se mostrava contra a presença de Portugal na NATO e contra o FMI, já que, segundo ele, «o povo português não devia nada a ninguém e era, isso sim, vítima há muitos e muitos anos da roubalheira e das negociatas dos burgueses com os estrangeiros». Enfim, trata-se de um conteúdo capaz de ombrear em despropósito e disparate com aquelas coisas que agora se ouvem a André Ventura. O folclore da asneira transferiu-se da extrema esquerda para a extrema direita nestes quarenta anos. E, no entanto, ainda aqui há cinco anos, os do Bloco de Esquerda (Catarina Martins) iam recuperar este mesmo disparatado Mário Tomé, numa manobra de lhe conferir estatuto de veneranda figura, branqueando-lhe estes discursos do passado e dando-lhe epítetos bonitos - capitão de Abril, construtor da democracia, combatente pela Paz - num gesto de amnésia que teve tanto de ridículo, quanto de despropositado. Nunca esqueçamos que a grande virtude da Democracia é aceitar todos estes cretinos - e classificá-los pelo que eles são: cretinos.

18 junho 2024

DIA DO CARNAVAL CONTRA O CAPITAL

(Republicação)
18 de Junho de 1999. Coincidindo com a abertura da 25ª Cimeira do G8, que iria começar nesse dia em Colónia, Alemanha, é convocado um conjunto de manifestações anti-capitalistas e anti-globalização para terem lugar em cerca de trinta cidades do Mundo. O título que foi escolhido para as designar - Dia do Carnaval contra o Capital - ainda hoje resulta mobilizador, embora, como é costume neste género de eventos, a identidade dos organizadores continue a permanecer um pouco difusa, permitindo a especulação quanto às suas intenções, para além da contestação pura e simples a um modelo político, económico, social que há vinte e cinco anos parecia não se deparar com alternativas ideológicas sérias. Quanto às manifestações propriamente ditas, onde a de Londres terá sido uma das maiores, senão mesmo a maior, ela terá juntado cerca de quatro mil pessoas (dados policiais), um número insignificante que terá tentado superar esse handicap com a abordagem carnavalesca dos protestos (fotografia intermédia).
Mas aquilo que terá constituído uma revelação na dita jornada de protesto mundial foi a rapidez como a comunicação social mundial se precipitou para lhe dar atenção a partir do momento em que os protestos se tornaram violentos (fotografia abaixo). Parecia ser isso que se esperava que eles - os manifestantes - fizessem e, a partir do momento em que o fizeram, as manifestações ganharam muito mais cobertura mediática do que a que alcançariam se eles se portassem bem. Estava estabelecido um padrão para o século XXI. Uma manifestação anti-qualquer-coisa garantiria cobertura mediática robusta só se os manifestantes começassem a escaqueirar o que tinham à frente e a confrontar-se com a polícia: foi o que aconteceu dali por seis meses na reunião da OMC de Seattle; foi o que aconteceu na cimeira de Praga do FMI e do BM em 2000; foi o que aconteceu na 27ª Cimeira do G8 de Génova em 2001; é aquilo que tem vindo a acontecer, finalmente, embora num contexto nacional e não mundial, com os protestos dos coletes amarelos em França, que se perpetuam sem que se perceba para quê, a não ser deixar as televisões de notícias entretidas ao fim de semana, quando faltam tópicos de que se fale.
E, no entanto, de quando em vez, percebe-se qual é o verdadeiro poder das manifestações de rua quando elas expressam uma verdadeira opinião popular significativa, como o que aconteceu em Hong Kong em Junho de 2019. Quando cerca de 5% da população vem para a rua manifestar-se contra uma medida legislativa indesejada, não é preciso que os manifestantes partam nada, nem baterem-se contra ninguém, para aparecerem nos telejornais. O acontecimento tem um significado político, não é apenas um espectáculo para passar na televisão, é a sério e os poderes políticos percebem o recado.

31 maio 2024

O ANÚNCIO DO PARTIDO DO JOSÉ CASTELO BRANCO

31 de Maio de 2019. No facebook, José Castelo Branco anuncia a sua intenção de formar um movimento político para concorrer às eleições legislativas. Uma daquelas parvoíces que depois vem a ter ressonância naquela imprensa para idiotas mas também em imprensa que, supostamente, pretende não ser para idiotas.   

