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22 maio 2014

UMA SÍNTESE DOS PRIMÓRDIOS DA HISTÓRIA DO PARAGUAI

A história do Paraguai independente terá começado em 15 de Maio de 1811 quando uma junta governativa de Asunción derrubou a administração colonial espanhola. Numa segunda fase, os membros dessa mesma junta entraram em conflito com a sua homóloga de Buenos Aires, que fora a sede do antigo Vice-Reino do Rio de La Plata, vice-reino que incluíra também o Paraguai, e que agora se tornara na capital da nova República Argentina. Foi só em 1814 que o estatuto como país independente do Paraguai se consolidou, depois de várias operações militares para o tentar subalternizar a Buenos Aires e da manutenção de uma persistente campanha diplomática em que a nova Argentina se recusava a reconhecer a independência paraguaia. País interior, com as vias naturais de contacto com o exterior totalmente dependentes de terceiros países que se mostravam assim hostis à sua existência (como se pode apreciar abaixo pelo mapa da bacia hidrográfica do rio da Prata), as circunstâncias levaram o novo país a forjar uma mentalidade de um isolacionismo defensivo, senão mesmo hostil ao exterior. E é neste ambiente peculiar que desponta uma daquelas interessantíssimas (mas ignoradas) figuras da história mundial, o Doutor José Gaspar Rodríguez de Francia (1766-1840).
O Paraguai colonial nunca despertara particularmente a atenção da emigração espanhola que partia para o Novo Mundo. Mas, como em todo o resto do continente, possuir-se uma ascendência europeia era um activo social cobiçado e a grande maioria dos espanhóis que ali assentavam acabavam casando com filhas de famílias bem instaladas da sociedade local, muitas delas de pura ascendência guarani. Mas os europeus puros em idade casadoira eram escassos e, quando em meados do Século XVIII um qualificado técnico de preparação de tabaco vindo do Rio de Janeiro mas de irrepreensível origem portuguesa chamado Garcia Rodrigues de França se instalou em Asunción, aconteceu-lhe precisamente isso. Do consórcio com uma filha de um ambicioso casal local, nasceu o prometedor José Gaspar que, destinado a uma carreira eclesiástica, afinal nunca chegou a tomar os votos mas que, mesmo assim, se doutorou em Teologia pela Universidade de Córdoba (Argentina) aos 19 anos, conferindo-lhe um grau académico que não mais abandonou como forma de apresentação no futuro. Aliás, durante décadas, ele foi um dos dois únicos paraguaios a possuí-lo. Há algo de estranhamente napoleónico na sua ascensão política. Como o corso, que era francês de primeira geração, também este paraguaio ambicioso e inteligente mas filho de pai estrangeiro, começou em 1813 por ser um dos Cônsules (à moda romana), alternando quadrimestralmente o poder com o seu colega, passou a ser Cônsul único em 1814, depois dotado de poderes ditatoriais por um período de três anos, para em 1816 se tornar Ditador Perpétuo da República, título que manteve até ao fim da vida. Todas estas etapas foram, como acontecera em Paris, legitimadas por assembleias expressamente reunidas para o efeito. Porém, Francia nunca se coroou.
Por muito esclarecida e impregnada do espírito das luzes que fosse a actuação política do Doutor Francia, e este foi, indiscutivelmente e apesar de todo o despotismo, um discípulo das ideias de Rousseau e das práticas de Robespierre e Napoleão, a sociedade paraguaia dos princípios do Século XIX nada tinha a ver com a francesa ou mesmo com a da metrópole espanhola. A sua relativa inacessibilidade geográfica fizera perpetuar-se relações de trabalho que já haviam sido abolidas noutras regiões da América Latina. Aliás, aquilo que os espanhóis vieram a baptizar por encomienda, uma relação de trabalho dependente a roçar a escravatura, no caso da sociedade guarani, tecnologicamente mais avançada do que a dos índios recolectores que a cercavam, ela já existia antes da chegada dos espanhóis ao Paraguai no Século XVI. A perspectiva de Francia era que, perante uma sociedade praticamente desmonetarizada como a paraguaia o liberalismo preconizado pelos novos tempos teria um efeito arrasador. E os promotores da adopção desse liberalismo, e por consequência os seus opositores políticos, seriam a elite ilustrada de ascendência caucasiana donde o próprio Doutor Francia era originário. A forma como uma conspiração oriunda dessa elite (conhecida por crioulos) que teve lugar em 1820 foi reprimida está cheia de pormenores macabros. Também a história do comportamento social de Francia, escrita necessariamente por essa mesma classe, está repleta de pormenores assustadoramente bizarros. Mas, por outro lado, depois dessa conspiração, o seu poder ter-se-á tornado indisputado até à sua morte, que só veio a ocorrer 20 anos depois.

