12 de Janeiro de 1984. Era com a compostura indulgente que a notícia acima documenta, que era noticiada a reeleição do presidente argelino, Chadli Benjedid. Importa acrescentar que, consultando a documentação disponível a respeito deste acto eleitoral, os números da vitória de Benjedid se revelam ainda mais «esmagadores» do que os 95,36% anunciados à época: uns quase unânimes - 99,42%! Contudo, seja qual for a versão do disparate, aquilo que é retrospectivamente uma vergonha é apreciar como jornais e jornalistas podiam noticiar estas palhaçadas sem adicionar, ao menos, um qualquer comentário crítico manifestando a opinião - óbvia! - quanto à inverosimilhança da seriedade de tais actos eleitorais.
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12 janeiro 2024
08 dezembro 2023
O MASSACRE DE TADJENA
(Republicação)
8 de Dezembro de 1998. Ocorre o massacre de Tadjena, que consistiu no assassinato de 81 aldeões de duas povoações de montanha, próximas da cidade de Tadjena (assinalada no mapa acima). Os autores foram identificados vagamente na comunicação social como extremistas islâmicos, sem grande informação adicional. O realce dado a este massacre é meramente simbólico. Infelizmente, nem pelo número de mortos ele se distingue de tantos outros que ocorreram no Norte da Argélia naqueles anos (veja-se o mapa acima), no quadro de uma guerra civil argelina da qual nunca se perceberam muito bem nem os contornos políticos, nem as intenções dos beligerantes, apenas as consequências sangrentas. Mas não deixa de ser irónico pensar que, se o mesmo massacre tivesse ocorrido 40 anos antes (1958) e tivesse ocorrido no quadro da guerra da independência da Argélia (1954-1962), e independentemente de qual dos lados desse outro conflito tivesse sido o seu autor, seria adquirido que as suas repercussões históricas ainda hoje se fariam sentir. Ao contrário do que acontece. De onde se conclui que a importância dos massacres é relativa e independente do número de mortos.
08 novembro 2022
OPERAÇÃO VILLAIN
Domingo, 8 de Novembro de 1942, foi um dia destinado a ser histórico: pela primeira vez, os Estados Unidos envolveram-se de uma forma directa no Grande Teatro de Operações da Europa no decurso da Segunda Guerra Mundial. Fizeram-no desembarcando forças suas em conjunção com os britânicos no Norte de África, numa mega-operação anfíbia designada por Operação Torch, cuja intenção era desembarcar um pouco mais de 100.000 homens nas colónias francesas da Argélia e de Marrocos (mapa acima). Enquadradas na Operação Torch estavam previstas algumas operações mais específicas para o controlo de objectivos especiais como portos e aeroportos. Havia, por exemplo, a Operação Terminal, uma acção naval destinada a conquistar intacto o porto de Argel e havia também a Operação Villain, destinada à captura dos aeródromos de Tarafaoui e de La Sénia a Sul da cidade argelina de Orão, operação que tinha a particularidade de ser a primeira acção de combate dos paraquedistas norte-americanos. Seria uma Operação que poderia ter sido a gloriosa percursora de muitas outras executadas pelas tropas aerotransportadas norte-americanas, depois e ainda hoje transformadas em unidades de elite do exército norte-americano,… mas não foi.
Embora destinados a tornarem-se em várias dezenas de milhares até ao final do conflito, os pára-quedistas norte-americanos em finais de 1942 eram ainda muito poucos. As forças disponíveis para a Operação cingiam-se a 556 homens pertencentes ao 2º batalhão do 509º Regimento de Paraquedistas (acima), comandado pelo major Edson D. Raff, que embora já colocados em Inglaterra, prosseguiam ainda o seu aperfeiçoamento operacional naquele país. Os aviões de transporte eram 39 C-47, os melhores aviões de transporte da época. Mas tudo o resto que se relacionava com a Operação eram problemas nascidos da falta de experiência. O ritual que acompanhou o embarque, onde havia instruções específicas de como arrumar os artigos pelos bolsos dos uniformes de salto – dois lápis no bolso peitoral esquerdo, o papel higiénico no das ancas, do lado direito, uma máquina de barbear com quatro lâminas no bolso imediatamente abaixo, o da coxa, as quatro granadas regulamentares nos bolsos do casaco – condena-se mais pela atitude do que pelo rigor, tentando organizar aquilo que a experiência viria a demonstrar depois ser imprevisível. Outros erros, porém, eram mais fácil e mais directamente identificáveis.
Descolando da Península da Cornualha no Sudoeste de Inglaterra, os C-47 teriam que fazer um percurso de 1.800 km, correspondente a cerca de 9 horas de voo, cuja primeira parte seria a afastar-se das costas de França sob controlo alemão para depois atravessar a Baía da Biscaia e a Espanha teoricamente neutral (mas tendencialmente pró-alemã) até atingirem o objectivo (veja-se o trajecto acima ampliando o mapa). Além do entorpecimento, as condições não seriam as melhores para os passageiros, a 10.000 pés de altitude em cabines não pressurizadas. Além disso, como a autonomia do C-47 ronda os 2.500 km, os aparelhos nunca poderiam regressar a Inglaterra, ficava por resolver o problema do seu destino na eventualidade de os paraquedistas não conseguirem capturar em tempo útil os seus objectivos ou se a Força Aérea francesa deixasse as pistas inutilizáveis. Para sete aviões o problema nem se chegou a colocar porque se dispersaram durante a penosa travessia de Espanha, tendo um – o sortudo desse grupo – vindo a aterrar na Base britânica de Gibraltar, outros dois em Fez, no Marrocos francês, que era suposto ser invadido nesse mesmo dia, mas a partir do mar e em Casablanca (ver mapa inicial), e ainda mais quatro que aterraram no Marrocos espanhol neutral, onde as tripulações e os 57 paraquedistas ficaram internados nos três meses que se seguiram.