11 maio 2024

O QUE É QUE A AMÉRICA PENSA DA ADOPÇÃO DA NUMERAÇÃO ÁRABE NOS SEUS CURRÍCULOS ESCOLARES

(Republicação porque tudo continua na mesma: o que agora se promove por Inteligência Artificial é apenas o contraponto à Estupidez Natural...)
Esta não é apenas mais uma daquelas sondagens a que os norte americanos costumam ser submetidos e que costumam produzir resultados embaraçosissimos quando às (in)competências produzidas pelo seu sistema de ensino. Os autores desta sondagem mostraram-se particularmente pérfidos quando apresentaram aos seus 3.624 inquiridos uma falsa questão: a de saber se os estabelecimentos de ensino nos Estados Unidos deviam ou não ensinar a numeração árabe como parte do seu currículo?... Como se vê acima, e admitindo uma margem de erro de 3%, os resultados são, mesmo assim, arrasadoramente conclusivos: 29% dos inquiridos responderam que sim, 56% responderam que não e 15% preferiram não emitir opinião. Numa simplificação numérica, em 7 americanos, apenas 2 responderam afirmativamente, e eu prefiro acreditar que a esmagadora maioria dos que o fizeram, o terão feito porque sabiam que, desde sempre, nos Estados Unidos se usou a numeração árabe de forma preponderante quando em concorrência com a numeração romana. Mas o que é sociologicamente interessante do resultado da sondagem é o comportamento da ampla maioria de 5 em 7 americanos que mostra não fazer a mínima ideia do que se lhe estava a perguntar. E aí, entre esses 5 americanos simbólicos, apenas 1 deles teve a humildade de assumir a sua ignorância. Os outros 4 optaram por se orientar por aquilo que lhes parecesse familiar na pergunta, e como árabe é qualquer coisa que para eles tem uma conotação negativa, opuseram-se, mesmo inconscientes que o faziam a respeito do sistema de numeração que lhes foi ensinado nas escolas e com o qual estão familiarizados! Para mim, não é apenas a demonstração (indesmentível) de intolerância; é sobretudo de reter o valor desproporcionado que se dá às inúmeras sondagens que se publicam por aí, mostrando o que os americanos (e outros) pensam. Será que os americanos que pensam são suficientes para conferir validade às amostras das sondagens?... (Este é um problema das sondagens que não me lembro do Pedro Magalhães ter falado...)

21 abril 2024

A ELEIÇÃO DE VOLODYMYR ZELENSKY

21 de Abril de 2019. Na segunda volta das eleições presidenciais ucranianas, o candidato Volodymyr Oleksandrovych Zelensky, de 41 anos, vence-as com 73% dos votos. Na primeira volta, que fora disputada por nada menos do que 39 candidatos (!), Zelensky, já fora o candidato mais votado, com 30% dos votos. Uma vitória de tal amplitude reflecte-se no mapa eleitoral (abaixo): Zelensky foi o candidato mais votado em quase todo o país, com excepção da região mais ocidental do país. Note-se também, no mesmo mapa, as regiões que já estavam então ocupadas pela Rússia e onde não pôde haver eleições, que aparecem assinaladas a cinzento.

02 abril 2024

NÃO ME DIGA QUE VOCÊ JÁ SE ESQUECEU DO QUANTO FOI «IMPORTANTE» O MOVIMENTO 5.7?!...