A popularidade (a haver alguma…) de Francia residiria num outro extracto social. O Paraguai que ele queria criar terá sido um dos primeiros esboços de um estado benevolamente totalitário para os mais humildes, uma reminiscência inspirada pelos espíritos das luzes das sete missões fundadas pelos jesuítas ao longo dos Séculos XVII e XVIII que adquiriram fama hollywoodesca (com os bons, os maus, mas nenhuns assim-assim) através do filme A Missão (acima). Como a maioria da terra agrícola no Paraguai pertencera à Coroa ou à Igreja ou ainda a latifúndios de vários crioulos que entretanto haviam sido despojados dela, o objectivo da sociedade de Francia era propiciar o pleno emprego na agricultura, produzindo-se para exportação açúcar, chimarrão, madeira, tabaco e couro, mas com uma preocupação principal de que a produção agro-pecuária assegurasse a auto-suficiência do país. Havia um esforço de planificação, a possibilidade de os agricultores independentes poderem importar bens de consumo, por exemplo, dependia da sua capacidade em atingir as quotas de produção que lhes haviam sido definidas. Para que isso fosse eficaz, também o comércio externo era totalmente controlado, uma prática que, vale a pena recordar, era apenas a continuação da que existira durante os tempos coloniais. No seu computo global, o Paraguai do Doutor Francia era uma ditadura feroz cujo republicanismo de pretensas raízes democráticas se devia apenas, como referi acima, ao facto de José Gaspar Rodríguez de Francia não ter querido copiar Napoleão até ao fim, até à coroa imperial, e de não ter querido deixar sucessor. Adequando as suas necessidades àquilo que podia produzir, nos meados do Século XIX o Paraguai atingira praticamente o nível da autarcia e uma independência estratégica invejável. Só com essa independência se pode perceber como o Paraguai se pôde engajar numa guerra durante seis anos (1864-70) contra uma coligação composta por três inimigos aparentemente tão mais poderosos: Argentina, Brasil e Uruguai - mas isso já será uma outra história…
José Gaspar Rodríguez de Francia, este luso-descendente de que quase nós todos, portugueses e brasileiros ,desconheceremos a existência, é um daqueles raros engenheiros sociais dos tempos modernos (como o foi também, por exemplo, o norte-coreano Kim Il Sung) que tiveram a oportunidade de construir uma sociedade de acordo com as suas convicções em países de pequena/média dimensão e com o privilégio acrescido de terem morrido descalços. Não se entenda desta síntese que aqui faço uma defesa do autoritarismo visionário com laivos de republicanismo: recorde-se um caso como o de Pol Pot e do Camboja, que nos chama a atenção de que deixar tudo dependente da personalidade de um ditador pode resultar num terrível genocídio. Do ponto de vista estritamente histórico, contudo, há que reconhecer que, em termos de estabilidade e de progresso material, a história dos primórdios desta ditadura personalizada do Paraguai se compara com vantagem com as ditaduras oligárquicas do mesmo período da maioria dos países sul-americanos de colonização espanhola.