Mas, se os outros 32 C-47 chegaram à Argélia, o melhor resultado foi obtido por um grupo de três, onde se contava o do comandante do batalhão, que conseguiu acertar com o aeródromo de La Sénia… para serem acolhidos com fogo preciso de artilharia anti-aérea francesa que os impossibilitou lançar os pára-quedistas. A maior concentração de transportadores, mais de uma dúzia e ainda com os pára-quedistas a bordo, acabou por vir a formar no grande lago salgado de Sebkra d’Orão, onde alguns C-47 desorientados que o sobrevoavam se foram reunindo… até atraírem a atenção da aviação francesa que os veio atacar naquele aeródromo improvisado. O major Edson D. Raff que, recorde-se, ainda estava no ar, tentou salvar a honra da unidade, saltando em primeiro lugar do seu avião quando decidiu atacar pela retaguarda uma coluna militar que se aproximava ameaçadoramente da concentração de aviões do lago salgado. Caiu mal, fracturou algumas costelas, e estava doloridamente a cuspir sangue quando descobriu que a ameaçadora coluna militar era afinal norte-americana… As outras tripulações e outros pára-quedistas iam entretanto aterrando desgarrados pela Argélia e por isso sendo feitos prisioneiros pelos franceses. Os pára-quedistas restantes do 509º só alcançaram o aeródromo de Tafaraoui no dia seguinte em camiões, cortesia da 1ª Divisão Blindada dos Estados Unidos.
Com a Operação Villain aprendeu-se imenso mas foi um estrondoso fracasso. Goza do duvidoso privilégio de nem sequer ser mencionada autonomamente na Wikipedia, ao contrário de outros fiascos equivalentes registados naquela mesma altura em Operações anfíbias (Reservist e Terminal), que foram depois promovidas a gloriosos fracassos, através daquele segredo que a Royal Navy sabe tão bem preservar. Com menos pompa mas mais objectividade, na Operação Villain, além de não se ter conseguido atingir nenhum dos objectivos, um balanço efectuado três dias depois constatava que só 14 dos 39 C-47 utilizados permaneciam operacionais. O desgaste humano, incluindo a viagem de nove horas a temperaturas gélidas, fora muito superior: só restavam 15 paraquedistas aptos para nova missão. Só mesmo os mais curiosos conhecem esta alvorada tão pouco auspiciosa das operações aerotransportadas norte-americanas.
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05 julho 2022
UMA INDEPENDÊNCIA SEM CERIMÓNIAS
5 de Julho de 1962 e terminando um ciclo de evocações associadas aos acontecimentos que conduziram à independência da Argélia, refira-se, à despedida, como essa independência se fez sem quaisquer cerimónias. Como se lê na notícia acima, Christian Fouchet, que fora nos últimos três meses e meio o alto-comissário francês na Argélia, apanhou o avião e foi-se embora. Por norma, como relembrámos aqui muito recentemente em relação aos britânicos ao sair de Hong-Kong, as potências coloniais faziam questão de partir em estilo. Contudo, houve outras vezes em que as circunstâncias políticas e também militares não permitiram nem recomendavam grandes cerimónias. Aconteceu a Portugal no caso angolano, a 11 de Novembro de 1975. Já havia acontecido aos britânicos no Iémen em 30 de Novembro de 1967. E, como se comprova acima, houvera este caso inicial dos franceses na Argélia em Julho de 1962. A grande diferença será que, tanto franceses e ingleses serão excelentes a abafar estes episódios - se não os apontarmos, como aqui estamos a fazer, nem se dá por eles. Entre nós, pelo contrário, parece ser virtude denunciá-los quando acontecem connosco. O caricato é quando a crítica é ainda rematada pelo desabafo: «Só neste país...»
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01 julho 2022
O CREPÚSCULO DA ARGÉLIA FRANCESA
1 de Julho de 1962. Ainda não se haviam desencadeado conflitos nas três principais colónias portuguesas de África (faltava a Guiné e Moçambique) e já o principal conflito dos franceses chegava ao seu fim. Em 1 de Julho de 1962 decorria na Argélia um referendo sobre a independência. Referendo baseado nos acordos de Évian, estabelecendo como princípio o valor de 1 eleitor = 1 voto, o facto de haver uma esmagadora maioria de população de confissão muçulmana (cerca de 90%), não oferecia dúvidas quanto aos resultados. Com aquelas regras do jogo, os radicais da OAS que se opunham à independência, estavam à partida derrotados pela demografia e pela aritmética. Os resultados foram conclusivos... e esmagadores. Uma percentagem de 99,7% de votos pelo sim, com uma afluência de 91,9% dos eleitores. Se, num dos subtítulos da notícia, se podia ler que «os europeus» (argelinos de ascendência europeia) «haviam votado em número superior ao que se previra», noutra notícia mais adiante percebia-se de que outro modo eles estariam a votar... com os pés, para recuperar a expressão consagrada por Lenine. Só no mês de Junho de 1962 199 mil pessoas haviam chegado a Marselha, vindas da Argélia. Representavam cerca de 20% do milhão de pieds-noirs argelinos. Mas talvez o aspecto mais importante de todas as notícias respeitantes à Argélia publicadas naquele dia era a demissão de oficiais do incipiente exército argelino, em conflito com o poder político do governo provisório da República argelina (GPRA). Guardado para o futuro, estava o facto do coronel (Houari) Boumédiène (1932-1978), a que a notícia se refere, vir a encabeçar em 19 de Junho de 1965 o primeiro golpe de Estado da história da Argélia argelina. Permanecerá no poder até à sua morte.