Aqui há cinco anos eram os órgãos da comunicação social tradicional (e não as redes sociais...) que se mostravam ao rubro perante o fenómeno do lançamento de um denominado Movimento 5.7 que se destinaria a «agregar as direitas», para acabar com «o longo Inverno socialista». Miguel Morgado era o nome que - como a pasta medicinal Couto - andava na boca de toda a gente e ainda hoje impressiona a onda publicitária que o acompanhou por estes dias de há cinco anos, mesmo num jornal que não seria particularmente simpático para com as suas cores, como é o caso do Público. Visto a esta distância, no mosaico acima está lá a coreografia toda. Acompanhando as notícias do mosaico no sentido da leitura - todas elas foram publicadas no Público! (imagine-se em locais menos hostis...) - começamos pela sessão de apresentação do próprio (Morgado), seguida de uma outra complementar para dizer ao que vinha: acabar com o «longo inverno socialista» (António Costa e a periclitante geringonça estavam no poder desde Novembro de 2015 e ia haver eleições dali a seis meses). João Miguel Tavares é o homem de serviço à direita para abraçar entusiasmadamente todos os projectos oriundos daquela área política e este não foi excepção: a fórmula desta vez foi «o abalo na política da cristaleira». Depois concedeu-se a oportunidade à estrela em ascensão para apresentar os seus pergaminhos numa entrevista em que ele zurziu como pôde no primeiro-ministro: «António Costa tem a posição típica do radical extremista». Até arrepia ouvir! Segue-se o processo de nomear pessoas conhecidas que se mostram ansiosas por fazer parte do Movimento 5.7, processo designado cinicamente por name dropping; aqui houve um certo excesso, quem ler o mosaico central fica-se quase com a sensação que o CDS estava ansioso por se mudar todo com armas e bagagens para o movimento do Morgado... Depois foi a fase em que foi preciso que o movimento organizasse umas coisas para dar uma prova de vida: a um mês das eleições europeias, propunha-se debater «a Europa e o Futuro», mas «sem partidos». Está-se mesmo a ver qual foi o sucesso da iniciativa... E depois foi só preciso dar tempo ao tempo para que os verdadeiros objectivos da iniciativa viessem à superfície, à procura do apadrinhamento de Passos Coelho à iniciativa de Morgado disputar a liderança do PSD. Omisso do mosaico estão os resultados das eleições de Outubro de 2019, que seriam o detonador da disputa pela liderança do partido. Mas as duas últimas notícias mostram que os acontecimentos não se propiciaram: o Movimento 5.7 acabou a definir «linhas para relançar a cultura de direita» - cultura que devia andar desalinhada e ninguém dera por nada até aí - e «Miguel Morgado desistia de se candidatar à liderança do PSD». Afinal era isso! E nós a pensar que era tudo cultura.

Era para publicar esta evocação ontem, que foi Dia das Mentiras, mas publico-a hoje, em que o governo de Luís Montenegro toma posse, para recordar Miguel Morgado que, apesar de ter sido levado ao colo pela comunicação social (se isto que vêem acima foi o Público, imaginem o que não lhe terá feito o Observador!...), apesar da sua excelência, é mais um daqueles excelentes quadros do PSD (já aqui me referi a Poiares Maduro) que não faz parte do excelente elenco que hoje toma posse. Ele, que nos seus dias de fama, até se propusera - como abaixo se lê - «reconstruir a direita»! Não a temos agora mais reconstruida que nunca?!...

15 março 2024

ATÉ MESMO O BALDRICK TINHA UM PLANO!

15 de Março de 2019. A catorze dias da data prevista para a saída do Reino Unido da União Europeia, a primeira-ministra Theresa May conseguia fazer aceitar um adiamento pelo parlamento britânico. A desqualificação da classe política inglesa perante a opinião pública que se importava e que importava já começara há muito, desde a decisão de realizar o referendo de 23 de Junho de 2016, e continuara com a forma absolutamente atarantada como as elites políticas do partido conservador no poder (e responsável pela realização do referendo) haviam reagido ao desfecho. Parecia não haver ali ninguém com siso que fizesse a mínima ideia do que havia que fazer. E o desnorte comparava-se com uma das personagens mais estúpidas das séries britânicas de humor: Baldrick, o criado/adjunto de Blackadder. Porque até mesmo Baldrick era conhecido por ter sempre um plano (a cunning plan): estúpido, disparatado e inexecutável. Mas tinha um plano. Theresa May parecia não ter nenhum. O Brexit só veio a ter lugar a 31 de Janeiro de 2020, já o primeiro-ministro era Boris Johnson que, esse dizia ter um plano, só que era como os do Baldrick...