27 novembro 2012

O CHACO, 80 ANOS DEPOIS

Se se confirmar o anúncio feito pelo Presidente da descoberta de jazidas de petróleo no Paraguai, tratar-se-á de boas notícias para aquele país. As cautelas quanto à aceitação do optimismo de ontem de Federico Franco, pelo sucesso das pesquisas efectuadas na região fronteiriça de Pirity na província de Boqueron (vejam-se os mapas acima e abaixo), em como haveria já exportações no próximo ano, justificam-se tomando em consideração o momento político e económico que se vive no Paraguai, numa situação institucionalmente aceite no interior mas rejeitada no exterior e como única economia sul-americana em crise. Mas pode haver outra explicação para o facto de ser o próprio Presidente da República a anunciar algo que normalmente surge nas notícias mais discretamente: 80 anos depois de ter sido travada a Guerra do Chaco (1932-35) contra a Bolívia pela posse dessa região semi-desértica do Chaco onde se situa Boqueron e que então se julgava riquíssima em petróleo, os cem mil mortos então sofridos pelo Paraguai parecem finalmente justificados.      

07 agosto 2011

GUERRAS ESQUECIDAS (7) – A GUERRA DO CHACO

A recente transmissão dos jogos das selecções da Copa América (que culminaram numa final pouco comum entre as equipas do Uruguai e do Paraguai – acima) despertou-me a atenção para o quanto – com excepção dos casos do Brasil com a Argentina e desta última com o Chile – nos são desconhecidas as rivalidades tradicionais entre os países sul-americanos. Ora uma das expressões mais sangrentas dessas rivalidades foi a Guerra do Chaco, que se travou entre 1932 e 1935 e onde se confrontaram a Bolívia e o Paraguai.
O Chaco que deu o nome à Guerra é uma grande região natural do interior da América do Sul com cerca de 650.000 km² de extensão, quase totalmente desabitada porque inóspita. A inospitabilidade acentua-se mais na zona que era disputada pela Bolívia e pelo Paraguai, o denominado Chaco Boreal, que ocupa metade daquela área – acima, vê-se um mapa de um frustrado projecto de partilha da região de 1879; abaixo aspectos da flora típica do local (notem-se os cactos…) durante uma patrulha de militares bolivianos.
A falta de água foi um factor importante a interferir no decorrer das operações. Outro factor ainda mais importante para a forma como essas operações decorreram foi o da pobreza dos dois países beligerantes que se reflectiu na pobreza de meios técnicos dos dois exércitos engajados. É verdade que nessa época de mobilizações gerais, tanto a Bolívia (com cerca de 2.150.000 habitantes) quanto o Paraguai (com uns 900.000) terão mobilizado mais de 10% da sua população – 250 mil e 120 mil homens – para os seus exércitos.
Porém, outra coisa distinta era equipar esses milhares de mobilizados… Se observarmos com atenção as fotografias da época, nota-se na fotografia acima – no caso, até em contraste com as botas de montar a brilhar do general Kundt ao centro – as sandálias calçadas por alguns dos soldados bolivianos. E há que dizer que as sandálias podiam até ser um privilégio, pois o soldado paraguaio que nos aparece devidamente equipado abaixo está descalço, justificando o epíteto pejorativo de Pila (pé descalço) dado pelos seus inimigos.
Tratou-se essencialmente de uma guerra da infantaria condicionada pelos problemas logísticos da água, enquanto o emprego de outros meios de combate mais sofisticados como fossem os casos da artilharia, aviação ou blindados se revestiram muitas vezes de facetas caricatas: a ofensiva inicial boliviana envolveu a participação de… cinco blindados – de dois tipos diferentes! As duas Forças Aéreas mostravam-se igualmente heterogéneas, raramente havia mais do que um punhado de aviões do mesmo tipo e origem.
Apenas no ramo naval é que existia uma superioridade nítida de um dos beligerantes: a flotilha fluvial paraguaia (acima) navegando o extenso Rio que dá o nome ao país. Não só por causa dela, mas também por causa dela, o Paraguai veio a vencer o conflito que causou cerca de 100 mil mortos, substancialmente muitos mais por doença do que em combate. E até as celebrações da Vitória que tiveram a ter lugar em Assunção, capital do Paraguai (abaixo), parecem ter-se adequado em contenção e modéstia a esta Guerra entre países pobres…