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29 junho 2022
O ASSASSINATO DE MOHAMED BOUDIAF
29 de Junho de 1992. Há 30 anos e também diante das câmaras de TV como acontecera com Sadat do Egipto, o presidente argelino é assassinado. A Argélia daquela época é um país visivelmente bastante mais dilacerado do que o fora o Egipto depois da assinatura dos Acordos de Camp David. Sem se ter tornado num país comunista depois de 1962, o desmoronamento da União Soviética deixara a Argélia numa posição tão desamparada quanto muitos antigos satélites soviéticos. Os trinta anos precedentes tinham decorrido sob a égide de um regime militar autoritário dirigido por uma clique abrigada sob a sigla daquela que fora a Frente de Libertação Nacional (FLN) que travara a guerra de independência contra a França. A FLN da década de 1980 era uma organização decrépita e caduca como um partido comunista do Leste europeu. Quando o «ar do tempo» forçou a realização de eleições finalmente livres em Dezembro de 1991, o desagrado popular consolidou-se na votação maioritária numa Frente Islâmica de Salvação (FIS). Era conferir legitimidade democrática a uma organização que prometia que o não seria (democrática) depois de chegar ao poder. Contudo, como as eleições haviam sido organizadas à francesa (i.e., em dois turnos), o regime - agora designado ironicamente por os militares, quase como se se tratasse de uma ditadura latino-americana ou aqueles protagonistas que conduziram o nosso PREC - ainda foi a tempo de se salvar, adiando a segunda volta sine die. E é nessa fase que os militares vão buscar Mohamed Boudiaf (1919-1992) para conferir respeitabilidade a um regime em degradação. Mohamed Boudiaf fora um dos dirigentes históricos da FLN da guerra (1954-1962) e que perdera depois quando das guerras que se haviam sucedido à paz. Preso e condenado à morte em 1964, exilara-se. O que o tornava precioso para os militares em 1992 é que fora um dirigente histórico do FLN, continuara vivo e, por ter vivido afastado dos círculos do poder, não podia ser associado à corrupção que maculava o regime. O preço a pagar por este último (e importante) predicado é que Mohamed Boudiaf, ausente desde 1964, era uma pessoa desconhecida entre a esmagadora maioria dos argelinos (⅔ dos argelinos ainda não haviam nascido quando Boudiaf se exilara). Outro problema, e esse era um risco corrido por quem, por detrás das cortinas, montara a manobra, era se Boudiaf alinharia com o papel protocolar que lhe havia sido conferido, presidindo sim, mas a um Alto Conselho de Estado acabado de criar, formado por cinco pessoas. Os cinco meses e meio que decorreram entre a posse de Mohamed Boudiaf e o seu assassinato parecem indiciar que a sua conduta não decorreu de acordo com o esperado. Significativamente, o seu assassinato teve lugar durante uma reunião de quadros (vídeo abaixo), acções em que Boudiaf estaria à procura de uma via própria entre a guerra civil que se anunciava entre militares e militantes islâmicos. A acusação oficial de que terão sido estes últimos os seus assassinos resvala num certo cepticismo indiferente, conhecidas as iniciativas de Boudiaf em mostrar alguma pedagogia no combate contra a corrupção da FLN, nomeadamente tentando pegar no exemplo do seu antecessor militar Chadli Bendjedid - o que provocou um grande mau estar! O peso das suspeitas é tão grande de um lado quanto doutro. Personagem interessante, pela brevidade da sua passagem pelo poder quando conjugada com a sua falta de contemporização para com o papel que esperavam dele, Mohamed Boudiaf bem podia ter-se tornado num daqueles mitos históricos, um belo protagonista para a História Contrafactual.
08 abril 2022
«É PRECISO RESPEITAR A VONTADE POPULAR»
8 de Abril de 1962. Para solução da questão da guerra da Argélia e para além da assinatura dos Acordos de Évian, o presidente de Gaulle quis consolidar aquela solução política com um referendo ao povo francês, um acto eleitoral que foi organizado em tempo record: três semanas. E que teve lugar há 60 anos. Fosse qual fosse a maneira como se quisessem interpretar os resultados, quando 17,5 milhões de franceses - em 29 milhões que o podiam fazer - se pronunciam favoravelmente à solução alcançada, os radicais, por muito militantes e empenhados que sejam, deixam de ter alguma coisa para argumentar. A vontade expressa de todos os franceses em eleições livres tem de ser um argumento político definitivo. A dos portugueses, também. Uma das palavras de ordem do PREC foi: «É preciso respeitar a vontade popular!». Mas recordo-me que os comunas e aparentados nunca gostaram dela e nunca a usaram nas suas manifestações - compreende-se porquê.
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18 março 2022
ASSINATURA DOS ACORDOS DE ÉVIAN
Évian-les-Bains é uma estação termal no Leste de França, na Saboia, junto à fronteira com a Suíça. Foi aí que há sessenta anos foi publicamente anunciado que haviam terminado com sucesso as negociações que vinham ali a decorrer entre o governo francês e a FLN, com o intuito de pôr fim à guerra na Argélia.
05 fevereiro 2022
(ARGÉLIA) «OU SEJA, UM ESTADO SOBERANO E INDEPENDENTE»
5 de Fevereiro de 1962. Num discurso que. como se lê cima, era «ansiosamente» aguardado, e que foi rádio e teletransmitido (abaixo) tanto para a França como para a Argélia, o presidente Charles de Gaulle preconiza, de uma forma clara, a concessão da independência à Argélia («...réaliser la paix et d'aider l'Algérie à prendre en main son destin en ménageant l'institution d'un exécutif provisoire et en nous tenant prêts à reconnaître sans nulle restriction ce qui ne manquera pas de sortir de l'autodétermination. C'est-à-dire un Etat souverain et indépendant.») As negociações ainda estão em curso, e só se concluirão no mês seguinte, com a assinatura dos Acordos de Évian (a 18 de Março) mas, para a para a população francesa, não sendo ainda o fim do problema argelino, era o princípio do seu fim, que se concluirá, aliás, dali por precisamente cinco meses - a 5 de Julho de 1962 - com a independência da Argélia.
Em contraste, no mesmo dia, no mesmo jornal, na mesma (primeira) página, embora um pouco mais abaixo, mas ainda a propósito de políticas coloniais, o representante português na ONU endereçava um recado para a opinião publicada dos Estados Unidos, manifestando o enorme desagrado do governo português com o comportamento da administração norte-americana perante os acontecimentos recentes em Angola e na Índia.