21 fevereiro 2024

....COMO A «SABEDORIA» DO DIABO

(Republicação a pretexto dos cinco anos da canção Telemóveis de Conan Osiris no Festival e da crónica entusiasmada de Miguel Esteves Cardoso num dos dias seguintes)
Não é apenas o Diabo que se torna sábio apenas por ser velho. Também nós, desde que preservemos a memória, nos conseguimos surpreender a nós próprios com a displicência como descartamos aquilo que nos é dado a ler, apenas pelo facto do que lemos ser uma reedição do que já lêramos. No caso acima, tratou-se de uma crónica encomiástica sobre Conan Osiris (o vencedor do festival da canção de 2019) produzida pela imaginação fecunda de Miguel Esteves Cardoso. O mesmo que, ocorreu-me e vai para uns 40 anos, produzira um texto com o mesmo entusiasmo vigoroso a respeito de Relax dos Frankie Goes to Hollywood... Quem?... Precisamente. Podem ouvir abaixo essa tal canção que outrora arrebatou Miguel Esteves Cardoso no formato que podemos adivinhar pela prosa mais abaixo, e fiquemo-nos pela constatação que, possuindo ele tantas outras virtudes, nomeadamente como prosador e humorista, estes 40 anos entretanto transcorridos não lhe terão causada uma sensível evolução no gosto musical.

Os textos de MEC continuam a poder ser tão exuberantes na forma quanto vazios de substância, quanto as apreciações daqueles enólogos que nos querem persuadir que conseguem encontrar sabores subtis de chocolate e baunilha e sabores afins de casa de gelados em provas de vinhos. Para contraste, o povão, corporizado neste caso nos velhotes de um centro de terceira idade perdido no verdadeiro Portugal profundo, sem aquele dom da palavra escrita de Miguel Esteves Cardoso, limitaram-se a manifestar a sua opinião do jeito que sabe, parodiando Conan Osiris. (A propósito, será que o leitor ainda se lembrará da canção original que suscitou todos estes textos?...)

03 fevereiro 2024

O ARTISTA ANTÓNIO MARINHO E PINTO QUE SE RECANDIDATAVA PARA «PRESTAR CONTAS»

3 de Fevereiro de 2019. A edição do Público dedicava uma notícia e um editorial ao anúncio da recandidatura ao parlamento europeu de António Marinho e Pinto, ele que fora a surpresa das eleições anteriores de 2014, quando alcançara uma inesperada votação de 7% e 234.600 votos com a discreta etiqueta do MPT. Editorial e notícia eram coincidentes na antipatia que a personagem merecia aos dois autores, Manuel Carvalho e Liliana Valente. De 2014 para 2019, Marinho e Pinto arranjara entretanto um partido próprio e dissera muitas coisas, provavelmente demasiadas coisas que teriam tido o condão de irritar uma parte da assistência. Quanta dela (assistência) continuava a simpatizar consigo era coisa que só se descobriria dali por meses. Sabemos hoje o resultado da «prestação de contas» de Marinho e Pinto: uns míseros 15.800 votos, ou seja e apresentado de outro modo, ele perdeu a simpatia de 14 em 15 eleitores que havia cativado nas eleições que haviam decorrido cinco anos antes. Neste caso, o desfecho eleitoral veio demonstrar que a opinião pública e a opinião publicada mostravam-se absolutamente sintonizadas.

30 janeiro 2024

A REVELAÇÃO DE UM PUTO REGUILA CHAMADO RUTGER BREGMAN

30 de Janeiro de 2019. No Forum Económico Mundial que, como de costume e todos os anos, estava a decorrer na cidade suíça de Davos perante o interesse estruturado da comunicação social mundial, ocorre algo de verdadeiramente interessante. As sessões haviam decorrido entre 22 e 25 de Janeiro, mas tiveram que se passar mais alguns dias até que alguém tivesse encontrado algo de verdadeiramente interessante na sessão sobre desigualdade. No painel de comentadores encontrava-se um jovem historiador holandês de 30 anos chamado Rutger Bregman, (relativamente) pouco conhecido por ter publicado um livro chamado «Utopia para Realistas». A intervenção de Bregman não é extensa (veja-se acima) mas é arrasadora para a audiência, desde a hipocrisia de se invocar a questão ambiental mas que (pelo menos) 1.500 participantes se tinham deslocado para o evento em jactos privados, até à questão mais substancial de se estar ali a falar de desigualdade mas que ninguém se atrevera, até então, a aflorar sequer a questão da evasão fiscal dos mais ricos. Ninguém se atrevera sequer a mencionar o tópico impostos, algo que Bregman comparou a um congresso de bombeiros onde, para o combate aos fogos, fosse proibido mencionar a palavra "água". A ressonância do momento tornou-se viral. O holandês sintetizara em algumas frases concisas (mortíferas) o grande vazio constituído pelas reuniões de Davos. Tornou-se imensamente popular, embora as reuniões de Davos não tivessem mudado substancialmente de figurino - agora há alguma vergonha em viajar para lá de jacto privado e o Bono já não se dispõe a lá ir dizer truísmos bem intencionados...   