16 setembro 2008

A OUTRA AMÉRICA

A América do Sul não goza do destaque mediático da sua irmã setentrional. Apesar de ali termos tido a nossa maior e mais importante colónia e do Brasil se afirmar cada vez mais como a potência hegemónica do continente, a nossa ignorância sobre o que ali se passa e sobre o que ali se passou costuma ser muito grande. E nem nos deve servir de consolação o facto de, compartilhando a mesma língua, essa ignorância sobre os problemas brasileiros e sul-americanos ser muitas vezes recíproca, quanto ao que no Brasil se atenta aos problemas portugueses e europeus.
O mapa abaixo é um desses pormenores desconhecidos do passado, e mostra-nos como o continente foi atravessado ao longo do Século XIX por inúmeras disputas fronteiriças entre os países que se haviam tornado independentes de Espanha e de Portugal durante o primeiro quartel do século. Como o Brasil tem fronteiras com quase todos os países sul-americanos (salvo com o Chile e com o Equador) quase só por excepção é que o Brasil não esteve envolvido nas rectificações fronteiriças (algumas delas violentas) que ali vieram a ter lugar.
O Brasil esteve também envolvido no último e, até agora, único episódio de uma secessão bem sucedida que veio a ter lugar no continente sul-americano: a do Uruguai, em 1828, que se tornou independente da tutela brasileira. Aliás, todas as questões envolvendo o Uruguai e também o Paraguai (onde se travou uma guerra entre 1864 e 1870) tiveram e mantêm a importância estratégica de se localizarem na região tampão que separa os dois países que têm pretensões hegemónicas sobre o continente: a Argentina e o Brasil
Mas a maioria dos conflitos que estão mais acima assinalados é-nos desconhecida, assim como nos é também desconhecida a única guerra convencional de alguma envergadura que se travou no continente durante o Século XX e que ficou conhecida pela Guerra do Chaco (acima), que opôs o Paraguai e a Bolívia entre 1932 e 1935, a pretexto de uma enorme região árida e despovoada designada pelo nome de Chaco Boreal. Foi uma guerra peculiar, opondo interesses comerciais antagónicos, mais do que os países participantes.
Do lado boliviano estava a Standard Oil norte-americana e do paraguaio a Royal Dutch-Shell anglo-holandesa e no meio as suspeitas que sob o Chaco estariam alguns dos campos petrolíferos mais ricos descobertos até então. Não fosse a memória dos 100.000 mortos causados pelo conflito (a maioria por doença) e a síntese da sua história poderia ser perfeitamente dada pela descrição que dela faz Hergé no livro de BD de Tintin, A Orelha Quebrada (acima), onde nos faz a apresentação do típico oficial sul-americano, o General Alcazar (abaixo)
Para a História, e apesar dos muitos erros militares acumulados pelos dois antagonistas, a vitória veio a pertencer ao Paraguai que veio a receber quase todo o território do Chaco que estava em disputa. Foi a terceira derrota consecutiva da Bolívia nestes conflitos fronteiriços. Ela já havia perdido a saída para o mar para o Chile e também os seringais de borracha do território do Acre para o Brasil. Contudo, desta vez, a Shell acabou por ficar desapontadíssima com o que ganhara porque o Chaco afinal não se veio a revelar aquele mar de petróleo que se imaginava.
Paradoxalmente, os grandes depósitos de hidrocarbonetos que o território boliviano escondia afinal eram de gás natural e situavam-se um pouco mais a Norte da área disputada, na província de Santa Cruz, precisamente aquela que hoje lidera o processo autonomista/separatista que tem dividido a Bolívia. E, mais uma vez, embora a voz dominante seja a do costumeiro presidente venezuelano, Hugo Chavez, o tal que não se cala, adivinham-se, mais do que se vêm, os omnipresentes interesses brasileiros no acompanhamento da crise.