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26 dezembro 2021
A PRIMEIRA VOLTA DAS PRIMEIRAS ELEIÇÕES ARGELINAS LIVRES
26 de Dezembro de 1991. Ao mesmo tempo que ocorria o fim do fim da União Soviética, os ideais vencedores da democracia, que haviam derrotado os do comunismo, preparavam-se para sofrer um rude golpe. Nesse mesmo dia, os resultados da primeira volta das primeiras eleições legislativas livres que ocorriam na Argélia, depois de quase 30 anos de independência, davam uma impressionante maioria à formação política islâmica, a Frente Islâmica de Salvação (FIS), com 47,3%. dos votos Em função destes resultados e considerando que o sistema eleitoral adoptado fora o de círculos eleitorais uninominais, com disputas eleitorais a duas voltas caso necessário (à semelhança do processo empregue em França), perspectivava-se uma esmagadora maioria da Frente Islâmica de Salvação na composição da futura Assembleia, depois da realização da segunda volta das eleições, marcada para dali a três semanas (16 de Janeiro de 1992). Ou seja, quando convocados a exprimirem-se por uma primeira vez pelos verdadeiros processos democráticos, os argelinos optavam maioritariamente por uma formação política que não garantiria a sua manutenção, caso alcançassem o poder. Como não era bem isso que os promotores das eleições estavam à espera, já não houve segunda volta. E, por esta vez, os grandes paladinos da promoção da democracia, o denominado Ocidente que acabara de ganhar a Guerra-Fria, com a França como antiga potência colonizadora em lugar de destaque em toda essa hipocrisia, não se mostraram particularmente indignados com o cancelamento da manifestação da vontade popular. Tornara-se evidente que, na Argélia e provavelmente em vários outros países do Terceiro Mundo, a expressão da vontade popular não era para ser considerado um valor absoluto.
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20 julho 2021
A CRISE DE BIZERTA
20 de Julho de 1961: a crise de Bizerta, entre a França e a Tunísia, atinge o seu apogeu. A Tunísia fora um protectorado francês desde 1881 até 1956. Quando a França lhe concedeu a independência, a 20 de Março de 1956, reservou para si o usufruto da base naval de Bizerta. A cidade de Bizerta era um daqueles portos naturais de fundação fenícia que ganharam depois relevância comercial durante o apogeu dos cartagineses e cuja localização se pode apreciar no mapa acima, dispensando as explicações sobre a sua importância no Mediterrâneo central.
Essa concessão da independência à Tunísia por parte da França também deve ser relacionada com a Argélia vizinha e com a guerra subversiva que lá se começara a travar para a sua independência desde há ano e meio. A França aliviara-se das suas duas outras possessões no Magrebe, Marrocos e Tunísia (acima), para se concentrar na Argélia, onde existia uma comunidade de um milhão de europeus que coabitava com uma maioria muçulmana de oito milhões.
Porém, a causa da solidariedade árabe depressa povoou as regiões fronteiriças da Tunísia com locais de treino e refúgio dos insurrectos argelinos da FLN (os triângulos do mapa acima) com a base naval à ilharga a incomodar a sua logística. Mas em 1961, quando se desencadeou a crise de Bizerta, quase tudo mudara. A França, agora dirigida por de Gaulle, desistira de se manter na Argélia e ela parecia enfraquecida, houvera até um pronunciamento militar em Argel para derrubar o governo.
Pelo menos fora esta a leitura do presidente tunisino, Habib Bourguiba, aos acontecimentos de Abril de 1961 em Argel, quando agora pretendia forçar a nota em proveito do seu país através de um pretexto: os franceses haviam procedido a obras de ampliação da pista de aviação sem o participar. A escalada que se seguiu atingiu o seu clímax a 20 de Julho de 1961 com três dias de violentos combates entre os militares franceses e a mistura político-militar tunisina¹ que se lhes opunha.
O desfecho – a captura da cidade propriamente dita pelos franceses – pode ser constatada no vídeo acima. Mas, como já acontecera em 1956 no Egipto com a Crise do Suez e estava em vias de acontecer com a Argélia vizinha, a superioridade táctica francesa não se conseguia concretizar numa superioridade política equivalente. O que ali se conseguiu foi o privilégio de determinar a data de abandono da base, em 15 de Outubro de 1963, só depois da independência da Argélia.
¹ No final desses combates os franceses tinham aprisionado 780 tunisinos, dos quais apenas 419 eram militares, 361 eram civis capturados com armas.
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25 abril 2021
A APRESSADA EXECUÇÃO DA OPERAÇÃO «GERBOISE» VERDE
25 de Abril de 1961. O primeiro ensaio nuclear francês realizara-se na Argélia meridional, em pleno deserto do Sahara, a 13 de Fevereiro de 1960. Outros ensaios se seguiram, a que se deram o nome de operações «Gerboise» (jerboa, em português), um pequeno roedor nocturno do deserto, de patas compridas e grandes orelhas, assaz comum na fauna do local dos testes. Cada ensaio recebia um nome de código ligeiramente diferente, a operação «Gerboise» Azul fora o ensaio original (acima), a que se seguiram a «Gerboise» Branca e a «Gerboise» Vermelha (as outras cores da bandeira francesa), todas elas antes desta operação «Gerboise» Verde de há precisamente 60 anos. Contudo, esta última diferenciou-se de todas as anteriores pela circunstância de ter sido executada à pressa. Poucos dias antes, alguns generais franceses haviam realizado um pronunciamento militar em Argel em rebelião contra as decisões de Paris e da metrópole (veja-se abaixo a notícia da época). O momento era tenso. Sem uma garantia de controle e considerada a localização do centro de ensaios na própria Argélia semi-insurrecta, as autoridades francesas legítimas decidiram detonar preventivamente a próxima arma nuclear a ensaiar, acautelando a remota hipótese (catastrófica!) de que ela pudesse vir a cair sob o controle dos generais revoltados.