Podemos encontrar rastos desse momento de há cinco anos nas páginas da BBC ou do The Guardian. Em contraste, aquilo que podemos encontrar na mesma data em Portugal em publicações como o Público ou o Observador é... nada. (um nada mais expectável no Observador, conhecida que é a sua agenda política) É perante exemplos destes que se levanta a questão se os congressos de jornalistas, sempre tão lamurientos a apontar causas externas para o desprestígio da sua profissão, não precisariam que um Rutger Bregman aparecesse também por lá a dizer umas quantas verdades evidentes...

21 dezembro 2023

O «BLOQUEIO NACIONAL» DOS «COLETES AMARELOS» À PORTUGUESA

Para 21 de Dezembro de 2018 «mais de 13 mil haviam confirmado presença e cerca de 40 mil haviam demonstrado interesse em participar» num conjunto de eventos que pareciam ser a transposição para o nosso país do movimento de protesto dos Coletes Amarelos franceses. A PSP estava «a acompanhar a situação» e sentia-se a tensão, pelo menos a noticiosa e a das redes sociais. Nessa Sexta Feira e no local considerado mais emblemático para os protestos - a rotunda do Marquês de Pombal no centro de Lisboa - o que terá acontecido aparece notavelmente sintetizado em acelerado no vídeo abaixo, com a banda sonora - apropriadíssima - do Benny Hill, já que tudo não passou de um fiasco. Um fiasco que os estúpidos dos organizadores não perceberam da primeira vez, e insistiram uma segunda vez duas semanas depois...

26 outubro 2023

EM CONTRAPARTIDA, SER-SE IMBECIL É UMA COISA QUE INÊS PEDROSA NEM PRECISOU DE TREINAR: NASCEU COM ELA...

Há aspectos da vida que se aprendem por formação profissional, como seja a tolerância dos polícias a apanharem porrada, conforme acima postula Inês Pedrosa, nessa sua tese inesquecível de há cinco anos, mas há outros aspectos da vida que são completamente naturais e espontâneos, como a estupidez da própria autora da tese. Contudo, a haver problema, não é dela, é problema de quem continua a contratá-la para aparecer na televisão. É tão estúpido quanto ela, mas o que é que se há de fazer quando o objectivo parece ser o de ter idiotas em estúdio?... Ou, analisado de outro modo, a Inês Pedrosa talvez lhe paguem para ir dizer semanalmente aleivosias à televisão, os telespectadores é que ainda(?) não estão profissionalizados.

11 outubro 2023

O FRACASSO DO LANÇAMENTO DA SOYUZ MS-10

11 de Outubro de 2018 foi o dia em que o voo espacial tripulado da Soyuz MS-10 foi abortado pouco mais de um minuto após o lançamento por causa de uma falha de um dos quatro propulsores que não se separou normalmente da estrutura (ver acima). Tratava-se do 139º voo de uma cápsula Soyuz. Esta tinha como objectivo transportar dois cosmonautas para a Estação Espacial Internacional (ISS). No momento em que foi declarada a contingência, a torre do sistema de escape de lançamento já havia sido ejectada e a cápsula foi desligada do foguete usando os motores de lançamento de um foguete sólido que estão instalados na carenagem da cápsula. Os dois membros da tripulação, o cosmonauta da Roscosmos Aleksey Ovchinin e o astronauta da NASA Nick Hague, foram recuperados com boa saúde depois de terem efectuado um voo balístico que os levou até aos 93 km de altitude. O último episódio do género a acontecer num lançamento russo (soviético) dera-se quase precisamente 35 anos anos, quando a Soyuz T-10-1 explodiu na plataforma de lançamento em 26 de Setembro de 1983, um episódio também aqui evocado há poucos dias no Herdeiro de Aécio. Para os mais interessados, o filme animado abaixo explica em 4 minutos e meio o que aconteceu há cinco anos.