E foi assim, que em português designaríamos por às três pancadas, que a operação «Gerboise» Verde arrancou. Sabe-se hoje, por exemplo, que a pilha de combustível (plutónio) que era destinada a formar a massa crítica do engenho foi transportada na noite anterior ao ensaio num prosaico Citroën 2 CV por 50 km de pistas no deserto... Não surpreenderá o leitor saber que, com tanta preparação, o ensaio se revelou tecnicamente um fiasco: a potência do engenho, que os cálculos teóricos prévios estimavam alcançar entre as 6 e as 18 mil toneladas de TNT equivalente, ficou-se por um décimo da potência esperada. Mas o mais importante fora feito: como nessa época as armas nucleares francesas se fabricavam a um ritmo artesanal, desaparecera a hipótese dos generais de Argel se apropriarem de um desses engenhos. A edição de há 60 anos do Diário de Lisboa transmitia devidamente o recado tranquilizador que o general de Gaulle pretendia dar aos seus homólogos (abaixo), comprovando, em paralelo, um dos mais sólidos princípios do jornalismo de massas: nenhum rumor é para ser levado a sério até ele ser devidamente desmentido, como acontecia com aquela sugestão (absurda!) que os acontecimentos de Argel haviam influenciado o calendário dos ensaios nucleares... Eu creio que há certas circunstâncias em que, quem produz originalmente a informação, se sente inferiorizado se não a produzir mentindo desnecessária e descaradamente, insultando no processo a inteligência daqueles a quem a informação é dirigida.
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21 abril 2021
O «PUTSCH» DE ARGEL
21 de Abril de 1961. Dá-se em Argel um pronunciamento militar dirigido por quatro generais franceses contra a eventualidade da concessão da independência à Argélia, então colónia francesa (da esquerda para a direita: Edmond Jouhaud, Raoul Salan, Maurice Challe e André Zeller). Sendo uma contagem de espingardas, estes generais africanos não estavam dispostos a levar a sua insubordinação contra a legalidade democrática até ao ponto de desencadear uma guerra civil, como o haviam feito 25 anos antes os seus homólogos espanhóis. O confronto travar-se-á realmente nas ondas hertzianas: a ORTF em Paris, contra a Radio Argel. Na capital, e porque o assunto se apresentava como uma coisa entre generais, Charles de Gaulle fardar-se-á também de general para comparecer diante das câmaras de televisão e ali desancar de uma forma desabusada os generais insurrectos, tratando-os por um «quarteto de generais reformados»*.
Em privado, e depois de se assegurar da neutralização das cumplicidades que os insurrectos disporiam na metrópole (como as unidades sob as ordens dos generais Faure e Vanuxem), o presidente comentava: «o que é grave em tudo isto é que não é para ser levado a sério»**. Mas, para além dos comentários sempre inspirados que são atribuídos a de Gaulle, o episódio arrastou-se por cinco dias (21-26 Abril), até à rendição dos insurrectos. A maior parte do contingente militar francês na Argélia, formado por quem cumpria o serviço militar obrigatório, havia-se recusado a seguir os generais. A arma secreta de de Gaulle fora o transistor. No final, 220 oficiais foram demitidos dos seus comandos, 114 foram levados a tribunal militar, 3 unidades históricas do exército francês foram dissolvidas. E, como veremos dentro de dias, mesmo o armamento nuclear que os franceses desenvolvia então no Sahara foi detonado precipitada e preventivamente para o retirar do alcance dos insurrectos.
* «Un quarteron de généraux en retraite» no original. A palavra francesa «quarteron" é bastante mais depreciativa do que a tradução recomendada de quarteto.
** «Ce qui est grave en cette affaire, c'est qu'elle n'est pas sérieuse».
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02 fevereiro 2020
PLENOS PODERES PARA QUE DE GAULLE DÊ A INDEPENDÊNCIA À ARGÉLIA
2 de Fevereiro de 1960. Em consequência e como resposta à «semana das barricadas» que acabara de ser finalmente controlada em Argel, em Paris, o Presidente Charles de Gaulle solicita à (e obterá da) Assembleia Nacional um voto de plenos poderes por mais de um ano para que o governo de Michel Debré solucione o problema argelino. O resultado da votação (uma esmagadora maioria de 449 votos a favor versus 79 contra) é um sucesso governamental e uma primeira indicação bastante clara que a a classe política da França metropolitana não se mostra disposta a suportar nem as intenções integracionistas da comunidade argelina de origem europeia (pieds-noirs), nem o prosseguimento da Guerra da Argélia para as sustentar. No processo, dois deputados, promotores activos dos acontecimentos em Argel, são pronunciados por atentado contra a segurança interna do Estado.
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24 janeiro 2020
A SEMANA DAS BARRICADAS DE ARGEL
24 de Janeiro de 1960. Início da semana das barricadas em Argel. As razões imediatas invocadas são outras, mas o que os manifestantes argelinos de origem europeia (pieds noirs) reclamam é do progressivo afastamento das intenções do governo francês no suporte a uma solução integracionista para a Argélia. A atitude é considerada por eles uma traição, especialmente depois de eles - pieds noirs - terem contribuído de forma muito significativa para o clima de tensão que esteve por detrás da crise de Maio de 1958, que culminou com a chegada do general de Gaulle ao poder e a fundação da V República. A redacção que é dada aos acontecimentos pelos jornais portugueses é inequívoca na sua parcialidade: repare-se nos títulos acima que os manifestantes são qualificados por «ultras» e que o seu chefe - Joseph Ortiz - nem sequer tem direito a ser nomeado ao lado do nome do general Challe, que representa a autoridade. Mais importante, as notícias daquele dia ainda não davam conta dos custos humanos dos combates travados - a tiro - entre os insurrectos e as forças da ordem nas ruas de Argel: 22 mortos, 14 do lado da polícia e 8 do lado dos manifestantes, para além de 147 feridos. A situação permaneceu tensa por mais uma semana, com insurrectos e forças da ordem, acantonados nas suas posições, até à rendição dos primeiros a 1 de Fevereiro e o exílio dos cabecilhas do movimento. Uma ironia final em toda esta história é que o general Maurice Challe, que acima aparece em destaque na representação da ordem legal em Argel, virá a ser, por sua vez, o cabecilha de uma outra insurreição na Argélia, em 22 de Abril de 1961, o chamado Putsch dos Generais.
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15 setembro 2018
A LINHA MORICE
15 de Setembro de 1958. Conclusão da Linha Morice ao longo da fronteira entre a Argélia e a Tunísia. Estendendo-se pelos 450 km da metade norte da fronteira entre os dois países e separando as regiões mais povoadas (para o sul fica o deserto do Sahara), a Linha Morice era constituída originalmente por barreiras encadeadas de arame farpado, adjacentes a campos de minas. Baptizada com o nome do ministro da Defesa André Morice (e, nesse aspecto, uma reedição pouco auspiciosa da antecessora Linha Maginot), a intenção era a de bloquear os guerrilheiros da FLN que, oriundos dos campos de treino da Tunísia, pretendiam infiltrar-se em território argelino. Além de dispor de postos de vigia intervalados para mais rapidamente acorrer aos incidentes que ocorressem, o percurso era patrulhado incessantemente e a elaboração do dispositivo veio a ser continuamente aprimorado, nomeadamente com a sua electrificação (5.000 volts!), a adição de dispositivos de detecção usando tecnologia de ponta (aparelhos de escuta e visores de infravermelhos) e ainda com a construção de uma outra linha paralela - baptizada Linha Challe - nos sectores mais visados pela FLN. Do ponto de vista técnico e táctico, a Linha Morice foi um sucesso. Como se vê perfeitamente no gráfico abaixo, o volume da actividade rebelde foi contido para níveis como nunca haviam acontecido desde 1956 e as «exacções» mensais da FLN nunca mais ultrapassaram o nível das 2.000 por mês. Só que, como se sabe, a solução daquele conflito era política e não militar. A FLN não tinha que ganhar a guerra, tinha só que não a perder.
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24 fevereiro 2015
HISTÓRIAS DA COLONIZAÇÃO DA ARGÉLIA
Apesar do que se pode ler nas capas, o livro da esquerda, que abrange quase toda da história da colonização da Argélia (só ficarão de fora os 8 anos finais da guerra – 1954-62 – que virão a conduzir à sua independência), tem pouco mais de 100 páginas (escritas numa letra pequena e cerrada, é certo), enquanto o livro da direita, pretendendo-se abranger um período bem mais limitado (1870-1939), é substancialmente mais desenvolvido: tem quase 750 páginas. Nenhum dos dois possui aquelas 250 a 350 páginas que eu consideraria ideais para ficar a conhecer o assunto em detalhe, sem que esse detalhe se tornasse aborrecido, mas, quando a curiosidade e o interesse em saber apertam, lê-se o que está disponível, não o que se pode ler numa tarde.
Mais do que uma colónia, a proximidade geográfica podia ter feito da Argélia uma adjacência de França: São 750 km entre Marselha e Argel, menos do que as distâncias de Lisboa ao Funchal (970 km) ou a Ponta Delgada (1.450 km), ou do que a distância de Sevilha a Las Palmas nas Canárias (1.350 km). Quanto à geografia humana, quando da realização do primeiro recenseamento na Argélia em 1856, contaram-se 2.310.000 argelinos (90.000 deles de origem francesa), enquanto a metrópole francesa registava nessa época 36.715.000 habitantes. A desproporção (de 1 argelino para 16 franceses) permitia, naqueles meados do Século XIX, antecipar hipóteses de sucesso na tarefa de criar um outro Algarve de Além-mar em África onde os monarcas ibéricos haviam fracassado no Século XVI.
Cem anos depois, à beira de se começar a desencadear a luta armada pela independência argelina, o fracasso em relação a esses projectos iniciais pareceria patente. Era verdade que a Argélia progredira economicamente imenso, mas não se transformara socialmente a ponto de se tornar uma adjacência de França, como (por exemplo) uma magna Córsega. Do seu lado, a França não evoluíra demograficamente nesses 100 anos como acontecera aos outros países europeus (a população metropolitana aumentara apenas 6 milhões nesse período), não tendo gerado os excedentes populacionais que, ali estabelecidos, teriam transformado a composição da população argelina. A comunidade de origem europeia (os pieds-noirs - onde se registava uma parcela substancial de outras ascendências que não a francesa) cifrava-se, ainda assim, em quase um milhão de pessoas, mas tratava-se de uma minoria diante dos oito milhões de argelinos de confissão muçulmana, e que nunca conseguiria preservar o poder político para si num regime que fosse legitimado pelo voto popular. E a França era uma democracia.
Mas o que é mais engraçado é ver na história da Argélia colonial uma data de características que os nostálgicos do nosso império colonial ainda argumentam que, houvessem ocorrido no caso português, nos teriam poupado a muitas vicissitudes. É quando eles se dedicam àquele exercício daquilo-que-poderia-ter-sido a história da relação de Portugal com as suas colónias, em que as críticas maiores costumam ir para o processo de descolonização e o regresso dos retornados. Tome-se o exemplo dos princípios de autonomia administrativa e financeira, que foram adoptados desde 1870 na Argélia e que esses nossos saudosistas usam para especular o quanto teria resultado noutra evolução das colónias portuguesas, mas que no caso concreto dos colonos europeus da Argélia, só serviu para que preservassem o poder para si, e não para os indígenas¹. Aliás, as poucas reformas que se verificaram em prol da maioria muçulmana foram sempre impostas pela metrópole e sempre aceites a contragosto (quando não boicotadas) pelas elites locais.
Uma outra ilusão é a da nossa colonização ter sido sempre carente de capitais e que, se os tivesse havido, a história da colonização portuguesa poderia ter sido bastante diferente. É possível mas isso, só por si, não influenciaria as consequências. A colonização francesa na Argélia nunca terá tido esse problema de falta de capitais mas, porque o desenvolvimento económico não foi acompanhado de medidas de redistribuição dos seus benefícios, só serviu para o acentuar das diferenças entre as duas comunidades, produzindo-se uma sociedade identicamente assimétrica, quiçá até mais acentuados os desníveis de bem-estar entre as comunidades. O desfecho da Guerra (1954-62), em que os argelinos que nela participaram do lado francês (200.000) foram o triplo dos que o fizeram do lado independentista da FLN (70.000) demonstrou também, com cerca de dez anos de antecedência em relação ao caso português, quanto era assimétrico o carácter dos esforços que seriam pedidos às duas partes no caso da eclosão de uma guerra subversiva. E recorde-se que, por essa altura (Verão de 1962), ainda não se haviam desencadeado as guerras pela independência de Moçambique e da Guiné. De uma certa forma, não se percebe a petulância do poder político português da época, convencido que, no seu caso, com menos recursos e com uma geografia menos favorável, conseguiria fazer melhor que a França, só por não ter de lidar com uma opinião pública.