30 setembro 2023

O MOSQUITO TRANSMISSOR QUE ATRAVESSOU O ALENTEJO À ALENTEJANA

Há coisa de três dias foi notícia que fora «detectado em Lisboa» o «mosquito que transmite dengue ou Zika». Tal acontecimento não era, contudo, motivo de «preocupação». Compreende-se. A notícia não tinha como objectivo alarmar desnecessariamente os leitores sobre uma questão de saúde, era apenas uma preocupação dos jornais em satisfazer a curiosidade do vasto grupo de leitores que se interessam por entomologia, o estudo dos insectos... A curiosidade é que, já há cinco anos, e precisamente por esta altura (veja-se abaixo), já o rasto daqueles mesmos mosquitos, «aproximando-se de Portugal», estava a ser objecto daquele mesmo dedicado acompanhamento pela nossa comunicação social e, presumivelmente, pelos mesmos motivos nobres - a entomologia, que todos sabemos ser uma paixão nacional... Porque dar o destaque que aqui vemos nos dois títulos às doenças de que aqueles insectos podem ser portadores, não tem nada de alarmismo, é só rigor científico. E, por falar em rigor científico, há que constatar que, se os bichos demoram cinco anos a vir da Extremadura espanhola, ou seja, na melhor das hipóteses de Badajoz, até Lisboa, então é porque vieram a pé e à alentejana...

25 setembro 2023

QUANDO DONALD TRUMP ABANDONOU A SUA ZONA DE CONFORTO...

(Republicação adaptada)
25 de Setembro de 2018. Por uma vez, Donald Trump foi à assembleia geral da ONU proferir um discurso diante de uma plateia que não estava preventivamente encenada para endossar incondicionalmente aquilo que ele dizia... e foi o que se viu. As suas gabarolices foram acolhidas com gargalhadas contidas... que explodiram ao primeiro pretexto. Houve quem comparasse o episódio com o do sapato de Khrushchev. Concedendo atenuantes ao sapato...

22 setembro 2023

«O GORRO ATÉ AOS PÉS» E «A EXPLICAÇÃO QUE NÃO EXPLICA» NADA

Há cinco anos, e antecipando a recondução, dada como garantida, da procuradora Joana Marques Vidal as duas capas abaixo do jornal Expresso, de duas edições consecutivas, eram a demonstração de um «gorro enfiado até aos pés» a toda a comunicação social portuguesa. Nem em ocasião tão flagrante, os jornalistas deixam de tentar o expediente de fingir que nada aconteceu, insultando a inteligência e a memória dos seus clientes... As televisões e os jornais nunca o tentaram sequer, e o fiasco nunca foi explicado aos leitores, mas, por causa da sua reputação, o episódio tem um suspeito principal: Marcelo Rebelo de Sousa.

14 setembro 2023

UM PAÍS EM SUSPENSO SOBRE O QUE A AGÊNCIA «STANDARD & POOR» DIRIA DO SEU «RATING»

14 de Setembro de 2018. Foi apenas há cinco anos que a agência Lusa dava todo o destaque (que acima se pode apreciar) às intenções de uma outra agência, a Standard & Poor, quanto à notação financeira que esta atribuiria naquele dia à divida soberana portuguesa. O interessante - e humilhante - recordar é a relevância e a expectativa que se percebe no conteúdo da notícia. Esclareça-se que, dessa vez, a notação ficou na mesma: não subiu, nem desceu. Isso só aconteceria dali por seis meses, quando subiria mais um nível. Depois disso subiria ainda mais um nível, perante um olhar cada vez mais desinteressado da opinião publicada, mas, vale a pena esclarecer que actualmente ainda se encontra um nível abaixo daquele de que gozava em 2010, antes da eclosão da crise das dívidas soberanas.

31 agosto 2023

«A MEDIDA PEDAGÓGICA EXEMPLAR» QUE NÃO RENDEU VOTOS

31 de Agosto de 2018. Quase no fim do vazio noticioso de Agosto o país político é surpreendido com a decisão do PSD de Rui Rio de dar visibilidade ao sancionamento dos seus candidatos autárquicos que se haviam excedido nos custos das suas campanhas eleitorais. Era um contraste com a cultura cultivada por Pedro Santana Lopes que, aliás, abandonara com estrondo o PSD para fundar um outro partido no princípio daquele mês. Se lido dessa maneira integrada (coisa que não me lembro que os analistas políticos tenham feito), este gesto podia ser interpretado como um mostrar a porta da rua aos quadros mais santanistas do PSD. Mas o futuro virá a demonstrar que demonstrar rigor na prestação de contas não é grande argumento na política portuguesa.