A tudo isto, os nostálgicos de uma certa forma de narrar a nossa história fazem ouvidos de mercador, repisam lugares-comuns sobre a especificidade do colonialismo português - quantas vezes esquecendo-se de estudar as especificidades dos outros colonialismos.
¹ A esse respeito, recorde-se o que aconteceu em 1965 na Rodésia.
Mais do que uma colónia, a proximidade geográfica podia ter feito da Argélia uma adjacência de França: São 750 km entre Marselha e Argel, menos do que as distâncias de Lisboa ao Funchal (970 km) ou a Ponta Delgada (1.450 km), ou do que a distância de Sevilha a Las Palmas nas Canárias (1.350 km). Quanto à geografia humana, quando da realização do primeiro recenseamento na Argélia em 1856, contaram-se 2.310.000 argelinos (90.000 deles de origem francesa), enquanto a metrópole francesa registava nessa época 36.715.000 habitantes. A desproporção (de 1 argelino para 16 franceses) permitia, naqueles meados do Século XIX, antecipar hipóteses de sucesso na tarefa de criar um outro Algarve de Além-mar em África onde os monarcas ibéricos haviam fracassado no Século XVI.
Cem anos depois, à beira de se começar a desencadear a luta armada pela independência argelina, o fracasso em relação a esses projectos iniciais pareceria patente. Era verdade que a Argélia progredira economicamente imenso, mas não se transformara socialmente a ponto de se tornar uma adjacência de França, como (por exemplo) uma magna Córsega. Do seu lado, a França não evoluíra demograficamente nesses 100 anos como acontecera aos outros países europeus (a população metropolitana aumentara apenas 6 milhões nesse período), não tendo gerado os excedentes populacionais que, ali estabelecidos, teriam transformado a composição da população argelina. A comunidade de origem europeia (os pieds-noirs - onde se registava uma parcela substancial de outras ascendências que não a francesa) cifrava-se, ainda assim, em quase um milhão de pessoas, mas tratava-se de uma minoria diante dos oito milhões de argelinos de confissão muçulmana, e que nunca conseguiria preservar o poder político para si num regime que fosse legitimado pelo voto popular. E a França era uma democracia.
Mas o que é mais engraçado é ver na história da Argélia colonial uma data de características que os nostálgicos do nosso império colonial ainda argumentam que, houvessem ocorrido no caso português, nos teriam poupado a muitas vicissitudes. É quando eles se dedicam àquele exercício daquilo-que-poderia-ter-sido a história da relação de Portugal com as suas colónias, em que as críticas maiores costumam ir para o processo de descolonização e o regresso dos retornados. Tome-se o exemplo dos princípios de autonomia administrativa e financeira, que foram adoptados desde 1870 na Argélia e que esses nossos saudosistas usam para especular o quanto teria resultado noutra evolução das colónias portuguesas, mas que no caso concreto dos colonos europeus da Argélia, só serviu para que preservassem o poder para si, e não para os indígenas¹. Aliás, as poucas reformas que se verificaram em prol da maioria muçulmana foram sempre impostas pela metrópole e sempre aceites a contragosto (quando não boicotadas) pelas elites locais.
Uma outra ilusão é a da nossa colonização ter sido sempre carente de capitais e que, se os tivesse havido, a história da colonização portuguesa poderia ter sido bastante diferente. É possível mas isso, só por si, não influenciaria as consequências. A colonização francesa na Argélia nunca terá tido esse problema de falta de capitais mas, porque o desenvolvimento económico não foi acompanhado de medidas de redistribuição dos seus benefícios, só serviu para o acentuar das diferenças entre as duas comunidades, produzindo-se uma sociedade identicamente assimétrica, quiçá até mais acentuados os desníveis de bem-estar entre as comunidades. O desfecho da Guerra (1954-62), em que os argelinos que nela participaram do lado francês (200.000) foram o triplo dos que o fizeram do lado independentista da FLN (70.000) demonstrou também, com cerca de dez anos de antecedência em relação ao caso português, quanto era assimétrico o carácter dos esforços que seriam pedidos às duas partes no caso da eclosão de uma guerra subversiva. E recorde-se que, por essa altura (Verão de 1962), ainda não se haviam desencadeado as guerras pela independência de Moçambique e da Guiné. De uma certa forma, não se percebe a petulância do poder político português da época, convencido que, no seu caso, com menos recursos e com uma geografia menos favorável, conseguiria fazer melhor que a França, só por não ter de lidar com uma opinião pública.
A tudo isto, os nostálgicos de uma certa forma de narrar a nossa história fazem ouvidos de mercador, repisam lugares-comuns sobre a especificidade do colonialismo português - quantas vezes esquecendo-se de estudar as especificidades dos outros colonialismos.
¹ A esse respeito, recorde-se o que aconteceu em 1965 na Rodésia.
16 outubro 2013
MAPAS COLONIAIS
O mapa de cima mostra-nos qual a proporção da população de origem europeia em relação à população total por circunscrição na Argélia em 1954. O de baixo mostra-nos um cálculo semelhante, embora à escala provincial, para a população branca em Angola em 1960. As semelhanças das distribuições não surpreendem, a concentração no litoral e sobretudo onde existiam as maiores concentrações urbanas.
04 março 2009
A COBERTURA DO ACONTECIMENTO – 3
Tivesse a SIC nascido 40 anos antes e fossem outras as circunstâncias, e não me surpreenderia que a reportagem de um hipotético enviado especial da estação para cobrir a Guerra da Argélia se centrasse num episódio como aquele que é retratado pela fotografia acima. É muito mais impressionante e repugnante do que informativo: trata-se de dois muçulmanos que foram executados de forma intimidatória pela FLN em Maio de 1956. Os detalhes constam da própria legenda da fotografia. Mas não seria a reportagem um tremendo sucesso de audiências?...Sobre as complexidades da Guerra da Argélia propriamente ditas é que, evidentemente, não se ficaria a saber nada…
18 maio 2008
O “VENTRE MOLE” DA EUROPA – 2
A invasão da Sicília desencadeou uma manobra palaciana que acabou por conduzir à deposição do Duce, Benito Mussolini (25 de Julho de 1943). E o novo governo italiano, que era encabeçado pelo Marechal Badoglio procurou discretamente encetar contactos com os Aliados por forma a que fosse assinado um Armistício com eles. Tratava-se de uma oportunidade preciosa para os Aliados: se essa manobra fosse desencadeada de surpresa e bem coordenada do ponto de vista político e militar as Forças Aliadas poderiam progredir rapidamente em direcção a Norte através de toda a Península italiana, neutralizando os destacamentos militares alemães presentes em Itália. O pior era a desconfiança germânica…Contudo, em Berlim parecia não haver ilusões quanto às intenções italianas. Adolf Hitler foi estenografado clamando, vingativo: É preciso trazer-me toda a camarilha, com o príncipe herdeiro à frente… O comportamento italiano foi, no que concerne às relações ítalo-alemãs, de uma duplicidade irrepreensível. Mas a triplicidade germânica foi ainda superior. Em antecipação ao anúncio público do Armistício (8 de Setembro de 1943) que fora previsto para coincidir com o desembarque das Forças Aliadas no Golfo de Salerno (abaixo), os alemães desencadearam a sua Operação Alarico, neutralizando e aprisionando os soldados de todas as unidades das Forças Armadas italianas.
Para os Aliados perdera-se totalmente o efeito de surpresa – chegara a equacionar-se a hipótese de, com a conivência dos italianos, uma das suas divisões de pára-quedistas saltasse sobre Roma! – e a progressão dos dois Exércitos Aliados (o V norte-americano, a ocidente e o VIII britânico, a oriente) em direcção ao Norte passou a fazer-se numa frente de combate estreita (200 km), acidentada e quase sem vias de comunicação. Era uma situação onde as condições dificultavam a aplicação da superioridade material dos Aliados e, pelo contrário, facilitavam a tarefa aos defensores que quase podiam impor o ritmo de progressão do adversário: apenas a 1 de Outubro a cidade de Nápoles foi conquistada.Na Frente italiana entrara-se numa espécie de impasse táctico de posições fixas, muito à semelhança do que acontecera na Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial. Perdera-se assim todo o interesse estratégico. Em finais de Dezembro de 1943, tanto Eisenhower como Montgomery abandonaram os seus comandos e regressaram ao Reino Unido em preparação ao desembarque da Normandia que estava programado para daí a poucos meses. O mesmo acontece às melhores unidades britânicas e norte-americanas (como as divisões de pára-quedistas), que vieram a ser substituídas por divisões de outras nacionalidades – francesas (de origem norte-africana, abaixo), polacas, indianas, neo-zelandesas, etc.
Enquanto a Itália demorara pouco mais de um mês a passar de aliada da Alemanha para sua inimiga (de 7 de Setembro a 13 de Outubro), do outro lado dessa frente que dividia a Itália em duas, depois da libertação de Mussolini do seu cativeiro em 12 de Setembro de 1943, criara-se uma ficção de ressurgimento de um novo Pacto Germano-italiano, através do aparecimento de uma República Social Italiana, herdeira aparente das tradições do fascismo, mas que não passava de um protectorado germânico. Nem países simpatizantes da causa, como era o caso da Espanha franquista, mesmo quando solicitada directamente pela Alemanha, se dispuseram a reconhecer diplomaticamente o novo regime…Ainda houve uma tentativa de contornar as posições defensivas alemãs lançando mais um desembarque anfíbio em Anzio, nos arredores de Roma, em Janeiro de 1944 mas a Operação Shingle veio a revelar-se um fracasso. O ritmo de progressão das Forças Aliadas passou a ser marcado pelo grau de exaustão das Forças alemãs que lhes faziam frente; quando esse limite era atingido estas últimas recuavam para uma nova linha defensiva ligeiramente mais a Norte, que fora cuidadosamente seleccionada e cujas posições haviam sido preparadas de antemão. Em 4 de Junho de 1944 os Aliados atingiram Roma (abaixo), mas o feito foi completamente obscurecido pelo Desembarque na Normandia dois dias depois.
O desembarque aliado nas costas mediterrânicas da França em 15 de Agosto de 1944 (Operação Dragoon) desguarneceu ainda mais (desta vez em divisões francesas) a Frente italiana. Outras unidades vieram substituí-las incluindo uma divisão brasileira* e a única divisão norte-americana (92ª) composta por afro-americanos** presente na Europa. O conjunto de nacionalidades das unidades combatentes em Itália pelos Aliados é capaz de ter constituído o recorde daquele conflito: houve norte-americanos, britânicos, canadianos, neo-zelandeses, sul-africanos, polacos, franceses, argelinos, marroquinos e brasileiros, além dos italianos que combateram pelos aliados, evidentemente.Quanto à questão por onde começámos, a da disputa estratégica entre britânicos e norte-americanos sobre o estabelecimento das prioridades sobre quais deveriam ser os objectivos militares da reconquista da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, mau grado os dotes de persuasão de Alan Brooke e dos britânicos, provou-se que Marshall e os norte-americanos, não tendo razão na forma***, acabavam por a ter no fundo. Apesar dos precedentes históricos, como o caso das Guerras Napoleónicas onde os britânicos se empenharam também em teatros periféricos como a Península Ibérica, do ponto de vista estratégico a decisão da Segunda Guerra Mundial jamais teria sido decidida na Península Itálica...
* O emblema identificativo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que se vê acima é uma alusão directa a um discurso neutralista de Getúlio Vargas (o Presidente brasileiro), proferido logo no início da Guerra, em que afirmou que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. Depois dos Estados Unidos entrarem em Guerra, o Brasil veio a alinhar as suas posições com eles, e apareceu esta cobra fumadora...** A segregação oficial nas Forças Armadas norte-americanas só terminou em 1948.
*** Aprendeu-se imenso com as várias operações anfíbias da Sicília e da Itália e esses conhecimentos foram muito úteis na Normandia.
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